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Artigo - Congresso LTr - Interlocutórias - julho - 2007 - v. set. 2012

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A

IRRECORRIBILIDADE DAS INTERLOCUTÓRIAS NO PROCESSO DO TRABALHO E OS AVANÇOS NO DIREITO PROCESSUAL CIVIL

(

*

)

LUCIANO ATHAYDE CHAVES (**)

SUMÁRIO: 1. Introdução; 2. A impugnação das decisões interlocutórias no Direito Processual do

Trabalho; 2.1. Característica histórica; 2.2. Êxito e robustez históricos da técnica; 2.3. A construção

jurisprudencial em torno do cabimento de recurso imediato contra decisões interlocutórias: a Súmula n. 214 do Tribunal Superior do Trabalho; 2.4. Outras hipóteses admitidas pela jurisprudência para impugnação autônoma das decisões interlocutórias na Justiça do Trabalho: o uso anômalo do mandado de segurança; 2.5. Novas hipóteses que podem ensejar o cabimento do mandado de segurança contra decisões interlocutórias: efeito da reforma processual de 2005 e 2006; 2.6. Da resolução da prejudicial prescrição, em casos excepcionais, através de uma decisão incidental ou interlocutória: uma possibilidade?; 3. A impugnação das decisões interlocutórias no Direito Processual Civil após a Lei

n. 11.187/2005; 3.1. O controle das interlocutórias no processo comum e os antecedentes (fontes

materiais) da reforma de 2005; 3.2. Principais mudanças no regime dos agravos com a Lei n. 11.187/2005; 3.3. Quando sintético da impugnação das interlocutórias no processo comum; 4.

Considerações finais.

RESUMO:O presente texto busca traçar um panorama do regime de controle das decisões incidentais ou interlocutórias no Direito Processual Civil e Trabalhista, destacando não somente a evolução legislativa e jurisprudencial dos meios de impugnação autônomas e contidas em vigor em cada um dos subsistemas processuais, mas também os reflexos das reformas processuais levadas a efeito no período recente. ABSTRACT: The present text looks for to draw up to a panorama of the control mode of the incidental decisions or interlocutorias in the Civil and Labor Procedural Right, emphasizing not only the legislative and jurisprudencial evolution of independent and contained means of opposition in vigor in each one of the procedural subsystems, but also the reflections of the procedural reforms taken to effect recently PALAVRAS-CHAVE: Processo Civil e Trabalhista. Recurso. Decisões interlocutórias. Reforma processual.

1.INTRODUÇÃO

O controle ou impugnação das decisões judiciais interlocutórias, assim consideradas aquelas decisões judiciais que resolvem questão incidente suscitada no processo (art. 162, § 2º do Código de Processo Civil), tem despertado bastante atenção da processualística, em especial diante das inovações trazidas ao ordenamento

* Este texto apresenta uma versão adaptada e ampliada da palestra proferida no 47º Congresso Brasileiro

de Direito do Trabalho, promovido pela LTr Editora, em São Paulo – SP, no dia 26 de junho de 2007.

** Juiz do Trabalho da 21ª Região (RN). Titular da 2ª. Vara do Trabalho de Natal (RN). Mestre em

Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual. E-mail: [email protected].

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processual comum com o advento da Lei n. 11.187/2005, integrante do bloco de diplomas legislativos que compõem a mais recente etapa de minireformas do Código Adjetivo Civil.

Por outro lado, é bem interessante perceber a importância do estudo do controle das interlocutórias no processo trabalhista, não somente para se estabelecer paralelos com o quadro ora em vigor no processo civil, como também para identificar a evolução histórica – pelo desenvolvimento aberto do subsistema processual do trabalho - da aplicação do princípio da irrecorribilidade das decisões incidentais não definitivas ou terminativas no terreno procedimental trabalhista.

2. A IMPUGNAÇÃO DAS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS NO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO

2.1.CARACTERÍSTICA HISTÓRICA

Desde o seu desenho original, o Direito Processual do Trabalho apresentou uma solução própria para a impugnação das decisões interlocutórias1, representada, no plano positivo, pela técnica indicada no art. 893, § 1º, da CLT (“Os incidentes do processo

são resolvidos pelo próprio Juízo ou Tribunal, admitindo-se a apreciação do merecimento das decisões interlocutórias somente em recursos da decisão definitiva”).

1 Sobre o conceito de ‘decisão interlocutória’, no âmbito da Teoria Geral do Processo, ensina Ovídio

Baptista & Fábio Gomes: “Decisão interlocutória, ou simplesmente decisão, é todo ato realizado pelo

Juiz, no curso do processo, por meio do qual ele resolve alguma questão incidente. A idéia de decisões tomadas pelo Juiz no curso do processo é uma conseqüência da própria concepção do processo como uma série temporal de atos entre si conjugados, visando a um resultado comum. Como a idéia de processo repele a possibilidade de instantaneidade, é natural que surjam, nesse evoluir da relação processual, desde o ajuizamento da ação até a prolação da sentença final, inúmeras e variadas questões a exigir decisões a serem tomadas pelo magistrado. São exemplos de decisões interlocutórias o provimento com que o Juiz defere ou indefere a produção de determinada prova proposta por uma das partes, o que ordena a exibição de coisas ou documentos, o que declara intempestiva a apresentação da resposta do réu, o que declara admissível a reconvenção, aquele por meio do qual o Juiz se declara ou não competente para a causa, assim como a mais importante decisão interlocutória, que é o despacho saneador” (Teoria geral do processo civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 215). Diferem-se,

portanto, as interlocutórias dos atos impulsionadores de mero expediente, que são atos sem qualquer conteúdo decisório e cuja tendência atual é a de sua delegação aos servidores judiciais (art. 162, § 4º do CPC, que ganhou dimensão constitucional após a Emenda Constitucional n. 45/2004, que inseriu o novo inciso XIV ao art. 93 da Constituição). De igual forma, distinguem-se das decisões terminativas ou definitivas (arts. 267 e 269, CPC), quando o Juízo apresenta solução à querela, com resolução de mérito ou não.

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Esse dispositivo traduz, na forma de regra jurídica, o princípio da irrecorribilidade imediata das interlocutórias, que se apresenta, no Processo do Trabalho, como a regra geral no sistema de impugnações dos atos praticados pelo Juiz do Trabalho.

Digo regra geral porque, como se sabe, há diversas excepcionalidades a esse preceito, seja por expressa indicação da própria Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, seja pela atuação da construção jurisprudencial estampada na Súmula 214 do Tribunal Superior do Trabalho.

Não se enquadrando nas excepcionalidades, são consideradas como interlocutórias, no âmbito do Tribunal Superior do Trabalho, aquelas decisões dos tribunais trabalhistas que, por exemplo, afastam a prescrição e determinam o retorno dos autos para o exame dos demais aspetos da pretensão2; assim como aquelas que determinam o retorno dos autos à origem, após reconhecer o liame de emprego, negado pelo Juízo de Primeiro Grau3; dentre outras tantas hipóteses.

As exceções projetadas pela legislação processual trabalhista à regra geral do art. 893, § 1º da CLT são, basicamente: a) aquela que indica o cabimento restrito e específico do recurso de agravo de instrumento, aqui somente possível para atacar a decisão denegatória de seguimento de recurso (art. 897, ‘b’, CLT); b) aquela alojada no § 2º do art. 799, do mesmo diploma, que cogita a possibilidade de recurso imediato contra as decisões que resolvem os incidentes de suspeição (e impedimento) e incompetência, caso ‘terminativas do feito’.4

2 “AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA.

IRRECORRIBILIDADE. PRESCRIÇÃO. DIFERENÇAS SALARIAIS DECORRENTES DE DESCUMPRIMENTO DE NORMA INTERNA. Decisão regional que, afastando a prescrição total, determina o retorno do feito à origem para, observada a prescrição parcial, julgar o pedido de diferenças decorrentes do descumprimento de norma interna é irrecorrível de imediato, pois adia o provimento regional definitivo para um segundo momento, não pondo termo ao feito. Incidência do artigo 893, § 1º, da CLT e da Súmula 214 do TST. Agravo desprovido.” (TST, AIRR - 296/2004-025-04-40, Min. Dora Maria da Costa, DJU 25.05.2007).

