UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DACEC – DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS, CONTÁBEIS, ECONÔMICAS E DA COMUNICAÇÃO
ALINE DIEDRICH DA SILVA
COMUNICAÇÃO DIGITAL: DESAFIOS E OPORTUNIDADES
Ijuí (RS)
ALINE DIEDRICH DA SILVA
COMUNICAÇÃO DIGITAL: DESAFIOS E OPORTUNIDADES
Monografia apresentada ao curso de Comunicação
Social – Habilitação em Relações Públicas,
Departamento de Ciências Administrativas,
Contábeis, Econômicas e da Comunicação
(DACEC), da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), requisito parcial para obtenção do Grau de Bacharel em Comunicação Social.
Orientador: professor MSc. André Gagliardi
Ijuí (RS)
A comissão examinadora, abaixo assinada, aprova a monografia
COMUNICAÇÃO DIGITAL: DESAFIOS E OPORTUNIDADES
elaborada por:
ALINE DIEDRICH DA SILVA
como requisito parcial para obtenção do Grau de Bacharel em Comunicação Social.
COMISSÃO EXAMINADORA
____________________________________________________________ Professor MSc. André Gagliardi, Orientador – Unijuí
____________________________________________________________ Professora MSc. Débora Aita Gasparetto, Examinadora Titular – Unijuí
____________________________________________________________ Professor MSc. Marcio Granez, Examinador Suplente – Unijuí
AGRADECIMENTOS
Agradeço, principalmente, aos meus pais Inês e José por terem acreditado em mim e dedico a eles o mérito de todos estes anos de curso. Também ao meu irmão Daniel e avó Geni que estiveram juntos neste percurso.
Aos amigos que durantes este tempo fizeram mais alegres o trajeto entre São Luiz Gonzaga e Ijuí: Brenda, Giovanna, Junior e Thiarlon, e tantos outros que passaram pela turma do ônibus.
Aos professores pelo aprendizado que é resultado de todos os trabalhos e debates por eles propostos, e que contribuíram para a construção dos conhecimentos. Em especial ao orientador desta pesquisa, André Gagliardi pela parceria no estudo deste tema desafiante.
“Tecnologias não são mera ajuda exterior, mas transformações interiores da consciência, ainda mais quando afetam a palavra”.
RESUMO
O desenvolvimento da rede mundial de computadores e a ascensão da internet com a criação do World Wide Web, provocaram transformações importantes no comportamento e nas relações entre os indivíduos. Surgem os conceitos de ciberespaço e web 2.0, e o potencial do ser humano entra em evidência. Assim, a web também passa a se constituir como um veículo de comunicação de massa. No entanto, apesar dos aparelhos serem vistos com entusiasmo, o desafio da Era da Informação, é a exclusão digital. Atualmente, dados comprovam que apenas um terço da população mundial possui acesso à internet, e diferentes questões acarretam este fato, desde os recursos financeiros até aspectos sociais e culturais.
ABSTRACT
The development of the global network of computers and the rise of the Internet with the creation of the World Wide Web, led to important changes in behavior and relationships between individuals. Arise the concepts of cyberspace and Web 2.0, and the potential of the human being comes into evidence. Thus, the web is also to be constituted as a vehicle of mass communication. However, despite the equipment being viewed with enthusiasm the challenge of the Information Age, is the digital divide. Currently, data show that only a third of the world population has Internet access, and different issues cause this effect, since the financial resources to social and cultural aspects.
LISTA DE GRÁFICOS
LISTA DE MAPAS
Mapa 1: Mapa da Exclusão Social no Mundo ...
Mapa 2: Mapa da Desigualdade do Mundo ...
38 38
LISTA DE SIGLAS
CETIC - Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da
Comunicação
IAB - Interactive Advertising Bureau
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IDH - Índice de Desenvolvimento Humano
IES - Índice da Exclusão Social
LACNIC - Latin American and Caribbean Internet Addresses Registry
ONGs - Organizações Não Governamentais
ONU - Organização das Nações Unidas
TIC - Tecnologia da Informação e Comunicação
UIT - União Internacional de Telecomunicações
UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e
Cultura
WIN - Worldwide Independent Network of Market Research
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Comparação entre número de habitantes e usuários de internet nos
países com maiores índices de internautas ... 39
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS... CAPÍTULO 1 - A COMUNICAÇÃO DE MASSA E A ASCENSÃO DA INTERNET...
1.1 A EVOLUÇÃO DA COMUNICAÇÃO DE MASSA... 1.2 WORLD WIDE WEB E O MOSAIC: A ACESSIBILIDADE... 1.3 INTERNET E CIBERESPAÇO... 1.4 WEB 2.0: O POTENCIAL DO INTERNAUTA COMO FOCO...
CAPÍTULO 2 - EXCLUSÃO DIGITAL...
2.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DIGITAL... 2.2 EXCLUSÃO SOCIAL E EXCLUSÃO DIGITAL... 2.3 ASPECTOS DA EXCLUSÃO DIGITAL... 2.3.1 Recursos financeiros... 2.3.2 Educação: Alfabetização e idioma... 2.3.3 Cultura e cibercultura... 2.4 DADOS SOBRE EXCLUSÃO DIGITAL NO BRASIL...
CAPÍTULO 3: INCLUSÃO DIGITAL E COMUNICAÇÃO...
3.1 A INCLUSÃO COMO FOCO... 3.2 FORMAS DE INCLUSÃO: QUANTITATIVAS... 3.3 EDUCAÇÃO DIGITAL: QUALITATIVA... 3.4 INCLUSÃO E COMUNICAÇÃO... 3.5 GOLD VOICE: DA EXCLUSÃO SOCIAL AO VÍDEO VIRAL DA INTERNET...
CONSIDERAÇÕES FINAIS... REFERÊNCIAS... 13 16 16 20 23 26 31 31 36 42 42 46 48 51 55 55 58 60 63 66 69 73
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Desde o princípio o ser humano buscou maneiras distintas de expressar vontades e marcar sua passagem pela história. Apesar de não ser possível afirmar, acredita-se que gestos e sons constituíram a comunicação entre os homens primitivos. Os desenhos em cavernas ajudam a explicar a história e a evolução da sociedade, assim, as simbologias sempre fizeram parte do ato de comunicar e resgatar o contexto da evolução.
A escrita e com ela os livros e as cartas se instituíram em interessantes formas de transmissão de mensagens e conhecimentos, mesmo não acessíveis para considerável parte da sociedade. Mais tarde, com o advento da tipografia, o jornal se tornou importante veículo de comunicação de massa.
A revolução industrial, por sua vez, provocou mudanças de impacto social e econômico na sociedade, com as máquinas que passaram a colaborar na mão de obra. Da mesma forma, a tecnologia também começou a ser utilizada como mediadora da comunicação, e assim, os meios eletrônicos superaram as barreiras geográficas para levar informações até lugares distintos.
Se por séculos o ser humano efetivou a transmissão de mensagens sem a necessidade de máquinas, o rádio e a televisão tornaram-se, no século XX, importantes veículos de comunicação. Já na segunda metade do mesmo século teve início o desenvolvimento dos computadores e a constituição de uma rede mundial. No início dos anos de 1990, a divulgação do chamado World Wide Web colaborou
transformações importantes na sociedade e em suas relações, na visão e participação política, no acesso ao conhecimento e no comportamento dos indivíduos que, sedentos por novidades, dedicam horas diárias aos meios digitais.
A Web ganha cada vez mais usuários e a rede mundial de computadores conquista as comunicações como um veículo mediador que supera espaço e tempo ao permitir que os indivíduos emitam as formas simbólicas sem necessitar de um local físico em comum ou depender de outros meios de interesses do setor privado, como as emissoras de rádio e televisão e os jornais impressos. A internet se consolida como ciberespaço, e com o surgimento de novos aparelhos que permitem o acesso, eleva-se o conceito de Web 2.0.
