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Cad. Pesqui. número113

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Academic year: 2018

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TEMPOS E LUGARES DE GÊNERO Cristina Bruschini e Céli Regina Pinto (orgs.) São Paulo: FCC, Editora 34, 2001, 325p.

Esta coletânea reúne trabalhos seleciona-dos do VIII Concurso de Dotações para Pesquisa sobre Mulheres e Relações de Gênero realizado em 1998 pela Fundação Carlos Chagas, com apoio financeiro da Fundação Ford. Os textos publica-dos exprimem a maturidade de tratamento dessa temática que, com certeza, foi marcada pela se-qüência de concursos, o primeiro tendo sido rea-lizado em 1978. Por intermédio deles não só fo-ram financiados centenas de projetos de pesquisa ao longo desses 22 anos, como se ofereceram apoio e acompanhamento teórico e metodológico a tais projetos, a partir dos membros das comis-sões organizadoras compostas por especialistas de expressão nacional e internacional.

Os dez textos apresentados focalizam com acuidade e fundamento questões de ponta para a investigação científica nesse campo, trazendo pro-blemas teóricos nas mais diferentes abordagens, propiciando com isso uma contribuição sólida para as discussões, análises e interpretações relativas a temas relevantes. Todos se referem a pesquisas e trazem ricos aportes analíticos. Os autores pro-vêm de diversificadas áreas de formação e atua-ção profissional, sinalizando o caráter multidisci-plinar das questões investigadas e de suas aborda-gens.

Em “Chica da Silva: o avesso do mito”, de Júnia Ferreira Furtado, e no texto de Ana Lídia Nauar Pantoja, “Trabalho de negras e mestiças nas ruas de Belém do Pará (1890 – 1910)”, a aborda-gem historiográfica sustenta reflexões densas e ri-cas inferências. No primeiro trabalho a autora pro-cura “conhecer Chica da Silva não como curiosi-dade, como exceção, mas, por meio dela, lançar luz sobre as demais mulheres de seu tempo, in-serindo-as na história”. Percorre documentos

va-riados de diferentes arquivos, analisando as for-mas das relações familiares e sociais à época, no arraial do Tejuco, em Diamantina, o escravismo e os poderes, os filhos e sua educação, e as formas de superação de convencionalismos em uma so-ciedade hierárquica. Ana Lídia debruça-se sobre os trabalhos de mulheres e homens, no período 1890-1910. Pergunta: “Quem eram afinal essas mulheres anônimas que se dedicavam às ativida-des improvisadas, flutuantes e precárias, pelas ruas, praças e mercados...?” Procurou, mediante os dis-cursos das diversas fontes utilizadas, dar visibilida-de às práticas visibilida-de trabalho visibilida-dessas personagens num cenário de contrastes na Belém do final do século XIX e início do XX.

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endogamia, o fechamento dos grupos locais, a indi-ferenciação interna, as questões de igualdade e equilíbrio das relações na aldeia, a diferença e hos-tilidade ao “outro distante”, analisa, mediante sua mitologia, qual a origem da diferença no mundo e o ciúme, trazendo à tona interessantes aspectos do tema pela problematização de cadeias de opo-sições tidas como naturais. Com isso desvela um sistema simbólico intrincado, contribuindo para a compreensão do processo de construção do idên-tico e do diferente entre os Paresi.

Em “Tecendo o fio e segurando as pontas: mulheres chefes de família em Salvador”, Márcia dos Santos Macêdo traz estudo realizado com 26 mulheres chefes de família em Salvador, de dife-rentes características demográficas. O objetivo foi deslindar como a chefia familiar por mulheres acha-se interconectada com outros fatores como raça/ etnia, classe social, idade/geração. Realizou para tanto entrevistas em profundidade e reconstrução de histórias de vida, como também observações do cotidiano de uma subamostra das entrevista-das. Este último procedimento agregou ao estudo dados mais densos, permitindo ir além de um ní-vel apenas discursivo. O suporte teórico que utili-za para a análise dos dados está muito bem expos-to e é utilizado com rara acuidade. Sua opção por “um ângulo plural de leitura da realidade” mostra-se fecundo, permitindo entender a heteroge-neidade do grupo de mulheres e compreender a diversidade de situações em que exercem a chefia de família, mesmo num contexto de um bairro de classe trabalhadora, sem esvaziar a dimensão polí-tica da questão em seus determinantes estruturais. Resta clara a importância de se compreender a di-versidade das experiências na dinâmica da consti-tuição das mulheres em chefes de família.

