PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP
Maria Francisca Ferreira Trujillo
ESTUDO DIACRÔNICO DAS PREPOSIÇÕES COM, EM, POR E PER EM TEXTOS PORTUGUESES DO SÉCULO XIV AO XX
DOUTORADO EM LÍNGUA PORTUGUESA
II
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP
Maria Francisca Ferreira Trujillo
ESTUDO DIACRÔNICO DAS PREPOSIÇÕES COM, EM, POR E PER EM TEXTOS PORTUGUESES DO SÉCULO XIV AO XX
DOUTORADO EM LÍNGUA PORTUGUESA
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Língua Portuguesa sob a orientação da Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Língua Portuguesa, representado pelo Prof. Dr. João Hilton Sayeg de Siqueira.
III
Banca Examinadora
IV
A língua é instrumento e expressão da cultura.
Serafim da Silva Neto
Deus não tem pressa nenhuma, Para Ele tudo é ontem, hoje e amanhã,
Só quem vive dentro do tempo somos nós.
João Ubaldo Ribeiro
As línguas seguem o destino dos que a falam, são o que delas fazem as sociedades.
V
DEDICATÓRIA
Aos grandes amores que Deus me deu e a vida conserva para mim:
Albeiro Mejia Trujillo
Esposo amado. Juliana Mejia Ferreira
Ana Carolina Mejia Ferreira Letícia Mejia Ferreira
Filhas adoráveis.
Aos meus queridos pais: Jacob Rodrigues Ferreira
VI
AGRADECIMENTOS
VII
RESUMO: Esta pesquisa, de cunho estruturalista, intitulada Estudo diacrônico das preposições com, em, por e per em textos portugueses do
século XIV ao XX, objetiva investigar e descrever as preposições com, em, por e per na língua portuguesa, suas alterações de grafia e sentidos sob a perspectiva histórica. Trata-se de pesquisa histórico-descritiva que tem como base de análise gramáticas históricas e textos do século XIV ao XX. O corpus é constituído de textos arcaicos dos séculos XIV e XV, retirados das coletâneas de José J. Nunes (1959) e J. L. de Vasconcellos (1959). Os textos dos séculos XVI ao XVIII foram consultados na Biblioteca Nacional Digital de Lisboa. Para representar os séculos XIX e XX escolhemos obras literárias variadas de escritores brasileiros, dando preferência à prosa e, quanto ao gênero literário, procura-se variar entre contos, auto, romances etc., com o intuito de diversificar estilos, ao mesmo tempo em que foram selecionados autores que representam uma forma o mais próximo possível do nível padrão da língua (com pouca reprodução da língua espontânea e sem variante regional, por não ser este o objeto do nosso estudo). São comparadas, inicialmente, cada dois séculos entre si e, por último, comparam-se os dados com o século XX, objetivando verificar as ocorrências de alterações de grafia e sentidos nesses conectivos preposicionais. Ancora-se na hipótese de que, na base do sistema linguístico do idioma português os conectivos preposicionais ocupam papel relevante, justifica-se o desenvolvimento de uma pesquisa dessa natureza. Como resultados, julga-se que as preposições carregam em si algum grau de significação que as tornam, na língua portuguesa, elementos de base que acompanham a diacronia da língua sem mudar sua função ou forma.
VIII
ABSTRACT: This research, imprint structuralist, entitled diachronic study of prepositions com, em, por and per, in Portuguese texts of the XIV to the XX century, aims to investigate and describe the prepositions com, em, por and
per in the Portuguese language, spelling and its amendments senses under the historical perspective. It is historical and descriptive research that is based on analysis of historical grammars and texts from the fourteenth century to the twentieth. The corpus of archaic texts from fourteenth and fifteenth centuries, drawn from the collections of Jose J. Nunes (1959) and J. L. Vasconcellos (1959). The texts from the sixteenth to the eighteenth were consulted in the National Digital Library of Lisbon. To represent the nineteenth and twentieth centuries chose varied literary works of Brazilian writers, preferring prose and, as the literary genre, seeks to vary between tales, auto, novels etc., In order to diversify styles, while that were selected authors who represent a form as close to the standard level of language (the language with little spontaneous reproduction without regional variation, for this is not the object of our study). Initially are compared every two centuries between them, and finally, compares the data with the twentieth century, aiming to verify the occurrence of changes in spelling and meanings in these prepositional connectives. Anchored on the assumption that, on the basis of the linguistic system of Portuguese prepositional connectives occupy important role, justified the development of such a survey. As a result, it is believed that the prepositions themselves carry some degree of meaning that make them, in the Portuguese language, basic elements that accompany the diachrony of language without changing its form or function.
IX
SUMÁRIO
Introdução ___________________________________________________12 I – História da língua portuguesa _________________________________22
1.1 a origem externa da língua portuguesa ___________________22 1.2 a gramatização da língua portuguesa ____________________24 1.3 a língua portuguesa no Brasil ____________________________26 II – Estudos sobre as preposições _________________________________ 32
2.1 a origem das preposições ________________________________32 2.2 as preposições em gramáticas normativas e históricas _________36 2.3 o estado da arte _______________________________________38 III – Estruturalismo linguístico ___________________________________44 3.1 estruturalismo ________________________________________44 3.2 conceito de estrutura ___________________________________45 3.2.1 conceito de estrutura em Joaquim Mattoso Câmara Jr. ____45 3.2.2 conceito de estrutura em Gladstone Chaves de Melo _____45 3.2.3 conceito de estrutura em Eugênio Coseriu _____________ 48 3.2.4 conceito de estrutura em Evanildo Bechara ____________ 51 3.3 classificação dos vocábulos ______________________________53 IV – O Sentido das preposições __________________________________ 63
4.1 A significação linguística _______________________________63 4.2 O significado das preposições ____________________________65 4.3 A significação da preposição com ________________________72 4.4 A significação da preposição em _________________________73 4.5 A significação das preposições por e per ___________________74 V – O emprego das preposições com, em, por e per do século XIV ao XX 76
X
5.1.2 preposição em ___________________________________76 5.1.3 preposição por __________________________________77 5.1.4 preposição per ___________________________________79 5.2 Emprego das preposições com, em, por e per no século XV ___80
5.2.1 preposição com __________________________________80 5.2.2 preposição em ___________________________________82 5.2.3 preposição por __________________________________84 5.2.4 preposição per ___________________________________85 5.3 Emprego das preposições com, em, por e per no século XVI ___86 5.3.1 preposição com __________________________________86 5.3.2 preposição em ___________________________________88 5.3.3 preposição por __________________________________89 5.3.4 preposição per ___________________________________90 5.4 Emprego das preposições com, em, por e per no século XVII __91
5.4.1 preposição com __________________________________91 5.4.2 preposição em ___________________________________93 5.4.3 preposição por __________________________________94 5.4.4 preposição per ___________________________________95 5.5 Emprego das preposições com, em, por e per no século XVIII _95
XI
5.7 Emprego das preposições com, em, por e per no século XX __104 5.7.1 preposição com _________________________________104 5.7.2 preposição em __________________________________105 5.7.3 preposições por e per ____________________________107 VI – Análise das alterações das preposições com, em, por e per do século XIV ao XX _________________________________________________108
12 Introdução
Durante os séculos XVII e XVIII os estudos linguísticos eram
focados na fixidez da língua, a qual era vista como uma realidade
estável que deveria ser analisada fora do tempo, sob uma
organização lógica. A partir do século XIX, o pensamento linguístico
se voltou para a língua como uma realidade em transformação,
embora a ciência da linguagem ainda estivesse ligada a uma
perspectiva histórica da língua. Foi precisamente no século XX, com a
publicação da obra de Saussure Curso de linguística geral que a visão sobre os estudos linguísticos tomou novo rumo. A nova percepção da
língua, que hoje parece natural, nos manuais de linguística, aborda os
fenômenos da linguagem sob dois pontos de vista: estático ou de
equilíbrio, e dinâmico ou de movimento através do tempo. Na primeira
perspectiva, o estudo é descritivo, enquanto na segunda, o estudo
pede uma análise histórica. É Saussure quem estabelece essa
importante distinção na linguística moderna ao conceituar dois
aspectos sob os quais os fatos linguísticos podem ser estudados:
sincronia e diacronia.
