Universidade de São Paulo
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
Departamento de Fisiologia
NEUROFISIOLOGIA DA DOR E DA
ANALGESIA
“DOR É UMA EXPERIÊNCIA SENSORIAL E
EMOCIONAL DESAGRADÁVEL ASSOCIADA
A
UMA
LESÃO
TISSULAR
REAL
OU
POTENCIAL”.
INSENSIBILIDADE CONGÊNITA A DOR
INSENSIBILIDADE CONGÊNITA A DOR
Analgesia Congênita – Resultante de Mutações nos genes que expressam os Receptores
Estímulos nocivos são transduzidos em atividade elétrica nos terminais periféricos nociceptivos (fibras amielínicas C e mielinizadas finas A) de receptores específicos ou canais iônicos sensíveis ao calor, ácido ou protons, estímulo mecânico intenso, e ao frio.
J.Scholz and C. J. Woolf, Nature Neurosc. 5: 1062-1067, 2002
28ºC
Dor Nociceptiva ou fisiológica (aguda) – é transitória
resultante da ativação direta dos nociceptores da
pele ou tecidos moles em resposta a injúria tecidual.
Propicia respostas comportamentais de retirada e
alerta.
Dor Patológica (crônica) – é persistente proveniente
de lesões tissulares (dor inflamatória) e lesões do
sistema
nervoso
periférico
ou
central
(dor
Dor Nociceptiva
Não há lesão no SNC ou inflamação
A dor é dependente do estímulo
Evocada por um estímulo de alta intensidade (nocivo)
Adaptativa; protege sinalizando dano tecidual potencial
Dor Inflamatória
Inflamação ativa; Dor espontânea e estímulo-dependente;
Amplificação sensorial
Evocada por estímulo de baixa e alta intensidade (nocivo)
Adaptativa e reversível; protege durante a cicatrização
produzindo hipersensibilidade à dor.
estímulo
inócuo
Estímulos clinicamente relevantes:
trauma tecidual, cirurgia, inflamação
na articulação como na artrite
Dor Neuropática
Lesão ou doença do sistema nervoso
Marcada resposta neuroimune
Dor espontânea e estímulo-dependente
Amplificação sensorial
Evocado por estímulos de baixa e alta intensidade;
Mal adaptativa e comumente persistente;
Amplificação anormal mantida
independente da lesão ou doença
CNS lesão ou doença: Acidente vascular cerebral, lesão medular, esclerose múltipla
PNS lesão ou doença:
Relação entre o estímulo e a sinalização aferente
primária nas teorias relacionadas com a Dor
Teoria da Especificidade – relacionada com receptores sensoriais de alto limiar que respondem somente a estímulos nociceptivos .
Mastócito Substância P CGRP Substância P CGRP Histamina
Prostaglandina 5-HT Bradicinina H+ ATP
Vaso Sanguíneo
LESÃO TISSULAR
Neurônio no GRD
Lesão tissular promove a liberação de substâncias químicas
(algogênicas) no local da lesão produzindo hiperalgesia
Primary hyperalgesia is produced by the stimulation of nociceptors connected to A- and C-afferent fibers which activate nociceptive CNS pathways (N). Secondary hyperalgesia is produced by stimulation of tactile receptors connected to A-afferents which normally activate low-threshold (LT) pathways but that as a consequence of the amplification of the nociceptive input from the injured area can now access nociceptive neurons (N).
Diagram representing the basic mechanisms of primary and
Primary hyperalgesia to heat is signaled by sensitization of primary afferent
nociceptors.
(a) A burn injury to the glabrous skin of human subjects leads to a dramatic increase in pain ratings to heat stimuli. (b) The same burn injury leads to a marked sensitization of type I AMHs in the
CARACTERÍSTICAS DA HIPERALGESIA E SENSIBILIZAÇÃO.
Hiperalgesia (indivíduo ou sujeito)
Sensibilização (fibra)
-
Limiar de dor diminuído
-Limiar de resposta da fibra
diminuído
-
Dor aumentada para Estímulo
supra- limiar
-Resposta aumentada para E supra-limiar
-
Dor espontânea
-Atividade espontânea da fibra
Hiperalgesia – Uma resposta excessiva para um estímulo nocivo,
freqüentemente precedido de dor espontânea.
