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SOM-IMAGEM EM REDEMPTION, DE MIGUEL GOMES 1

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Academic year: 2021

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SOM-IMAGEM EM REDEMPTION, DE MIGUEL GOMES

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Gabriela de Azevedo Sampaio2

Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória – ES Marcus Vinicius Marvila das Neves3

Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória – ES

Resumo: Este curta ficcional nos apresenta 4 personagens que lêem cartas a parentes ou a si mesmo sobre o que está a se passar em um determinado período da vida de cada autor. O filme é composto por imagens de arquivo, gravadas em super 8 majoritariamente, que não remetem diretamente aos personagens, mas que através da montagem criam uma organização narrativa própria das imagens, plurificando o texto exposto pela voz-over leitora. A análise deste curta levará em consideração os aspectos históricos e políticos dos personagens, as relações e articulações entre a montagem dessas imagens de arquivos e os aspectos técnicos inerentes ao uso do som - leia-se ambiência, silêncio, música e voz - e como este, aplicado às imagens, desvela e amplifica camadas de interpretação ainda mais profundas.

Palavras-chave: Som-Imagem; Redemption; Miguel Gomes.

Redemption é um curta-metragem realizado pelo diretor português Miguel Gomes (1972-) em uma co-produção que envolve três países, Itália, França e Alemanha. Este curta ficcional nos apresenta 4 personagens que lêem cartas a parentes ou a si mesmo sobre o que está a se passar em um determinado período da vida de cada autor. As cartas foram escritas pelo diretor Miguel Gomes e Mariana Ricardo. O filme é composto por imagens de arquivo, gravadas em super 8, majoritariamente, que não remetem diretamente aos personagens, mas que através da montagem criam uma organização narrativa própria das imagens, plurificando o texto exposto pela voz over leitora. Para Vilém Flusser, as cartas são “uma das últimas aberturas por meio das quais podíamos ter esperança de reconhecer o outro” (2010, p.

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Resumo proposto ao GT 6 - Mídia, Música e Audiovisual do VI MUSICOM – Encontro de Pesquisadores em Comunicação e Música, a ser realizado de 05 a 07 de agosto de 2015, na Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES.

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Discente do curso de Bacharelado em Música com habilitação em Composição ênfase em Trilha Musical e pesquisadora do Grupo de Experimentação Sonora (GEXS/UFES).

[email protected] 3

Professor Orientador. Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM), coordenador do Grupo de Experimentação Sonora (GEXS/UFES) e membro do NESCOM - Núcleo Espírito-santense de Computação Musical. Tem realizado trabalhos como sonoplasta e composição de trilha sonora para espetáculos de dança e teatro, edição de som, mixagem e desenho de som para filmes.

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121) e Gomes as usa como espaço para uma espécie de redenção dos autores. Ao final somos apresentados aos remetentes, o que, de fato, é de surpreender o espectador o desvelar dos nomes de Pedro Passos Coelho (1964-), Silvio Berlusconi (1936-), Nicolas Sarkozy (1955-) e Angela Merkel (1954-), figuras políticas de extrema importância para o delinear social e econômico da primeira década do século XXI no Velho Mundo.

O filme com dimensão de 8 mm foi desenvolvido pela Kodak na década de 1960 e não havia a possibilidade de captação de som. Somente em 1973 foi lançado um cartucho magnético que podia fazer a captação sonora, mas por motivos ambientais a empresa parou de fabricar este tipo de filme. As câmeras Super-8 foram bastante comercializadas e muito usadas para gravar momentos familiares para que estes pudessem estar assegurados na memória. As imagens empregadas no curta são trechos de filmes, documentários, reportagens e vídeos caseiros.

A relação som-imagem em Redemption cria várias camadas de representatividade, significados profundos sobre a narrativa, o que se dá pela escolha de construção estrutural do filme. A trilha sonora do filme é mista, pois conta com várias imagens de arquivo vindas de Portugal, Itália, França e Alemanha, mas pode-se observar como o som exerce uma função importante na narrativa, sendo ele escolha do sound designer ou não. Como se trata de um filme sobre redenção, o papel da voz over exerce um papel muito importante para a concepção do conteúdo pelo espectador, que não sabe quem está falando e nem vê suas feições, e entra no íntimo do personagem como um confidente.