O aspecto sincrônico analisa os fenômenos linguísticos fazendo
recortes no tempo, apreende o estado da língua em um determinado
período de sua transformação e passa a analisar todos os elementos
constitutivos do idioma, uma vez que as diferentes relações
gramaticais são estabelecidas pelos estados da língua, pois é em
determinado ponto que podem ser percebidos como o sistema de uma
dada língua organiza seus componentes linguísticos e como os
mesmos se relacionam entre si. O estudo sincrônico apresenta
dificuldades na sua realização pelo fato de que um estado de língua
13 tempo em que as alterações linguísticas são mínimas, embora a
língua permaneça em constantes transformações melhor percebidas
ao longo do tempo. Nesse tipo de estudo as características da língua
são vistas como um sistema “estável” num espaço de tempo
aparentemente “fixo”.
A diacronia, no entanto, tem como objeto de estudo os fatos
linguísticos em suas transformações ao longo do tempo. Segundo
Faraco (2005), a língua é um sistema de sistemas e as mudanças que
ocorrem envolvem, muitas vezes, não um aspecto específico do
idioma, mas um conjunto de mudanças correlacionadas. Um fator que
pode controlar as mudanças linguísticas, por exemplo, é o prestígio da
modalidade literária que muitas vezes freia o processo de mudanças
popular, uma vez que o registro escrito da língua literária permite que
essa se apresente estática, conservada pela disciplina gramatical.
No idioma, todos os elementos são passíveis de alterações
diacrônicas: as formas gramaticais, a sintaxe, bem como o
vocabulário. No entanto, segundo Borba (1975: 43), o tipo de
alteração mais visível é o fonético, onde se compara facilmente o
estado atual de um som com estágios anteriores. Ex.: em português
percebemos que a forma poboo é um estágio da história do fonema /v/ atual nesta palavra, que no latim era populu>poboo>povo.
Sabe-se que atualmente a interdependência das abordagens
sincrônica e diacrônica leva a uma nova compreensão dos fenômenos
evolutivos da língua que tem como base o conceito de estado
linguístico, sendo assim, a evolução de uma língua ficou sendo
considerada como a passagem de um estado a outro. Por outro lado,
toda regra de gramática normativa sincrônica possui uma explicação
histórica, como ilustrado com a transformação ocorrida na palavra
14 desde aspectos da pronúncia até aspectos de sua organização
semântica e pragmática. E o autor acrescenta que, no caso da história
de uma dada língua, pode haver mudanças fonético-fonológicas,
morfológicas, sintáticas, semânticas, lexicais e pragmáticas. No nosso
caso, ao combinarmos abordagens sincrônicas e diacrônicas, nos
deparamos com a necessidade de uma visão pancrônica em que o
fato linguístico é considerado no sistema em que se insere, assim
como sua histórica.
Esta pesquisa tem como objetivos investigar e descrever as
preposições com, em, por e per na língua portuguesa, suas
alterações de grafia e sentidos sob a perspectiva histórica. Trata-se
de pesquisa histórico-descritiva desses conectivos que se originaram
no latim e ao passar para a língua portuguesa sofreram alterações de
grafia e sentido. O estudo tem como base de análise gramáticas
históricas e textos do século XIV ao XX. O propósito é descrever os
processos de mudanças ocorridos com esses conectivos ao longo do
percurso histórico do idioma, a partir de sua separação do
galego-português, em meados do século XIV, até o século XX.
Ancorados na hipótese de que: na base do sistema linguístico do
idioma português os conectivos preposicionais ocupam papel
relevante, justifica-se o desenvolvimento de uma pesquisa dessa
natureza. Estudar os aspectos históricos da língua, mais
especificamente, a história interna do idioma materno, é fundamental
para o conhecimento das transformações ocorridas no seu percurso
histórico, e com isso, assimilar melhor o seu estado atual.
Como não é possível analisar em um único trabalho a totalidade
das mudanças ocorridas em uma língua, fez-se um recorte das
classes de palavras, selecionando as preposições, devido à sua
15
per que representam bem a dinâmica da língua em seus aspectos
históricos e semânticos.
A escolha da classe das preposições em particular foi motivada
pela variação de forma ocorrida na passagem do latim para o
português em que alguns desses conectivos desapareceram ou
ficaram desaproveitados como preposições. Segundo Said Ali (1964),
no caso das preposições com, em e por ao passar para a língua
portuguesa foram alteradas: cum > com; pro > por; in > en, em; por outro lado, a partícula per não sofreu alteração de forma, mas aos
poucos foi suplantada pela preposição por. No caso das preposições
por e per, é comum identificá-las como sendo uma única preposição,
fato que não procede, a começar pela própria origem de ambas,
diferença que descrevemos nos capítulos IV e V deste estudo.
Nas gramáticas históricas e normativas essas quatro preposições
são classificadas como essenciais e simples, ou seja, quanto à função
pertencem à classe dos conectivos preposicionais e quanto à forma,
são compostas por um único vocábulo, no entanto, todas possuem
diversificação de usos com valores expressivos que justificam esse
estudo.
Cunha e Cintra (2001) afirmam que as preposições apresentam
grande variedade de usos, bastante diferenciadas no discurso, no
entanto é possível estabelecer para cada uma delas uma significação
fundamental, marcada pela expressão de movimento ou de situação
resultante e aplicável aos campos espacial, temporal e nocional, como
ilustramos na aplicação feita nos capítulos V e VI deste estudo das
preposições com, em, por e per, com base no registro escrito de
textos do século XIV ao XX.
Utilizamos como princípio metodológico o estudo sincrônico que
16 transformações ocorridas no idioma em determinado período histórico,
é preciso comparar diferentes estados da língua caracterizados como
tais, sendo assim, investigamos, estaticamente, o português dos
séculos XIV e XV, o português dos séculos XVI e XVII, o português
dos séculos XVIII e XIX, e então comparamos cada estado com o
português do século XX, conforme sugere Faraco (2005),
descrevendo as alterações relacionadas à grafia e ao sentido,
ocorridas com as preposições com, em, por e per, durante esse
período de tempo. Borba (1971) afirma ser a diacronia o constante vir
a ser dos fenômenos linguísticos e que a análise diacrônica é
obrigatoriamente comparativa.
Além da comparação nos diferentes períodos, confrontamos,
brevemente, os nossos conectivos preposicionais com preposições de
outros idiomas romances, como o espanhol, o italiano e o francês que
em algum momento de sua trajetória, influenciaram ou foram
influenciados pelo português. A comparação permite observar as
influências que favoreceram as alterações das nossas preposições e
explicar porque elas possuem a grafia e os sentidos empregados na
contemporaneidade.
A constituição do corpus foi exclusivamente de textos escritos que Borba (1971) afirma ter a vantagem de possibilitar a verificação
constante da análise, ao mesmo tempo em que se evita a descrição
de um sistema linguístico individual que não representa a coletividade
dos usuários do idioma. Para selecionar a amostra fez-se necessário
a fixação em um determinado registro do idioma, para isso recorremos
aos textos de época, retirados da Crestomatia arcaica, de J. J. Nunes (1959) e de Textos arcaicos, de J. L. de Vasconcellos (1959).