Diagram illustrating the changes in pain sensation induced by injury.
VI InE NS WDR V IV III II I
NEUROTRANSMISSÃO NA PRIMEIRA SINAPSE DA VIA
NOCICEPTIVA
Capacidade discriminativa de neurônios NS e de WDR do côrno dorsal para pequenas variações de temperaturas nocivas. A frequência de impulsos aumenta significativamente para os WDR mas não, para os NS, em resposta a pequenas variações de temperaturas acima de 46,2oC
Mapeamento da atividade neuronal na medula com 2-DG (2- desoxiglicose) durante estimulação inócua e nociva. Distribuição espacial da atividade neural aumentada em resposta a imersão da pata trazeira de um rato na água à temp. de 35 e 49oC, comparados com o estímulo tátil inócuo
HT AM NPB GRD Medula Espinhal Trato Espinoparaquio-hipotalâmico Trato Espinoparabraquio-amigdalóide FDL Fibras A e C Ponte FDL
Via Pós-Sinaptica da Coluna Dorsal – Dor Visceral
1ª. Sinapse em
Importância da Via da Coluna Dorsal Pós Sináptica na Dor Visceral.
Distenção colorretal repetida (80 mm Hg) produz aumento do fluxo sanguíneo cerebral (tálamo posterior) de 4 macacos anestesiados. Lesão da coluna dorsal inibe a resposta.
ANTES da cirurgia (lesão da CD) com distensão colo-retal DEPOIS da cirurgia (lesão da CD) com distensão colo-retal
(The Sense Vol 5 2008. pp.528 ,Dorsal Columns and Visceral Pain)
Drawing of a cross section of the
human spinal cord at a mid-thoracic level showing the location of a limited midline myelotomy that was used to relieve completely the pain of colon cancer for the duration of the 3-month survival period. No opioid analgesics were required after a tapering-off period.
Neurônios do VPL,e Ngracil e próximos ao canal central da medula espinal respondem a estimulação nociva visceral;
Lesões da coluna dorsal (mielotomia) reduz significativamente a respostas dos neurônios daqueles sítios, mas a lesão da via antero-lateral não tem efeito;
A infusão de drogas que bloqueiam as sinapses nociceptivas na região cinzenta intermediária da medula espinal sacral bloqueiam as respostas dos neurônios no Ngracil para estimulação nociva visceral , mas não para estímulação cutânea inócua.
Aspectos da DOR Visceral
Principis sensações conscientes – Desconforto e Dor;
Dor visceral – difusa, de difícil localização, geralmente referida;
Fibras mecanossensíveis de Baixo-limiar do nervo
pélvico que inerva a bexiga de ratos
Fibras mecanossensíveis de Alto-limiar
IRRITAÇÃO
IRRITAÇÃO
DOR VISCERAL
Antes da irritação da bexiga
Mecano-nociceptor que sinaliza dor visceral aguda
proportion of low-threshold mechanosensitive endings 70-80%
Dor referida na pele
Víscera com lesão
Medula Espinhal Neurônio de segunda ordem ou convergente Corno dorsal Neurônios no GRD ântero-lateralTrato Aferente novciceptivo fibra C
Na dor referida os sinais transmitidos pela ativação de nociceptores de uma víscera podem ser percebidos como dor em uma região cutânea distante.
Dados anatômicos e eletrofisiológicos mostraram que as diferentes áreas corticais
(SI, SII, Córtex do Cíngulo Anterior (ACC) e Ínsula) recebem impulsos nociceptivos
diretos provenientes do tálamo.
TÁLAMO
SII
SI
Ínsula
ACC
SI – Aspectos sensorial- discriminativos da dor (localização, intencidade e duração);
SII – Aspectos relativos ao reconhecimento, aprendizado e memória dos eventos dolorosos; ACC – Relacionado com a desagradabilidade da Dor e aspectos de integração afetiva, cognitiva
e de seleção de respostas;
Ínsula – Reações autonômicas ao estímulo doloroso e aspecto afetivo relacionado a memória e
Estudos nas décadas de 70 e 80, mostravam
um papel inibitório das vias descendentes
com base em experimentos com o uso de
estímulo nocivo intenso breve (“dor aguda”).
