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O desenvolvimento combinado na Argentina : Milcíades Peña e a questão nacional

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Academic year: 2021

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Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH

Renato Cesar Ferreira Fernandes

O desenvolvimento combinado na Argentina

:

Milcíades Peña e a questão nacional

Campinas 2019

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O desenvolvimento combinado na Argentina:

Milcíades Peña e a questão nacional

Tese apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutor em Ciência Política

Orientador: Prof. Dr. Álvaro Gabriel Bianchi Mendez.

Este trabalho corresponde à versão final da Tese defendida pelo aluno Renato Cesar Ferreira Fernandes e orientada pelo Prof. Dr. Álvaro Gabriel Bianchi Mendez.

Campinas 2019

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Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Paulo Roberto de Oliveira - CRB 8/6272

Fernandes, Renato Cesar Ferreira,

F391d FerO desenvolvimento combinado na Argentina : Milcíades Peña e a questão nacional / Renato Cesar Ferreira Fernandes. – Campinas, SP : [s.n.], 2019.

FerOrientador: Álvaro Gabriel Bianchi Mendez.

FerTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

Fer1. Pena, Milciades, 1933-. 2. Industrialização. 3. Desenvolvimento nacional. 4. Trotskismo. 5. America Latina - História - Imperialismo - 1810-1960. I.

Bianchi, Álvaro, 1966-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: The combined development in Argentina : Milcíades Peña and the

national question

Palavras-chave em inglês:

Industrialization National development Trotskyism

Latin America - History - Imperialism - 1810-1960

Área de concentração: Ciência Política Titulação: Doutor em Ciência Política Banca examinadora:

Álvaro Gabriel Bianchi Mendez [Orientador] André Kaysel Velasco e Cruz

Gilberto Grassi Calil Bernardo Ricupero Fabio Mascaro Querido

Data de defesa: 12-11-2019

Programa de Pós-Graduação: Ciência Política

Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a) - ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0001-5738-6520 - Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/5848740692010723

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Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH

A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa da Tese de Doutorado, composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 12 de novembro de 2019, considerou o candidato Renato Cesar Ferreira Fernandes aprovado.

Prof. Dr. Álvaro Gabriel Bianchi Mendez Prof. Dr. André Kaysel Velasco e Cruz Prof. Dr. Gilberto Grassi Calil

Prof. Dr. Bernardo Ricupero Prof. Dr. Fabio Mascaro Querido

A Ata de Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA e na Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

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O trabalho numa tese é muitas vezes solitário. Porém, desde as minhas primeiras atividades acadêmicas, aprendi que, por mais individual que seja, o processo de produção do texto é sempre o resultado de um complexo jogo coletivo, de relações sociais que estabelecemos dentro e fora da universidade.

Nesse processo de produção coletiva, mas de responsabilidade individual, tenho muito a agradecer ao meu orientador, Prof. Dr. Alvaro Bianchi. Estamos trabalhando juntos há quase 15 anos. Agradeço as aulas, as orientações, as reuniões do grupo de pesquisa, as dicas e a paciência de trabalhar comigo durante todo esse período. Faço um agradecimento especial também a todos os membros do Laboratório do Pensamento Político da Unicamp por terem compartilhado leituras, debates e diversos momentos da vida de cada um. Todos eles foram importantes para que eu pudesse conseguir construir meu próprio caminho na pesquisa acadêmica.

Gostaria de fazer uma menção especial aos meus colegas universitários de Buenos Aires. A Diego Pereyra e ao Grupo de Estudios en Historia y Enseñanza de la Sociología do

Instituto de Investigaciones Gino Germani, no qual realizei um estágio de pesquisa de 3

meses e tive a oportunidade de entrar em contato com pesquisas diferenciadas na história da sociologia argentina. À toda a equipe de trabalho do Centro de Documentación e

Investigación de la Cultura de Izquierdas (CeDInCI), onde se encontram os manuscritos,

cartas e materiais pessoais de Milcíades Peña. A Daniel Ahumada pela estadia, pelas conversas, indicações e taças de vinhos e copos de cerveja compartilhados nas noites frias de Buenos Aires.

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Agradeço à CAPES pela bolsa de doutorado e ao programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Unicamp pela oportunidade de estudar e produzir minha tese num espaço tão importante para a produção acadêmica. É um lugar fundamental para a minha formação acadêmica, cultural e humana. Agradeço também a Red Macro pela bolsa concedida para minha estadia na Argentina. Ela foi fundamental para a investigação dos manuscritos e a realização de entrevistas.

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Kaysel pela participação na minha banca de qualificação. Suas interpretações, críticas e sugestões foram importantes para a reorganização do material e a continuidade da pesquisa e da escrita da tese.

Agradeço também aos meus amigos e camaradas de militância política. Meu trabalho, assim como o de Peña, busca relacionar a compreensão do mundo com a transformação dele. Em algumas ocasiões tive a oportunidade de conversar e debater esse trabalho com os camaradas com os quais eu divido meus sonhos por um outro mundo. Outras vezes, de forma tangencial, debates que fiz me ajudaram a jogar luz sobre problemas que ainda não havia percebido.

Agradeço a minha família: a minha mãe Ivani Luci, meu pai Jair Fernandes e meus irmãos que me apoiaram durante todo esse período de meus estudos. Foram fundamentais para a minha formação básica. Sem o apoio deles não teria sido possível construir o caminho que me fez chegar até o doutorado. Espero poder retribuir essa ajuda.

Por último, agradeço as pessoas mais especiais que surgiram na minha vida: minha companheira de lutas, ideias e amor Luciana Nogueira e nossa filha Sophia Nogueira Fernandes que nasceu junto com esse projeto de doutorado. Elas foram fundamentais na paciência, no estímulo e na força que me permitiram concluir a pesquisa. Foi com elas sempre ao meu lado que trabalhei nessa investigação e por elas que me engajo na pesquisa e transformação do mundo. Muito obrigado!

Sem dúvida alguma, a responsabilidade desse trabalho é apenas minha. Mas, como disse no início, apesar de ser um trabalho solitário, todas essas pessoas, dentro e fora da academia, constituíram as condições de produção para a minha escrita.

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Na história do pensamento político latino-americano, os anos 1950 e 1960 são marcados pelo surgimento de autores com temáticas nacionalistas e desenvolvimentistas. Na presente tese investigamos um dos autores argentinos mais marginalizados nesse debate, Milcíades Peña, e as elaborações do campo político e intelectual de esquerda no país, com destaque para a corrente trotskista. Peña escreveu uma obra centrada em problemas da história do país, desde o processo de colonização até a década peronista, e também na problemática da industrialização e o papel desse desenvolvimento econômico na questão da dependência nacional. Para ele, diferentemente de outros autores de sua época, como Rodolfo Puiggrós e Jorge Abelardo Ramos, a burguesia nacional e os seus representantes políticos, incluindo o peronismo, não defendiam uma política de soberania nacional e de desenvolvimento industrial. Ao contrário, eram os representantes de uma política de industrialização dependente, à qual Peña denominou pseudoindustrialização, que aprofundava as condições de atraso e subordinação ao imperialismo. O processo de modernização do país, muitas vezes qualificado como caminho de independência nacional por diversos pensadores da época, foi analisado por Peña como desenvolvimento combinado no qual há uma junção entre as forças produtivas mais avançadas, como no caso das indústrias que se concentravam na região de Buenos Aires, com a permanência de setores mais atrasados na economia, os quais Peña constatava na preservação do latifúndio e do tipo de produção agropecuária do país. Para ele, essas condições geravam uma classe dominante no país que usufruía desse atraso combinado e que, consequentemente, lutava por mantê-lo. Esse tipo de combinação era o fator que propiciava, por um lado, a ilusão de que a Argentina era o país do futuro e, por outro lado, a mantinha como uma nação do passado.