Das coletâneas de textos utilizados por estes autores,
17
e per nos séculos XIV e XV. A seguir apresentamos a relação dos
textos dos séculos XIV e XV utilizados na obra organizada por José J.
Nunes (1959): Do Orto do esposo, códice alcobacence; De Dois
fragmentos de uma vida de S. Nicolau do século XIV, publicado por
Pedro de Azeredo; Da Crónica de Espanha, fos. 57 R., 58 V. e 68 R. e V; Do III Livro de Linhagens, fragmento apenso ao códice em que se
encontra o Cancioneiro da Ajuda; Códice nº 94, publicado pela
Academia das Ciências de Lisboa, sob o título de Crónica da Ordem
dos Frades Menores, respectivamente a fols. 100 R. e V. e 138 R. e
V. e páginas 256 a 258 e 369 e 370; Da Corte Imperial, edição da Câmara do Porto, 1910; Do IV Livro de Linhagens, fols. LIX, V; Da
Relaçam da vida da gloriosa Santa Izabel, Rainha de Portugal,
trasladada de hum livro escrito de mão que está no Convento de
Santa Clara de Coimbra, na Monarchia Lusitana, págs. 402 e 405 a
406, edição de Lisboa de 1751.
Obras do século XV: Chronica de D. Pedro, de Fernam Lopez, capítulos XXX e XXXI, fols. 24 V. a 26 R; Da Chronica do Infante
Santo D. Fernando, edição de Mendes dos Remédios, págs. 62 e 67;
Da Vida de D. Tello e Noticia da fundação do mosteiro de S. Cruz de Coimbra, nos Portugaliae Mon. Historica, Scriptores, págs. 77 e 78;
Do Conto de Amaro, inserto no códice alcobacense nº 266 de fols.
120 V. a 122 V; Da Corte Imperial, edição da Câmara do Porto, 1910,
págs. 5-9; Da Estoria de Uespasiano, edição de 1496, folhas 24 V. a 28 R. e páginas 80 a 85 da de Esteves Pereira; De Chronicas breves
e Memorias avulsas de S. Cruz de Coimbra, de págs. 27 a 30 dos
Port. Mon. Hist., depois de confrontadas com o respectivo original; Do
Fabulário português do séc. XV, existente na Biblioteca Palatina de
Viena de Áustria, publicado por Leite de Vasconcelos, fábulas III, VIII,
18 Obras dos séculos XIV e XV consultadas em Vasconcellos
(1959): Do “Livro de Alveitaria”, existente num códice da Biblioteca Nacional, publicado por G. Pereira na Ver. Lusit.; Do Fabulário
português do séc. XV, existente na Biblioteca Palatina de Viena de
Áustria, publicado por Leite de Vasconcelos, fábulas III, VIII, XII, XIV e
XLI; Da Virtuosa Bemfeitoria do Infante D. Pedro; Da Chronica breve
do Archivo Nacional; A Côrte Imperial; Do Leal Conselheiro d’El-Rei D.
Duarte; Boosco delleytoso solitario; Portugaliae Monum. Hist. Págs.
22-23; Cronica da fundaçam do moesteiro de Sam Vicente.
Quanto aos séculos XVI, XVII e XVIII, foram consultadas, na
Biblioteca Nacional Digital de Lisboa, partes de obras originais,
sem adaptações de grafia, que nos permitiram observar os registros
escritos, na fonte, conforme foram produzidos em cada período. São
estas as obras consultadas do século XVI: RIBEIRO, Bernardim.
Hystoria de menina e moça. Ferrara: [Abramo Usque], 1554;
GANDAVO, Pedro de Magalhães. Historia da prouincia as[n]cta Cruz
a qui’ vulgarme[n]te chamam Brasil. Lisboa, 1576; RESENDE, Garcia
de. Choronica que tracta da vida e grandissimas virtudes e
bondades...Dom Ioão ho segundo..., Lisboa: 1596. Século XVII:
VERA, Álvaro Ferreira de. Memoria artificial ou modo para acquirir
memoria per arte. Lisboa, 1631; CHAGAS, António das, O.F.M. Viva
Jesus. Cartas espirituais. Lisboa, 1684; CUNHA, Manuel da. Pratica
que fez no juramento do Sereníssimo Principe Dom Afonso...Lisboa,
1653. Século XVIII: XISTO, Ignacio Nogueira de. Relação dos
remédios uteis, e proveitosos para os que forem mal cazados...
Lisboa, 1764; AQUINO, Tomás José de. Carta que se escrevia a
certo amigo, com a declaração da palavra estão. Lisboa, 1788;
FIGUEIREDO, Manuel de Andrade de. Nova escola para aprender a
19 Martinho de Mendonça de Pina e. Apontamentos para a educação de
hum menino nobre. Lisboa Occidental, 1734.
Para representar os séculos XIX e XX escolhemos obras literárias
variadas de escritores brasileiros, dando preferência à prosa e, quanto
ao gênero literário, procuramos variar entre contos, auto, romances
etc., com o intuito de diversificar estilos, ao mesmo tempo em que
selecionamos autores que representam uma forma mais ou menos
padronizada da língua (com pouca reprodução da língua espontânea
e sem variante regional, por não ser este o objeto do nosso estudo).
São autores e obras do século XIX: ALMEIDA, Manuel Antonio de.
Memórias de um sargento de milícias. 3 ed. São Paulo: FTD, 1996
[1852]. GUIMARÃES, Bernardo. O seminarista. São Paulo: FTD, 1994 [1872]. CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Rio de Janeiro: Olive Editor
(s/d) [1895].
Autores e obras do século XX: AMADO, Jorge. Tereza Batista
cansada de guerra. São Paulo: Martins Editora, 1972 [1972];
BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O homem que odiava a segunda-feira:
as aventuras possíveis. 2 ed. São Paulo: Global, 1999 [s/d];
CAMPOS, Paulo Mendes. Quatro histórias de ladrão e outras
crônicas. Rio de Janeiro: Agir, 2005; CONY, Carlos Heitor. Quase
memória: quase-romance. 17 ed. São Paulo: Companhia das letras,
1999. [1995]; DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. 12 ed. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1995 [1967]; LISPECTOR, Clarice. Laços de
família. 9 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 [1960]; QUEIROZ, Rachel
de. Memorial de Maria Moura. 8 ed. São Paulo: Siciliano (s/d) [1992]; RIBEIRO, João Ubaldo. Miséria e grandeza do amor de Benedita. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2000 [2000]; SABINO, Fernando. O
grande mentecapto. 53 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. [1976];
20 Janeiro: Agir, 2002 [1957]; TELLES, Lygia Fagundes. A estrutura da
bolha de sabão: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1999 [obra publicada
em 1978 com o título Os filhos pródigos]; VEIGA, José J. Os
cavalinhos de platiplanto. 17 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988
[1959]; VERÍSSIMO, Erico. Gente e bichos. 5 ed. São Paulo: Globo, 1997 [1956].
Para uma melhor exposição da pesquisa, o texto foi dividido em
seis capítulos conforme descritos a seguir:
No primeiro capítulo, procede-se a uma síntese da origem
externa da língua portuguesa, bem como se expõe seu processo de
gramatização durante o século XVI e a sua introdução no Brasil, no
mesmo período. No capítulo segundo é apresentada uma revisão da
literatura sobre as preposições com base em gramáticas históricas e
normativas, além de estudos linguísticos recentes, tendo como
objetivo mostrar ao leitor a relevância das discussões sobre o tema da
pesquisa.
