Capítulo 1 – O trotskismo argentino e a questão nacional na época peronista
2. A corrente morenista frente ao problema nacional na década peronista
Milcíades Peña iniciou sua militância no trotskismo em 1947, aos 14 anos, ao entrar, conjuntamente a outros jovens do Partido Socialista, no Grupo Obrero Marxista (GOM) que tinha como principal dirigente Moreno (GONZÁLEZ, 1995). O GOM era o resultado de uma
25 A diferenciação entre os termos “unidade” e “identidade” é importante para entendermos toda essa polêmica. Identidade significaria que a burguesia nacional é a mesma que a imperialista, enquanto unidade significaria que são dois grupos diferentes que tem alguns (principais) interesses em comum.
ruptura de Moreno e de um grupo de jovens com o GOR de Liborio Justo. Essa ruptura data de 1943 e tem como texto-fundador um escrito de Moreno intitulado El partido (2010), que fazia um debate no interior do trotskismo argentino sobre as formas de fazer agitação, propaganda, política, entre outros temas que envolviam mais a militância prática do que o debate sobre a questão nacional.
Ao mesmo tempo que surgiu o GOM, se iniciava a década peronista. Em 4 de junho de 1943 os militares deram um golpe e conformaram o que Peña caracterizou como um governo bonapartista dos fazendeiros e do imperialismo inglês (PEÑA, 2012, p. 475). A diferença com outros golpes militares, tão comuns na história argentina como já havia sido notado por Gallo26, é a presença de um general com forte apoio sindical e com uma ideologia nacionalista
que marcou a história política do país: Juan Domingo Perón (Ibidem, p. 476). Nesse sentido, o período de formação e início das atividades do GOM e também de Peña são marcados pela necessidade de se compreender o fenômeno peronista e também de combatê-lo. Como notam diversos historiadores, a história da corrente morenista, da qual Peña participou a maior parte da sua vida militante, é permeada por viradas táticas em relação ao fenômeno peronista e isso se expressou em suas diferentes elaborações políticas e teóricas27.
Nessa parte, pretendemos analisar as posições políticas e teóricas da corrente morenista frente aos problemas nacionais e, particularmente, diante do peronismo – principal fenômeno da questão nacional do período. Essa investigação nos é necessária pois Peña militou organicamente na corrente morenista por aproximadamente 5 anos (1947-1952) e depois desenvolveu relações de colaboração com a corrente em dois períodos, entre 1953-55 e 1957-1959 – totalizando mais de uma década de relações com o morenismo. O nosso interesse nessa reconstrução da compreensão morenista está justamente em entender o quanto das formulações da corrente continuaram a ser base da reflexão de Peña em suas obras.
26 “Toda la época anterior a la organización nacional [hasta 1860] fué una guerra civil casi permanente. Y después de esta última hubo varios golpes de estado, el más importante de los cuales, por haber triunfado y sus consecuencias posteriores, es el de septiembre de 1930.” (GALLO, 1935, p. 35) – se olharmos a história posterior da Argentina, poderíamos incluir esse golpe de 1943, o de 1955, o de 1966 e o de 1976.
27 Poderíamos distinguir ao menos três fases: uma de oposição frontal, entre 1945-1954 (GOM e POR); uma segunda de entrismo no peronismo, de oposição no interior do movimento, entre 1954-1964 (Palabra
Obrera); e uma terceira novamente de oposição frontal com a conformação do Partido Revolucionario de los Trabajadores (PRT) em 1965.
2.1. As primeiras formulações: do Grupo Obrero Marxista ao Partido Obrero Revolucionario
De acordo com o historiador da corrente morenista, Ernesto González, a primeira elaboração de Moreno sobre a questão nacional é de 1942: sua carta de ruptura com o Partido
Obrero Revolucionario Socialista (PORS)28. Neste documento, Moreno defendia abertamente
as posições de Liborio Justo sobre a liberação nacional, afirmando que o imperialismo era “o principal opressor da pequena burguesia e do proletariado” e que a “liberação nacional” era a “confiscação sem indenização das empresas estrangeiras que controlam os pontos fundamentais da economia do país”, sendo que a classe operária era a única que poderia cumprir tal tarefa através da tomada do poder (MORENO apud GONZÁLEZ, 1995, p. 81).
