2021
Banco de Cabo Verde Cidade da Praia
http://www.bcv.cv Edição
Departamento de Estudos Económicos e Estatísticas Impressão
Tipografia Santos, Lda.
Tiragem 200 Exemplares
Capítulo 1. Enquadramento Internacional ... 8
Capítulo 2. Políticas Macroeconómicas ... 13
2.1. Política Monetária e Condições Monetárias e Financeiras ... 13
Caixa 1: A Performance do Setor Financeiro em 2021 ... 20
2.2. Política e Situação Orçamental ... 23
Capítulo 3. Oferta e Procura ... 29
Capítulo 4. Inflação ... 35
Capítulo 5. Contas Externas ... 37
Figura 2. Preços no Consumidor e Preços das Matérias-Primas nos Mercados Internacionais ...9
Figura 3. Taxas de Juro de Referência e Taxa Euribor e Câmbio EUR/USD ...10
Figura 4. Indicadores Selecionados da Performance da África Subsaariana e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental ...12
Figura 5. Perfil dos Créditos Bancários em Moratórias ...17
Figura 6. Performance das Contas Públicas ...24
Figura 7. Dívida do Setor Público Administrativo em 2021 ...28
Figura 8. Indicadores Selecionados do Desempenho da Economia ...30
Figura 9. Evolução das Taxas de Inflação Média e Homóloga do País ...35
Figura 10. Principais Rubricas da Balança Corrente ...37
Figura 11. Rendimentos e Transferências Unilaterais ...39
Figura 12. Principais Componentes da Balança Financeira ...40
Índice de Quadros
Quadro 1. Principais Indicadores Macroeconómicos ... 6Quadro 2. Taxas de Juro (em percentagem) ... 14
Quadro 3. Situação Monetária ... 16
Quadro 4. Principais Indicadores Orçamentais ... 25
Quadro 5. Caracterização da Dívida do Estado (Governo Central)... 26
Quadro 6. Índice de Preços no Consumidor ... 36
Quadro 7. Comércio Externo de Bens e Serviços... 38
Avaliação Global
O desempenho da economia nacional em 2021 foi manifestamente favorável, beneficiando-se da recuperação económica, invertendo a histórica recessão observada no ano transato, em virtude dos efeitos da crise pandémica. Este desempenho foi impulsionado pela reabertura das atividades económicas, na decorrência do avanço da taxa de vacinação no país e o consequente alívio das restrições e das medidas de contenção relacionadas com a Covid-19. As medidas excecionais de política monetária e orçamental, visando mitigar os efeitos da crise pandémica sobre o rendimento e a liquidez das famílias mais vulneráveis e das empresas, concorreram igualmente para esta evolução.
A nível externo, destacamos a recuperação económica e as políticas de estímulo implementadas nos principais países acolhedores da nossa diáspora, porquanto a nível interno, fatorizamos a melhoria da confiança dos agentes económicos, numa conjuntura de aumento moderado das pressões inflacionistas e de melhoria do nível de emprego.
Após ter registado uma recessão histórica de 14,8 por cento, o produto interno bruto em volume cresceu, em 2021, 7 por cento, estimulado pelo crescimento da procura interna, particularmente, do consumo privado e público. Não obstante o aumento dos preços das matérias-primas energéticas e não energéticas no mercado internacional e as restrições que se faziam sentir na oferta de alguns produtos, o perfil da inflação manteve-se moderado, com a taxa de inflação média anual a situar-se em 1,9 por cento. As medidas adotadas pelas autoridades em resposta à pandemia apoiaram a liquidez no sistema bancário e a expansão do crédito à economia, que acelerou 6,1 por cento (1,3 pontos percentuais acima do crescimento de 2020). O défice da balança corrente registou uma melhoria de cerca de 34 milhões de euros, passando de 16,5 para os 13 por cento do PIB em 2021, em larga medida, influenciado pelas remessas dos emigrantes e outras transferências correntes privadas (em particular, donativos de organismos e instituições sem fins lucrativos), que cresceram 24 e 16,3 por cento, respetivamente.
O ano de 2021 ficou marcado, igualmente, pela entrada na economia, no segundo semestre do ano (com particular incidência no quarto trimestre), de avultados fundos financeiros, entre os quais, a alocação dos Direitos de Saque Especiais (DSE) do Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros fluxos provenientes do Banco Mundial e do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), no valor total de cerca de 79 milhões de euros, beneficiando a balança financeira do país. Estas entradas de fundos permitiram cobrir 100,7 por cento das necessidades de financiamento da economia, pelo que, conseguiu-se acumular no final do ano em ativos de reserva, cerca de 10 milhões de euros. Em consequência, o stock das reservas internacionais líquidas do país aumentou para 595,2 milhões de euros, permitindo financiar 7,5 meses das importações de bens e serviços. A nível orçamental, o défice público em percentagem do PIB melhorou em 1,1 pontos percentuais, fixando-se nos 8 por cento, num contexto de recuperação na arrecadação das receitas fiscais e de outras receitas. Entretanto, a dívida pública continuou em patamares elevados, em cerca de 156,7 por cento do PIB.
A melhoria das necessidades de financiamento da economia, bem como, a redução dos riscos de liquidez do Estado com a recuperação da economia nacional e o consequente aumento das exportações e das receitas, determinaram em 2021, uma ligeira melhoria em alguns dos indicadores de vulnerabilidade externa. No entanto, os resultados da avaliação do setor externo mostram que a posição externa de Cabo Verde, em 2021, foi mais fraca do que sugerem os fundamentos e configurações de políticas desejáveis. Por outro lado, a posição (deficitária) dos investimentos internacionais líquidos deteriorou- se em 214,1 milhões de euros, representando 186,1 por cento do PIB, mantendo-se elevada e constituindo uma fonte de vulnerabilidade externa.