No terceiro capítulo, discute-se o estruturalismo linguístico e
conceitos de estrutura desenvolvidos por diferentes autores, tendo em
vista que a abordagem estruturalista foi o suporte escolhido para
nossa pesquisa. Feita a explanação sobre os conceitos de estrutura,
nos autores selecionados, passou-se, no capítulo quarto, ao
desenvolvimento da significação linguística, passando pela semântica
das preposições para, finalmente, aprofundar o sentido das
preposições com, em, por e per que constituem o recorte da
pesquisa.
Reservou-se o quinto capítulo ao levantamento do emprego das
quatro preposições selecionadas, conforme registro escrito dos textos
21 do século XIV ao XX, respectivamente, por constituir o período
delimitado para o estudo.
No último capítulo procedeu-se à descrição das preposições
objeto de estudo, agrupando-as, para fins de análise, de dois em dois
séculos, confrontando o resultado dessas análises sincrônicas com o
século XX e caracterizar, dessa forma, a abordagem pancrônica que
perpassa a pesquisa.
São levadas em consideração as limitações desta pesquisa
devido ao difícil acesso a documentos que representem o registro
escrito da língua em suas diversas fases de desenvolvimento e, em
consequências disso, muitas questões permanecerão em aberto e
servirão de motivação para futuras pesquisas sobre a língua
portuguesa. Acreditamos que esta tese traz contribuições importantes
para estudos linguísticos atuais, pois mostra a necessidade de se
recorrer aos estágios históricos da língua portuguesa para entender
melhor o seu presente e assim conhecer e valorizar o nosso maior
22 I: História da língua portuguesa
1.1 – A origem externa da língua portuguesa
O período que desencadeia o processo de transformação do
latim nas línguas neolatinas é chamado de Romance e segundo
Hanssen (1945), o “Romance” teve suas raízes na decadência do
Império Romano que eliminou a unidade do latim vulgar, fato
acrescido das divergências linguísticas regionais que havia nas
localidades dominadas pelos romanos, e aos poucos foi distanciando
o latim literário a ponto de transformá-lo em um idioma de feições
estranhas, distante do povo e que precisava de um estudo especial
para poder dominá-lo. Mesmo sendo o Romance uma continuação do
latim vulgar, ele estava sujeito à influência da língua literária latina e
este fato se dá na gramática e em maior proporção no vocabulário. Na
formação das línguas romances há elementos românicos (vocábulos
tradicionais) e os elementos latinos (vocábulos eruditos). A Igreja e a
jurisprudência contribuíram, também, para a introdução de palavras
latinas como: diabo, fé, virgem, anjo, espírito, família etc.
Foi na extremidade do sudoeste da Europa que nasceu a língua
portuguesa, muito tempo depois da criação da antiga província
romana nomeada de Lusitânia. Segundo Walter (1997), somente a
partir do século V d.C foi atestada a antiga forma PORTUCALE que
originalmente designava dois burgos na embocadura do Douro: Portu
(compreende atualmente a região da cidade do Porto) e Cale (hoje
denominada Vila Nova de Gaia).
Sete séculos se passaram entre a criação da Lusitânia romana e
o nascimento do Reino de Portugal e durante esse período a região
presenciou invasões germânicas (a partir do século V) e a ocupação
23 transformaria em Portugal era ocupado pelos romanos ao mesmo
tempo em que convivia com outros grupos de invasores, como os
suevos e visigodos, ambos de origem germânica. No entanto, o tempo
se encarregou de tecer as características linguísticas da região, sendo
que, segundo Walter (1997:178), no noroeste da Península, o latim
havia adquirido uma fisionomia que o diferenciava ao mesmo tempo
da língua falada por seus vizinhos leoneses e castelhanos e da língua
das populações moçárabes meridionais. Assim nascia uma língua
literária, o galego-português.
Vasconcellos (1959) confirma que os primeiros textos extensos,
escritos na língua portuguesa, datam do século XII, embora em muitos
documentos latino-bárbaros, do século IX em diante, apareçam
palavras que podem ser consideradas portuguesas. Até meados do
século XVI o idioma apresenta características gramaticais, estilísticas
e lexicológicas que a diferenciam dos outros períodos, fato observável
nos textos consultados referentes aos séculos XIV, XV e XVI.
O galego-português medieval foi utilizado durante o período
compreendido entre o começo do século XIII e meados do século XIV,
período posterior à Reconquista. Teyssier (2007) descreve o
galego-português como a língua da primitiva poesia lírica peninsular e afirma
que os textos mais antigos registrados nesse idioma datam do início
do século XIII. Na mesma época (séc. XIII), aparecem registros do
uso da língua vulgar em documentos oficiais e particulares em que há
uma mescla de galego e leonês que, de acordo com Teyssier, apesar
das imprecisões e incoerências, a grafia do galego-português
medieval aparece como mais regular e “fonética” do que aquela que
prevalecerá em português alguns séculos mais tarde.
O galego-português era utilizado não só como meio de
24 documentos cartoriais, bem como na fala. Esses usos diferenciados
da língua, bem como as circunstâncias sociais, econômicas e culturais
alteraram os rumos do galego-português, uma vez que este já não
correspondia mais às novas necessidades políticas e ideológicas da
nova nação. Deu-se, então, a ruptura do galego e do português,
sendo que com tal acontecimento esta língua passou a assumir
características próprias como idioma da nação portuguesa. Este fato
se deu em meados do século XIV, em razão de diversos
acontecimentos históricos e políticos, sendo que a origem da língua
portuguesa começa a ser evidenciada, primeiramente na literatura, e
mais tarde nos espaços sociais.
1.2 A gramatização da língua portuguesa
O conceito de gramatização apresentado por Auroux (1992) é
um processo que conduz a descrever e a instrumentar uma língua na
base de duas tecnologias: a gramática e o dicionário. Segundo o
autor, no século V da nossa era teve início a gramatização dos
vernáculos europeus e esse processo se desenvolveu
simultaneamente nos diferentes continentes, principalmente com as
línguas ameríndias (quando missionários escreveram gramáticas das
populações autóctones nas regiões de missão); no entanto, a
gramatização massiva das línguas do mundo aconteceu a partir da
Europa.
25
revolução – que só terminará no século XX – vai criar uma rede homogênea de comunicação centrada inicialmente na Europa. Cada nova língua integrada à rede dos conhecimentos linguísticos, a mesmo título que cada região representada pelos cartógrafos europeus, vai aumentar a eficácia dessa rede e de seu desequilíbrio em proveito de uma só região do mundo. É às ciências da linguagem que devemos a primeira revolução científica do mundo moderno (Auroux, 1992: 35).
No contexto histórico, têm-se as invasões bárbaras e a
fragmentação do Império Romano do Ocidente, o que gera o
desaparecimento do papel vernacular do latim e o aparecimento das
línguas neolatinas (séculos VII a X). Outro fato importante é a
conservação do latim como língua de administração, da cultura
intelectual e religiosa mesmo em regiões onde as línguas não
descendiam do latim (línguas célticas, germânicas etc.). A partir do
século IX há uma restauração voluntária da cultura latina, pois,
segundo Auroux (1992), nesse período houve um fenômeno de
dispersão e de fragmentação da língua latina por um lado e, por outro,
uma persistência em manter a língua como fator de unificação.
Fávero acrescenta três fatores que mais tarde contribuíram para que a
gramatização ocorresse: a renovação da gramática latina, o
surgimento da imprensa e as grandes descobertas marítimas.
Sabemos, inclusive, que inúmeros fatores contribuíram para o processo de gramatização, dentre eles, a necessidade de aprendizagem de uma língua estrangeira, a política de uma língua dada, organizando e regulando seu uso literário, e o desenvolvimento de uma política de expansão lingüística de uso interno ou externo (Fávero, 2006:47).
