• Nenhum resultado encontrado

Data do documento 23 de junho de 2009

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Data do documento 23 de junho de 2009"

Copied!
38
0
0

Texto

(1)

Processo 746/2008-7 Data do documento 23 de junho de 2009 Relator Arnaldo Silva

TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL

Acórdão

DESCRITORES

Casamento católico > Registo > Transcrição > Matéria de

facto > Quinhão > Herança > Cessão > Doação > Simulação > Poderes de representação

SUMÁRIO

1. Tal como a fundamentação da matéria de facto, com a análise crítica das provas é exigente, assim também a impugnação da decisão da matéria de facto é exigente, para que seja susceptível de êxito, uma vez que o Tribunal ad quem só consegue sindicar a decisão impugnada e eventualmente alterá-la se estiver perante qualquer erro notório na livre apreciação da prova, isto é, ante um erro ostensivo, de tal modo evidente, que não passa despercebido ao comum dos observadores.

2. Por isso, estando-se no domínio da livre apreciação da prova (art.º 655º, n.º 1 do Cód. Proc. Civil), a censura à convicção do Tribunal não pode assentar num ataque simplista à formação da convicção do Tribunal, mas antes tem de assentar num ataque à qualquer dos passos que levaram à formação da convicção do Tribunal, já que a formação desta convicção é uma operação intelectual complexa de valoração racional e crítica, onde se conjugam as regras comuns da lógica, da razão, das máximas da experiência e dos conhecimentos científicos, a percepção da personalidade de cada depoente, seu comportamento e reacções, onde cada caso é um caso, a observância de princípios instrumentais e estruturais na formação da convicção (princípios da oralidade, da imediação, da concentração e da publicidade da audiência), com vista à investigação de uma verdade jurídico-prática.

3. A transcrição de casamento católico celebrado na Alemanha. entre um português e uma espanhola após o falecimento do cônjuge português, não tem como efeito a inexistência jurídica do casamento, visto que o registo do casamento (assento) constitui uma formalidade posterior à celebração do casamento (art.ºs 155º, n.º 2 e 180º do Cód. R. Civil) que não interessa à validade deste, mas sim à prova deste, através de certidões extraídas do assento (art.ºs 212º e segs. do Cód. R. Civil), já que é um acto autónomo ao casamento. Celebrado o casamento este tem eficácia intrínseca, mas carece de eficácia extrínseca se não for registado, estabelecendo o art.º 1669º do Cód. Civil o princípio da sua ininvocabilidade. Pelo que, o dito casamento não transcrito, não pode ser atendido (salvo as excepções previstas na lei) e, para qualquer efeito extrínseco, é como não existisse.

(2)

4. Os art.ºs 1670º, n.º 1 do Cód. Civil e 188º, n.º 1 do Cód. R. Civil estabelecem o princípio básico da retroactividade do acto do registo, com ressalva dos direitos de terceiro que sejam compatíveis com os direitos e deveres de natureza pessoal dos cônjuges e dos filhos (n.ºs 2 dos citados art.ºs). A lei só ressalva, porém os direitos adquiridos por terceiro que não prejudiquem os direitos e deveres de natureza pessoal dos cônjuges e dos filhos.

5. Assim, o casamento não transcrito supra referido em 5. quer se entenda que é como se não existisse face a terceiros a quem a invocação dele prejudicasse (teoria da recepção individual), quer se entenda que o casamento já existe mas não tem efeitos civis (teoria da recepção normativa ou genérica), têm de ser respeitadas as legítimas expectativas de terceiro. Por isso era desnecessário o consentimento da esposa do falecido cidadão português para validar a alienação do quinhão hereditário deste do qual fazem parte bens imóveis [cfr. pontos 9. a 11. da matéria de facto provada supra descrita em II. A)] efectuada pelo seu marido antes da transcrição do casamento. Sendo o casamento não transcrito considerado irrelevante, tudo se passa como se o alienante fosse solteiro e, daqui, a desnecessidade do consentimento do seu cônjuge.

6. A venda do quinhão hereditário (negócio simulado) onde existem bens imóveis é nula, nos termos do art.º 240º, n.º 1 do Cód. Civil, mas quanto à doação do quinhão hereditário (negócio dissimulado) a doutrina e a jurisprudência divide-se quanto à sua validade. Divergências que se podem agrupar em três grande grupos: um que entende que o n.º 2 do art.º 241º do Cód. Civil afastou a doutrina do Assento do STJ de 23-07-1952 e que consagrou uma posição mais maleável à validade substancial do negócio dissimulado formal, na linha preconizada anteriormente por Manuel de Andrade; outra mais formalista que mantém restrições à validade formal do negócio dissimulado, sustentando que o n.º 2 do art.º 241º do Cód. Civil consagra a doutrina de Beleza dos Santos e do Assento do STJ de 23-07-1952, repudiando assim a solução preconizada por Manuel de Andrade, e um terceiro grupo que opta por soluções intermédias com diversos cambiantes.

7. Seja qual for a tese por que se opte __ para umas o negócio dissimulado nos presentes autos é inválido e para outras é válido __, o negócio em causa é ineficaz em relação ao falecido alienante na escritura de venda que dissimula a doação (ineficácia simples) porque a representante deste (a 3.ª ré) excedeu os poderes de representação (art.º 268º, n.º 1 do Cód. Civil).

(Sumário do Relator)

TEXTO INTEGRAL

Acordam os juízes, em conferência, na 7.ª Secção Cível, do Tribunal da Relação de Lisboa:

I. Relatório:

1. Após ter tido conhecimento em 2003, que tinha um cancro nos pulmões e que lhe restava pouco tempo de vida, com o intuito de prejudicar a sua esposa e filha, respectivamente, “A” e “B”, e com o objectivo de

(3)

dissipar o património e evitar que aquelas viessem a herdar os bens de que era proprietário, “C”, por escritura pública de 13-10-2005, declarou ceder o quinhão hereditário que lhe pertencia nas heranças ilíquidas e indivisas por óbito de seus pais a “D” pelo preço que declarou já ter recebido de 50.000,00 €. Mas tal não era verdade, pois que nada recebeu como contrapartida da dita cessão onerosa. Esta não passou de uma doação ao dito cessionário. Pelo que existe uma divergência entre a vontade declarada e a vontade real de “C”. Assim sendo, este negócio simulado é nulo (art.º 240º, n.º 2 do Cód. Civil). Mas mesmo que se entenda que se esteja perante uma simulação relativa, tal negócio não poderá ser considerado válido e eficaz, porque a procuradora do dito cedente, “F”, não tinha os necessários poderes de representação para realizar tal cessão. Por isso, a mesma é ineficaz em relação ao cedente “C” (art.º 268º, n.º 1 do Cód. Civil). Mais, a alegada cessão foi feita sem o consentimento da sua esposa “A”, apesar do quinhão hereditário ser constituído essencialmente por bens imóveis, pelo que tal acto é anulável, nos termos do art.º 1687º, n.º 1 do Cód. Civil.

“C” faleceu, precisamente, dois dias após a celebração da dita escritura. A sua viúva e filha, respectivamente, “A” e “B”, são as suas únicas herdeiras [art.ºs 2131º, 2132º, 2133º. n.º 1 al. a) e 2157º, todos do Cód. Civil]. A sucessão legal legitimária não pode ser afastada pela vontade do seu autor (art.º 2027º do Cód. Civil) e os negócios celebrados contra disposição legal imperativa são nulos, salvo nos casos em que outra solução resulte da lei (art.º 294º do Cód. Civil). E não se verificando esta excepção aqui prevista, a cessão do quinhão hereditário de “C” é um negócio nulo, por violação do disposto no art.º 2156º do Cód. Civil. Existe fraude à lei, por pretender-se contornar o obstáculo da legítima, quando a ré “F”, em representação de “C”, cedeu o quinhão hereditário ao réu “D”. Está-se perante uma situação de abuso de direito (art.º 344º do Cód. Civil).

Com base nestes fundamentos, vieram “A” e “B” intentar contra “D”, “E” e “F” acção declarativa comum com forma ordinária, na qual pedem que

a) Seja declarado nulo, por simulado, o contrato de cessão onerosa do quinhão hereditário pertencente a “C” nas heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos seus pais e, consequentemente, ser declarada ineficaz a doação desse quinhão hereditário ao réu “D” por falta de poderes de representação da ré “F”; ou caso assim se não considere;

b) Que seja declarado nulo o referido negócio, por fraude à lei e/ou abuso de direito; ou caso assim se não considere,

c) Que seja anulada a cessão do quinhão hereditário pertencente a “C”, tal como requerido pela autora “A”, por falta de consentimento desta para a sua realização.

*

2. Na sua contestação, os réus impugnam os factos alegados pela autora, negam que tivessem conhecimento, no acto da escritura, que o “C” fosse casado e tivesse uma filha, e sustentam que, caso a escritura venha a ser anulada, sempre o primeiro réu terá direito a ser ressarcido da quantia de 50.000,00 € entregue a “C”, na data a celebração da dita escritura (13-10-2005), acrescida dos respectivos juros à data legal.

