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DT\765229PT.doc PE100.503 Tradução Externa

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ASSEMBLEIA PARLAMENTAR PARITÁRIA

ACP-UE

Comissão dos Assuntos Políticos

5.3.2009

DOCUMENTO DE TRABALHO

sobre a governação mundial e a reforma das organizações internacionais

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PE100.503 2/6 DT\765229PT.doc

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I. Introdução

O sistema internacional de instituições criado no final da Segunda Guerra Mundial destinava-se a governar um mundo radicalmente diferente daquele em que hoje vivemos. Actualmente, o equilíbrio de poder internacional sofreu alterações, o mundo ficou

irreconhecível e as nações tornaram-se mais interdependentes.

É evidente que as actuais instituições mundiais, criadas em meados do século passado, não estão à altura dos desafios do actual mundo globalizado. Além disso, à medida que a

importância de países como a China, a Índia e outras forças emergentes começou a aumentar, o equilíbrio mundial afastou-se das potências económicas tradicionais.

As Nações Unidas e as suas agências especializadas, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e os bancos de desenvolvimento regional, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a cimeira do G-8, bem como diversas outras instituições são, em geral, encaradas como instituições fragmentadas e não adequadamente representativas. Geralmente, a sua legitimidade já não é considerada suficiente.

Uma estratégia bem sucedida deverá ir além das questões económicas e da reforma das instituições financeiras, embora esta seja fundamental. Deverá igualmente centrar-se na dimensão parlamentar e social das instituições mundiais e contar não só com o contributo dos governos centrais, mas também dos parlamentos e das autoridades locais. Além disso, a sociedade civil e outras partes interessadas de maior relevância devem ter um nível de participação mais elevado. Por último, a governação mundial apenas poderá ser eficaz se os Estados-Membros estiverem dispostos a ceder um certo grau de soberania.

O consenso é cada vez maior quanto ao facto de o unilateralismo já não ser uma solução viável para os desafios mundiais de hoje (alterações climáticas, energia, segurança, comércio, etc.). Estes problemas apenas podem ser resolvidos através de um multilateralismo novo e esclarecido.

II. Transformar a governação mundial

Necessitamos urgentemente de uma reforma da governação mundial que espelhe as novas realidades políticas, económicas e demográficas e que dê uma resposta eficaz aos novos desafios mundiais do século XXI, para ajudar a evitar crises e assegurar um futuro melhor. Poderíamos inclusivamente afirmar que temos de reinventar todo o sistema das Nações Unidas e reconstruir a arquitectura mundial a partir do zero.

As instituições mundiais não estão a funcionar de forma eficaz, quer individualmente, quer em conjunto. O seu funcionamento é dispendioso e, manifestamente, não constituem um bom investimento. Cada uma tem o seu mandato e a sua missão (que frequentemente se

sobrepõem, sem a necessária coordenação), a sua linguagem profissional e cultura de

organização próprias, bem como o seu próprio sistema administrativo. Consequentemente, a sua fragilidade é crescente e têm cada vez menos condições para enfrentar os desafios mundiais urgentes com que actualmente nos deparamos.

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 Uma crise de legitimidade, uma vez que não reflecte adequadamente o equilíbrio de poder real,

 Uma crise de confiança, pois os cidadãos, os governos e a comunicação social perderam a confiança no sistema,

Uma crise de eficácia, pois não é possível resolver os problemas mundiais sem que todos os intervenientes tenham mais voz nos fóruns e organizações internacionais.

No domínio da segurança e da paz mundial, o Conselho de Segurança das Nações Unidas tornou-se anacrónico e não representativo, tendo em conta a actual dimensão da organização e as ameaças que hoje em dia enfrenta. O número de membros, quer permanentes, quer não permanentes deveria ser alargado, para melhor espelhar as novas realidades e permitir mais abertura, eficácia e legitimidade do Conselho no âmbito das suas operações.

Cada sector e instituição, cada grupo e cada fórum de governação mundial (Conselho de Segurança das Nações Unidas, instituições financeiras internacionais, G-8, G-20, etc.) constitui um microcosmo independente.