Palavras chave: Milcíades Peña; Trotskismo; Questão Nacional; Industrialização; América Latina

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In the history of Latin American political thought, the 1950s and 1960s are marked by the emergence of authors with nationalist and developmentalist themes. In the present thesis, we investigate one of the Argentine authors in this debate, Milcíades Peña, and the elaborations of the left political and intellectual field in his country, with emphasis on the Trotskyist current. Peña wrote a work centered on problems in the country's history, from the process of colonization to the Peronist decade, and also on the matter of industrialization and the role of this economic development in the matter of national dependence. In his opinion, unlike other authors of his time such as Rodolfo Puiggrós and Jorge Abelardo Ramos, the national bourgeoisie and its political representatives, including Peronism, did not advocate a policy of national sovereignty and industrial development. Rather, they were the representatives of a policy of dependent industrialization, which Peña called pseudoindustrialization, which deepened the conditions of backwardness and subordination to imperialism. The process of modernization of the country, often described as a path to national independence by various thinkers of his time, was analyzed by Peña as a combined development in which there is a junction between the most advanced productive forces, as in the case of industries that concentrated in the region of Buenos Aires, with the permanence of less developed sectors in the economy, which Peña verified in the preservation of the latifundia and of the type of agricultural production in the country. In his opinion, these conditions generated a ruling class in the country that enjoyed this combined backwardness and consequently struggled to maintain it. This kind of combination was the factor that provided, on the one hand, the illusion that Argentina was the country of the future and, on the other hand, kept it as a nation of the past.

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Introdução...10

Capítulo 1 – O trotskismo argentino e a questão nacional na época peronista...24

1. O primeiro trotskismo e o debate sobre a questão nacional na década infame...24

2. A corrente morenista frente ao problema nacional na década peronista...41

3. Argentina, um país atrasado...76

Capítulo 2 – Imperialismo e Industrialização: esboços sobre a questão nacional...79

1. A estrutura do livro sobre Imperialismo e Industrialização...80

2. Imperialismo e industrialização: o caráter combinado do desenvolvimento dos países atrasados...82

3. A industrialização como eixo do desenvolvimento capitalista...135

Capítulo 3 – A tragédia argentina em perspectiva histórica...138

1. O capitalismo colonial Argentino...146

2. Os processos de independência e o problema da revolução democrático burguesa na América Latina...186

3. Uma nação sem soberania: o domínio da oligarquia dependente...227

Capítulo 4 – Peña e os anos sessenta argentinos...292

1. O trotskismo contra Azul y Blanco: os significados do nacionalismo...295

2. O último trabalho com Moreno: a revista Estrategia...302

3. Da Estrategia à Revolução Cubana: polêmica com Frondizi e ruptura com Moreno...336

4. Fichas: uma revista à margem...372

Considerações Finais...450

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Introdução

Uma das críticas mais comuns ao marxismo foi a atribuição de um caráter “eurocêntrico” às suas teses: a teoria serviria para explicar o desenvolvimento capitalista na Europa, principalmente de seus países ocidentais (Inglaterra, França e Alemanha, p.ex.), porém não teria validade na interpretação dos países de outros continentes, pois sua teoria geral ignoraria as particularidades do desenvolvimento local. Nesse sentido, o marxismo seria limitado a explicar o desenvolvimento capitalista clássico: da passagem do feudalismo a pequenas cidades com manufaturas; das manufaturas à indústria; e assim por diante.

O marxismo latino-americano atravessou este mesmo dilema. Michel Löwy, por exemplo, afirmou que o marxismo por aqui “foi ameaçado por duas tentações opostas: o excepcionalismo indo-americano e o eurocentrismo” (LÖWY, 2006, p. 10). Essa tentação também é verdadeira para pensarmos o trotskismo, uma das vertentes do pensamento marxista. Poderíamos situar ela na tensão entre um pensamento cosmopolita (ou internacionalista) e um pensamento nacional.

Antonio Gramsci, em suas obras carcerárias, escreveu sobre essa tensão entre o processo internacional e o nacional. Para ele,

a relação “nacional” é o resultado de uma combinação “original” única (em certo sentido), que deve ser compreendida e concebida nesta originalidade e unicidade se se quer dominá-la e dirigi-la. Por certo, o desenvolvimento é no sentido do internacionalismo, mas o ponto de partida é “nacional”, e é deste ponto de partida que se deve partir. Mas a perspectiva é internacional e não pode deixar de ser. (GRAMSCI, 2000, p. 314).

Nessa perspectiva gramsciana, as teorias de Leon Trotsky, principalmente sua teoria da revolução permanente, eram um exemplo do ponto de vista cosmopolita de que o internacional era mais importante do que o nacional (Ibidem, p. 315)1. Gramsci foi um dos

que criticavam essa concepção. Diversos outros autores, como Nikholai Bukharin, por exemplo, afirmaram que Trotsky não levava em conta as particularidades de cada situação nacional nas suas teorias (BUKHARIN, 1972, p. 105). Partindo dessa crítica, muitos teóricos

1 Diversos autores vão polemizar com essa interpretação gramsciana de Trotsky. Dentre eles, vale destacar Bianchi (2008) e Del Maso (2016).

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e analistas do pensamento trotskista consideravam que as teses básicas dessa corrente política ignoravam as particularidades e singularidades do desenvolvimento nacional e/ou regional e por isso não poderiam compreender a questão nacional.

Neste trabalho, pretendemos demonstrar como o pensamento trotskista latino-americano, em particular o pensamento de Milcíades Peña, seguiu o caminho contrário dessa crítica: partindo das teses gerais do trotskismo tentou traduzir (em sentido gramsciano) e desvendar a questão nacional. Como veremos, ele não foi o único no seu tempo, mas é parte de uma geração de pensadores trotskistas argentinos como Antonio Gallo, Liborio Justo, Nahuel Moreno, Jorge Abelardo Ramos, entre outros, que buscaram interpretar a nação e a América Latina partindo das teses do desenvolvimento desigual e combinado e da revolução permanente de Leon Trotsky.

A partir da sua estadia no México, em 1936, Trotsky desenvolveu diversas análises sobre o país e a região latino-americana. Essas análises estão compiladas em seus Escritos

Latinoamericanos (2007) que junta artigos, cartas e esboços produzidos por Trotsky entre

1937-1940 e que abordam a região. Nessa mesma época, militantes trotskistas também elaboraram sobre a região, cabendo destaque ao artigo Los países del Caribe de Diego Rivera,

Problemas nacionales e Qué ha sido y adonde va la revolución mexicana de Octavio

Fernández – textos publicados na revista Clave publicada entre outubro de 1938 e maio de 1940. Apesar dessas elaborações, em entrevista a Mateo Fossa, Trotsky criticou o trabalho intelectual do movimento trotskista da região que se ocupava mais de falar de Trotsky e menos dos países que deveriam ser estudados (TROTSKY, 2007, p. 114).

Essa crítica geral de Trotsky não revelava a vitalidade intelectual do movimento trotskista, pois assim como no México, os trotskistas de países como o Brasil e da Argentina buscavam interpretar não somente os principais fatos da conjuntura, nem falavam “só de Trotsky”, mas procuravam explicar a gênese e o desenvolvimento da formação sócio-histórica nacional. O grande problema é que esse movimento de interpretação, no campo das ideias, se combinava como uma fraqueza no campo político no qual os trotskistas se localizavam na marginalidade. A combinação entre a marginalidade política e a vitalidade teórica das reflexões trotskistas sobre o desenvolvimento nacional teve um peso determinante para o futuro: se no início, o centro estava na elaboração teórica, na tradução do trotskismo como teoria para o país, aos poucos se deslocou para as questões de “política prática” e a

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interpretação ficou em segundo plano, como acessória, como mero complemento justificativo para ação. Como veremos, a história da corrente dirigida por Nahuel Moreno é um exemplo deste deslocamento entre teoria e política.

É nesse processo de transformação do trotskismo argentino que inserimos nossa interpretação de Milcíades Peña (1933-1965). Ele foi um intelectual militante que dedicou a sua obra a entender a formação histórica do país e seu processo de decadência. Vivenciou grandes crises nacionais como a ditadura militar de 1943, o ascenso e queda do peronismo e o golpe de 1955. Não foi um agente passivo, mas participou no campo político e intelectual para produzir as mudanças que considerava necessárias para o desenvolvimento nacional. Além disso, deixou um legado, por meio de livros e revistas nos quais buscou compreender esse processo de formação.