Na antiguidade as crianças gregas ou latinas já sabiam sua
língua e estudavam a gramática para ter acesso à cultura escrita.
Com a valorização das línguas vernáculas, os europeus do século IX
passam a ver o latim como uma segunda língua a ser aprendida e a
gramática latina passa a existir como uma segunda técnica de
26 gramática latina foi empregada para fins de pedagogia linguística, por
se tornar uma segunda língua e, a partir de então, surge uma técnica
geral de aprendizagem, aplicável a toda língua, inclusive à língua
materna, que Auroux (1992) descreve como sendo um processo
iniciado pelos europeus que supõe a alfabetização, isto é,
majoritariamente, a transcrição de uma língua em caracteres latinos.
Esta alfabetização se efetua primeiro selvagemente e por analogia: o
locutor nativo, alfabetizado numa língua (o latim) adapta a escrita ao
som que ele percebe.
A primeira gramática de um idioma europeu moderno foi escrita
em 1492 por Antonio de Nebrija intitulada Grammatica de la Lengua
Castellana. A língua portuguesa teve o seu registro em gramática em
1536, quando Fernão de Oliveira escreveu a Grammatica da
Lingoagem Portugueza, essa publicação e outras, como a Gramática
de João de Barros, foi de grande importância para o processo de
consolidação da língua portuguesa.
1.3 A língua portuguesa no Brasil
Espanha e Portugal, no século XV, já se haviam consolidado na
Europa pelas grandes descobertas marítimas. As conquistas lusitanas
favoreceram a expansão da língua portuguesa, que teve início com os
descobrimentos marítimos dos séculos XV e XVI, época em que
Portugal adentra em vastos territórios da África, América e Oceania.
No começo do século XVI tem início a história da língua portuguesa
no Brasil, portanto, a nossa história, que faz parte da história de
Portugal, começou a ser construída no período em que a língua
portuguesa começava o seu processo de gramatização no continente
europeu.
A chegada dos portugueses ao Brasil se deu em 1500, porém,
27 propriamente dito com a chegada de Martim Afonso de Souza a São
Vicente. Os jesuítas que aqui vieram iniciaram as suas atividades de
evangelização e de educação em 1549 (chegaram com Tomé de
Sousa) e, por mais de duzentos anos, foram os principais
responsáveis pela educação no Brasil.
A decisão portuguesa de colonizar o território americano
conquistado despertou o interesse de milhares de aventureiros
europeus (portugueses) que cruzaram os mares, e aqui chegando
colocaram em confronto duas culturas bem diferentes: a europeia e a
autóctone. Desse encontro, resultou um processo de inculturação,
pois o contato direito e contínuo de duas culturas diferentes fez com
que os europeus e os povos nativos alterassem seus hábitos culturais
reciprocamente, e Silva Neto (1963) explica que, os índios levaram de
início, duas vantagens substanciais: eram superiores em número e
seu modo de vida estava ajustado ao habitat. Por esses motivos, os
índios puderam passar aos conquistadores – apesar de mais bem
dotados pela situação social e pela civilização – muitos traços de sua
cultura autóctone.
A história da língua portuguesa no Brasil passou também por
fases, de acordo com Silva Neto (1963), que propiciaram alterações
no tipo de linguagem utilizada por essa população.
28 Segundo o autor (1963), na primeira fase (1532 a 1654)
predominou o mameluco bilíngue, pois mercadores e aventureiros
utilizavam a língua geral (língua indígena falada na costa do país) nas
suas relações comerciais e o português continuava sendo falado e
ensinado nas escolas da Companhia de Jesus. Já na segunda fase da
língua no Brasil (1654 a 1808) é notório o povoamento do território
brasileiro e o aumento considerável de portugueses que chegaram.
Houve uma interiorização das massas compostas por índios,
brancos, negros e mestiços que se comunicavam em um linguajar,
chamado por Silva Neto (1963), de crioulo, pois a língua portuguesa
era considerada de prestígio pela população. Conforme o mesmo
autor, o português dos colonos da alta sociedade manteve-se com um
caráter muito conservador, e para sustentar essa afirmação faz
menção a Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das
grandezas do Brasil, que em 1618 dizia que o Brasil era Academia
onde se sabia falar bem e que os jovens de Lisboa e doutras partes
do reino aí vinham para aprender as boas falas. Todavia, na
contramão da percepção ambrosiana, o número de brasileiros que
iam formar-se na Universidade de Coimbra aumentava de século para
século: 13 no século XVI, 354 no século XVII e 1752 no século XVIII,
segundo dados do próprio Silva Neto (1963).
A terceira fase (de 1808 em diante) começa com a chegada do
Príncipe Regente D. João VI e de sua corte ao Rio de Janeiro. Esse
acontecimento ocasionou uma rápida e profunda urbanização da
colônia, que, segundo Silva Neto (1963), ressaltou as diferenças
sociais, porque, dos princípios da colonização até 1808, e daí por
diante com intensidade cada vez maior, se notava a dualidade
29 ascenderam, e a plebe, descendente dos índios, negros e mestiços da
colônia.
Durante a colonização portuguesa a situação linguística do
Brasil era variada. Os brancos, de origem portuguesa, falavam o
português europeu e, certamente, com o passar do tempo começaram
a se acentuar traços distintivos, devido ao convívio com outras línguas
e a distância geográfica do reino. Os indígenas, negros e mestiços
também aprenderam a língua dos colonizadores, só que esse
aprendizado não é sistematizado na escola (não havia escola para
essa clientela) e por isso o uso da língua era descuidada.
Os três povos que formaram a base da população brasileira
(branco, índio e negro) no período colonial falam a língua portuguesa,
e a língua geral que Teyssier (2007) assim descreve: ao lado do
português existe a língua geral, que é o tupi, principal língua indígena
das regiões costeiras, mas um tupi simplificado, gramaticalizado pelos
jesuítas e, destarte, tornado uma língua comum. Enfim, muitos povos
indígenas conservam os seus idiomas particulares, que se
denominam línguas travadas.
Segundo Teyssier (2007), a partir da segunda metade do século
XVIII a língua geral falada por grande parte da população entra em
decadência. As razões para que esse fato acontecesse foram várias e
entre elas a mais importante foi de cunho político: a expulsão dos
jesuítas e a proibição do uso da língua geral.
30
definitivamente esta última como língua comum, restando apenas um certo número de palavras integradas no vocabulário português local e muitos topônimos (Teyssier, 2007: 95).
A língua falada durante grande parte da colonização era uma
mistura de línguas provindas de distantes espaços geográficos e com
o objetivo de se comunicar. Os diferentes povos que aqui se
encontraram como descreve Silva Neto (1963), em relação ao uso da
língua portuguesa em um considerável espaço de tempo, era aloglota,
isto é, aquele que se encontra subitamente diante de uma língua
nova, que deve aprender de outiva, e falar sem a necessária
preparação. Era este o caso, nos séculos XVI, XVII, XVIII e mesmo
princípios do XIX, de grandes massas humanas que viviam no Brasil.
Cada povo que aqui se instalou, durante e após a colonização,
trouxe os elementos constitutivos da sua evolução social, produto do
meio físico (Europa, África e Ásia), pois cada raça (brancos, negros e
asiáticos) que aqui chegou, manifestou sua cultura nas instituições
estabelecidas. Certamente o saber linguístico produzido e cristalizado
por esses diferentes povos acompanhou cada passo desse processo
histórico da língua portuguesa no Brasil.