3 “AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA.

SÚMULA Nº 214. Acórdão regional que reconhece o vínculo empregatício entre as partes e determina a baixa dos autos à Vara a quo para julgamento das matérias remanescentes, encerra natureza interlocutória, pois resolve questão incidente, sem pôr fim ao processo (CLT, artigo 893, § 1º). Logo, contra ela não cabe, de imediato, recurso de revista. Incidência da Súmula nº 214 desta C. Corte. Ausência das ressalvas previstas nas alíneas a, b e c da referida Súmula. Agravo de instrumento conhecido e não provido.” (TST, AIRR - 1085/2003-078-02-40, Juiz Convocado Luiz Antonio Lararim, DJU 25.05.2007).

4 Faço referência, ainda, à rara ocorrência de impugnação imediata contra a decisão do Juiz do Trabalho

que fixa valor da causa, representada pelo ‘pedido de revisão’ dirigido ao Presidente do Tribunal Regional do Trabalho de que trata o art. 2º, § 1º da Lei n. 5.584/70.

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Essa última hipótese carece de interpretação conforme o sistema, pois a redação do dispositivo é imperfeita, já que, como descreve a Teoria Geral do Processo, as exceções se constituem uma defesa indireta contra o processo, ensejando sempre uma decisão incidental de natureza dilatória, não podendo, assim, importar na extinção do feito sem resolução do mérito.5

As hipóteses contempladas no verbete sumular n. 214/TST, como veremos mais adiante, procuram contextualizar o disposto no art. 799, § 2º da CLT e, para além disso, incorporam a evolução histórica da heterointegração do Direito Processual pela atuação criativa dos tribunais, mercê da influência de outros elementos da tessitura orgânica do nosso sistema jurídico, em especial dos princípios do processo.

Destaco esse aspecto metodológico porque, como tenho pontuado em outros textos, é preciso compreender, interpretar e aplicar o direito processual tendo em vista a mesma complexidade inerente a qualquer outro sistema jurídico, que amiúde se apresenta, numa tradução mais escorreita, como um sistema aberto de regras e princípios jurídicos, que sofre a influência do tempo (valores e fatos) e do desenvolvimento dos institutos jurídicos.6

2.2.ÊXITO E ROBUSTEZ HISTÓRICOS DA TÉCNICA

Nesta altura, gostaria de expor alguns elementos que, a meu juízo, conduziram a técnica trabalhista de controle das interlocutórias com vigor até os dias atuais,

5 Significa dizer que o acolhimento da exceção de suspeição (ou impedimento, ainda que não expresso no

texto da CLT) implica no deslocamento do feito para a condução por outro Juiz do Trabalho, não peitado ou impedido; assim como o acolhimento da exceção de incompetência implica na remessa dos autos ao Juízo excepcionado, ou seja, aquele declarado como competente para a causa. Logo, no atual panorama da Teoria Geral, não há sequer espaço para se falar em decisão incidental que resolve exceção que possa ser ‘terminativa do feito’. Essa referência legal representa, possivelmente, um resíduo histórico dos conceitos da processualísticas na época da elaboração do texto da CLT, vez que, no passado, as atuais matérias arroladas como preliminares (art. 301, CPC) também poderiam ser classificadas como ‘exceções’. Por essa razão, não faz sentido interpretar-se literalmente o art. 799, § 2º da CLT. A súmula 214, cujo exame integra o objeto deste estudo, procurou contextualizar a expressão ‘terminativa do feito’, traduzindo-a como terminativa na jurisdição trabalhista, o que atraiu a hipótese da incompetência territorial como a única plausível de dar eficácia, no plano do sistema, ao disposto no art. 799, § 2º. E, ainda, assim, dando outra interpretação conforme, de modo a compreender ‘foro’ (art. 795, § 1º, CLT) não no sentido territorial, mas sim na direção da competência material, harmonizando o texto processual trabalhista aos postulados da Teoria Geral do Processo, que não admite, em regra, o pronunciamento de ofício da incompetência relativa.

6 Sobre esse tema da heterointegração do Direito Processual do Trabalho, cf.: CHAVES, Luciano

Athayde. A recente reforma no processo comum e seus reflexos sobre o direito judiciário do trabalho. São Paulo, LTr, 3ª edição, 2007.

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constituindo-se uma característica freqüentemente destacada como peculiar e importante do processo judiciário do trabalho.

Em primeiro lugar, tenho que o contingenciamento, como regra geral, da impugnação das decisões incidentais do processo é aspecto de relevante celeridade processual. Isso porque, não havendo percalços decorrentes de impugnação de interlocutórias levadas ao Tribunal Regional, permite-se uma melhor fluência da linha do tempo do processo, o que conduz à brevidade da prolação da sentença, principal objetivo da atividade jurisdicional heterocompositiva.

Por outro lado, o robusto sistema de moderação das nulidades (arts. 794 e seguintes da CLT), oferece uma blindagem sobre a seqüência de atos processuais, em vista da necessidade de, por exemplo, demonstração do prejuízo. É dizer: ainda que uma decisão que resolva uma questão incidental no processo possa se constituir motivo para uma impugnação pela parte supostamente prejudicada, pode suceder que esse prejuízo seja completamente dissipado ou absorvido no desenrolar do processo, não havendo razão para suscitação de nulidade.

Tal situação pode suceder, por exemplo, no campo probatório, com o indeferimento de uma diligência requerida pela parte, decisão que, mais adiante, pode não representar qualquer prejuízo aos seus interesses, fenecendo, assim, a própria razão de ser de uma preliminar recursal de nulidade processual, por direta influência do

princípio moderador da transcendência.

Noutras palavras: a retenção da possibilidade de impugnação da decisão incidente para o momento do recurso contra a sentença pode – e com muita freqüência o faz – dissipar o interesse processual da parte em atacar a interlocutória mais adiante, mercê da própria dinâmica do processo.

Penso, ainda, que a concentração de muitos dos atos em audiência acentua a persuasão do Juiz do Trabalho em torno de suas decisões interlocutórias. Com isso, quero dizer que a relação triangular direta estabelecida pelo solene momento da audiência propicia ao Juiz do Trabalho estabelecer um melhor convencimento de suas decisões tomadas naquele mesmo instante, arrefecendo, assim, o ânimo impugnativo.

De outro ângulo, também pode o Juiz, contemplando as razões de impugnação apresentadas em mesa contra uma decisão incidental tomada em audiência,

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convencer-se do acerto das razões da parte tida por prejudicada, retratando-convencer-se de imediato, evitando-se, assim, o prolongamento da querela, ainda que de forma diferida no tempo.

A experiência tem demonstrado que essa relação estabelecida pessoalmente entre o Judiciário – através da figura do Juiz – e as partes em audiência promove, com acentuado êxito, bons resultados, inclusive em relação às conciliações.

Por esses motivos, que não excluem outros que porventura me escapam agora, observa-se como exitosa e ainda muito robusta a técnica de diferimento na linha processual da impugnação das decisões interlocutórias em geral.

Poder-se-ia objetar tal conclusão sob a alegação de que essa mesma técnica pode resultar, por ocasião do julgamento do recurso ordinário, na anulação do processo, pelo acolhimento de uma preliminar agitada pela parte que se sentiu prejudicada por uma decisão incidental prolatada pelo Juízo a quo durante a fase instrutória do feito. E, sendo assim, teríamos um grande desperdício de tempo e um gravame à marcha processual, pelo que seria mais adequado se permitir o ataque direto contra a interlocutória.7

Ocorre que, em se tratando de ciência processual, tem o seu intérprete e aplicador que pensar sempre em termos de vantagens comparativas. Isso porque, não é possível se eliminar por completo os riscos. Há que se trabalhar com certos graus de tolerância no que toca às frustrações de seus mecanismos. Isto é, se a técnica processual aplicada trouxer resultados vantajosos e significativos na expressiva porção dos feitos, as excepcionais frustrações não inviabilizam a incolumidade do mecanismo, já que nenhum deles é indene de críticas ou falhas.

O que temos de reconhecer, em relação à aplicação do princípio da irrecorribilidade imediata das interlocutórias, é que sua vigorosa aplicação na Justiça do Trabalho tem demonstrado excelentes resultados, constituindo-se absoluta exceção a anulação de processos por reforma de decisão incidental.

