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Almanack número14

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Academic year: 2018

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RECLUS, Élisée.

Do sent iment o da nat ureza nas sociedades modernas e

out ros escrit os

. São Paulo: Int ermezzo/ Edusp, 2 0 1 5 .

DOI: ht t p://dx.doi.org/10.1590/2236- 463320161412

Joana M ont eleone

Universidade Federal de São Paulo, São Paulo SP, Brasil joana@ alamedaedit orial.com.br

Elisée Reclus, o geógraf o impressionist a

In every object , mount ain, t ree, and st ar in every birt h and lif e, As part of each evolv'd f rom each meaning, behind t he ost ent , A myst ic cipher w ait s inf olded.1 Walt Whit man, Shakspeare- Bacon Cipher. Leaves of grass

Em 1866, o geógraf o f rancês Élisée Reclus (1830- 1905) publicou na prest igiada

Revue des deux mondes um de seus t ext os mais conhecidos, Do sent iment o da nat ureza nas sociedades modernas. O t ext o f ez um enorme sucesso e inf luenciou uma geração de pensadores e escrit ores do período, abordando t emas que permeariam os escrit os e as ideias no século XIX. O art igo f oi t raduzido e publicado em port uguês numa primeira edição em 2010 e agora saiu reimpresso pela Int ermezzo e pela Edusp, com ót ima t radução e projet o edit orial de Plínio August o Coelho.

Élisée Reclus f oi um dos maiores viajant es do século XIX. Numa época em que as ciências humanas ainda não haviam se dividido em especializações, ele f oi, sobret udo, um humanist a, um int elect ual, um ensaíst a. Andava pelo globo, pensando em dif erent es problemas, vendo sociedades dist int as, celebrando a nat ureza em cont rast e com o que dizia ser a dura vida das cidades. No t ext o que dá t ít ulo ao livro, , publicado em maio de 1866, é

1 Em cada mont anha, árvore e est rela em cada nasciment o/ e vida/ int egrando cada sent ido/ e se

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a mont anha que domina a paisagem e sua escrit a. Para ele, a mont anha, ou a subida e a conquist a da mont anha, seria a met áf ora perf eit a para exprimir seus ideais de solidariedade, f rat ernidade e liberdade ent re os povos.

M ais t arde, em sua ext ensa obra escrit a, Reclus escreveria um livro int eirament e dedicado à mont anha, Hist ória de uma mont anha, de 1880. Nesse livro, as

ideias sobre a mont anha se mist uram com ant igas mit ologias a mont anha evocando um arquét ipo abst rat o, quase uma pirâmide sagrada. A mont anha f ez part e do imaginário europeu do século XIX e muit os pensadores se debruçaram sobre o t ema no período. O f ilósof o alemão Friederich Niet zsche (1844- 1900), por exemplo, escreveu sobre as raízes de uma mont anha mágica, o Olimpo, em seu primeiro livro, O

nasciment o de uma t ragédia no espírit o da música, publicado em 1872.2

Niet zsche cont rapôs a calma e a serenidade clássicas aos espírit os dionísicos da míst ica, da música, da dança e da embriaguez do vinho. A mont anha, na verdade, est ava no cent ro do mit o f undador da cult ura grega e assim ela aparece nos escrit os e desenhos de vários pensadores e art ist as ao longo do século XIX como t ema, como personagem, como símbolo, como desejo de avent ura.

A imagem da mont anha est eve present e t ambém em pensament os e livros mat emát icos como f oi o caso do ast rônomo escocês Charles Piazzi- Smit h (1819- 1900), que na época publicou seu livro de grande sucesso A Grande Pirâmide: seus segredos e mist érios revelados. Piazzi- Smit h f ez uma t eoria mat emát ica para provar que a

Pirâmide de Gizé guardava uma relação geomét rica e mat emát ica especial de medidas.3

Ao cit á- lo em seu est udo, Reclus f az ref erência a uma espécie de mat emát ica sagrada

cont ida na nat ureza e nas mont anhas.4

Aquele que escala uma mont anha não será ent regue ao capricho dos element os como o navegador avent urado nos mares; bem menos ainda como o viajant e t ransport ado por f errovia, um simples pacot e humano t arif ado, et iquet ado, cont rolado, depois expedido a hora f ixa sob a vigilância de empregados unif ormizados. Tocando o

2

Bradbury, M alcolm. O mundo moderno: dez grandes escrit ores. São Paulo: Companhia das Let ras, 1989, p. 97- 119.