Se o foco, antes, era no desenvolvimento das máquinas, a partir da Web 2.0 o potencial humano se destaca. Os indivíduos passam a produzir, compartilhar e aperfeiçoar os conteúdos disponibilizados na internet. As informações e a divulgação das formas culturais ficam também sob o domínio das massas, e não apenas monopolizadas por empresas privadas.
No entanto, a ascensão da internet e o desenvolvimento frequente de aparelhos com acesso à internet, acirraram ainda mais a exclusão social. Surge a exclusão digital, ou seja, indivíduos não possuem de recursos suficientes para adquirir e manter um aparelho que permite o ingresso aos meios digitais. Dados divulgados pela Organização das Nações Unidas e também pela empresa sueca de consultoria Pingdom mostram que, em 2011, o planeta contava com cerca de dois bilhões de internautas perante uma população de sete bilhões.
É o contraste dentro do contexto da internet, onde o poder sobre a produção e distribuição de conteúdos está nas mãos das massas e, por outro lado, o meio ainda privilegia uma minoria ao se considerar que a maior parcela da sociedade não possui acesso. Porém, este mesmo veículo pode causar profundas transformações na sociedade por ser democrático ao possibilitar liberdade aos indivíduos e grupos para se manifestarem, bem como demonstrarem suas necessidades, se mobilizarem em prol de uma causa ou usar para a divulgação e conversação sobre assuntos de interesse das comunidades.
Desta forma, conhecer os excluídos digitais e suas condições sociais permitirá compreender se existem portas abertas na internet para a realidade social. Impedir ou dificultar que o indivíduo ingresse e se manifeste através da rede mundial de computadores, é excluí-lo cada vez mais da participação social, política e do crescimento pessoal por meio da aquisição de conhecimentos.
Para tanto, este trabalho está divido em três capítulos que apresentam referências teóricas e dados atualizados referentes a pesquisas realizadas por importantes institutos e organizações. No primeiro é abordada a ascensão da comunicação de massa e o que a internet representou dentro deste contexto, bem como a elaboração do World Wide Web e seu significado para a solidificação da rede mundial de computadores como ciberespaço e a definição da Web 2.0, e o seu sentido nas transformações comunicacionais, culturais e sociais.
O segundo capítulo apresenta a análise da exclusão digital. Há contextualização do tema e é demonstrada a sua relação com o conceito de exclusão social. Também são colocados em debate aspectos importantes que podem ocasionar esta supressão em relação o uso de computadores e da Web, como os recursos financeiros mal distribuídos, a educação enquanto base para o desenvolvimento humano, e a cultura dos povos. O capítulo é finalizado com tópico que apresenta dados sobre a exclusão digital no Brasil.
O último capítulo propõe a contextualização da inclusão digital. Apresenta formas de incluir indivíduos e grupos de maneira quantitativa e qualitativa, ou seja, que aumentem o número de usuários de internet e que os internautas saibam utilizá-la de maneira satisfatória na busca peutilizá-la evolução pessoal e social. Apresenta também tópico sobre a relação e a importância da inclusão para a comunicação e traz o exemplo de como a internet pode ajudar a revolucionar aspectos da sociedade através do exemplo do chamado Gold Voice.
Assim, esta pesquisa desmistifica o senso comum de que a sociedade da inclusão digital já é realidade e faz repensar o uso dos aparelhos que proporcionam o acesso à internet.
CAPÍTULO 1 - A COMUNICAÇÃO DE MASSA E A ASCENSÃO DA INTERNET
1.1. A EVOLUÇÃO DA COMUNICAÇÃO DE MASSA
Como necessidade básica do ser humano, o ato de comunicar ocorre de diferentes maneiras, desde a linguagem escrita e oral, símbolos, movimentos do corpo e/ou utilização da língua de sinais que permite a inclusão de determinados indivíduos na sociedade. Com o desenvolvimento da comunicação, foram criados também meios que facilitam a transmissão de mensagens, possibilitam a conversação e as interações sociais.
Neste contexto, é possível criar uma linha do tempo que nos permite conhecer a evolução da comunicação paralelamente aos meios que tornam mais acessíveis os contatos entre pessoas ou grupos. A carta, a elaboração da tipografia por Gutenberg, os jornais, o telégrafo, e com o passar dos séculos, criações mais ousadas tecnologicamente como o rádio (meio que foi fundamental na segunda guerra mundial) e a televisão, transformaram as relações.
Para o desenvolvimento e enriquecimento da comunicação, e para o uso das máquinas como ferramentas de interação entre as pessoas, são utilizadas diferentes formas simbólicas, desde a escrita através do alfabeto, até as imagens representativas que são decodificadas gerando a compreensão do receptor. Segundo Thompson, “o modo como uma forma simbólica particular é compreendida por indivíduos pode depender dos recursos e capacidades que eles são aptos a empregar no processo de interpretá-la” (THOMPSON, 2000, p. 193).
Ocorreu, então, a ascensão dos veículos de comunicação e as formas simbólicas passaram a ser distribuídas em massa, ou seja, surgiu a necessidade de informar e disseminar produtos culturais ao maior número de pessoas. Gerou-se uma cultura da informação e com ela, a nível técnico, a ideia de emissor (codificador) que se utiliza de um meio para enviar a mensagem ao receptor (decodificador).
No século anterior, foi uma tarefa da imprensa assegurar que os cidadãos fossem bem informados e capazes de participar ativamente da vida pública, a fim de submeter políticos e governantes a uma avaliação constante. A imprensa tradicional reunia condições de expressar sentimentos públicos e fornecer uma plataforma de idéias à opinião pública (MATOS, 2004, p. 55).
Assim, os meios se tornaram fortes influenciadores nos aspectos sociais e culturais, se constituíram em importantes fontes de informação e formação de opinião. Porém, com o crescimento dos veículos de comunicação de massa e com a necessidade de concessões governamentais, a produção e transmissão de conteúdos em maior escala, por muito tempo ficou monopolizada nas grandes e tradicionais empresas deste segmento, como emissora de televisão que abrange quase todo território de determinado país.
Para a maioria das pessoas hoje, o conhecimento que nós temos dos fatos que acontecem além do nosso meio social imediato é, em grande parte, derivado de nossa recepção das formas simbólicas mediadas pela mídia. O conhecimento que temos dos líderes políticos e de suas políticas, por exemplo, é derivado quase que totalmente dos jornais, da rádio e da televisão, e as maneiras como participamos do sistema institucionalizado do poder político são profundamente afetadas pelo conhecimento que daí deriva (THOMPSON, 2000, p. 285).
Mas para que a comunicação se estabeleça de maneira eficiente, é
importante que o receptor possa responder - o chamado feedback1-, o que gera de
fato o intercâmbio entre as duas pessoas, grupos ou entre uma organização e seu público. No entanto, através dos meios de comunicação de massa, a reação do decodificador em relação à informação recebida demora em chegar ao emissor ou, em certos casos, ele não obtém a resposta.
Segundo Thompson:
1
O indivíduo não é apenas um consumidor que tem direito a alguma escolha na seleção dos objetos de consumo; ele é, também, um participante numa comunidade (ou comunidades) política em que a formação da opinião e o ato de decisão dependem, hoje, até certo ponto, da disponibilidade de informação e da expressão de diferentes idéias através da mídia e da comunicação de massa (THOMPSON, 2000, p. 338).
Ao referir-se diretamente a tradicional mídia de massa – ou mass media2 - o
teórico ainda não considerava a internet, a qual resultou na descentralização do poder sobre a informação. Sendo que formadores de opinião sempre fizeram parte de uma classe seleta submetida aos grandes veículos de mídia que, por sua vez, possuem interesses particulares motivados por questões financeiras como demais empresas privadas.
Entre as décadas de 1970 e 1990, houve progresso no desenvolvimento de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Com a evolução constante no desenvolvimento de aparelhos mediadores da comunicação, a sociedade ingressou na chamada Era da Informação. Nesta época, os computadores passaram a se popularizar e a internet entrou em ascensão.