(4)

reconvenção, pedem que, caso o tribunal considere a “legitimidade”[1] das autoras __ ou seja, que as autoras são herdeiras dos bens em causa __, que sejam as autoras e/ou os familiares do falecido condenadas a indemnizar o 1.º réu no valor de 50.000,00 €, acrescidos de juros de mora.

*

3. As autoras replicaram concluindo pela improcedência da excepção da irregularidade do mandato judicial conferido ao mandatário dos autores arguida pelos réus e pela improcedência do pedido reconvencional, em relação aos aludidos 50.000,00 €.

*

4. E os réus treplicaram. *

5. Foi admitido o pedido reconvencional dos réus no montante de 50.000,00, valor que foi ordenado somar ao pedido das autoras, fixando-se o valor da acção em 100.000,00 €.

No despacho saneador, foi relegado para final a apreciação da invocada ilegitimidade para formular reconvenção.

A acção prosseguiu os seus posteriores termos, tendo sido proferida sentença que julgou a acção procedente e improcedente o pedido reconvencional e, consequentemente, declarou nula e ineficaz a cessão onerosa de quinhão hereditário que foi efectuada em nome de “C”, através da escritura de 13-10-2005, outorgada no Cartório Notarial e absolveu as autoras do pedido reconvencional.

Mais condenou os réus em custas. *

5. Inconformados, apelaram os réus. Nas suas alegações, em síntese e sistematização nossa, e arranjo de texto nosso, concluem:

1.ª O Mm.º Juiz a quo não efectuou uma leitura conectada com a produção das provas testemunhais; 2.ª O “C” era Português. E sempre constou, em toda a documentação que assinou, e outra, incluindo o seu Bilhete de Identidade, que era solteiro. Em Portugal, nas diversas repartições públicas e no BI, sempre figurou como solteiro, pese embora, ter casado na Alemanha. Em Portugal era solteiro, todas as pessoas do bairro onde vivia o conheciam no estado de solteiro;

3.ª Não necessitava de consentimento de ninguém para fazer dos seus bens aquilo que quisesse;

4.ª Só veio a ser feito o averbamento de casado, do falecido “C”, depois de já ter falecido e ter efectuado a venda do seu quinhão hereditário ao 1.º réu “D”;

5.ª Os familiares, esposa, filha, irmãos ou ele próprio não efectuaram o registo obrigatório do seu estado de casado em Portugal como deviam;

6.ª Consequentemente, deverão ser penalizados pelo incumprimento, e o contrato julgado nulo e ineficaz, deve ser declarado válido;

(5)

deste por morte dos pais, conforme convictamente resulta do depoimento das testemunhas;

8.ª As testemunhas, “G” e “H”, em conjunto emprestaram ao 1.º réu o montante de 35.000,00 € e o “H” emprestou ao pai 15.000,00 €. Entregaram esse montante, no escritório do 1.º réu, onde este, por sua vez o entregou ao falecido C. Veja-se os depoimentos especialmente do 1.º réu e do “G”. Deles se poderá aquilatar, com segurança, o que o réu afirma;

9.ª Nestas circunstâncias, o 1.º réu “D” está empobrecido no montante de 50.000,00 €, que entregou ao vendedor, o falecido Pedro;

10.ª Logo, se aquele fosse vivo e o negócio se não realizasse, teria, pelo menos, de indemnizar o comprador no dobro;

11.ª Dado que, o vendedor faleceu, a manter-se a decisão do Tribunal a quo, o que se não aceita e menos se espera, os herdeiros deste ficavam enriquecidos desse montante sem qualquer causa de conexão, além de injustamente, sem que para tal tivessem contribuído;

12.ª Conforme os documentos junto aos autos, tais como: escritura pública de cessão onerosa de quinhão hereditário efectuada em 13-10-2005, no Cartório Notarial é documento idóneo eficaz e suficiente, a outorga da escritura foi efectuada por quem tinha os respectivos poderes (Solicitadora e Notário), a procuração está de acordo com as normas legais, todos os actos praticados relativamente ao negócio está testado;

13.ª Há erro nítido na apreciação dos factos, especialmente no que concerne à prova testemunhal, conforme os depoimentos gravados e juntos aos autos, sendo necessário “dar o seu a seu dono”;

14.ª A interpretação extraída da livre apreciação da prova relativamente aos factos, quer no que respeita à herança até à data do falecimento do vendedor do quinhão hereditário, “C”, quer no que respeita fundamentalmente à reconvenção, estão eivadas de erro apreciativo pelo Meritíssimo Sr. Dr. Juiz a quo. *

6. Nas suas contra-alegações, as autoras apeladas concluem:

1.ª Nas suas conclusões das alegações de recurso, o recorrente não procedeu a nenhuma das especificações exigidas pelo n.º 2 do artigo 690° do Cód. Proc. Civil, apesar do seu recurso versar também sobre matéria de direito, pelo que ocorreu a violação dessa norma jurídica;

2.ª Pelo exposto, nos termos do disposto no art.º 690º, n.º 4 do Cód. Proc. Civil, deverá o recorrente ser convidado a proceder às especificações exigidas pelo n.º 2 do art.º 690° do Cód. Proc. Civil, sob pena de não se conhecer do recurso na parte afectada, ou seja, relativamente a decisão sobre a matéria de direito; 3.ª Nas suas alegações, o recorrente não especifica quais os concretos pontos de facto que considera incorrectamente julgados. Não é, pois, possível, em sede de recurso, proceder a apreciação da necessidade de alteração da decisão do Tribunal a quo sobre a matéria de facto, nos termos do disposto no art.º 712º, n.º 1 al. a) do Cód. Proc. Civil, o que, aliás, nem sequer foi requerido pelo recorrente;

4.ª Assim sendo, uma vez que o recorrente não procedeu nas suas alegações as especificações exigidas pelo art.º 690º-A do Cód. Proc. Civil, o recurso deve ser rejeitado, no que respeita a decisão sobre a matéria de facto, tal como dispõe o corpo do n.º 1 desse artigo, in fine;

(6)

caso, são definidos pela lei alemã, uma vez que, a data da celebração do casamento, a 1.ª recorrida e “C” tinham a sua residência habitual comum na Alemanha - cfr. certidão do assento de casamento, de fls. 159 e 160. Analisando a certidão do assento de casamento de fls. 159 e 160, constata-se que a 1.ª recorrida e “C” não celebraram qualquer convenção antenupcial, aplicando-se o regime de bens supletivo;

6.ª De acordo com a lei alemã, aplicável ao presente caso, seria necessário o consentimento da 1.ª recorrida para a celebração do negócio entre “C” e o recorrente, o que não ocorreu - cfr. ponto 32. dos factos considerados como provados;

7.ª Pelo exposto, decidiu bem o Tribunal a quo ao considerar que, por força das disposições combinadas dos art.ºs 1363°, n.º 1, 1365º, n.º 1, 1367°, 1368° e 1453° do Código Civil Alemão (BGB), o negócio jurídico em causa necessitava da autorização da 1.ª recorrida, determinando a sua falta a respectiva nulidade e ineficácia;

8.ª Nas suas alegações, o recorrente invocou que pagou a “C” os 50.000,00 € referentes ao preço da cessão do quinhão hereditário deste e que os depoimentos de parte prestados por si e pela 3.ª ré e a prova testemunhal relativamente as testemunhas “G”, “I” e “H” - provam isso mesmo. Porém, salvo o devido respeito por melhor opinião, não assiste a razão ao recorrente. Pois, certamente, apenas terá chegado a essa conclusão por ter efectuado uma audição desatenta e isolada dos diversos depoimentos e testemunhos. Pois, existem contradições nítidas entre eles que denotam que é falso que tenha ocorrido o alegado pagamento;

9.ª Para além disso, a prova documental também demonstra ser falso que o recorrente pagou a “C” os 50.000,00 €, nomeadamente, a declaração de fls. 354, o testamento de fls. 307 a 309 e a informação bancária junta aos autos relativamente a “C” - cfr. fls. 233 a 236, 239 a 252, 264 e 265;

10.ª Por todo o exposto, não foi feita a prova do pagamento pelo recorrente do montante de 50.000,00 € a “C”, antes pelo contrário, e nenhuma censura merece a douta decisão recorrida, também, na parte em que julgou improcedente por não provado o pedido reconvencional e dele absolveu as recorridas, motivo pelo qual deve ser confirmada;

11.ª Na sua petição inicial, as recorridas pediram a procedência da presente acção, invocando vários fundamentos: a declaração de nulidade do contrato de cessão do quinhão hereditário por simulação, a declaração de ineficácia da doação do quinhão hereditário por falta de poderes de representação da 3.ª ré, a declaração de nulidade do contrato por fraude à lei e/ou abuso de direito e a anulação do contrato por falta de consentimento da 1.ª recorrida para a sua realização. O Tribunal a quo considerou procedente a presente acção com base na falta de consentimento da 1.ª autora para a realização da cessão do quinhão hereditário, tendo as recorridas decaído nos outros fundamentos invocados.