Peña escreveu sobre diversos problemas teóricos e políticos, mas, para nós, um eixo foi central em sua elaboração: a interpretação da história e da política nacional argentina. Nesse sentido, afirmamos que o pensamento de Peña foi um projeto de nacionalização do trotskismo, isto é, da proposição de uma interpretação do nacional a partir das teses do desenvolvimento combinado e da revolução permanente2. Em suas reflexões sobre a

industrialização, o peronismo, a questão agrária, a revolução cubana, o movimento operário, entre outros temas, o problema central que atravessa cada um dos processos é o caráter combinado do desenvolvimento argentino. Combinação que interpretava o atraso junto ao avançado, o nacional junto ao internacional, as questões democráticas junto às questões do socialismo.

Vida e obra

Milcíades Peña foi um intelectual autodidata que nunca terminou o secundário. Ainda jovem, aos 14 anos, aderiu à corrente trotskista dirigida por Nahuel Moreno3, quem, junto a

outros militantes, havia fundado o Grupo Obrero Marxista (GOM) em 1943. A partir da participação nas lutas políticas e sindicais, o grupo ganhou influência em alguns setores

2 Trabalho com a ideia de nacionalização do trotskismo a partir das reflexões de Ricupero (2000) sobre a nacionalização do marxismo realizada por Caio Prado Jr.

3 Nahuel Moreno é o pseudônimo de Hugo Bressano (1924-1987), principal dirigente do Partido Obrero

Revolucionario (POR) que se transformará, a partir de 1956, em Palabra Obrera. No campo de estudos do

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operários e cresceu em número de militantes. Peña começou a militar no morenismo nesse momento de crescimento e expansão. Em dezembro de 1948, a corrente mudou seu nome de GOM para Partido Obrero Revolucionario (POR), contando com 55 militantes (GONZÁLEZ, 1995, p. 157). Peña, com apenas 15 anos, foi eleito para o Comitê Central do POR.

Para firmar-se enquanto organização, os dirigentes do POR realizaram uma tentativa de elaboração sobre a história e a situação política e econômica da Argentina. Peña foi um colaborador ativo nesse processo de formulação que resultou em textos importantes para sua formação intelectual como as Cuatro Tesis sobre la colonización española y portuguesa, as

Tesis Agraria, as Tesis Industrial. Como diz Moreno, numa entrevista em 1974, “Peña

colabora comigo, é meu ajudante e meu grande amigo também nesta época” (MORENO apud GONZÁLEZ, 1957, p. 179. Tradução nossa)4.

Além de ajudar na formulação, Peña desempenhou diversas funções no partido, entre elas a de ministrar cursos: aos 17 anos, deu um curso sobre O Capital de Karl Marx para operários que participavam do POR.

Apesar dessa relação com o POR, Peña foi aos poucos se afastando da militância cotidiana da corrente. Desde o início dos anos 1950, o POR tinha girado suas atividades para a intervenção no movimento operário e Peña, que era mais um quadro intelectual, acabou ficando secundarizado na própria organização. O afastamento orgânico ocorreu entre 1953-1956, momento de crise do peronismo que culminou no golpe de setembro de 1955.

Este momento de afastamento foi de grande produção teórica para Peña: seu manuscrito sobre Imperialismo e Industrialización, que analisaremos no capítulo 2, e sua obra mais conhecida, Historia del Pueblo Argentino, no capítulo 3, foram em grande parte produzidas nesse interregno da militância. Podemos dizer que a militância no morenismo entre 1947-1953 serviu como matéria-prima para a sua produção intelectual posterior. Foi neste período também que Peña ampliou seu leque de relações políticas e intelectuais se aproximando, por exemplo, de Silvio Frondizi e do grupo Praxis.

A volta à militância na corrente morenista, em 1956, iniciou uma outra fase de produção intelectual para Peña. Se antes ele era um colaborador de Moreno, a partir daqui ele passou a produzir por conta própria, ainda que associado, nesse primeiro momento, ao

4 Optamos por traduzir todas as citações que foram incorporadas no texto com o objetivo de facilitar a leitura. A maior parte de nossa bibliografia está em espanhol. Já as citações em separado, optamos por deixá-las na língua original.

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morenismo. É justamente nesse momento, como veremos no quarto capítulo, que Peña editou a revista Estrategia e buscou firmar-se como um intelectual no campo político de esquerda.

Porém, acumulando diversas contradições e problemas com a corrente morenista, Peña começou a tomar um caminho independente da mesma. A ruptura pública é de janeiro de 1959, em sua polêmica com Frondizi. No entanto, antes disso, Peña já havia tomado um caminho por si próprio. Um exemplo disso é o curso de introdução ao marxismo (PEÑA, 2007) ministrado em 1958 para estudantes da universidade.

O curso foi paradigmático em dois sentidos. Nele, Peña se utilizou de obras pouco conhecidas na intelectualidade marxista argentina nessa época, como os Grundrisse e os

Manuscritos econômico-filosóficos de Karl Marx, além de autores considerados como

marxistas heterodoxos: Henri Lefebvre, Isaac Deutscher e Wright Mills. A partir do curso, Peña conformou um grupo de estudantes que vai acompanhá-lo até o seu principal projeto, a revista Fichas de Investigación Económica y Social (1964-1966) – a qual constitui nosso objeto de análise apresentado no último capítulo desta tese.

Se considerarmos que Peña viveu apenas 32 anos, podemos afirmar que sua obra foi bastante vasta. Historia del Pueblo Argentino é uma análise histórica documentada em polêmica contra historiadores liberais, revisionistas e marxistas com mais de 500 páginas. Peña publicou também algumas dezenas de artigos, espalhados entre os jornais da organização morenista e revistas como: Revista de la Liberación, Estrategia, Fichas, entre outras. Há ainda escritos inéditos ou transcrições de cursos de formação, como o curso de introdução ao marxismo, citado acima, e alguns capítulos inéditos de um livro sobre industrialização (TARCUS, 1996, p. 433–434)5.

As questões levantadas nas obras históricas e políticas de Milcíades Peña, de acordo com Tarcus (1996), foram retomadas por diversos historiadores e intelectuais posteriores a ele como o estudo clássico de Munis e Portantiero sobre o peronismo (2004), e estrangeiros, como o de Peter Waldmann (1981). Apesar de ser referência, inclusive em cursos de graduação de história na Argentina6, não houve uma retomada acadêmica (e muito menos

política) da obra de Peña. Por seu histórico (autodidata, sem formação nem carreira

5 Encontramos no Centro de Documentación e Investigación de la Cultura de Izquierdas (CeDInCI), em Buenos Aires, esses “capítulos inéditos”. Ao todo são quase 500 páginas datilografadas e revisadas sobre o problema histórico da industrialização no capitalismo e sua particularidade na Argentina.

6 Em conversa com estudantes da Universidad de Buenos Aires, Peña é uma das leituras sobre a interpretação do peronismo na disciplina da graduação sobre história argentina.

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acadêmica, militante da extrema esquerda, etc.), não era uma “fonte ‘citável’ no mundo acadêmico” argentino (TARCUS, 1996, p. 30). Peña foi e continua sendo um autor marginalizado política e intelectualmente.

O estudo mais exaustivo sobre a obra de Peña é o de Horacio Tarcus, El marxismo

olvidado en la Argentina: Silvio Frondizi y Milcíades Peña (1996). Neste estudo, Tarcus

procurou reconstruir a concepção histórica de Peña como uma perspectiva trágica e enquadrá-lo numa “corrente subterrânea” do marxismo, junto com Silvio Frondizi, que serviu de subsídio à “nova esquerda” argentina dos anos 1960 e as pesquisas acadêmicas a partir dos 70. Este trabalho de Tarcus foi essencial na nossa tese e, em diversos momentos, utilizamos o mesmo em nosso processo de interpretação de Peña. Porém, nosso trabalho se difere da perspectiva de Tarcus em diversos pontos: enquanto ele enfatiza a perspectiva trágica de Peña, nós buscamos recuperar sua articulação entre o desenvolvimento combinado, a teoria trotskista, e a realidade local, latino-americana e argentina, no processo que denominamos de nacionalização do trotskismo argentino.