Tornar acessível a internet para a maioria dos indivíduos é proporcionar acesso ao conhecimento. É também permitir que qualquer pessoa produza e publique conteúdo, divulgue seus trabalhos ou empresas conquistem um público que, de outra maneira, poderia estar distante de seu perímetro de atuação. A rede mundial de computadores gerou uma quebra de paradigmas entre emissor e receptor, porque proporciona a interação entre ambos em curto espaço de tempo.
Assim, a internet não só revolucionou as formas como ocorrem os relacionamentos como se tornou aliada à democratização da comunicação. Isto é: permite que indivíduos e grupos recebam e emitam mensagens na troca de informações que acarretam em aprendizado e assegura a participação cultural, política e social.
Conforme Sibilia: “Talvez o novo fenômeno encarne uma mistura inédita e complexa destas duas vertentes aparentemente contraditórias. Por um lado, a
2
festejada “explosão de criatividade” vincula-se a uma extraordinária “democratização” dos canais midiáticos” (2008, p. 10-11). Assim, o público ganhou voz e tornou-se produtor de conteúdo, sobretudo a partir do século XXI.
O século passado assistiu ao surgimento de um fenômeno desconcertante: os meios de comunicação de massa baseados em tecnologias eletrônicas. É muito rica, embora não tão longa, a história dos sistemas fundados no princípio de broadcasting, tais como o rádio e a televisão, tipos de mídia cuja estrutura comporta uma fonte emissora para muitos receptores. Já nos primórdios do século XXI, testemunhamos a consolidação deste outro fenômeno igualmente desconcertante: em menos de uma década, os computadores interconectados através das redes digitais de abrangência global se convertem em inesperados meios de comunicação (SIBILIA, 2008, p. 11).
A rede mundial de computadores e com ela elevação do pontocom não apenas forneceu entretenimento como um videogame, mas resultou em uma união de formas simbólicas já utilizadas pela tradicional mass media, como a escrita e as imagens. O impacto da internet também reascende o debate em torno da própria comunicação humana e da participação dos indivíduos de maneira global, a partir da troca de experiências, opiniões e mobilizações.
Neste sentido, Sibilia traz questões pertinentes:
São os e-mails versões atualizadas das antigas cartas, aquelas que se escreviam à mão com primor caligráfico e atravessavam extensas geografias encapsuladas em envelopes lacrados? E os blogs, podemos dizer que são upgrades dos velhos diários íntimos? [...] Do mesmo modo, os fotologs seriam parentes próximos dos antigos álbuns de retratos familiares. E os vídeos caseiros, que hoje circulam freneticamente pela rede, talvez sejam um novo tipo de cartões-postais animados. Quanto aos diálogos digitados nos diversos messengers com atenção flutuante e ritmo espasmódico, em que medida eles renovam, ressuscitam ou rematam as velhas artes da conversação? (SIBILIA, 2008, p. 14-15).
Inserida no contexto de uma sociedade globalizada e imediatista, a internet acelera a troca de informações e cria uma cultura digital. Por outro lado, origina uma barreira que separa o mundo físico e o virtual, devido à dificuldade de acesso de
diferentes grupos, tema que será aprofundado nos capítulos seguintes deste trabalho.
1.2. WORLD WIDE WEB E O MOSAIC: A ACESSIBILIDADE
A internet representou um avanço rápido para a tecnologia e a comunicação. Teve impacto na rotina dos indivíduos, no mercado de trabalho e na imagem de pessoas ou organizações, tornando-se um dos mais poderosos veículos de troca e difusão de mensagens em massa. No entanto, mesmo após o desenvolvimento do computador e a instalação da rede mundial, foi necessário repensar a acessibilidade e sua real utilidade.
“A Web no início da década de 1990 abrangia menos de 1% do tráfego da internet. Com apenas alguns sites existentes, não havia muita coisa a ver” (PENENBERG, 2010, p. 33). Neste sentido, não apenas o acesso às máquinas restringia o uso da internet, mas também a dificuldade em navegar pelas páginas até para os mais experientes usuários de computadores.
É possível, então, considerar que no princípio a internet foi um meio elitista, restrito à comunidade acadêmica e quem melhor conhecia a computação. Fato, este, que ocorreu mesmo após o britânico Tim Berners-Lee divulgar os protocolos que, de acordo com Penenberg (2010, p. 33): “tornaram a World Wide Web possível, permitindo aos usuários incorporar links de hipertexto a documentos e conectá-los a outros em qualquer parte do mundo”.
O que atualmente parece inimaginável foi realidade até o início dos anos de 1990. Para navegar era necessário conhecer códigos e as imagens que hoje agregam valores, enquanto formas simbólicas em blogs e redes de relacionamento virtuais, não estavam disponíveis. Para o próprio Berners-Lee, as imagens tornariam o conteúdo impuro: “pior, poderiam atrair as massas, que tendiam a publicar suas próprias revistas ou diários on-line decorados com fotos de seus gatos. Isso, ele
temia, rebaixaria a Web ao pior denominador comum possível” (PENENBERG, 2010, p. 33).
Ainda assim o World Wide Web3 (popularmente chamado de www) foi
fundamental para a popularização e desenvolvimento de novos sites. Neste
contexto, os navegadores, também conhecidos como web browsers4, surgiram para
a melhor acessibilidade. No entanto, os primeiros softwares5 na área, apresentavam
recursos limitados e eram de difícil instalação.
Para tornar mais prático e acessível o uso da internet, o estudante de Ciências da Computação Marc Andreessen criou recurso essencial que também se pode considerar base para a comunicação digital e, com ela, a democratização da internet como veículo de informação de massa.
Ele queria democratizar a internet para que qualquer pessoa com um computador e um modem pudesse navegar on-line. [...] A Web estaria aberta a todos, e, se seguisse os ditames da história, cresceria para muito além da comunidade acadêmica enclausurada (PENENBERG, 2010, p. 35).
Assim, mesmo com o desenvolvimento de computadores e o advento da conexão, a mídia tradicional permanecia sendo a principal fonte de informação. Havia uma poderosa invenção que não estava acessível às massas. Era necessário que o uso das máquinas e da internet não exigissem maiores conhecimentos em códigos da área da computação.
Até 1866, quando o primeiro cabo transatlântico foi estendido, o modo mais rápido de enviar notícias internacionalmente era levar pombos-correios nos navios e soltá-los perto da costa. No início do século XX, operadores da bolsa de valores chamados ped shovers (mensageiros) corriam do escritório de um corretor para outro, anunciando os preços mais recentes, que eram transmitidos por telégrafo e publicados nos jornais do dia seguinte,
3
Em português significa “rede de alcance mundial”.
4
Programa de computador chamado de “navegador” no vocabulário brasileiro e que permite aos usuários da internet interagir de maneira fácil com documentos virtuais. Atualmente existem diversos navegadores que são constantemente atualizados, como o Internet Explorer, Mozilla Firefox e o Google Chrome.
5
Software refere-se ao conjunto de programas e à parte não física do computador. Ao contrário de Hardware que designa os componentes eletrônicos da máquina.
enquanto redes de tubos pneumáticos movidos a ar comprimido transmitiam pequenos pacotes urgentes como cartas, relatórios de compras de ações ou dinheiro, ao longo de distâncias curtas. Surgiram, então, o telefone, o rádio e a televisão. Mesmo assim, somente com o surgimento da internet é que a comunicação visual e auditiva instantânea foi possível sem levar em consideração a questão geográfica. Qualquer um estaria interconectado, e isso teria impacto profundo sobre... tudo. A ideia chocou a mente de Andreessen (PENENBERG, 2010, p. 35).
