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Cad. Saúde Pública vol.30 número5

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 30(5):1123-1125, mai, 2014

MEDICINA FINANCEIRA: A ÉTICA

ESTILHAÇA-DA. Sobrinho LV. Rio de Janeiro: Editora

Gara-mond; 2013. 336 p.

ISBN: 978-85-7617-315-1

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XRE010514

O parque dos

Tyranossaurus

health

Como resenhar um livro de ensaios essenciais à

críti-ca da medicina atual cujo formato não é usual? Talvez

procurando descrevê-lo, tentando indicar sua gênese e

traços do autor para esclarecer suas peculiaridades de

forma e conteúdo.

Parte da explicação pode estar na origem do

traba-lho: uma dissertação de mestrado em bioética que não

foi defendida, mas se ampliou e se transformou numa

“tese” – que está entre aspas – porque tampouco foi

formalmente defendida em nenhum curso de

doutora-do. Mas, foi concluída por obra da iniciativa

perseve-rante do autor ao longo de alguns (não poucos) anos.

Outra parte da resposta talvez se deva ao fato de

Luiz Vianna Sobrinho ser um médico com experiência

clínica agregada à atuação como gerente técnico de um

plano de saúde de autogestão de uma instituição

pú-blica de pesquisa, ensino, serviços e produção de

insu-mos em saúde.

As referências da obra são acadêmicas, com um

grande número de citações e notas de rodapé, porém,

ao mesmo tempo, envereda por momentos de ousada

explicitação de surpreendentes anedotas, intensas

ex-periências pessoais e fascinantes alusões

cinematográ-ficas e literárias.

A linguagem utilizada assume, por vezes, uma

con-tundente ironia que se articula e sintoniza de modo

integrado com o justificável sentimento de indignação

diante do contexto paradoxal no âmbito do Complexo

Econômico-Industrial da Saúde, no qual as “contas não

fecham”, até porque não têm como fechar conforme é

demonstrado no trabalho... Também considero

impor-tante enfatizar tanto a coragem quanto a capacidade

de explicitar e detalhar amplamente as fontes do

imen-so festival de mal-estares configurado pelas práticas

medicínicas, seus atores e suas montagens.

Neste contexto proliferam:

•฀

As฀práticas฀em฀que฀médicos฀vão฀se฀afastando฀do฀

ideal de serem profissionais

liberais

, e se tornando

cada vez mais

neoliberais,

“gestores das condições de

saúde” como prestadores de serviços padronizados

(sob medida, mais insatisfatórios ou menos, segundo a

forma de pagamento do ato médico), dirigidos aos

su-postos pacientes;

•฀

A฀interferência฀abusiva฀das฀empresas฀farmacêuti

-cas e de equipamentos médicos na sedução de

médi-cos com agrados que transitam de modo obscuro pelos

meandros de uma ética acrobática, interferindo de

mo-do evidente na prescrição de medicamentos, próteses e

órteses a pacientes;

•฀

As฀práticas฀de฀hospitais฀e฀planos฀de฀seguros฀de฀

saúde que mal disfarçam sua visão

predominantemen-te mercantil da apredominantemen-tenção à saúde a ser oferecida a seus

usuários;

•฀

A฀transformação฀precarizante฀dos฀“pacientes”฀em฀

“clientes” ou “consumidores”.

Por sua vez, as ciências biomédicas e

epidemioló-gicas sustentam uma perspectiva exacerbada na

pro-dução de evidências, metanálises e revisões

sistemáti-cas sem levar em conta pressupostos metafísicos não

explicitados quanto à noção de “realidade” em questão,

nem aspectos que são incluídos, não incluídos e

apaga-dos nos procedimentos de pesquisa em saúde,

segun-do autores segun-dos estusegun-dos sociais da ciência.