O primeiro elemento sonoro é o canto de uma cigarra que, logo em seguida, é acompanhada de bramidos de elefante, leão, boi, vaca, etc. O plano de imagem escolhido para a composição dos sons dos animais é o fundo preto, que deixa livre nossa imaginação para ir a algum lugar que, provavelmente, tenha animais. Acompanhada de um batuque de tambores africanos, a primeira imagem de arquivo aparece: um menino que entra numa espécie de estábulo e assiste ao nascimento de um potro, seguida da imagem de um elefante numa savana africana, tambores e várias crianças vestidas de branco em fila, como que em caminho para algum tipo de ritual de consagração da inocência infantil.

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Figura 1

Esta sequência de imagens nos desloca para o imaginário de algum país africano que foi colonizado por europeus. Algumas outras imagens de arquivo contendo crianças aparecem e é de se notar a presença de crianças negras e brancas.

Até agora, a escolha de imagens e a forma como elas foram relacionadas com o som nos dá possibilidades de imergir no ambiente, como, por exemplo, os sons de animais como o elefante (onde duas das três espécies do mundo são encontradas na África), batuques em tambores relacionados com imagens de um negro que toca um tambor e imagens com crianças brancas e negras indicam um ambiente africano e mais tarde o espectador tem essa convicção

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pelas imagens a seguir, onde algumas imagens são do documentário Esplendor Selvagem, de António de Sousa (1972).

Figura 2

Entre as imagens de crianças, surgem imagens de um casal de meia idade, o que, no caso, seria a representação das figuras paternas.

A primeira carta a ser lida é a de Pedro Passos Coelho (1964-), mas sua identidade, como a dos outros personagens, somente nos é revelada ao final do filme. Dentro da ficção, Pedro ainda é um menino que fala português e está muito doente. Ele lê uma carta que escreveu aos pais contando sobre como a vida dele está. Conta que suas febres voltaram e que seu tio pediu que um médico viesse de Vila Real com uns comprimidos e que tem uma nova professora que veio de Lisboa. Daí surge as primeiras informações concretas sobre sua situação de vida, além da doença: ele está morando com o tio em algum estado de Portugal. A relação de diálogo entre texto, som e imagem se dá também quando o menino se refere à dificuldade que a neve lhe impõe no seu dia-a-dia. Nota-se a subtituição da sequência de imagens com prevalência de dias ensolarados por imagens de clima chuvoso. Há exemplos claros deste tipo representatividade do discurso durante outros momentos da leitura da carta de Pedro, como quando há a imagem de uma ladeira em um ambiente chuvoso e ele diz: “[...] o frio é tanto que congela a ladeira na frente da escola […]” e quando há a imagem de uma pessoa subindo escadas com certa dificuldade ele diz: “[...] e eu tenho que andar bem devagarinho para não escorregar.”

A paisagem sonora nos revela um ambiente rural pelos sons de animais, que nem sempre são diegéticos, como mugidos e criquilares. Ela também acompanha imagens com hard effects, que de acordo com Opolski são “todos os efeitos que não são produzidos diretamente pelo homem” (p. 43), como barulhos de chuva e cachoeira, por exemplo. Todos

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esses sons sempre se articulam ou para amplificar o sentido da imagem de forma literal ou recriam um ambiente cuja imagem traz elementos contrários ao que ouvimos na narrativa do menino.

Figura 3

Em uma parte de sua carta, Pedro conta aos pais sobre os novos colegas de escola que riem dele e o chamam de nomes “feios”. A sequência de imagens que acompanha esta parte do discurso é de carneiros correndo acompanhada de hard effect, o que faz alusão à crianças na escola, e seguida da imagem de duas meninas de pele branca. Logo após, retorna o som de tambores e alguns frames depois vemos um ritual africano e outra representação de um tipo de brincadeira folclórica, sobreposto a isso ouvimos Pedro narra a saudade dos pais, dos amigos, das brincadeiras. Notoriamente a música africana serve como ligação entre os planos e reforça a associação ao local do qual o menino se refere.

Pedro se lembra de piqueniques com os amigos e o som que acompanha esta parte do discurso são risadas infantis, mas não há na imagem crianças rindo. Esta falta de sincronia entre som e imagem, nos passa a sensação de uma memória que está sendo resgatada e que vem aos poucos à tona. Andy Farnell em seu livro Designing Sound (2010) afirma que o que ouvimos “invoca atividade na parte profunda e primitiva de nossos cérebros [e] se você concentrar você pode quase „ouvir‟ sons na sua cabeça [...] como um artifício cognitivo separado” (p. 110, tradução nossa)4

, portanto as risadas que não possuem sujeito parecem ser invocadas pela memória acessada dos momentos felizes de Pedro. Tais lembranças levam Pedro a recordar do porquê ele está morando com o tio em Portugal e não com os pais. Até este momento a narração e os artifícios imagéticos e sonoros nos levam a acreditar que Pedro

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[...] they invoke activity in deep and primal part of our brains [...] if you concentrate you can almost “hear” sounds in your head [...] as separate congnitive devices.