Quadro 1. Principais Indicadores Macroeconómicos
Unidades 2017 2018 2019 2020 2021
I. Setor Real
Produto Interno Bruto variação real em % 3,7 4,5 5,7 -14,8 7,0
Inflação Média dos 12 meses taxa variação em % 0,8 1,3 1,1 0,6 1,9
Taxa de Desemprego taxa variação em % 12,2 12,2 11,3 14,5 ---
II. Setor Monetário e Cambial
Ativo Externo Líquido do Sistema taxa variação em % 2,3 -6,5 24,8 -9,9 5,2 Reservas Internacionais Líquidas taxa variação em % -4,3 2,0 25,2 -12,2 3,0
Crédito Interno Líquido taxa variação em % 6,3 2,9 -2,1 6,7 4,8
Crédito à Economia taxa variação em % 7,5 2,8 3,9 4,8 6,1
Massa Monetária taxa variação em % 6,6 1,7 8,1 4,1 3,1
Índice de Taxa de Câmbio Efetiva
Nominal 2015=100; valores médios 101,0 101,3 101,0 101,2 101,2
Índice de Taxa de Câmbio Efetiva Real 2015=100; valores médios 97,9 97,7 97,2 97,8 96,5
III. Setor Externo
Balança Corrente + Balança de Capital em % do PIB -6,9 1,0 0,9 -15,1 -11,6
Balança Corrente em % do PIB -7,8 0,3 0,31 -16,5 -13,0
Reservas/Importações meses 6,0 5,6 6,9 7,9 7,5
Posição de Investimento Internacional em % do PIB -153,3 -158,8 -150,2 -189,3 -186,1
IV. Finanças Públicas
Saldo Global em % do PIB -3,1 -2,7 -1,8 -9,1 -8,0
Saldo Primário em % do PIB -0,5 -0,1 0,7 -6,2 -5,6
Dívida Pública excluindo TRMC em % do PIB 126,8 125,1 124,5 156,6 156,7
Fonte: Instituto Nacional de Estatísticas, Ministério das Finanças e Banco de Cabo Verde
Dados provisórios, sujeitos à atualização e revisão. TRMC-Títulos de Rendimento de Mobilização de Capital.
Análises tecnicamente robustas indiciam que, o potencial de crescimento da economia está constrangido por níveis baixos da produtividade total dos fatores, agravado nos últimos dois anos. Por conseguinte, a retoma da dinâmica da atividade económica, aos níveis pré-pandemia, e a expansão do produto potencial requerem a aceleração na implementação eficiente de um quadro de reformas estruturais necessárias para reduzir os custos de transação, aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho, aumentar a produtividade e apoiar o desenvolvimento do setor privado.
Ainda, a determinação das autoridades de manter o foco nos objetivos de sustentabilidade fiscal e da dívida é fundamental. Recomenda-se a implementação de um programa de consolidação orçamental a médio e longo prazo que reduza gradualmente o elevado nível da dívida pública. Do lado das receitas, isso exigirá a implementação sustentada de medidas para ampliar a base tributária, combater a fraude e evasão fiscal, melhorar a eficiência no controle aduaneiro e analisar de forma criteriosa as isenções.
Do lado das despesas, será fundamental continuar a racionalizar as despesas não prioritárias e, concomitantemente, melhorar a eficiência na gestão das despesas de capital. Portanto, a consolidação orçamental, aliada ao progresso nas reformas estruturais afiguram-se como extremamente importantes para alavancar o potencial de crescimento da economia e garantir a sustentabilidade da dívida.
Capítulo 1
Enquadramento Internacional
O enquadramento externo da economia nacional ficou marcado, em 2021, pela recuperação da atividade económica global que inverteu a recessão observada em 2020 em virtude dos efeitos da crise pandémica.
A recuperação do produto interno bruto mundial, que cresceu 6,1 por cento em 2021, quando comparado com a contração de 3,1 por cento em 2020, deriva do avanço dos programas de vacinação e melhoria da situação epidemiológica mundial (sobretudo, nos países avançados), da flexibilização das restrições impostas e das medidas de contenção relacionadas com a pandemia e consequente reabertura dos setores económicos. O reforço da confiança aliado aos efeitos dos contínuos apoios das medidas de política orçamental e monetária acomodatícias em diversos países, com reflexo na melhoria dos mercados de trabalho e do rendimento dos agentes económicos, explicam igualmente esta recuperação.
As economias da Área do Euro, dos EUA e do Reino Unido também observaram uma recuperação económica em 2021, crescendo respetivamente, 5,3, 5,7 e 7,4 por cento, após terem registado contrações de 6,4, 3,4 e 9,4 por cento em 2020. Esta evolução foi impulsionada, sobretudo, do lado da oferta pelo setor de serviços (comércio, transportes, alojamento e restauração) e, do lado da procura pelo consumo privado (principalmente, de serviços) e pelas exportações líquidas. Não obstante, constataram-se estrangulamentos do lado da oferta com as interrupções nas cadeias de abastecimento que condicionaram a produção e o consumo, o aumento dos casos de coronavírus (sobretudo, no Reino Unido) devido ao surto da variante ómicron e o aumento persistente da inflação.
Figura 1. Produto Interno Bruto e Desemprego
-40 -30 -20 -10 0 10 20 30
-25 -20 -15 -10 -5 0 5 10 15 20 25
mar-18 jun-18 set-18 dez-18 mar-19 jun-19 set-19 dez-19 mar-20 jun-20 set-20 dez-20 mar-21 jun-21 set-21 dez-21 Produto Interno Bruto (t.v.h. em %)
Produto Interno Bruto (t.v.h. em %)
EUA Área do Euro
Reino Unido Cabo Verde (eixo dto.)
3 5 7 9 11 13 15
mar-18 jun-18 set-18 dez-18 mar-19 jun-19 set-19 dez-19 mar-20 jun-20 set-20 dez-20 mar-21 jun-21 set-21 dez-21
Desemprego (% da população ativa)
EUA Área do Euro
Reino Unido
Fonte: Eurostat; US Department of Labor; Federal Reserve; Bank of England; Instituto Nacional de Estatística
Reflexo do aumento da procura por mão-de-obra e das medidas temporárias de proteção ao emprego, as condições do mercado de trabalho nos principais parceiros económicos do país, em geral, melhoraram ao longo do ano, com as taxas de desemprego na Área do Euro e nos EUA a fixarem- se, respetivamente, em 7,7 e 5,4 por cento em 2021, valores inferiores aos registados em 2020, em 0,1 e 2,7 pontos percentuais. No Reino Unido, a taxa de desemprego manteve-se nos 4,5 por cento, influenciado ainda por alguma escassez na oferta de mão-de-obra causada pelo surto da variante ómicron.
A recuperação da procura global, o aumento dos custos de produção associado às perturbações e restrições na oferta global de alguns produtos, bem como, os aumentos nos preços das matérias- primas energéticas e não energéticas, pressionaram no sentido ascendente os preços no produtor e no consumidor.
As taxas de inflação média anual da Área do Euro, dos EUA e do Reino Unido aumentaram, em 2021, em 2,3, 3,5 e 1,7 pontos percentuais face a 2020, fixando-se nos 2,6, 4,7 e 2,6 por cento, respetivamente.
Em resultado da crise energética global associada aos desequilíbrios entre a oferta e a procura, bem como, da queda nas reservas de crude dos EUA, o preço médio do barril de brent nos mercados internacionais, que serve de referência para Cabo Verde, atingiu em 2021, os 70,46 USD por barril (o que compara com os 44,24 USD por barril em 2020), apresentando um crescimento de 59,3 por cento face a 2020. Por seu turno, o food price index da FAO aumentou em termos médios, 28,1 por cento, em função do encarecimento de todos os alimentos, com especial destaque para os óleos, açúcar e cereais, associado às restrições na oferta causadas por condições climatéricas adversas e constrangimentos nas cadeias de abastecimento.