Assim sendo, requer-se a V. Exas. que, ao abrigo do disposto no art.º 684º-A do Cód. Proc. Civil, se tome conhecimento dos fundamentos em que as recorridas decaíram;

12.ª Igualmente, ao abrigo do disposto no n.º 2 do art.º 684º-A do Cód. Proc. Civil, para o caso de procedência das questões suscitadas pelo recorrente, o que por mera cautela se concede, requer-se a alteração da decisão sobre a matéria de facto.

Salvo o devido respeito, os documentos são meios de prova dos factos alegados pelas partes, sendo, de algum modo, incorrecta a técnica de considerar como provada a reprodução integral de um documento, ao

(7)

invés de considerar como provado o facto alegado e que com esse documento se pretendia provar, como fez o Tribunal a quo relativamente aos factos alegados pelas recorridas nos artigos 2º, 40º e 60º da petição inicial.

Como tal, deverá ser alterada a douta decisão recorrida e considerados como provados os seguintes factos:

a) “C” casou catolicamente com a 1.ª autora, sem convenção antenupcial, no dia 25-02-1976, em M, Alemanha;

b) “C” deixou como suas únicas herdeiras legitimárias a 1.ª autora e a 2.ª autora.

Relativamente a este facto, tomou-se necessário acrescentar a expressão “legitimarias”, uma vez que, tendo em conta o testamento de fls. 307 a 309 junto aos autos posteriormente a prolação do despacho saneador, ficou provado que o recorrente também e herdeiro, mas testamentário, de “C”;

c) “C” não atribuiu poderes à 3.ª ré para efectuar a doação do referido quinhão hereditário que pertencia ao seu representado;

13.ª Relativamente aos factos alegados pelas recorridas nos artigos 19º, 20º, 21º, 22º, 25º, 26º e 27º da petição inicial, o Tribunal a quo apenas considerou como provado o seguinte: «”C”N Cunha não tinha rendimentos nem era auxiliado pelos irmãos, pelo que o foi pelo R. “D”, nomeadamente quanto as necessidades básicas da alimentação e medicamentosa, pelo que, para o compensar, o “C”N. da Cunha, fez testamento a favor daquele R.; mas, como houvesse receio de que este não estivesse devidamente acautelado, acordaram em celebrar a escritura de cessão em causa».

Porém, consideram as recorrentes que, tendo em conta a prova produzida no âmbito do presente processo, a que se fez menção no anterior ponto IX das alegações, e cujo conteúdo se da aqui por integralmente reproduzido para os devidos efeitos legais, os factos alegados pelas recorridas nos artigos 19º, 20º, 21º, 22º, 25º, 26º e 27º da petição inicial devem ser considerados como provados, ao abrigo do disposto no art.º 712º, n.º 1 al. a) do Cód. Proc. Civil;

14.ª No contrato de cessão do quinhão hereditário de “C” ocorreu uma divergência entre a dec1aração negocial e a vontade real, decorrente de um acordo entre o 1.º réu, a 3.ª ré e “C”, com o intuito de prejudicar a 1.ª e 2.ª recorridas, conforme resulta dos factos considerados como provados pela decisão recorrida e daqueles cuja alteração se requereu;

15.ª Deste modo, o contrato de cessão onerosa do quinhão hereditário de “C”, uma vez que se trata de um negócio simulado, é nulo, nos termos do disposto no art.º 240º, n.º 2 do Cód. Civil.

Assim sendo, a decisão recorrida violou o disposto no art.º 240º, n.ºs 1 e 2 do Cód. Civil;

16.ª E, mesmo considerando que estamos perante uma situação de simulação relativa, sendo o negócio dissimulado a doação do referido quinhão hereditário, este negócio não poderá ser considerado válido e eficaz, porque esse negócio dissimulado __ doação __ foi celebrado entre o 1.º réu e “C”, intervindo a 3.ª ré como procuradora deste. Tal como se pode constatar pela análise da procuração junta como doc. 2 com a petição inicial, de fls. 23 a 27, “C” não atribuiu poderes a 3.ª ré para efectuar a doação do referido quinhão hereditário que pertencia ao seu representado. Pelo que esse negócio, em que a 3.ª ré actuou sem os necessários poderes de representação para o realizar, é ineficaz em relação a “C” __ cfr. art.º 268º, n.º 1 do Cód. Civil;

(8)

17.ª De igual modo, mesmo que não se considere como provado que o recorrente sabia que “C” era casado e tinha uma filha ou que estão reunidos os requisitos da simulação, a verdade e que foi efectuada uma doação do quinhão hereditário de “C” ao recorrente. Doação essa que, pelo fundamento anteriormente indicado __ falta de poderes de representação da 3.ª ré __ é ineficaz em relação a “C”.

Pelo exposto, a douta decisão recorrida violou o disposto no art.º 268º, n.º 1 do Cód. Civil;

18.ª Os factos considerados como provados e alegados nos artigos 28º a 36º, 44º e 51º da petição inicial são demonstrativos, por si só, da intenção de “C” de prejudicar as recorridas, praticamente, esvaziando de conteúdo a sua herança. E, recorde-se, que “C” outorgou a procuração a favor da 3.ª ré quando já sabia que tinha um cancro e quando a sua saúde já estava muito debilitada, conforme referiu a 3.ª ré no seu depoimento de parte. Fê-lo, quando se apercebeu de que lhe faltava pouco de tempo de vida, e por forma a contornar e violar as normas que protegem os direitos sucessórios das 1.ª e 2.ª autoras, maxime, art.º 2156º do Cód. Civil. Normas essas de ordem pública e que não podem ser afastadas por vontade das partes;

19.ª Existiu fraude à lei, por pretender-se contornar o obstáculo da legitima, quando a 3.ª ré declarou, em representação de “C”, que cedeu onerosamente o quinhão hereditário daquele ao recorrente, com a intenção de impedir que os bens que constituíam esse quinhão hereditário viessem a ser tidos em conta para a concretização da legitima;

20.ª Ao decidir de modo contrário, a decisão recorrida violou os art.ºs 294º, 2027º e 2156º, todos do Cód. Civil;

21.ª “C” usou um direito que a lei lhe atribuiu de poder ceder gratuitamente o seu quinhão hereditário por forma a prejudicar as recorridas __ suas herdeiras legitimárias __ atingindo a sua legitima, em violação do art.º 2156º do Cód. Civil. Pelo que, agiu com abuso de direito.

Ao decidir de modo contrário, a douta decisão recorrida violou o art.º 334º do Cód. Civil. *

7. As questões essenciais a decidir:

Na perspectiva da delimitação pelo recorrente[2], os recursos têm como âmbito as questões suscitadas pelos recorrentes nas conclusões das alegações (art.ºs 690º, n.º 1 e 684º, n.º 3 do Cód. Proc. Civil), salvo as questões de conhecimento oficioso (n.º 2 in fine do art.º 660º do Cód. Proc. Civil), exceptuando-se do seu âmbito a apreciação das questões cuja decisão esteja prejudicada pela solução dada a outras (n.º 2 1.ª parte do art.º 660º do Cód. Proc. Civil).

O recorrido (vencedor) tem a possibilidade de ampliar o âmbito do recurso, nos termos que constam do art.º 684º-A do Cód. Proc. Civil.

Nos termos do n.º 1 do art.º 684º-A do Cód. Proc. Civil, o recorrido tem a faculdade de requerer ao tribunal, mesmo a título subsidiário, na respectiva alegação[3], o conhecimento dos fundamentos da acção ou da defesa em que decaiu, prevenindo a necessidade da sua apreciação. O que pode acontecer tanto no caso de as causas de pedir ou os fundamentos da defesa terem sido alegados como alternativos, como no caso de uma das causas de pedir ou um dos fundamentos invocados ter sido invocado como principal e o outro como subsidiário.

(9)

O recurso sobre a causa de pedir ou o fundamento em que a parte vencedora decaiu é sempre subsidiário perante a procedência do recurso interposto pela contraparte. «Ele destina-se a obter uma decisão favorável à parte recorrida com base numa outra causa de pedir ou num outro fundamento, se o recurso interposto pela contraparte for procedente e se, portanto, for revogada a decisão impugnada naquilo que lhe era favorável»[4].

