CAPÍTULO 2 EXCLUSÃO DIGITAL
2.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DIGITAL
Diante a sociedade da informação imediata e do foco no potencial criativo de cada indivíduo com a ascensão dos meios digitais e com a comunicação cada vez mais mediada pelas novas tecnologias, a exclusão é o desafio. Até a divulgação do World Wide Web (WWW) e do desenvolvimento dos navegadores que facilitaram o acesso às páginas da internet e o carregamento de imagens, este era um meio elitista restrito a pequena parcela da sociedade como os acadêmicos.
Tão importante quanto as mudanças na mídia atual é o impacto das tecnologias da informação e comunicação. Há uma crescente produção de informações de uma maior acessibilidade às novas fontes de informação. No entanto, a maior parte das inovações na tecnologia comunicacional, ao menos no início, serviu primeiro a uma minoria privilegiada do que à grande massa da população (MATOS, 2004, p. 58).
Em outras palavras: se estão disponíveis informações de todo planeta na internet, ela não é acessível para o maior número de pessoas que podem fazer uso relevante dos conteúdos e das ferramentas. E o principal foco da internet é comunicação e o fornecimento de conteúdo, independente da qualidade, tema ou ideologia. Matos (2004, p. 59) completa: “o número de receptores desse novo tipo de informação ainda é nebuloso. Há informações discrepantes sobre o cálculo do total mundial de pessoas plugadas”.
Ainda na década de 1990, os computadores e a internet começaram a se popularizar. Até os dias atuais houve evolução das máquinas, softwares e na velocidade da conexão. Cada vez mais páginas foram desenvolvidas, surgiram os blogs, redes sociais, aplicativos e outros equipamentos que permitem o acesso como os tablets e smartphones.
Segundo Penenberg:
Aproximadamente 30 milhões de smartphones, que permitem aos usuários enviar e-mails, texto, navegar pela Web e realizar outras funções relacionadas com internet em trânsito, foram vendidos em 2005. Até 2010, aproximadamente 260 milhões estarão em circulação e irão superar as vendas de PCs. (PENENBERG, 2010, p. 67)
A previsão de vendas de smartphones no mundo para 2014 é de 1 bilhão de
unidades, conforme estudo realizado pelo banco de investimentos Credit Suisse13.
Já a pesquisa realizada pelo IBOPE Inteligência, em parceria com a Worldwide
Independent Network of Market Research14 (WIN) destacou que tablets e laptops
estão entre preferências para 2012. No mundo, segundo o estudo, há intenção de 32% dos consumidores em adquirir um laptop e 24% em comprar um tablet.
Os números remetem à ideia de conectividade onipresente, ou seja, a possibilidade de acesso com equipamentos portáteis em qualquer lugar. De acordo
com Penenberg (2010, p. 67), “há três importantes inovações tecnológicas que
orientam esse surto na mobilidade: telas, microprocessadores e conectividade onipresente”.
No entanto, apesar dos números elevados de expectativas de vendas de aparelhos, menos da metade da população mundial possui acesso à Internet. Da estimativa de sete bilhões de habitantes do planeta, por volta de dois bilhões são internautas conforme informações divulgadas em janeiro de 2011 pelo chefe da União Internacional de Telecomunicações (UIT) da Organização das Nações Unidas (ONU), Hamadoun Touré. Ou seja, cerca de uma a cada três pessoas possui acesso.
Segundo o relatório anual da empresa de monitoramento de sites Pingdom, divulgado em janeiro de 2012, no ano anterior a internet atingiu 2,1 bilhões de usuários. Matéria publicada pelo UOL Tecnologia mostra que a Ásia concentra o
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Bando de investimentos que atua no Brasil com gestão de recursos de terceiros.
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Associação líder em pesquisa de mercado e sondagens, composta por 67 maiores empresas de mercado independente de investigação e pesquisas em seus países correspondentes.
maior número de internautas (922,2 milhões), na Europa eram 476,2 milhões de pessoas conectadas, seguida pela América do Norte com 271,1 milhões. O estudo aponta 215,9 milhões de usuários na América Latina e Caribe. Os índices mais baixos foram registrados na África (118,6 milhões), Oriente Médio (68,6 milhões) e Oceania/Austrália (21,3 milhões).
São marcantes as diferenças entre países pobres, em fase de desenvolvimento ou ricos, tanto na aquisição de aparelhos com acesso à internet como na velocidade da conexão. Dados divulgados em 2012 pela Associação Latinoamericana e do Caribe para registros de endereços Internet (Lacnic15), mostraram que a penetração da internet na América Latina é de 40% e com baixa presença de conexões consideradas banda larga.
Já o relatório “Estado da Internet” da empresa de monitoramente de tráfego digital, Akamai, mostrou que no Brasil a velocidade de internet é em média 1,8 Mbps e que a adoção de banda larga ultra-rápida foi menor em 2011 comparado ao ano anterior, juntamente com países como Argentina, Arábia Saudita, Romênia e Taiwan. O mesmo estudo destaca que a Coréia do Sul, um dos países mais desenvolvidos do planeta, possui a maior velocidade média com 17,5 Mbps. Já a Líbia, tem o pior índice do mundo, ou seja, 282 Kbps.
O relatório da Akamai também destaca que está diminuindo a velocidade média de conexão com a internet em todo mundo. Do terceiro para o quarto trimestre de 2011, houve queda de 14% na velocidade de transferência de dados. Também é ressaltado que entre os países analisados, das dez nações com média de conexões elevadas, oito sofreram quedas nas taxas. Em Hong Kong, por exemplo, foi de 14%. No entanto, o relatório não apresenta os motivos destas diminuições.