Figura 2. Preços no Consumidor e Preços das Matérias-Primas nos Mercados Internacionais
Fonte: Eurostat; Federal Reserve; Bank of England; Bloomberg; Instituto Nacional de Estatística -1
0 1 2 3 4 5 6 7
mar-18 jun-18 set-18 dez-18 mar-19 jun-19 set-19 dez-19 mar-20 jun-20 set-20 dez-20 mar-21 jun-21 set-21 dez-21
Taxa de Inflação Homóloga (em %)
Área do Euro EUA
Cabo Verde
-55 -35 -15 5 25 45 65 85 105
mar-18 jun-18 set-18 dez-18 mar-19 jun-19 set-19 dez-19 mar-20 jun-20 set-20 dez-20 mar-21 jun-21 set-21 dez-21
Preço de Matérias-Primas (t.v.h. em %)
Brent
FAO Food Price Index
Os contínuos apoios das medidas de política monetária e orçamental excecionalmente acomodatícias adotadas pelas autoridades dos principais parceiros do país, a par da manutenção em níveis baixos das suas taxas de juro de referência (desde março de 2020) e de algum alívio das medidas prudenciais, foram fundamentais para mitigar os efeitos da crise pandémica no rendimento e na confiança dos agentes económicos e apoiar a recuperação da atividade económica.
No âmbito da política monetária, destacam-se de entre outras medidas: (i) os programas emergenciais de compra de ativos à banca do Banco Central Europeu (BCE) e do Banco de Inglaterra, (ii) os programas emergenciais de compra de títulos do tesouro e títulos associados aos empréstimos hipotecários da Reserva Federal dos EUA, (iii) os programas da Reserva Federal dos EUA e do Banco de Inglaterra direcionados especialmente para as pequenas e médias empresas e, (iv) as linhas de crédito aprovadas pelo Eurogrupo para financiar as despesas de saúde, as pequenas e médias empresas e apoiar os empregos. A nível da política orçamental, sobressaem as moratórias fiscais e parafiscais, os incentivos orçamentais de apoio às empresas severamente afetadas pela pandemia, as transferências orçamentais de apoio às famílias, o programa Next Generation EU da União Europeia para impulsionar a recuperação económica no pós-Covid e a suspensão temporária das regras de disciplina orçamental inscritas no Pacto de Estabilidade e Crescimento.
A par destas medidas contingenciais, o BCE e a Reserva Federal dos EUA mantiveram inalteradas as taxas de juro de referência ao longo do ano, com exceção do Banco de Inglaterra que, face ao aumento persistente das pressões inflacionistas que se fazia sentir sobretudo no último trimestre do ano, aumentou em dezembro de 2021 a taxa de juro de referência de 0,10 para 0,25 por cento.
Figura 3. Taxas de Juro de Referência e Taxa Euribor e Câmbio EUR/USD
Adicionalmente, destaca-se que, o BCE anunciou em finais de 2021 a redução gradual das compras de ativos líquidos ao abrigo do Pandemic Emergency Purchase Programme (PEPP) a partir de 2022 devido à melhoria das condições económicas e financeiras e, a Reserva Federal dos EUA decidiu em novembro de 2021 iniciar a redução dos estímulos monetários, o tapering, diminuindo para 15 mil milhões de dólares as compras mensais de títulos, sendo 10 mil milhões de dólares em títulos do
1,00 1,05 1,10 1,15 1,20 1,25 1,30
-0,7 -0,5 -0,3 -0,1 0,1 0,3
mar-18 jun-18 set-18 dez-18 mar-19 jun-19 set-19 dez-19 mar-20 jun-20 set-20 dez-20 mar-21 jun-21 set-21 dez-21 Euro (média mensal)
Taxas de Juro (média mensal em %)
Câmbio Euro/Dólar (eixo dto.)
Euribor 3 meses 0,0
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0
-0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0
mar-18 jun-18 set-18 dez-18 mar-19 jun-19 set-19 dez-19 mar-20 jun-20 set-20 dez-20 mar-21 jun-21 set-21 dez-21 Taxas de Juro (em %)
Taxas de Juro (em %)
Fed Funds Rate (FED)
refi rate (BCE)
bank rate (BoE) taxa diretora (BCV)- eixo dto.
Fonte: Eurostat; Federal Reserve; Bank of England; Instituto Nacional de Estatística
tesouro e 5 mil milhões de dólares em títulos garantidos por hipotecas. A Reserva Federal dos EUA anunciou, ainda, no final do ano, que iria acelerar o ritmo de redução mensal da compra de ativos, o que permitiria terminar o processo de tapering em março de 2022, tendo sinalizado três aumentos das fed funds em 2022.
Em resultado das medidas de política, em particular, as monetárias adotadas na Área do Euro, no mercado monetário de maior relevância para Cabo Verde, as taxas de juro Euribor a um, três, seis e doze meses reduziram para mínimos históricos, alargando o diferencial das taxas de juro do país face às da Área do Euro, favorecendo assim, a acomodação monetária com a redução dos custos de financiamento do setor privado nacional e tornando potencialmente mais atrativos os investimentos no país. Por seu turno, no mercado cambial, o Euro apreciou, em termos médios, 3,7 por cento face ao dólar dos EUA, afetando adversamente a competitividade-preço e a rendibilidade das reservas internacionais líquidas do país. Em termos efetivos nominais, o índice da taxa de câmbio do Euro manteve-se no nível do ano anterior.
De referir que, de acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a atividade económica na África Subsariana, sub-região onde o país se insere, registou igualmente, uma recuperação face a 2020, crescendo 4,5 por cento em 2021 (o que compara com a contração de 1,7 por cento em 2020). Na mesma linha, a atividade económica da Comunidade dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), cresceu 4,2 por cento em 2021, o que compara com a contração de 0,6 por cento em 2020.
O desempenho económico, em particular da África Subsariana, deveu-se à recuperação nos preços das commodities e ao afrouxamento das restrições sociais. No entanto, a recuperação foi frágil e insuficiente para reverter o aumento da pobreza induzido pela pandemia. Por um lado, os setores de serviços, turismo e indústria foram afetados negativamente pela pandemia e, por outro lado, a queda no poder de compra induzida pela elevada inflação, bem como, a agitação social crescente, a insegurança e os conflitos civis em alguns países, diminuíram os gastos com o consumo e investimentos na sub-região. A taxa de inflação fixou-se em 11 por cento em 2021 (10,2 por cento em 2020), impulsionada, em grande medida, pelos preços mais altos dos alimentos, associado às interrupções no fornecimento de alimentos localmente produzidos e importados, em resultado dos conflitos, das condições climatéricas adversas e de restrições de oferta globais. Os elevados níveis da dívida pública e o espaço orçamental extremamente limitado condicionaram, em certa medida, o apoio à recuperação da economia da sub-região1.