Nos termos do n.º 2 2.ª parte do art.º 684º-A do Cód. Proc. Civil, o recorrido tem a possibilidade de, na respectiva alegação[5], e a título subsidiário, impugnar a decisão proferida sobre pontos concretos da matéria de facto, não impugnados pelo recorrente, prevenindo a hipótese de triunfar a questão por este suscitada no recurso e de modo a poder impugnar os pontos da matéria de facto que a 1.ª instância considerou “não provada”[6]. «A possibilidade de actuação deste pedido de ampliação tem como pressuposto a impugnação da decisão proferida sobre a matéria de facto pelo recorrente (art.º 690º-A do Cód. Proc. Civil)»[7], ficando o recorrido sujeito aos mesmos ónus do recorrente (art.º 690º-A, n.º 4 do Cód. Proc. Civil).

As autoras recorridas vieram nas conclusões 11.ª e 12.ª das suas contra-alegações, requerer a ampliação do âmbito do recurso, respectivamente, em relação às causas de pedir que invocaram e em que, em cujos pedidos nelas fundados, decaíram e relativamente à matéria de facto nos pontos indicam nas alíneas a), b) e c) da conclusão 12.ª das suas contra-alegações.

Esta ampliação do âmbito do recurso requerida pelas autoras recorridas tem assim lugar, nos termos legais supra expostos.

Atento o exposto e o que flui das conclusões das alegações[8] __ e só se devem conhecer as questões que tenham sido suscitadas nas alegações e levadas às conclusões, ainda que outras, eventualmente, tenham sido suscitadas nas alegações propriamente ditas[9] __, dos réus apelantes supra descritas em I. 5. e das conclusões 11.ª e 12.ª das contra-alegações das autoras apeladas, são seis as questões essenciais a decidir: 1) se pode ou não ser alterada a decisão sobre a matéria de facto no sentido preconizado pelos réus e pelas autoras, estas, no caso de triunfar as pretensões dos réus, quer quanto à alteração da matéria de facto nos pontos por eles impugnados, quer quanto às questões a seguir indicadas, por eles colocadas neste recurso; 2) se era ou não necessário o consentimento da autora para o seu marido alienar o quinhão hereditário nas heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos seus pais, face à transcrição do casamento católico celebrado entre eles na Alemanha após essa alienação, e após a morte do de cujus; 3) caso se considere que as autoras são herdeiras dos bens que integram do dito quinhão hereditário, e na hipótese de proceder a alteração da matéria de facto no sentido pretendido pelos réus, se procede ou não o pedido reconvencional; 4) se se verifica ou não a nulidade do contrato de “cessão onerosa do dito quinhão hereditário” por simulado; 5) se a doação do referido quinhão hereditário, a ser um negócio dissimulado, é ou não ineficaz (ineficácia simples) por falta de poderes de representação por parte da representante em relação ao seu representado; 6) ou caso assim se não considere, se o contrato de “cessão onerosa do dito quinhão hereditário” deve ou não ser declarado nulo por fraude à lei e/ou abuso de direito.

Por questões de ordem lógica, e atenta a subsidariedade dos pedidos das autoras e do pedido reconvencional, vai-se conhecer das questões supra referidas pela seguinte ordem:

(10)

1.º a 1.ª questão relativamente à matéria de facto impugnada pelos réus; 2.º a 2.ª questão; e, se esta proceder;

3.º a 1.ª questão relativamente à matéria de facto impugnada pelas autoras; 4.º a 4.ª questão;

5.º a 5.ª questão;

6.º a 6.ª questão; e, caso se considere que as autoras são herdeiras dos bens que integram do dito quinhão hereditário,

7.º a 3.ª questão.

Colhidos os vistos legais, cumpre apreciar e decidir: ***

II. Fundamentos: A) De facto:

Na 1.ª instância foram dados como provados os seguintes factos:

1. É aqui dado por integralmente reproduzido o constante do documento 1 da réplica (fls. 159-160) (assento de casamento n.º do nubente “C” e da nubente “A”) (matéria de facto assente)[10].

2. No dia 11-07-2005, “C” atribuiu poderes à 3.ª ré para, nomeadamente, vender ao 1.º réu quaisquer imóveis ou parte de imóveis, fracções autónomas constituídas em propriedade horizontal e direitos e acções a heranças ilíquidas e indivisas (matéria de facto assente – art.º 15º da p.i.).

3. No dia 13-10-2005, realizou-se a escritura pública da cessão onerosa do quinhão hereditário nas heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos pais de “C” e pertencente a este (matéria de facto assente – art.º 16º da p.i.).

4. Essa escritura pública foi outorgada pelo 1.º réu, cessionário, e pela 3.ª ré, na qualidade de procuradora de “C” (matéria de facto assente – art.º 17º da p.i.).

5. Nessa escritura pública, a 3.ª ré, na qualidade de procuradora, declarou, então, que “pelo preço já recebido de cinquenta mil euros” “C” cedia o quinhão hereditário que lhe pertencia (matéria de facto assente – art.º 18º da p.i.).

6. “C” faleceu vítima do cancro que lhe havia sido diagnosticado [matéria de facto assente – art.º 31º (parte) da p.i.].

7. É aqui dado par integralmente reproduzido o constante do doc. 3 da petição inicial que se encontra a fls. 29 e 30 (matéria de facto assente – art.º 40º da p.i.)[11].

8. A cessão do quinhão hereditário de “C” foi realizada sem que o seu cônjuge, a 1.ª autora, tivesse dado o seu consentimento (matéria de facto assente – art.º 42º da p.i.).

9. Da massa das heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos pais de “C” faz parte o prédio urbano site na Rua , descrito sob o n.º da Conservatória do Registo Predial e inscrito na matriz no artigo , da freguesia de (antigamente artigo , da freguesia de ) (matéria de facto assente – art.º 45º da p.i.).

10. Esse prédio urbano tem uma área coberta de 167 metros quadrados, com oito fracções Autónomas e um logradouro com a área de 140 metros quadrados, localizado a tardoz do edifício (matéria de facto assente – art.º 46º da p.i.).

(11)

11. Igualmente pertence à massa dessas heranças um prédio urbano site em E, na freguesia de C, concelho de V e inscrito na matriz predial do concelho de V no artigo (matéria de facto assente – art.º 47º da p.i.).

12. É aqui dado por integralmente reproduzido o constante do doc. 2 da petição inicial, que se encontra de fls. 23 a 27 (procuração de “C” a constituir como sua procuradora “F”, e a quem confere os necessários poderes para vender, pelos preços que entender que receberá, ao senhor “D”) (matéria de facto assente – art.º 60º da p.i.).

13. “C” aparece como solteiro no 1.º Cartório Notarial , Constituição do Regime de Propriedade Horizontal, de 1995; 2.ª Conservatória do Registo Predial de Inscrições - Averbamentos - Anotações de 12-10-2006; Cartório Notarial - Cessão Onerosa de Quinhão Hereditário, de 13-10-2005; Cartório Notarial - procuração de 11-6-2005; Conservatória do Registo Predial - Descrição Fracção Autónoma de 18-11-2005; Cartório Notarial - Habilitação de Herdeiros, 14-1-1992; fotocópia do BI de “C”, emissão em 9-3-2004 (matéria de facto assente – art.º 12º da cont.).

14. Sua irmã, M, cabeça de casal, com procuração com plenos poderes em nome de J e o falecido “C”, têm vindo a vender variadas propriedades, de há cerca de oito anos a esta parte, e sempre invocando o estado de solteiro, do falecido “C”(matéria de facto assente – art.º 13º da cont.).

15. Consta da escritura, denominada de cessão de quinhão hereditário, que “C” era solteiro (matéria de facto assente – art.º 15º da cont.).

16. A declaração no sentido de já ter sido recebido o preço de 50.000,00 € foi efectuada pela 3.ª ré e não por “C” (matéria de facto assente – art.º 25º da réplica).

17. Não tendo “C” atribuído poderes à 3.ª ré para fazer tal declaração em sua representação (matéria de facto assente – art.º 26º da réplica).

18. Em 1973, “C” emigrou para a Alemanha [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 1º da p.i.)].

19. Cerca de um mês antes do nascimento da autora B, “C” saiu da casa onde morava com a autora A [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 3º da p.i.)].

20. No dia 24-9-1981, nasceu em M, Alemanha, a 2.ª autora, que é filha da 1.ª autora e de “C” [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 4º da p.i.)].

21. Após ter abandonado a casa de morada de família, “C” raramente viu a 1.ª e 2.ª autoras [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 5º da p.i.)].

22. Após o nascimento da autora “B”, foi necessária a ida de “C” ao registo civil, o que ele fez, mas após a intervenção de entidades policiais alemãs [resposta à matéria de facto da b.i. (art.ºs 6º e 7º da p.i.)]. 23. “C” nunca prestou alimentos à 2.ª autora [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 8º da p.i.)].

24. Recusando-se sempre a contribuir de qualquer modo para o sustento de sua filha [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 9º da p.i.)].

25. “C” regressou a Portugal em 1986 [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 10º da p.i.)].

26. O que contou a seu irmão “J” (que não queria contribuir para o sustento da filha) [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 11º da p.i.)].