Segundo Teyssier (2007: 95), a partir do século XVIII são
observadas e documentadas as primeiras alusões aos traços
específicos que caracterizam o português falado no Brasil. O autor
afirma que, em 1767, Frei Luis do Monte Carmelo (Compendio de
Orthografia) aponta traços fonéticos dos brasileiros, em que não há
distinção entre as pretônicas abertas, como: pàdeiro, prègar, còrar, e
as fechadas: cadeira, pregar e morar.
A chegada da Corte portuguesa ao Brasil (1808) e a
Independência (1822) favoreceram o desenvolvimento cultural, social
31 explosão demográfica que deu nova feição ao país, que passou de
Nação rural para uma civilização urbana, ao mesmo tempo em que
contrastam zonas desenvolvidas com regiões subdesenvolvidas.
Certamente esses fatores influenciaram as características atuais da
língua portuguesa no Brasil, sabe-se que há diversidades que a difere
do português europeu, ao mesmo tempo em que essas diferenças
vêm despertando cada vez mais o interesse de especialistas das
ciências da linguagem, pois:
A questão da língua não é, no Brasil, apenas uma controvérsia de gramáticos: é um problema nacional da mais alta importância. Após a Independência, muitos brasileiros pensavam ser impossível haver uma nação original, com sua cultura e com literatura própria, sem língua original. Era uma atitude que se encontrava então mais ou menos espalhada pelas novas nações americanas. Essa questão, como seria de esperar, iria preocupar particularmente os escritores e os filólogos (Teyssier, 2007: 111).
Sabe-se que de modo geral, a postura dos linguistas e filólogos
brasileiros, atualmente, diante das questões que envolvem a língua
portuguesa falado no Brasil, tem sido moderada, pois reconhecem as
especificidades linguísticas brasileiras, mas concordam que não se
pode cair nos extremos de acreditar que nesse país se fala outro
idioma, oficial, nacional, materno e de cultura que não seja o
32 II: Estudos sobre as preposições
Na língua latina as preposições eram mais usadas na modalidade
popular do que na literária, no entanto, com o passar do tempo as
construções preposicionais foram ocupando cada vez mais a função
de puras distinções casuais, o que foi aos poucos reduzindo o uso dos
casos.
2.1. - a origem das preposições
Grandgent (1953) afirma que na passagem do latim vulgar para
as línguas romances partículas como: preposições, conjunções e
advérbios passaram por processos de alteração ou de substituição.
No caso das preposições, houve regiões latinizadas em que umas
partículas tiveram mais aceitação do que outras; esse fato virá a
explicar a fixação de determinada preposição em algumas línguas
neolatinas e em outras não, como ab que se tornou desnecessária no latim vulgar porque já existiam de e per; apud que em parte foi
substituída por ad. Na região da Gália, houve as seguintes alterações:
cum deu lugar a apud; ex, por sua vez cedeu seu lugar a de; e ob foi
substituída por pro e per.
Na região da Espanha e em uma grande extensão da Gália
Setentrional, a partícula pro, devido à influência do per, se
transformou em por. A Galia do Sul, Itália e Dácia preferiram ficar com a preposição per. No entanto, as demais preposições latinas como:
cis, erga, prae e propter foram substituídas por outras expressões
desenvolvidas ou adaptadas em cada idioma romance.
Brandão (1963) esclarece que a origem das preposições, em
línguas provenientes do indo-europeu, se encontra em partículas
33 advérbios, adjetivos, particípios e substantivos. Na prática, as classes
são diferentes, mas a função que estas partículas exercem está
próxima àquelas do advérbio. Estes conectivos serviam para indicar,
com melhor precisão, determinadas circunstâncias e sutilezas do
enunciado, principalmente as relações de espaço, tempo e direção, as
quais deram origem a outras como: fim, modo, meio, causa etc.
Originalmente, afirma o autor, as partículas possuíam sentido próprio
e pleno, unidas a outros elementos na estrutura frasal, sem limitar o
seu significado, como os verbos e os nomes que estas preposições
relacionam.
O sânscrito, o dialeto homérico e até mesmo o latim oferecem espécimens dessa primitiva colocação livre. Com o volver do tempo, porém, tais partículas tenderam agrupar-se ou com um verbo, ou com um nome-complemento, pôsto em determinado caso, tornando-se inseparáveis dêles (Brandão, 1963:541).
Said Ali (1964) confirma haver pontos de contato entre os
advérbios e as preposições, pelo fato de as preposições latinas
primeiramente terem sido advérbios; na língua portuguesa parte dos
conectivos preposicionais veio do latim, outros foram tirados de
advérbios portugueses com o acréscimo da palavra “de”, por exemplo,
formando locuções prepositivas. Para o autor, as preposições
desempenham papel análogo ao dos sufixos dos antigos casos
oblíquos latinos, são usadas antepostas a substantivos e pronomes (e
também ao infinitivo como forma nominal) para acrescentar a estas
classes de palavras noções de lugar, instrumento, meio, posse,
companhia etc.
Para Said Ali (1964) muitas partículas prepositivas usadas no
idioma latino desapareceram ou ficaram desaproveitadas como
34 modificações de forma foram: ante, contra, de, per. As preposições que foram alteradas são: ad > a; post > pós; cum > com; inter > autre, entre; sine > sem; trans > trás; pro > por; secundum > segundo; in > en, em; sub > sob, so.
Algumas destas partículas continuam a usar-se em latim; outras tiveram novas aplicações além das antigas; em trás alterou-se completamente o sentido primitivo. Cada preposição teve originariamente um sentido delimitado; mas a associação de idéias tornou possível o alargamento do domínio semântico de algumas a ponto de invadirem umas o domínio das outras e se confundirem por vezes as partículas na aplicação prática (Said Ali, 1964:203-204).
As influências externas sofridas pelo latim, devido à expansão do
império romano, acarretaram alterações significativas na estrutura da
língua. Um dos principais registros observáveis é o uso das
preposições na substituição dos casos, fenômeno que passou a ser
frequente, estendendo esse processo de transformação para as
línguas neolatinas. As preposições tinham a função de estabelecer
relação entre elementos e eram usadas para maior clareza ou ênfase.
No latim mais antigo havia oito casos: nominativo, genitivo,
dativo, acusativo, vocativo ablativo, locativo e instrumental. Todavia,
os casos locativo e instrumental deixaram de ser usados já em épocas
remotas, e suas funções foram absorvidas na maioria das vezes pelo
ablativo, embora o locativo possa ser representado de outras formas.
O locativo, como caso, foi preservado, em algumas situações, apenas
na 1ª e 2ª declinações.
Borba (1971), em seu estudo sobre os sistemas das preposições
em português, chama atenção para o fato de as preposições
essenciais em qualquer língua constituírem um conjunto fechado,
embora o seu número varie muito de idioma para idioma. O autor
exemplifica com as línguas românicas em que o italiano tem o menor
35 e o francês, 20. Comparados estes sistemas com os de outros
idiomas como o inglês e o alemão, o português e o espanhol têm
poucas preposições, pois o inglês usa em torno de 40, o alemão, 34; e
o russo emprega 44.
Em relação ao quadro das preposições essenciais, na língua
italiana, gramáticas deste idioma não conferem com os dados
apresentados por Borba, quanto ao número das preposições
essenciais. Segundo Panozzo (1971), as preposições italianas se
dividem em próprias (essenciais): di, a, da, in, con, su, per, tra (fra), e
impróprias (acidentais): sopra, sotto, dentro, fuori... e; Di Trapani
(1986: 750), confirma as informações de Panozzo: “le preposizione
proprie sono quelle parole che nella lingua svolgono solamente e
especificamente la funzione di preposizione: di, a, da, in, con, su, per,
fra, tra”. Há, portanto, divergência entre o número de preposições
italianas apresentadas por Borba (1971), que afirma serem 15, e o
número registrado nas gramáticas italianas de Panozzo (1971) e Di
Trapani (1986) que consideram preposições essenciais, naquele
idioma, apenas 9 conectivos.