Para estudar essa articulação, foi necessário pensar no processo de produção e circulação dos escritos políticos e intelectuais. Quando Antonio Gramsci discute a importância da imprensa (editoras, jornais, revistas, etc.), ele considera como elemento mais importante a vinculação entre a atividade de imprensa e a formação de organizações políticas e associativas que influenciem a vida social (GRAMSCI, 1999a, p. 235). Outros autores, da história intelectual, por exemplo, discutiriam isso a partir das relações entre produção, circulação e recepção das ideias do autor (TARCUS, 2013). Se utilizarmos este critério, a influência das ideias de Peña não foi pequena, ainda que tenha sido bastante difusa: de acordo com Tarcus, três gerações de militantes de esquerda (trotskistas, alguns peronistas e comunistas) foram formados através do estudo da obra do autor entre os anos 1960-80, principalmente sobre o tema do peronismo e da colonização; o Partido Revolucionario de los

Trabajadores, na década de 70, utilizou suas obras nos cursos de formação política, entre

outras pequenas agrupações políticas (TARCUS, 1996, p. 305). Mas será após sua morte que as investigações de Peña serão apropriadas, principalmente nos estudos históricos acadêmicos, estrangeiros ou nacionais (Ibidem, p. 307).

Pensando na circulação e na recepção, podemos citar a influência em um importante economista argentino, Jorge Schvarzer (1975), que trabalhou com Peña desde a revista Fichas

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e foi o editor de suas obras póstumas, principalmente de sua história da Argentina. Em seus livros dos anos 1970, como El capital imperialista, no qual utiliza o pseudônimo Victor Testa, o mesmo utilizado por Peña em seus artigos de Fichas, é clara a presença em suas ideias e investigações.

Consideramos que dois temas se destacaram na obra de Peña. O primeiro foi a concepção do desenvolvimento combinado para a explicação da formação social da Argentina. Um segundo foi a concepção da nação argentina como tarefa, isto é, não como um dado, como um conjunto de elementos, mas como um projeto político que tem sua gênese combinada às origens do modo de produção capitalista no país.

O desenvolvimento combinado

A origem da tese do desenvolvimento desigual e combinado está nas elaborações de Trotsky. No primeiro capítulo de sua História da Revolução Russa, intitulado “Peculiaridades do desenvolvimento da Rússia”, ele afirmou que

O desenvolvimento desigual, que é a lei mais geral do processo histórico, não se revela, em nenhuma parte, com maior evidência e complexidade do que no destino dos países atrasados. Açoitados pelo chicote das necessidades materiais, os países atrasados se veem obrigados a avançar aos saltos. Desta lei universal do desenvolvimento desigual da cultura decorre outra que, por falta de nome mais adequado, chamaremos de lei do desenvolvimento

combinado, aludindo à aproximação das distintas etapas do caminho e à

confusão de distintas fases, ao amálgama de formas arcaicas e modernas. (TROTSKY, 2007, p. 21. Sublinhado pelo autor)

A base teórica de Trotsky era a questão das relações entre o desenvolvimento russo e as classes sociais. Desde a primeira revolução russa, Trotsky questionava os marxistas russos sobre a combinação entre os sujeitos e as tarefas do desenvolvimento nacional. Considerando que a Rússia chegou atrasada no desenvolvimento histórico, o desenvolvimento capitalista do país combinava o atraso feudal representado pelo campo russo, por costumes e tradições, mas também pelo poder do Czarismo e sua nobreza, com o mais alto desenvolvimento econômico industrial e financeiro. A Rússia, como procura demonstrar Trotsky, combinava a barbárie no campo com a tecnologia na cidade (Ibidem).

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Nessa compreensão, a ideia do desenvolvimento desigual não era uma novidade. Marx, em sua Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política já havia elaborado a importância de considerar a desigualdade como elemento importante do desenvolvimento do capital. Lenin, em sua obra O desenvolvimento do capitalismo na Rússia insistiu no processo de desenvolvimento desigual. A novidade em Trotsky era justamente o

desenvolvimento combinado: a relação de necessidade formulada por ele entre o avanço e o

atraso no processo histórico dos países dependentes como a Rússia e das nações do continente asiático e da região da América Latina. Dessa relação de combinação, Trotsky interpreta a possibilidade de que o desenvolvimento nacional russo não passe necessariamente pela fase de desenvolvimento capitalista clássico, tal como havia acontecido na Inglaterra ou nos Estados Unidos. Diferentemente de Marx, para Trotsky os países mais desenvolvidos não mostravam para os dependentes a imagem de seu futuro, pois esse futuro, em razão da combinação, era diferente daqueles.

Foi a partir da concepção de desenvolvimento combinado que Trotsky afirmou que o futuro nacional estava nas mãos do proletariado russo, ainda que suas tarefas fossem, num primeiro momento, democráticas, isto é, aquelas relegadas para a burguesia dos países mais desenvolvidos.

Trotsky considerou o desenvolvimento combinado como uma lei histórica. Duas considerações são necessárias para interpretarmos esse caráter de lei. O primeiro é que como o próprio autor afirmou, no mesmo parágrafo citado, as leis do processo histórico não têm nada em comum com “o esquematismo pedante”, no sentido de uma aplicação linear (Ibidem). Um segundo elemento, é que quando Milcíades Peña faz referência ao desenvolvimento combinado, não utiliza o termo “lei”. Isso se explica porque, para o historiador argentino, o marxismo “rejeita todo determinismo sobre-humano” e, nesse sentido, despreza todas as tentativas sociológicas (e diríamos também históricas) de reduzir a sociedade a um conjunto de leis “mecânico-fatalistas” (PEÑA, 2014, p. 67–69)7. Em

determinado sentido, ainda que não idêntico, a compreensão expressa por Trotsky do desenvolvimento desigual e combinado é de uma regularidade no processo histórico que tem

7 Nahuel Moreno, seguindo as formulações de Novack, vai tentar generalizar a tese de Trotsky para uma “teoria” que abarcaria não somente o desenvolvimento histórico, mas também outras áreas do conhecimento como a filosofia, a biologia, a pedagogia, etc., aproximando as teses de Trotsky da compreensão de desenvolvimento infantil de Jean Piaget (MORENO, 2007b).

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seu alcance ampliado com o desenvolvimento do capitalismo e da economia mundial. Com isso, queremos dizer que o capitalismo não repete sua história em nenhum país, porém, na época imperialista, o modo de produção capitalista, pela necessidade de seu autodesenvolvimento, se insere em cada um dos países do globo.

O desenvolvimento combinado para Trotsky era o que explicava também as particularidades nacionais. Numa polêmica contra Stalin, Trotsky critica a ideia de que “o internacionalismo dos partidos comunistas” baseava-se nos traços mais gerais do capitalismo defendida por Stálin. Para Trotsky, na “realidade as particularidades nacionais representam em si uma combinação dos traços fundamentais da economia mundial” e Stálin não compreende que “aquelas peculiaridades nacionais são precisamente o produto mais geral, e aquele em que, para dizer assim, se resume tudo do desenvolvimento histórico desigual” (TROTSKY, 2005b, p. 403–404).

Um intelectual estadunidense, George Novack (1905-1992), ao estudar a formulação do desenvolvimento desigual e combinado na história, afirmou que, para Trotsky, as peculiaridades nacionais não são simplesmente frutos da sua própria singularidade, já que na época da economia-mundo capitalista, elas são o produto da combinação entre esse singular e o processo mundial do capitalismo (NOVACK, 2008, p. 44–45). Dessa forma, as tendências mais gerais do processo histórico, ao encontrarem condições materiais e históricas diferenciadas em cada canto do planeta, geram um desenvolvimento desigual nos ramos da economia, da cultura, da política e da ideologia que, por sua vez, originam combinações particulares em cada nação.