7 No sentido da ampliação, de lege ferenda, das hipóteses de interposição de agravo de instrumento no

Processo do Trabalho, cf. SANTOS, Cláudio Márcio Lima dos, ‘Irrecorribilidade das decisões interlocutórias no processo do trabalho. Possibilidade, de lege ferenda, de ampliação da recorribilidade via o recurso de agravo de instrumento. Decisões interlocutórias de urgência, que não afetam o princípio da oralidade e da concentração dos atos em audiência’. Jornal do 47º Congresso Brasileiro de Direito do

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2.3.A CONSTRUÇÃO JURISPRUDENCIAL EM TORNO DO CABIMENTO DE RECURSO IMEDIATO CONTRA DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS: A SÚMULA N. 214 DO TRIBUNAL SUPERIOR DO

TRABALHO

Como já procurei destacar, a regra geral da permissão de impugnação da interlocutória diferida no tempo comporta exceções.

A principal exceção está expressamente consignada na Consolidação das Leis do Trabalho e diz respeito à possibilidade de se atacar a decisão que denega seguimento a recurso. Neste caso, a parte recorrente pode interpor agravo, que não pode ser trancado pelo Juízo prolator da decisão atacada, o qual poderá, no entanto, reconsiderar sua decisão ou encaminhar o agravo, na forma de instrumento, diretamente ao Tribunal a que estiver vinculado.

Recordo ao leitor que, no Processo do Trabalho, pelas características restritas do cabimento de agravo na forma de instrumento, jamais se cogitou a possibilidade de interposição deste recurso diretamente perante o Juízo ad quem, posto que, sendo apenas aquela a hipótese, constituiria mecanismo contraproducente privar, de plano, o Juízo a quo da possibilidade de, contemplando as razões do agravo, reconsiderar sua decisão e conceder trânsito ao recurso.

Por essa razão, o agravo de instrumento é processado, inicialmente, pelo próprio Juízo prolator da decisão agravada, que, em não reconsiderando sua decisão, cuidará de promover a remessa dos autos à instância revisora (cf. Tribunal Superior do Trabalho, Instrução Normativa n. 16, de 5 de outubro de 2000, especialmente item II).

Há, ainda, no terreno de regras da Consolidação das Leis do Trabalho, a possibilidade de recurso contra as decisões incidentais que resolvem as exceções de suspeição (e impedimento) e incompetência (art. 799, § 2º, CLT), ‘desde que terminativas do feito’, hipótese que, como já assentei, apresenta uma imperfeição técnica da CLT.

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Ora, se a decisão é terminativa, no sentido da peremptoriedade da matéria acolhida, caberia recurso ordinário mesmo.8 Qual seria, portanto, o alcance técnico da regra?

A interpretação possível para emprestar efetividade ao dispositivo acabou sendo construída pela jurisprudência trabalhista, sintetizada pela primeira versão da Súmula n. 214 do Tribunal Superior do Trabalho, que é de 1985.

A redação original contemplou a possibilidade de recurso imediato se a decisão interlocutória fosse terminativa do feito ‘na Justiça do Trabalho’ (“Salvo quando

terminativas do feito na Justiça do Trabalho, as decisões interlocutórias não são recorríveis de imediato, podendo ser impugnadas quando da interposição de recurso contra a decisão definitiva”).

Recordo ao leitor que o disposto no art. 799, § 2º da CLT não expressa que, nos casos das exceções de incompetência, a decisão terminativa sujeita a recurso deverá ser aquela que decreta o fim da tramitação do feito na Justiça do Trabalho.9

8 Aqui, surge outra imperfeição de nossa legislação processual. O art. 895 da CLT cogita o cabimento do

recurso ordinário apenas contra decisões ‘definitivas’ proferidas pelos Juízos Trabalhistas, o que excluiria, numa interpretação meramente gramatical, todo o leque de possibilidades de extinção da pretensão sem resolução de mérito, nos termos do art. 267 do Código de Processo Civil. Sobre esse tema, preciso o comentário de Carlos Henrique Bezerra Leite: “Convém assinalar que o legislador obrou em equívoco ao mencionar ‘decisões definitivas’, porquanto é cediço que a decisão (sentença) definitiva é a que extingue o processo com julgamento [resolução] de mérito, em contraposição à decisão (sentença)

terminativa, que extingue o processo sem julgar o meritum causae [...] Mas não somente as decisões

(sentenças ou acórdãos) definitivas ou terminativas podem ser suscetíveis de ataque por recurso ordinário. Isso significa que o art. 895 da CLT não encerra preceito numerus clausus, isto é, não é taxativo, e sim exemplificativo. Com efeito, algumas decisões interlocutórias, como as decisões, ‘terminativas do feito’ no âmbito da jurisdição trabalhista, desafiam a interposição imediata do recurso ordinário, como a que declara a incompetência absoluta ratione materiae da Justiça do Trabalho e remete os autos à Justiça Comum” (Curso de direito processual do trabalho. São Paulo: LTr, 2006, p. 657). Wilson de Souza Campos Batalha também observa: “entende-se como decisões definitivas, para os efeitos da admissibilidade do recurso ordinário, não só as decisões de mérito, como as interlocutórias terminativas do feito, também chamadas de interlocutórias mistas [decisão interlocutória que implica a terminação do processo principal sem lhe resolver o mérito]” (Tratado de direito judiciário do trabalho. São Paulo: LTr, 1995, p. 285). A alusão ao termo “definitiva”, agora digo eu, perpetrada pelo art. 895, expõe, penso, muito mais a técnica imprópria da Consolidação em relação a vários institutos processuais, justificável, no entanto, diante do estágio de então da ciência processual. Hoje, mesmo ao leitor menos atento às cientificidades da processualística, soa muito própria a distinção entre sentenças definitivas e terminativas. Na época da elaboração da parte processual da CLT, certamente esse rigor não foi objeto da elaboração legislativa. Por isso, é fundamental ao intérprete, especialmente aquele que maneja o processo trabalhista, a contextualização histórica dos institutos processuais estudados.

9

Art. 799 (CLT): “Nas causas da jurisdição da Justiça do Trabalho, somente podem ser opostas, com suspensão do feito, as exceções de suspeição ou incompetência.

§ 1º - As demais exceções serão alegadas como matéria de defesa.

§ 2º - Das decisões sobre exceções de suspeição e incompetência, salvo, quanto a estas, se terminativas

do feito, não caberá recurso, podendo, no entanto, as partes alegá-las novamente no recurso que couber da decisão final.” (grifei)

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Esse acréscimo produzido pela interpretação da jurisprudência acabou dando coerência operacional ao texto da lei, pois, caso contrário, esvaziado de sentido estaria, já que, como se sabe, as exceções são aspectos da resposta do réu de caráter meramente dilatório.10

Mirava-se aqui, em especial, a hipótese de acolhimento de exceção de incompetência territorial da Justiça do Trabalho, sem cuja possibilidade de recurso para o órgão revisor na própria Justiça Especializada poderia comprometer o mecanismo de uniformização da jurisprudência sob o aspecto competencial e, do ponto de vista do jurisdicionado, prejudicar o seu acesso à justiça, porquanto teria de buscar a reversão dessa decisão noutro ramo do Judiciário.

Assim, passou o Direito Judiciário do Trabalho, pela construção integrativa do chamado Direito Sumular, a considerar como ”decisão terminativa”, para efeito de cabimento de recurso ordinário, aquela decisão declinatória de foro prolatada por Juízo trabalhista, o que me parece fazer todo o sentido sob a ótica sistêmica do ordenamento processual brasileiro.