A partir de 1943 inicia-se um novo momento na história argentina. Em 4 de junho, os militares realizam um golpe de Estado e colocam fim à década infame. Os motivos do golpe de Estado eram múltiplos, porém duas questões eram centrais: a Argentina que sempre esteve muito próxima da Inglaterra estava se aproximando dos EUA e tudo indicava que o próximo presidente iria concretizar essa aliança; os militares defendiam a posição de neutralidade frente à Segunda Guerra Mundial.
O principal destaque do governo militar surgido de 1943 foi a figura de Juan Domingo Perón que controlou diversos ministérios, entre eles a Secretaría de Previsión y Trabajo. Em 1945, após a pressão da oposição, Perón foi preso, mas uma manifestação massiva de trabalhadores, em 17 de outubro, consegue sua liberdade e abre caminho para as eleições democráticas que elegeram-no como presidente durante dois mandatos (1945-1955)29.
Desde 1943, o peronismo aparece como o nó da questão nacional argentina. É a partir dele que os intelectuais e políticos discutiram as questões nacionais tais como a industrialização, o imperialismo, a burguesia nacional, entre outros temas. Nesse sentido, a interpretação sobre a manifestação de 17 de outubro e a política frente a esta irrupção, é crucial para a identidade dos grupos políticos na Argentina. Tanto o PCA, quanto o PSA, consideraram que as massas foram manipuladas por Perón e pela burocracia sindical ligada ao
28 O PORS foi uma tentativa de unificação dos grupos trotskistas que existiam na Argentina em um só grupo – a exceção foi o grupo de Quebracho. Teve uma vida efêmera: fundado em 1941, se dissolveria em 1942, dando origem aos vários agrupamentos que predominaram no trotskismo argentino durante o peronismo. 29 Para a interpretação do surgimento do peronismo ver: Luna (1968), Gazzera (1997) e Plotkin (2007).
coronel e organizada na Central General de los Trabajadores (CGT) (PLOTKIN, 2007, p. 122–123).
Ernesto González afirmou que para o GOM foi “difícil compreender o processo que culminou em 17 de outubro de 1945” (GONZÁLEZ, 1995, p. 118). Esse difícil, em certo sentido, tem a ver inclusive com um lapso grande de tempo, já que em 1949, escrevendo sobre o acontecimento, Nahuel Moreno afirmou o seguinte:
En la movilización del 17 de Octubre, no hubo objetivos claramente obreros, o claramente anticapitalistas, ni la iniciativa y dirección del movimiento pertenecían al proletariado. Fue una lucha de camarillas que no pasó de eso. En esa movilización el proletariado atrasado salió a defender el orden burgués contra la propia burguesía. En ningún momento el proletariado dejó de ser utilizado, jamás pasó los límites fijados por los organizadores. (MORENO, 1949, p. 15)
Essa posição será sustentada também por Peña. Por exemplo, em 1961, polemizando sobre o significado de 17 de outubro, ele afirmou que
fué la única ocasión en que los trabajadores argentinos consiguieron alcanzar sus objetivos del momento sin mobilizarse como clase, sin emplear métodos revolucionarios, sin contar con dirección propia, tan solo sencillamente, sirviendo de masa de maniobra disciplinada y obediente a los generales, los burocratas, los políticos burgueses, los curas y los jefes de polícia que arreglaban sus cuentas con otros generales y otros políticos. (PEÑA, 1961, p. 43)
Dessa forma, a primeira interpretação da corrente morenista foi a de que o 17 de outubro era o resultado de uma luta de “camarilhas” que disputavam o poder e que o proletariado que se mobilizou massivamente pela camarilha peronista, não era mais do que uma “massa de manobra”. Nesse sentido, a interpretação da corrente morenista sobre o fenômeno peronista era de que essa era uma das alas tradicionais da classe dominante argentina. A diferença com a outra ala da classe dominante era que o peronismo manobrava o proletariado para conseguir seus objetivos, enquanto o outro setor de classe se apoiava apenas nos setores tradicionais da oligarquia e da camada política tradicional.
