TÍTULO: RELAÇÃO ENTRE DISTÚRBIO DO SONO E MEDIDAS ANTROPOMÉTRICAS TÍTULO:
CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE ÁREA:
SUBÁREA: Nutrição SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO(ÕES): UNIVERSIDADE DE MARÍLIA - UNIMAR INSTITUIÇÃO(ÕES):
AUTOR(ES): LAURA BERGO CANTARIM, FRANCINE CRUZ DE CAMARGO, JÉSSICA CAMBUI ANDREASI
AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): CLÁUDIA RUCCO PENTEADO DETREGIACHI, KARINA QUESADA ORIENTADOR(ES):
1 RESUMO
Medidas antropométricas caracterizadas por excesso de peso (sobrepeso ou obesidade), incluindo índice de massa corporal e circunferências da cintura e do pescoço, são consideradas fortes preditoras de distúrbios do sono. Assim, o objetivo dessa pesquisa foi avaliar a relação entre dados antropométricos e distúrbio do sono em indivíduos adultos e idosos. A pesquisa foi realizada com pacientes atendidos na Unidade de Cirurgia Cardíaca e Hemodinâmica Ltda. (U.C.C.H) de uma cidade do interior do centro-oeste paulista. Além dos dados pessoais de identificação foram coletadas as medidas antropométricas de peso, estatura, circunferências da cintura (CC) e do pescoço (CP) e calculado o índice de massa corpórea (IMC). A ocorrência de distúrbio do sono foi avaliada sob o aspecto do risco de ocorrência de apneia obstrutiva do sono (AOS) por meio do questionário denominado STOP-Bang. O estudo teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Marília – Unimar. Participaram do estudo 197 pacientes adultos e idosos, sendo 47% do sexo masculino. A média de idade dos participantes foi de 59,52±13,41 anos. Com relação ao risco de AOS, 50% dos participantes apresentaram rico intermediário, enquanto que 22% e 28% foram classificados como risco baixo e alto, respectivamente, sendo tal risco relacionado significativamente com as medidas antropométricas analisadas, sendo quanto mais elevadas estas maior é o risco. O Intervalo de Confiança da Média (95%) indicou que valores de IMC, CC e CP superiores a 26,3 kg/m2, 90,4 cm e 26,3 cm, respectivamente, acarretam risco de AOS. Em conclusão, em vista dos resultados encontrados, mais pesquisas são necessárias para melhorar a compreensão dos determinantes dos distúrbios do sono, a fim de propiciar a prevenção ou ainda melhorar o diagnóstico e o tratamento dessas condições.
Palavras-chave: Antropometria. Apnéia do sono. STOP-bang.
INTRODUÇÃO
As sociedades modernas têm alcançado mais benefícios e conforto para o dia-a-dia, entretanto essas vantagens levaram a profundas modificações no modo de vida. A consequência foi uma rápida transição entre a busca pelo alimento (e consequente gasto de energia) pela aquisição de produtos industrializados que geralmente contêm altos teores de açúcar e gordura. Aliado a isso, houve também redução na prática de atividade física com consequente aumento de sobrepeso e obesidade no mundo todo (BARBALHO et al., 2015; SADEGUI et al., 2016; BEMMOHAMMED et al., 2016).
Essas mudanças de estilo de vida têm um impacto sobre a incidência de desordens metabólicas, tais como o desenvolvimento de diabetes tipo 2, dislipidemias, hipertensão arterial sistêmica (HAS) e síndrome metabólica (SM) que agravam o risco de desenvolver doenças cardiovasculares (DCV), que são as doenças crônico-degenerativas mais comuns relacionados a mortalidade (SALTIEL et al., 2017; CALABUIG et al., 2016; ZAHID et al., 2016; FURUHASHI et al., 2015)
2 Medidas antropométricas caracterizadas por excesso de peso (sobrepeso ou obesidade), incluindo índice de massa corporal e circunferências da cintura e do pescoço, são também consideradas fortes preditoras de distúrbios do sono (CARTER; WATENPAUGH, 2008). O sono é uma das funções naturais do ser vivo controlado pelo relógio biológico. A ocorrência de distúrbios no sono desempenha papel significativo na etiologia das doenças associadas com a síndrome metabólico, como a obesidade, diabetes e hipertensão (SPIEGEL et al., 2004). Ademais, estudos têm demonstrado que a má qualidade do sono, especialmente em combinação com maior adiposidade visceral, está fortemente atrelada ao desenvolvimento de um estado de inflamação crônica de baixa intensidade que leva à liberação de citocinas e quimiocinas, incluindo a interleucina-1 beta (IL-1β), o factor de necrose tumoral alfa (TNF-α) e IL-6, além da PCR-us e cortisol, fatores que colaboram com o agravamento de inúmeras complicações metabólicas (HUANG et al., 2017; PRATHER et al., 2014; LIU et al., 2014; OPP, 2005; PRINZ et al., 2000).