Talvez pudéssemos cogitar aqui o reconhecimento, pelo Judiciário do Trabalho, de uma dada lacuna subjetiva involuntária, assim considerada como aquela imanente ao plano da lei, como se constituísse um lapso da produção legislativa, a qual, por coerência ao sistema, deveria contemplar certa hipótese que acabou por ausente. Trata-se de uma estirpe muito comum de lacuna que enTrata-seja colmatação pela atuação jurisdicional.11

10

Uma possível explicação para a redação do art. 799, § 2º da CLT repousa no conceito de ‘exceção’ que vigia nos tempos em que redigida a Consolidação das Leis do Trabalho. Recorda Campos Batalha: “Tradicionalmente, a palavra ‘exceção’ passou a ser admitida em sentido lato, abrangendo qualquer alegação que obstasse a um provimento favorável ao autor [...] Distinguia as exceções em peremptórias, anômalas, prejudiciais e dilatórias; em pessoais e reais; em perpétuas e temporais [...] a moderna processualística substituiu a tradicional idéia das exceções dilatória pela de pressupostos processuais. Dentre os pressupostos processuais, somente os que respeitam à pessoa do juiz (incompetência e suspeição) podem ser alegadas, no foro trabalhista, como exceções, cujo processamento se realizará com suspensão do feito. Os demais pressupostos serão focalizados conjuntamente com a defesa sobre o mérito” (1995, p. 42 e 45).

11 Essa mesma técnica vem sendo largamente utilizada pelo Superior Tribunal de Justiça, como se pode

ver das decisões autorizadoras de movimentação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS fora das hipóteses legalmente expressas [catástofres naturais (REsp 779.063-PR, Min. Teori Albino Zavascki), doença grave (REsp 853.002-SC, Rel. Min. Eliana Calmon), dentre outras], bem como daquelas que reconheceram como isentas de tributação algumas parcelas pagas aos trabalhadores decorrentes de planos de demissão voluntária (AgRg no Ag 805.527-SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha).

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Buscou-se, assim, resgatar os aspectos teleológicos e axiológicos da legislação, tendo como pano de fundo a idéia de que não é possível a um diploma legal dar conta da complexidade da vida, no caso em espécie, da vida processual.

Em síntese, a redação original da Súmula n. 214 teve como principal desiderato oferecer uma interpretação conforme o sistema processual em vigor para o § 2º do art. 799 da CLT, de modo a permitir a discussão, dentro do Judiciário Trabalhista, dos aspectos vinculados à matéria capaz de ser declinada para outro ramo da Justiça brasileira.

Pois bem. No plano meramente positivo do Direito Processual do Trabalho, deveriam ser apenas estas as exceções ao princípio da irrecorribilidade imediata (ou da recorribilidade mediata) das interlocutórias, ainda que, no caso do § 2º do art. 799, haja concorrido uma porção importante de colmatação normativa decorrente da atuação da jurisprudência sumulada.

Sucede que a complexidade da tessitura processual construiu a necessidade de se admitir outras hipóteses, que foram se constituindo – não à margem, no sentido de

contra legem – mas ao lado das excepcionalidades legalmente impressas.

Esse processo de desenvolvimento aberto do instituto à luz da atuação interpretativa e construtiva da jurisprudência foi tomando corpo, como costuma suceder, tendo em conta uma evolução histórica própria, na quadra do próprio verbete jurisprudencial representado pela Súmula n. 214 do Tribunal Superior do Trabalho.

Em 1995, a redação da súmula – na época apresentada como ‘enunciado’ - é alterada, permitindo a impugnação das interlocutórias “quando proferidas em acórdão

sujeito a recurso para o mesmo Tribunal”. Aqui, a influência de outro princípio-norma,

a celeridade processual, é o fundamento para o alargamento da excepcionalidade à técnica de controle das interlocutórias.

Se há a possibilidade de, no mesmo órgão colegiado, impugnar-se a decisão interlocutória, melhor para o desenvolvimento do processo que o tema seja logo enfrentado pelo órgão revisor interno, evitando-se, com isso, nova marcha processual na instância a quo (ou noutro ramo do Judiciário, em caso de argüição de incompetência), para, muito mais adiante, reverter-se a decisão incidente.

Colho do mais moderno precedente indicado na Resolução n. 43 do TST, de 22 de março de 1995, a seguinte passagem, ao enfrentar a prefacial de não-cabimento do

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recurso de embargos: “O Enunciado n. 214 do TST refere-se à irrecorribilidade, de

imediato, das decisões interlocutórias. Entretanto, este órgão tem repelido tal circunstância em se tratando de recursos de Turma para a Seção de Dissídios Individuais” (TST-E-RR-6104/89.9, Min. José Luiz Vasconcellos, DJ 26.11.1993).

Cogita claramente o Tribunal Superior do Trabalho, pois, que o princípio da irrecorribilidade imediata não tem lugar se for possível à parte agitar, contra acórdão turmário do Tribunal, o recurso de embargos previstos no art. 894 da CLT e art. 3º da Lei Federal n. 7.701/88.

A Súmula n. 214 sofreu nova mutação no ano de 2003, desta feita para acrescentar outra hipótese, qual seja a possibilidade de recurso contra a decisão declinatória de competência, quando o Juízo para o qual a causa é declinada está subsumido a Tribunal Regional do Trabalho (TRT) distinto daquele que acolheu a exceção. Trata-se de um refinamento da primeira hipótese que ensejou a edição da súmula.

Com efeito, a experiência demonstrou que, ainda que não terminativa na Justiça do Trabalho, a decisão declinatória de foro para Juízo trabalhista subsumido à jurisdição de outro TRT resulta em transtornos ao princípio constitucional do amplo acesso à justiça, porquanto exige que a parte lá passe a acompanhar o desenrolar do feito para, somente em sede de recurso ordinário, impugnar a interlocutória, com manifestos prejuízos econômicos e jurídicos (dificuldade de deslocamento e de produção de sua prova, além dos óbices presumidos para exercer seus atos processuais).

Aqui, como diria Karl Larenz, há razões de grande peso – e de natureza constitucional – para a heterointegração do sistema.

A redação dada ao verbete em 2003 também trouxe outra sutil modificação: a possibilidade de impugnação da interlocutória perante o mesmo tribunal não ficou mais jungida a atacar ‘acórdão’, viabilizando, ao revés, o imediato recurso, desde que a decisão possa ser reexaminada pelo próprio órgão.

Daí, vislumbrar Bezerra Leite também a aplicação do mesmo verbete para a impugnação de decisão do relator concessiva ou denegatória de providência liminar (ou antecipatória de tutela), mediante interposição de agravo regimental (2006, p. 587). Essa hipótese, contudo, depende da viabilidade oferecida pelo regimento interno do Tribunal.

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Finalmente, em 2005, o verbete adquire seus contornos atuais, admitindo, além das hipóteses já indicadas, a possibilidade de recurso de revista contra decisões interlocutórias dos TRTs, desde que “contrárias à Súmula ou Orientação

Jurisprudencial do Tribunal Superior do Trabalho”. Também, nesse caso, prestigia-se a

celeridade processual e a higidez da tarefa constitucional do Tribunal Superior do Trabalho de proceder à uniformização da jurisprudência trabalhista.

Assim, se uma decisão Regional afasta, por exemplo, a prejudicial de prescrição e, por não considerar a causa madura, determina o retorno dos autos à sua origem, é plausível a interposição da revista, ainda que não se trate de decisão definitiva, como expressamente exige o art. 893, § 1º da Consolidação das Leis do Trabalho.

A atual redação, porém, restringe, de maneira mais clara, que a atuação do art. 799, § 2º da CLT, está circunscrita à hipótese de incompetência territorial. Mais do que isso, reforça a redação de 2003, no tocante à referência apenas à remessa a “Tribunal Regional” diferente daquele a que está vinculado o Juízo excepcionado.