É importante ressaltar que a Líbia é um país de desenvolvimento humano alto
e que ocupa a 64ª posição no ranking16 dos 187 países e territórios classificados
conforme o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com dados relativos ao ano
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Sigla em inglês de: Latin American and Caribbean Internet Addresses Registry.
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de 2011. Enquanto o Brasil está na 84ª posição. Já Hong Kong está entre os países com desenvolvimento humano muito alto, com o 13º lugar no ranking e a Coréia do Sul ocupa a 15ª posição.
Segundo Sibilia:
Hoje, por exemplo, apenas um bilhão dos habitantes de todo o planeta possuem uma linha de telefone fixo; desse total, menos de um quinto têm acesso à internet por essa via. Outras modalidades de conexão ampliam esses números, mas de todo modo continuam ficando fora da rede pelo menos cinco bilhões de terráqueos. O que não chega a causar espanto se considerarmos que 40% da população mundial, quase três bilhões de pessoas, tampouco dispõem de uma tecnologia bem mais antiga e reconhecidamente mais básica: o vaso sanitário (SIBILIA, 2008, p. 23).
A comparação entre vendas de produtos tecnológicos que permitem o acesso à Web 2.0 e sugerem a conectividade onipresente dentro da Era da Informação, com o número de internautas e a velocidade das conexões, mostra que a sociedade ainda necessita evoluir em diversos aspectos para que conteúdos e conhecimento sejam transmitidos de maneira eficaz para a maioria dos indivíduos. Porém, a produção e evolução acelerada dos aparelhos não acompanham a adaptação de cada pessoa de acordo com os recursos que ela possui.
Ao se considerar a evolução tecnológica é necessário conhecer o potencial e a capacitação humana, relacionamentos sociais, questões financeiras e aspectos geográficos, tópicos onde são incluídas também as estruturas das comunidades. E adaptar-se ao mundo virtual requer tempo, sobretudo ao analisar as dificuldades particulares da cultura onde o indivíduo se insere.
Nota-se assim, o choque cultural e sócio-econômico que envolvem as tecnologias da informação e comunicação. A falta da máquina e do acesso à internet é base de um debate ainda maior. Excluir digitalmente é afastar da informação imediata, do acesso ao conhecimento através dos milhões de sites de conteúdos interessantes, da manifestação e mobilização de opiniões e de todas as formas de comunicação virtual que acrescentam, desde a divulgação de conteúdos produzidos pelo indivíduo e a facilidade / agilidade para a conversação.
À medida que mais formas de comunicação, estabelecimentos de redes sociais, organizações comunitárias, debates políticos e tomadas de decisões políticas são atraídos para a mídia on-line, mais as pessoas sem acesso à tecnologia serão excluídas das oportunidades de exercer a plena cidadania (WARSCHAUER: 2006, p. 51).
Isto se deve, também, pela forte concorrência entre as empresas de tecnologias que, ao perceberem o mercado saturado ou atingir seus níveis estimados de vendas, oferecem novos recursos aos consumidores. A questão dos preços também é fator que acirra o debate, já que a maioria dos produtos tecnológicos, apesar das condições de pagamento oferecidas pelo comércio, é acessível para as classes média e alta em primeiro momento.
Depois que os mercados se saturam nos países desenvolvidos, as empresas e as indústrias muitas vezes procuram expandir-se para o mundo em desenvolvimento, mas, de maneira inevitável, visam a relativamente pequena classe média e alta desses países. É muito mais seguro – e, a curto prazo, mais lucrativo – para a Hewlett-Packard vender seus computadores pessoais já existentes para empresas em Xangai ou Pequim do que tentar desenvolver um tipo de computador inteiramente novo para a população da China e do mundo (WARSCHAUER, 2006, p. 98).
No contexto da exclusão digital, são vários os aspectos que causam essa supressão em relação o acesso à Internet como escolaridade, gênero, faixa etária, deficiências físicas, geografia e cultura. Expandir o acesso aos meios digitais não exige apenas a distribuição em massa dos aparelhos, mas a análise profunda de
cada um dos tópicos. De acordo com Warschauer (2006, p. 60), “a difusão de
qualquer tecnologia é um terreno conflituoso, e que a política de acesso a ela reflete questões mais amplas de poder político, social e econômico”.
É necessário compreender que a exclusão não se refere apenas à dificuldade na aquisição dos computadores ou aparelhos portáteis com conexão à internet, mas exige a adaptação das pessoas de grupos com diferentes hábitos ou crenças,
idades e níveis de educação. O relatório da Pingdom, por exemplo, mostrou que quatro em cada dez internautas têm menos de 25 anos de idade.
Conforme Warschauer:
O que é mais importante a respeito da TIC não é tanto a disponibilidade do equipamento de informática ou da rede de internet, mas sim a capacidade pessoal do usuário de fazer uso desse equipamento e dessa rede envolvendo-se em práticas sociais significativas (WARSCHAUER, 2006, p. 63-64).
Assim é possível compreender que a exclusão digital não se detém à falta do computador e que a produção em maior escala, com custos reduzidos ou por meio de políticas públicas, não bastariam para a inclusão efetiva dos indivíduos. Antes, é necessário analisar os principais aspectos que ocasionam a exclusão.