3 Crease, Robert . A medida do mundo: a busca por um sist ema universal de pesos e medidas. Rio de

Janeiro: Zahar, 2011, p. 139- 147. O ast rônomo Piazzi- Smit h f ez sua t eoria para se cont rapor ao est abeleciment o do sist ema mét rico f rancês. Foi seu livro que deu subsídios para que se criassem diversas sociedades ant imét ricas no século XIX.

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solo, ele ret omou o uso de seus membros e de sua liberdade. Seu olho serve- lhe para evit ar as pedras da senda, medir a prof undidade dos precipícios, descobrir as saliências e a anf ract uosidades que f acilit arão a escalada dos paredões.5

A nat ureza f oi um t ema clássico durant e o iluminismo do século XVIII. Ao volt ar- se para esse t ema no t ext o que dá t ít ulo ao livro, Reclus est ava evocando diversas ideias e f ilósof os, como Volt aire e Rousseau, mas recolocando- os num novo cont ext o, o de sua época, com a f ort e inf luência românt ica. O poet a inglês lorde Byron (1788- 1824), George Gordon, é cit ado diversas vezes em sua obra como exemplo de revolucionário por sua at uação na Grécia, bem como Giuseppe Garibaldi (1807- 1882), e as guerras de unif icação da It ália.6

Cidade e nat ureza, mont anha e nacionalidade, sent iment os e geograf ia são ideias aparent ement e dist ant es que se encont ram t ant o ao longo dest e t ext o especif icament e, e t ambém em t oda sua obra. Reclus escreveu suas impressões sobre a nat ureza e a sociedade, quase como se pint asse um quadro em que as pinceladas f ormam a paisagem se o quadro f or vist o de cert a dist ância, um quadro impressionist a. Na mesma época em que Reclus edit ou seu livro sobre a mont anha, um de seus cont emporâneos, o pint or Paul Cézanne (1839- 1905), começou uma série de quadros sobre o M ont Saint - Vict oire, na Provence. Se o geógraf o colocou o sent iment o da nat ureza e o poder da mont anha em livros, Cézanne t raduziu esses sent iment os em quadros de paisagens.7

Reclus é um ícone para os geógraf os, est udado e publicado há muit as décadas é uma espécie de pai f undador, ao lado de Vidal La Blache.8 Sua inf luência é

comparável à de Jules M ichelet (1798- 1874) para os hist oriadores, uma inspiração, um mit o, um pensador prof undo e genial para sua época. Os dois, Reclus e M ichelet , provavelment e se conheceram já que uma irmã de Reclus se casou com um genro do hist oriador.9

5 Reclus, Élisée.

Do sent iment o da nat ureza nas sociedades modernas e out ros escrit os. São Paulo: Int ermezzo/ Edusp, 2015, p. 52.

6 Clark, John P. e M art in, Camile.

Anarchy, geography, modernit y: t he radical social t hought of Elisée Reclus. Lanham: Lexingt on Books, 2004, p. 247.

7 At anassoglou- Kallmyer, Nina.

Cezanne and Provence: t he paint er in his cult ure. Chicago: Chicago Universit y Press, 2003.

8 Ver, ent re t ant os out ros livros sobre a hist ória da geograf ia, a recent e publicação de Larissa Alves de

Lira. O M edit errâneo de Vidal de La Blache. São Paulo: Alameda Edit orial, 2015.

9 At anassoglou- Kallmyer, Nina.

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Quando o t ext o sobre o sent iment o da nat ureza saiu na Revue des deux

mondes, Reclus começava seu período de maior prest ígio int elect ual, escrevendo para uma das mais inf luent es revist as do mundo.10 Quart o f ilho de um prof essor e past or

calvinist a nascido numa pequena cidade do int erior da França, Saint e- Foy- la- Grande, Jean- Jacques Élisée Reclus t eve vários irmãos igualment e inf luent es no século XIX, como et nógraf o Élie, o t ambém geógraf o Onésime, o explorador Armand, o cirurgião Paul. Com o irmão Élie, que viria a ser seu parceiro int elect ual , ele cursou dois anos na f aculdade de t eologia prot est ant e de M ont auban, quando desist iu de seguir os passos do pai. De lá part iu para Berlim, onde começou seus est udos de geograf ia e t ornou- se rapidament e discípulo do geógraf o alemão Carl Rit t er (1779- 1859).