OBJETIVOS
O objetivo dessa pesquisa foi avaliar a relação entre dados antropométricos e distúrbio do sono em indivíduos adultos e idosos.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo com desenho exploratório, analítico, primário e observacional, do tipo corte transversal, de centro único.
A pesquisa foi realizada com pacientes atendidos na Unidade de Cirurgia Cardíaca e Hemodinâmica Ltda. (U.C.C.H) de uma cidade do interior do centro-oeste paulista.
Os pacientes foram convidados a participar do estudo recebendo esclarecimento sobre o protocolo da pesquisa e aqueles que aceitaram confirmaram o aceite por meio da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.
O presente estudo teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Marília – Unimar sob parecer número 1.989.745.
DESENVOLVIMENTO
Além dos dados pessoais de identificação (nome, sexo e idade) foram coletadas informações sobre grau de escolaridade, diagnóstico prévio de doenças ou condições clínicas,
3 uso de medicamento de forma contínua, presença de tabagismo, consumo de bebida alcoólica e prática de atividade física.
As medidas antropométricas aferidas foram peso e estatura, a partir dos quais foi calculado o índice de massa corpórea (IMC). Foram coletadas também as circunferências da cintura (CC) e do pescoço (CP). Para a coleta de peso, estatura e CC foram utilizadas técnicas preconizadas por Lohman (1992) e Gibson (2005). O IMC foi calculado de acordo com a fórmula de Quetelet (COLE et al., 1981). A CP foi aferida na altura média do pescoço e em homens logo abaixo da proeminência laríngea (BEN-NOUN; LAOR, 2003). A CP foi classificada segundo Ben-Noun et al. (2001), os quais valores menores que 34 cm e 37 cm como normalidade dessa medida para mulheres e homens, respetivamente.
A ocorrência de distúrbio do sono foi avaliada sob o aspecto do risco de ocorrência de apneia obstrutiva do sono (AOS) por meio do questionário denominado STOP-Bang (Snoring, Tiredness, Observed apnea, and high blood Pressure - Body mass index, Age, Neck circumference, and Gender) que consiste de oito questões relativas ao ronco, cansaço/fadiga/sonolência, apneia observada durante o sono, pressão arterial, IMC, idade, CP e sexo. As perguntas podem ser respondidas afirmativamente valendo um ponto ou negativamente valendo zero ponto, sendo que a pontuação final deste instrumento pode variar de zero a 8 pontos. Somatória entre zero a 2 pontos indica baixo risco de AOS, enquanto que três a quatro pontos indica risco intermediário e cinco a oito pontos alto risco (FONSECA et al., 2016).
O tratamento estatístico dos dados quantitativos foi realizado com apoio do programa BioEstat 5.0. Os dados estão apresentados por meio de frequência relativa e da estatística descritiva em tabela com apresentação da média ± desvio padrão, mediana e valores mínimo e máximo. Para avaliar a significância da relação entre as variáveis estudadas foram utilizados os testes t-Student, Anova seguido do Tukey, Kruskal-Wallis seguido do Dunn, além dos testes de correlação de Pearson e intervalo de confiança da média (Técnica de Reamostragem Bootstrap). Os testes foram selecionados conforme o objetivo da análise e a variância dos dados a serem analisados. A probabilidade de significância considerada foi de 5% (p≤0,05) para as operações efetuadas.