1De acordo com o FMI, a taxa de inflação da Comunidade dos Estados da África Ocidental situou-se em 12,7 por cento em 2021, o que compara com 10,2 por cento em 2020.
Figura 4. Indicadores Selecionados da Performance da África Subsaariana e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental
3,1%
-1,7%
3,5% 4,5%
-0,6%
5,7% 4,2%
-14,8%
7,0%
2019 2020 2021
Produto Interno Bruto em Volume (variação)
-3,2% -3,0%
-1,1%
-3,9% -4,3%
-2,6%
0,2%
-16,5%
-13,2%
2019 2020 2021
Balança Corrente em % do PIB
8,1%
10,2% 11,0%
8,2%
10,2%
12,7%
1,1% 0,6%
1,9%
2019 2020 2021
Inflação Média Anual
6,0
5,1 4,5
5,5 4,8
4,1 6,9
7,9 7,5
2019 2020 2021
Reservas Oficiais em meses de importações
-3,9%
-6,4%
-5,3%
-4,3%
-6,6% -6,4%
-1,8%
-9,1%
-8,0%
2019 2020 2021
Saldo Orçamental em % do PIB
África subsariana CEDEAO Cabo Verde
50,0% 57,4% 56,9%
36,7% 43,8% 47,2%
124,5%
156,6% 156,7%
2019 2020 2021
Dívida Pública em % do PIB
Fonte: Fundo Monetário Internacional; Instituto Nacional de Estatística; Banco de Cabo Verde
Capítulo 2
Políticas Macroeconómicas
2.1. Política Monetária e Condições Monetárias e Financeiras
Num contexto em que as expectativas de evolução da inflação e das contas externas não sugeriam um risco para a estabilidade nominal e não constituíam uma ameaça ao regime cambial do país, a política monetária manteve-se excecionalmente acomodatícia ao longo do ano de 2021.
Tendo em conta a conjuntura de emergência sanitária global que se viveu em 2020, devido à propagação do novo coronavírus, com efeitos severos na economia cabo-verdiana, a 1 de abril de 2020, a autoridade monetária implementou um pacote de medidas excecionais de política monetária e prudencial de apoio (indireto) à tesouraria das empresas e ao rendimento das famílias, com o objetivo de atenuar os efeitos sobre estes agentes económicos, transmitindo confiança ao mercado, estimulando o crédito à economia e, por esta via, a recuperação económica.
Por conseguinte, o Banco de Cabo Verde (BCV), com vista a diminuir os custos de intermediação e incentivar, em consequência, o financiamento bancário em condições menos restritivas:
(i) reduziu as taxas de juro de referência, nomeadamente, a taxa de juro diretora, bem como as taxas das facilidades permanentes de cedência de liquidez e das facilidades permanentes de absorção de liquidez para 0,25, 0,50 e 0,05 por cento;
(ii) baixou o coeficiente das disponibilidades mínimas de caixa de 13 para 10 por cento;
(iii) diminuiu a taxa de redesconto de 5,5 para 1 por cento;
(iv) criou um programa de financiamento de longo prazo para os bancos, através da Operação Monetária de Financiamento (OMF)2, com condições especiais de financiamento, à taxa de juro de 0,75 por cento;
(v) no âmbito prudencial, suspendeu a dedução aos fundos próprios dos valores de bens recebidos em dação; e
(vi) reduziu o rácio de solvabilidade de 12 para 10 por cento.
2 O programa de financiamento de longo prazo, através da Operação Monetária de Financiamento (OMF) foi criado, numa perspetiva precaucional, para prover liquidez aos bancos em caso de necessidade, em condições excecionalmente favoráveis, num contexto que lhes era requerido suspender a corança de créditos concedidos a empresas, famílias e outros agentes económicos em dificuldades. A sua criação e operacionalização requereu alteração da Lei Orgânica do Banco de Cabo Verde, n.º 10/VI/2002, de 15 de julho, para permitir empréstimos às instituições de crédito e parabancárias a prazo que excedesse um ano. Com maturidade máxima de 3 anos, o montante de colocação mensal foi de 5.000 milhões de escudos, podendo atingir os 45.000 milhões de escudos, devendo os bancos apresentar como colateral, títulos de dívida pública (obrigações e bilhetes de tesouro).
A par das medidas de política monetária e prudencial, o BCV recomendou ao Governo e este implementou um regime excecional de atribuição de moratórias ou de carência no pagamento do crédito bancário para apoio às famílias e às empresas.
Quadro 2. Taxas de Juro (em percentagem)
Taxas 2019 2020 2021
Taxa Diretora 1,50 0,25 0,25
Taxa de Facilidade Permanente de Cedência de liquidez 3,00 0,50 0,50
Taxa de Facilidade Permanente de Absorção de liquidez 0,10 0,05 0,05
Taxa da Operação Monetária de Financiamento de Longo Prazo --- 0,75 0,75
Coeficiente das Disponibilidades Mínimas de Caixa 13,00 10,00 10,00
Taxa de Redesconto 5,50 1,00 1,00
Fonte: Banco de Cabo Verde
Em 2021, considerando o novo contexto, particularmente, a retoma gradual da atividade económica e a necessidade de se iniciar um processo de phasing-out, o BCV reviu estas medidas excecionais, tendo deliberado em termos de política monetária e prudencial:
(i) pela manutenção das taxas de juro de referência nos níveis anunciados no ano anterior;
(ii) pelo ajustamento do programa de financiamento de longo prazo, através da Operação Monetária de Financiamento (OMF), reduzindo o montante de colocação mensal para 3.000 milhões de escudos, podendo atingir os 36.000 milhões de escudos, mantendo-se, contudo, a maturidade máxima de 3 anos e a taxa de juro de 0,75 por cento;
(iii) pelo alargamento dos colaterais elegíveis para as Operações Monetárias de Financiamento (OMF), ou seja, pela aceitação como colaterais destas operações, além dos títulos de dívida pública, os ativos (créditos ou carteiras de créditos) dos bancos garantidos ou com avales do Estado3;
(iv) pela manutenção do rácio de adequação de fundos próprios totais num patamar mínimo de 10 por cento e da suspensão da dedução dos valores dos bens recebidos em reembolso de crédito próprio (dação em cumprimento); e,
(v) pela possibilidade de os créditos abrangidos pelas moratórias não serem classificados de forma automática como “crédito reestruturado” ou em “default”, sem impacto nos indicadores prudenciais e financeiros das instituições de crédito, tendo em conta que estas operações de crédito não são consideradas como crédito em incumprimento.