Para compreender esse processo de desenvolvimento combinado, poderíamos formular a seguinte pergunta: como as leis mais gerais do autodesenvolvimento capitalista se materializam nas condições materiais herdadas em cada nação? É por isso que a industrialização, apesar de uma necessidade do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, não é igual em todos os países: ela depende das classes que existem em cada país; depende da infraestrutura urbana e de transporte; depende das forças políticas existentes.

Para Peña, o processo histórico da formação social argentina é marcado pelo desenvolvimento combinado. Desde sua colonização voltada para o desenvolvimento da metrópole, passando por sua independência e por sua industrialização. Em todos esses momentos históricos, o atraso das forças sociais ou das condições materiais em relação ao

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processo mais geral de desenvolvimento histórico é uma marca constitutiva do nacional. É dessa forma que chegamos na tragédia nacional.

A nação como uma tarefa a se cumprir

O conceito de nação é uma novidade histórica construída entre os séculos XVIII e XIX. De acordo com Hobsbawn, é especialmente a partir de 1830 que o “princípio da nacionalidade” começa a aparecer com frequência no discurso político. E a associação se dava principalmente entre “nação”, “povo” e “Estado” (HOBSBAWN, 2008, p. 31).

Diversos autores marxistas trabalharam com o conceito de “nação”. De um lado, Otto Bauer expôs uma leitura mais “cultural” do conceito8, enquanto Stalin e também Lenin

trabalharam com o sentido mais político, principalmente das nações imperialistas em contraposição às nações oprimidas9.

Entre as epígrafes do início de Historia del Pueblo Argentino, Peña cita o liberal argentino Juan Alberdi que se refere ao problema nacional do seguinte modo: “para nós a Nação Argentina não é uma realidade já conquistada, mas uma tarefa que temos adiante” (ALBERDI apud PEÑA, 2012, p. 33). Mais adiante, na mesma obra, em uma nota de rodapé na qual Peña recupera os elementos que considera interessantes na obra de Domingo Sarmiento e Alberdi, ele afirma que:

Para nosotros, marxistas revolucionarios, que queremos construir una gran nación argentina soberana y socialista, unida al resto de América Latina, con ese potente instrumento histórico que es la clase obrera, Sarmiento y Alberdi, con su programa para el desarrollo nacional y sus luchas, tienen una fresca actualidad. Para nosotros, como para Alberdi y Sarmiento, la Nación Argentina es una tarea. La Nación Argentina que ellos programaron está todavía por hacerse; con otra estructura y otros instrumentos, bien entendidos. (PEÑA, p. 379-380. Nota 52)

A “Nação Argentina” não está feita, mas por fazer-se ainda. Peña afirma isto em 1957. Isto é, a nação não é somente um problema moderno na Argentina, mas contemporâneo para Peña. Para ele, a tarefa era justamente construir essa nação soberana e socialista.

8 BAUER, Otto. La cuestión de las nacionalidades y la socialdemocracia. Madrid: Siglo XXI, 1979.

9 LENIN, V. I. Sobre o direito das nações à autodeterminação. In.: LENIN, V. I. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-omega 1986, volume 1, p. 509-556.

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O sentido atribuído à palavra “tarefa” nos parece estabelecer uma relação aqui com o sentido de “programa”, muito semelhante ao que foi utilizado por dirigentes políticos marxistas como Lenin, Trotsky e Moreno. Por tarefa, Peña unifica a compreensão histórica com a política: a Argentina se parece com uma nação, porém ela não conseguiu apresentar-se, por razões que vamos analisar, como um país soberano no sistema mundial imperialista, devido à ausência de uma revolução nacional burguesa. A ausência dessa revolução deixou problemas, contradições internas, que é preciso que sejam resolvidas para que o país complete seu ciclo nacional. É nesse sentido que a tarefa é histórica e política, se materializando num conjunto de medidas políticas e econômicas que um determinado partido político (“os marxistas revolucionários”) conduzem apoiados no movimento de uma (ou mais) classe(s) social(-is) – a classe operária e dos chacareiros, no caso de Peña, na Argentina.

É a partir dessa visão mais geral, a nação como um programa a ser realizado, que analisaremos os textos de Peña. Não é casual que a nação seja um tema central de sua obra: Peña escreveu Historia del Pueblo Argentino, sua principal obra, num momento em que o principal projeto político nacional argentino, o peronismo, tinha sido derrotado com o golpe de setembro de 195510. Apesar da derrota, Perón afirmava ter realizado uma verdadeira

“revolução nacional”, o que foi contestado por Peña em sua obra. Para Peña, o peronismo foi o “governo do como se”: se apresentava como revolucionário, porém não era; se apresentava como anti-imperialista, porém não era, entre outras características. Porém, o peronismo só era um dos representantes mais importantes de uma característica do país, já que a própria história e política nacional argentina também tinha essa característica do como se:

La Argentina es el país del “como si”. Durante muchos años lució como si fuera un país moderno en continuo avance, pero en realidad iba quedando cada vez más atrasado en relación a las naciones industriales; luego, desde 1940 hasta 1955, pareció como si la población toda se tornase cada vez más próspera, pero en realidad el país se descapitalizaba velozmente día tras día, y mientras se iba quedando sin medios de producción se atiborraba de heladeras, de telas y de pizzerías. (...) En fin, el peronismo fue en todo y por todo el gobierno del “como si”. Un gobierno conservador que aparecía como si fuera revolucionario; una política de estancamiento que hacía como si fuera a industrializar el país; una política de esencial sumisión al

10 Em 16 de setembro de 1955, após meses de crise política, os militares realizaram um golpe de Estado, obrigando Perón a renúncia em 19 de setembro de 1955 e sua consequente partida para o exílio.

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capital extranjero que se presentaba como se fuera a independizar a la nación, y así hasta el infinito… (PEÑA, 1964c, p. 73–74).

Como veremos, nos capítulos que seguem, o elemento mais importante no entendimento da questão nacional, para Peña, foram as relações entre as classes sociais, sobretudo entre as classes dominantes. Assim como Trotsky em sua interpretação da Rússia no período anterior à revolução, Peña trabalhou sobre a compreensão de como essas classes sociais interagiam com o desenvolvimento nacional. Em praticamente todos os seus estudos, com poucas exceções, a análise dele está voltada a estudar a origem e a dinâmica das classes dominantes. Isso não significa um desprezo às classes subalternas, ainda que o peso histórico que Peña tenha dado às ações delas seja secundário. Secundário por sua própria compreensão de que, no período ao qual desenvolveu seu pensamento sobre a questão nacional, a classe trabalhadora argentina não se apresentou na arena política do país como um agente da mudança.

Peña sustentou um enfoque histórico que se centrava na tragédia nacional das classes dominantes argentinas: dado o caráter de dependência dessas classes dominantes ao longo da história, não houve, até o surgimento do proletariado, nenhum projeto capaz de construir a nação soberana.

Sobre esse tema, da escolha de fazer uma “história a partir de cima”, como foram a historiografia e as análises de Peña, nos parece interessante a reflexão do historiador inglês Perry Anderson. Debatendo com a ideia em voga, nos anos 1970, da “história a partir de baixo”, uma história dos subalternos, ele afirmou que: “Uma ‘história a partir de cima’ - do intrincado mecanismo da dominação de classe – surge, portanto, como não menos essencial que uma ‘história a partir de baixo’: na verdade, sem aquela esta última torna-se enfim unilateral (embora do melhor lado)” (ANDERSON, 2004, p. 11).

Sobre a tese

Nosso trabalho se insere numa linha da história política do pensamento político com forte inspiração na compreensão de Gramsci. Seguimos aqui a indicação de Alvaro Bianchi de que todo “pensamento político e historiográfico deve ser concebido como um movimento na luta política dos partidos” (BIANCHI, 2014, p. 7). Para nós é importante trabalhar o contexto

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e o texto de forma combinada pensando sempre que essa relação se insere num campo de relações de forças ideológicas e políticas. Por isso, a análise das condições de produção das obras de Peña são importantes para entendermos sua elaboração.