Eram os anos 1850 e a polít ica f ervia na França. Em 2 de dezembro de 1851, Luis Napoleão Bonapart e (1808- 1873), sobrinho de Napoleão, dissolveu a Assembleia Nacional Francesa para est abelecer o Segundo Império. Sob o impact o dos acont eciment os e seduzido pelos ideais socialist as, Reclus volt ou à França para se engajar na lut a cont ra o império, pela república. A part ir desse moment o, o geógraf o passou a escrever com propósit o polít ico, para dif undir seus saberes na t ent at iva de

ilust rar o público e f azê- lo compreender os diversos problemas do globo. Para se D

conhecidos do geógraf o, é preciso compreender suas andanças pelo mundo. Além disso, é o t ext o inspirador dos ideais de viagens e viajant es do século XIX.

Exilado da França logo após o Segundo Império t er início, Reclus passou alguns anos em Londres onde f oi at é a Irlanda, que o impressionou com a f ome endêmica que, de 1847, ainda cast igava o país. Em Londres ele t rabalhou como prof essor, ganhando miseravelment e at é que seguiu para a América como precept or de uma f amília de f azendeiros ricos, dona de plant at ions, que seguia para a Nova Orleans, nos Est ados Unidos. Na América do Nort e, Reclus viveu por dois anos, ent re 1853 e 1855, onde viu e escreveu sobre a escravidão.

Seus escrit os sobre os Est ados Unidos represent am t rês t ext os do livro agora

(1861)

Revue e o últ imo na revist a La

10 Na mesma época ele t ambém passou a f azer guias de viagem para a edit ora Hachet t e, pat rocinadora

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Coopérat ion. A experiência dos anos em que viveu no sul do país f oi marcant e e Reclus

t ornou- se um f errenho abolicionist a.

É de se not ar que os anos em que habit ou a plant at ion f oram de int ensa

discussão polít ica e que, pouco depois, os Est ados Unidos ent rariam em conf lit o com a Guerra de Secessão (1861- 1865), sendo que os t ext os f oram publicados a quent e, ou seja, com a guerra na iminência de começar e logo depois do início. O objet ivo de Reclus era ent ender a guerra americana e apresent á- las para os leit ores de t odo o mundo, dada a enorme inf luência da Revue no mundo.

São os Est ados Unidos que servem de parâmet ro para que o geógraf o ent enda a América do Sul e mais especialment e o Brasil. A comparação é uma const ant e, como

Revue de 1866. No t ext o, a comparação com a Guerra do

Paraguai (1864- 1870) é diret a e o geógraf o f az a mesma análise de províncias do Sul

versus províncias do Nort e. Da mesma maneira, o t ext o f oi escrit o a quent e, no calor

dos acont eciment os, e t ambém t ent ava dar uma visão geral para o leit or da geograf ia, do povo e dos acont eciment os que se desenrolavam.

Eliesée Reclus volt ou à França em agost o de 1857, quando ele encont ra o pensador anarquist a M ikhail Bakunin (1814- 1876), de quem se t ornou amigo, ao lado de seu irmão Élie. Junt os f undariam a sociedade secret a Frat ernit é Int ernat ionale. Ent re 1867 e 1868, Reclus publicou a obra que lhe daria reconheciment o int ernacional, La

Terre, descript ion des phénomènes de la vie du globe. M ais t arde, esse volume se

t ransf ormaria na sua maior obra, Nouvelle Geógraphie Universalle.

O livro agora publicado t raz um apanhado da obra de Reclus e, ent re os t ext os escolhidos,

evolução, a revolu o geógraf o resume sua f ilosof ia polít ica em escrit os que est abelecem est reit a ligação ent re nat ureza, sent iment os, polít ica e f ilosof ia de vida o geógraf o era veget ariano.

Elisée Reclus est eve no Brasil em julho de 1893.11

Na ocasião, ele deu uma conf erência na Sociedade de Geograf ia do Rio de Janeiro (que se t ransf ormaria na Sociedade Brasileira de Geograf ia), f undada em 1883, pelo ent ão senador imperial

11 Cardoso,

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M anuel Francisco Correia (1831- 1905).12 Já era t eórico mundialment e conhecido e a

Sociedade f ez sessão especial no dia 18 de julho apenas para recebê- lo. Reclus visit ava o país para recolher subsídios para o 19º volume de sua Nouvelle Geógraphie

Universalle.