Em outro contexto – o da zona rural – Ana Louise de Carvalho Fiúza pesquisa a mulher rural entre os pequenos agricultores familiares, objeti-vando elaborar uma ecocrítica desmistificadora de perspectivas dominantes quanto à responsabilida-de pela responsabilida-degradação do meio ambiente, e responsabilida-desvestir o fetiche que recobre a percepção da mulher e sua representação nas políticas de

desenvolvimen-to rural propostas para o Terceiro Mundo. O tex-to “Mulheres nas políticas de desenvolvimentex-to sustentável” é denso em suas proposições teóri-cas e permite à autora, realmente, como se pro-põe, “fugir das armadilhas de uma visão reducionista que polariza a condição da mulher rural, por um lado, vendo-a, no interior de um modelo de desenvolvimento produtivista, irreme-diavelmente dominada, enquanto, dentro de um modelo alternativo de desenvolvimento, ela teria a possibilidade de emancipação completa em re-lação às suas fontes de opressão”. A tessitura que faz entre teoria e dados obtidos em sua investiga-ção sustenta robustamente suas considerações fi-nais, permitindo-lhe questionar elementos bási-cos das duas perspectivas polarizadoras pelas quais as mulheres têm sido enquadradas nas propostas de desenvolvimento sustentável.

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tra-balho com uma esperança, “que esta pesquisa contribua para a ruptura da cultura do silêncio. Um silêncio que cala as discriminações e ignora as diferenças”.

Tendo em vista que homens e mulheres têm sido atingidos diferencialmente pelo desem-prego, Liliana Rolfsen Petrilli Segnini pesquisou tra-jetórias e práticas sociais de trabalhadores em si-tuação de desemprego ou de retorno ao mer-cado de trabalho por intermédio de formas pre-cárias de reintegração. No artigo “Constantes recomeços: desemprego no setor bancário”, bus-ca bus-caracterizar o signifibus-cado social das experiên-cias vividas por bancários(as), com escolarização alta em sua maioria, que participaram de progra-ma de demissão voluntária em um banco estatal em processo de privatização. Fazendo uma análi-se acurada sobre o crescimento do deanáli-semprego e da precariedade social no país, discute as carac-terísticas do desemprego no setor bancário e do processo de perda de filiação do setor, conceito que toma como base de suas interpretações para os dados levantados em seu trabalho, quer sejam dados estatísticos, quer sejam os conteúdos das entrevistas. Discute as dificuldades do processo de adesão, as tensões e racionalizações contradi-tórias e a questão do voluntário/obrigatório. Em suas considerações finais, amplamente sustenta-das por suas análises, continua problematizando a questão numa perspectiva de gênero, das rela-ções escolarização/oportunidade de trabalho, da filiação/desfiliação, opressão e rotina/liberdade e aleatoriedade situacional. Traz-nos reflexões críti-cas quanto aos diferenciados aspectos do proble-ma, contribuindo para a compreensão de que explicações simplistas não dão conta da questão. Os dois últimos artigos tratam de questões ligadas à intimidade doméstica ou de pessoas. No artigo de Eliane Pasini, adentramos em fronteiras de intimidades, ao sermos conduzidos pela pes-quisadora aos meandros pelos quais prostitutas de-cidem pelo uso de preservativos ou não nas suas relações, propiciando-nos uma reflexão sobre os valores socioculturais que orientam de modo ge-ral as relações sociais dessas mulheres. “As

fron-teiras da intimidade: uso de preservativo entre prostitutas de rua” apresenta um estudo compa-rativo de dois universos culturais, Porto Alegre e São Paulo, que, segundo a autora, foi um trabalho realizado como uma pesquisa única, “na medida em que cada um desses contextos ou universos foi analisado como se estivesse formulando per-guntas ao outro e respondendo às questões por aquele formuladas”. O estudo, inserido no con-texto das questões de prevenção de doenças se-xualmente transmissíveis – DSTs-Aids –, entre prostitutas de rua, traz instigantes análises quanto a representações de doença e saúde, sentimen-tos diferenciados para com os clientes, demarca-ção entre vida profissional e vida pessoal, entre outros aspectos que entram em jogo nas suas ló-gicas de uso de preservativo. Com isso aprofunda o estudo em aspectos de valores, emoções, con-cepção de corpo e relações de gênero, contribuin-do para uma compreensão maior de fatores que se podem tornar barreiras ou facilitadores para a assimilação de conteúdos de campanhas de pre-venção de DSTs-Aids.