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morava com os pais em algum país africano colonizado por portugueses, tendo que ir morar com o tio em Portugal por causa de revoluções que estavam, tendo seus pais permanecido em terras africanas as quais não conseguimos a localização exata. A saber, em Tabu (2012), Miguel Gomes também nos esconde a localização precisa dos personagens que rememorializam o caso de amor extra-conjugal, principalmente (na segunda parte), através da voz over construída pelo relato do amante. Sabemos apenas que à época do acontecido vivam no continente africano.

Na parte final de seu discurso, ele diz que Portugal é uma terra de miséria, tristeza e fome, enquanto há a sequência de imagens de um piquenique com fartura de comida e sorrisos. Esta é a última imagem colorida. Logo em seguida, já preto-e-branco, temos a imagem de um tanque de guerra e uma multidão reunida em uma praça onde há pessoas mortas sendo penduradas e ouvimos um som que representa essas imagens, com elementos como walla e assobios. Todas essas imagens derivam do vídeo Milan célèbre la fin de Mussolini.

Depois de ser revelado ao espectador os nomes dos personagens, revela-se que Pedro estava em Vale de Nogueiras, onde ele nasceu realmente em 1964, mas sabe-se pela sua biografia que o país onde cresceu foi Angola, um país que passou por uma guerra de libertação e conseguiu independência do domínio português em 1975, o que nos leva a crer que Pedro ao ler a carta tem mais ou menos 10 anos de idade. Mesmo sem a análise histórica pessoal de Pedro Passos Coelho, de Portugal e Angola é possível uma breve compreensão do espectador que assiste ao filme pela primeira vez.

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Figura 4

A transição entre a carta do primeiro personagem para o segundo se dá de uma maneira flúida, na qual o som, sem corte, interpenetra as imagens. Saímos da praça pública com corpos pendurados para adentrarmos ao teatro cheio de idosos a gargalhar. Este é um exemplo claro de que um mesmo som pode assumir diversas representatividades. Segundo Rodríguez, "como na comunicação interpessoal ou na comunicação do homem com seu ambiente, no contexto da linguagem audiovisual cada forma sonora é utilizável e utilizada de inúmeras formas para se obter um sentido com ela" (2006, p. 246, negrito nosso). Esta massa

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sonora de vozes sem nenhuma inteligibilidade, mais conhecida tecnicamente por walla, sai da condição de mero som ambiente para cumprir a função de soldadura temporal, recurso que geralmente é usado através da aplicação de música. Apontamos também que a utilização de imagens em preto-e-branco garante ainda maior fluidez à sutil transição. Ou seja, a inexistência de um corte no áudio e a manutenção da qualidade da imagem são os recursos que iludem o espectador quanto à mudança tempo-espacial dos planos. Contudo, com um olhar mais lato, notamos que sobreposto ao final do discurso de Pedro já somos colocados nas particularidades do próximo leitor, visto que as imagens são da cidade de Milão comemorando a morte de Mussolini. Tal sobreposição pode também denunciar que a guerra em si é a intersecção entre os personagens.

Ao aplaudir da plateia e suas risadas, segue-se o fechar das cortinas e o início da voz over leitora da segunda carta. Desta vez, a voz pertence a um homem adulto falando em língua italiana. Sua carta começa pelas tantas coisas que já foi em sua vida, como repórter, investigador, tolo e não é endereçada a ninguém. Ao contar sobre como é um homem estúpido e presunçoso, vemos uma plateia de pessoas idosas e outra de crianças e o movimento da câmera nos dá a impressão que o próximo plano é, de fato, um espetáculo para tais plateias: um nocaute de uma luta de boxe e a redenção do lutador. A leitura persiste sobre seu destino à falência e se indigna sobre as matérias jornalísticas e processos judiciários contra sua pessoa.