3 Refira-se que, no quadro da Operação Monetária de Financiamento (OMF), o BCV colocou junto às instituições de crédito, até 31 de dezembro de 2021, 5.759 milhões de escudos (16 por cento do limite do programa), traduzindo num aumento de 16,2 por cento face a 2020. Subcreveram a facilidade quatro bancos, com menores quotas de mercado, através de leilões ou de operações bilaterais.
Relativamente à medida de moratória ao crédito, o Governo, em articulação com o banco central, decidiu prorrogar, até 31 de março de 2022, a suspensão de pagamento de capital, juros e prestações dos créditos concedidos às famílias e empresas, com as seguintes especificidades: (i) suspensão do pagamento de capital, juros, comissões ou outros encargos para os créditos concedidos a pessoas singulares até 31 de março de 2021, desde que o beneficiário continuasse no regime de redução do período normal de trabalho ou de suspensão de contrato de trabalho ou desempregado; (ii) retoma do pagamento de juros a partir de 1 de outubro de 2021 e o reembolso do capital a partir de 1 de janeiro de 2022, para os particulares que não estivessem abrangidos pelo regime de “lay-off” ou numa das situações abrangidas no ponto i; e, (iii) suspensão do pagamento de capital, juros, comissões ou outros encargos para os créditos concedidos às empresas pertencentes aos setores de restauração, do turismo, dos transportes, das agências de viagens e operadores turísticos, bem como, aos beneficiários das “Linhas de Crédito Covid-19” até 31 de março de 2022 (Decreto-lei nº 54/2021 de 12 de agosto)4. As intervenções da autoridade monetária, a suspensão do serviço da dívida dos contratos sob o regime das moratórias, a criação de linhas de crédito Covid-19 e outras com a garantia e partilha de riscos por parte do Estado e as pressões exercidas pela concorrência entre as instituições de crédito, traduziram- se numa redução ligeira da restritividade dos termos e condições dos contratos de crédito aprovados pelos bancos, em particular, das taxas de juro, contribuindo para a dinamização do mercado de crédito.
Com efeito, em 2021, a taxa média de juro praticada nas operações de financiamento bancário reduziu em 0,31 pontos percentuais para os 9,4 por cento (9,8 por cento em 2020) e o crédito à economia registou uma aceleração de 6,1 por cento (4,8 por cento em 2020)5.
Desenvolvimentos Monetários e Financeiros
A oferta monetária, expressa pela evolução da massa monetária em sentido lato (M2), apresentou em 2021 um crescimento mais moderado quando comparado ao ano transato, em resultado de um aumento mais contido do crédito interno líquido no período.
O agregado monetário M2, constituído essencialmente por moeda em circulação, depósitos à vista, a prazo e de poupança e títulos do Tesouro em poder do público, cresceu 3,1 por cento em termos homólogos, o que compara ao crescimento de 4,1 por cento registado em igual período de 2020.
A evolução da oferta monetária foi determinada pelo aumento do crédito interno líquido, bem como pelo acréscimo de 5,2 por cento registado pelas disponibilidades líquidas sobre o exterior. O aumento das disponibilidades líquidas sobre o exterior traduziu o acréscimo registado ao nível das reservas
4 O Decreto-lei n.º 54/2021 de 12 de agosto procedeu à quinta revisão do regime de suspensão do pagamento de créditos estabelecido originalmente pelo Decreto-lei n.º 38/2020 de 31 de março, atualizado, posteriormente, pelos Decretos-Leis n.ºs 45/2020, de 21 de abril, 65/2020, de 1 de setembro, 4/2021, de 15 de janeiro e 48/2021, de 16 de junho.
5 Note-se que, no âmbito das medidas excecionais de proteção da liquidez das empresas e do rendimento das famílias, o Governo em negociação com os bancos criou quatro linhas de crédito, num valor total de 4.000 milhões de escudos, destinadas ao reforço da tesouraria das empresas com atividade empresarial em Cabo Verde, visando essencialmente suportar os custos com salários, rendas de instalações e pagamento de faturas, e fornecimentos de serviços a terceiros. Todas as linhas de crédito beneficiaram da garantia do Estado, de uma taxa de juros não superior a 3 por cento e de um período de carência de seis meses.
externas líquidas em 2,7 por cento, em resultado de avultadas entradas a favor do Tesouro, bem como o aumento dos ativos externos líquidos dos bancos comerciais registados no período em análise.
O crédito interno líquido cresceu 4,8 por cento em 2021 (6,7 por cento em 2020) refletindo, essencialmente, o aumento de 6,1 por cento observado ao nível do crédito à economia, não obstante a redução de 0,6 por cento registado pelo crédito ao setor público administrativo.
Por seu turno, os ativos externos líquidos do Banco de Cabo Verde e, em particular, o stock de reservas internacionais líquidas do país cresceu 2,7 por cento em 2021 (o que compara com uma queda de 12,4 por cento em 2020), beneficiando, sobretudo, do aumento nos depósitos a prazo e a ordem em moeda estrangeira.
Quadro 3. Situação Monetária
2019 2020 2021 2021
Saldos em milhões de escudos Taxa de crescimento
(em %)
Posição Externa 70 715,98 63 697,89 67 021,06 5,2
Ativos Externos Líquidos do Banco de Cabo Verde 72 815,51 63 923,85 65 872,85 3,0
Crédito Interno Líquido 140 357,49 149 744,02 156 963,75 4,8
Crédito Líquido ao Setor Público Administrativo 25 105,72 28 919,73 28 738,62 -0,6
Crédito à Economia 115 251,77 120 824,29 128 225,13 6,1
Massa Monetária 196 280,77 204 378,63 210 722,20 3,1
Base Monetária 68 710,25 70 518,98 66 894,17 -5,1
Memo itens
Inflação (variação média anual do IPC, %) 1,10 0,61 1,90
Índice da Taxa de Câmbio Efetiva Real (var. média anual, %) -0,44 0,53 -1,27 Taxa Diretora do Banco de Cabo Verde (fim de período, %) 1,50 0,25 0,25 Taxas dos Bilhetes do Tesouro (a 91 dias, média em %) 1,00 1,00 1,00 Fonte: Banco de Cabo Verde
Nota: Um aumento da taxa de câmbio efetiva real sinaliza uma perda de competitividade-preço do país e vice-versa. O Índice da Taxa de Câmbio Efetiva Real (TER) é calculado deflacionando o Índice da Taxa de Câmbio Efetivo Nominal (TEN), utilizando a inflação nacional e a dos principais parceiros. O TEN está definido como média geométrica das taxas de câmbio nominais bilaterais da moeda doméstica relativamente à moeda da Área do Euro, Reino Unido e Estados Unidos da América. IPC-Índice de Preços no Consumidor.