A interpretação de que o proletariado serviu como massa de manobra numa mobilização e que não agiu por seu próprio interesse era compartilhada pelos setores da União
Democrática, como o PS, o PCA e os Radicais que se opunham ao poder peronista. Nesse sentido, essa primeira caracterização sobre o peronismo não dava a devida importância da relação entre este movimento político e o proletariado que servia apenas de “massa de manobra” e era conquistado pela “demagogia” do general30.
Mas a caracterização do peronismo já havia aparecido em outros artigos do periódico do GOM, Frente Proletario. Por exemplo, no nº 1, o grupo caracterizava que a ala peronista “não é mais que um agente político da city de Londres” (GOM apud GONZÁLEZ, 1995, p. 126). No nº 3 do periódico, num artigo intitulado Perón y nosotros, essa caracterização é ampliada. Por exemplo, durante o governo militar, Perón dirigiu a Secretaría de Trabajo y
Previsión e a partir dela ampliou os direitos trabalhistas e ao mesmo tempo desenvolveu um
controle sobre o movimento sindical. Frente a isso, o GOM afirmou que a Secretaría de
Trabajo y Previsión não passava de um “fiel agente dos trusts” imperialistas (GOM, 1946b, p.
8). E acrescenta: “Perón é um típico governo bonapartista de uma época na qual a boa situação do país permitiu o progresso dos grandes trusts e de setores da burguesia e da pequena burguesia nacional” e polemizando com os setores que consideravam Perón como representante da burguesia nacional, afirmava que ele não era o “agente direto da burguesia nacional” mas o agente dos grandes trusts que são os setores mais fortes da economia (Ibidem, p. 9). Ou seja, Perón não era nacionalista, mas um subalterno do imperialismo inglês. A interpretação de que Perón era um “agente inglês” é bastante repetida em diversas análises realizadas pelo morenismo. Como veremos, essa análise será continuada por Peña. Posteriormente, a corrente morenista vai rever essa interpretação. Para González, essa não era a característica mais importante do peronismo e do problema nacional argentino nos anos 1940, já que o aspecto determinante do fenômeno peronista era a “relativa resistência à penetração do imperialismo ianque” (1995, p. 11) – porém, essa interpretação só será incorporada pelo morenismo a partir de 1954 (MORENO, 2012).
Ainda no texto Perón y nosotros, existem outros elementos importantes sobre a caracterização da questão nacional. Um deles é sobre a burguesia nacional e o processo de industrialização:
30 Por trás da compreensão de que o proletariado não agiu enquanto “classe” e que serviu como “massa de manobra” há uma concepção da história elitista. Pretendemos aprofundar este elemento quando discutirmos a compreensão de Peña sobre o peronismo.
La burguesía nacional no forma un todo compacto y homogéneo, está ligada de distinta manera a los grandes trusts extranjeros. Los ganaderos, principalmente de la provincia de Buenos Aires, a los trusts frigoríficos. Los dueños de leguas de tierra del Norte, en un momento al trust yanqui petrolero de la Standard Oil. De la misma manera, los burgueses nacionales de la seda se dividen en dos campos, los ligados al trust alemán-inglés Sedalana y los ligados al yanqui. Esto es consecuencia de que la economía argentina en su conjunto, y la industria principalmente, se estructura en la actualidad bajo la supervisión del imperialismo. (GOM, 1946b, p. 10)
Todo o processo de desenvolvimento das forças produtivas nacionais está submetido ao desenvolvimento de determinados setores do imperialismo, sem que haja uma autonomia da burguesia nacional nesse processo. E, no caso específico da Argentina, o imperialismo inglês é o “dominante na economia argentina” (Ibidem, p. 11). Dessa forma, ainda que seja admitida a possibilidade de conflitos entre a burguesia nacional e a burguesia imperialista, o marco estrutural desses era a submissão da burguesia nacional à imperialista – nesse sentido, nos parece uma mediação entre as formulações de Liborio Justo, que defendia a importância dos confrontos entre os setores nacionais e imperialistas, e a de Gallo que afirmava a submissão plena da burguesia nacional à imperialista.