Porém, pelo texto atual, estaria inviabilizado o recurso contra decisão que declara a incompetência material do Juízo trabalhista, o que não me parece acertado. Se a decisão declinatória de foro fundada em incompetência territorial é atacável de imediato, também deve o ser aquela que pronuncia a incompetência absoluta, notadamente quando determina a remessa dos autos outro ramo do Poder Judiciário ou a Juízo Trabalhista vinculado a Tribunal Regional do Trabalho diferente.12

Nessa direção, inclusive, temos precedentes, que merecem reprodução:

DECISÃO QUE ACOLHE A INCOMPETÊNCIA ABSOLUTA E DETERMINA A REMESSA DOS AUTOS AO JUÍZO COMPETENTE - CABIMENTO DO RECURSO ORDINÁRIO. É ilógica a conclusão de que a decisão que considera o juízo trabalhista incompetente em razão da matéria somente seria recorrível após a sentença final (certamente do juízo cível, no caso), pois tal entendimento causaria um prejuízo enorme à celeridade processual, princípio que é fortemente acentuado no

12

A respeito do tema, acentuou Bezerra Leite: “Com a devida vênia, pensamos que a Súmula n. 214 do TST, embora pareça exaurir o tema, na verdade descuidou de mencionar outras decisões interlocutórias suscetíveis de interposição imediata de recurso. Basta lembrar a decisão interlocutória que acolhe preliminar de incompetência em razão da matéria ou da pessoa. Nesse caso, trata-se de ‘decisão interlocutória terminativa do feito’, pois o processo (ou melhor, os autos) é remetido para outro ramo do Poder Judiciário. A redação primitiva da Súmula n. 214 encampava corretamente tal entendimento, o qual não foi mais previsto desde a Resolução n. 121/2003. De nossa parte, pensamos que o art. 799, § 2º da CLT, a despeito da nova redação da Súmula n. 214 do TST, continua permitindo a interposição imediata de recurso contra a decisão interlocutória terminativa do feito. Ora, por interpretação lógica, se é admitido o recurso contra decisão interlocutória que acolhe exceção de incompetência em razão do lugar e o processo continua ‘dentro’ da Justiça do Trabalho, com muito mais razão deve ser permitido o recurso contra decisão que acolhe preliminar, ou declara, de ofício, a incompetência em razão da matéria ou da pessoa e o processo é remetido para ‘fora’ da Justiça Especializada” (2006, p. 587-8).

(13)

processo trabalhista. A sentença cível é passível de apelação, então surgiria um tumulto processual em torno de qual recurso deveria ser julgado em primeiro lugar, se o recurso ordinário ou a apelação (esta que, da mesma forma, poderia versar a questão da incompetência). Portanto, para evitar tamanho disparate, a interpretação mais correta do que seja uma decisão interlocutória deve-se pautar pelo curso processual perante o juízo. Se a decisão, ainda que não tenha julgado a causa por inteiro, pôs fim ao seu curso nesta Especializada, ela é passível de recurso ordinário, na forma do art. 895, a, da CLT. O MM. Juízo a quo, ao se declarar incompetente para o julgamento da causa, cumpriu e exauriu o seu ofício jurisdicional (art. 463/CPC), nada mais havendo a ser decidido. Assim, devem ser esgotadas as vias recursais nesta Especializada para que os autos sejam remetidos a outro juízo, até porque a decisão de primeiro grau pode ser reformada, tornando-se despicienda a remessa e evitando-tornando-se enorme desperdício da atividade jurisdicional, já tão sobrecarregada. Reforça-se, destarte, a assertiva de que o disposto no art. 799, § 2º, da CLT somente é cabível quando acolhida a incompetência relativa, pois neste caso os autos são remetidos para outra localidade, mas permanecerão no juízo trabalhista, daí a irrecorribilidade de imediato, seguindo o processo seu curso normal perante esta Especializada, culminando com a sentença final, passível de recurso ordinário. Aliás, esta orientação é a que mais se coaduna com a Súmula 225 do STJ (TRT 3ª Região, RO - 01665-2000-041-03-00, Juiz Rogério Valle Ferreira, DJMG 28-09-2002).

RECURSO - ADMISSIBILIDADE - SENTENÇA QUE DECLARA A INCOMPETÊNCIA ABSOLUTA. A decisão judicial que declara a incompetência material da Justiça do Trabalho não é meramente interlocutória, já que extingue o processo no âmbito trabalhista e, portanto, comporta recurso ordinário (TRT 24ª Região, RO-4120/93, Rel. Amaury Rodrigues Pinto Júnior, DJMS 15.08.1994).

O exame desse percurso histórico da Súmula n. 214 do TST13 revela a complexidade metodológica que se exige para a interpretação e aplicação do direito processual na contemporaneidade, mercê da intensa atividade de aperfeiçoamento, desenvolvimento e modernização do sistema pela atuação dos atores judiciais, mediante técnicas de colmatação de lacunas, imanentes ao plano da lei ou a esta subseqüentes, em decorrência do influxo do igualmente complexo tecido de valores e princípios (em especial os constitucionais) que adquire, cada dia mais, força normativa, num cenário de transição entre o positivismo clássico e o positivismo crítico ou pós-positivismo.14

13 Eis a redação atual da Súmula n. 214 (TST): “DECISÃO INTERLOCUTÓRIA.

IRRECORRIBILIDADE. Na Justiça do Trabalho, nos termos do art. 893, § 1º, da CLT, as decisões interlocutórias não ensejam recurso imediato, salvo nas hipóteses de decisão: a) de Tribunal Regional do Trabalho contrária à Súmula ou Orientação Jurisprudencial do Tribunal Superior do Trabalho; b) suscetível de impugnação mediante recurso para o mesmo Tribunal; c) que acolhe exceção de incompetência territorial, com a remessa dos autos para Tribunal Regional distinto daquele a que se vincula o juízo excepcionado, consoante o disposto no art. 799, § 2º, da CLT”.

14

Dentro desse cenário se insere a tese de Carlos Augusto Marcondes de Oliveira Monteiro apresentada perante o 47º Congresso Brasileiro de Direito do Trabalho (São Paulo, junho de 2007), que sugere a possibilidade de controle imediato das decisões interlocutórias proferidas em confronto com a Constituição Federal (‘Da irrecorribilidade das decisões interlocutórias e da celeridade processual’.

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2.4. OUTRAS HIPÓTESES ADMITIDAS PELA JURISPRUDÊNCIA PARA IMPUGNAÇÃO AUTÔNOMA DAS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS NA JUSTIÇA DO TRABALHO: O USO ANÔMALO DO MANDADO DE SEGURANÇA

Afora as excepcionalidades estampadas na Súmula n. 214 do TST, admite o Processo do Trabalho outras situações que ensejam o controle de decisões interlocutórias, se bem que por via diversa da técnica recursal.

Refiro-me ao reconhecimento da possibilidade do uso anômalo do mandado de segurança, por construção jurisprudencial trabalhista, para atacar as decisões liminares ou antecipadoras dos efeitos de tutela jurisdicional de mérito (art. 273, CPC).

Desse caso cuida especialmente o item II da Súmula 414 do TST15. Aqui, reconheceu a jurisprudência que, não sendo possível o manejo do agravo de instrumento, ter-se-ia que admitir a impetração da segurança, pois, caso contrário, a parte atingida pela decisão interlocutória – que tem, em tese, capacidade de impor gravame ao patrimônio ou a outro direito do réu – ficaria sem qualquer saída para evitar um prejuízo de reparação incerta.

Por exclusão, portanto, admite-se que a parte agite a segurança, máxime quando se reconhece que a ordem jurídica deve conceder aos jurisdicionados os meios adequados para, dentro de limites razoáveis, defender seus interesses perante o Poder Judiciário.

Não deixa de ser interessante a solução encontrada. É que, sendo remédio excepcional, jungido às regras da Constituição Federal e da Lei n. 1.533/51, a impetração do mandado de segurança exige a apresentação de prova pré-constituída, bem assim a demonstração da violação de direito líquido e certo, o que reduz, em grande medida, a sua banalização como sucedâneo de recurso.16

15 Súmula n. 414 (TST): “MANDADO DE SEGURANÇA. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA (OU

LIMINAR) CONCEDIDA ANTES OU NA SENTENÇA [...] II - No caso da tutela antecipada (ou liminar) ser concedida antes da sentença, cabe a impetração do mandado de segurança, em face da inexistência de recurso próprio”.