27. Em 1987, a 1.ª e a 2.ª autoras vieram a Portugal passar férias, mas “C” recusou-se a vê-las [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 12º da p.i.)].

(12)

28. Tendo este discutido com o seu irmão, “J”, por as ter recebido em sua casa, tal como o tinham feito os pais de ambos ​[resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 13º da p.i.)].

29. Dizendo “C” que não queria ter relacionamento com a 1.ª autora e a 2.ª autora e que a sua família deveria fazer o mesmo [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 14º da p.i.)].

30. “C” não tinha rendimentos nem era auxiliado pelos irmãos, pelo que o foi pelo réu “D”, nomeadamente quanto às necessidades básicas da alimentação e medicamentosa, pelo que, para o compensar, o “C”, fez testamento a favor daquele réu; mas, como houvesse receio de que este não estivesse devidamente acautelado, acordaram em celebrar a escritura de cessão em causa [resposta à matéria de facto da b.i. (art.ºs 19º, 20º, 21º, 25º, 26º e 27º da p.i.)][12].

31. Cerca de 2003, o “C” soube que tinha um cancro nos pulmões [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 28º da p.i.)].

32. O “C” sabia que ao celebrar à escritura em causa prejudicava as autoras [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 29º da p.i.)].

33. “C” tinha consciência que estava a alienar todo o seu património, à excepção do recheio da sua última residência constituído por uma cama, um roupeiro, um frigorífico e uma máquina de lavar roupa, que pertencem à massa das heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos seus pais, um fogão e um esquentador, que eram propriedade daquele [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 30º da p.i.)].

34. Após a cessão do seu quinhão hereditário, “C” apenas passou a possuir alguns bens que constituem o recheio da casa onde morava à data da sua morte [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 32º da p.i.)]. 35. Esse recheio da última residência de “C” é constituído por uma cama, um frigorífico e uma máquina de lavar roupa, que pertencem à massa das heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito de seus pais, um fogão e um esquentador, que eram propriedade dele [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 33º da p.i.)]. 36. Esses bens terão um valor total de 200,00 € [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 34º da p.i.)]. 37. Assim, à data da sua morte, à excepção dos supra mencionados bens, com um valor de mercado irrisório, “C” não possuía qualquer património [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 35º da p.i.)]. 38. “C” tinha consciência de que o seu património ficava só com bens no valor total de 200,00 € [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 36º da p.i.)].

39. Desde finais do ano de 2003, “C” necessitou de proceder, por várias vezes, ao levantamento de quantias depositadas na conta bancária n.º Banco de que era titular conjuntamente com os seus irmãos: “K” e “J” [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 37º da p.i.)].

40. Quantias essas pertencentes às heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos seus pais [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 38º da p.i.)].

41. Necessitando “C” dessas quantias para fazer face aos seus encargos pessoais, nomeadamente, às despesas relativas aos tratamentos da sua doença [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 39º da p.i.)]. 42. O quinhão hereditário cedido era constituído, essencialmente, por bens imóveis [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 43º da p.i.)].

43. Também fazem parte da massa dessas heranças alguns bens móveis com um valor de mercado não superior a 200,00 € e que pertenciam ao recheio da última residência de “C” [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 49º da p.i.)].

(13)

44. A massa das heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos pais de “C” tem um valor de mercado não inferior a 650.000,00 € [resposta à matéria de facto da b.i. (art.º 50º da p.i.)].

45. O quinhão hereditário cedido por “C” ao 1.º réu tem e tinha à data da escritura um valor de mercado não inferior a 216.000,00 € [resposta à matéria de facto da b.i. (art.ºs 44º e 51º da p.i.)].

46. Há que ter como assente que o casamento, que foi católico, ocorreu em 25-2-1976, em M, Alemanha, tendo os cônjuges residência habitual em Alemanha, sendo ele português e ela espanhola, e a escritura em causa, respeitante a cessão onerosa de quinhão hereditário, do qual fazem parte imóveis, em que ele interveio como cedente, foi outorgada a 13-10-2005, e o casamento do cônjuge marido só posteriormente foi averbado no seu assento de nascimento.

*

1. A alteração da decisão sobre a matéria de facto:

As peças dos réus e, nomeadamente as suas alegações, não primam pela clareza[13]. Mas confrontado o corpo das alegações e as conclusões dos réus com a b.i. (base instrutória) e a referência que nela se faz aos art.ºs 8º e 19º da contestação e ainda com as respostas à matéria de facto constante da b.i. consegue-se descobrir que os réus pretendem impugnar a resposta dada ao ponto da b.i. que consegue-se referia ao art.º 19º da contestação, onde se questionava: «O primeiro réu entregou a “C”, na data da escritura pública de cessão onerosa de quinhão hereditário, a quantia de 50.000,00 €» e que teve como resposta: «provado o decidido quanto aos art.ºs 19º, 20º, 21º, 22º, 26º e 27º da p.i.», ou seja, «provado apenas, que “C” não tinha rendimentos, nem era auxiliado pelos irmãos, pelo que foi o réu “D”, nomeadamente quanto ás necessidades básicas da alimentação e medicamentosa, pelo que, para o compensar, o “C”, fez testamento a favor daquele réu; mas, mas como houvesse receio de que este não estivesse devidamente acautelado, acordaram em celebrar a escritura de cessão em causa». Pretendem os réus que se dê como provado que o primeiro réu fez a entrega ao falecido “C” da entrega de 50.000,00 €. Os réus não o dizem directamente, mas é isto que se extrai do contexto global das suas alegações.

Embora de forma desajeitada, com o devido respeito, os réus cumprem o ónus que lhe era imposto no art.º 690º-A, n.º 1 al. a) do Cód. Proc. Civil. Mas, muito provavelmente, o modo como foi organizada a b.i. na 1.ª instância, também terá contribuído para a forma como os réus especificaram o ponto da matéria de facto que pretendiam impugnar. E também cumprem o ónus previsto 690º-A, n.ºs 1 al. b) e 2 do Cód. Proc. Civil, já que especificam os depoimentos do 1.º réu e da 3.ª ré, e os depoimentos das testemunhas “G”, “I”, “H”, com a indicação do início e termo dos seus depoimentos com referência para o que se encontra assinalado na acta.

Mas salta logo à vista, que o fundamento do recurso não é a existência de qualquer erro que seja apontado à decisão recorrida quanto ao aludido ponto da matéria de facto, mas só, e apenas só, a mera discordância com a decisão do Tribunal a quo quanto à apreciação da prova. Ora a existência de erro na apreciação da prova é uma coisa e outra, muito diferente, é discordar do Tribunal a quo e mostrar que a decisão deste não seria a sua. É só aquele, e não esta, que permite que o Tribunal ad quem sindique a decisão daquele. Não se pode perder de vista que se está perante provas sujeitas à livre apreciação do tribunal (art.º 655º, n.º 1 do Cód. Proc. Civil), e, por conseguinte, o Tribunal pode formar livremente a sua convicção de uma

(14)

forma racional, crítica e objectiva. E a censura desta convicção não pode assentar num ataque simplista à fase final da formação da convicção, isto é, na valoração da prova, mas antes terá de assentar na violação de qualquer dos passos na formação da convicção do tribunal, pois que esta é uma operação intelectual complexa de valoração racional e crítica __ e não uma operação puramente subjectiva, por meio da qual se chega a uma conclusão unicamente por meio de impressões ou conjecturas de difícil ou impossível objectivação __ onde se conjugam as regras comuns da lógica, da razão, das máximas da experiência e dos conhecimentos científicos, a percepção da personalidade de cada depoente, seu comportamento e reacções __ como melhor se verá infra a propósito dos depoimentos das testemunhas __, onde cada caso é um caso, a observância de princípios instrumentais e estruturais na formação da convicção (princípios da oralidade, da imediação, da concentração e da publicidade da audiência), com vista à investigação de uma verdade jurídico-prática[14].

Tal como a fundamentação da matéria de facto, com a análise crítica das provas, é exigente, assim também a impugnação da decisão da matéria de facto é exigente, para que seja susceptível de êxito, uma vez que o Tribunal ad quem só consegue sindicar a decisão impugnada e eventualmente alterá-la se estiver perante qualquer erro notório na livre apreciação da prova, isto é, ante um erro ostensivo, de tal modo evidente, que não passa despercebido ao comum dos observadores, ou seja, quando o homem de formação média facilmente dele se dá conta, por se tratar de uma apreciação manifestamente incorrecta, desadequada, baseada em juízos ilógicos, arbitrários ou de todo insustentáveis, aos olhos dos que apreciam a decisão e aos seus destinatários, sem necessidade de argúcia excepcional, e com exclusão de qualquer visão subjectivista[15]. Trata-se, pois, de uma falha grosseira e ostensiva na análise da prova de que todos se apercebem directamente, ou por via indirecta, isto é, mediante raciocínios formados sobre factos observados pela generalidade das pessoas[16]. É o que se verifica, p. ex., quando se dá como provado algo que está notoriamente errado, algo que não pode notoriamente ter acontecido, e que não passa despercebido ao comum dos observadores, saltando-lhes imediatamente à vista, quando se usa um processo racional e lógico. O erro notório na apreciação dos factos surge assim como uma conclusão ilógica, irracional ou arbitrária.