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Quando, em seu discurso, conta sobre um acontecimento na infância e sua memória começa a entrar em ação, surgem os hard effects em fade in do plano seguinte, além da paisagem sonora. Ele conta sobre uma vez que ele e mais alguns amigos brincavam em frente a uma fábrica. Esta parte do discurso é acompanhada por uma sequência de imagens de pessoas trabalhando em fábricas, inclusive crianças. Um dia o dono da fábrica onde ele e seus amigos brincavam a vendeu e foi embora levando sua esposa e filha, Alessandra, o seu amor.

O próximo parágrafo da carta começa com sua declaração de que se considera um homem velho, as imagens que acompanham o discurso são de vários homens relativamente velhos, e ouvimos na banda sonora, além da voz over que narra, a paisagem sonora que se é esperada dentro de fábricas e nos dormitórios. Ao acabar a sequência de planos da fábrica, a paisagem sonora se acaba em fade out.

Figura 6

A próxima sequência de cenas é representativa do discurso do personagem que no passado lutou contra o facismo, um regime político autoritário, enquanto as imagens presentes retratam o comércio de sapatos e pão, simbolizando o estímulo a um comércio de produtos nacionais já que estes dois elementos são marcas importantes da produção italiana. Os sons presentes, além da voz over, são ruídos metálicos que raramente são escutados. Ao longo desta sequência, quando ela chega ao fim, o sound designer começa a introduzir os sons da próxima sequência por fade in, mais um recurso técnico para dar fluência à transição. Por cima da voz over aos poucos percebe-se sons de um meio urbano. O último plano da sequência é um plano detalhe de um peso sendo colocado em uma balança. Assim que a balança desce ao seu limite, há uma única badalada de sino que impulsiona a troca de plano, temos um novo badalar e ouvimos o questionamento do leitor à sua amada: "Você se casou,

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Alessandra? Teve filhos". O badalar do sino acresce valor ao discurso acerca do matrimônio. Chion, em Audiovisão, nos aponta o que ele chama de valor acrescentado produzido pelo som:

Por valor acrescentado, designamos o valor expressivo e informativo com que um som enriquece uma determinada imagem, até das a crer, na impressão imediata que dela se tem ou na recordação que dela se guarda, que essa informação ou essa expressão decorre “naturalmente” daquilo que vemos e que já está contida apenas na imagem (CHION, 2008, p. 12).

Figura 7

Enquanto o leitor segue sua declaração de admiração por Alessandra, observamos um jovem casal que rouba a vassoura de um homem que varre a rua para voar. Eles olham pra baixo praticamente no mesmo tempo em que o personagem diz: “você podia olhar para baixo […]” havendo um diálogo direto entre imagem, som (que está contido no som original da imagem de arquivo) e a voz over. Ao fim do curta-metragem, não desta sequência, descobrimos ser a carta associada a Silvio Berlusconi (1936-), um empresário e político, que já passou por vários encândalos envolvendo corrupção na Itália, e por vários processos jurídicos, sendo difamado pela mídia. A carta, pelo que é revelado, fora escrita no dia treze de julho de 2011, dia em que o verdadeiro Silvio Berlusconi teve uma ligação telefônica gravada e veiculada pela mídia, onde ele dizia que iria “embora deste país de merda”. Assim, o casal que voa com a vassoura é a representação que Miguel Gomes dá, de forma romantizada, à vontade expressa pelo Berlusconi '‟real".

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Figura 8

Após voarem na vassoura, o plano troca pra uma imagem de dois elefantes e seu domador, juntamente com uma música que é tocada em piano e que tem ritmo e melodia típicos das músicas de circo. Ao dizer a Alessandra que fez uma canção para ela, toca a canção L'eco der core, de Lando Fiorini, junto com a troca de plano para a imagem de elefantes bailarinos, que dançam sincronizadamente com a música não-diegética. A canção continua e a imagem de elefantes é trocada pela de dois meninos que fumam cigarros. Pela mudança brusca de tema, imagina-se que seremos “apresentados” a outro personagem.

A canção de Fiorini permanece durante algumas trocas de planos, que desta vez têm o foco em crianças. Uma paisagem sonora de garças e ondas do mar dá lugar à canção que desaparece em fade out. Embora a paisagem sonora indique a figura de mar, nenhuma imagem a corresponde, fazendo com que, neste caso, imagem e som tenham um vínculo mais profundo de sentido. Praia é um lugar onde, geralmente, as famílias vão para relaxar e se divertir, e por serem vídeos caseiros que retratam momentos entre pais (somente a figura masculina) e filhos, pressupõe-se que a ligação entre imagem e som se dá via memórias que são ativadas e que remetem a ideia de algum lugar familiar, não sendo necessariamente uma praia. Agora, recuperamos a cor, também de forma sutil, pois ela se revela entre os planos de qualidade similar, inicia-se a passagem ao terceiro personagem.