Para tanto, Andreessen apresentou a ideia do desenvolvimento de um navegador mais acessível para quem não possuía conhecimentos aprofundados de computação e programação. O projeto, inicialmente chamado X Mosaic, foi trabalhado por ele e pelo programador Eric Bina, e lançado on-line no dia 23 de janeiro de 1993.
O Mosaic não foi apenas o web browser pioneiro que facilitou a navegação por páginas virtuais, como também o primeiro sucesso viral da internet. Segundo Penenberg:
Seis meses depois do lançamento, a versão Unix do Mosaic, pela contagem de Andreessen, tinha 100 mil usuários. [...] Durante a semana de Ação de Graças de 1994, no primeiro dia em que o Mosaic estava disponível para PCs, o servidor do NCSA ficou sobrecarregado e travou. Em dezembro, quando Andreessen se graduou, mais de 1 milhão de pessoas navegavam pela Web com o Mosaic nas versões Unix, Windows e Mac (PENENBERG, 2010, p. 37).
Neste contexto, é importante conhecer três nomes dentro da história da rede mundial de computadores. Paul Baran, Tim Berners-Lee e Marc Andreessen possibilitaram o mundo virtual que proporcionou salto de séculos na comunicação e na própria história da humanidade. O primeiro foi responsável por conceber a internet, Berners-Lee criou o WWW e Andreessen desenvolveu uma maneira de navegarmos pelos bilhões de sites que hoje existem de maneira fácil e prática. Nas palavras de Penenberg (2010, p. 39): “Em essência, Baran forneceu o terreno, Berners-Lee construiu a estrada e Andreessen produziu os veículos”.
Não só a invenção do computador e da internet foram suficientes para a popularização da mesma, a própria evolução dos softwares tornou possível o crescimento dela como um meio de comunicação. O World Wide Web e os navegadores representaram importante avanço na história do mundo virtual e fundamentais para a solidificação da Internet como ciberespaço.
1.3. INTERNET E CIBERESPAÇO
Para que ocorra a comunicação, não é necessária a presença de todas as pessoas para quais são destinadas as formas simbólicas no mesmo espaço físico. Porque ela parte do princípio de enviar uma mensagem e ser compreendida, independente das mediações. Conforme Thompson (2000, p. 298): “tanto escrever uma carta como conversar por telefone possibilita aos indivíduos estabelecerem, sustentarem e de desenvolverem formas de interação social que independem de um local físico comum”.
Com o surgimento de meios eletrônicos para a comunicação, até mesmo a relação de tempo ganhou nova realidade. Ou seja, as mensagens passaram a ser emitidas cada vez mais rapidamente e a chegar até lugares distantes. Thompson (2000, p. 320) ressalta: “um indivíduo não precisa estar presente a um acontecimento a fim de testemunhá-lo; a publicidade (visibilidade) de um acontecimento não depende mais da partilha de um local comum”.
Por sua dimensão e possibilidades, a internet é considerada um ciberespaço. Ou seja, espaço virtual desenvolvido a partir de tecnologias que permitem a transmissão de informações e a conversação sem necessitar da presença de outro ser humano no mesmo espaço físico.
Com o progresso dos softwares e elevação do pontocom, a internet tornou-se um espaço público dentro das condições financeiras, sociais e culturais de seus usuários. Ambiente, este, que engloba todo o planeta e gerou a emissão e troca de informações com velocidade jamais vista na história da humanidade e das
tecnologias. Formou-se a sociedade conectada que permite o encontro de pessoas de iguais interesses e a disseminação de formas simbólicas em poucos segundos por diversos canais e ferramentas disponibilizadas, desde sites de notícias até redes de relacionamento.
Dentro do ciberespaço, ocorre interação entre os indivíduos conectados. Há formação e disseminação cultural. Agregação de formas simbólicas, valores e estimula a leitura digital bem como a produção textual. Se bem utilizada pelos usuários, a internet neste contexto e na concepção da Web 2.0 – assunto que será ressaltado posteriormente - torna-se também potência política, porque permite a manifestação dos cidadãos dentro das sociedades democráticas.
O crescimento do ciberespaço leva a questionar se a internet apenas complementa e intensifica as relações e a comunicação, ou se deu origem a um espaço paralelo ao mundo físico, mas não menos real. Para Warschauer (2006, p. 30): “Apesar de a TIC não ter criado um mundo paralelo no qual uma pessoa deveria adentrar a qualquer preço, contribuiu para uma mudança profunda do mundo real em que vivemos”.
Os meios digitais provocam mudança significativa na realidade. A velocidade em que são transmitidos os conteúdos, notícias e manifestações artístico-culturais proporciona transformações profundas nos gostos de cada pessoa ou grupo. Costumes locais (exemplo: tradicionalismo gaúcho) tentam ser preservados enquanto modismos globais passam a fazer parte da rotina dos usuários da internet. Por outro lado, o internauta também produz e emite informações, recebe e oferece o feedback.
Assim, ao mesmo tempo em que o ciberespaço oferece a possibilidade de democratizar a comunicação ao permitir que seus usuários recebam e emitam informações, ele exige que os internautas dividam a atenção entre diferentes
atividades como a leitura de notícias, troca de e-mails, messenger6 e conferir os
modismos publicados por blogs ou vlogs7.
6
Em inglês significa mensageiro.
7
Desta maneira, o indivíduo conectado aos meios digitais não apenas segmenta o que é de seu interesse, mas também precisa zapear (termo que define a mudança repetida de canal de televisão ou frequência de rádio). Matos (2004, p. 59) destaca: “A quantidade de informação é crescente, enquanto a quantidade de tempo
disponível para a recepção é mais ou menos constante. O zapping8 é o símbolo
mais claro do comportamento comunicacional na atualidade”.
Compreende-se, então, que o surgimento do computador, advento da internet e do conceito de ciberespaço, apesar de parecer mudança silenciosa, tem impacto incalculável para as interações sociais. É posto nas mãos de pessoas comuns o conhecimento que, se usado de forma satisfatória, pode provocar transformações impactantes no mundo. É também efetivar a democracia através do poder da
comunicação. A internet, conforme Warschauer (2006, p. 48): “está acelerando e
democratizando os meios de produção do conhecimento”.
Neste sentido, são relevantes dentro do ciberespaço a identificação do indivíduo e o surgimento de uma cultura virtual. Ou seja, o ser humano conectado não possui apenas as características físicas como também uma identidade on-line. É fundamental compreender que o personagem da internet trata-se de uma pessoa real com necessidades, qualidades e defeitos.
Cria-se uma identidade virtual a partir do que o internauta transmite no ciberespaço, como ele se expõe e quais suas relações. Porém, para o desenvolvimento desta identificação não basta apenas possuir acesso à internet, mas adaptar-se aos meios digitais, conhecer as ferramentas disponíveis e as terminologias utilizadas. É necessário também acompanhar as constantes transformações e inovações formadas no ambiente on-line.
Novos aplicativos e tecnologias com acesso à internet são disponibilizadas constantemente. Se os computadores pessoais e a conexão banda larga deram
base para esta revolução na comunicação, smartphones9 e tablets10 sustentaram
8
Mudar constantemente de canal.
9
Telefone celular com funcionalidades avançadas que permite o acesso à internet com possibilidade de visitar sites, acessar e-mails, redes sociais e mensageiros.
ainda mais as novas formas de relacionamentos. Desta maneira, com o crescimento do ciberespaço e das possibilidades oferecidas por ele através da internet, surge o conceito de Web 2.0.
1.4. WEB 2.0: O POTENCIAL DO INTERNAUTA COMO FOCO
Nos tradicionais meios de comunicação de massa, há o pressuposto de uma via de mão única. Como citado anteriormente, o emissor não recebe de forma ágil o feedback de seus receptores. E o público possui poucas oportunidades de ver seu conteúdo publicado.
