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ECLI:PT:TRG:2017: GAVVNF.G1.67

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ECLI:PT:TRG:2017:386.13.7GAVVNF.G1.67

http://jurisprudencia.csm.org.pt/ecli/ECLI:PT:TRG:2017:386.13.7GAVVNF.G1.67

Relator Nº do Documento

Jorge Bispo rg

Apenso Data do Acordão

20/03/2017

Data de decisão sumária Votação

unanimidade

Tribunal de recurso Processo de recurso

Data Recurso

Referência de processo de recurso Nivel de acesso

Público

Meio Processual Decisão

Recurso Penal julgado improcedente

Indicações eventuais Área Temática

Referencias Internacionais Jurisprudência Nacional Legislação Comunitária Legislação Estrangeira Descritores

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Sumário:

A falta de indicação na acusação das disposições legais aplicáveis pode, em fase de inquérito, ser atacada por via da arguição da respetiva nulidade dessa peça processual pelo respetivo

interessado. Não o sendo, e transitando o processo para a fase de julgamento, sem que tenha sido requerida a abertura de instrução (como sucedeu relativamente à acusação em apreço nos autos), esse vício apenas pode levar à rejeição da acusação por manifestamente inviável nos termos do artº 311º, nºs 2, al. a), e 3 al. c), e já não à sanação da nulidade.

Decisão Integral:

Acordam, em conferência, os Juízes na Secção Penal do Tribunal da Relação de Guimarães: I.RELATÓRIO

1. Nos presentes autos de processo comum, com intervenção de juiz singular, com o NUIPC 386/13.7GAVNF, a correr termos pelo Tribunal Judicial da Comarca de Braga, no Juízo Local Criminal de Vila Nova de Famalicão - J3 (anterior Secção Criminal da Instância Local), realizado o julgamento, foi proferida sentença, datada e depositada a 09-05-2016, a condenar o arguido M. C. pela prática de um crime de dano, previsto e punido pelo art. 212º, n.º 1, do Código Penal, na pena de 110 dias de multa, à taxa diária de € 7, bem como a pagar à lesada M. M. a quantia de €

1.025,01, acrescida de juros de mora, à taxa legal, contados desde a notificação do respetivo pedido, até integral e efetivo pagamento, a título de danos patrimoniais, e a quantia de € 250, acrescida de juros, à taxa legal, a partir da decisão, a título de danos não patrimoniais.

2. Inconformado, o arguido interpôs o presente recurso, concluindo a motivação nos seguintes termos (transcrição):«CONCLUSÕES 1ª - Em 02 de Março de 2015, tendo sido dado início a audiência de discussão e julgamento a Meritíssima Juiz declarou "nula a acusação particular deduzida contra o arguido nos termos do disposto nos artigos 285°, 283º, n.º 3, al. c), 120°, n.º 1 todos do Código de Processo Penal" e ordenou a remessa dos autos ao Ministério Publico" "para os efeitos tidos por convenientes, nomeadamente, pura, querendo, deduzir acusação nos termos do artigo 285°, n.º 4 do CPP, em face das normas legais aditadas à acusação particular nesta audiência, e bem assim, para notificação do arguido nos termos e para os efeitos do artigo 286º do CPP"·

2ª - Em bom rigor, esta decisão nunca chegou a ser cumprida apesar dos autos terem sido remetidos ao Ministério Publico;

3ª - Em 07 de Maio de 2015 a assistente apresentou nos Serviços do Ministério Público uma nova acusação particular, conforme consta de fls. 209 e segs;

4ª - Em 29 de Maio de 2015, o arguido/recorrente requereu a abertura de instrução alegando que o Meritíssimo Juiz de julgamento não podia ter ordenado a remessa dos autos aos serviços do Ministério Publico (em vez de simplesmente ter rejeitado a acusação), mas que tendo-o feito não podiam o M.P. e a assistente ter proferido nova acusação por ter precludido pelo decurso do prazo, o direito de deduzirem (nova) acusação;

5ª - A pretensão do arguido/recorrente foi desatendida, tendo o Meritíssimo Juiz de Instrução

proferido decisão instrutório pronunciando-o para julgamento pelos factos e disposições normativas constantes da acusação particular de fls. 209 e segs. (nova acusação);

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processo e a designar dia para a audiência de julgamento do arguido "pelos factos constantes da acusação particular deduzida a fls. 209 e 210" (nova acusação);

7ª - Quando foi deduzida a (nova) acusação já tinha precludido o direito da assistente formular acusação particular pelos factos apurados no inquérito;

8ª - O M.P. encerrou o inquérito em 06 de Março de 2014 e notificou a assistente para deduzir acusação particular, o que esta veio a fazer por requerimento apresentado em 12 de Março de 2014, mais tarde declarada nula e ordenada a sua retificação em local próprio (o que até ao momento não chegou a ser efectuado);

9ª - Após o despacho a ordenar a retificação da primitiva acusação o arguido não foi notificado da acusação constante de fls. 97, rectificada, mas antes de uma nova acusação, constante de fls. 209, apresentada nos serviços do Ministério Publico no dia 05 de Maio de 2015;

10ª - Para que dúvidas não restem quanto ao facto de se tratar de uma nova acusação, atente-se na diferença de teor dos artigos 4°, 5º, 7°, 9°, 12°, 13° e 15º de uma e de outra acusações, bem como no facto da nova acusação conter mais três artigos, o 18º, o 20° e o 21º (não contém, certamente por lapso, o 19°);

11ª - Até ao momento ainda não foi aditado à primitiva acusação que "o arguido cometeu um crime de dano p. e p. pelos artigos 202°, n.º 1 e 4 e 207º, n.º 1, al. a) todos do Código Penal", dando desse modo cumprimento ao mencionado despacho judicial que ordenava o seguinte: "Rectifique em local próprio";

12ª - O prazo de 10 dias previsto no artigo 285°, n.º 1, do CPP é um prazo peremptório. Nesse sentido já se pronunciou, entre outros, a Relação do Porto, por Ac. de 21 de Setembro de 2005, Proc. n.º 0542089, ReI. Luís Gominho - apud VINÍCIO RIBEIRO in "Código de Processo Penal, Notas e Comentários", pág. 777, Coimbra Editora - 2ª edição;

13ª - Sendo o prazo estabelecido no artigo 285º n.º 1 do CPP um prazo peremptório, o decurso do mesmo faz extinguir o direito de praticar o acto;

14ª - No caso em apreço verifica-se que o inquérito foi encerrado em 06 de Março de 2014 e nessa data notificada a assistente para que deduzisse acusação particular; tendo a assistente deduzido (nova) acusação particular apenas no dia 04 de Maio de 2015, decorrido portanto o prazo de 10 dias, fê-lo fora de prazo;

15ª - A invocação desta nulidade não contende com o invocado trânsito em julgado do douto despacho de fls. 188/189. Ao invés, é a conduta da assistente que contraria e desrespeita o despacho judicial em causa;

16ª - De qualquer modo, e sem conceder, mesmo que o julgamento cuja anulação ora de requer tivesse incidido sobre a primeira acusação (rectificada), o que não concede, ainda assim

estaríamos perante uma situação desconforme à lei, que sempre importaria reparar por estar em tempo;

17ª - A retificação em causa não podia ter sido ordenada por a nulidade imputada à causação particular não ser sanável, pois mostrava-se manifestamente infundada por "se não indicar as disposições legais aplicáveis", conforme se alcança do n.º 3 do artigo 311º do CPP. Devendo o juiz de julgamento rejeitá-la nos termos do n°2, al. c) do citado artigo 311º do CPP;

18ª - Não compete ao juiz de julgamento oficiosamente ou a requerimento, sanar tal nulidade; 19ª - A prova produzida e analisada em audiência de julgamento não permite um juízo de censura acima de qualquer dúvida acerca dos da conduta imputada ao arguido, o que impõe a sua

absolvição de acordo com o princípio "in dubio pro reo".

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motivação da decisão sobre a matéria de facto, fez um depoimento isento, coerente, assertivo e consistente, revelando em todas as circunstâncias os pormenores das situações relatadas e explicando de forma coerente a razão de ciência.