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pensavam os juízes sobre a violência com que se deparavam todos os dias, trazendo o entendimen-to de que a conciliação induzida pelos magistra-dos coloca o conflito novamente na esfera priva-da, devolvendo-o à vítima e redistribuindo o po-der em favor do réu. Conclui que sua pesquisa “permite dizer que o Juizado Especial Criminal não oferece a solução de que as mulheres necessi-tam... Quando a mulher resolve, para restabele-cer o equilíbrio da relação, acionar o Poder Judiciá-rio, este a mantém no mesmo patamar em que ela se encontrava”. As conseqüências dessa situa-ção são problematizadas, uma vez que represen-tam, para as mulheres vítimas de violência domés-tica, um fator de alto risco.

Problemáticas pertinentes e visão crítica, tratamento teórico consistente, convite à reflexão com enfoques diferenciados sobre aspectos rele-vantes nas relações de gênero na sociedade bra-sileira são as características que dão valor a esta coletânea.

Bernardete Angelina Gatti Fundação Carlos Chagas Programa de Pós-Graduação e Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo [email protected]

AS GRANDES FESTAS DIDÁTICAS: A EDUCAÇÃO BRASILEIRA E AS EXPOSI-ÇÕES INTERNACIONAIS (1862-1922)

Moysés Kuhlmann Júnior

São Paulo:USF/CDAPH, 2001, 262p.

Templo, vitrine, teatro... e agora, escola. As-sim, evocando grandes metáforas da moderni-dade, começa a conclusão do livro de Moysés Kuhlmann Júnior, pedagogo e historiador da edu-cação que tem contribuído significativamente para a renovação dos estudos da história da infância e da educação infantil no país. Só que, desta vez, o objeto de preocupação não é diretamente a in-fância ou a educação infantil, mas a educação de

uma maneira mais geral e a educação popular de maneira mais específica, bem como a crescente escolarização do social na segunda metade do século XIX e no início do século XX, a partir das exposições ocorridas entre os anos de 1862 e 1922. Nesse período, ocorreram 17 exposições internacionais em diferentes países (inclusive no Brasil), sete exposições nacionais e inúmeros con-gressos dos mais variados temas, pelos quais o autor procura mostrar a intenção didática dessas exposições e sua repercussão, o lugar privilegiado que a educação aí ocupa como produtora de civi-lização e progresso e a participação do Brasil nes-se processo, levando em conta as especificidades de nossa situação política e social. Tomadas como verdadeiras festas didáticas pelo autor, essas ex-posições tinham a pretensão de mostrar, de dar a ver, e, desse modo, construir o Brasil como uma Nação próspera e ordeira. Transformadas numa escola de civismo, essas exposições e as ativida-des que giravam em sua órbita estavam imbuídas de uma pedagogia do progresso: progresso a ser cultuado, exibido, representado. Daí sua dimen-são de templo, vitrine e de teatro.

Ao longo de mais de 250 páginas, Moysés faz desfilar diante de nossos olhos personagens, tramas, objetos, imagens de uma história ainda hoje muito pouco conhecida no campo da edu-cação e, mesmo, da história da eduedu-cação. O au-tor, com maestria e sensibilidade, vai nos mos-trando como as exposições internacionais, que ti-nham por objetivo celebrar o progresso humano e as riquezas das nações, eram projetadas, tam-bém, como espetáculos a serem oferecidos a pla-téias ávidas por novidades e acontecimentos. Nelas as vitrinas do progresso exibiam os atributos da modernidade: objetos, conhecimentos, produtos e tudo aquilo que denotasse, segundo o espírito da época, a arte e o engenho humano; nelas a ciência era exposta, ao mesmo tempo, como rea-lidade, realização e única possibilidade para o pro-gresso das nações e para a felicidade dos seres humanos.

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1851, e a do Rio de Janeiro, em 1922, é possível perceber uma grande continuidade em vários de seus aspectos. Tais continuidades são marcantes no plano discursivo, mas não apenas neste. Com ligeiras diferenças, todas elas são assinaladas pela crença no progresso advinda das ciências, na su-perioridade dos países do hemisfério norte sobre os demais, na educação e na escola como única possibilidade de participação dos países do nosso continente no concerto das nações civilizadas, den-tre muito outros elementos retóricos e ideológi-cos que marcaram o período analisado.

Ponto central da discussão sobre a educa-ção no interior das exposições e congressos, é a análise que o autor realiza da construção da im-portância da educação e da escola no imaginário moderno como signo de civilização e progresso. Esse eixo percorre todo o livro. A partir dele, o autor aborda a articulação entre os diferentes gru-pos implicados na questão educacional e sua for-mulação de propostas para a educação, a atuação da Igreja Católica, a influência norte-americana como padrão de modernidade, os principais te-mas educacionais em debate, a ênfase na criança, além da base material e “científica” das novidades pedagógicas que povoavam as exposições e con-gressos investigados.

