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Partes do corpo humano e ascensão do possuidor

4. Incorporação semântica e incorporação nominal de partes do corpo

4.2. Partes do corpo humano e ascensão do possuidor

Como vimos nas seções iniciais deste texto, em algumas línguas, o Tipo II de IN geralmente ocorre junto a outro processo conhecido na literatura como “ascensão do possuidor” (AP) (VELÁZQUEZ-CASTILLO, 1995:685-702; MURO, 2009:87). Contudo, há línguas que só permitem a IN de termos que designam determinadas partes do corpo humano. Um exemplo citado na literatura é o do Guarani Paraguaio. Velázquez-Castillo (1995:687-702) observa que, nesta língua, a IN e a AP não ocorrem com qualquer parte do corpo humano: há determinadas partes do corpo humano que são incorporáveis e há outras que nunca o são, mesmo quando se satisfazem outros pré-requisitos da língua para que haja IN.

Nesse artigo, a pesquisadora mostra que há uma tendência de os NIs nessas estruturas serem termos que coincidem com os termos de nível básico das categorias partonômicas para o corpo humano propostas por Andersen (1978), segundo o qual há uma tendência universal nas línguas naturais para designar determinadas partes do corpo humano com formas básicas, que não são morfologicamente derivadas de outras palavras. Essas partes do corpo mais proeminentes seriam do nível básico das categorias partonômicas.

O conceito de categorias partonômicas se refere ao fato de que as partes do corpo humano podem ser categorizadas como uma relação de “parte de”. Por exemplo, o dedo da mão é considerado em português como uma parte da mão, mas não do braço. Não imaginamos o dedo como uma parte do braço, mas sim da mão. As relações partonômicas podem ser diferentes de língua para língua, mas Andersen (1978) observou que há um padrão universal em designar determinadas partes do corpo que seriam mais proeminentes e que seriam também as primeiras partes do corpo a ser adquiridas na aquisição da linguagem pelas crianças.

Abaixo, temos um exemplo de IN + AP em Guarani Paraguaio. O exemplo foi retirado da obra de Velázquez-Castillo (1995:687). No exemplo (27), o nome hova ‘rosto/face’ é incorporado ao verbo hei ‘lavar’, enquanto o possuidor do rosto, pe-mitã ‘aquela criança’, passa a ser o objeto direto do verbo. A segunda sentença do exemplo abaixo é a versão sem o processo de IN.

(27)30 a. a-hova-hei-ta pe-mitã

‘1AC-face-wash-FUT that-child’

‘I’ll wash that child’s face’ lit. ‘I’ll face-wash the child’

b. a-johei-ta pe-mitã rova

1AC-wash-FUT that-child face

‘I’ll wash that child’s face’

Há exemplos de IN + AP que envolvem partes de plantas em vez de partes do corpo humano. Por exemplo, em Munduruku, encontramos o exemplo abaixo, retirado de Gomes (2008:36). Em (28), o núcleo do sintagma nominal, tup- ‘folha’, foi incorporado ao verbo 'at ‘cair’, enquanto o adjunto do sintagma, ako ‘bananeira’, ascende à posição de sujeito, que era a posição ocupada pelo núcleo.

(28) ako o'=tup-'at

bananeira 3S=R2.folha-cair.PRF

‘A folha da baneira caiu’

O processo de AP não envolve necessariamente IN em outras línguas, a ocorrência de nenhum desses dois processos é condição necessária para a acorrência do outro. Por exemplo, em Português, quando se diz “Maria beijou João na bochecha”, ocorre uma ascenção do possuidor, já que o possuidor da bochecha ascendeu à posição de objeto direto do verbo, enquanto o núcleo do sintagma “a bochecha de João” passou a desempenhar o papel de argumento oblíquo na sentença.

Segundo Velázquez-Castillo (1995:686), embora as abordagens teóricas do processo de AP tenham focado em seus aspectos estruturais, outros estudos sugerem que considerações semânticas devam ser levadas em conta, visto que a AP é invariavelmente acompanhada de restrições semânticas. Segundo a autora, os estudos de Croft (1985) e Tuggy (1980) propõem abordagens semânticas para a AP. De acordo com Croft (1985:46-47, apud Velázquez-Castillo: 1995:686-687), o principal fato que permite a AP é que algo é diretamente afetado por uma ação pelo fato de ser o possuidor da entidade que a ação afeta.

Velázquez-Castillo (1995:686-687) também cita Wierzbicka (1988), que também tem uma abordagem semântica segundo a qual a AP é um mecanismo de escolha para expressar uma conceitualização de partes do corpo como integralmente conectadas a seus possuidores e que esta construção gramatical só é permitida com um número limitado de nomes, entre os quais os termos de

30 Tradução: a. a-hova-hei-ta pe-mitã

‘1AC-rosto-lavar- FUT aquela-criança’ ‘Eu lavarei o rosto daquela criança’

lit. ‘Eu rosto-lavarei a criança’

b. a-johei-ta pe-mitã rova

1AC-lavar-FUT aquela-criança rosto ‘Eu lavarei o rosto daquela criança’

parte do corpo são os mais proeminentes.

Para Velázquez-Castillo (1995), há evidências de que em Guarani Paraguaio é o possuidor, e não a parte do corpo incorporada ao verbo, o verdadeiro objeto do verbo. A primeira evidência é que, quando o possuidor é um nome lexical, como em (29), o possuidor ocupa a posição do objeto direto.