21ª - Ao invés, a testemunha M. L., irmã da assistente e desavinda com o arguido e com a outra sua irmã, esposa deste, revelou contradições entre o depoimento que prestou em audiência de julgamento e aquele outro que prestou em sede de inquérito e com o qual foi confrontada nos termos do artigo 356º do CPP;

22ª - Tal depoimento mostrou ainda contradições com o depoimento prestado pela assistente, conforme melhor se alcança das transcrições acima efectuadas e que qui, por brevidade, se dão por integralmente reproduzidas, tendo atentado ainda contra as regras da experiência comum; 23ª - Esta testemunha, que agora surge com uma relevância total, tão-pouco foi mencionada no auto de denúncia que o Meritíssimo Juiz valorou, e bem, nem sequer adicada inicialmente como testemunha;

24ª - Esta testemunha e a assistente afirmaram que não conseguiram ver, no próprio dia, os riscos que o veículo automóvel tinha (apesar desta ter notado as "raspas de tinta") por ser de noite, mas a testemunha S. F., cujo depoimento se encontrava gravado e mencionado supra, afirmou que foi ver o veículo de noite, com o auxilio de um telemóvel (tal como a assistente e a sua irmã) e verificou os danos, sendo que tal depoimento foi valorado pelo Meritíssimo Juiz "a quo";

25ª - Ao contrário do que a sentença recorrida deixa supor, quem tinha motivos para se vingar era a assistente, que foi insultada nesse dia pela esposa do arguido, e não o próprio arguido (ou a dita esposa);

26ª - O arguido conhecia o horário a que a assistente chegava a casa, vinda do trabalho, o que o afastaria do local do crime nessa hora se porventura fosse sua intenção danificar o carro;

27ª - Também não há explicação para o facto do arguido ter de passar pela cunhada (que se encontrava dentro do seu Fiat Punto vermelho, estacionado no cruzamento onde fica o terreno onde e guardado o Jeep) e ainda assim não se ter coibido de prosseguir os seus supostos intentos; 28ª - A testemunha J. C. depôs de forma segura, tranquila e sem fugir a nenhuma questão que lhe foi colocada, apesar da acutilância do ilustre mandatário da assistente e das advertências do Meritíssimo Juiz "a quo", sabendo explicar com clareza porque é que tinha a certeza que no dia da prática do alegado crime o arguido estava em sua casa a trabalhar. Prestou um depoimento

consentâneo com a tese do arguido e com o depoimento por este presta do em audiência de julgamento;

29ª - Deve atentar-se ainda no depoimento da testemunha A. A., com relevo para os pontos transcritos ou referenciados cima e que revelam claramente a fragilidade da tese trazida aos autos pela assistente supostamente sustentada pelo depoimento da testemunha M. L.:

30ª - Considerando toda a prova produzida e examinada em audiência de julgamento não se pode concluir sem margem para quaisquer duvidas que o arguido esteve no local do crime nas circunstâncias descritas na douta acusação, e menos da se pode concluir que foi ele quem danificou o veiculo automóvel da assistente;

31ª - Mostram-se incorrectamente julgados os pontos 1° (na parte em que dá como provado que "estando a assistente a chegar a casa, viu o arguido, seu cunhado, sair de perto do terreno"), 2º, 3º (na parte em que da como provado que "A assistente estranhando a atitude do arguido"), 4° (na parte em que se afina que "Os danos … foram provocados pelo arguido") 8º, 9º e 10° dos Factos Provados.

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alegaram, nomeadamente os depoimentos das testemunhas citadas, conjugados com as regras de experiência comum, com o auto de denúncia e com as declarações da testemunha M. L. prestadas em sede de inquérito e que aqui, por brevidade, se dão por integralmente reproduzidas para todos os efeitos legais.

NESTES TERMOS, e sempre com o douto suprimento de V.EX.ªs, deverá ser concedido inteiro provimento ao presente recurso, anulando o julgamento por inadmissibilidade da (nova) acusação deduzida ou absolvendo o arguido com todas consequências legais, desse modo se fazendo inteira e sã

JUSTIÇA!»

3. A Exma. substituta do Procurador Adjunto na primeira instância respondeu ao recurso,

entendendo que a sentença recorrida deverá ser mantida nos seus precisos termos, porquanto, por um lado, não se verificam quaisquer nulidades insanáveis de que cumpra conhecer, uma vez que a assistente cumpriu o prazo de 10 dias a que alude o art. 285º do Código de Processo Penal e, ademais, as pretensões alegadas pelo arguido já foram apreciadas por decisões transitadas em julgado, sendo que também na decisão instrutória houve pronúncia quanto ao alegado, decisão essa que, atento o seu carácter irrecorrível, não pode agora ser sindicada. Por outro lado, entende que é por demais profícua a fundamentação da sentença ora em crise, explanando os motivos que levaram o tribunal a formular o juízo de atribuição de credibilidade às declarações da assistente e aos depoimentos das testemunhas de acusação e, inversamente, de descredibilização e

implausibilidade da versão narrada pelo arguido, tendo a prova sido apreciada criticamente, em obediência ao princípio da livre apreciação, de acordo com as regras da experiência.

4. Neste Tribunal da Relação, a Exma. Procuradora-Geral Adjunta emitiu parecer, referindo que, relativamente à primeira parte das conclusões, para além de a questão já se encontrar decidida e transitada, se o arguido entendia que a decisão instrutória o tinha pronunciado por factos que não constavam da acusação particular, podia e devia ter suscitado a sua nulidade nos termos do art. 308º do Código de Processo Penal, o que não fez, pelo que não pode, agora, pretender ressuscitá-la e fazer com que seja apreciada fora da sede própria. Quanto ao mais, defende que o arguido limita-se a discordar frontalmente da forma como o tribunal formou a sua livre convicção e valorou a prova produzida em audiência, que esclareceu de maneira bastante fundamentada, não tendo tido dúvidas que os factos ocorreram conforme os considerou provados. Assim, conclui pelo não provimento do recurso.

5. No âmbito do disposto no art. 417º, n.º 2, do Código de Processo Penal, o arguido respondeu a esse parecer, mantendo o que alegou e concluiu na sua motivação, reforçando, porém, que não está a atacar a decisão judicial de 02 de março de 2015 nem a decisão instrutória, antes a alegar que foi julgado e condenado com base numa acusação nova, que é nula pelos fundamentos invocados, sendo esta a questão que é objeto do recurso e que ainda não transitou em julgado. 6. Após exame preliminar, o processo foi presente à conferência, por o recurso dever ser aí julgado, de acordo com o disposto no art. 419º, n.º 3, al. c), do citado código.

II.FUNDAMENTAÇÃO 1. QUESTÕES A DECIDIR

Sendo entendimento pacífico que o âmbito dos recursos é delimitado pelas conclusões formuladas na motivação, sem prejuízo das questões de conhecimento oficioso,(1) no presente recurso,

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atentas as conclusões extraídas pelo recorrente da respetiva motivação, são as seguintes as questões a decidir:

a) - Saber se o facto de o arguido ter sido julgado pelos factos descritos na acusação particular deduzida a 04 de maio de 2015 (fls. 209 e ss.) consubstancia uma nulidade ou qualquer outro vício processual, com consequências na sua condenação.

b) - Saber se houve erro de julgamento. 2. DA SENTENÇA RECORRIDA

2.1 - O tribunal a quo considerou provados os seguintes factos (transcrição):

«1.º - No dia 17 de Abril de 2013, pelas 22:40 horas, estando a assistente a chegar a casa, viu o arguido, seu cunhado, a sair de perto do terreno onde estaciona os seus veículos automóveis; 2.º - O arguido ao ver a assistente apressou-se a abandonar o local, apressando o passo, tendo até deixado aberto o portão de acesso ao referido terreno;

3.º - A assistente, estranhando a atitude do arguido, entrou no dito terreno, tendo-se deparado com a sua viatura Jeep Grand Cherokee, matricula …, danificada;

4.º - Os danos verificados na aludida viatura foram provocados pelo arguido, com um objecto de características não apuradas e em consequência de desavenças familiares;

5.º - Tais danos consubstanciam-se em vários riscos no capôt, pára-choques (frente) e porta da frente esquerda, cuja reparação importará um custo de €1.025,01;

6.º - Nos momentos antecedentes a ter estacionado o seu veículo automóvel, o mesmo não continha qualquer risco;

7.º - O acesso ao referido terreno encontra-se condicionado pela existência de um portão; 8.º - O comportamento do arguido foi realizado no seguimento de desavenças familiares e com clara e inequívoca intenção de danificar a viatura propriedade da assistente, sua cunhada, o que conseguiu;

9.º - Bem sabia o arguido que tal comportamento não lhe era permitido por lei, todavia mesmo assim agiu com a intencionalidade descrita;

10.º - Com a conduta perpetrada pelo arguido e em face dos verificados danos na sua viatura, a assistente sentiu-se bastante triste e desgostosa;

- Mais se provou relativamente às condições socio-económicas do arguido que:

11.º - Na comunidade onde reside o arguido é tido como uma pessoa respeitada e respeitadora; 12.º - No exercício da sua actividade profissional o arguido aufere rendimentos de cerca de €725,00 mensais, sendo a sua esposa funcionária pública, auferindo o equivalente ao salário mínimo

nacional;

13.º - Suporta um empréstimo com a habitação no valor mensal de €250,00, bem como outras despesas com os estudos da filha do casal;

14.º - Possui o 4º ano de escolaridade;

- Quanto aos antecedentes criminais provou-se que: 15.º - O arguido não possui antecedentes criminais.»