A nossa divisão de capítulos se insere nessa metodologia: em quais condições do campo intelectual Peña produziu sua obra? Quando falamos de campo nos referimos a ideia de Pierre Bourdieu que não basta interpretar o texto por si próprio ou buscar as relações entre o texto e o contexto, mas que entre cada ideia elaborada e determinada por condições específicas há um campo de forças e de lutas entre os diversos agentes para “conservar ou transformar esse campo de forças” (BOURDIEU, 2003, p. 22-23)11. Nossa tese é de que Peña

inicia sua produção numa espécie de “subcampo”, o do pensamento político da extrema esquerda, principalmente trotskista, e trava uma luta intelectual para adentrar no campo mais amplo da intelectualidade de esquerda argentina e também na acadêmica. Suas elaborações estão inseridas nessa tentativa de encontrar um espaço nesse campo político e intelectual e nossa escrita foi pensada na combinação da interpretação dos debates que permeavam esse campo intelectual com a compreensão das ideias de Peña.

No primeiro capítulo, procuramos reconstruir as formulações e os debates dos trotskistas argentinos sobre a questão nacional, com um destaque especial para a concepção de Nahuel Moreno. Dada a influência de Moreno no trotskismo argentino e, particularmente, nas elaborações de Peña, é inevitável a questão: era Peña um morenista? A ideia de recuperar suas formulações não é somente para tornar mais plausível uma resposta a essa questão, ou simplesmente fundamentá-la, mas também para reconstruir as condições de produção em que Peña desenvolveu seu trabalho.

O segundo capítulo é uma análise dos manuscritos sobre Imperialismo e

Industrialización escritos por Peña e nunca publicados – a opção da interpretação e

compreensão desses manuscritos, tal como está descrita no capítulo, é devida ao fato de serem estes os primeiros escritos mais orgânicos de Peña. Consideramos que eles são as bases para as formulações posteriores e mais conhecidas de Peña.

O terceiro capítulo tem como centro a obra Historia del Pueblo Argentino. Esse é o livro mais conhecido de Peña. Nele, há uma análise documentada dos principais fatos do

11 Apesar de trabalharmos com a ideia de campo de Bourdieu, utilizamos ela de modo mais livre, na localização dos autores e suas posições políticas em determinadas conjunturas. Já o campo para Bourdieu entra também na análise das instituições e da circulação e reprodução nas mesmas.

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desenvolvimento combinado argentino. Nossa interpretação esteve focada na compreensão de quais são as contradições nacionais que Peña identifica no processo histórico e como se materializa o que ele chama de tarefas dos revolucionários frente a essas particularidades nacionais.

O quarto e último capítulo está voltado à análise dos textos de Peña enquanto intelectual independente: as revistas Estrategia, Liberación Nacional y Social, Revista de la

Liberación e Fichas. Esse é o capítulo no qual nos voltamos para a questão central da ruptura

de Peña com Moreno e com o morenismo. É também onde se delineia as principais questões e aquilo que consideramos a síntese de seu pensamento sobre a questão nacional: a polêmica com Jorge Abelardo Ramos sobre a burguesia industrial e a liberação nacional.

Na reconstrução dessa trajetória histórica, um problema permanece como questão chave: como Peña passa de um intelectual subordinado para aparecer no campo histórico da nova esquerda como intelectual profissional? Em determinado sentido, pensando na contradição histórica do trotskismo, da secundarização da elaboração nacional frente à primazia da intervenção política, a trajetória de Peña justamente assume o caminho divergente a esse. Porém ela assume um destino trágico: Peña formulou uma interpretação sobre a realidade nacional e um programa para intervir nela sem conseguir apoiar-se numa intervenção política sustentada. Apesar da trajetória, não conseguiu transformar-se em um intelectual orgânico.

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Capítulo 1 – O trotskismo argentino e a questão nacional na época

peronista

Neste primeiro capítulo vamos analisar o processo de debate sobre a questão nacional no interior do movimento trotskista argentino. O centro da nossa análise serão as formulações da corrente dirigida por Nahuel Moreno, conhecida como tradição morenista, da qual Milcíades Peña integrou.

Na primeira parte faremos uma análise dos debates nos anos 1930, principalmente do debate entre Antonio Gallo e Liborio Justo sobre o desenvolvimento do capitalismo argentino e o problema das tarefas democráticas e socialistas no país.

Na segunda parte, nos focaremos numa análise dos debates presentes na corrente morenista, principalmente nas suas elaborações sobre a história argentina e também sobre a questão agrária e industrial.

Investigar as primeiras tentativas de nacionalização do trotskismo é importante pois elas foram as fontes da elaboração de Peña: considerando que sua formação marxista aconteceu no interior da militância trotskista, pois foi cumprindo suas tarefas de estudo na organização morenista que formulou suas próprias concepções histórico-políticas (TARCUS, 1996, p. 110). Isso não quer dizer que suas formulações possam ser limitadas às da corrente trotskista, mas trabalhamos com a tese de que há um vínculo entre uma e outra, considerando que Peña manteve um diálogo permanente com as elaborações do trotskismo argentino.

1. O primeiro trotskismo e o debate sobre a questão nacional na década infame

O movimento trotskista teve seu início nos anos 1920, enquanto corrente política, com a organização da Oposição de Esquerda internacional, transformando o que era uma oposição

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interna ao Partido Comunista da União Soviética, em uma agrupação internacional12. Na

Argentina, os primeiros grupos vinculados à Oposição de Esquerda surgiram no final dos anos 1920 e início da década de 1930.

De acordo com a maioria dos historiadores, esses grupos, apesar de participarem da vida política de sindicatos e do campo intelectual, não conseguiram ter uma influência efetiva nos movimentos políticos e sociais da década de 1930. Para González, historiador da corrente morenista, a característica comum dos grupos neste primeiro período, entre 1929-1943, “foi a instabilidade e falta de consolidação (...) que nunca conseguiram reunir mais que a um punhado de militantes, em sua maioria intelectuais antistalinistas.” (1995, p. 57). Outro historiador do movimento trotskista argentino, Osvaldo Coggiola, compartilhou dessa mesma caracterização ao afirmar que eram grupos com “uma dezena de membros cada um” (2006, p. 29) e que estes grupos se sentiam mais partes de um “movimento internacional”, a corrente política trotskista, do que eram propriamente um grupo nacional. Nesse sentido, neste primeiro período da história do trotskismo argentino, a força de coesão dos grupos estava vinculada ao sentimento de pertencimento a este movimento internacional de luta contra o stalinismo e o capitalismo, mais do que sua inserção intelectual, política e social na arena nacional.

Apesar desse marco histórico, os trotskistas argentinos tentaram desenvolver sua própria identidade por meio da ação política e do desenvolvimento de um pensamento político próprio. Nesse sentido, os principais dirigentes intelectuais dessa primeira etapa do trotskismo argentino foram Antonio Gallo e Liborio Justo. E foi entre eles que se desenvolveu a principal polêmica: qual é o peso da bandeira de “liberação nacional” no programa de ação trotskista? Como demonstra Alicia Rojo, o debate sobre essa bandeira remete muito mais do que a uma “simples” palavra de ordem, pois envolve uma problemática, já que debater se é válido ou não defender a liberação nacional argentina da submissão ao imperialismo, significa uma compreensão sobre o “caráter da revolução e das tarefas que esta devia enfrentar na Argentina (…) [e] a análise da natureza do país, sua relação com o imperialismo, a relação entre as classes sociais, sua localização com respeito às tarefas da revolução” (ROJO, 2010).