Para podermos criar novas instituições mundiais legítimas, estas devem ser:

1. Representativas e democráticas: devem permitir que os principais países do mundo desempenhem um papel adequado e, simultaneamente, que a voz dos pequenos países também seja ouvida;

2. Baseadas no princípio da subsidiariedade, segundo o qual a arquitectura regional tem uma maior importância;

3. Eficazes: devem apresentar resultados, facilitar o progresso social, dar resposta às necessidades mundiais em constante evolução e ser totalmente transparentes e responsáveis;

4. Transparentes, no que respeita às decisões e discussões da comissão executiva, bem como à selecção dos dirigentes;

5. Um sistema de governação mundial eficaz: devem ser inclusivas e abrangentes e proporcionar oportunidades aos líderes nacionais e internacionais para que formem alianças para a acção e a reforma.

A actual crise financeira mundial representa uma oportunidade rara para os principais intervenientes mundiais repensarem e reforçarem métodos de cooperação, de modo a encontrarem soluções imediatas para estes desafios.

A nova realidade da permanente evolução do peso económico e demográfico de cada país e região a nível mundial exige um reequilíbrio do voto, da representação e da voz de cada um em todos os principais fóruns e instituições internacionais.

Na realidade, os principais desafios consistem em descobrir formas de incluir os novos intervenientes e diversificar as suas acções para além dos países industrializados ocidentais e, simultaneamente, atribuir um papel activo aos países de menores dimensões, bem como reforçar a posição dos países em desenvolvimento, sempre que sub-representados.

Este objectivo é particularmente relevante para o FMI e o Banco Mundial, onde os países em desenvolvimento são supostamente importantes, mas têm um papel decisório muito limitado, enquanto que a Europa, os países americanos e a Austrália estão sobre-representados.

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Em particular, a Europa está sobre-representada nas instituições financeiras internacionais (IFI): detém um terço dos lugares na comissão executiva e beneficia de uma variável enganadora incluída na forma como as quotas são calculadas para a atribuição de votos nas IFI.

O desempenho insuficiente das IFI foi agravado pela crise actual: o FMI falhou no seu papel de supervisão e fiscalização, no período anterior à crise.

Além disso, o Banco e o Fundo ainda impõem em grande medida, condições onerosas e desactualizadas aos países em desenvolvimento. De facto, as subvenções e empréstimos do BM em resposta à crise alimentar ainda serviram para apoiar reformas agrícolas orientadas para a exportação, as quais conduzem à dependência alimentar, e empréstimos do FMI concedidos muito recentemente ainda fomentavam a liberalização do sistema bancário e financeiro nos países em desenvolvimento. É necessário que ponham fim a estes

condicionalismos económicos.

São necessárias reformas de longo prazo. No entanto, no contexto da crise, devem ser adoptadas imediatamente algumas medidas essenciais de curto prazo.

III. O papel da UE e a parceria ACP-UE

Para contribuírem para uma governação económica mundial eficaz, os Estados-Membros da UE devem libertar lugares no sistema de governação das IFI, de modo a que os países em desenvolvimento possam ter uma voz influente. A UE deve apoiar quotas mais elevadas para as economias de mercado emergentes, bem como a criação de lugares adicionais para os países africanos.

Além disso, se os Estados-Membros da UE pretendem ter uma maior influência a nível das IFI, devem avançar no sentido de uma representação consolidada e unificada, por exemplo através de um único lugar para toda a zona do euro.

IV. Participação dos parlamentos e da sociedade civil

Uma reforma da governação mundial deve igualmente contribuir para o reforço do papel dos parlamentos, bem como da capacidade das organizações da sociedade civil e de outros intervenientes para responsabilizarem os seus governos pelas acções executadas a nível local e mundial. De momento, as organizações internacionais podem agir, e agem, sem terem em conta os seus pontos de vista.

Contudo, apesar de os governos ACP não terem voz suficiente nas mais importantes instituições mundiais, outros intervenientes há cuja voz praticamente nem é ouvida a esse nível.

Os parlamentos têm que assegurar que as negociações dos governos no âmbito das IFI e do processo G-20 sejam públicas, transparentes, responsáveis e respondem às exigências dos cidadãos. Da mesma forma que os parlamentos nacionais influenciam as políticas e fiscalizam a acção dos respectivos governos, na nova arquitectura mundial é essencial uma forte

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dimensão parlamentar.

É igualmente importante que se disponibilizem competências e recursos sustentáveis suficientes a longo prazo para reforçar as organizações da sociedade civil, de modo a que possam participar em debates sobre políticas públicas a nível mundial, bem como assegurar um acesso adequado dos intervenientes da sociedade civil aos fóruns consagrados à política mundial e no seio das organizações mundiais.