Há uma imagem de uma menina que segura e acaricia um gato em seu colo e ouve-se, juntamente com a paisagem sonora que já estava presente, miados. A transição de planos é feita por uma sirene em cross fade com o miado do gato. Num primeiro momento, aparentemente, não há representatividade para tal sirene até o desenrolar das imagens. Um homem que galopa em nada, como numa brincadeira entra para o foco da câmera e, logo após duas crianças fantasiadas de xerifes também entram em foco, justificando a presença da

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sirene. No decorrer desta “cena”, o terceiro personagem inicia a leitura de sua carta endereçada à filha, se redimindo a ela ao falar ao dizer que sente medo que ela nunca tenha um pai de verdade, enquanto que o pai que está na imagem está deitado no chão ao brincar com seus filhos. Todas as sequências que se seguem são imagens de vídeos caseiros que retratam momentos descontraídos e divertidos da figura do pai com seus filhos. Enquanto ele lamenta sua ausência como pai dentro de casa, as imagens felizes que representam uma memória inexistente de tiros com arco e flecha e fantasias de xerifes cocares passam com um som provindo de gritos, balbucios indígenas. A paisagem sonora também faz uma ligação com os planos que antecedem a leitura da carta, onde um menino tem, em sua varanda de casa, uma oca.

Figura 9

As imagens dão a impressão de que pertencem à mesma família em épocas distintas, o que se pode comprovar pela figura de um pai, um menino moreno e uma menina loira, porém não há como comprovar a veracidade desta informação. De qualquer maneira, o discurso do terceiro personagem gira em torno do futuro pai ausente que ele será para sua bebê por ter que esforçar em seu trabalho para poder manter a vida e status social que eles têm. Ele lamenta que não vai ser possível conhecer a fundo sua filha e vice-versa, não podendo estar ao lado dela durante seu crescimento. Isto é representado pelas imagens de duas maneiras. Primeiro temos a imagem de crianças pequenas que com o passar dos planos, as crianças ficam cada vez maiores. Temos também a imagem de um cachorro filhote, que volta a aparecer (o mesmo

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cachorro ou não) maior mais tarde. Aparentemente, aqui, temos, pela primeira vez, uma progressão temporal minimamente linear.

Figura 10

Em um dos momentos familiares, o pai leva seus dois filhos para um passeio de avião. O som presente, além da voz over, ainda são músicas indígenas, que desaparecem quando a hélice do avião começa a girar, tendo-se um novo elemento sonoro, o do motor do avião e alguns tiros, representando aviões de guerra, enquanto que na imagem, são apenas aviões de brinquedo.

O terceiro personagem representa Nicolas Sarkozy, que em 2011 teve sua primeira filha nascida. A data da carta é dezesseis de maio de 2012. Sabe-se por sua biografia que o pai de Sarkozy o abandonou com sua mãe e irmãos e era militar, o que explica o som representativo de guerra, enquanto ele diz o quanto vai se esforçar para estar presente, representando um sentimento de abandono que teve de seu próprio pai, não querendo passar isso adiante para sua filha, isso é percebido na última frase de sua carta: “Para mim, o fim começou a muito tempo, tanto tempo que não posso me lembrar dos detalhes”, frase que está contida na sequência final, onde o homem leva seus filhos e cachorro para andarem de carrinho de rolimã a ser puxado pelo carro, numa estrada pequena no inverno ao som de corvos e um som representativo do carrinho de rolimã. A construção desse terceiro

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personagem é o momento de maior índice de aparições de objetos sonoros fora da diegese, amplificando as potencialidades da narrativa. Ao falar sua última frase, a paisagem sonora que lembra uma praia retorna, revelando uma imagem de uma casa na praia e, por cross fade, uma música de orquestra começa a tocar e pode-se percebe que iremos ouvir a última carta do quarto personagem.