Ademais, há de se levar em conta que a produção

de conhecimentos é contextual e situada. E, nesse caso,

é relatada a interferência das empresas farmacêuticas

nos resultados de ensaios clínicos que favorecem

de-terminadas drogas. E, também, a omissão de

publica-ção de resultados de pesquisas que não estabelecem

dados favoráveis às drogas estudadas. Tal

configura-ção gera a produconfigura-ção de protocolos e diretrizes que

re-fletem, de alguma forma, o gerencialismo utilitarista,

que, por vezes de modo hipócrita, veiculam cuidados

que tendem a ser inevitavelmente insatisfatórios sob o

ponto de vista da qualidade da atenção à saúde.

Esse panorama dá margem à utilização pelo autor

de uma alegoria monstruosa para descrever o atual

es-tado das coisas que configuram a medicina financeira:

o

Tyranossaurus health

– metáfora inspirada no filme

Elefante

” dirigido por Gus Van Sant sobre o massacre

da escola de Columbine (Estados Unidos). É o diretor

do filme que explica que o título irônico é

explicita-mente uma homenagem a um cineasta britânico – Alan

Clarke, que realizou um documentário sobre a

violên-cia religiosa na Irlanda, considerando-a algo “tão fácil

de ignorar quanto um elefante na sala de jantar”.

Dessa maneira, a hipocrisia mencionada

anterior-mente que não cessa de se atualizar nos contextos de

atenção à saúde, pode ser sintetizada

metonimica-mente, entre outras dimensões apresentadas no livro,

pelos interesses financeiros dos médicos. Isso

apare-ce, segundo Luis Vianna Sobrinho, em situações em

que o mote é o de “

oferecer o melhor da medicina

”, há

médicos que são capazes de: no caso de, por exemplo,

precisar treinar o seu aluno ou assistente, ao testar um

novo método ou mesmo uma nova prática, de o fazer

mesmo que seja escondido. Receber incentivos pelos

procedimentos que solicita; receitar um

medicamen-to que custa mais de cinco vezes do que um similar,

ganhando “crédito” na indústria farmacêutica; uma

vez tendo cumprido a sua jornada, tendo terminado

o seu plantão, cumprido a sua tarefa, esperado os 15

minutos de atraso, tendo feito o que o plano paga,

tendo ido até onde sua especialidade abrange, tendo

preenchido corretamente o prontuário, tendo

explica-do ao outro familiar, já considerar que fez o que

“de-via” fazer; negar a autorização para um procedimento,

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 30(5):1123-1125, mai, 2014 RESENHAS BOOK REVIEWS

mesmo sem ver o paciente, porque lhe ordenaram

que diminua os custos.

Em suma, são perpetradas frequentemente muitas

ações que se localizam num contexto de geração de

condições para a ocorrência de erros médicos.

Enfim, durante a leitura, vão se descortinando

fa-las, cenas, situações as quais muitos agregarão a suas

eventualmente sofridas experiências como

acompa-nhantes e como pacientes – cuja etimologia sinaliza

sua condição relativa ao sofrimento, sendo

indevida-mente transformada na acepção do termo compatível

com aqueles que suportam resignada e passivamente

os maus tratos que não cessam de ser produzidos.

Guardadas as proporções e as diferenças de veículo

e formato, importa dizer que o livro pode ser

encara-do como uma manifestação de desconformidade, aos

moldes dessas que aconteceram surpreendentemente

nas ruas do Brasil em meados de 2013. Ele exclama:

– Nossas condições de saúde são precárias!

”. E explica

o porquê.

Ao terminar da leitura, é inevitável a avassaladora

sensação de premência diante das montagens cínicas

naturalizadas que sustentam as enormes limitações

com que os sistemas de assistência à saúde costumam

oferecer sua atenção. Ou, melhor dizendo,

empregan-do um engenhoso, ainda que incômoempregan-do, oximoro

cita-do no livro: sua “

desatenção cortês

”.

Luis David Castiel

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

Referências

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