A grande questão era que desde o final da primeira guerra mundial ocorreu um deslocamento do eixo capitalista mundial com a substituição da hegemonia imperialista inglesa (e europeia) pela hegemonia imperialista estadunidense (TROTSKY, 2008a). Esse processo de “câmbio de metrópole” para os países dependentes foi a base da explicação do GOM e de Moreno para Perón: aproveitando-se da decadência do imperialismo inglês e se apoiando na estrutura herdada dessa dominação, Perón resistia à penetração do imperialismo estadunidense (MORENO, 2012).
Em determinado sentido a tese de Moreno, assim como a de Peña, toma como base uma definição estrutural: como o desenvolvimento das forças produtivas nacionais, principalmente a industrialização, era um processo dependente da burguesia imperialista, do capital financeiro, não seria possível transformar esse tipo de desenvolvimento a não ser rompendo com os setores sociais que estavam ligados a ele, isto é, ao imperialismo e à burguesia nacional. Nesse sentido, a revolução socialista seria a única forma de se obter uma industrialização nacional e desenvolver as forças produtivas (GOM, 1946b, p. 11).
Para compreendermos essa definição da corrente morenista será necessário aprofundar a caracterização realizada em quatro documentos programáticos escritos pelo próprio Moreno, mas com a colaboração de outros militantes do partido, incluindo Peña. Esses documentos, como assinala González, foram escritos a partir de 1948 com a formação do Partido Obrero
Revolucionario (POR).
O primeiro documento que vamos analisar se intitula Cuatro tesis sobre la
colonización española y portuguesa en América escrito em 1948 para o congresso de
fundação do POR. O segundo documento foi publicado em 1952, La acumulación primitiva
en la Argentina e descreve os passos de desenvolvimento da economia argentina antes do
surgimento do capitalismo na Argentina. Os outros documentos são a Tesis agraria e as Tesis
industriales, escritos também em 1948 para o congresso de fundação e que analisam a
estruturação desses ramos econômicos na Argentina da época. Como forma de completar essa análise, desenvolveremos também uma pequena consideração sobre os textos publicados no periódico da corrente Frente Proletario no período de 1946-1954. Nesse, analisaremos principalmente os textos relacionados a Perón e à questão nacional.
Na análise desses documentos, uma recomendação de Moreno, num prólogo escrito em 1954 aos dois últimos documentos, nos parece pertinente:
los trabajos que prologo tienen el defecto característico de casi todos los documentos del G.O.M. y los primeros del P.O.R: una falta de síntesis dinámica, es decir, falta de visión de conjunto del movimiento y las contradicciones del agro argentino. Más que una película, nuestros primeros documentos han sido fotografías. (MORENO, 1954, p. 5)
2.1.1. Teses sobre a colonização da América
Entre os historiadores, sociólogos e intelectuais marxistas de meados do século XX, uma questão era certa: era impossível pensar os países americanos sem conhecer o tipo de colonização pelo qual passaram ao longo de mais de três séculos. Na Argentina não era diferente. Um dos pioneiros em pensar essa questão foi José Carlos Mariátegui, que publicou em 1928 Sete ensaios sobre a realidade peruana (2010). Na Argentina, Rodolfo Puiggrós foi um dos primeiros marxistas a publicar estudos mais aprofundados sobre a questão com sua obra de 1940: De la colonia a la revolución (1957b).