Na maior parte dessas exposições a escola era focalizada, demonstrando-se a superioridade deste ou daquele método de ensino, a necessida-de necessida-de um ou outro material didático, o adianta-mento ou, no mais das vezes, o atraso dos países no que se refere à instrução, a premência de se investir na educação do povo, dentre outros as-pectos. No entanto, transformando o público em espectador, tais empreendimentos não apenas dis-cutiam diretamente as experiências e os rumos da educação e da escola nos diversos países, mas faziam-se escola, travestindo o espectador em aprendiz. Daí a face didática, e quase catequética, que assumiam as exposições e as representações que os seus idealizadores produziam.

Lançando mão do conceito de formações, cunhado pelo historiador, crítico literário e escri-tor inglês R. Williams, Moysés empreende,

den-tro dos limites de seu trabalho, uma notável revi-são da historiografia brasileira em relação à atua-ção dos grupos profissionais no campo da educa-ção e, mesmo, na sociedade como um todo. Ao analisar as articulações entre esses grupos, o au-tor discute a capacidade de composição que eles apresentavam. Afirma, com propriedade, que a defesa empreendida por médicos, engenheiros e advogados, cada um a seu modo, da primazia de seus saberes profissionais na proposição de teo-rias e práticas cujo objetivo era garantir a ordem e o progresso da/na sociedade brasileira, não signi-ficava, em momento algum, que eles dispensas-sem o concurso de outros saberes, mesmo que de forma subsidiária, na definição e realização de tais tarefas.

Outro ponto alto do livro são as fontes a partir das quais o autor constrói seu trabalho. Ape-sar de uma crítica um tanto quanto apressada à utilização da legislação e de documentos oficiais no âmbito da história da educação, Moysés reali-za uma exaustiva e muito bem-feita pesquisa com fontes documentais até então praticamente igno-radas pelos trabalhos na área. Trata-se não ape-nas da documentação diretamente relativa à par-ticipação brasileira nas exposições, o que por si só constitui um acervo dos mais interessantes e intri-gantes, mas um número invejável de documen-tos relacionados aos evendocumen-tos nacionais derivados ou preparatórios para aquelas. A partir de tais fon-tes, diligentemente indicadas pelo pesquisador, e das questões apontadas pelo seu estudo, muitas outras investigações poderão ser feitas.

A leitura provoca-nos, no entanto, uma questão: o que são as festas analisadas por Moysés? A impressão que fica é que as exposições eram festas apenas para serem vistas. Se pensa, como já o indicava Jorge Coli1, que o século XIX vê

nas-cer uma verdadeira pedagogiado olhar, parece-nos que o trabalho é coroado de êxito. Imagens, objetos, relações... tudo é dado a ver, numa es-pécie de grande aula de lições de coisas, aspecto,

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aliás, para o qual o autor, com muita propriedade, chama a atenção. No entanto, seria a festa ape-nas isto? Talvez fosse preciso um olhar menos pedagógico para acentuar outras características das festas que não a de espetáculo a ser visto. A vivência das exposições, as experiências dos su-jeitos, com certeza, ultrapassavam aquilo que es-tava organizado e, muitas vezes, autorizados aos visitantes. Sobre isso praticamente não se fala. Mas não podemos deixar de apontar para o fato de que, com a afirmação da escola como instituição social responsável pela instrução e pela educação das novas gerações, há uma crescente escolarização do conjunto das atividades sociais, entre elas as festas. Daí, talvez, também tenha-mos que olhar nas duas direções: a escola sendo conformada pela práticas sociais e, ao mesmo tem-po, conformando-as.

Uma outra questão que o trabalho de Moysés traz à tona refere-se à produção de dis-cursos dissonantes. Qual o contraponto à essa fé acrítica no progresso e na ciência que as exposi-ções celebravam? Quais críticas diferentes grupos sociais dirigiram a essas exposições e seus “pro-dutos”? Como é possível desconstruir sua eficácia pedagógica? Se o autor não se detém sobre esse ponto, nem por isso deixa de indicar uma via para a desconstrução da lógica e das representações presente nessas exposições, ao apontar para as ambigüidades dentro desse processo e para a questão da luta de classes – e, no caso brasileiro, da flagrante exclusão social – sempre ausente nes-sas vitrinas do progresso.