2.2 - O tribunal recorrido considerou não provados os seguintes factos (transcrição):

«1 – Que nos dias subsequentes ao evento descrito a assistente tivesse circulado com a viatura danificada;

2 – Que a circunstância de ter ficado privada da viatura a fim da mesma ser reparada, tenha causado ansiedade e tristeza à assistente;»

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2.3 - O Exmo. Juiz a quo explicitou assim o processo de formação da sua convicção (transcrição): «O Tribunal formou a sua convicção na análise crítica da prova produzida e examinada em

audiência de julgamento, de acordo com a sua livre convicção e as regras da experiência comum como impõe o art. 127º do CPP. Não olvidando que foram objecto de atenta análise e ponderação, com respeito pelo princípio da livre apreciação da prova e sem postergar o princípio “in dubio pro reo”, os seguintes elementos que contribuíram para formar, para além de qualquer dúvida razoável, a convicção positiva deste Tribunal.

Nesse sentido, o arguido, prestando declarações, começou por negar peremptoriamente a prática dos factos que lhe são imputados pela acusação deduzida pela assistente. Sustentando que, no dia e hora em referência, encontrava-se a cerca de 02 km de distância do local, a efectuar

determinadas obras na habitação da testemunha J. C.. E, pese embora confirme a existência de desavenças familiares e a ocorrência de uma discussão entre a esposa e a ofendida no dia em causa, reafirma não ter estado no local, onde, de resto, já não vai há cerca de 08 anos a esta parte. Por seu turno, a assistente M. M., não tendo presenciado directamente a descrita actuação do arguido, referiu que ao chegar à habitação da sua progenitora, reparou na presença daquele nas proximidades, a sair do portão da dita habitação. E, logo foi confrontada pela sua irmã M. L. que aguardava a sua chegada ao local e que lhe relatou ter visto o arguido a circundar o seu veículo automóvel nos momentos anteriores. Então, refere ter-se dirigido ao seu veículo e apenas reparado na existência de “raspas” de tinta no capô, em face da diminuta visibilidade do local. Contudo, no dia seguinte visualizou diversos riscos no capô, na porta da frente e guarda-lamas do veículo. Ademais, atribui a conduta do arguido a determinadas desavenças familiares existentes há vários anos, sendo que no dia em causa, no período da manhã, ocorrera mais uma discussão entre ela e a esposa do arguido.

A testemunha A. O., amigo da assistente, não tendo presenciado os factos em discussão,

confirmou ter visto o veículo da ofendida M. M. com diversos riscos na porta e no capô, que ainda hoje se mantêm, pois a assistente ainda não procedeu à sua reparação. Assegurando ainda os sentimentos de tristeza e desgosto por aquela patenteados face à elevada estima que tem pelo citado veículo.

Por sua vez, a testemunha M. L., irmã da assistente e cunhada do arguido, prestou um depoimento que se revelou isento, coerente e credível, de modo a criar na convicção do Tribunal um juízo de prognose positivo sobre a ocorrência dos factos tal como descritos. E, tornou-se fundamental não só pelos conhecimentos que revelou possuir mas, sobretudo, pela assertividade do seu depoimento e pela sua corroboração, nos pontos essenciais, pelo relato efectuado pela ofendida. Na verdade, confirmando a sua presença no local, no dia e hora referido, aguardando a chegada da sua irmã, assistiu ao arguido a entrar no espaço onde a assistente guarda os seus veículos, circulando à volta da dita viatura, enquanto ouvia um “chiar” de algo a riscar o veículo. Nesse instante e perante a chegada da assistente, afirmou que o arguido fugiu apressadamente do local. Com isto, reafirma não ter qualquer dúvida quanto à presença do arguido no local, circulando à volta da dita viatura, com comportamentos suspeitos que, ulteriormente, se vieram a confirmar com os verificados danos no veículo. No mais, acrescentou que, desde logo, achou estranha a presença do arguido no local pois há alguns anos que os familiares não têm contacto directo. Por último, para além de ter confirmado os danos verificados na pintura do veículo, assegurou também os sentimentos de tristeza e desgosto patenteados pela assistente perante o sucedido.

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confirmaram os danos verificados no veículo e, bem assim, os sentimentos denotados pela assistente com o evento descrito.

De outro modo, apresentaram-se as testemunhas J. C. e M. I., respectivamente amigo e esposa do arguido, os quais prestaram depoimentos que se revelaram vagos e inconsistentes, para infirmar o juízo de credibilização que acima se atribuiu aos depoimentos da citada M. L. e da assistente. Com efeito, o citado J. C., sustentou que no dia em causa o arguido se encontrava a realizar

determinados trabalhos de construção civil na sua habitação, onde se manteve até cerca das 23/24horas. E, durante esse referido período de tempo, reafirma que aquele não se ausentou do local, nem mesmo por breves instantes. Com isto pretendeu assegurar a efectiva presença e permanência do arguido na sua habitação. Contudo, fê-lo de um modo aparentemente ensinado e sem sustentação bastante para suportar um juízo de dúvida perante a aparente normalidade dos factos ocorridos há cerca de 03 anos atrás e, bem assim, porquanto durante o referido período temporal não esteve em permanência com o arguido.

Por sua vez, a testemunha M. I., esposa do arguido, prestou um depoimento que se revelou nitidamente comprometido com a versão apresentada por aquele. Uma vez que, de modo

insistente, procurou afastar a presença do arguido do local e atribuir a razão de ser deste processo a uma alegada “vingança”, perpetrada pela assistente com o intuito de os prejudicar. E, tão

inconsistente foi que, ela própria e ao contrário do que o arguido afirmou, negou que nesse dia tivesse ocorrido uma discussão entre si e a assistente no local da feira semanal.

Deste modo, foi perante a assertividade dos depoimentos prestados pela assistente e pela citada M. L. que o Tribunal concluiu pelo juízo positivo quanto à concreta actuação do arguido no dia em causa. A qual foi certamente motivada pela discussão ocorrida no período da manhã entre a sua esposa e a ofendida. Não olvidando que parte da prova produzida em julgamento evidenciou conhecimentos directos e reveladores da presença do arguido no local, com comportamentos suspeitos perante a viatura da assistente que, em momento temporal posterior mas continuo, apresentou diversos estragos ao nível da pintura.

Mais se valorou o teor do auto de denúncia de fls. 3 e 4 5, relatório fotográfico de fls. 36 a 40, certidão de fls. 57, 58, 69 e orçamento de fls. 103.

Os factos relativos ao pedido de indemnização civil formulado foram considerados assentes com base na citada prova documental, bem como, no teor dos depoimentos supra descritos.

Os elementos considerados provados e relativos aos elementos intelectual e volitivo do dolo concernente à conduta do arguido foram considerados assentes a partir do conjunto de circunstâncias de facto dadas como provadas supra, já que o dolo é uma realidade que não é apreensível directamente, decorrendo antes da materialidade dos factos analisada à luz das regras da experiência comum.

As condições socio-economicas do arguido resultaram do teor das suas declarações que, nesta parte, se revelaram credíveis.

A inexistência de antecedentes criminais por parte do arguido proveio do teor do certificado de registo criminal junto a fls. 376 dos autos.

Por último, socorreu-se, também, o Tribunal, das regras da experiência comum, válidas ao nível da convicção, conforme supra se referiu.

Os factos não provados resultaram da insuficiência de prova a seu respeito ou de prova de circunstancialismo diverso, nos termos constantes da fundamentação que antecede.» 3. APRECIAÇÃO DO RECURSO

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3.1 - Da nulidade ou outro vício processual derivado de o arguido ter sido julgado pelos factos descritos na acusação particular deduzida a 04 de maio de 2015 (a fls. 209 e ss.)

Nas conclusões 1ª a 15ª, alega o recorrente que a acusação particular deduzida pela assistente em 04 de maio de 2015 (junta a fls. 198 e ss., com originais juntos a fls. 209 e ss.), com base na qual foi julgado e condenado, se trata de uma “nova acusação”, com um conteúdo distinto da primitiva que havia sido formulada, bem como que foi apresentada para além do prazo legal de 10 dias, na sequência da notificação que lhe foi feita para o efeito, o que, em seu entender

consubstancia uma nulidade, que invoca.