Ela é “interação” porque envolve pessoas se comunicando com outras que respondem a elas de certas maneiras e que podem com elas criar laços de amizade, afeto ou lealdade. Mas ela é “quase interação”, pois o fluxo da comunicação é predominantemente de mão única, e os modos de resposta através dos quais os receptores podem se comunicar com o comunicador principal são estritamente limitados (THOMPSON, 2000, p. 299).
Por outro lado, na internet tanto o conteúdo disponibilizado como o retorno de seus decodificadores pode ser imediato, depende apenas da velocidade da conexão e do tempo que o receptor demora em analisar a mensagem do emissor. No ciberespaço qualquer pessoa conectada pode emitir informações para todos os usuários da rede e obter resposta. Com isto, principalmente entre os jovens, surgiu a tendência em trocar materiais físicos como os jornais e os livros, pelo conteúdo virtual, e a relação tempo-espaço ganhou nova realidade.
Proporcionada a acessibilidade, cresceu o material disponível em rede e a maneira de usar a internet. Aumentaram o número de sites, salas de bate-papo, surgiram ferramentas de busca e os blogs. A comunicação, por sua vez, passou a enfrentar os impactos do novo meio.
10
Dispositivo em forma de prancheta eletrônica com tela sensível ao toque e diversas funcionalidades como visualização de fotos, leitura de livros, jornais e revistas e com acesso à internet.
A possibilidade de enviar mensagens instantâneas, publicar seu próprio material e absorver o maior número de informações e simbologias com mínimo esforço, no que se caracteriza a amplitude da comunicação, é a razão da popularização dos computadores e expansão da internet em cerca de duas décadas, sobretudo após a virada do milênio. A rede mundial de computadores ainda oferece a possibilidade de segmentar, ou seja, o indivíduo busca apenas pelas informações de interesse.
Até mesmo a escrita sofreu os impactos da tecnologia para tornar mais ágil o contato entre emissor e receptor. As abreviaturas de palavras fazem parte do processo de conversação on-line e as sensações / expressões são demonstradas
através de emoticons11. Conforme Sibilia: “Mais propulsados pela perpétua pressa
do que pela perfeição, estes textos costumam ser breves. Abusam das abreviaturas,
siglas, acrônimos e emoticons” (SIBILIA, 2008, p. 38).
A internet aliou-se a democratização da comunicação, proporcionando informação, interativa e a divulgação de cada indivíduo conectado. O íntimo passa a ser público, o anônimo se transforma em celebridade, a realidade que usa de diferentes figuras de linguagem e formas simbólicas - e quase se torna ficção - é a nova literatura.
O relato dos próprios desejos e experiências ganhou espaço com o surgimento dos blogs, pouco tempo depois, a exibição da vida particular entrou em alusão através de redes de relacionamentos e com os vídeos que exploram até mesmo a intimidade do indivíduo. Detalhar a vida profissional e pessoal é comum para os usuários da rede mundial de computadores, desde as pequenas ações cotidianas até os mais importantes compromissos.
Na obra O Show do Eu, a autora Paula Sibilia relata sobre a exposição de cada um de nós na internet, o que cria um espetáculo da vida privada dentro do ciberespaço. O Eu entra em evidência através de textos e imagens publicados em
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A palavra emoticon deriva dos termos em inglês emotion (emoção) + icon (ícone). Também pode ser chamado de smiley e se caracteriza através de imagens ou símbolos que ilustram a expressão facial como alegria ou tristeza.
sites de relacionamento, fóruns, vlogs e blogs. Neste contexto, a megalomania deixa de ser vista como algo errado e se torna parte inerente do internauta.
Penenberg ressalta:
Cada vez mais lá está seu ego público – a pessoa que você apresenta ao mundo físico – seu ego pessoal (quem você é quando está só) e seu ego digital, que vai muito além dos outros dois. Se você passa seu tempo on-line muitas outras pessoas irão conhecê-lo – ou achar que elas o conhecem – por meio do seu ego digital, que pode ser igualmente (ou mais) real para elas do que seu ego real (PENENBERG, 2010, p. 63).
Assim, o internauta passa a ser o produto dentro da internet no momento em que torna pública sua vida privada por meio de textos, fotos e troca de informações. “Você é uma marca que deve ser gerenciada. Peço desculpas a Marshall McLuhan, mas o meio não é a mensagem, e, sim, você” (PENENBERG, 2010, p. 63).
E nesta busca pela divulgação por parte de uma pessoa, grupos ou organizações, consciente ou não, com o auxílio dos profissionais da Comunicação Social ou de maneira leiga, caracteriza-se também a amplitude do marketing digital. Assim, é necessário o monitoramento constante das ações dentro das redes sociais virtuais e nas outras ferramentas disponíveis no ciberespaço.
Uma das grandes vantagens do marketing digital é que seus resultados podem ser medidos. O monitoramento é a ação estratégica que integra os resultados de todas as outras ações estratégicas, tática e operacionais, permitindo verificar os resultados e agir para a correção de rumos ou melhoria das ações. Ele ocorre de várias formas, incluindo monitoramento do acesso aos sites e blogs, das mensagens de e-mail e SMS, dos vídeos e widgets nas ações virais e da visualização e dos cliques em banners (TORRES, 2009, p. 79).
Os blogs são exemplos interessantes da realidade virtual. Através das páginas criadas de maneira rápida, gratuita e que não exigem conhecimentos aprofundados de computação, internautas escrevem sobre assuntos de importância pública e demonstram seus gostos particulares por meio de textos e imagens.
Conforme Sibilia (2008, p. 13): “todos os dias são engendrados cerca de cem mil novos rebentes, portanto o mundo vê nascer três novos blogs a cada dois segundos”. No entanto, é necessária dedicação para obter destaque com número relevante de acessos e leitores. Apesar dos milhões de blogs disponíveis (em 2010
havia 152 milhões de blogs conforme a empresa sueca de consultoria Pingdom12)
nem todas as páginas fornecem conteúdo que colabore para a transformação social, e nem todos os blogueiros reconhecem o fato da internet ser um veículo de massa e interativo que pode efetivar a democratização da comunicação. Segundo Penenberg
(2010, p. 160): “De fato, a blogosfera pode ser completamente hobbesiana, com
postagens sórdidas, bestiais e (muitas vezes, felizmente), breves. Em seu melhor, porém, é um mercado de ideias, com o influente domínio dos melhores, uma pura meritocracia”.
Esta realidade nos sugere o conceito da Web 2.0, já que a Web 1.0 refere-se às páginas e ferramentas da internet sem interatividade.
O termo Web 2.0 foi criado em outubro de 2004 por Tim O’Reilly da O’Reilly Media, para ser utilizado em uma série de palestras sobre o novo modelo de negócios na internet após a bolha da NASDAQ, ou seja, era uma marca comercial usada para fins de marketing. Mas o termo se popularizou rapidamente e começou a ser utilizado em diversos textos para descrever o que estava acontecendo na Internet com o crescimento as mídias e redes sociais e os sites colaborativos (TORRES, 2009, p. 349).
A Web 2.0 trata da segunda geração do World Wide Web (WWW), construída pelo próprio usuário. Nesta geração vivenciada nos dias atuais, o internauta é colaborador para que o conteúdo seja disponibilizado e organizado dentro do ciberespaço. Ele não só utiliza a internet como um meio de comunicação como também ajuda a aperfeiçoar o que já está publicado. Segundo Torres (2009, p. 350): “quando falamos de Web 2.0 estamos nos referindo a um fenômeno comportamental na Internet, e não de uma tecnologia”.
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A participação e o potencial humano também são definições desta proposta de internet. Mais do que a publicação de conteúdo, a nova realidade virtual conecta pessoas que criam uma troca mútua de informações, o que acarreta em conhecimento. É a comunicação interativa que depende apenas da conexão à rede mundial de computadores e do clique do mouse.
No entanto, a sociedade da Era da Informação e da troca de experiências, da superexposição e valorização do indivíduo, caminha a passos lentos e não consegue se adaptar a cada nova máquina ou aplicativo na mesma velocidade em que são desenvolvidos. Em suma, a evolução tecnológica possui um ritmo frenético, enquanto o indivíduo e o grupo não progridem na mesma velocidade.