16 O Tribunal Regional do Trabalho da 21ª Região nos oferece um interessante exemplo da via estreita da

impugnação de decisão interlocutória no Processo do Trabalho pela via do mandado de segurança. Trata-se de caso envolvendo ato judicial em liquidação que determinara o processamento da cobrança do crédito exeqüendo sob a ótica do art. 475-J do Código de Processo Civil, introduzido pela Lei n. 11.232/05. Como decisão interlocutória que é, não desafia recurso. A parte prejudicada impetrou a segurança, cuja inicial foi indeferido sob o argumento da ausência de direito líquido e certo. Levada a decisão ao Plenário, por força de agravo interno, foi mantido o não conhecimento da impetração, pelos

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Os tribunais trabalhistas brasileiros também têm recepcionado a viabilidade do uso anômalo da segurança para atacar decisões proferidas nas execuções (e cumprimento da sentença, para utilizarmos a nova arquitetura da Teoria Geral do

seguintes fundamentos: O presente agravo regimental tem como objetivo modificar a decisão proferida por esta Relatora no Mandado de Segurança impetrado em face de despacho exarado pelo Juízo da 2ª Vara do Trabalho de Natal, consistente no indeferimento da petição inicial nos termos do artigo 8º, da Lei nº. 1.533/51 e 116, do Regimento Interno desta Corte, pelos argumentos a seguir transcritos: “Verifica-se,

de início, que a questão se coloca em relação ao cabimento da ação de segurança, para atacar decisão que determinou o pagamento, sob pena de bloqueio de créditos da executada/impetrante ou se proceder com a penhora de bens para pagamento do valor da execução, com a incidência da Lei nº 11.232/2005. Ainda, há que se considerar que, nos termos do artigo 5º, da Lei nº 1.533/51: ‘Não se dará mandado de segurança quando se tratar I -...; II - de despacho ou decisão judicial, quando haja recurso previsto nas leis processuais ou possa ser modificado por via de correição’. No caso dos presentes autos, a decisão de homologação de cálculos em ataque determina a incidência da Lei nº 11.232/2005, caso não haja o depósito do valor da condenação no prazo para tanto deferido, tratando-se, portanto, de decisão interlocutória que não comporta recurso imediato, o que autoriza a impetração do mandado de segurança. Superado este aspecto, tem-se, conforme artigo 1º, da Lei do Mandado de Segurança, que para a concessão da medida pretendida, há que estar presente no ato cometido ilegalidade ou abuso de poder, como se vê da transcrição a seguir: ‘Conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus, sempre que, ilegalmente ou com abuso de poder, alguém sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de autoridade’. No caso dos autos, a questão diz respeito à determinação de aplicação do disposto na Lei nº 11.232/2005, que implementou alterações no Código de Processo Civil, visando imprimir celeridade ao andamento dos processos, de modo a tornar efetivar a previsão inserta no artigo 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, que trata da garantia, no âmbito judicial e administrativo, de razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Em relação à matéria ora tratada, tem-se o disposto no artigo 475-J, do Código de Processo Civil, que estabelece: ‘Caso o devedor, condenado ao pagamento de quantia certa ou já fixada em liquidação, não o efetue no prazo de quinze dias, o montante da condenação será acrescido de multa no percentual de dez por cento e, a requerimento do credor e observado o disposto no art. 614, inciso II, desta Lei, expedir-se-á mandado de penhora e avaliação’. Tem-se que considerar que a inovação trazida ao Código de Processo Civil se traduz em norma inovadora no âmbito a que é destinada, sendo necessário estabelecer se tais disposições são aplicáveis no âmbito do Processo do Trabalho, principalmente diante da existência de norma que regula a execução, conforme se verifica dos artigos 880 e seguintes, da Consolidação das Leis do Trabalho. Ocorre que a matéria em questão é intensamente controvertida, de modo que não se pode vislumbrar a evidência da liquidez e certeza do direito pleiteado, nem a ilegalidade ou abuso de poder cometido pela autoridade coatora, de modo que não há como se amparar a pretensão ora deduzida. Sobre a matéria, cita-se o julgado abaixo, verbis:

‘MANDADO DE SEGURANÇA. INEXISTÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. O mandado de

segurança somente é cabível para reparar ato que ofenda direito líquido e certo demonstrado de plano, denegando-se a segurança quando se tratar de matéria de alta indagação onde se alinham questões controversas, donde deveria ter sido resolvida nas vias ordinárias, em sede de recurso próprio. Óbice previsto no inciso II do artigo 5º da Lei nº 1.533/51’ (TST - RO-MS 61.909/92.4 - Ac. SDI 2.216/94 - Rel. Min. Francisco Fausto - DJU 02.09.1994)”.Renova a agravante a alegação de que Renova a agravante a

alegação de que a aplicação subsidiária do artigo 475-J, do Código de Processo Civil, fere o procedimento do processo de execução, acrescentando que a sua aplicação implica em violação a direito líquido e certo, porque, mesmo que houvesse omissão na norma consolidada em relação ao não pagamento espontâneo da condenação, teriam que ser aplicadas as normas da Lei de Execução Fiscal, não se aplicando na execução trabalhista a norma processual civil; comenta que a decisão atacada contraria dispositivo de lei, devendo ser cancelada a sua eficácia, com a determinação ao Juízo de origem para se pronunciar sobre os ditames da CLT; ressalta, que o pedido inicial não se trata de execução definitiva ou provisória e sim do direito aplicado sem as garantias constitucionais, rogando a aplicação do artigo 620, do Código de Processo Civil. Conforme já definido na decisão agravada, é certo que a reforma ocorrida com a Lei nº. 11.232/2005 introduziu mudanças no ordenamento processual vigente, fato este, que por si só, é ensejador de controvérsia, de forma a não amparar a pretensão contida nesta ação. De resto , não havendo qualquer fundamento novo a infirmar a decisão já proferida, nego provimento ao presente agravo regimental. Ante o exposto , conheço e nego provimento ao agravo regimental” (TRT 21ª Região. Agravo Regimental n. 00625-2007-000-21-00-1, Juíza Joseane Dantas dos Santos, DJRN 06.07.2007).

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Processo), como atos de constrição17 e de expropriação18 patrimoniais, que envolvam a possibilidade de ocorrência de grave lesão de difícil ou incerta reparação, desde que demonstrado que a decisão se distanciou da razoável aplicação da ordem jurídica.

Nesta hipótese, tem-se considerado que o sistema de impugnação dos atos de constrição e expropriação [inicialmente através de embargos à execução (ou impugnação) ou expropriação, e, na seqüência, pela interposição de agravo de petição sem efeito suspensivo] não ostenta a celeridade esperada para estancar a decisão interlocutória prolatada pela autoridade apontada coatora.

Em que pesem essas exceções, penso que não se as pode tomar como justificativa para, de lege ferenda (tendo em vista o princípio da taxatividade dos recursos), propor-se o alargamento do uso do agravo de instrumento no processo especializado. Isso porque, como já procurei assentar, o uso do mandado de segurança implica na redução do espectro de impugnação, pelos pressupostos específicos da impetração. Por outro lado, a práxis processual não apresenta um número excessivo de mandados de segurança a comprometer o regular exercício dos tribunais trabalhistas brasileiros.

2.5.NOVAS HIPÓTESES QUE PODEM ENSEJAR O CABIMENTO DO MANDADO DE SEGURANÇA CONTRA DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS: EFEITO DA REFORMA PROCESSUAL DE 2005 E 2006

17 “RECURSO ORDINÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. IMPENHORABILIDADE DOS

PROVENTOS DE APOSENTADORIA DO IMPETRANTE. O ato coator determinou a penhora de 10% dos proventos mensais líquidos de aposentadoria percebidos pelo impetrante. O TRT de origem denegou a segurança, sob o fundamento de que seria regular a ordem de constrição de parte do benefício previdenciário, tendo em vista os princípios da igualdade e da proteção, uma vez que visaria saldar os créditos trabalhistas, que possuem natureza alimentar. Todavia, há de se cassar o ato impugnado, porque ofensivo ao direito líquido e certo do impetrante, inserto no art. 649, inciso VII, do CPC, segundo o qual se incluem entre os bens absolutamente impenhoráveis os créditos oriundos de fonte previdenciária, não sendo passíveis de penhora, diante do seu caráter nitidamente salarial e alimentício. Recurso provido para conceder a segurança, afastando da execução os proventos de aposentadoria recebidos pelo impetrante”. (TST, ROMS - 241/2006-000-23-00, Min. Renato Lacerda Paiva, DJU 08.06.2007). O presente aresto demonstra, para os efeitos do presente estudo, o cabimento do mandado de segurança para discutir atos de constrição judicial na execução. Em relação à tese acolhida pelo Tribunal Superior do Trabalho, no entanto, tenho restrições, pois não comungo do entendimento, data vênia, da absoluta impenhorabilidade de proventos e salários em face da execução forçada de créditos trabalhistas.