Subsidiariamente, na conclusão 16ª, invoca que, mesmo que o julgamento tivesse incidido sobre a primeira acusação, ainda assim estaríamos perante uma situação desconforme à lei, que sempre importaria reparar.

Por fim, na conclusão 17ª, alega o recorrente que a retificação da primitiva acusação, com

fundamento em nulidade por falta de indicação das disposições legais aplicáveis, não poderia ter sido ordenada pelo juiz de julgamento, por tal nulidade não ser sanável, devendo antes a acusação ter sido rejeitada por ser manifestamente infundada, nos termos do art. 311º, n.ºs 2 e 3, do Código de Processo Penal.

3.1.1 - Para a apreciação destas questões importa ter presentes os seguintes desenvolvimentos processuais relevantes, que se retiram dos autos:

- Por despacho de 06 de março de 2014, o Ministério Público determinou a notificação da

assistente, nos termos do art. 285°, n.ºs 1 e 2 do Código de Processo Penal, para, em dez dias, querendo, deduzir acusação particular pelo crime de dano denunciado, p. e p. pelo art. 212º, n.º 1, do Código Penal, atenta a sua natureza particular por força do disposto no art. 207º, n.º 1, al. a), aplicável ex vi do art. 212º, n.º 4, do mesmo código (fls. 93).

- Em 12 e março de 2014, a assistente deduziu acusação particular contra o arguido, imputando-lhe a prática de um crime de dano (fls. 97 a 98).

- Por despacho de 31 de março de 2014, o Ministério Público acompanhou essa acusação particular (fls. 106).

- Remetidos os autos para julgamento, em 02 de junho de 2014 a Exma. Juíza recebeu a dita acusação particular, pelos factos e incriminação nela referidos, tendo posteriormente designado data para a audiência (fls. 116 a 118 e 145 a 146).

- No início desta, em 02 de março de 2015, o Ministério Público, promoveu que fosse declarada a nulidade da referida acusação particular, prevista nos art.s 283º, n.º 3, al. c), e 120º, n.º 1, ambos do Código de Processo Penal, por não conter as disposições legais aplicáveis aos factos nela descritos, e que, em consequência, se retificasse a mesma, aditando-lhe a disposição legal em conformidade (fls. 187).

- Após pronúncia da assistente e do arguido sobre o teor dessa promoção, foi de imediato

proferido despacho, exarado em ata, a declarar nula a acusação particular nos termos do disposto artigos 285º, 283°, n.º 3, al. c), e 120º, n.º 1, do Código de Processo Penal, bem como a determinar que lhe fosse aditado que o arguido cometeu um crime de dano p. e p. pelos art.s 212º, n.ºs 1 e 4, e 207º, n.º 1, al. a), ambos do Código Penal, a ordenar que se retificasse em local próprio e que, após trânsito, os autos fossem remetidos aos Serviços do Ministério Público para os efeitos tidos por convenientes, nomeadamente, para, querendo, deduzir acusação nos termos do artigo 285º, n.º 4 do Código de Processo Penal, em face das normas legais aditadas à acusação particular, e bem assim, para notificação do arguido nos termos e para os efeitos do artigo 286º do mesmo diploma, por o mesmo não ter renunciado ao prazo para requerer a abertura de instrução (fls. 188 e 189).

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- Desde despacho não foi interposto qualquer recurso.

- Remetido o processo aos Serviços do Ministério Público, em 24 de abril de 2015 o magistrado titular do mesmo determinou a notificação da assistente para, querendo, deduzir acusação particular relativamente ao aludido crime de dano (fls. 192).

- Em 04 de maio de 2015, a assistente deduziu acusação particular contra o arguido, imputando-lhe a prática de um crime de dano, p. e p. pelo art. 212º, n.º s 1 e 4, com referência ao art. 207º, n.º 1, al. a), ambos do Código Penal (fls. 198 a 200, com originais juntos a fls. 209 a 211).

- Em 06 de maio de 2015, o Ministério Público proferiu despacho de encerramento do inquérito, no qual acompanhou essa acusação particular e deduziu ainda acusação pública contra o arguido, a imputar-lhe a prática de um crime de introdução em lugar vedado ao público, p. e p. pelo art. 191º do Código Penal (fls. 203 a 204).

- Nessa sequência, o arguido requereu a abertura de instrução, alegando, além do mais, que a Exma. Juíza de julgamento não podia ter ordenado a remessa dos autos aos serviços do Ministério Público (em vez de simplesmente ter rejeitado a acusação e ordenado, em consequência, o

arquivamento dos autos como se impunha) mas que, tendo-o feito, não podiam o Ministério Público e a assistente ter proferido nova acusação por se ter precludido, pelo decurso do prazo, o direito de deduzirem (nova) acusação, pugnando, assim, pela extinção do procedimento criminal pelos factos imputados nessa nova acusação particular (fls. 238 a 243).

- No final da instrução, foi proferido despacho de não pronúncia do arguido pelo crime de introdução em lugar vedado ao público, pronunciando-o apenas pelos factos e disposições normativas constantes da acusação particular de fls. 209 e ss., considerando-a integralmente reproduzida (fls. 278 a 292).

- Remetidos os autos para julgamento, foi proferido despacho, nos termos do art. 311º do Código de Processo Penal, a designar data para julgamento do arguido pelos factos constantes da

acusação particular deduzida a fls. 209 e ss., com o enquadramento jurídico-penal aí referido, que foi dado por integralmente reproduzida (fls. 297 a 298).

- O arguido apresentou contestação, invocando, nomeadamente, que o iter processual padece de vários vícios, porquanto nunca poderia a Exma. Juíza de julgamento ter remetido os autos para o Ministério Público, mas apenas rejeitar a acusação por ser manifestamente infundada, por ser a única solução compatível com o princípio do acusatório e do contraditório, uma vez que da nova acusação constam factos novos, tratando-se de uma “nova acusação”, traduzindo-se numa

alteração substancial, e que, tendo sido ordenada essa remessa dos autos, não podia a assistente e o Ministério Público ter proferido nova acusação, já que havia sido há muito ultrapassado o prazo perentório de 10 dias constante dos art.s 283º, 285º e 276º, todos do Código de Processo Penal, contado da primeira notificação que lhe foi feita para o efeito, concluindo a pedir a sua absolvição (fls. 320 a 324).

- Sobre esta questão foi proferido despacho com o seguinte teor:

«O âmbito das alegadas vicissitudes processuais invocadas pelo arguido já foram devidamente apreciadas em sede de decisão instrutória que confirmou a acusação particular contra aquele deduzida, no que ao crime de dano concerne. Não olvidando ainda que o despacho de fls. 188 e 189 transitou em julgado, não tendo o arguido recorrido do mesmo.

E, avaliando os termos processuais, considerou a decisão instrutória que ao Ministério Público estava vedada a possibilidade de deduzir a acusação pública de fls. 203, razão pela qual foi o arguido não foi pronunciado pelo crime de introdução em lugar vedado ao público.

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resta que inferir, nesta parte, o requerimento do arguido, por falta de fundamento legal, o que se decide.» (fls. 349).

- O arguido não interpôs recurso desse despacho, antes tendo apresentado novo requerimento, a discordar das conclusões nele expressas, uma vez que tiveram como base e fundamento o trânsito em julgado do despacho de fls. 188 e 189, nunca se fazendo uma apreciação de fundo sobre as invocadas vicissitudes, mormente quanto à extemporaneidade da nova acusação particular (art. 285º do Código de Processo Penal) e à preclusão dos prazos constantes dos art.s 283º e 276º do mesmo código, vicissitudes essas que em nada se relacionam com o dito despacho e sobre as quais nada se refere na decisão instrutória, pelo que as mesmas não foram analisadas nos presentes autos, devendo sê-lo, por a sua procedência obstar ao conhecimento do mérito da causa, mais concluindo como na contestação (fls. 361 a 365, com originais juntos a fls. 366 a 370). - Sobre esse requerimento foi proferido despacho, em 14 de março de 2016, no início da audiência de julgamento, exarado na respetiva ata, com o seguinte teor:

«Sobre a questão suscitada pelo arguido em sede contestação, o tribunal já se pronunciou, nos termos do despacho de fls. 349 dos autos. Sendo que nessa sede se avaliou a tramitação processual dos autos e aí se consignou a inexistência de qualquer irregularidade insanável que importa apreciar. De resto não configurando o despacho de fls. 188 e 189, qualquer nulidade insanável e tendo o mesmo transitado em julgado, encontra-se vedada ao arguido a sindicância do mesmo no presente momento, nos termos já referenciados.

