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Cad. Saúde Pública vol.30 número5

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 30(5):1120-1122, mai, 2014 1121

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Margareth Crisóstomo Portela 1,2

1 Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. 2 Science Without Borders Programme, University of Leicester, Leicester, U.K.

Correspondência

M. C. Portela

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz.

Rua Leopoldo Bulhões 1480, Rio de Janeiro, RJ 21041-210, Brasil.

[email protected]

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XCA020514

Ainda sobre o pagamento por desempenho para a melhoria do cuidado à saúde em réplica a uma carta não discordante

O pagamento por desempenho a profissionais de saúde, como estímulo à adesão a boas práticas e me-lhoria do cuidado à saúde, pode variar não somente nas suas características, como também em relação ao contexto em que é implementado. O sucesso depen-de da interação entre esses aspectos, depen-devendo refle-tir, mais do que em mudanças de comportamentos individuais, na promoção de novos valores, novas normas sociais e organizacionais. Não é desejável que os profissionais adiram às práticas preconizadas, ou pior, até simulem a adesão, meramente em função da remuneração associada. Eles precisam, de fato, mobilizarem-se pelo melhor interesse dos pacientes, estar convencidos de que tais práticas levam aos me-lhores resultados factíveis, sentirem-se legitimados na opção por tais práticas e mesmo, eventualmente, contraporem-se ao corporativismo. Além disso, as organizações nas quais estão inseridos precisam pro-ver as condições para que tudo isso aconteça. É claro que não é simples!

As evidências hoje disponíveis, não somente na atenção primária, mas em outros níveis da atenção, são insuficientes tanto para a recomendação quanto para a não recomendação de incentivos financeiros para a melhoria do cuidado à saúde. É necessário,

portanto, que se busque entender por que os resulta-dos produziresulta-dos são contraditórios ou pouco susten-táveis, e apreender o que funciona, por que e sob que condições.

Conforme já destacado no editorial Pagamento por Desempenho na Atenção Primária no Reino Uni-do 1, a experiência inglesa baseada na Quality and Outcomes Framework (QOF), pela sua relevância e abrangência, deve ser acompanhada. Mas experiên-cias locais, desenvolvidas e monitoradas de forma sistemática, também oferecem uma grande oportuni-dade para o entendimento dos mecanismos de mu-dança envolvidos, e o que favorece e dificulta o seu funcionamento conforme previsto.

A Ciência da Melhoria do Cuidado à Saúde ( Im-provement Science) propõe que intervenções sejam desenhadas com base teórica, permitindo que os seus elementos se relacionem com as hipóteses acer-ca dos meacer-canismos de mudança que irão acionar. Também propõe que ciclos Planejar-Fazer-Estudar- Agir (PDSA, Plan-Do-Study-Act) sejam utilizados no teste de intervenções, estando implícitos os testes das hipóteses que a sublinham, em um processo in-cremental. O acúmulo do aprendizado em diferentes contextos, acoplado à compreensão do papel que os mesmos desempenham, permitiria a generalização do conhecimento sobre o que é melhor, em que situ-ação 2,3. Esse parece ser um bom modelo para o dese-nho e teste de esquemas de pagamento por desempe-nho que poderiam ser desenvolvidos localmente e, se bem sucedidos, expandidos paulatinamente, a partir de novos ciclos PDSA. A necessidade de monitora-mento do processo de provisão do cuidado e resul-tados obtidos é inerente ao modelo, sendo também importante a incorporação de estudos qualitativos com vistas à captura do papel do contexto e expli-cações acerca do sucesso e falhas de mecanismos de mudança.

Intervenções direcionadas ao pagamento por de-sempenho devem ser multifacetadas, incluindo ne-cessariamente um sistema de aferição do desempe-nho. É importante que tal aferição reflita resultados na saúde dos pacientes ou aspectos do processo do cuidado com nexos causais bem estabelecidos no que diz respeito à produção de resultados desejáveis. Cla-ma-se também que sejam valorizados o cuidado pre-ventivo, a continuidade do cuidado e outros aspectos de uma visão mais holística do cuidado à saúde.

A possibilidade de sucesso dessas intervenções também depende de componentes que deem conta, em alguma medida, da educação continuada de pro-fissionais de saúde. Por mais que sejam pertinentes as preocupações com os impactos negativos sobre o profissionalismo médico e com a priorização, por profissionais, do seu pagamento sobre os interesses dos pacientes, não é esta a regra geral. A dificuldade de profissionais nos serviços de saúde manterem-se

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com o conhecimento atualizado deve ser reconheci-da, assim com a necessidade de que eles entendam por que seguir certas recomendações, com o respaldo e legitimação de suas lideranças. O sistema de mo-nitoramento de indicadores também deve cumprir o papel de expor problemas e melhorias alcançadas, contribuindo para o processo de sensibilização dos profissionais.

A questão levantada por Azevedo, na sua carta às editoras, sobre o que eu chamaria de uma crise éti-ca, transcende o campo do cuidado à saúde. Também transcende a discussão do pagamento por desem-penho, normalmente coletivo, que poderia ser visto como um prêmio por mais envolvimento com a co-munidade assistida, esforço na resposta às suas ne-cessidades e demandas, e obtenção de melhores re-sultados. Mas acredito na importância do papel que as escolas que formam profissionais de saúde podem desempenhar na constituição de profissionais mais centrados nas necessidades e interesses dos seus pa-cientes, e mais bem preparados para atuar em um contexto de rápidas mudanças no conhecimento, com muitas evidências científicas produzidas, mas também muitas por produzir, em que o monitora-mento dos processos de cuidado e resultados seja vis-to como natural e instrumentalizador na sua prática.

Outro aspecto apontado, que me parece rele-vante, reporta para a possibilidade de um conflito ético na alocação de recursos para o pagamento por

desempenho em um contexto de recursos escassos. Nesse sentido, eu adicionaria à proposta de experi-mentação e avaliação de intervenções, a necessidade de consideração do seu custo-efetividade, com apre-ciação das perdas de oportunidades decorrentes.

Enfim, há um tipo de intervenção que se pres-supõe com potencial de ser efetiva e respostas ainda muito insatisfatórias. Um campo de investigação é colocado, devendo ser beneficiado por uma aborda-gem aplicada, com a avaliação quantitativa e quali-tativa do funcionamento dos elementos envolvidos, mecanismos de mudança relacionados, aspectos contextuais influenciais e resultados produzidos, in-clusive em face dos investimentos requeridos.

1. Portela MC. Pagamento por desempenho na atenção primária no Reino Unido. Cad Saúde Pública 2014; 30:5-7.

2. Berwick DM. The science of improvement. JAMA 2008; 299:1182-4.

3. Øvretveit J, Leviton L, Parry G. Increasing the gen-eralizability of improvement research with an im-provement replication programme. BMJ Qual Saf 2011; 20 Suppl 1:i87-91.

Recebido em 27/Mar/2014 Aprovado em 28/Mar/2014

Referências

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