Para tanto, são necessários considerações sobre poder aquisitivo, aspectos geográficos e culturais que caracterizam a chamada exclusão digital, o que amplia a exclusão informacional.
CAPÍTULO 2 - EXCLUSÃO DIGITAL
2.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DIGITAL
Diante a sociedade da informação imediata e do foco no potencial criativo de cada indivíduo com a ascensão dos meios digitais e com a comunicação cada vez mais mediada pelas novas tecnologias, a exclusão é o desafio. Até a divulgação do World Wide Web (WWW) e do desenvolvimento dos navegadores que facilitaram o acesso às páginas da internet e o carregamento de imagens, este era um meio elitista restrito a pequena parcela da sociedade como os acadêmicos.
Tão importante quanto as mudanças na mídia atual é o impacto das tecnologias da informação e comunicação. Há uma crescente produção de informações de uma maior acessibilidade às novas fontes de informação. No entanto, a maior parte das inovações na tecnologia comunicacional, ao menos no início, serviu primeiro a uma minoria privilegiada do que à grande massa da população (MATOS, 2004, p. 58).
Em outras palavras: se estão disponíveis informações de todo planeta na internet, ela não é acessível para o maior número de pessoas que podem fazer uso relevante dos conteúdos e das ferramentas. E o principal foco da internet é comunicação e o fornecimento de conteúdo, independente da qualidade, tema ou ideologia. Matos (2004, p. 59) completa: “o número de receptores desse novo tipo de informação ainda é nebuloso. Há informações discrepantes sobre o cálculo do total mundial de pessoas plugadas”.
Ainda na década de 1990, os computadores e a internet começaram a se popularizar. Até os dias atuais houve evolução das máquinas, softwares e na velocidade da conexão. Cada vez mais páginas foram desenvolvidas, surgiram os blogs, redes sociais, aplicativos e outros equipamentos que permitem o acesso como os tablets e smartphones.
Segundo Penenberg:
Aproximadamente 30 milhões de smartphones, que permitem aos usuários enviar e-mails, texto, navegar pela Web e realizar outras funções relacionadas com internet em trânsito, foram vendidos em 2005. Até 2010, aproximadamente 260 milhões estarão em circulação e irão superar as vendas de PCs. (PENENBERG, 2010, p. 67)
A previsão de vendas de smartphones no mundo para 2014 é de 1 bilhão de
unidades, conforme estudo realizado pelo banco de investimentos Credit Suisse13.
Já a pesquisa realizada pelo IBOPE Inteligência, em parceria com a Worldwide
Independent Network of Market Research14 (WIN) destacou que tablets e laptops
estão entre preferências para 2012. No mundo, segundo o estudo, há intenção de 32% dos consumidores em adquirir um laptop e 24% em comprar um tablet.
Os números remetem à ideia de conectividade onipresente, ou seja, a possibilidade de acesso com equipamentos portáteis em qualquer lugar. De acordo
com Penenberg (2010, p. 67), “há três importantes inovações tecnológicas que
orientam esse surto na mobilidade: telas, microprocessadores e conectividade onipresente”.
No entanto, apesar dos números elevados de expectativas de vendas de aparelhos, menos da metade da população mundial possui acesso à Internet. Da estimativa de sete bilhões de habitantes do planeta, por volta de dois bilhões são internautas conforme informações divulgadas em janeiro de 2011 pelo chefe da União Internacional de Telecomunicações (UIT) da Organização das Nações Unidas (ONU), Hamadoun Touré. Ou seja, cerca de uma a cada três pessoas possui acesso.
Segundo o relatório anual da empresa de monitoramento de sites Pingdom, divulgado em janeiro de 2012, no ano anterior a internet atingiu 2,1 bilhões de usuários. Matéria publicada pelo UOL Tecnologia mostra que a Ásia concentra o
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Bando de investimentos que atua no Brasil com gestão de recursos de terceiros.
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Associação líder em pesquisa de mercado e sondagens, composta por 67 maiores empresas de mercado independente de investigação e pesquisas em seus países correspondentes.
maior número de internautas (922,2 milhões), na Europa eram 476,2 milhões de pessoas conectadas, seguida pela América do Norte com 271,1 milhões. O estudo aponta 215,9 milhões de usuários na América Latina e Caribe. Os índices mais baixos foram registrados na África (118,6 milhões), Oriente Médio (68,6 milhões) e Oceania/Austrália (21,3 milhões).
São marcantes as diferenças entre países pobres, em fase de desenvolvimento ou ricos, tanto na aquisição de aparelhos com acesso à internet como na velocidade da conexão. Dados divulgados em 2012 pela Associação Latinoamericana e do Caribe para registros de endereços Internet (Lacnic15), mostraram que a penetração da internet na América Latina é de 40% e com baixa presença de conexões consideradas banda larga.
Já o relatório “Estado da Internet” da empresa de monitoramente de tráfego digital, Akamai, mostrou que no Brasil a velocidade de internet é em média 1,8 Mbps e que a adoção de banda larga ultra-rápida foi menor em 2011 comparado ao ano anterior, juntamente com países como Argentina, Arábia Saudita, Romênia e Taiwan. O mesmo estudo destaca que a Coréia do Sul, um dos países mais desenvolvidos do planeta, possui a maior velocidade média com 17,5 Mbps. Já a Líbia, tem o pior índice do mundo, ou seja, 282 Kbps.
O relatório da Akamai também destaca que está diminuindo a velocidade média de conexão com a internet em todo mundo. Do terceiro para o quarto trimestre de 2011, houve queda de 14% na velocidade de transferência de dados. Também é ressaltado que entre os países analisados, das dez nações com média de conexões elevadas, oito sofreram quedas nas taxas. Em Hong Kong, por exemplo, foi de 14%. No entanto, o relatório não apresenta os motivos destas diminuições.
É importante ressaltar que a Líbia é um país de desenvolvimento humano alto
e que ocupa a 64ª posição no ranking16 dos 187 países e territórios classificados
conforme o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com dados relativos ao ano
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Sigla em inglês de: Latin American and Caribbean Internet Addresses Registry.
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de 2011. Enquanto o Brasil está na 84ª posição. Já Hong Kong está entre os países com desenvolvimento humano muito alto, com o 13º lugar no ranking e a Coréia do Sul ocupa a 15ª posição.
Segundo Sibilia:
Hoje, por exemplo, apenas um bilhão dos habitantes de todo o planeta possuem uma linha de telefone fixo; desse total, menos de um quinto têm acesso à internet por essa via. Outras modalidades de conexão ampliam esses números, mas de todo modo continuam ficando fora da rede pelo menos cinco bilhões de terráqueos. O que não chega a causar espanto se considerarmos que 40% da população mundial, quase três bilhões de pessoas, tampouco dispõem de uma tecnologia bem mais antiga e reconhecidamente mais básica: o vaso sanitário (SIBILIA, 2008, p. 23).
A comparação entre vendas de produtos tecnológicos que permitem o acesso à Web 2.0 e sugerem a conectividade onipresente dentro da Era da Informação, com o número de internautas e a velocidade das conexões, mostra que a sociedade ainda necessita evoluir em diversos aspectos para que conteúdos e conhecimento sejam transmitidos de maneira eficaz para a maioria dos indivíduos. Porém, a produção e evolução acelerada dos aparelhos não acompanham a adaptação de cada pessoa de acordo com os recursos que ela possui.
Ao se considerar a evolução tecnológica é necessário conhecer o potencial e a capacitação humana, relacionamentos sociais, questões financeiras e aspectos geográficos, tópicos onde são incluídas também as estruturas das comunidades. E adaptar-se ao mundo virtual requer tempo, sobretudo ao analisar as dificuldades particulares da cultura onde o indivíduo se insere.