Não se estando perante um erro desta natureza, um ataque simplista à fase final da formação da convicção do Tribunal a quo, como, com o devido respeito, é feito pelos réus, corre grave risco de não ter êxito. Mas vejamos.

Não existe qualquer redução a escrito dos depoimentos dos réus. Logo e nos termos dos art.ºs 358º, n.ºs 1 e 4 do Cód. Civil e art.º 563º do Cód. Proc. Civil, os mesmos estão sujeitos à livre apreciação do tribunal, por inexistência de qualquer confissão reduzida a escrito.

Descendo à prova testemunhal, há que adiantar o seguinte.

A Relação só pode alterar a decisão da 1.ª instância, com base nos depoimentos das testemunhas, em situações verdadeiramente excepcionais de erros manifestos de julgamento[17]. É preciso ter em conta que, mesmo havendo gravação sonora dos meios de prova produzidos oralmente, ou até mesmo com outros meios alternativos, incluindo até a gravação vídeo, que tudo isto para o Tribunal de recurso é muito pouco, quando comparado com a riqueza de dados probatórios postos à disposição do Tribunal a quo. Na verdade, existem aspectos comportamentais e reaccionais dos depoentes __ o tom, o timbre, a intensidade

(15)

da voz, as pausas, a voz murmurante, a mímica, e outros gestos (de mãos e pés), posturas e expressões faciais como o rubor, a palidez, os olhares (de súplica, o evitar do olhar, o desviar do olhar, a olhadela, etc.), e outros comportamentos não verbais como os sorrisos, os movimentos de cabeça, os fenómenos de hesitação e de silêncio, etc., etc., são elementos extremamente infiéis e mutáveis, conforme o temperamento, a idade, o sexo, a posição social e as condições de vida, mas que podem ser significativos, quando sujeitos a uma análise prudente e avisada, sempre circunscrita à especificidade de cada caso, que descubra, por exemplo, entre um tímido e um audacioso profissional da mentira, que sabe ser mais facilmente acreditado se se mostrar firme e seguro no seu depoimento[18] __ que só podem ser percepcionados, apreendidos, interiorizados e valorados por quem os presenciou, e que jamais ficam gravados ou registados para serem postos à disposição do Tribunal ad quem e que podem ser significativos. Os depoimentos não são só palavras, o silêncio da testemunha (que não parece na transcrição) pode valer mais para formar a convicção do tribunal do que o depoimento orquestrado de vinte outras. Uma coisa é aquilo que as testemunhas dizem e outra, muito diferente é o valor daquilo que dizem. Os depoimentos das testemunhas pesam-se caso a caso, no contexto em que se inserem, e tendo em conta a razão de ciência que invocam e a sua razoabilidade face à lógica, à razão, às máximas da experiência e aos conhecimentos científicos. É muito, pois, o que escapa ao Tribunal da Relação. A 1.ª instância está ambientalmente em contacto com as provas (princípio da imediação). A Relação tem só, e apenas só, um registo sonoro do que foi dito. E é muito pouco, como ficou dito e, daí, que só em situações verdadeiramente excepcionais de erros manifestos de julgamento possa alterar a decisão da matéria de facto.

Posto assim os pontos nos “is”, vejamos, começando pelo depoimento de parte e depoimentos das testemunhas.

O Tribunal a quo deu a aludida resposta ao art.º 19º da contestação constante da b.i. porque não deu crédito às versões das testemunhas arroladas pelos réus “H” e “G”, testemunha comum, por não ser normal que a entrega dos 50.000,00 € ao “C” pelo 1.º réu não deixe rasto, nem antes, nem depois da entrega, e sem que tivesse havido qualquer alteração na situação económica de “C”. Isto por um lado. Por outro, no que concerne à entrega, entraram em contradições e não é crível que tivesse ocorrido na data e local em que afirmaram, atento o depoimento relativo à hora e dia a que teria estado em Alcobaça (cfr. fundamentação da decisão sobre a matéria de facto a fls. 386 dos autos).

Da audição dos depoimentos, não se notam flagrantes erros de julgamento. Pelo contrário, da análise ponderada dos depoimentos, e tendo em conta o supra o exposto, e o documento de fls. 354, é convicção deste Tribunal que o Tribunal da 1.ª instância julgou correctamente a matéria de facto impugnada.

Vejamos porquê.

Conforme decorre do que foi dito, mais do que os réus e as testemunhas dizem, vale o modo porque o dizem[19], «as palavras não valem só pelo que dizem, mas pelo que querem, podem ou devem dizer»[20]. Os depoimentos das testemunhas pesam-se caso a caso, no contexto em que se inserem, e tendo em conta a razão de ciência que invocam e a sua razoabilidade face à lógica. Os depoimentos do réu “D” e das testemunhas “G” e filho deste “H” e “I” não merecem qualquer crédito pelas seguintes razões:

(16)

9h00, no seu escritório. E disse que os deu na frente das testemunhas “G” e “H”, respectivamente pai e filho. E disse ainda que, a partir do momento em lhos deu, nunca mais deu dinheiro ao “C”, nem teve com ele mais qualquer negócio. No entanto, precisamente no mesmo dia da procuração que “C” passou à terceira ré (11-07-2005) [cfr. ponto 2. da matéria de facto provada supra descrita em II. A)], o réu “D” assinou, perante o notário do Cartório Notarial de Alcobaça, a Declaração de fls. 354, na qual ele diz: «declaro que me comprometo a entregar todos os meses, até ao final da sua vida, ao senhor “C” (…) a quantia de 400,00 euros, referente a um acordo que fizemos de uma possível venda que ele me irá efectuar, ainda sem data prevista, devido à morosidade do processo». Confrontado com esta declaração, o réu “D” com grande embaraço, reconheceu que era a sua assinatura e disse que não se lembrava de ter assinado e que era mentira que tenha pago os referidos 400,00 €. Disse também que pagou ao “C” os 50.000,00 € pelo quinhão hereditário deste antes da escritura, que lhe deu o dinheiro todo antes da escritura, porque este lhe disse que queria o dinheiro. 8 dias antes deu-lhe 15.000,00 € que era o dinheiro que tinha, e depois lhe os ditos 35.000,00 conforme supra referido. No entanto, dos documentos juntos a fls. 233 a 236, 239 a 252, 264 e 265 verifica-se que o “C” não tinha qualquer conta bancária com saldo que evidenciasse tal recebimento. A isto acresce que não é crível a explicação avançada pelo réu “D” para a marcação à pressa da escritura de cessão onerosa de quinhão hereditário, quando se apercebeu que o “C” estava a morrer. E isto, porque este em 07-12-2004 o tinha instituído como seu único e universal herdeiro (testamento de fls. 307-308 dos autos), e quando diz que só soube que o “C” tinha mulher e uma filha quando foi citado para a presente acção. O que seria normal era não fazer a tal escritura, para não ter despesas com esta e não ter que pagar o imposto (IMT), que, segundo as suas palavras, “que era ainda uma conta boa”. Como único e universal herdeiro herdava tudo e não precisava de comprar e de esbanjar dinheiro em despesas com a escritura e com o imposto. Diz o réu “D” que não tinha feito a escritura mais cedo porque tinha de pagar o IMT, “que era ainda uma conta boa”. Todavia, a crer o no seu relato, marca a escritura à pressa porque pensou que como já tinha começado a tratar dos papéis para a venda que a doação deixava de ter efeito, “eu não percebo nada de papéis…”. O réu “C” é um negociante de automóveis e soube tratar dos assuntos do testamento, foi com o “C” à 3.ª ré, a solicitadora, e assinou com este a procuração que este passou à 3.ª ré em 11-07-2005, e tratou das coisas da escritura. O que torna suspeita a sua alegada ignorância. Por outro lado, o normal, a crer na sua versão, seria informar-se primeiro se seria necessário fazer a escritura, uma vez que já tinha testamento a seu favor que o instituía como único e universal herdeiro, para não ter pagar as despesas com a escritura e o imposto, tanto mais que dizia que este “era ainda uma conta boa”. Mas há mais. Existem contradições nos depoimentos. A testemunha “H” disse que a partir do momento em que o dinheiro foi contado e conferido pelo Sr. “C”, ele e o pai foram às suas vidas e que o réu “D” e o Sr. “C” foram fazer as démarches dentro daquilo que seguiram. A ré “F”, a solicitadora a quem o “C” passou procuração de fls. 23 a 27 __ para vender pelos preços que entender, que receberá, ao Sr. “D” quaisquer imóveis ou partes de imóveis, fracções autónomas constituídas em propriedade horizontal e direitos e acções a heranças ilíquidas e indivisas, outorgando e assinando as respectivas escrituras, com as cláusulas, condições e obrigações que entender __, disse que o Sr. “C” tinha estado a passar o fim-de-semana em A com o Sr. “D” e que, quando foi ao seu escritório para passar a procuração (11-07-2005), ele estava muito doente e que lhe disse que estava a