V. Respostas

É fundamental assegurar que as IFI adoptem medidas imediatas, para que as suas respostas à crise sejam eficazes e para evitar os erros do passado.

As medidas de curto prazo mínimas que podem adoptar para melhorar as estruturas de decisão das IFI devem incluir:

- Alargar o direito de voto dos países em desenvolvimento, bem como a sua representação na comissão executiva,

- Avaliar propostas no âmbito de um sistema de votação mais justo,

- Eliminar o direito de veto dos Estados Unidos no FMI e instituir um único lugar para o conjunto dos Estados-Membros da zona do euro, de modo a alterar a estrutura de propriedade dos organismos e melhorar o processo de decisão,

- Democratizar a selecção da sua liderança através de um sistema baseado no mérito, substituindo o acordo de cavalheiros dos Estados Unidos e da Europa. Ceteris Paribus, o objectivo deverá ser o de uma representação geográfica equilibrada.

A médio e longo prazos:

 Devem ser gradualmente introduzidos bancos de desenvolvimento regional novos ou sujeitos a reforma, de acordo com o princípio da subsidiariedade,

 O financiamento do desenvolvimento pelo BM deve obedecer a princípios financeiros responsáveis, os condicionalismos económicos devem ser abandonados e a boa governação deve ser recompensada,

 É necessário criar um organismo regulador internacional que possa prevenir os erros económicos e financeiros que conduzem a crises como a actual recessão,

 As Nações Unidas devem estabelecer os princípios e regras aplicáveis à disponibilização de bens públicos a nível mundial (como os referentes às alterações climáticas ou à segurança alimentar) e à ajuda ao desenvolvimento,

 Deve existir uma separação total entres as funções políticas e as funções financeiras, a nível da governação económica mundial,

 A intervenção das comissões executivas a nível das políticas e da actividade operacional deve ser reduzida,

 Deve ser introduzido um tratamento especial e diferenciado para os Estados vulneráveis e de pequenas dimensões,

 Devem evitar-se políticas e estratégias de desenvolvimento uniformes para todos. Pelo contrário, essas políticas e estratégias devem ser adaptadas a cada situação específica, para maximizar a probabilidade de serem bem sucedidas,

 A reforma institucional deve ser complementada por uma maior vontade política da parte dos Estados-Membros, em especial dos mais desenvolvidos, e apoiada através de novos

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recursos financeiros, de modo a permitir a plena execução dos mandatos/acordos em todas as suas potencialidades.

Outras respostas possíveis devem centrar-se:

 Na necessidade de revitalizar a Assembleia-Geral e na revalorização do Conselho Económico e Social (Ecosoc), bem como na criação de um mecanismo de consulta permanente entre um Ecosoc reformado, as instituições de Bretton Woods e a OMC,  No reforço da governação internacional em matéria de ambiente, através de uma

revalorização do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), fazendo com que se transforme numa Agência Especializada das Nações Unidas para o Ambiente,  Na definição, de forma mais precisa, das funções e mandatos dos organismos regionais e

internacionais,

 Na atribuição de uma maior atenção aos problemas das mulheres no âmbito do sistema das Nações Unidas, de modo a que os objectivos de igualdade entre homens e mulheres e de responsabilidade das mulheres sejam integrados de forma mais eficaz.

Os líderes do G-8 deveriam ter em consideração a possibilidade de transformar o G-20 num importante fórum de discussão sobre problemas económicos mundiais, bem como sobre outros temas, permitindo um diálogo mais alargado sobre questões estratégicas, como as alterações climáticas, as migrações, a segurança e a saúde a nível mundial.

Para alcançar esse objectivo, a estrutura do G-20 deveria ser revista, de forma a assegurar uma presença razoável dos países em desenvolvimento, incluindo os países ACP. Caso contrário, a representação poderá tornar-se ineficaz e difícil de gerir. Os países ACP poderiam

determinar/fazer alternar representantes/governos adequados, bem como instituições relevantes, de modo a reflectir os seus interesses e preocupações.

É muito importante que os líderes assegurem que as suas pretensões (p. ex. no âmbito das negociações dos APE relativas às “orientações em matéria de desenvolvimento” e ao “reforço da solidariedade com os países ACP”) sejam respeitadas por quem tem como função finalizar os acordos.

É igualmente importante que os princípios fundamentais da igualdade e da lealdade sejam respeitados no âmbito das relações entre os países desenvolvidos e os países em

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