18 No tocante a expropriação, a freqüência maior de impugnação não é contra o resultado da hasta público

em si, mas em relação aos atos preparatórios, como a alegação de uma nulidade do edital, falta de intimação de credor hipotecário, cônjuge, etc.

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Seguindo a mesma tendência metodológica apresentada pela jurisprudência trabalhista no trato das interlocutórias com maior poder de concretude sobre os interesses e patrimônio do devedor trabalhista, não afasto a possibilidade de outras hipóteses a ensejar o uso igualmente anômalo da segurança no Processo Trabalhista.

Vejo como possível, embora em caráter sempre excepcional, agitar o devedor a segurança para atacar a decisão interlocutória do Juiz da Execução que nega efeito suspensivo aos embargos (impugnação), nos termos do art. 475-M do CPC (Lei 11.232/05) e 739-A, § 1º (Lei 11.382/06).

Nessas hipóteses, havendo como o devedor demonstrar, junto com a impetração, o ‘grave dano de difícil ou incerta reparação’ provocado pela decisão que não acolhe pedido de suspensividade dos embargos (ou impugnação ao cumprimento da sentença), penso ser possível a impetração do mandamus, já que não restaria à parte outra resposta do sistema para tutelar seus interesses com a urgência que o caso demanda.

Todavia, como disse, cuida-se de hipótese a ser examinada com a excepcionalidade devida, pois, agora, a regra geral é a da não suspensividade dos embargos, a fim de que a execução flua de maneira mais efetiva, em observância ao princípio do resultado, que deve reger a execução perante o Poder Judiciário.

Outra situação que cogito a impetração do writ se situa no campo da execução provisória, em especial para impugnar a decisão que autoriza a liberação de crédito, com ou sem caução, em sede de execução provisória, nos termos do art. 475-O do Código de Processo Civil.

Caso o devedor entenda que a caução ofertada não é idônea ou discorde da decisão judicial que considera aplicáveis os §§ 1º e 2º do art. 475-O, que autorizam a liberação de crédito independentemente de caução, nas hipóteses expressamente consignadas, não restaria àquele outra opção no sistema a não ser tentar viabilizar o conhecimento da impetração, já que, no Processo do Trabalho, não se admite agitar agravo de instrumento para esse fim. Além disso, da decisão pode suceder alguma sorte de prejuízo iminente de difícil ou incerta reparação.

Contudo, também nessa quadra, a verificação da excepcionalidade deve ser cuidadosa, porquanto a valorização da execução provisória – e, de resto, da própria decisão de Primeiro Grau – é um dos aspectos mais relevantes da terceira onda de

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reformas do Código de Processo Civil19, na espécie perfeitamente aplicável ao processo trabalhista.

Nesse renovado ambiente de regras, cabe ao devedor também responder pela demora em relação ao epílogo do processo, outrora ônus exclusivo do credor. Na Justiça do Trabalho, onde o credor é, geralmente, o trabalhador que espera por créditos de natureza alimentar, essa nova distribuição do ônus do tempo do processo é aspecto que deve ser observado com absoluta responsabilidade pelos atores processuais, máxime quando se tem em mira que a tutela efetiva dos direitos num prazo razoável é, a partir da Emenda Constitucional n. 45, a expressão de um direito fundamental estampado pela Constituição (art. 5º, inciso LXXIII).

2.6.DA RESOLUÇÃO DA PREJUDICIAL PRESCRIÇÃO, EM CASOS EXCEPCIONAIS, ATRAVÉS DE UMA DECISÃO INCIDENTAL OU INTERLOCUTÓRIA: UMA POSSIBILIDADE?

Em apertada síntese, procurei descrever até aqui a arquitetura atualmente vigente em relação ao controle das interlocutórias no Processo do Trabalho.

Reconheço, no entanto, que se trata de um exame não somente aberto, mas em crescente mutação, especialmente em função da atual tendência de se reforçar epistemologicamente o caráter instrumental da ciência processual. É dizer: a literatura

19 Em estudo sobre as aproximações entre o renovado processo civil espanhol e as reformas processuais

no Brasil, anotou Artur César de Souza que “a regulamentação dada pela nova ‘Ley de Enjuiciamiento

Civil’ de 2000, em relação à execução provisória, é, talvez, uma das principais inovações do texto legal

espanhol, uma vez que demonstra sua opção em eliminar todo e qualquer entrave na efetivação da tutela jurisdicional, optando por uma execução imediata das decisões proferidas em primeiro grau de jurisdição. Inovou-se no sentido de que a execução provisória ocorrerá sem a necessidade de prestar fiança ou caução, ainda que se estabeleçam, por outra parte, eventuais impugnações à execução” (‘Análise da exposição de motivos da lei espanhola de 07.01.2000 (Ley de Enjuiciamiento Civil) em correspondência com as reformas do CPC brasileiro – Leis n. 11.232, de 22.12.2005 e 11.382, de 06.12.2006’. In Revista

de Processo. Ed. Revista dos Tribunais, São Paulo, n. 146, 2007, p. 79). Percebe-se, assim, que o Direito

Comparado avaliza esse trilhar do processo na direção do prestígio à sentença de Primeiro Grau de modo a conferir ao processo judicial maior efetividade e resultado. Ora, se o credor já tem a seu favor um pronunciamento judicial, esse fato deve lhe valer alguma transformação na concretude de suas expectativas. É dizer: se há uma decisão lançada nos autos constituindo o réu em devedor, há que se produzir efeitos no mundo dos fatos desde logo, sob pena de fazer da sentença de Primeiro Grau mera impressão no branco do papel. Nossa cultura jurídica e forense, infelizmente, não acredita nas decisões primárias, excedendo as expectativas de uma confirmação pelos tribunais revisores, como se a maiorias das decisões não compusessem, de forma razoável, as lides. Quem já tem uma decisão contra si não pode mais gozar da presunção de que nada deve até pronunciamento judicial. Alguma etapa de efetividade do processo deve ser ofertada ao jurisdicionado, pois a demora na revisão dos julgados compromete a própria credibilidade do Poder Judiciário, máxime quando se sabe que, em nosso meio, o manejo da pletora de recursos tem objetivos outros (rolagem de dívida, procrastinação dolosa dos processos, etc.).

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processual, a jurisprudência e os novos textos legais reformadores apresentam certa convergência em torno da necessidade de se apontar os institutos processuais na direção da efetividade da tutela material, simplificando os procedimentos e intensificando a aplicação do princípio do resultado, ainda que isso importe em certa ruptura a dogmas e a concepções historicamente decantadas na processualística.

Noutras palavras, a moderna metodologia do Direito vem admitindo uma certa

ductibilidade dos institutos jurídicos, de modo a garantir a efetividade dos preceitos

mais elevados da ordem jurídica, em especial aqueles que têm sede constitucional. Dizendo, ainda, de outro modo: no moderno Estado Constitucional (Zagrebelsky), não há como sustentar a sobrevivência de vetustos conceitos que se atritam com os preceitos fundamentais encravados do texto da Constituição, cabendo ao intérprete extrair sua máxima eficácia, quer seja utilizando a normatividade (no sentido de valores; regras; e princípios, explícitos ou implícitos) constitucional como mediador direto dos conflitos, quer seja como elemento interpretativo e integrativo dos subsistemas hierarquicamente submetidos ao império da Lei Maior, identificando e reconhecendo nesses subsistemas quebras, imperfeições e lacunas supervenientes aos novos matizes constitucionais.

Nesse cenário, algumas novas técnicas podem ter lugar.

Recentemente, em colóquio com Juízes do Trabalho, ouvi grande preocupação com a eficiência da atual sistemática de exame da prescrição em determinados casos, como aqueles que envolvem pretensões de danos morais e materiais decorrentes de acidente de trabalho. Nessas hipóteses, é comum se descortinar uma complexa instrução processual, inclusive com elevadas despesas com laudos médicos especializados.

O que se questiona é: não seria mais interessante e eficiente aos escopos do processo um prévio pronunciamento do Juiz do Trabalho em relação à prejudicial de prescrição, evitando-se, desse modo, uma longa, dispendiosa e complexa instrução para, por ocasião da sentença de mérito, pronunciar-se a prescrição extintiva?