(17)

sentir-se pior e veio para L, e que não mais voltou ao seu escritório. Ora isto não “bate certo” com a versão do réu “D”, nem com a versão das testemunhas “G” e “H”. Se “C” e o réu “D” estiveram a passar o fim-de-semana em A, como é que estiveram anteriormente no escritório do réu “D”, do dia 11-07-2005 às 9h00 e depois é que se dirigiram para a A?... Por outro lado, o dia 11-07-2005 caiu a uma segunda-feira. Mas há mais, para além destas contradições. O réu “D” disse que não sabia qual o valor do quinhão hereditário, que não sabia qual era o valor do prédio sito na Rua , e que desconhecia a existência de bens em V, bens estes que integravam a herança. No entanto, diz que deu 50.000,00 € por um quinhão hereditário cujo valor desconhece. Afirma também que lhe deu os 50.000,00 € antes da escritura, que lhe deu o dinheiro todo antes da escritura, que lhe pagou o preço total do quinhão hereditário antes da escritura. Dizer que pagou, só porque o “C” queria o dinheiro, não é razoável, nem verosímil, tanto mais quanto é certo que o réu “D” é um negociante de automóveis. Logo um homem experiente nos negócios e não um ingénuo. Ninguém medianamente exigente pode aceitar as versões do réu “D” e das testemunhas “G” e “H”. A demonstração da realidade de um facto deve considerar-se feita quando essa demonstração atinja um grau de certeza que as pessoas mais exigentes da vida reclamariam para dar o facto como verificado. É nessa posição que o juiz se deve colocar. Não se trata, pois, de uma certeza lógica, absoluta, que elimine a possibilidade de o erro não ter ocorrido __ o que levaria a que o direito falhasse clamorosamente a sua função social; ao direito interessa apenas, de acordo com os critérios de razoabilidade essenciais à aplicação do direito, criar no espírito do julgador um estado de convicção, assente na certeza relativa do facto[21] __ , nem também de mera probalidade da sua verificação, mas de algo intermédio __ uma probabilidade forte. À parte contrária caberá pôr em evidência a margem de dúvida que possa subsistir[22]. A esta luz, ninguém medianamente exigente, pode aceitar tal explicação. Mas há mais. Relativamente à questão de o réu “D” ter pago 50,000,00 € por um quinhão hereditário cujo valor desconhece é nítido o embaraço com que responde ao Mm.º Juiz sobre esta matéria: primeiro começou por dizer que o valor do prédio era suficiente para dar ao “C” os 50.000,00 €. Pouco depois, no seu mesmo depoimento, disse que o prédio estava muito degradado e que não sabia o seu valor, porque a sua área era automóveis e não prédios. O réu “D” disse ainda que, no dia da procuração, as testemunhas “G” e “H” lhe levaram ao seu escritório os 35.000,00 € que lhe emprestaram. O filho (“H”) levou 15.000,00 € e o pai (“G” Soares) 20.000,00 €. E que estes levaram o dinheiro dentro de um saco. Não é esta a versão das testemunhas “G” e “H”, que foram convidadas pelo réu para testemunharem a entrega do dinheiro ao “C”, no seu escritório. Estas dizem que foi só a testemunha “G” que entregou o dinheiro, e que a testemunha “H” tinha antes dado o dinheiro ao pai para este entregar ao réu “D”. Este disse que o “G” e o “H” levaram do dinheiro que lhe emprestaram dentro de um saco, e o “G” disse que o levou dentro de um envelope grande. Por sua vez, a testemunha “H”, a instância da mandatária das autoras, cristalizou todo o seu depoimento nisto: «o meu pai fez a entrega do dinheiro ao Sr. “D” e o Sr. “D” fez a entrega do dinheiro ao “C”», e que este conferiu e contou o dinheiro, e que tudo isto ocorreu no escritório do réu “D”. Tudo o mais varreu-se-lhe da memória. O que justifica por se tratar de factos ocorridos há 2 anos. Mas lembra-se que o réu “D” assinou uma declaração ao pai em como recebeu dele os 35.000,00 € emprestados, mas já não se lembra se o Sr. “C” também assinou outra ao réu “D” em como recebeu dele o dinheiro que este lhe entregou. O que não deixa de ser entranho, porque o Sr. “D” pediu-lhe a ele e ao pai para irem ao

(18)

escritório do Sr. “D” para lhe entregarem do dinheiro a ele emprestado e testemunharem a entrega do dinheiro pelo Sr. “D” ao Sr. “C”. Ora esta questão da assinatura de uma declaração de recebimento do dinheiro pelo Sr. “C”. “D” era um facto nuclear da razão da sua ida ao escritório do Sr. “D”. Além do mais, porque vão lá eles testemunhar a entrega do dinheiro (os 35.000,00 €) pelo réu “D” ao “C” e este, na presença de todos, não assina uma declaração de recebimento (quitação) ao réu, tanto mais o pagamento foi feito em cash?… A explicação avançada de que o “C” queria o pagamento em dinheiro não explica porque é que não assinou a quitação ao réu “D”. E a explicação de que eram todos muito amigos e que tinham confiança uns nos outros, também não permite explicar o porquê do tratamento diferenciado em relação à testemunha “G”. O réu “D” quando recebeu deste os 35.000,00 € assinou uma declaração ao “G” a reconhecer a tal facto. Porque não fez, então, o “C” um cash against document?

O réu “D” disse que entregou 15.000,00 € ao “C”, no seu escritório, oito dias antes da entrega a este dos restantes 35.000,00 €. E que essa entrega dos 15.000,00 € que foi feita dentro de um saco de plástico azul. Disse que a testemunha “I” presenciou tal facto. No entanto, esta testemunha diz que não sabe qual o montante do dinheiro que foi emprestado __ porque não foi ele que contou, explicou __ e como é que o “C” levou o dinheiro, como claramente resulta das suas respostas à instância da advogada da autora.

A isto acresce, a mesma pergunta, porque é que o “C” não assinou uma declaração ao réu “D” de que recebeu o dinheiro, tanto mais que era um pagamento em cash e antes da escritura, um pagamento sem qualquer rasto de prova?… A presença da testemunha “I” a tal acto não é explicação que afaste aquele pagamento sem a passagem de quitação.

As contradições apontadas, apesar de todos terem presenciado os mesmos factos, incongruências, a falta de razoabilidade das explicações avançadas: o réu “D” que diz desconhecer que o “C” tem mulher e uma filha e marca uma escritura à pressa para comprar o quinhão hereditário do “C”, do qual sabe ser o único e universal herdeiro, e portanto só ele é que herdaria tudo, e que sabe que com a dita compra do quinhão hereditário vai pagar as despesas da escritura e o imposto (IMT) que, segundo as suas palavras, “era ainda uma conta boa”, quando o normal, a crer no que diz, era não comprar o quinhão hereditário e não fazer estas despesas, ou, se pensava __ como disse __ que por ter começado a tratar dos papéis para a compra do quinhão hereditário que a “doação” (testamento) ficava sem efeito, o normal era tentar informar-se se, tendo testamento a seu favor, se era preciso ainda comprar o quinhão hereditário, para evitar tais gastos; um pagamento em cash de um montante elevado que não deixa rasto, nem aparece na conta bancária do “C”, nem para o qual é apresentada qualquer justificação razoável. Tudo isto e o nervosismo e o embaraço demonstrados à saciedade, pelo réu “D” perante a dita Declaração de fls. 354 e em certas passagens do seu depoimento perante perguntas embaraçosas, p. ex., o porquê da pressa na marcação da escritura a instância da mandatária das autoras e porquê fazer a escritura da cessão onerosa de quinhão hereditário com o pagamento das despesas da escritura e o pagamento do imposto perante o Mm.º Juiz, quando este o interroga sobre o porquê deste comportamento.

Por tudo isto, os depoimentos do réu “D” e das testemunhas “G” e filho deste “H” e “I” não merecem qualquer crédito. E todos estes depoimentos e condutas do réu “D” se compreendem perfeitamente, e casam harmoniosamente, à luz da tese das autoras[23], como se verá infra, a propósito da ampliação do objecto do recurso no que respeita à matéria de facto pelas autoras, relativamente as respostas dadas à

(19)

matéria dos art.ºs 19º, 20º, 21º, 22º, 26º e 27º da p.i. e constantes da b.i..

Por tudo isto, não merece qualquer censura a decisão do Tribunal a quo que não deu como provada a entrega dos 50.000,00 € pelo réu “D” ao “C”.