Com base nos dados apresentados sobre as preposições em
diferentes línguas, Borba (1971) conclui que não há relação direta
entre preposição e caso; pois do contrário, as línguas que têm casos
não teriam preposições ou teriam muito poucas. No entanto, o latim
conta com 38 preposições (25 com acusativo; 9 com ablativo e 4 com
acusativo/ablativo); ao passo que o grego só tem 18. Das 44 do russo,
24 regem genitivo; 6 dativo. 3 acusativo; 2 instrumental; 1 prepositivo;
36 2.2 - as preposições em gramáticas normativas e históricas
As gramáticas históricas de Nunes (1945), Carneiro Ribeiro
(1957) e Said Ali (1964) classificam as preposições como partículas
que pertencem ao grupo de palavras variáveis, mas que passaram por
processo de transformação até se tornarem invariáveis.
É costume dividir as partículas em quatro espécies: advérbios, preposições, conjunções e interjeições, mas, pròpriamente falando, essas quatro espécies não passam de duas, uma que compreende os advérbios, preposições e conjunções, outra na qual entram as interjeições, visto como entre as três primeiras não há em rigor verdadeira distinção, tendo, na sua origem, a maioria das chamadas conjunções saído dos advérbios e destes as preposições latinas que foram adoptadas pela nossa língua (Nunes, 1945: 340).
Carneiro Ribeiro (1957), na sua obra Estudos Gramaticais e
Filológicos, considera as preposições essenciais da língua
portuguesa: a, ante, perante, até, após, com, contra, de, desde, em,
entre, para, per, por, sem, sob e sobre. Na visão do autor, no final do
século XIX, há de se considerar separadamente as duas preposições
per e por, fato que os gramáticos do século XX desconsideram,
reduzindo, assim, o número das preposições essenciais para
dezesseis, por entenderem a junção das preposições por e per em
apenas uma: por.
Nascentes (1960: 101) define a preposição como a palavra que
estabelece relação entre duas outras. A função de conectivo
relacional e a divisão em essenciais e acidentais utilizadas pelo autor
correspondem aos mesmos conceitos da Nomenclatura Gramatical
Brasileira (NGB- 1959), em que são enunciadas como preposições
essenciais: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para,
perante, por, sem, sob, sobre e trás. Preposições acidentais: afora,
conforme, consoante, durante, exceto, feito, fora, mediante, salvante,
segundo, senão, tirante, visto. Para as palavras (duas ou mais) que
37 prepositiva: apesar de, a fim de, acima de, dentro de, fora de, antes
de, depois de, em frente de, atrás de.
Almeida (1989), na sua gramática normativa, afirma que o
número de preposições existentes em nosso idioma é pequeno
(Soares Barbosa chega a contar apenas 16 propriamente ditas); daí
resulta ora o emprego de preposições diferentes com idêntico sentido,
ora o de uma preposição com significados diferentes.
A gramática normativa de Cunha e Cintra (2001: 554-556) divide
as preposições, de acordo com a sua forma, em simples e
compostas. As preposições simples se dividem ainda em essenciais
e acidentais. São simples e essenciais quando são formadas por um
só vocábulo. São preposições essenciais:
A com em por (per) trás
Ante contra entre sem
Após de para sob
Até desde perante sobre
As preposições compostas (também nomeadas de locuções
prepositivas) são formadas de duas ou mais palavras, sendo a última
delas uma preposição simples (geralmente de) como se constata nos
seguintes casos:
Abaixo de a fim de
Acerca de além de
Acima de antes de
A despeito de ao lado de
Adiante de ao redor de
A par de em redor de
Apesar de em torno de
A respeito de em vez de
38 Através de junto a
De acordo com junto de
Debaixo de para baixo de
De cima de para cima de
Defronte de para com
Dentro de perto de
Depois de por baixo de
Diante de por causa de
Embaixo de por cima de
Em cima de por detrás de
Em frente a por diante de
Em frente de por entre
Em lugar de por trás de etc.
Ao comparar a divisão estabelecida por Cunha e Cintra (2001) e
Nascentes (1960), pode-se observar a sintonia de conceito e
exemplos que une a gramática normativa e a histórica, o que é
compreensível pelo fato de ser uma classe de palavras que possui um
repertório fechado e por isto, invariável.
2.3 o estado da arte
Estudos filológicos e de gramática histórica procuram valorizar o
papel que as preposições ocupam nas línguas neolatinas como a
pesquisa de Atzori (1939) La preposizione “de” nel latino volgare, em que a autora tem como finalidade estudar as alterações morfológicas
e sintáticas da preposição de no latim vulgar para determinar a origem
das preposições correspondentes na língua italiana di e da. Sobre as
preposições na língua espanhola temos Federico Hanssen (1945)
39 um extenso capítulo à descrição das preposições, nessa língua,
desde sua origem no latim até meados do século XX. Há, também, a
importante obra de Andrés Bello e Rufino José Cuervo (1954),
Gramática de la lengua Castellana, em que os autores destacam a
importância das preposições no idioma espanhol.
Estudos sobre as preposições, no Brasil, têm ocupado espaço
significativo nas últimas décadas, e vêm apresentando aumento
expressivo de pesquisas sobre essa classe gramatical. Mudam as
perspectivas e modelos de abordagem, porém conserva-se o
indicativo de importância desses conectivos no sistema da língua
portuguesa.
Como exemplos de estudos recentes sobre as preposições
podemos citar algumas pesquisas que enriquecem o já significativo
interesse por essa classe gramatical, demonstrado por reconhecidos
linguistas, não só na língua portuguesa como em outros idiomas. Na
sequência apresentamos algumas das pesquisas desenvolvidas em
universidades brasileiras sobre o assunto.
Carla Elsuffi BORGES (UFRGS – 2005) na sua pesquisa
intitulada De inusitatis praepositionibus: um estudo das preposições
essenciais em textos lexicográficos procura na Teoria Semântica de
Pottier a fundamentação teórica para a investigação do tratamento
lexicográfico dado às preposições essenciais nos dicionários gerais
brasileiros.
Pedro Perini Frizzera da Mora SANTOS (UFMG – 2007), na
pesquisa sobre a Epistemologia cognitiva para o Uso de preposições
– o caso da preposição de, dedica seu estudo à análise de uma
preposição específica do português brasileiro: a preposição de, por
ser um conectivo estabelecido por gramaticalização e que tem valor
40 reconhecido direta ou indiretamente no uso atual. Nas conclusões o
autor acredita ser possível pensar em um nível alto de
acidentabilidade para as ocorrências da preposição em análise, dada
a intensa presença de uso da preposição de e a sua fragilidade
semântica, pois na avaliação desse conectivo há grande chance de
variação e “erro” quando de sua efetivação como item lexical por
falante da língua portuguesa.
Davi de Oliveira SANTANA (UFB – 2007) desenvolveu estudo
sobre Prefixos derivados de preposições em textos de língua
portuguesa do século XVII até a contemporaneidade com a finalidade
de verificar os processos de gramaticalização que ocorrem com a
mudança das preposições em prefixos, bem como os princípios
aplicáveis a essa mudança, comparando textos em língua portuguesa
dos séculos XVII e XVIII entre si, com dados etimológicos e com
informações do século XIV, coletadas por Poggio (2002), relativas às
preposições que os originaram. A mudança linguística acontece a
partir do momento em que a inovação linguística for aceita por mais
de um falante, sendo assim, o processo de mudança linguística é
mais uma questão de aceitação do que de inovação, sendo que esse
processo envolve diferentes níveis linguísticos (fonológico,
morfológico, sintático etc.).