A preocupação faz todo sentido porque, como se sabe, a argüição de prescrição se localiza no terreno das chamadas prejudiciais de mérito, uma vez que “não

pertencem ao capítulo das preliminares, nem se encaixam na craveira do mérito, aqui entendido como o objeto da lide, a ‘res iudicio deducta’” (TEIXEIRA FILHO, Manoel

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Assim, em regra, somente na sentença de mérito a prescrição pode ser examinada e pronunciada20, mesmo porque as hipóteses de julgamento incidental estão limitadas às exceções processuais de suspeição, impedimento e incompetência (art. 799 da CLT e art. 304 do CPC). Na forma de exceção, admite-se a suspensão do feito para o exame da questão incidente, que se traduz numa decisão interlocutória que, como vimos, pode, em alguns casos, ensejar recurso imediato (art. 799, § 2º da CLT).

Parece-me que o que se deseja é, portanto, desenvolver-se a técnica de processamento da argüição de prescrição (pelo réu ou de ofício), em casos excepcionais, através do regime das exceções processuais – conquanto se trate de uma exceção

substancial -, resolvendo-a como questão incidente e evitando o prolongamento

desnecessário da instrução, com todas as despesas com laudos.

Assim, argüida a prescrição pelo réu ou dela conhecendo de ofício o Juiz, haveria, desde logo, a sua apreciação, com a possibilidade de recurso imediato pela parte prejudicada no caso apenas de extinção do feito com resolução do mérito. Se houver a rejeição, a matéria ficará contida para, eventualmente, posterior impugnação quando do recurso contra eventual sentença que lhe seja, no mérito propriamente dito, desfavorável.

Haveria, aqui, uma simetria com o que sucede com a argüição de incompetência (territorial ou material, como vimos mais acima) que desloca a lide para outro ramo do Judiciário ou para Juízo trabalhista subsumido à jurisdição de outro Regional. Se houver acolhimento, caberia recurso ordinário imediato; caso contrário, a matéria poderá ser objeto de argüição como preliminar do recurso (art. 893, § 1º, CLT).

20 O art. 295, inciso IV do Código de Processo Civil alude à possibilidade de indeferimento da petição

inicial “quando o Juiz verificar, desde logo, a decadência ou a prescrição”. A leitura desse dispositivo, contudo, não tem levado à interpretação da possibilidade de ‘rejeição liminar’ da petição inicial, mesmo porque é fundamental a oportunização do contraditório, diante da possibilidade, inclusive, de verificação de quadro de renúncia, expressa ou tácita, da prescrição (art. 191, Código Civil), ou mesmo de causas de interrupção, não contagem ou suspensão da prescrição, que precisam de investigação pelo Juiz, ainda que sumárias. Nesse sentido, o magistério de Humberto Theodoro Júnior, quando afirma que, nas hipóteses do art. 295, “o correto será estabelecer-se, primeiro, o contraditório, sem o qual o processo, em princípio, não se mostra completo e apto a sustentar o provimento jurisdicional nem a solução das questões incidentais relevantes. O indeferimento liminar e imediato da petição inicial, antes da citação do réu, é de ser como exceção. A regra é a audiência bilateral, isto é, o respeito ao contraditório” (Curso de direito processual

civil. Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 396). Se não se trata de rejeição liminar, o caso, no mínimo, seria

de sentença terminativa. Contudo, tratando-se de matéria que se interliga ao mérito, a literatura processual tem reconhecido uma atecnia nessa interpretação, pois o art. 269, inciso IV, trata da prescrição como matéria que resolve o mérito. Por isso, ainda que se sustente a possibilidade de conhecimento da prescrição pelo Juiz, como sugere o art. 219, § 5º do Código de Processo Civil (Lei n. 11.280/2006), o seu pronunciamento de imediato compromete a efetividade da tutela material posta ao exame do Judiciário (cf.: CHAVES, 2007, p. 129 e ss.).

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Penso não ser, de lege lata, de todo inconveniente a proposta, por mais heterodoxa que possa, em princípio, parecer.

Para tanto, porém, deve o Juiz do Trabalho examinar se se trata de uma argüição ou hipótese prescricional relevante e plausível, e não apenas de uma mera argüição de praxe, sem qualquer respaldo processual aparente, de modo a preservar o sistema tradicional, se esse atender aos fins do processo.

O que teríamos aqui seria, portanto, uma espécie de ‘válvula de escape’ processual, conferindo ao Juiz condutor do feito adotar um excepcional procedimento de prévio pronunciamento extintivo da prescrição, em audiência, oralmente, ou num prazo designado, para melhor trabalhar os fundamentos de sua decisão, evitando-se, dessa forma, uma tormentosa e inócua trajetória da ação judicial.

Como se vê, ainda temos muito a estudar sobre o tema das interlocutórias no Processo do Trabalho, máxime diante da ampliação da competência da Justiça do Trabalho e das intensas reformas processuais – constitucionais e infraconstitucionais - em curso.

3.A IMPUGNAÇÃO DAS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS NO DIREITO PROCESSUAL CIVIL APÓS A LEI N.11.187/2005

3.1. O CONTROLE DAS INTERLOCUTÓRIAS NO PROCESSO COMUM E OS ANTECEDENTES

(FONTES MATERIAIS) DA REFORMA DE 2005

Em sentido distinto do que sucede com o Processo do Trabalho – que, como vimos, desde sua gênese encorajou a celeridade procedimental a partir da fixação do preceito da irrecorribilidade imediata das interlocutórias – a anatomia primitiva do processo comum, mesmo com o Código de 1973, não conferiu ao controle das decisões ditas incidentais semelhante preocupação.

O texto do Código de Processo Civil de 1973, pela redação original do art. 522, dizia que – salvo contra os despachos de mero expediente (art. 504) e as decisões sujeitas à apelação (art. 513) -, “de todas as decisões proferidas no processo caberá

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agravo, a fim de que a querela incidental fosse examinada como preliminar de recurso, o que se denominou de “agravo retido”.

Esse controle muito aberto permitiu o largo uso do agravo, especialmente por ser extenso o leque de hipóteses de decisões incidentais na práxis judiciária.

No caso do agravo interposto na forma de instrumento, registrou-se outro grave problema: como a sistemática dos agravos, em geral, não oferecia efeito suspensivo em relação à decisão agravada (art. 497, CPC), os interessados procuraram obter tal efeito, com a aquiescência dos tribunais brasileiros, através do manejo do mandado de segurança, cuja pretensão repousava não no ataque à decisão agravada, mas apenas para emprestar ao agravo o efeito suspensivo.

A pletora de agravos e, mais precisamente, de mandados de segurança incidentes a estes, passou a comprometer o bom andamento dos tribunais brasileiros. Mais do que isso, esse quadro pôs em cheque a operacionalidade lógica e a eficiência do sistema. Estava, assim, evidenciada a necessidade de sua alteração.

As reformas implementadas a partir da década de 90 no regime do agravo de instrumento, especialmente através das Leis ns. 9.139/95 e 10.352/2001, buscaram aperfeiçoar o mecanismo de controle das decisões interlocutórias.

E, diante da situação que se apresentava, eram muitas as expectativas geradas. Cândido Rangel Dinamarco, por exemplo, comentando o texto da proposta que se tornaria a Lei n. 9.139/95, assinalou: “O tempo dirá a última palavra sobre as excelências ou mazelas da inovação, mas, de minha parte, vejo com bastante otimismo o novo sistema, porque como está não pode continuar e quem não ousa inovar não se aperfeiçoa”. E prossegue:

Como está dito na justificativa o projeto, e aliás é notório, mesmo sem ter efeito suspensivo a interposição de agravos perante o juízo a quo sempre foi fator de retardamento dos processos. Além disso, o projeto não traz somente essa inovação e o saldo de todas as disposições propostas é significativamente positivo – inclusive pelo alargamento das possibilidades de outorga de efeito suspensivo pelo relator, o que irá restringir a freqüência com que vem sendo impetrado mandado de segurança para tal fim (A reforma do código de processo civil. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 274).

A Lei n. 9.139/95 ofereceu melhoramentos redacionais a vários dispositivos do CPC relativamente ao regime de agravo, como sucedeu com o texto do art. 522. Além disso, a) estipulou o prazo de dez dias para ambas as modalidades de agravo (retido ou por instrumento; b) permitiu a interposição oral do agravo em audiência (art. 523); c)

Referências

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