Entretanto, estudos (a partir de 1990)
mostraram a existência da facilitação
descendente em experimentos com dor
persistente (“dor crônica”) como inflamação
do tecido periférico ou lesões de nervos
^
+
Porreca, F. et al. (2002); Trends Neurosci. 25: 319-326.
Bloqueio da pro-nocicepção
Foi observado que doses baixas de glutamato e
neurotensina (0.03 pmol) no
RVM
, bem como,
estimulação elétrica de baixa intensidade (5-25 µA)
no mesmo local, promove FACILITAÇÃO da resposta
ao estímulo térmico nociceptivo (Pró-Nocicepção).
Ao contrário, doses altas de glutamato e neurotensina
(300 ou 3.000 pmol) e estimulação elétrica com
50 nmol glutamato 5 nmol glutamato
Effects of intra-RVM glutamate on the tail flick (TF) reflex.
após 15 min
Efeito da microinjeção de Neurotensina intra-RVM sobre a resposta vísceromotora produzida pela distenção graduada do colon (20 a 80 mmHg) em animais anestesiados, antes (pré-droga) e após diferentes concentrações.
1 2 3 OP ON OFF GABA GABA + FAC _ INIB DYN ou CCK ? + + + -
-GABAPAG
NRM
ME
Circuitos Neurais Participantes da Pró-Nocicepção e Antinocicepção
Effects of placebo on the activation of μ-opioid receptor-mediated
neurotransmission.
Descending Modulation and Stress-Induced Analgesia (SIA)
- Stress induced by brief foot shock of the forepaws of rats produced
antinociception as measured in the tail-flick test. Effect abolished by
systemic and intrathecal naloxone, indicating the activation of
endogenous opioidergic pain inhibitory systems;
- Lesions of the DLF made rostral to the entry zone of the peripheral
nerves of the forelimbs, which kept intact any direct spinal
communications between forelimb and tail, abolished Stress-Induced
Analgesia (SIA), indicating that supraspinal sites were necessary to
activate a spinopetal pain inhibitory circuit;
- Stress induced by foot shock reduced firing of RVM ON-cells and
increased that of OFF-cells, consistent with opioidergic endogenous
Recent studies have revealed a role of endogenous cannabinoids in SIA
and in descending modulatory pathways. Inhibition of RVM activity by
microinjection of muscimol abolished antinociception induced by
systemic injection of the cannabinoid agonist WIN55,212-2.
Moreover, WIN55,212-2 increased RVM off-cell activity and reduced
firing of the RVM on-cells, analogous to the effect of morphine, but
these effects were not blocked by naloxone, indicating that these
effects are mediated specifically through cannabinoid receptors.
Opioid-insensitive SIA was abolished by systemic administration of
CB1, but not CB2, antagonists.
Sistemas descendentes que modulam a transmissão de sinais
ascendentes de informações de dor
CÓRTEX SOMATOSSENSORIAL
AMIGDALA
HIPOTÁLAMO
SUBSTÂNCIA CINZENTA PERIAQUEDUCTAL
NÚCLEO PARABRAQUEAL
FORMAÇÃO RETICULAR
BULBAR LOCUS COERULEUS NÚCLEO RAFE
CÔRNO DORSAL DA MEDULA ESPINHAL
Evidência da analgesia induzida pelo estresse em humanos
“ Eu ouvi um grito, e olhei em volta, eu vi o leão no momento em que ele pulou em cima de mim. Eu estava sobre um pequeno morro; ele alcançou meu ombro quando pulou, e nós dois caímos juntos no chão. Rugindo horrivelmente próximo ao meu ouvido, ele sacudiu como se eu fosse um rato. O choque produziu um estupor semelhante àquele que parece ser sentido por um camundongo após a primeira sacudida do gato. Isso causa um tipo de devaneio em que não se sente dor nem sensação de terror, ou qualquer consciência de tudo que está acontecendo. Isso foi semelhante ao descrito por pacientes sob influência parcial do clorofórmio, que descrevem que vêem a operação, mas não sentem a faca... A sacudida aniquilou o medo e não permitiu qualquer sensação de horror ao olhar a fera. Esse estado peculiar é provavelmente produzido em todos os animais mortos por carnívoros; e, se é assim, é uma providência misericordiosa do nosso benevolente criador para diminuir a dor da morte.”