12 Para uma história da oposição de esquerda ver Bensaïd (2008), Broué (2007, p. 563–586; 713–743) e Goussev (1994).

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O debate da “liberação nacional” nos primeiros trotskistas argentinos foi o principal marco da história da corrente no país. De acordo com Coggiola, esse debate marcou profundamente as correntes nos “primeiros 15 anos de história” deixando marcas que caracterizam o desenvolvimento posterior do trotskismo argentino (COGGIOLA, 2006, p. 19). Numa entrevista nos anos 1970, Jorge Abelardo Ramos, que militou no movimento trotskista entre o final dos anos 1930 e início dos 1950 – e foi também um grande opositor das ideias de Peña – fez uma conexão direta entre as polêmicas dos anos 1930 e a obra de Nahuel Moreno e Peña:

Gallo sostenía que la Argentina era ya un país capitalista, razón por la cual la contradicción fundamental era burguesía versus proletariado, motivo por el cual había que dejar de lado toda consigna referida a la liberación o independencia nacional. Ese punto de vista lo iban a recoger, en el trotskismo organizado, Hugo Bressano (es decir, El Gato Moreno) y Milcíades Peña. (RAMOS, 2006b)

Nessa primeira parte, buscaremos recuperar as elaborações de Gallo e a polêmica com Liborio Justo – os dois utilizavam pseudônimos: Gallo utilizou A. Ontiveros, enquanto Justo era conhecido como Quebracho. A reconstrução da polêmica nos servirá de base para comprovar nossa tese de que Moreno e Peña se apoiaram e recuperaram essas formulações posteriormente.

1.1. Antonio Gallo e as primeiras elaborações sobre a realidade argentina

Em determinado sentido, Antonio Gallo, assim como Liborio Justo, poderiam ser classificados como “trotskistas esquecidos” ou “marginalizados” na história da esquerda argentina e, inclusive, na história do trotskismo argentino. Para Horacio Tarcus, a ideia de

marxista olvidado para designar tanto a Milcíades Peña, quanto a Silvio Frondizi, significa

afirmar que esses autores “caminharam contra a corrente de certas tendências epocais”, principalmente das tendências hegemônicas na esquerda argentina, nas quais predominava o comunismo stalinista, até o início dos anos 1940, e o peronismo posteriormente (TARCUS, 1996, p. 14). Essa marcha à contracorrente se aplica também pela própria trajetória posterior de Gallo e, principalmente, de Justo: os dois abandonaram a militância na corrente trotskista nos anos 1940. Gallo abandonou a militância revolucionária em geral, tornou-se um assessor

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na ONU; enquanto Justo continuou a militar intelectualmente no interior do marxismo, produzindo obras sobre a história argentina, a revolução boliviana de 1952, etc., porém foi um intelectual solitário. A ruptura com o movimento trotskista foi central para pensarmos o destino de suas ideias no interior do trotskismo argentino: por mais que ambos tenham sido personagens centrais no período formativo do movimento, a “heresia” de romper com o trotskismo produziu um “apagamento” de suas ideias e uma ausência de referência13.

Antonio Gallo pode ser classificado como o primeiro intelectual trotskista argentino. Militante do Partido Socialista (PS) desde os anos 1920, tomou contato com o trotskismo na Espanha, numa viagem junto com outros dirigentes socialistas para conhecerem a situação após a proclamação da república espanhola, em 1931. De volta para a Argentina, junto com outro ex-dirigente do PS, Héctor Raurich, Gallo começou sua militância no movimento trotskista local.

Já nesses primeiros anos de militância, Gallo desenvolveu suas primeiras análises sobre a realidade nacional, sendo pioneiro na produção de literatura trotskista nacional. Em 1933, publicou Sobre el movimiento de septiembre, uma obra que analisa o golpe do general Uriburu em 6 de setembro de 1930. No livro, além de fornecer uma explicação sobre o golpe no marco da teoria trotskista da revolução permanente, Gallo polemizou com outras correntes políticas e intelectuais como os socialistas e comunistas sobre o significado do golpe. O segundo livro foi publicado em 1935, ¿A dónde va la Argentina?: ¿frente popular o lucha por

el socialismo? e já representa uma polêmica mais forte com a concepção comunista de frente

popular, votada no congresso da Internacional Comunista de 1935, e também com setores que rompiam com o Partido Socialista Argentino e conformavam o Partido Socialista Operário, tendo como principal dirigente Benito Marianetti.

Em 1928, Hipólito Yrigoyen se elegeu para seu segundo mandato presidencial – o primeiro tinha sido entre 1916-1922. Yrigoyen quebrou o monopólio presidencial dos conservadores e foi o primeiro presidente eleito pela Unión Cívica Radical (UCR). Foi um presidente bastante popular e em seu primeiro mandato combinou medidas democráticas e progressivas, como a Reforma Universitária, a criação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales

13 Peña tentou reestabelecer o trabalho intelectual com Liborio Justo nos anos 1950, mas não obteve sucesso como veremos.

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(YPF) e o descanso dominical, com repressões brutais a movimentos sociais como a semana trágica em 1919 e a repressão na Patagônia entre 1920-1922.

Seu segundo mandato aconteceu numa conjuntura totalmente diferente, principalmente pela crise econômica de 1929 que afetou diretamente a Argentina que dependia da exportação de produtos agropecuários e viu o mercado internacional se fechar com a crise. É neste contexto internacional que ocorreu o golpe de 1930 contra Yrigoyen. De acordo com Gallo, o golpe foi organizado por dois setores: um setor democrático, civil, que se apoiou em movimentos estudantis e dos setores médios e um setor fascista representado pelo general Uriburu e com base no exército (1933, p. 31). Ambos os setores lutaram para implementar seu projeto nacional e o resultado dele, de acordo com Gallo, foi a implementação de uma democracia fraudulenta, com a vitória do setor democrático sobre o fascista. Esse período, que inicia com as eleições em 1933, ficou conhecido como “década infame” na história argentina.

Em sua análise do golpe, Gallo fez algumas caracterizações sobre o desenvolvimento político e econômico argentino e uma própria caracterização do significado da liberação nacional. Retomando a ideia de Lenin, de que existem “formas variadas de países dependentes que, dum ponto de vista formal, político, gozam de independência, mas que na realidade se encontram envolvidos nas malhas da dependência financeira e diplomática” (LENIN, 1986b, p. 639), Gallo afirmou que o Estado nacional argentino era um estado dependente (GALLO, 1933, p. 9) e complementou:

Arribamos de tal modo a la Argentina de nuestros días, país de tipo intermedio, transitorio, semicolonial, en que, predominantes la gran propiedad rural, latifundista y la producción agropecuaria, emparentan íntimamente con la industria y el capitalismo urbanos, comúnmente sometidos, en mayor o menor gradación, al capitalismo monopolista internacional. (1933, p. 11)

A essa definição geral de um país semicolonial, Gallo acrescentou a ideia de que a Argentina era um “país semicolonial avançado” (Ibidem, p. 25). Considerar que é um país semicolonial, mas avançado, significava afirmar que existiam diferenças com outros países semicoloniais – como Lenin dizia, variadas formas de dependência. Gallo enfatizou duas diferenças principais em relação a outros países atrasados: a alta porcentagem do proletariado

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no conjunto da nação – 30% segundo o autor – e a alta taxa de urbanização – 71% de população urbana (GALLO, 1935, p. 51).

Essa combinação, para Gallo, era própria do desenvolvimento desigual e combinado formulado por Trotsky para explicar a formação social russa: o processo de desenvolvimento dos países atrasados combina diversas temporalidades do desenvolvimento histórico, fundindo características avançadas com atrasadas (TROTSKY, 2007, p. 21). Nesse sentido, Gallo afirmou que:

La naturaleza económica argentina puede definirse, pues, como de un tipo intermedio entre el país adelantado de gran industria y el país colonial sin ninguna índole de industrias y hasta carente de toda independencia política formal, verbigracia, entre Norteamérica y la India o las Filipinas. Predomina la gran propiedad rural latifundista y la producción agropecuaria capitalista moderna, junto a importantes industrias para el consumo interno y la exportación. (1935, p. 51)

Como veremos, diferenciar a Argentina de outros países atrasados é uma característica comum a diferentes autores, incluindo a Peña que recuperará as formulações de Ernst Wagemann, economista e estatístico alemão, que divide os países atrasados entre neocapitalistas e semicapitalistas (PEÑA, 1964g, p. 40). As “formas variadas” de dependência, caracterizadas por Lenin, é a base também para esse tipo de análise. O problema, do ponto de vista da elaboração da questão nacional, é como se traduz essa diferença entre semicolônias atrasadas e adiantadas na formulação da compreensão da realidade nacional – como se combina o desenvolvimento na arena da nação.