O autor confirma o crescente interesse pela investigação histórica
dos fatos linguísticos, nas pesquisas funcionalistas, revigoradas pela
teoria da gramaticalização e lembra que, na perspectiva funcionalista,
o estudo da mudança está vinculado ao pressuposto de que deve
existir uma interação e interdependência entre estudos sincrônicos e
diacrônicos, por isso apresenta sua pesquisa sobre prefixos derivados
de preposições apoiado na concepção da linguagem como um
41 abordagem pancrônica de estudo da língua, em que se combinam a
informação sincrônica e diacrônica, tendo como meta uma análise
mais consistente dos processos de mudança, envolvendo as
preposições e seus derivados prefixais no funcionalismo.
Ivan Meneses CALAZANS (UFB – Salvador – 2007) na pesquisa
sobre Processos de prefixação: estudo de prefixos latinos
provenientes de preposições e seus reflexos no português faz uma
análise das preposições ex, ab, de e ad, que, através dos processos
de gramaticalização, passaram de preposições a prefixos. Na sua
trajetória para o português, algumas dessas preposições se
mantiveram, enquanto outras desapareceram. O estudo tem como
base teórica o funcionalismo e a teoria da gramaticalização.
Elaine Marques THOMÉ (UFRJ – 2008) realizou seu trabalho
Preposições de, em, com e para em adjuntos adnominais: uma análise variacionista, à luz da sociolinguística quantitativa laboviana
com a finalidade de comprovar o esvaziamento semântico da
preposição de em relações de adjunção adnominal, indicado pela
possibilidade de alternância com outras preposições como em, com e
para.
Aparecida de Araújo OLIVEIRA (UFMG – 2009), Relações
semântico-cognitivas no uso da preposição em no português do Brasil. O estudo procura os significados de relações evocadas por
essa preposição e as possíveis conexões entre tais significados, na
tentativa de provar a existência de uma motivação semântica de
natureza cognitiva para os usos da preposição em. A autora lembra
que a maior parte das pesquisas anteriores sobre preposições da
língua portuguesa, desenvolvidas dentro de outras linhas, trata das
preposições ditas essenciais, geralmente sob uma perspectiva
42 na corrente gerativista ou normativo-prescritiva, ou ainda,
estruturalista. Com base nessas observações sobre os tipos de
pesquisas feitas sobre as preposições, a pesquisadora procurou
associar as explicações cognitivas para usos da preposição em às
intuições que os falantes nativos revelam sobre a ligação entre tais
usos.
Daniele Felizola de OLIVEIRA (UFF – 2010) no seu trabalho
aborda os Aspectos morfossintáticos das preposições portuguesas à
luz do funcionalismo. O estudo está focado na teoria funcionalista que
procura explicar os processos de gramaticalização pelos quais as
preposições se modificaram. Esses processos são definidos como
mecanismos de extensão de sentidos utilizados na língua, com o
objetivo de conceituar circunstâncias, relações não passíveis de
serem expressas pelos recursos até o momento existentes. Nas
modificações sofridas pelas preposições houve um processo de
recategorização por inferências pragmáticas de sentido (mudanças no
uso) que se desenvolveram diacronicamente, lembrando que a
gramaticalização é motivada pelo léxico, pela sintaxe e pela
pragmática, ao produzir novos sentidos, modificando seus referentes.
Paula Roberta Gabbai ARMELIN (USP- 2011) desenvolveu seu
trabalho intitulado: Sentenças bitransitivas do português do Brasil
revisitadas à luz da Teoria de Núcleos Funcionais Aplicativos, com a
finalidade de descrever e explicar a possibilidade de alternância entre
as preposições a e para na introdução do elemento indireto, bem
como a possibilidade de alternância na ordem dos complementos do
predicado verbal.
Destaque-se que, das pesquisas sobre preposições, aqui
referenciadas, entre os anos de 2005 a 2011, a maioria segue a linha
43 linguística que surgiu a partir da segunda metade do século XX) que
prioriza, na sua análise, o estudo de fenômenos específicos de
mudanças linguísticas, que Gonçalves (2007) define como as
alterações de propriedades sintáticas, semânticas e
discursivo-pragmáticas de uma unidade linguística que promovem a alteração de
44 III: Estruturalismo linguístico
3.1 – estruturalismo
O estruturalismo europeu iniciou-se com Ferdinand de
Saussure, mais especificamente com sua obra Curso de linguística
geral que influenciou as principais escolas linguísticas europeias do
século XX. No período de 1925 a 1939 a escola que liderou estudos
na área foi o conhecido Círculo linguístico de Praga que criou a
distinção entre langue e parole, cuja reflexão feita em âmbito fonológico, acentuou a diferença entre fonologia enquanto ciência da
langue e a fonética enquanto ciência da parole. Os principais
representantes dessa escola são Trubetzkoy, criador da fonologia e
Roman Jakobson.
Os principais colaboradores de Saussure, Charles Bally e Albert
Sechehay, deram continuidade ao trabalho do mestre ao constituírem
a Escola de Genebra que aprofundou alguns aspectos da doutrina de
Saussure, como Bally que aperfeiçoou características da langue aplicando suas descobertas ao francês e ao alemão. Essa escola
começou, também, a se interessar pelo elemento psicológico na
linguagem.
A terceira escola europeia que se destacou foi a Escola de
Copenhague que, inicialmente se chamou de “estruturalismo” e por
volta de 1935, se identificou com a doutrina de Louis Hjelmslev, um
dos seus participantes e criador da doutrina linguística chamada de
glossemática que consiste em um tipo de pesquisa linguística objetiva,
espécie de álgebra da linguagem, pela qual se chega a um sistema
geral e abstrato, aplicável na descrição das línguas.
Nos Estados Unidos da América o estruturalismo teve origens
práticas, nascidas da necessidade imediata de estudar e descrever as
45 estrutural foi Edward Sapir que foi influenciado pela atividade de
antropólogo de Franz Boas.
3.2 – conceitos de estrutura
3.2.1 – Conceito de estrutura segundo Joaquim Mattoso Câmara Jr.
Câmara Jr. (1972) defende a importância da linguística
descritiva por ser ela a que esboça os modos como os elementos de
uma dada língua se estruturam e funcionam nos contextos do
discurso falado ou escrito. Apresenta o princípio da organização
linguística como sendo a oposição binária dos elementos que tanto
pode ser estrutural ou paradigmática, como funcional ou sintagmática,
porque assim se deduz o que se chama estrutura interna de uma
língua, que se estuda em paradigmas, e a convicção de que essa
estrutura corresponde ao Estruturalismo Linguístico.
Para identificar os elementos estruturais, o autor afirma que são
os morfemas gramaticais, sistemas mais ou menos fechados, que
constituem a gramática de uma língua. Os morfemas lexicais
constituem uma série aberta que, no núcleo dos vocábulos, ou
conjuntos léxicos, se alinham nos dicionários.
3.2.2. Conceito de estrutura em Gladstone Chaves de Melo
Melo (1975: 201) afirma que a língua, enquanto “produto social
da faculdade da linguagem”, é composta por ideias que são expressas
em palavras. Para que elas tenham sentido é necessário relacioná-las
de forma coerente. As ideias expressas pelo pensamento estão no
plano da nomenclatura e as relações estabelecidas entre as ideias
são componentes da estrutura.
A língua possui uma rede de categorias gramaticais,