Por todo o exposto, não se altera a decisão da matéria de facto.

Improcede, pois, o recurso dos réus, quanto à alteração da matéria de facto.

Uma vez que a acção não pode proceder com base no fundamento em que procedeu: __ a falta de consentimento da primeira autora, a esposa do falecido “C”, para a alienação por este do seu quinhão hereditário nas heranças ilíquidas e indivisas abertas por óbito dos seus pais ao primeiro réu “D”, conforme infra exposto em II. B) 1. (Os efeitos da transcrição do casamento após a cessão do quinhão hereditário) há que conhecer da matéria de facto impugnada pelas autoras na ampliação do âmbito do recurso.

Quanto à pretensão das autoras em relação à alínea a) da conclusão 12.ª das suas contra-alegações há apenas que alterar o ponto 7. da matéria de facto provada supra descrita em II. A) há que dar atenção ao que se segue:

Na enumeração dos factos assentes [cfr. art.ºs 508º-A, n.º 1 al. e); 508º, n.º 2 e 511º, n.ºs 1 e 2 do Cód. Proc. Civil] deve-se ter em conta que os documentos não são factos[24], mas sim um meio de prova[25] daqueles e, por conseguinte, não é a reprodução integral do seu teor que deve constar da matéria de facto assente, como é prática incorrecta em alguns tribunais, mas sim os factos deles constantes[26] que tenham força probatória plena, quer os documentos sejam autênticos (art.º 371º, n.º 1 do Cód. Civil), quer sejam particulares (art.º 376º, n.ºs 1 e 2 do Cód. Civil). Nos outros casos o documento é um elemento a considerar no conjunto das provas produzidas[27]. Na verdade, a repetição integral do seu teor é a reedição ou a repetição integral do seu texto ou conteúdo verbal, gráfico ou plástico e não a reprodução de quaisquer factos que aquele seu texto ou conteúdo verbal, gráfico ou plástico provem.

Assim sendo, não obstante o que consta dos pontos 6. e 46. da matéria de facto provada supra descrita em II. A), altera-se o ponto 1. da mesma matéria de facto provada pela seguinte forma:

«”C” casou catolicamente, no dia 25-02-1976, em M, Alemanha, com “A”, ele português e ela espanhola. A transcrição deste casamento só foi feita na 8.ª Conservatória do Registo Civil em 30-01-2006, com base na certidão de registo emitida pelos registos Centrais de Madrid, Espanha, em 25-11-2005. “C” faleceu 15-10-2005 (fotocópias das certidões de fls. 21 e 159 a 160)»[28].

A esta matéria não há que aditar a expressão «sem convenção antenupcial» por que tal resulta, obviamente, da inexistência dela.

Relativamente à pretensão das autoras em relação à alínea b) da conclusão 12.ª das suas contra-alaegações há apenas que alterar o ponto 7. da matéria de facto provada supra descrita em II. A) pelas seguintes razões, para além do já supra referido quanto ao facto de os documentos não serem factos, mas sim um meio de prova, o que deve ser tido em conta na enumeração dos factos assentes:

As menções que pretendem ver expressas na matéria de facto provada envolve matéria de direito visto que envolvem vários conceitos de direito, tais como herança __ que surge no direito das sucessões com vários sentidos: herança jacente, herança vaga para o Estado, herança indivisa, herança adquirida, etc. e que por uns é considerada como um património autónomo e por outros uma universitas juris __, herdeiro (art.º 2030º do Cód. Civil), sucessão legítima e sucessão legitimária (art.ºs 2027º; 2156º e 2157º do Cód.

(20)

Civil) e, porque só se dá como assente matéria de facto e não matéria de direito, há que rejeitar a inclusão de tais expressões.

A isto, há que ter ainda conta que a força probatória material das escrituras públicas, nos termos do art.º 371º, n.º 1 do Cód. Civil, não respeita a tudo quanto nelas se diz ou se contém, mas somente aos factos que a mesma refere que foram praticados pelo notário (v. g., que a leu, explicou e entregou duas cópias delas), ou que foram por ele atestados com base nas suas percepções, isto é, aos factos que o notário se pode inteirar com os seus próprios sentidos, e não aqueles sobre os quais o notário apenas pode formar um juízo ou apreciação de natureza mais ou menos falível (v. g., que o outorgante declarou perante o notário que compra imóvel e que o outro declarou que quer vendê-lo e que já recebeu o dinheiro). Sendo assim e nos termos do art.º 371º, n.º 1 do Cód. Civil apenas estão cobertos pela força probatória plena destes documentos autênticos, que o notário leu, explicou e entregou duas cópias das escrituras, v. g., e que um outorgante disse perante ele isto ou aquilo, mas já não fica plenamente provado que seja verdadeiras as afirmações feitas pelos outorgantes, ou que elas não estejam viciadas por erro, dolo ou coacção[29]. Assim sendo, e considerando que só se dão como assentes os factos provados por documentos quando estes fazem prova plena, quer os documentos sejam autênticos (art.º 371º, n.º 1 do Cód. Civil), quer sejam particulares (art.º 376º, n.ºs 1 e 2 do Cód. Civil), e que, nos outros casos, o documento é um elemento a considerar no conjunto das provas produzidas conforme já foi dito, posto tudo isto, há apenas que alterar o ponto 7. da matéria de facto provada supra descrita em II. A) pela seguinte forma:

«Por escritura pública de 02-02-2006, lavrada no Cartório Notarial , compareceu “A”, viúva, natural de M, Espanha, de nacionalidade espanhola, residente na Rua que declarou, entre outras coisas, desempenhar o cargo de cabeça-de-casal da herança de “C”, que este faleceu no dia 15-10-2005, na freguesia da P, que o falecido não fez testamento ou qualquer outra disposição de sua última vontade, tendo deixado como únicos herdeiros, a sua referida mulher, a declarante, que se mantém no estado de viúva, e uma filha “B”, natural da Alemanha, de nacionalidade espanhola, solteira, maior, residente na Rua» (doc. a fls. 29 a 30) [30].

Vejamos agora a matéria de facto impugnada pelas autoras relativamente às respostas aos art.ºs 19º, 20º, 21º, 22º, 25º, 26º e 27º da p.i. que constavam da b.i. e que tiveram como resposta «provado apenas, que “C” não tinha rendimentos, nem era auxiliado pelos irmãos, pelo que foi o réu “D”, nomeadamente quanto às necessidades básicas da alimentação e medicamentosa, pelo que, para o compensar, o “C”, fez testamento a favor daquele réu; mas, mas como houvesse receio de que este não estivesse devidamente acautelado, acordaram em celebrar a escritura de cessão em causa» e que as autoras pretendem que sejam dados como provados sem qualquer restrição.

No art.º 22º da p.i. as autores alegam «Para evitar a redução da liberalidade inoficiosa». e no art.º 25º alegam «De igual modo existiu uma divergência entre a vontade declarada pelo 1.º réu e a vontade real deste». Trata-se de matéria de direito, já que o primeiro tem a ver com os conceitos de direito de quota disponível, legítima e sua quota (que é variável e oscila entre ½, 1/3 e 2/3) e herdeiros legitimários (art.ºs 2168º, 2156º, 2162º e 2169º do Cód. Civil), e o segundo situa-se no âmbito da vontade negocial, mais concretamente na relação patológica que se verifica entre os seus dois elementos. A vontade (elemento interno) e a declaração negocial propriamente dita (elemento externo da declaração) divergem, há um

Referências

Documentos relacionados

2 - OBJETIVOS O objetivo geral deste trabalho é avaliar o tratamento biológico anaeróbio de substrato sintético contendo feno!, sob condições mesofilicas, em um Reator

Dessa forma, a partir da perspectiva teórica do sociólogo francês Pierre Bourdieu, o presente trabalho busca compreender como a lógica produtivista introduzida no campo

nesta nossa modesta obra O sonho e os sonhos analisa- mos o sono e sua importância para o corpo e sobretudo para a alma que, nas horas de repouso da matéria, liberta-se parcialmente

Este trabalho buscou, através de pesquisa de campo, estudar o efeito de diferentes alternativas de adubações de cobertura, quanto ao tipo de adubo e época de

3.3 o Município tem caminhão da coleta seletiva, sendo orientado a providenciar a contratação direta da associação para o recolhimento dos resíduos recicláveis,

O enfermeiro, como integrante da equipe multidisciplinar em saúde, possui respaldo ético legal e técnico cientifico para atuar junto ao paciente portador de feridas, da avaliação

Costa (2001) aduz que o Balanced Scorecard pode ser sumariado como um relatório único, contendo medidas de desempenho financeiro e não- financeiro nas quatro perspectivas de

xii) número de alunos matriculados classificados de acordo com a renda per capita familiar. b) encaminhem à Setec/MEC, até o dia 31 de janeiro de cada exercício, para a alimentação de