No mais, no que concerne às alegadas violações dos prazos previsto nos artsº 276°, 283° e 285°, se em relação aos dois primeiros, tais prazos têm uma natureza meramente indicativa, cuja fundamentação, nesta parte, se reproduz aquela que foi exarada pela Digna Procuradora do Ministério Público a fls. 374 e 375, já em relação ao prazo a que alude o art° 285°, cumpre mencionar que a assistente deu cumprimento ao prazo ali estabelecido, no tempo e do modo constante dos autos. Tendo a concretização posterior da acusação particular, sido cumprida após despacho e prazo concedido para o efeito.

Não olvidando ainda que a presente acusação pelo crime de dano foi sindicada em sede de instrução, tendo o arguido sido devidamente pronunciado nos termos constantes dos autos. Assim, repita-se, não antevemos a existência de qualquer nulidade insanável, nem mesmo a violação de qualquer direito de defesa do arguido, que os exerceu de modo cabal e

tempestivamente, requerendo a abertura de instrução e apresentando a contestação nos termos constantes dos autos.

Em face de tudo o exposto, indefere-se o requerimento apresentado pelo arguido a fls. 366 a 370, remetendo-se a decisão sobre a sua eventual condenação como litigante de má fé, para sede de decisão sobre o mérito da causa.» (fls. 392 a 393).

- O arguido não recorreu deste despacho, apenas tendo recorrido da sentença proferida a 09 de maio de 2016, que o condenou pela prática do crime de dano objeto do despacho de pronúncia, nos termos constantes do presente recurso, interposto em 08 de junho de 2016.

3.1.2 - Posto isto, analisemos as questões suscitadas pelo recorrente nas conclusões 1ª a 18ª. Começando pela questão relativa à impossibilidade de a Exma. Juíza de julgamento ter ordenado a sanação da nulidade da acusação particular, aditando-lhe as disposições legais aplicáveis aos factos nela descritos, devendo antes ter rejeitado tal acusação (conclusões 17ª e 18ª),

concordamos com a argumentação desenvolvida pelo recorrente, aliás, na esteira de várias decisões dos tribunais superiores.(2)

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citados doravante sem menção de origem, consagra o princípio da legalidade e da taxatividade das nulidades, ao dispor, no seu n.º 1, que “a violação ou a inobservância das disposições da lei do processo penal só determina a nulidade do ato quando esta for expressamente cominada na lei”. Existem, no entanto, dois tipos de nulidades, distintas quanto ao seu regime de conhecimento e aos seus efeitos.

Por um lado, as nulidades insanáveis ou absolutas, que devem ser oficiosamente declaradas em qualquer fase do procedimento, e que são as expressamente previstas no art. 119º e as que como tal forem cominadas em outras disposições legais.

Por outro lado, as nulidades relativas ou dependentes de arguição, que são todas as diversas das referidas naquele artigo, e ficam sujeitas à disciplina prevista nos art.s 120º e 121º.

Significa isto que, não qualificando a lei a nulidade como insanável, é a mesma dependente de arguição, atento o princípio da subsidiariedade da nulidade sanável consagrado no art. 120º, n.º 1. É esse o caso da nulidade em apreço nos autos, relativa à primeira acusação particular deduzida pela assistente (a fls. 97 a 98), uma vez que a mesma não continha as disposições legais relativas à incriminação dos factos nela descritos, o que, nos termos do art. 283º, n.º 3, al. c), aplicável à acusação particular por força da remissão do art. 285º, n.º 3, constitui uma nulidade.

Nulidade esta que, não sendo considerada pela lei como insanável, é dependente de arguição (sanável ou relativa).

Assim, o interessado que pretenda arguir tal nulidade, terá de o fazer, regra geral, no prazo de 10 dias previsto no art. 105º, n.º 1, contado da data em que tiver sido notificado para qualquer termo posterior do processo ou tiver intervindo em algum ato nele praticado, apercebendo-se da nulidade cometida, e, nos casos particulares previstos no art. 120º, n.º 3, nos momentos processuais aí referidos.

Quanto aos respetivos efeitos, a declaração da nulidade sanável torna inválido o ato em que se verificar, bem como os que dele dependem e possam ser afetados, devendo a decisão determinar quais os atos que passam a considerar-se inválidos e ordenar, sempre que necessário e possível, a sua repetição, aproveitando-se todos os que ainda puderem ser salvos do efeito da nulidade (art. 122º).

De acordo com este regime, a inobservância, na acusação, dos requisitos enunciados nas várias alíneas do n.º 3 do art. 283º, onde se inclui a indicação das disposições legais aplicáveis (al. c), constituiu uma nulidade (sanável) que, segundo o respetivo regime, tem de ser primeiro arguida, em local e tempo próprios, ou seja, perante o próprio magistrado que deduziu a acusação, cabendo reclamação hierárquica da decisão.(3)

Não o tendo sido, consolida-se, assim transitando o processo para a fase de julgamento ou de instrução se no processo comum esta tiver sido requerida.

Porém, na fase de julgamento, o art. 311º, n.º 2, al. a), permite ao juiz, quando o processo é remetido para julgamento sem ter havido instrução, “rejeitar a acusação, se a considerar

manifestamente infundada”, definindo o nº 3 do mesmo preceito as situações em que a acusação pode ser considerada manifestamente insuficiente, entre as quais figura, na al. c), a omissão das disposições legais aplicáveis.

Este n.º 3, aditado pela Lei n.º 59/98, de 25 de agosto, permite o conhecimento oficioso desse vício estrutural da acusação, rejeitando-a por manifestamente infundada, vício esse que, como vimos, também implica a nulidade da acusação nos termos do art. 283º, n.º 3, al. c).

Assim, não tendo o interessado arguido a nulidade da acusação ainda na fase de inquérito, e transitando o processo para a fase de julgamento, cabe ao juiz o controlo jurisdicional dos vícios

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estruturais da acusação, rejeitando-a por ser manifestamente infundada, por não ter condições de viabilidade, estando condenada ao insucesso.

O que não pode é ordenar a sanação da referida nulidade, por estar ultrapassado o momento processual próprio para a sua arguição, mostrando-se, pois, sanada.

Ou seja, a falta de indicação na acusação das disposições legais aplicáveis pode, em fase de inquérito, ser atacada por via da arguição da respetiva nulidade dessa peça processual pelo respetivo interessado. Não o sendo, e transitando o processo para a fase de julgamento, sem que tenha sido requerida a abertura de instrução (como sucedeu relativamente à acusação em apreço), esse vício apenas pode levar à rejeição da acusação por manifestamente inviável nos termos do artº 311º, n.ºs 2, al. a), e 3, al. c), e já não à sanação da nulidade.

No caso vertente, a Exma. Juíza, no início da audiência de julgamento, a requerimento do

Ministério Público e ao abrigo do disposto nos art.s 285º, 283º, n.º 3, al. c), e 120º, n.º 1, declarou nula a acusação particular, por não conter as disposições legais aplicáveis, ordenando que lhe fossem aditados os artigos incriminadores dos factos nela descritos e que se procedesse à pertinente retificação em local próprio.

Porém, pelas razões supra expostas, estava-lhe vedado proceder dessa forma, mostrando-se a referida nulidade já sanada, por não ter sido arguida no tempo e no lugar próprios, restando apenas ao juiz de julgamento a possibilidade de rejeitar a acusação, por ser manifestamente infundada. Na verdade, na fase de julgamento, a falta de indicação das disposições legais aplicáveis surge, não como causa de nulidade da acusação, mas sim como motivo de rejeição da mesma, por ser manifestamente infundada, como resulta do disposto no art. 311º, n.ºs 2, al. a) e nº 3, al. c). Sucede que, não tendo o arguido interposto recurso do referido despacho proferido pela Exma. Juíza de julgamento, transitou o mesmo em julgado, não lhe sendo lícito suscitar novamente a questão no presente recurso.

Independentemente do respetivo acerto, foi ordenada a sanação da nulidade da acusação já em fase de julgamento, com o aditamento das disposições legais aplicáveis, contra o que o arguido não reagiu no momento processual próprio, abstendo-se de interpor o competente recurso dessa decisão, a qual se encontra a coberto da força do caso julgado, desta forma improcedendo a questão suscitada nas conclusões 17ª e 18ª.

Acresce que, nesse despacho mais se ordenou a remessa dos autos aos Serviços do Ministério Público para os efeitos tidos por convenientes, nomeadamente para o respetivo Magistrado, querendo, deduzir acusação nos termos do art. 285º, n.º 4, em face das normais legais aditadas à acusação particular, e bem assim para notificação do arguido nos termos e para os efeitos do art. 286º, ou seja, querendo, requerer a abertura de instrução.