A liquidação dos Títulos Consolidados de Mobilização Financeira (TCMF) detidos pelo Banco de Cabo Verde numa negociação com o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e o aumento dos depósitos do Estado no período explicam o desempenho do crédito líquido ao setor público administrativo. Entretanto, é de referir o aumento do crédito ao governo central em 18,6 por cento em resultado do aumento de 11.189,2 milhões de escudos no stock dos títulos do Tesouro, dos quais 62,5 por cento foram emitidos junto à banca nacional e 37,5 por cento junto de outras entidades nacionais.
Por sua vez, o aumento do crédito à economia em 6,1 porcento em 2021 traduz, fundamentalmente, o aumento ocorrido ao nível do crédito ao setor privado em 6,2 por cento, o que compara ao acréscimo
de 5,3 por cento registado no ano anterior. As medidas excecionais tomadas pelo Governo, desde 2020, para mitigar os efeitos da pandemia na liquidez das empresas e no rendimento das famílias, nomeadamente, a suspensão do serviço da dívida dos contratos sob o regime das moratórias e a utilização das linhas de crédito Covid-19 e outras garantidas pelo Estado, bem como, a concessão de novos créditos, explicam o aumento do crédito à economia, tanto às empresas (em 12,9 por cento) como aos particulares (em 3,5 por cento). De acordo com os bancos inquiridos no âmbito do inquérito do Banco de Cabo Verde ao mercado de crédito, o crédito à economia beneficiou ainda, de uma ligeira redução na restritividade dos termos e condições dos contratos de créditos aprovados, em particular, nas taxas de juro.
Os empréstimos concedidos às empresas foram destinados, na sua grande maioria, ao financiamento de aquisição de equipamentos, aquisição de terrenos para expansão da atividade e para necessidades de tesouraria. No caso dos particulares, os empréstimos concedidos foram destinados, na sua maioria, para a construção, aquisição e remodelação de habitação própria.
Cabe ainda realçar que, a 31 de dezembro de 2021, o regime das moratórias de crédito beneficiava um total de 2.554 contratos (2.717 contratos em 2020) e o stock de crédito sob o referido regime era de 26.903,2 milhões de escudos, representando 20,3 por cento do total do crédito à economia e aos governos locais e 14,9 por cento do produto interno bruto. Do stock total de crédito sob o regime das moratórias, 80,4 por cento (77,5 por cento em 2020) foram para as empresas, sobretudo dos setores de “Alojamento e restauração”, “Transportes e armazenagem” e “Atividades imobiliárias”, 11 por cento para particulares (13,4 por cento em 2020) e 8,7 por cento para as câmaras municipais (9,1 por cento em 2020).
Figura 5. Perfil dos Créditos Bancários em Moratórias Contratos de Crédito e Stock da Dívida em moratória
1189 1304 61
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
Empresas Particulares Câmaras Municipais
0 20000 40000 60000 80000 100000 120000 140000 160000 180000
Total Crédito às empresas, famílias e instituições sem fins lucrativos
Crédito às Câmaras Municipais
milhões de escudos
stock em moratória stock total
Tipo de Crédito em Moratória e Atividade das Empresas com Crédito em Moratória
Por seu turno, o stock total de crédito concedido no âmbito das linhas de crédito Covid-19 com garantia do Estado, a 31 de dezembro de 2021, era de 2.993,8 milhões de escudos, dos quais, 482,5 milhões de escudos foi concedido de janeiro a dezembro de 2021 (2.511,3 milhões concedido de abril a dezembro de 2020). Deste montante, grande parte foi para os setores de “Alojamento e restauração”
(32,8 por cento), “Comércio” (22,8 por cento) e “Outros serviços” (15,3 por cento).
Em termos de componentes, a evolução da massa monetária em 2021 refletiu o aumento tanto dos passivos monetários - M1 (constituídos por moeda em circulação e depósitos à ordem), como da quase moeda (composta por depósitos a prazo e de poupança, depósitos de caução e cheques e ordens a pagar e acordos de compra de títulos) em 2,8 e 3,4 por cento, respetivamente, que comparam aos aumentos de 6,8 e 2,0 por cento registados em 2020. O crescimento dos depósitos à vista, em 2,8 por cento, e da circulação monetária, em 2,7 por cento, determinaram a evolução do agregado M1. Por sua vez, a evolução da quase moeda ficou a dever-se, em larga medida, aos acréscimos dos depósitos de poupança, dos depósitos a prazo em moeda nacional de residentes e dos depósitos de emigrantes em 11,3, 4,9 e 1,6 por cento, respetivamente. A constituição de poupanças precaucionais, suportada em parte pela diminuição dos gastos de residentes em viagens pessoais, lazer e entretenimento, bem como, a recuperação económica e a melhoria das condições do mercado de trabalho nos principais países acolhedores dos emigrantes, poderá justificar a evolução destes depósitos6.
6 De referir que, as taxas médias de juro aplicadas nas operações de depósitos (de residentes, de não residentes e de emigrantes) diminuíram em 0,23 pontos percentuais para os 1,1 por cento em 2021 (1,4 por cento em 2020).
Habitação 7,8%
Estudo 0,1%
Automóvel 1,3%
Investimento 70,9%
Conta Corrente Caucionada
7,2%
Fundo Maneio e Necessidade de Tesouraria
5,3%
Outros fins 3,1%
Linha de crédito Covid
4,2%
Outros Créditos
0,1%
Alojamento e Restauração
22% Indústria
2%
Construção 5%
Comércio 4%
Atividades imobiliárias
13%
Câmaras municipais
9%
Transporte e armazenagem
18%
Seviços de Telecomunica
ção2%
Particular 13%
Outros serviços 5%
Distribuição de água e saneamento
7%
Eletricidade, gás, vapor, água quente e
fria e ar frio 0%
Fonte: Decretos-Leis n.º 38/2020, de 31 de março; n.º 45/2020, de 21 de abril; n.º 65/2020, de 1 de setembro; n.º 4/2021, de 15 janeiro.
Compilação e cálculos do Banco de Cabo Verde
A Política de Crédito dos Bancos em 2021
No quadro da análise dos desenvolvimentos no mercado de crédito, o Banco de Cabo Verde realiza, trimestralmente, um inquérito qualitativo aos bancos, com o objetivo de obter informações sobre as políticas de crédito seguidas e as condições no mercado de crédito.
De acordo com os resultados dos inquéritos realizados em 2021, em termos médios globais, face ao ano de 2020, registou-se uma redução ligeira da restritividade nos critérios seguidos pelos bancos na aprovação de empréstimos às empresas determinada, essencialmente, pelas pressões exercidas pela concorrência de outras instituições bancárias. Os empréstimos aprovados foram beneficiados com termos e condições dos contratos ligeiramente menos restritivos, particularmente, com menores comissões e outros encargos, taxas de juro e níveis de spread. As pressões exercidas pela concorrência e as medidas de política monetária e prudencial implementada explicam este alívio dos termos e condições dos contratos. Relativamente à procura, as maiores necessidades de financiamento para custear as existências e as necessidades de fundo de maneio, bem como, para refinanciamento, reestruturação e renegociação de dívidas levaram ao aumento ligeiro da procura de crédito por parte das empresas em 2021.