A qualidade de um trabalho mede-se pelas questões que nos possibilita formular, tanto quan-to pelas hipóteses que levanta e pretende demons-trar. Nesse sentido, o trabalho de Moysés, aqui analisado, está entre os grandes trabalhos que, ultimamente, têm sido produzidos no âmbito ou sobre a história da educação brasileira: ele torna possível e inteligível inúmeras questões que antes não sabíamos ou não ousávamos elaborar. E se é a partir de questões que se realiza pesquisa, se é a partir do conhecido que importa descortinar o novo, este trabalho contribui decisivamente para

um conhecimento e para o desenvolvimento de pesquisas acerca da trajetória histórica, dos sujei-tos e das formações, das estratégias e das repre-sentações que importam decisivamente na pro-dução e na configuração atual da educação brasi-leira. De diferente formas, direta ou indiretamen-te, o trabalho chama a nossa atenção para que nos conscientizemos de um passado que teima em não passar, que se esforça para fazer-se pre-sente, e nos alerta para a fato de que, como dizia Benjamim, se os vencedores continuarem a ven-cer, nem os mortos descansarão em paz. Somente por isso, se não pelas inúmeras outras razões, o livro merecer ser lido e recomendado.

Luciano Mendes de Faria Filho Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais [email protected]

Carla Simone Chamon Centro Federal de Educação Tecnológica Doutoranda pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais [email protected]

DA FALA PARA A ESCRITA: ATIVIDADES DE RETEXTUALIZAÇÃO

Luiz Antônio Marcuschi São Paulo: Cortez, 2000, 133p.

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não aristocrático nem sempre conseguem ir além do isso versus aquilo (norma culta versus norma popular; cultura erudita versus cultura popular; al-fabetização versus letramento etc.)

O novo livro de Luís Antônio Marcuschi, Da fala para a escrita: atividade de retextualização, é uma dessas boas tentativas de tematizar fenô-menos que se dão no contínuo entre escrita e fala, sem se acomodar à prática das duas listagens de características contrárias.

Do título do livro, já podemos inferir uma ênfase na prática, no uso da língua, embora, in-cautos, possamos até imaginar que o campo se estruture por polarizações: um percurso a ser fei-to entre dois pólos; de um lado a fala, de outro a escrita; do mais concreto para o mais abstrato; do menos formal para o mais formal.

Contrariando essas expectativas, o primei-ro capítulo já nos põe de sobreaviso quanto à es-sas facilitações. Traça um breve histórico das li-nhas teóricas que tratam o oral por oposição ao escrito, das concepções que procuram afirmar a superioridade de uma modalidade sobre a outra, sobretudo da escrita em relação ao oral. Reco-nhecendo a importância das contribuições recen-tes no campo da linguagem e deixando claro seu compromisso sociointeracionista, Marcuschi apre-senta o campo entre o oral e o escrito como um contínuo complexo que, apesar de apresentar dis-tinções marcantes, paradoxalmente, não se cons-titui na forma de dois sistemas ou dois pólos es-tanques. Mesmo levando em consideração as di-ferenças de meio (sonoro e gráfico) e de concep-ção discursiva (oral e escrita), o contínuo dos gê-neros textuais evidencia, além de uma zona prototípica em que cada modalidade tem seu acontecimento, seu processo, marcado por tra-ços mais distintivos; é igualmente possível isolar zonas de indistinção em que oral e escrito se con-fundem (por exemplo, o telejornalismo é um gê-nero oral, escrito ou misto?).

Há, ainda no capítulo 1, algumas boas mos-tras de uma teorização forte, que tem o propósi-to de extrapolar a dicopropósi-tomia: os gráficos comple-xos (p. 38-9, 41) que expressam essa

continuida-de enviesada e recortada por tantas diferenças, que vai da fala para a escrita ou vice-versa. Apesar de os modelos ainda constituírem expressões bidimensionais1, conseguem ser didáticos e

ex-pressam muito bem a complexidade de um con-tínuo entre fala e escrita que aceita as ambigüida-des que se instauram entre a uni e a bidimensio-nalidade.

No segundo (e último) capítulo, frisando ain-da mais seu princípio norteador – que o campo ain-da fala não se opõe ao da escrita por meio de um percurso do tipo “do menos... para o mais...” – Marcuschi apresenta um modelo promissor para a observação de fenômenos que ocorrem nos usos cotidianos da língua, quando as práticas sociais in-tentam transpor um texto do falado para o escrito. Tomando essas passagens entre as duas modalidades, mais precisamente a passagem do texto oral para o escrito, como um processo de retextualização, o autor propõe um conjunto de operações analíticas na tentativa de captar os fe-nômenos responsáveis pelas diferenças entre o texto original e o retextualizado. Propõe um con-junto de nove operações textuais e discursivas que, apesar de constituídas num diagrama e evidencia-das num fluxo que revela uma certa consciência do “retextualizador” (quanto às diferenças entre fala e escrita), o autor adverte que não se trata de uma hierarquia ou de uma seqüência rígida do processo. Esse conjunto de operações prevê ocor-rências de estratégias básicas (de eliminação, de inserção, de reformulação etc.) que, podemos supor, ocorrem quando falantes lançam mão (em diversas funções sociais: jurídicas, jornalísticas, in-telectuais, pedagógicas etc.) da fala do outro, para dela constituir um outro texto sob o pretexto de que, substancialmente, não alteraria significativa-mente o que foi dito, apenas aplicaria operações formais para tornar o texto apropriado à escrita ou ao registro escrito.