No entanto, extravasando o âmbito dessa remessa do processo, o Magistrado do Ministério Público, indevidamente, determinou a notificação da assistente para, querendo, deduzir acusação particular, o que ele fez, a fls. 209 e ss., dentro do prazo legal, desta feita indicando já as

disposições legais aplicáveis aos factos imputados ao arguido, acusação essa que foi acompanhada pelo Ministério Público.

De acordo com o teor da referida decisão judicial, carecia de sentido essa notificação ordenada pelo Ministério Público, com vista à dedução de nova acusação particular, uma vez que a Exma. Juíza havia ordenado a sanação da primitiva acusação, aditando-lhe as disposições legais aplicáveis e ordenando a pertinente retificação no texto da mesma. Ou seja, a acusação era a inicialmente deduzida, retificada na sequência da sanação da nulidade de que padecia.

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mediante a invocação, perante o Magistrado do Ministério Público, nos termos do art. 123º, da irregularidade processual em que se traduziu a sua apresentação indevida, pelo que ficou a mesma sanada.

O regime regra da declaração da irregularidade é o de que esta seja feita a requerimento do interessado, nos estritos termos e prazos previstos na lei, ficando sanada se não for

tempestivamente arguida.

A arguição da irregularidade está sujeita ao apertado regime de tempestividade previsto no n.º 1 do citado art. 123º. Assistindo o interessado à prática do ato a que se refere a irregularidade, terá de a invocar no próprio ato. Se a este não tiver assistido, terá de a invocar nos três dias seguintes a contar daquele em que tiver sido notificado para qualquer termo do processo, como foi o caso, ao ser o arguido notificado da acusação, ou intervindo em algum ato nele praticado.

Assim não procedeu o arguido, já que se limitou a requerer a abertura da instrução, em cujo termo veio a ser pronunciado pelos factos e disposições normativas constantes da segunda acusação particular, pelos quais foi submetido a julgamento e condenado.

Apesar do carácter irrecorrível dessa decisão instrutória, por ter pronunciado o arguido pelos factos descritos na acusação, não estava este impedido de arguir qualquer irregularidade processual de tal decisão, carecendo de a fazer perante a entidade que a proferiu, de acordo com o regime temporal supra referido, sob pena de se ter tal irregularidade como sanada.

As irregularidades devem ser previamente suscitadas perante o tribunal que as cometeu, que as apreciará em primeira instância, só havendo recurso da decisão que delas conhecer.(4)

Sustenta agora o recorrente, no presente recurso da sentença condenatória, que foi julgado e condenado com base numa nova acusação, que é extemporânea, por ter sido deduzida fora do prazo perentório de dez dias previsto no art. 285º, n.º 1.

Não lhe reconhecemos, porém, razão.

Em primeiro lugar, porque, tendo sido requerida a abertura de instrução e tendo o arguido sido pronunciado, o objeto do processo submetido a julgamento passou a ser conformado pelo despacho de pronúncia e não pela acusação particular.

Por outro lado, a acusação relativamente à qual o arguido requereu a abertura de instrução e por cujos factos e qualificação jurídica foi pronunciado, é, indubitavelmente, a que foi deduzida em segundo lugar pelo assistente (a fls. 209 e ss.), dentro do prazo de dez dias subsequente à notificação que lhe foi feita para o efeito.

Ainda que tal notificação não devesse ter sido ordenada pelo Ministério Público e,

consequentemente, não devesse ter sido apresentada uma segunda acusação particular, o certo é que, como vimos, essas questões mostram-se ultrapassadas por falta da devida e oportuna reação do arguido, que se quedou inerte, com a consequente sanação das eventuais irregularidades processuais daí decorrentes, sendo indiscutível que tais vícios não consubstanciam qualquer nulidade, muito menos insanável, por essa qualificação não lhes ser atribuída legalmente. Como tal, sempre improcederiam as questões suscitadas nas conclusões 1ª a 16ª.

De todo o modo, também essas questões já se encontram a coberto da força do caso julgado, por terem sido objeto de apreciação e decisão no processo, a requerimento do arguido, sem que este tenha interposto recurso dos respetivos despachos.

Na verdade, na sua contestação, o arguido invocou, nomeadamente, que nunca poderia a Exma. Juíza de julgamento ter remetido os autos para o Ministério Público, mas apenas rejeitar a

acusação particular por ser manifestamente infundada, e que, tendo sido ordenada essa remessa, não podia a assistente e o Ministério Público ter proferido nova acusação, da qual constam factos

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novos, já que havia sido há muito ultrapassado o prazo perentório de dez dias para o efeito. Sobre essas questões incidiu despacho judicial de indeferimento da pretensão do arguido, transcrito supra, do qual o mesmo não recorreu, tendo-se limitando a apresentar um novo

requerimento, afirmando discordar das conclusões expressas em tal despacho, concluindo como na contestação.

Sobre tal requerimento incidiu novo despacho de indeferimento, igualmente transcrito supra, relativamente ao qual, mais uma vez, o arguido não interpôs qualquer recurso.

Significa isso que as questões agora novamente invocadas no presente recurso já foram objeto de decisões transitadas em julgado, não sendo legítimo ao recorrente voltar a suscitá-las.

Pelo exposto, neste segmento, improcede o recurso. 3.2 – Do erro de julgamento

Subsidiariamente, o recorrente invoca a existência de erro de apreciação da matéria de facto, por o tribunal de primeira instância ter dado como provado, em suma, ter sido ele a entrar no terreno onde a assistente tinha estacionado o seu veículo automóvel e a causar danos neste último (conclusões 19ª a 32ª).

3.2.1 - A par da invocação dos vícios previstos no art. 410º, n.º 2, al.s a), b) e c) (mediante a

chamada revista alargada), o regime processual penal consagra uma segunda forma de impugnar a matéria de facto, através da invocação de erro de julgamento (impugnação ampla) nos termos previstos no art. 412º, n.ºs 3, al.s a), b) e c), e 4.

Tal erro de julgamento resulta da forma como foi valorada a prova produzida e ocorre quando o tribunal considere provado um determinado facto, sem que dele tenha sido feita prova, pelo que deveria ter sido considerado não provado, ou quando dá como não provado um facto que, face à prova que foi produzida, deveria ter sido considerado provado. O erro de julgamento pressupõe que a prova produzida, analisada e valorada, não podia conduzir à fixação da matéria de facto provada e não provada nos termos em que o foi.

Nesta situação, o recurso visa a reapreciação da prova gravada em primeira instância, impondo-se a sua audição pelo tribunal de recurso. Os poderes de cognição deste último não se restringem ao texto da decisão recorrida (como acontece com os vícios previstos no art. 410º, n.º 2), alargando-se à apreciação do que contém e se pode extrair da prova documentada e produzida em audiência, sempre delimitada pelo recorrente através do ónus de especificação previsto nos n.ºs 3 e 4 do art. 412º.

Todavia, conforme jurisprudência constante,(5) esse recurso da matéria de facto não visa a realização de um segundo e novo julgamento sobre aquela matéria, com base na audição de gravações e na apreciação total do acervo dos elementos de prova produzidos e que serviram de fundamento à decisão recorrida, como se esta não existisse, destinando-se antes a obviar a eventuais erros ou incorreções da mesma na forma como apreciou a prova, na perspetiva dos concretos pontos de facto identificados pelo recorrente. O que se visa é, pois, uma reapreciação autónoma sobre a razoabilidade da decisão do tribunal a quo quanto aos pontos de facto que o recorrente especifique como incorretamente julgados.

Daí que a delimitação desses pontos de facto seja determinante na definição do objeto do recurso, cabendo ao tribunal da relação confrontar o juízo sobre eles que foi realizado pelo tribunal a quo com a sua própria convicção, determinada pela valoração autónoma das provas que o recorrente identifique nas conclusões da motivação.

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suporte na fundamentação da decisão recorrida, avaliando e comparando especificadamente os meios de prova indicados nessa decisão e os meios de prova apontados pelo recorrente e que este considera imporem decisão diversa.

Sendo certo que neste tipo de recurso sobre a matéria de facto (impugnação ampla), o tribunal da relação não se pode eximir ao encargo de proceder a uma ponderação específica e

autonomamente formulada dos meios de prova indicados, deverá fazê-lo com plena consciência dos limites ditados pela natureza do recurso e pelo facto de se tratar de uma apreciação de

segunda linha, a que faltam as importantes notas da imediação e da oralidade de que beneficiou o tribunal a quo.