Índice de Difusão do Sistema Bancário 20217
Fonte: Banco de Cabo Verde
No que se refere ao financiamento dos particulares, os critérios de aprovação e os termos e as condições dos contratos de empréstimos para consumo e outros fins foram menos restritivos em 2021 comparativamente a 2020, influenciados pelas pressões exercidas pela concorrência de outras instituições bancárias e pelas expetativas (favoráveis) quanto à evolução da atividade económica. No entanto, os critérios de aprovação e os termos e condições dos contratos de empréstimos para aquisição de habitação mantiveram-se inalterados. No que diz respeito à procura, o recurso a empréstimos de outras instituições bancárias e a (baixa) confiança dos consumidores contribuiu, em grande medida, para a redução ligeira da procura de crédito por parte dos particulares.
7 O índice de difusão resulta das respostas dos bancos, ponderadas pela sua quota de mercado, e pode assumir valores entre -100 e 100.
Quando o índice assume o valor 0 significa que nenhum dos bancos reportou alterações, quando atinge os valores 50 ou -50 significa que todos os bancos reportaram uma ligeira alteração (favorável ou desfavorável, respetivamente) e quando atinge os valores 100 ou -100 significa que todos os bancos reportaram uma significativa alteração na variável analisada (favorável ou desfavorável, respetivamente).
Valores diferentes de -100, -50, 0, 50 e 100 surgem quando as respostas dos bancos não convergem todas num único sentido.
A oferta (critérios de oferta de crédito) é apresentada no eixo dos yy e a procura de crédito no eixo dos xx. Assim, o deslocamento das esferas na horizontal representa as alterações na procura, enquanto o deslocamento das esferas na vertical representa alterações na oferta. O gráfico dispõe de quatro quadrantes que combinam a evolução da oferta e da procura.
-100 -50 0 50 100
-100,0 -50,0 0,0 50,0 100,0
Procura (x)
Oferta (y) Empresas
Apreciação Geral Empréstimos de Curto Prazo Empréstimos de Longo Prazo
- Procura
+ Oferta + Procura
+ Oferta
- Procura
- Oferta + Procura
- Oferta
-100 -50 0 50 100
-100 -50 0 50 100
Oferta (y)
Procura (x)
Particulares
Apreciação Geral Empréstimo à Habitação Empréstimo ao Consumo Outros Empréstimos - Procura
+ Oferta
- Procura
- Oferta + Procura
- Oferta + Procura + Oferta
Caixa 1: A Performance do Setor Financeiro em 2021
Numa conjuntura marcada pela recuperação da atividade económica, o setor financeiro nacional registou uma performance muito favorável em 2021. O valor acrescentado bruto dos serviços financeiros cresceu 7,6 por cento em volume (1,7 por cento em 2020) e o seu contributo no crescimento da produção nacional foi de 0,4 pontos percentuais (0,1 pontos percentuais em 2020). Esta evolução foi determinada, sobretudo, pelo setor bancário, tendo em conta o seu peso maioritário no ativo do setor financeiro (cerca de 97 por cento).
Estrutura do Setor Financeiro Nacional
Fonte: Banco de Cabo Verde
Nota: O peso das sociedades financeiras no total do setor foi calculado com base no valor total dos seus ativos em finais de 2021.
Assim, de notar que, o produto bancário cresceu 9,7 por cento em 2021, o que compara com zero por cento em 2020. A evolução positiva da margem complementar (47,9 por cento) impulsionada por ganhos cambiais e de outros resultados de exploração e aumento das comissões líquidas, bem como, da margem financeira (3,3 por cento) em função, sobretudo, da redução dos juros e custos equiparados, determinou o desempenho do produto bancário. O processo de phasing-out gradual do regime de moratórias concedidas ao crédito bancário e a eliminação da isenção de comissões nas transferências interbancárias que vigorou durante a pandemia, por um lado, e a contínua diminuição das taxas de juro dos depósitos, por outro, explicam em parte, este desempenho. Pese embora o agravamento dos custos operacionais, em particular, dos custos com pessoal e gastos gerais administrativos, os resultados antes e após impostos do setor bancário, aumentaram em, respetivamente, 15,9 e 19,2 por cento.
Estimulado por medidas de política monetária e orçamental, a componente principal do ativo dos bancos, o crédito, registou um crescimento superior ao de 2020, de 6,1 por cento, traduzindo essencialmente, o aumento do crédito sem imparidade (em 9,0 por cento), porquanto o crédito com imparidade reduziu 20,8 por cento. Por seu turno, a componente mais importante do passivo e principal fonte de financiamento dos bancos, os depósitos, evidenciaram também, um crescimento de 2,0 por cento, 0,8 pontos percentuais acima do registado em 2020.
Com efeito, em 2021, os indicadores de solidez do setor bancário permaneceram em patamares confortáveis.
O rácio de solvabilidade passou de 19,4 para 21,4 por cento, mantendo-se muito acima do mínimo regulamentar de 10 por cento. A qualidade dos ativos foi fortalecida, com a redução dos créditos com
Seguradoras 2%
Outros intermediários e auxiliares financeiros
1%
Banco central 22%
Bancos comerciais
75%
Sociedades de depósitos
97%
imparidade e em incumprimento, que passaram a representar, respetivamente, 7,2 e 8,1 por cento do crédito total (9,6 e 9,5 por cento em 2020), e com o aumento da cobertura do crédito com imparidades pelas imparidades que passou de 86,4 para 95,5 por cento. Os rácios de rentabilidade, em geral, melhoraram face a 2020, com a rendibilidade dos ativos (ROA) após impostos a aumentar em 0,2 pontos percentuais para 1,3 por cento e a rendibilidade do capital próprio (ROE) a manter-se nos 13,3 por cento. E, os indicadores de liquidez também permaneceram robustos, com os rácios ativo líquido por ativo total e ativo líquido por passivos de curto prazo a fixarem-se em níveis aceitáveis, respetivamente, em 24,3 e 30,5 por cento, permitindo assegurar a continuidade das operações de financiamento do sistema.