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O autor, além de apresentar um diagrama (p. 75) dessas operações, detalha cada uma delas e exemplifica as estratégias, muitas vezes, utilizan-do textos orais retextualizautilizan-dos. Ao entrar em con-tato com esses exemplos, o leitor perceberá a importância do modelo e a relevância do trata-mento teórico dado pelo autor em diversos cam-pos: na pesquisa acadêmica (etnologia, lingüística etc.), jornalismo, direito etc.

Para o campo do ensino de língua mater-na, esse combate à dicotomia é mais do que opor-tuno. A escola brasileira, em sua absurda fidelida-de a um mofidelida-delo lusófono fidelida-de ensino fidelida-de língua materna, dá as costas às possibilidades da língua oral brasileira, ao conclamar a superioridade de uma certa fala culta tida como mais próxima da língua escrita dos grandes mestres, ou seja, ainda se escuda nessas dicotomias. Contra esse elitismo, o livro nos dá um contribuição crítica significativa ao ensino de língua materna.

Ampliar e sofisticar as relações entre fala e escrita, nos moldes dessas atividades de retex-tualização apresentadas no livro, são objetivos de pesquisa que caem como uma luva nesse com-plexo contexto contemporâneo em que, a cada dia, juntam-se novas profissões e atividades que deverão lidar cada vez mais com essas imbricações entre produção oral e escrita, sobretudo se levar-mos em conta o amplo e interessante campo das comunicações, mediado por redes e tecnologias, o qual a obra recobre.

Claudemir Belintane Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo [email protected]

EDUCAÇÃO E CULTURA: PENSANDO EM CIDADANIA

Maria Alice Resende Gonçalves (org.) Rio de Janeiro: Edições Quartet, 1999, 148p.

A todo momento vemos referências nos vá-rios media a respeito da violação de direitos e, pior,

da ignorância por parte daquele que tem seu direi-to violado, que pede desculpas por não cumprir seu “dever”. Essas situações lembram-nos de que estamos muito longe do exercício pleno da cida-dania, quiçá saibamos o que esta palavra significa. Certamente, este não é um tema novo. Desde pelo menos as discussões entre liberais e socialistas do século XVII ele é atual. O que pare-ce diferente é incluir a educação – que desde sem-pre pareceu pertencer ao campo do consenso – entre aqueles direitos de cidadania e, mais, que como tal deve ser conquistado, muitas vezes a duras penas.

Trabalhando este tema hoje, muitos têm considerado que o mundo atual, no qual antes do sujeito vem o consumidor e cujo principal cami-nho de desenvolvimento para os países tem sido o neoliberalismo, a educação constitui, senão a única, pelo menos a principal alternativa de ma-nutenção da igualdade nas desigualdades. Esta é, por exemplo, a visão de Göran Therborn, que defende a educação como uma das únicas fontes, ao mesmo tempo, de resistência e participação no mundo global.

Educação e cultura insere-se exatamente nesse debate, mostrando a intersecção entre con-quista de direitos, compreensão da cidadania e educação, principalmente dos que sempre foram considerados excluídos. Para isto, reúne um con-junto de artigos de professores preocupados com a questão no país. São profissionais oriundos das ciências humanas e que têm em comum a preo-cupação de educar para o exercício consciente dos direitos, objetivando a constituição e consoli-dação de um país democrático.

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brasileiro é ser uma “mistura”, um “composto químico” a partir da fusão dos seres “puros” bran-co, negro e índio. Conforme a autora, ao aparen-temente nivelar as três raças, este mito-paradigma encobre o preconceito e as condições reais que constroem a sociedade, uma sociedade profun-damente hierarquizada e desigual.

A partir dessa análise, e estabelecendo com-parações com o mito-fundador da sociedade ame-ricana, a autora aponta para a instituição escolar como uma das grandes responsáveis não só pela manutenção do estatuto do mito-fundador, mas também pela sua reprodução, acompanhando esse processo por todo o século XX, mostrando o progresso do mito-fundador e sua relação com os vários projetos embutidos em muitos dos nos-sos movimentos socioculturais (como o Moder-nismo da Semana de 22). Afirma, assim, que mes-mo negando formalmente (legalmente) a discri-minação racial, a escola tem sido reprodutora desta desigualdade.