A vinda de Reclus para o Brasil f oi organizada e pat rocinada pela edit ora f rancesa Hachet t e e f oi a últ ima de suas grandes viagens pelo cont inent e americano. O Brasil realment e aparece no 19º volume da Nouvelle Geógraphie Universalle a Amazônia e seus rios dominam a escrit a e ajudam a f ormar o imaginário da época sobre região, com comparações com out ros grandes rios de civilizações dist ant es, como o Nilo, no Egit o. Os t ext os sobre a região já est avam ent re as preocupações do geógraf o, que poucos anos ant es havia escrit o a Bacia das

, para a Revue de deux mondes em 15 de junho,

províncias do lit oral, os negros e as co

Os dois t ext os f azem part e do volume agora edit ado. Poucos anos depois, em 1899, o Brasil passou a ser o personagem principal de um livro t ot alment e dedicado ao país,

Est ados Unidos do Brasil: geograf ia, et nograf ia, est at íst ica.13

A inf luência de Reclus sobre o pensament o brasileiro do período f oi grande. O geógraf o f ez part e de um grupo de pensadores e cient ist as est rangeiros que pensaram sobre a nação e a nacionalidade. Wilma Peres da Cost a já abordou a exist ência desse primeiro nacionalismo brasileiro compost o por uma narrat iva erudit a europeia de int elect uais f ranceses que chegaram ao Brasil com a M issão Francesa. Pouco mais t arde, a inf luência de viajant es e escrit os de est rangeiros sobre o d. Pedro II era signif icat iva a pont o de moldar um det erminado discurso de grande impact o nos pensadores brasileiros.14

12 As dif erenças e os conf lit os ent re a Sociedade de Geograf ia do Rio de Janeiro e o Inst it ut o Hist órico e

Geográf ico Brasileiro (IHGB) f oram explorado

da sociedade de geograf ia do Rio de Janeiro e sua cont ribuição sobre o saber geog

Revist a Fenix de Hist ória e Est udos Cult urais. Vol VII, ano 7, n.2. Consult a 19/7/2016. ht t p://w w w .revist af enix.pro.br/ PDF23/ARTIGO_12_LUCIENE_PEREIRA_CARRIS_CARDOSO_FENIX_M AIO_ AGOSTO_2010.pdf

13 Reclus, Élisée.

Est ados Unidos do Brasil: geograf ia, et nograf ia, est at íst ica. Tradução e breves not as de barão de F. Ramiz Galvão e anot ações sobre o t errit ório cont est ado pelo barão do Rio Branco. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1899.

14 Cost a, Wilma Peres. Narrat ivas de viagem no Brasil do século XIX: f ormação do Est ado e t rajet ória

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A maneira como o Reclus f oi lido e ent endido pelos brasileiros f ez part e desse moviment o e moldou a maneira como os próprios brasileiros se viam. Inspirado pelo romant ismo, Reclus escrevia sobre um país de nat ureza exuberant e, marcado pelas chagas da escravidão. Joaquim Nabuco cert ament e leu o geógraf o, bem como Euclides da Cunha. Est e, por exemplo, f alou da import ância de Reclus para sua obra em uma cart a para Coelho Net o em 30 de junho de 1908, enquant o preparava seu livro nunca realizado sobre a Amazônia, Um paraíso perdido.15

Para os hist oriadores, Reclus, o geógraf o, abre muit as port as de análise e possibilidades de conheciment o. Viagens e viajant es são a primeira a mais óbvia port a para o est udo de Reclus mas muit as out ras se ent reabrem ao longo do ext enso volume agora publicado, como o das relações ent re Brasil e Est ados Unidos, a do nasciment o da geograf ia e das dif erent es áreas humanidades, da hist ória das cidades, das publicações e da import ância da Revue des deus mondes, da hist ória do marxismo e do anarquismo.

Dat a de recebiment o da resenha: 22/07/2016 Dat a de aprovação da resenha.: 26/07/2016

15 Nogueria, Nat hália Sanglard de Almeida.

Referências

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