Principais Indicadores da Performance do Sistema Financeiro
Unidades 2019 2020 2021
I. Setor Bancário
Produto Bancário variação em % 12,0 0,0 9,7
Rácio de Solvabilidade em % 17,7 19,4 21,4
Crédito em Incumprimento em % do crédito total 10,4 9,5 8,1
Imparidades/Crédito com Imparidade em % 77,0 86,4 95,5
Rentabilidade dos Ativos (ROA) em % 1,2 1,1 1,3
Rentabilidade dos Capitais Próprios (ROE) em % 16,6 13,3 13,3
Ativo Líquido/Passivo de Curto Prazo em % 28,3 29,9 30,5
II. Mercado de Capitais
Emissão no Mercado Primário em % do PIB 7,7 9,2 14,1
Transações no Mercado Secundário em % do PIB 0,7 0,04 0,52
Capitalização Bolsista em % do PIB 39,1 49,1 50,5
III. Setor Segurador
Produto Segurador (carteira de prémios) variação em % 10,5 -6,2 9,2
Rácio de Solvência em % 364,9 450,6 401,8
Grau de Cobertura das Provisões Técnicas em % dos ativos representativos 127,2 128,5 128,0
Fonte: Banco de Cabo Verde
Crédito em incumprimento definido de acordo com a Instrução Técnica n.º 150/2009 de 28 de dezembro. Dados sujeitos a atualização
O mercado de capitais registou, em 2021, um aumento na dinâmica de financiamento à economia, contribuindo também, para a evolução positiva dos serviços financeiros. A capitalização bolsista, nos seus três segmentos, teve um aumento de 12,7 por cento (6,1 por cento em 2020), representando 50,5 por cento do PIB (49,1 por cento em 2020), em resultado do aumento da capitalização dos segmentos da dívida pública e acionista em,
respetivamente, 13,8 e 10 por cento. O aumento de emissões da dívida pública, bem como, a valorização das ações de duas empresas cotadas no mercado, justificam esta evolução. No entanto, devido à amortização parcial das ofertas públicas ainda ativas no mercado, o segmento obrigacionista empresarial registou uma queda de três por cento. Note-se que, o segmento da dívida pública, representa 87,9 por cento do total da capitalização bolsista, pelo que, excluindo este segmento, a capitalização bolsista também aumentou, em 5,4 por cento, quando no ano anterior tinha reduzido 10,9 por cento.
No mercado primário, registou-se um aumento do volume de operações em 68,5 por cento (1,1 por cento em 2020), no qual destaca-se, a emissão de títulos do tesouro e de obrigações empresariais por quatro entidades (três empresas e uma associação), que cresceram, respetivamente, 65,7 e 137 por cento. No mercado secundário, pese embora a redução no número de transações (em menos três face ao ano anterior), verificou-se também, um acréscimo significativo no volume de transações, em que se destacam as operações de obrigações do tesouro, com alguns intermediários financeiros a repassarem os seus títulos, subscritos no mercado primário, para os seus clientes particulares e a outros intermediários financeiros.
A atividade seguradora, medida pelo valor da carteira de prémios de seguros, também contribuiu favoravelmente para a performance dos serviços financeiros em 2021. Após um decréscimo de 6,2 por cento, em 2020, em resultado dos efeitos da pandemia na economia, o volume de prémios registou, em 2021, um crescimento de 9,9 por cento, em grande medida, devido à retoma pós-pandemia das atividades económicas no país. Esta evolução traduziu o aumento dos prémios dos ramos vida e não vida em, respetivamente, 33,1 e 6,8 por cento face ao ano anterior (15,2 e -8,5 por cento em 2020), reflexo sobretudo, do bom desempenho a nível dos seguros de vida associados ao crédito de habitação, bem como, dos seguros de automóvel e de incêndio e outros danos.
Relativamente às garantias financeiras das empresas de seguros que operam no mercado nacional, em 2021, o grau de cobertura das provisões técnicas pelos ativos fixou-se em 128 por cento e, o rácio de solvência, exigível nos termos legais, em 401,8 por cento, mantendo-se em níveis acima dos mínimos requeridos.
Assim sendo, as empresas nacionais de seguros permaneceram numa situação de solvência confortável.
2.2. Política e Situação Orçamental
O Orçamento de Estado para 2021, elaborado tendo como foco “mais saúde, mais competitividade e mais rendimento”, perspetivava uma melhoria da situação orçamental, através de medidas de otimização na arrecadação de receitas fiscais e de outras receitas e de redução das despesas correntes de funcionamento da máquina pública, sem descurar, no entanto, das despesas de âmbito sociais (com a saúde, educação e rendimento), bem como, de investimentos em infraestruturas impulsionadoras da dinâmica económica.
Este orçamento perspetivava diversas medidas de política, de entre as quais, destaca-se: (i) conferir uma maior liquidez às empresas e às famílias (com as moratórias de crédito com possibilidade de prorrogação, linhas de crédito Covid-19 para reforço de tesouraria e com garantia do Estado; linhas de refinanciamento às instituições de micro-finanças com bonificação de juros e garantia do Estado, subsídios de desemprego e medidas de apoio ao relançamento da economia tendo em conta um plano de retoma económica); (ii) apoiar o emprego e a empregabilidade (com a prorrogação do período de co- financiamento de estágios profissionais, apoio às startups e às micro-empresas, fomento à contratação através de benefícios fiscais e comparticipação do Estado nos salários, formação e inserção para a empregabilidade); (iii) melhorar os serviços de saúde (com o reforço dos profissionais de saúde e das medidas de prevenção e combate à Covid-19); e, (iv) reforçar a proteção e o apoio às famílias (com a atribuição do rendimento social de inclusão, de pensões sociais, de tarifas sociais de energia e água, habitação social, reforço das pensões do regime contributivo e das pensões do Estado).
Entretanto, este orçamento assumiu como pressupostos, por um lado, que a retoma do turismo e a níveis pré-pandémicos seria possível com a vacinação para a Covid-19, particularmente nos principais países emissores de turistas para Cabo Verde, e por outro, que a dinâmica económica fosse ocorrer no segundo trimestre de 2021, o que não se materializou, inviabilizando a execução do orçamento inicialmente aprovado, levando à elaboração e aprovação de um Orçamento de Estado Retificativo para 2021. Este orçamento retificativo de orientação anti-cíclica, procedeu à reprogramação das perspetivas macroeconómicas e, consequentemente, das receitas e despesas públicas, por forma a garantir o reequilíbrio das contas públicas. Tendo em vista o reforço das políticas e medidas de resposta à crise sanitária e económica, as receitas foram revistas em baixa e as despesas correntes em alta, deteriorando a situação orçamental programada inicialmente em cerca de 6 mil milhões de escudos.
Com a inesperada retoma do turismo, que se veio a concretizar no segundo semestre de 2021 (com maior incidência no último trimestre) e, a consequente recuperação económica, impulsionada igualmente, pelo alívio das restrições e das medidas de contenção relacionadas com a Covid-19 e a reabertura das atividades económicas, foi possível inverter o quadro orçamental programado. Com efeito, em 2021, o défice das contas públicas registou uma melhoria em cerca de 653 milhões de