(29)31 a. a-hova-hei-ta pe-mitã

‘1AC-face-wash-FUT that-child’

‘I’ll wash that child’s face’ lit. ‘I’ll face-wash the child’

b. a-johei-ta pe-mitã rova

1AC-wash-FUT that-child face

‘I’ll wash that child’s face’

A segunda evidência para o possuidor ser o verdadeiro objeto é que, quando o sujeito é um pronome de primeira pessoa e o objeto é um pronome de segunda pessoa, um prefixo portmanteau

ro-, que indexa sujeito de primeira pessoa e objeto de segunda pessoa, é prefixado ao complexo verbal,

como podemos observar em (30).

(30)32 a. (che) ro-hova-hei

I 1S/2O-face-wash ‘I washed your face’ lit. ‘I face-wash you’

b. (che) a-johei nde-rova

I 1AC-wash 2IN-face ‘I washed your face’

A terceira evidência é que a passiva torna o possuidor, e não a parte do corpo, o sujeito da sentença passiva, como indicado pelo marcador de concordância a-, marcador de sujeito de primeira pessoa, como podemos observar em (31).

31 Tradução: a. a-hova-hei-ta pe-mitã

‘1AC-rosto-lavar- FUT aquela-criança’ ‘Eu lavarei o rosto daquela criança’

lit. ‘Eu rosto-lavarei a criança’

b. a-johei-ta pe-mitã rova

1AC-lavar-FUT aquela-criança rosto ‘Eu lavarei o rosto daquela criança’

32 Tradução: a. (che) ro-hova-hei

Eu 1S/2O-rosto-lavar ‘Eu lavo seu rosto’ lit. ‘Eu rosto-lavo você’

b. (che) a-johei nde-rova

Eu 1AC-lavar 2IN-rosto ‘Eu lavei seu rosto’

(31)33 (che) a-je-hova-pete ange pyhare jeroky-ha-pe

I 1AC-PASS-face-slap last night dance-NOM-in

‘I was slapped in the face last night at the dance’

A quarta evidência é que se o possuidor é o mesmo que o sujeito, um prefixo reflexivo é colocado no complexo verbal, como podemos observar em (32) com o prefixo verbal -j, marcador de reflexivo na língua.

(32)34 a. a-j-ova-hei

1AC-RFL-face-wash ‘I wash my face’

lit. ‘I face-wash myself’

b. a-johei che-rova

1AC-wash 1IN-face

‘I wash my face’

Velázquez-Castillo (1995:689) afirma que, além desses testes citados nos parágrafos anteriores, o possuidor satisfaz a caracterização semântica de objeto. Para a autora, as propriedades semânticas de um objeto prototípico são as seguintes: 1) alto grau de individualização; 2) completa afetação pela ação designada; 3) alto grau de saliência. Estas propriedades semânticas colocam os objetos em um espectro contínuo em que, quanto mais forte essas propriedades estiverem presentes, mais prototípico é o objeto. Geralmente, conclui a autora, partes do corpo ranqueam muito baixo em cada um desses parâmetros semânticos, em comparação ao possuidor da parte do corpo humano. As partes do corpo carecem de individualização, já que elas são conceitualmente relacionadas ao seu possuidor, as partes não são totalmente distintas de seu possuidor. Além disso, por essa falta de individualização, as partes do corpo também ranqueam baixo no parâmetro de afetação pela ação, pois caso uma ação seja direcionada para uma parte do corpo, a ação afetará a parte, mas igualmente afetará o todo, ou seja, o possuidor, pois há uma relação clara de contiguidade entre os dois. Ademais, visto que os possuidores das partes (especialmente, se humanos) ranqueam mais alto em termos de empatia, os possuidores tendem a naturalmente ser mais importantes para os falantes que suas partes.

33 Tradução: (che) a-je-hova-pete ange pyhare jeroky-ha-pe

Eu 1AC-PAS-rosto-bater última noite dança-NOM-em

‘Eu fui esbofeteado na face noite passada na dança’

34 Tradução a. a-j-ova-hei

1AC-RFL-rosto-lavar ‘Eu lavo meu rosto’

lit. ‘Eu rosto-lavo eu mesmo’ b. a-johei che-rova

1AC-lavar 1IN-rosto ‘Eu lavo meu rosto’

A autora conclui que, por esses motivos, uma ação direcionada para uma parte do corpo tende a ser retratada como afetando a pessoa, e não a parte.

Se assumirmos a definição semântica de objeto como um elemento que tem alto grau de individualização, completa afetação pela ação designada e alto grau de saliência, concluímos que não há nenhum desencontro entre a “superfície” e “relações abstratas”, já que o possuidor se comporta como um objeto nas sentenças com IN porque o possuidor é de fato o objeto, a entidade relevante e individualizada que é afetada pela ação.

Termos que designam partes do corpo e que são usados como NIs tendem a exibir pouco comportamento nominal, no sentido de que eles não aceitam modificadores nem flexão. Segundo Velázquez-Castillo (1995:694-695), Hopper e Thompson (1984) e Fox (1981) mostram que a classe de termos de parte do corpo mostra baixa categorialidade. Este comportamento torna esses termos candidatos fracos para a função de objeto. Velázquez-Castillo propõe que os NIs de uma forma geral poderiam ser considerados satélites do verbo, em que satélite é definido como um elemento interno do complexo verbal que forma uma unidade semântica e formal com a raiz verbal.

Em Guarani Paraguaio, a unidade formal entre o NI, que é um satélite, e o verbo pode ser observada no exemplo abaixo. Em (33), observa-se que o circunfixo de negação nd- ... -i não é colocado antes e depois da raiz verbal pete ‘bater’, mas sim antes e depois de todo o complexo verbal, que inclui também o nome po ‘mão’ (quando incorporado, torna-se -o-.

(33)35 (che) nd-ai-o-pete-i la-mitã

I NEG-1AC-hand-slap-NEG the-child

‘I didn’t slap the child on the hand’