Se o texto é claro e didático ao apresentar como as sociedades constituem-se a partir de mitos, o mesmo não acontece ao expor as con-clusões. Neste caso, Gonçalves aparta-se da ques-tão inicial, da construção da identidade nacional e da contribuição da escola para tanto, e divaga a respeito da desigualdade social sem, no entanto, apresentar dados que permitam compreender a relação entre os três fatores. E mais, apresenta uma nova questão que em nada lembra os objeti-vos iniciais do artigo: “qual o futuro do Estado-Nação num mundo globalizado?” (p. 37).

Diferente da discussão do mito-fundador, mas tratando igualmente do problema racial, Ahyas Siss focaliza em “A educação e os afro-brasileiros: algumas considerações”, a democracia racial a partir da educação como vetor de ascensão social dos negros no Brasil. A despeito de experiências datadas do início do século, o autor avalia que a educação somente é apropriada pelos negros como espaço de reconhecimento e construção de uma identidade cultural própria a partir da dé-cada de 70 e, mesmo assim, a escola continua a ser o local no qual os negros recebem “a maior

carga de branqueamento”. Portanto, mesmo re-conhecendo o progresso, avalia-se no artigo que ainda é preciso construir a democracia racial, que por ora é apenas um discurso, mas não uma ex-periência de todos os cidadãos, tanto é que as estatísticas continuam a mostrar que são os ne-gros os grandes excluídos do sistema educacio-nal. Não basta, ensina, pregar o multiculturalismo e a diversidade. É preciso formar os educadores com base em valores novos, que levem ao res-peito das diferenças.

Em “Cidadania: uma trajetória de longo curso”, Cláudio de Carvalho Silveira propõe-se a discutir a relação entre política (realização da dania) e educação (vetor de construção da cida-dania). Ao estabelecer um objetivo tão largo, o autor não descuida de informar que seu texto tem apenas um caráter introdutório. Silveira passa, en-tão, a avaliar como a política se apropriou da edu-cação, como foram, ao longo da história, cons-truindo-se políticas públicas que respondiam às necessidades de cada modo de produção.

Ao analisar a questão para o Brasil, Silveira mostra que aqui se destrói o mito da sociedade moderna, aquele segundo o qual a educação é mecanismo de acesso ao mundo do trabalho. Pelo contrário, a educação, tomada como política pública, é apropriada de modo desigual pelas clas-ses sociais, desvinculando, assim, identidade de ci-dadania. Isso porque, ainda que o Estado tenha promovido a extensão do ensino público para to-das as camato-das sociais, o fez segundo interesses das elites, privilegiando e subsidiando a escola pri-vada.

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Baseando-se em uma pesquisa empírica, Maria de Lourdes Tura discute a experiência de uma escola pública de periferia com a diversidade cultural. O artigo aponta, seguindo de perto uma tradição inaugurada por Durkheim, que para rea-lizar o processo de escolarização em massa, ne-cessário à reprodução do sistema capitalista, tudo na escola, desde a disposição do mobiliário até a formulação dos currículos, é pensado para “criar consensos e homogeneizar ritmos” (p. 98) e, as-sim, a simples idéia do diverso, do diferente é abolida deste espaço de convivência.

Para romper o isolamento em que vive a escola, e até porque a lei exige que o diverso seja parte da educação formal, é preciso que a escola se abra para a comunidade, que deixe de se preo-cupar apenas com o aprendizado (adestramen-to?) do educando e passe a encará-lo como um ser completo. Porém, a despeito de conhecer o caminho, a experiência cotidiana das escolas con-tinua a ser a de negar o diverso e educar de forma homogênea.

Interessante observar que esta é a forma de igualdade encontrada pelos educadores. Isto é, a escola real confunde homogeneização com igualdade de tratamento e por isso é muito difícil construir uma educação multicultural. O caminho, reforça a autora, existe e é conhecido: educar a partir da experiência do aluno, dos valores e prá-ticas da comunidade.

Embora o texto não focalize os problemas que envolvem a educação formal como, por exemplo, a repetência e o abandono, é possível, a partir dos próprios dados apresentados, verifi-car que essa escola que constrói o “cidadão” ho-mogêneo, em nome da identidade nacional, é a responsável pelo fracasso escolar que aumenta a cada dia. Assim, aproximar-se da comunidade pa-rece ser a única alternativa para salvar a própria educação.