O que ouvimos é “Parsifal - Preludio Atto 1”, uma ópera do compositor Richard Wagner. Inicia-se a primeira sequência da última carta com um casal de adultos nus se beijando em primeiríssimo plano e este mesmo casal, vestidos para seu casamento, mais tarde desce as escadas que dá para uma sala com pessoas que os aguardam. Desta vez, a voz over leitora pertence a uma mulher falando em língua alemã, que inicia seu discurso declarando que aquele seria o dia mais feliz de sua vida. A própria personagem nos dá informações sobre sua vida, o que não havia acontecido no curta ainda. Sabemos que ela e seu noivo são cientistas que trabalham ou estudam na Universidade de Leipzig. A sequência de planos do casamento conta com um primeiríssimo plano da noiva, alguns parentes emocionados e a troca de alianças. Enquanto a ópera de Wagner continua a tocar, uma sequência de imagens de uma mão em algum tipo de espelho que capta ondas de calor, uma manifestação envolvendo o socialismo, uma mulher e um homem semi-nus a dançar pelo quarto e somente com a imagem de uma sala de aula cheia de alunos a olhar para o quadro negro a personagem volta a ler sua carta, como que se estivesse numa apreciação da música pela longa pausa. Ela se recorda de quando era criança e foi assistir Parsifal no teatro com os tios e se lamenta por Wagner ser um facista, pois agora não pode mais apreciar suas obras porque, do contrário, poderia ser acusada de traição ao Movimento Socialista e seu marido poderia pedir o divórcio. Ela declara estar se sentindo infeliz por não poder mais ouvir as obras de Wagner, dizendo que não trairia o marido, mas sente que está traindo a seu deus por estar sorrindo quando ela não sente vontade. Enquanto ela lê seu diário, as imagens de intercalam entre imagens de casamentos, experiências científicas, alguns letreiros em neon, algumas fórmulas de física sobrepostas nas imagens de casamentos e outras formas de sobreposição de imagens. Na verdade, este é o único movimento-personagem que a edição opera por sobreposição de imagens e temos a música como guia sonoro.

Angela Merkel (1954-) é representada pela quarta personagem. Nascida na Alemanha, Merkel é filha de um pastor cristão que tinha simpatia com o comunismo. Se formou em física pela Universidade de Leipzig e é doutora em física quântica. Muito envolvida em política desde jovem, ela participou ativamente da luta pelo socialismo e pela queda do muro

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de Berlim. Hoje, Merkel é considerada a segunda pessoa mais poderosa do mundo, de acordo com a revista Forbes, e desde 2005 é chanceler da Alemanha.

Durante as revelações da identidade dos personagens, a ópera de Wagner continua e, dadas as identidades, ela dá lugar a uma paisagem sonora com elementos sonoros da natureza como chuva, pássaros, cachorros, etc. que dura até os créditos finais.

* * *

Neste filme de Miguel Gomes observa-se que os elementos de som e imagem foram articulados e escolhidos para amplificar, acrescentar valor às narrativas dos quatro personagens que, por serem inseridos somente como voz over, a princípio, provocariam um afastamento entre espectador e a pessoa que o personagem representa. Miguel Gomes, ao criar as cartas, traça conexões emocionais e cognitivas, humaniza cada um, mostrando que atrás de um político há uma pessoa que possui histórias e sentimentos desconhecidos. O anonimato dos personagens até o final do filme permite ao espectador se aproximar ainda mais das angústias ali depositadas.

A compilação de imagens de arquivos atrelada ao uso de som de forma não-diegética, a reconstrução de paisagens sonoras e a aplicação da música, as redundâncias e contrastes criados entre o áudio e o visual corroboram para a fluidez dos personagens em voz over, busca-se nas suas memórias o que de fato elas consegue presentificar no ato da leitura. Esta sinfonia da redenção, poliglota, almeja, assim como nas outras obras cinematográficas de Miguel Gomes, mais que redimir seus personagens, desnudá-los para que seu espectador caminhe entre o real e o imaginário, entre o documento e o ficcional, entre a capacidade de senti-lo único e a incapacidade de vê-lo perfeito.

Referências

CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Gabinete Editorial Texto & Grafia, 2008.

FARNELL, Andy. Designing Sound. United States of America: Wetchester Book Composition, 2010.

FLUSSER, Vilém. Cartas. A escrita: há futuro para a escrita? São Paulo: Annablume, 2010, p. 115-121.

OPOLSKI, Débora. Introdução ao desenho de som: uma sistematização aplicada na análise do longa-metragem Ensaio sobre a cegueira. João Pessoa: Editora da UFPB, 2013.

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RODRÍGUEZ, Ángel. A dimensão sonora da linguagem audiovisual. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006.

Referências

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