Nota-se assim, o choque cultural e sócio-econômico que envolvem as tecnologias da informação e comunicação. A falta da máquina e do acesso à internet é base de um debate ainda maior. Excluir digitalmente é afastar da informação imediata, do acesso ao conhecimento através dos milhões de sites de conteúdos interessantes, da manifestação e mobilização de opiniões e de todas as formas de comunicação virtual que acrescentam, desde a divulgação de conteúdos produzidos pelo indivíduo e a facilidade / agilidade para a conversação.
À medida que mais formas de comunicação, estabelecimentos de redes sociais, organizações comunitárias, debates políticos e tomadas de decisões políticas são atraídos para a mídia on-line, mais as pessoas sem acesso à tecnologia serão excluídas das oportunidades de exercer a plena cidadania (WARSCHAUER: 2006, p. 51).
Isto se deve, também, pela forte concorrência entre as empresas de tecnologias que, ao perceberem o mercado saturado ou atingir seus níveis estimados de vendas, oferecem novos recursos aos consumidores. A questão dos preços também é fator que acirra o debate, já que a maioria dos produtos tecnológicos, apesar das condições de pagamento oferecidas pelo comércio, é acessível para as classes média e alta em primeiro momento.
Depois que os mercados se saturam nos países desenvolvidos, as empresas e as indústrias muitas vezes procuram expandir-se para o mundo em desenvolvimento, mas, de maneira inevitável, visam a relativamente pequena classe média e alta desses países. É muito mais seguro – e, a curto prazo, mais lucrativo – para a Hewlett-Packard vender seus computadores pessoais já existentes para empresas em Xangai ou Pequim do que tentar desenvolver um tipo de computador inteiramente novo para a população da China e do mundo (WARSCHAUER, 2006, p. 98).
No contexto da exclusão digital, são vários os aspectos que causam essa supressão em relação o acesso à Internet como escolaridade, gênero, faixa etária, deficiências físicas, geografia e cultura. Expandir o acesso aos meios digitais não exige apenas a distribuição em massa dos aparelhos, mas a análise profunda de
cada um dos tópicos. De acordo com Warschauer (2006, p. 60), “a difusão de
qualquer tecnologia é um terreno conflituoso, e que a política de acesso a ela reflete questões mais amplas de poder político, social e econômico”.
É necessário compreender que a exclusão não se refere apenas à dificuldade na aquisição dos computadores ou aparelhos portáteis com conexão à internet, mas exige a adaptação das pessoas de grupos com diferentes hábitos ou crenças,
idades e níveis de educação. O relatório da Pingdom, por exemplo, mostrou que quatro em cada dez internautas têm menos de 25 anos de idade.
Conforme Warschauer:
O que é mais importante a respeito da TIC não é tanto a disponibilidade do equipamento de informática ou da rede de internet, mas sim a capacidade pessoal do usuário de fazer uso desse equipamento e dessa rede envolvendo-se em práticas sociais significativas (WARSCHAUER, 2006, p. 63-64).
Assim é possível compreender que a exclusão digital não se detém à falta do computador e que a produção em maior escala, com custos reduzidos ou por meio de políticas públicas, não bastariam para a inclusão efetiva dos indivíduos. Antes, é necessário analisar os principais aspectos que ocasionam a exclusão.
2.2. EXCLUSÃO SOCIAL E EXCLUSÃO DIGITAL
Ao analisar a exclusão digital é necessário compreender que ela não é sinônimo de exclusão social, mas mais uma característica. Com o crescimento da internet e destacada a sua relevância no que tange as relações sociais, acesso ao conhecimento, participação de cunho político e outros temas dentro da concepção de Web 2.0, excluir digitalmente é privar o indivíduo desta gama de informações.
O volume 4 do Atlas da Exclusão Social permite compreender a relação entre estas formas de exclusão:
Nos últimos anos a exclusão social passa a se manifestar sob novas formas, especialmente nos países industrializados do centro e da periferia. Além da pobreza absoluta, da fome e do analfabetismo, novas formas de exclusão ganham destaque, associadas à crescente desigualdade, precarização do mercado de trabalho (desemprego e informalidade), expansão da violência urbana e novas epidemias. Paralelamente, emerge uma novíssima forma de exclusão, aquela relacionada à falta de acesso ao novo padrão tecnológico: a exclusão digital (POCHMANN, 2004, p. 45).
A exclusão social, cujo campo é amplo e complexo, trata desde as classes desfavorecidas, o que ocasiona a desigualdade, até as diferenças étnicas, de gênero, opção sexual e deficiências físicas, o que gera debates dentro do mercado de trabalho e da qualidade de vida. A pobreza é um dos principais fatores que dificultam a inclusão do indivíduo na sociedade e com isto, o acesso ao conhecimento também é restrito, sobretudo com a comunicação mediada pelas tecnologias.
Assim, não há como negar a relação entre a exclusão social e a digital devido ao fato da internet ser veículo de comunicação, em uma sociedade onde até mesmo o acesso ao conhecimento requer recursos físicos e financeiros.
O mundo moderno está longe de ser um lugar onde a pobreza e a exclusão social estejam sendo vencidas. Na verdade, as antigas regiões pobres situadas entre os trópicos são as mesmas que hoje apresentam os piores indicadores de exclusão social. Aliás, entre os 40 países com os piores destes valores, 82,0% deles estão na África, 7,5% na América, 7,5% na Oceania e 2,5% na Ásia (POCHMANN, 2004, p. 56).
O mapa seguinte, disponibilizado no Atlas da Exclusão Social, ilustra esta realidade conforme o Índice da Exclusão Social (IES).
O IES procura incorporar em si um maior número e uma maior variedade de dimensões da vida humana [...] Para tanto, os diferentes indicadores analisados são agrupados em três diferentes dimensões da vida humana: uma primeira denominada Vida Digna, outra chamada de Conhecimento e uma terceira denominada Vulnerabilidade (POCHMANN, 2004, p. 17-18).
Quando maior o índice, melhor é a condição social do país. Nota-se que o Brasil está incluído nos índices entre 0.60 a 0.80, números inferiores aos países norte-americanos Estados Unidos e Canadá, parte da Europa e a Austrália na Oceania, os quais possuem índices entre 0.88 a 0.99.
Mapa 1 – Mapa da exclusão social no mundo (POCHMANN, 2004, p. 57)
Já o mapa seguinte, mostra a Desigualdade no Mundo.
Mapa 2 – Mapa da desigualdade no mundo (POCHMANN, 2004, p. 63)
Conforme a imagem acima, quanto maior o índice, melhor a condição social. Assim, nota-se que países como Canadá, Argentina e Japão possuem condições favoráveis, enquanto o Brasil encontra-se com índices inferiores. Mas é importante ressaltar que, assim como a exclusão digital é apenas uma característica da
exclusão social, também não se trata de um reflexo da desigualdade, e sim um agravante.
Desta maneira, mesmo com os índices de desigualdade em países como a China e os Estados Unidos, ambos ocupam o primeiro e o segundo lugar no ranking de países com maior número de internautas do mundo, respectivamente. A China com 420 milhões e o país norte-americano com 234,4 milhões. O Japão que apresenta baixa desigualdade social e é importante pólo de desenvolvimento tecnológico apresenta 99,1 milhões de internautas, seguido pela Índia que se
destaca na produção de Tecnologias da Informação e Comunicação17 e conta com
81 milhões de internautas. Já o Brasil, na mesma lista, está na quinta posição, com 72 milhões de usuários de internet. Os números foram divulgados em 2010 pela Pingdom.
Dentro desta análise é necessário considerar também o número de habitantes de cada local citado. A China, por exemplo, é o País mais populoso com 1,34 bilhões de habitantes, seguido pela Índia com 1,21 bilhões. A população dos Estados Unidos é de 313 milhões e meio. Já o Brasil, mesmo com o crescimento econômico do País, o número de internautas é relativamente baixo comparado à
população brasileira que, conforme o Censo Demográfico18 2010 é de 190.755.799
de habitantes.