4 RESULTADOS
Um total de 197 pacientes adultos e idosos foram incluídos nesse estudo, sendo 47% deles do sexo masculino. A média de idade dos participantes foi de 59,52±13,41 anos, sem diferença significativa entre os dois sexos (p=0,4329).
As medidas antropométricas avaliadas estão apresentadas na Tabela 1. Tabela 1 – Apresentação descritiva da idade e medidas antropométricas avaliadas.
Variáveis Média±desvio padrão Mediana Mínimo Máximo
Idade (anos) 59,52±13,41 61 25 89
IMC (kg/m2) 28,85±5,58 28 18 58
CC (cm) 100,15±14,3 100 59 139
CP (cm) 38,32±4,24 38 29 52
IMC: índice de massa corpórea. CC: circunferência da cintura. CP: circunferência do pescoço.
A aplicação do questionário denominado STOP-Bang resultou numa pontuação média de 3,63±1,56 (mínimo-máximo = 0-8). Com relação ao risco de AOS, 50% dos participantes apresentaram rico intermediário, enquanto que 22% e 28% foram classificados como risco baixo e alto, respectivamente.
Foi encontrada relação significativa entre o risco de AOS e as medidas antropométricas analisadas nesse estudo, sendo quanto mais elevados o IMC, a CC e a CP maior é o risco (Tabela 2).
5 Tabela 2 – Medidas antropométricas (IMC, CC e CP) de acordo com o risco de apneia obstrutiva do sono (AOS).
Risco de AOS Medida IMC (kg/m2)
CC (cm)
CP (cm) Baixo (B) (n=44) Média±desvio padrão 27,45±3,88 93,61±10,91 36,45±3,91
IC da média (95%) 26,3 - 28,4 90,4 – 96,3 35,3 – 37,4 Intermediário (I) (n=99) Média±desvio padrão 28,20±5,42 98,09±13,12 37,78±3,61 IC da média (95%) 27,2 – 29,1 95,5 – 100,2 37,1 – 38,4 Alto (A) (n=54) Média±desvio padrão 31,20±6,37 109,25±14,62 40,85±4,47 IC da média (95%) 29,6 – 32,6 105,5 – 112,5 39,6 – 41,8 p-valor 0,0037* 0,0000** 0,0000** B x I= ns B x A= <0,05 I x A= <0,05 B x I= ns B x A= <0,01 I x A= <0,01 B x I= ns B x A= <0,01 I x A= <0,01 IC: intervalo de confiança. IMC: índice de massa corpórea. CC: circunferência da cintura. CP: circunferência do pescoço. ns: não significativo.
*Kruskal-Wallis / Dunn. **Anova one way / Tykey.
O Intervalo de Confiança da Média (95%) nos permite inferir que valores de IMC superiores a 26,3 kg/m2 acarretam em risco, nos sues diferentes níveis, de AOS. O mesmo racicínio é possível para as medidas de CC e CP, cujos valores relacionados a risco são 90,4 cm e 35,3 cm, respectivamente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em nosso estudo 50% dos pacientes avaliados apresentavam risco intermediário e 28% risco alto de AOS. Esses valores são superiores aos achados em outras pesquisas que usaram mesmo instrumento, o STOP-Bang (Bamgbade et al., 2017; Dixon et al., 2016; Ozoh et al., 2014).
A obesidade foi associada positivamente com o risco de AOS em nosso estudo assim como em outros, como o de Ozoh et al. (2014), de Bamgdage et al. (2017), de Dixon et al. (2016), de Ruiz et al. (2016) e de Kiełbasa et al. (2016).
A ocorrência de distúrbios do sono é uma condição comum entre os pacientes atendidos na U.C.C.H., com percentuais superiores a de outras populações. Embora o instrumento utilizado para avaliação de tal distúrbio seja amplamente conhecido, seu desempenho pode variar entre as populações.
6 As medidas antropométricas IMC, CC e CP apresentaram relação positiva e significativa com a ocorrência de distúrbios do sono, visto que o aumento dessas medidas levou ao maior risco de AOS.
Mais pesquisas são necessárias para melhorar a compreensão dos determinantes dos distúrbios do sono, a fim de propiciar a prevenção ou ainda melhorar o diagnóstico e o tratamento dessas condições.
REFERÊNCIAS
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