Como indica o próprio título, e desviando-se do tema central do livro, Maria do Carmo Maccariello argumenta, em “Educação ambiental e cidadania”, que tomar o meio ambiente não só como objeto de nossas ações, mas como tema

escolar, pode contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas e ajudar na construção de um cidadão renovado. A despeito da indiscutível rele-vância e da preocupação mundial com o tema – conforme são exemplos as diversas conferências internacionais inauguradas com a ECO-Rio-92 –, a educação ambiental ainda não ganhou espaço nas escolas, mormente nas públicas, e tem sido enca-minhada pelas organizações não governamentais. A “escola renovada”, isto é, aquele espaço de educação que se destina, em primeiro lugar, a criar cidadãos conscientes, precisa superar essa de-ficiência da educação tradicional adotando conteú-dos curriculares que tenham aporte na realidade social na qual a escola está inserida. Dessa forma, em primeiro plano, deve figurar a educação am-biental, pois só assim os cidadãos de amanhã te-rão um futuro promissor.

Para completar o artigo, a autora fornece um exemplo empírico da importância da educa-ção ambiental para a qualidade de vida desta e das futuras gerações. Trata-se de um estudo sobre o impacto da industrialização na região do Médio Paraíba (Rio de Janeiro) e da relação entre esta e o atendimento escolar da população. A conclu-são da autora é que o sistema de ensino e sua distribuição conforme adotado na região está pro-fundamente relacionado com o modelo de de-senvolvimento industrial, não prevendo alternati-vas nem para a formação de mão-de-obra e nem para solucionar os problemas ambientais gerados a partir da concentração de indústrias na região.

No que talvez seja o mais interessante arti-go do livro, Marco Silva apresenta o conceito de interatividade. A sua prática é vista como funda-mental para transformar a relação de ensino-aprendizagem dentro da sala de aula, pois repre-senta uma nova forma de comunicação, não mais concebendo o ato de aprender como transmis-são de conhecimento ou informação de um emis-sor para um receptor, mas entendendo conheci-mento como uma construção que se efetua como co-criação.

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somente se coloca na “pós-modernidade” e que nasce pari passu com as tecnologias informáticas e virtuais. De fato, apesar da aparência de passivi-dade representada pelo trabalho informacional, as novas tecnologias dependem da interação com o usuário, deixando este de ser um simples consu-midor de algo para ser também “co-autor”, “conceptor” do produto ou projeto.

Levar a interatividade para a sala de aula, vivenciá-la em cada momento do aprendizado é o desafio para esta época de crise da educação. Cabe ao professor compreender que seu novo papel é encarar este desafio, criando, junto com os alunos e a comunidade, uma nova escola, em que a participação em sala de aula signifique não mais realizar a comunicação como emissão-re-cepção, mas como interação. Somente assim a escola acompanhará o novo mundo, este que está pedindo uma nova forma de pensamento.

Como é corrente, no conjunto do livro há diversas lacunas que poderiam ser mencionadas, como temas não analisados e avaliações de ou-tros de forma apressada. Um exemplo é apre-sentação das pesquisas empíricas, que deixam o leitor em suspenso, pois o espaço parece peque-no para explicar o que de fato foi feito. Também os resultados parecem não corresponder ao tema proposto nos artigos, dando-nos a impressão de um certo descolamento entre realidade e análise. Do ponto de vista formal, o leitor sofre também com a falta de uma revisão mais detalhada dos artigos, o que os deixa muitas vezes repetitivos e contendo expressões muito coloquiais para o texto

escrito – o que, por outro lado, facilita a leitura do público em geral, diferente do comum herme-tismo que define os textos acadêmicos.

Talvez a principal característica do livro seja o otimismo que perpassa todos os artigos. Dife-rentemente do que se costuma ver nas análises sobre educação brasileira, neste volume os auto-res têm em comum a visão de que, embora a educação, principalmente pública, esteja longe de corresponder ao papel que lhe cabe em uma so-ciedade com pretensões democráticas e esteja mesmo mergulhada em uma crise profunda, há alternativas. Elas podem redundar em uma gran-de reforma no ensino que inevitavelmente leva a um modelo de escola que formará cidadãos para o exercício consciente da democracia, não só política, mas principalmente social.

O livro traça um perfil bastante completo e, o mais importante, acessível, sobre a relação entre cidadania e educação. As diferentes abor-dagens – política, pedagógica, sociológica, antro-pológica – convivem harmoniosamente para mos-trar o quanto caminhamos e ainda falta caminhar na construção de uma sociedade verdadeiramen-te democrática.

Referências

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