Precisamente por isso, o recorrente que pretenda impugnar amplamente a decisão sobre a matéria de facto deve cumprir o tríplice ónus de especificação previsto nas alíneas do n.º 3 do citado art. 412º, ou seja, especificar:

a) - Os concretos pontos de facto que considera incorretamente julgados. b) - As concretas provas que impõem decisão diversa da recorrida.

c) - As provas que devem ser renovadas (nos termos do art. 430º, n.º 1, apenas quando se verificarem os vícios da sentença e existam razões para crer que a renovação permitirá evitar o reenvio).

Aquela primeira especificação traduz-se na indicação dos factos individualizados que constam na sentença recorrida e que se consideram incorretamente julgados, só se satisfazendo com a

indicação do conteúdo específico do meio de prova ou de obtenção de prova e com a explicitação da razão pela qual impõe decisão diversa da recorrida.(6)

De acordo com o n.º 4 do art. 412º, quando as provas tenham sido gravadas, as especificações previstas nas al.s b) e c) do número anterior fazem-se por referência ao consignado em ata, nos termos do n.º 2 do art. 364º, devendo o recorrente indicar concretamente as passagens em que se funda a impugnação, cabendo ao tribunal da relação proceder à audição e visualização das

passagens indicadas e de outras que considere relevantes para a descoberta da verdade e boa decisão da causa (art. 412º, n.º 6).

Ao recorrente é, assim, exigível que quando efetue a indicação concreta da sua divergência probatória, fazendo-o para os suportes onde se encontra gravada a prova, remeta para os concretos locais da gravação que suportam a sua tese.(7)

Todas as referidas especificações deverão constar ou poder ser deduzidas das conclusões formuladas (art. 417º, n.º 3).

3.2.2 - No caso concreto, cumprindo o ónus de especificação previsto na al. a) do n.º 3 do art. 412º, o recorrente afirma discordar da apreciação da prova efetuada pelo tribunal a quo relativamente aos factos dados como provados nos pontos 1º (na parte em que refere que "estando a assistente a chegar a casa, viu o arguido, seu cunhado, sair de perto do terreno"), 2º, 3º (na parte em que menciona que "A assistente estranhando a atitude do arguido"), 4º (na parte em que se afirma que "Os danos … foram provocados pelo arguido"), 8º, 9º e 10º, pretendendo que seja dado como não provado, em suma, ter sido ele a estar no local dos factos em apreço e a causar os vários riscos no capô, no para-choques da frente e na porta da frente esquerda do veículo automóvel da assistente. Para demonstrar a imposição de uma decisão diversa da recorrida, dando cumprimento ao ónus de especificação previsto na al. b) do n.º 3 do art. 412º, o recorrente funda a sua impugnação da matéria de facto na seguinte argumentação:

Em primeiro lugar, alegando não ter sido devidamente valorado o depoimento da testemunha J. C. que, ao contrário do consignado na motivação da decisão de facto, foi isento, coerente, assertivo e

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consistente, tendo a testemunha, de forma segura e tranquila, explicado com clareza porque é que tinha a certeza que no dia dos factos o arguido estava em sua casa a trabalhar.

Por outro lado, alega o recorrente que a testemunha M. L. M., irmã da assistente e desavinda com o arguido, seu cunhado, revelou contradições entre o depoimento prestado em audiência e aquele outro que prestou em sede de inquérito e com o qual foi confrontada nos termos do art. 356º, apresentando ainda contradições com as declarações prestadas pela assistente, mais chamando a atenção para o facto de tal testemunha não ter sido mencionada no auto de denúncia nem indicada inicialmente.

Mais invoca o recorrente a incoerência entre, por um lado, as afirmações feitas por essa

testemunha e pela assistente, segundo as quais, no próprio dia dos factos, não conseguiram ver os riscos que o veículo automóvel tinha, mesmo com o auxílio de um telemóvel, por ser de noite, e, por outro lado, o depoimento da testemunha S. F., ao afirmar que, no dia seguinte, foi ver o veículo de noite, com o auxílio de um telemóvel, tendo verificado os danos, depoimento este valorado pelo Exmo. Juiz a quo.

Por outro lado, sustenta o recorrente que, ao contrário do que a sentença recorrida deixa supor, quem tinha motivos para se vingar era a assistente e não o arguido, por ter sido insultada nesse dia na feira pela esposa deste, conforme a assistente afirmou, sendo que a testemunha A. O.

mencionou ter ouvido a esposa do arguido chamar nomes à mãe da assistente e que não ouviu esta última a responder aos insultos.

Alega ainda o recorrente que, conhecendo o horário a que a assistente chegava a casa, se

porventura fosse sua intenção danificar o carro, não se encontraria aí a essa hora, igualmente não havendo explicação para o facto de o mesmo ter de passar pela testemunha M. L., que se

encontrava dentro do seu veículo automóvel estacionado no cruzamento, e, ainda assim, não se ter coibido de prosseguir os seus supostos intentos.

Por fim, o recorrente invoca que o depoimento da testemunha A. O. revela as fragilidades da versão da assistente e da testemunha M. L., porquanto, segundo aquele, a testemunha viu o veículo danificado no dia 14 de abril de 2013, em seja, em data anterior aos factos, e que nessa altura a assistente apenas lhe disse que suspeitava do arguido, quando o tinha visto no local dos factos, sem explicar porque é que suspeitava dele.

O recorrente não indica nas conclusões, por referência ao consignado na ata, as passagens da gravação das declarações da assistente e dos depoimentos das mencionadas testemunhas J. C., M. L., S. F. e A. O. em que se baseia para sustentar a imposição de uma decisão diversa da recorrida. Porém, fá-lo no corpo da motivação, transcrevendo inclusivamente os respetivos

excertos, mais juntando, em anexo, transcrição integral dos depoimentos daquelas duas primeiras testemunhas, permitindo a este tribunal de recurso localizar facilmente e ouvir essas declarações e depoimentos.

Em decorrência do disposto no art. 417º, n.º 3, tais especificações deveriam constar das

conclusões do recurso e, tal não sucedendo, o recorrente poderia ter sido convidado a completar ou a esclarecer as conclusões formuladas.

Não obstante, temos entendido que, se da análise da peça do recurso, se constatar que a

indicação das especificações legais, embora não constando das conclusões, constam do corpo da motivação de forma suficiente para se compreender o móbil do recorrente, não se deverá ser

demasiado formalista ao ponto de atrasar a tramitação de um processo quando existem conclusões e se consegue das mesmas deduzir, mesmo que parcialmente e lançando não do texto da

(18)

vertente, mostrando-se, pois, igualmente cumprido o ónus de especificação previsto na al. b) do n.º 3 do art. 412º.

3.2.3 - Vejamos então se assiste razão ao recorrente.

Da leitura das conclusões e da motivação do recurso constata-se que, em relação aos depoimentos das testemunhas J. C. e M. L., as razões da discordância do recorrente quanto à forma como o tribunal a quo decidiu a factualidade em apreço prendem-se com a circunstância de essa convicção assentar em elementos probatórios que, no seu entender, não permitem dar como provados tais factos, e já não com qualquer discrepância entre o que foi dito por tais testemunha e o que foi considerado provado.

Com efeito, o recorrente sustenta que aquele tribunal valorou indevidamente o depoimento da testemunha M. L. e, por seu lado, não valorou devidamente o depoimento da testemunha J. C., sem alegar que a descrição que a sentença recorrida faz do conteúdo de tais declarações não corresponde ou contraria o que, na realidade, disseram os declarantes. E efetivamente inexiste tal discrepância, porquanto, após audição do registo da prova produzida oralmente, constata-se que nenhuma dessas pessoas prestou declarações contrárias à forma como o Exmo. Juiz a quo

demonstrou tê-las percebido, forma essa cristalinamente vertida na motivação da decisão de facto. O recorrente limita-se a fazer uma leitura, que é sua, de partes selecionadas dos referidos

depoimentos para, a partir de tais elementos, substituir a sua própria convicção à do tribunal recorrido, concluindo pela ausência de prova suficiente quanto aos factos impugnados, ou seja, atacando a decisão factual pela via da credibilidade ou incredibilidade atribuída a esses meios de prova, sem apontar um verdadeiro erro de julgamento, o que se mostra inadequado em termos de impugnação da matéria de facto.

Como refere o Tribunal Constitucional,(8) “a censura quanto à forma de formação da convicção do tribunal não pode assentar, de forma simplista, no ataque da fase final da formação de tal

convicção, isto é, na valoração da prova; tal censura terá de assentar na violação de qualquer dos passos para a formação de tal convicção, designadamente porque não existem os dados objetivos que se apontam na motivação ou porque se violaram os princípios para a aquisição desses dados objetivos ou porque não houve liberdade de formação da convicção.