É possível comparar os números de habitantes e de internautas nos países destacados, como é demonstrado na tabela:
Internautas Habitantes
China 420 milhões 1,34 bilhões
Estados Unidos 234,4 milhões 313,5 milhões
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Segundo o Relatório da Economia da Informação 2007-2008, divulgado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio (Unctad) em 2008, a China e a Índia estavam na liderança em relação à produção de equipamentos e serviços de tecnologia da informação e de comunicação, no mundo.
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O Censo Demográfico é realizado pelo IBGE – Instituto de Geografia e Estatística e reúne informações sobre toda população nacional.
Japão 99,1 milhões 128 milhões
Índia 81 milhões 1,21 bilhões
Brasil 72 milhões 190.755.799
Tabela 1 - Comparação entre número de habitantes e usuários de internet
Convém ressaltar que os números de habitantes e internautas são aproximados, e não exatos. É possível perceber que, apesar da China liderar o ranking de usuários de internet, o nível de inclusão é melhor nos Estados Unidos e no Japão comparados as suas respectivas populações.
Assim, exclusão digital agrava a exclusão social não apenas pela dificuldade na aquisição da máquina, mas devido à disparidade em relação ao nível de informações e às maneiras de comunicação proporcionadas pela internet. Com as formas simbólicas cada vez mais disseminadas através dos meios digitais, aumenta a barreira entre indivíduos ou grupos que possuem ou não acesso a elas.
A mudança de foco da exclusão digital para a inclusão social baseia-se em três premissas principais: 1) a nova economia da informação e a nova sociedade de rede emergiram; 2) a TIC desempenha um papel decisivo em todos os aspectos dessa nova economia e nova sociedade; e 3) o acesso à TIC, definido de modo amplo, pode ajudar a determinar a diferença entre marginalização e inclusão nessa nova era socioeconômica (WARSCHAUER, 2006, p. 31).
Desafia-se assim um planeta de exclusão social a incluir digitalmente parte considerável de sua população. E surge a contradição, porque um excluído social pode possuir acesso à internet e usá-la de maneira satisfatória na busca pela participação e pelo conhecimento. A Web ajuda a efetivar o direito a liberdade de expressão e permitir ao indivíduo exercer suas funções políticas dentro do sistema democrático.
Há muitas maneiras pelas quais os mais desfavorecidos podem ter participação e inclusão mais plena, mesmo se carecem da partilha igual dos
recursos. Ao mesmo tempo, mesmo os mais favorecidos talvez enfrentem problemas de exclusão social, por causa da perseguição política ou da discriminação com base em idade, gênero, preferência sexual ou deficiência física ou mental. (WARSCHAUER, 2006, p. 25)
Os meios digitais podem incluir pessoas que encontram dificuldades no convívio social, por exemplo, por meio de deficiências como destacado por Warschauer. Neste caso, a internet pode ser utilizada como espaço de debate em torno dos próprios problemas encontrados, na busca por conscientização, transformação e ainda facilitar a efetivação da cidadania.
Devido à dimensão da internet é possível legitimar o direito à liberdade de expressão até para os mais oprimidos grupos da sociedade. Por exemplo, a publicação de imagens pode transformar a opinião pública. E a partir de movimentos sociais são buscadas as mudanças.
A TIC é particularmente importante para a inclusão social das pessoas marginalizadas por outras razões. Por exemplo, as pessoas portadoras de deficiências físicas podem fazer um uso especialmente satisfatório da TIC para ajudar a superar problemas causados pela falta de mobilidade, pelas limitações físicas ou pela discriminação social (WARSCHAUER, 2006, p. 52).
Desta maneira, compreende-se que impedir o indivíduo de ter acesso à internet é impossibilitá-lo de conhecer o mais democrático dos meios de comunicação de massa. Em suma, a efetiva inclusão social de cada pessoa ou grupo precisa considerar, também, a inclusão digital e com ela o acesso ao conhecimento. No entanto, existem diversas barreiras para serem supridas desde necessidades básicas até questões culturais.
Os principais aspectos que tornam baixos os números de usuários de internet serão aprofundados no tópico seguinte deste capítulo. Estas questões, apesar de terem influências diretas entre si, podem ser analisadas separadamente.
2.3. ASPECTOS DA EXCLUSÃO DIGITAL
Compreendido que exclusão digital é dificuldade da inserção aos aparelhos tecnológicos com acesso à internet, e sua relação com o conceito de exclusão social, convém analisar os principais aspectos que dificultam a aquisição das máquinas e a inclusão das pessoas aos meios digitais. Estas questões permeiam por diferentes e amplas categorias.
A falta de recursos derivada da desigualdade entre as classes e até mesmo entre as distintas localizações do planeta é um dos fatores que torna difícil o acesso aos meios tecnológicos e com isto, inibe o contato do indivíduo com a informação e o conhecimento. Suprida as necessidades básicas para então fornecer condições de utilizar as máquinas como os computadores, é preciso levar em consideração a educação, enquanto fator importante para o desenvolvimento e a qualidade de vida, e também as relações sociais e culturais entre países ou até mesmo os diferentes grupos que habitam uma mesma região.
Três dos principais aspectos que dificultam o acesso às tecnologias de internet foram aprofundados:
2.3.1. Recursos financeiros
Os preços dos computadores e outros aparelhos são reduzidos constantemente. No entanto, surgem novas máquinas deste segmento com configurações avançadas que proporcionam melhor acessibilidade aos seus usuários. Atualmente, no Brasil, um computador com cerca de 4GB de memória
Ram19 está disponível no mercado por cerca R$ 1.200,00 ou R$ 1.500,00
dependendo da loja e da marca. Os mesmo preços aplicam-se também para notebooks20. Estes valores são maiores que os recursos que mantêm famílias
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Memória temporária do computador.
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durante o mês, e convém ressaltar que para o pagamento parcelado, são acrescentados juros. “O sistema operacional Microsoft e seu pacote de aplicativos
Microsoft Office21, dominantes hoje, custam mais que a renda anual da maioria das
pessoas no mundo em desenvolvimento” (WARSCHAUER, 2006, p. 97).
No mesmo contexto, os aspectos financeiros não são apenas necessários para a aquisição dos computadores e ao pagamento de um servidor de internet. Neste sentido, eles são fundamentais também para a manutenção das máquinas que constantemente tem seus softwares e hardwares danificados e necessitam de concertos. Muitas pessoas ainda precisam participar de cursos que não são gratuitos para adquirir conhecimento sobre informática ou até mesmo pagar para utilização de determinados programas como editores avançados de imagem e áudio.
Os recursos financeiros dentro do contexto da desigualdade social que geram as diferentes classes, constituídas como A, B, C e D com suas subdivisões, é um dos principais aspectos que ocasionam a exclusão digital.
A distribuição geográfica desses privilegiados que possuem senhas de acesso ao ciberespaço é ainda mais eloquente do que a mera quantidade já insinua: 43% na América do Norte, 29% na Europa e 21% em boa parte da Ásia, incluindo os fortes números do Japão. Nessas regiões do planeta, portanto, concentram-se nada menos que 93% dos usuários da rede global de computadores – e, portanto, daqueles que usufruem das maravilhas da web 2.0 (SIBILIA, 2008, p. 23-24).
Desta forma, a sociedade possui recursos mal distribuídos, enquanto uma minoria tem acesso às maiores riquezas. E com a acessibilidade aos recursos financeiros, a aquisição das máquinas e com ela a absorção dos conteúdos também é facilitada.
Em comum, a percepção de que, se não forem tomadas medidas corretivas, a concentração de acesso aos equipamentos informáticos tenderá a ampliar a distância entre os ricos e os pobres, provocando uma cisão irrecuperável na já combalida justiça social (CAZELOTO, 2008, p. 17).
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