Para Gallo, em determinado sentido fazendo uma interpretação unilateral de Trotsky, as particularidades nacionais não são mais que a “combinação dos aspectos econômicos mundiais fundamentais” (GALLO, 1933, p. 60), isto é, são as características de desenvolvimento internacional que explicam as particularidades nacionais. Nesse sentido, a interpretação do golpe de 1930 e as perspectivas de desenvolvimento nacional argentino só podem ser entendidas sob a égide da contradição entre “comunismo” e “fascismo” no nível de desenvolvimento mundial. Para Gallo, nenhuma “democracia estável” poderia ser estabelecida na Argentina e, acrescentaríamos, baseados na interpretação de Gallo, em país algum (Idem, 1935, p. 34) – de acordo com Trotsky, a crise crônica do capitalismo nos 1930,

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geravam uma situação na qual o fascismo aparecia como uma perspectiva mundial para a burguesia imperialista (TROTSKY, 1933), mas o próprio diferenciava o papel que poderia ter o fascismo nesses países imperialistas e nos países atrasados como o México e, no nosso caso, Argentina (Idem, 2007, p. 110).

Para Gallo, o problema do imperialismo estava conectado à questão da burguesia nacional. De fundo, a tese do autor era que não existia uma burguesia nacional independente, nem com graus de autonomia. Nesse sentido, ele afirmou que “a luta contra o imperialismo é, em primeiro lugar, uma luta contra a burguesia nacional” (GALLO, 1935, p. 13). Pois o capital não era “estrangeiro”, mas internacional e mesmo a burguesia argentina estava vinculada com o capital financeiro internacional (Ibidem).

Nessa definição, de uma burguesia não independente e nem autônoma do capital financeiro internacional, Gallo afirmou que os interesses nacionais eram sempre os interesses de uma só classe, representada por um programa e uma política e nunca a combinação de uma política de classes (Ibidem, p. 13). Nesse sentido, Gallo parece desprezar a necessidade do proletariado resolver os problemas sociais vinculados não somente à contradição proletariado e burguesia, mas às outras classes sociais argentinas, como a pequena burguesia urbana e rural.

Um outro aspecto da leitura sobre a questão nacional em Gallo era sobre as tarefas democráticas no processo da revolução do proletariado. De acordo com o autor, as tarefas democrático burguesas estavam inconclusas:

expropiación y división del latifundismo, la anulación de las deudas exteriores, expropiación de las propiedades y la riqueza eclesiástica, etc.; pero estos problemas democráticos de la revolución socialista, emparentan estrechamente con la marcha de ésta como tal, imprimiéndole un

carácter de permanencia, que no pueden ser realizados ni solventados más

que por el proletariado, en todos los países, el nuestro comprendido. (Idem, 1933, p. 61. Grifos do autor. Negrito nosso)

Neste sentido, na “semicolônia avançada”, por mais que existam problemas democráticos que a burguesia não resolveu historicamente, esses não passavam de uma etapa da revolução socialista. Nessa interpretação, que para nós representa a base de diferenciação da compreensão de Liborio Justo, se abandonava a tese de Trotsky da combinação das

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revoluções burguesas e proletárias ou democráticas e socialistas. Nesse sentido, Trotsky respondia aos críticos de sua teoria, afirmando que ele nunca negou “o caráter burguês da revolução” russa. Mas esse caráter burguês, pelos fins históricos e imediatos, se combinava com a impossibilidade da burguesia russa em realizar sua própria revolução e, por isso, a força motriz da revolução seria o próprio proletariado (TROTSKY, 2005b, p. 445).

É neste enquadramento das tarefas democráticas como parte da revolução socialista que Gallo polemizou com a política de frente popular defendida pelo Partido Comunista

Argentino (PCA), com os socialistas do Partido Obrero Socialista (PSO) e com a Alianza Popular Revolucionaria Americana (APRA) do Peru. A polêmica central estava no debate da

relação entre imperialismo e burguesia nacional:

¿Cuál es la posición del aprismo? Alega que dadas las particularidades continentales la lucha debe ser emprendida por todas las clases del país contra el imperialismo – reemplazando la lucha de clases en el terreno interior y exterior contra las clases dominantes – servidoras y cómplices de la dominación del capital monopolista por una acción nacional frente al capital “extranjero”. Pero es evidente que en todos los países americanos existen también capitales nacionales que explotan a los obreros; que estos capitalistas son por lo general los gobernantes y que sacrifican, casi siempre, los intereses generales de la nación burguesa por las ventajas que de distintas formas reciben del capital monopolista. Es una utopía reaccionaria creer que esa gente pueda luchar contra quienes sólo tiene interés en servir. (GALLO, 1935, p. 46–47)

Dessa forma, a política de frente popular, ao aliar-se com os setores burgueses “democráticos”, representados na Argentina pela Unión Cívica Radical, não passava, para Gallo, de uma política reacionária, pois sacrificava os interesses do proletariado aos interesses de setores burgueses que estavam subordinados à burguesia imperialista.

Para Alicia Rojo, Gallo aplica corretamente a compreensão da dinâmica da revolução permanente e a compreensão de que o sujeito social dessa transformação é o proletariado, porém ele subestima o papel do imperialismo e também da possibilidade de conflitos entre a burguesia nacional e a burguesia imperialista (ROJO, 2010). Nesse sentido, nos parece bastante correta a afirmação de que ao “negar” as tarefas democrático burguesas e o próprio caráter burguês que se inicia a revolução na Argentina, ainda que sua dinâmica necessitasse ir além dessas tarefas e tenha como sujeito classes não-burguesas, Gallo abandonava a

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importância de se lutar pela liberação nacional, isto é, de lutar contra a subordinação ao imperialismo dos países coloniais (Ibidem).

Apesar de termos analisado as elaborações de Gallo, essa posição sobre a luta pela liberação nacional era compartilhada por outros intelectuais e dirigentes trotskistas. Entre eles Hector Raurich (1903-1963), que tornou-se trotskista junto com Gallo na Espanha e foi considerado o “mentor intelectual” dessa corrente trotskista (pelo seu papel no interior do grupo, mais do que pela produção teórica), e Reinaldo Frigerio – que nos anos 1950 se aproximará do grupo “comunista peronista” dirigido por Rodolfo Puiggrós. Mais à frente voltaremos a analisar essas posições e o próprio desenvolvimento da posição de Gallo na polêmica com Justo, de quem vamos nos ocupar agora.

1.2. Liborio Justo e a polêmica sobre a liberação nacional

Liborio Justo é uma figura particular na história do trotskismo. Nasceu em 1902, numa família oligarca – seu avô foi fundador da Sociedad Rural Argentina. Seu pai, o General Agustín P. Justo, foi presidente do país entre 1932-1938 – o primeiro presidente eleito após o golpe de 1930 no regime da “democracia fraudulenta” que deu início à década infame.

Liborio Justo, mais conhecido pelo pseudônimo de Quebracho, iniciou sua militância no PCA em 1935, durante a presidência de seu pai. Um ano depois rompeu com os comunistas e aderiu à corrente política trotskista. Foi no interior dessa corrente que desenvolveu sua polêmica com as posições de Gallo. O principal núcleo dessas polêmicas, como assinalou Alicia Rojo, foi escrito entre 1939-1940.

Polemizando com as teses de Gallo e Frigerio14, Justo afirmou em 1939 o seguinte:

Algunos compañeros que aún tienen que estudiar mucho, sostienen entre nosotros que el imperialismo no ejerce ninguna influencia deformadora en la economía de los países coloniales y semi-coloniales, llegando a afirmar que quien sostenga al contrario cae en “una teoría stalinista análoga al socialismo en un solo país” (JUSTO, 1957, p. 57)

14 A trajetória de Frigerio é de um zigue-zague: começou militando na mesma organização que Justo; rompeu e foi militar com Gallo; rompeu e foi militar com Puiggrós (TARCUS, 2007, p. 224–225).

Referências

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