Doutra forma seria uma inversão da posição das personagens do processo, como seja a de substituir a convicção de quem tem de julgar pela convicção dos que esperam a decisão”.

Consequentemente, a crítica à convicção do tribunal a quo, sustentada na livre apreciação da prova e nas regras da experiência, não pode ter sucesso se se alicerçar apenas na diferente convicção do recorrente sobre a prova produzida.

Com efeito, ao apreciar-se o processo de formação da convicção do julgador, importa ter presente que entre nós vigora o princípio da livre apreciação da prova, consagrado no art. 127º, segundo o qual “salvo quando a lei dispuser diferentemente, a prova é apreciada segundo as regras da experiência e a livre convicção da entidade competente”.

Não significa isso que a atividade de valoração da prova seja arbitrária, pois está vinculada à busca da verdade, sendo limitada pelas regras da experiência comum e por algumas restrições legais. Concedendo esse princípio uma margem de discricionariedade na formação do seu juízo de valoração, o julgador deverá ser capaz de o fundamentar de modo lógico e racional.

A livre apreciação da prova (ou do livre convencimento motivado) não se pode confundir com a íntima convicção do juiz, assente numa apreciação arbitrária da prova, impondo-lhe a lei que extraia delas um convencimento lógico e motivado, avaliadas as provas com sentido de responsabilidade e bom senso.

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Mais se exige que o julgador indique os fundamentos que foram decisivos para a formação da sua convicção, ou seja, os meios concretos de prova e as razões ou motivos pelos quais relevaram ou obtiveram credibilidade no seu espírito. Não basta indicar o concreto meio de prova gerador do convencimento, urgindo expressar a razão pela qual, apoiando-se nas regras de experiência comum, o julgador adquiriu, de forma não temerária, a convicção sobre a realidade de um determinado facto.

Porém, nessa tarefa de apreciação da prova, é manifesta a diferença entre a primeira instância e a segunda, beneficiando aquela da imediação e da oralidade e estando esta limitado à prova

documental e ao registo de declarações e depoimentos.

Sabemos que o julgador deve manter-se atento à comunicação verbal mas também à comunicação não-verbal. Se a primeira ainda é suscetível de ser escrutinada pelo tribunal de recurso mediante a audição das gravações (como foi feito), já se fica impossibilitado de aceder à segunda para

complementar e interpretar a comunicação verbal.

A imediação, que se traduz no contacto pessoal entre o juiz e os diversos meios de prova, podendo também ser definida como “a relação de proximidade comunicante entre o tribunal e os

participantes no processo, de modo tal que aquele possa obter uma perceção própria do material que haverá que ter como base da sua decisão”,(9) confere ao julgador em primeira instância certos meios de apreciação da prova pessoal de que o tribunal de recurso não dispõe.

É essencialmente a esse julgador que compete apreciar a credibilidade das declarações e depoimentos, com fundamento no seu conhecimento das reações humanas, atendendo a uma vasta multiplicidade de fatores que só são apreensíveis mediante o contacto direto com os depoentes na audiência: as razões de ciência, a espontaneidade, a linguagem (verbal e não verbal), as hesitações, o tom de voz, as contradições, etc.

As razões pelas quais se confere credibilidade a determinadas provas e não a outras dependem desse juízo de valoração realizado pelo juiz de primeira instância, com base na imediação e na oralidade, ainda que condicionado pela aplicação das regras da experiência comum.

Assim, embora a reapreciação da matéria de facto esteja igualmente subordinada ao princípio da livre apreciação da prova e sem limitação (à exceção da prova vinculada), no processo de formação da sua convicção, deverá o tribunal da relação ter em conta que dos referidos princípios decorrem aspetos de relevância indiscutível na valoração dos depoimentos pessoais, que melhor são

percetíveis pela primeira instância.

A ausência de imediação determina que o tribunal superior, no recurso da matéria de facto, só possa alterar o decidido pela primeira instância se as provas indicadas pelo recorrente impuserem decisão diversa da proferida (cf. art. 412º, n.º 3, al. b)).

Significa isto que se a decisão factual da primeira instância se baseia numa livre convicção objetivada numa fundamentação compreensível, optando por uma das soluções permitidas pela razão e pelas regras de experiência comum, a fonte de tal convicção, obtida com os benefícios da imediação e da oralidade, apenas pode ser afastada se ficar demonstrado ser inadmissível a sua utilização, pelas mesmas regras da lógica e da experiência comum.

Não basta, pois, que o recorrente pretenda fazer uma revisão da convicção alcançada pelo tribunal recorrido por via de argumentos que permitam concluir que uma outra convicção era possível, sendo imperioso demonstrar que as provas indicadas a impõem. É necessária a demonstração que a convicção obtida pelo tribunal recorrido é uma impossibilidade lógica, uma impossibilidade

probatória, uma violação de regras de experiência comum, uma patentemente errada utilização de presunções naturais, ou seja, que se demonstre não só a possível incorreção decisória, mas a

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imperatividade de uma diferente convicção.

Na realidade, ao tribunal de recurso cabe, sem esquecer as apontadas limitações, analisar o processo de formação da convicção do julgador do tribunal a quo, verificando se os juízos de racionalidade, de experiência e de lógica confirmam ou não o raciocínio e a avaliação feita em primeira instância sobre o material probatório constante dos autos e os factos cuja veracidade cumpria demonstrar, não bastando, para uma eventual alteração, uma diferente convicção ou avaliação do recorrente quanto à prova testemunhal produzida.

Por isso, a decisão recorrida só é de alterar quando for evidente que as provas não conduzem a ela, não devendo ser modificada quando, perante duas versões, o juiz optou por uma,

fundamentando-a devida e racionalmente. Ou seja, o tribunal da relação só pode e deve determinar uma alteração da matéria de facto quando concluir que os elementos de prova impõem uma

decisão diversa e não apenas permitem uma outra decisão.(10)

Em suma, a reapreciação da decisão da primeira instância quanto à matéria de facto, com base em meios de prova com força probatória não vinculativa, deverá ser feita com o cuidado e ponderação necessários, face aos referidos princípios da oralidade, imediação e livre apreciação da prova. Conforme já referimos supra, o recurso da matéria de facto não tem por finalidade, nem pode ser confundido, com a realização de um segundo julgamento, fundado numa nova convicção, mas apenas apreciar a razoabilidade da convicção formada pelo tribunal recorrido em relação aos concretos pontos de facto que o recorrente entende incorretamente julgados, com base na avaliação das provas que considera imporem uma decisão diversa.

3.2.4 - No caso vertente, como resulta da leitura da motivação da decisão de facto, o Exmo. Juiz a quo norteou-se pelo princípio da livre apreciação da prova e pelas regras da experiência comum, procedendo à avaliação global da prova produzida, numa perspetiva crítica, que registou de uma forma escorreita e proficiente.

Em relação aos concretos pontos de facto impugnados, relativos a ter sido o arguido a fazer os riscos no veículo automóvel da assistente, essa convicção assentou essencialmente nas

declarações desta última e no depoimento da testemunha M. L..

O recorrente insurge-se contra a valoração deste último depoimento testemunhal, que o tribunal a quo considerou isento, coerente e credível, criando na sua convicção um juízo positivo sobre a autoria dos factos pelo arguido.

Para tanto invoca o recorrente várias circunstâncias.

Em primeiro lugar, a estranheza de, sendo essa a única testemunha presencial do comportamento do arguido e com quem a assistente esteve na noite dos factos, não ter sido indicada como tal no auto de denúncia, lavrado no dia 19 de abril de 2013 (fls. 3), nem no requerimento apresentado a 29 do mesmo mês, pelo qual a denunciante requereu a sua constituição como assistente e indicou duas outras testemunhas, apenas o tendo vindo a fazer a 08 de junho de 2013 (fls. 34). Para

reforçar essa estranheza, invoca o recorrente que a referida M. L. terá afirmado em audiência que a assistente lhe comunicou para ser testemunha logo naquele momento, inferindo-se que se

pretenderá reportar ao momento dos factos.

Porém, não é isso que resulta, e muito menos necessariamente, da audição do excerto desse depoimento (gravado entre os minutos 00:21:26 e 00:22:01), porquanto, a partir do minuto

00:21:44, a testemunha respondeu o seguinte: “Não foi no momento. Ela fez queixa à GNR e fez queixa dele, meteu uma ação contra ele e eu ofereci-me para testemunha, que fui eu que vi.” Contrariamente ao que parece pretender o recorrente, de modo algum se pode retirar deste depoimento que a assistente, quando apresentou a denúncia, já havia obtido a disponibilidade da

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