Neste debate, as teses sobre uma “colonização feudal” predominaram. Essa era a interpretação principal dos Partidos Comunistas do continente e era defendida por diversos intelectuais. Podemos dizer que a obra de Puiggrós é uma versão mais refinada dessa mesma tese, já que o autor apresenta uma análise histórica detalhada das relações sociais que predominaram nas colônias do vice-reino da Prata. As teses de Moreno justamente se contrapõem a esse ponto de vista da colonização feudal.
Em dezembro de 1948, Moreno escreveu um documento interno ao POR denominado
Cuatro tesis sobre la colonización española y portuguesa en América. Esse documento,
conforme o próprio autor afirmou anos mais tarde, foi publicado pela primeira vez em 1958 no primeiro número da Revista Estrategia, editada por Milcíades Peña.
Como nota para esta publicação, Moreno escreveu uma carta para Peña, na qual faz afirmações importantes sobre a composição de seu trabalho. Para ele, as Cuatro tesis eram o resultado de um trabalho coletivo, no qual Peña estava incluído – é importante salientar que Peña militava no POR e era integrante de seu comitê central em 1948. De acordo com Moreno, o sentido deste “trabalho coletivo” era triplo: era coletivo, pois era o resultado de polêmicas entre os trotskistas, principalmente no interior da organização; era coletivo, pois Peña tinha contribuído diretamente na pesquisa e na investigação em que Moreno se apoiou; e, por último, era coletivo pois, enquanto marxistas, os autores chegaram a resultados semelhantes aos de Bagú antes de conhecerem suas pesquisas (MORENO, 1958, p. 83)31.
Comentando a carta de Moreno, Peña não reivindica a autoria de Cuatro tesis, mas afirma que colaborou com Moreno em diversos trabalhos e diz sobre os trabalhos de Moreno que “há razões objetivas para considerá-los como os aportes mais valiosos feitos até hoje para a elaboração de um autêntico pensamento marxista latino-americano – e isto sem fechar os olhos às óbvias deficiências formais e de conteúdo” (PEÑA apud MORENO, 1958, p. 84).
O principal objetivo de Moreno, em suas curtas notas, consistia em criticar “uma metodologia e interpretação que se esconde sob o rótulo marxista e que não é” (Ibidem, p. 83). Para o autor, todo o marxismo latino-americano ainda estava em sua fase “embrionária”, o que significava que:
Ser marxista para ellos era fundamentalmente aceptar la existencia de las clases, la importancia del factor económico y en algunos la necesidad de la revolución obrera. Se limitaban después a aplicar el método positivista que habían aprendido en la Universidad y a cambiarle a la interpretación liberal su terminología por una marxista. Se conformaban con ser una mera superación formal, en los términos, de la ideología positivista liberal de los círculos intelectuales oficiales. (Ibidem, p. 83)
Um primeiro elemento a ser observado é que Moreno direciona sua crítica a José Carlos Mariátegui e a Rodolfo Puiggrós. De maneira contraditória, mas bastante clara, Moreno reivindica Mariátegui como “digno de admiração e respeito”, mas que ao mesmo tempo é um autor que não tem uma “verdadeira compreensão e metodologia marxistas”, chamando ele e outros autores de “positivistas marxistas ou neoliberais marxistas” (Ibidem)32.
Infelizmente, ao não citar os trabalhos de Mariátegui, Moreno não nos permite compreender o “que” tem de positivista em seus escritos. Como hipótese, dado o caráter do artigo de Moreno, as considerações sobre a existência de feudalismo na América Espanhola seriam suficientes para que ele chamasse Mariátegui de “positivista” - o que, por si só, é um exagero próprio da polêmica política. Soma-se a esse argumento as comparações que Puiggrós e Mariátegui realizaram sobre as colonizações inglesas e espanholas da América: para Moreno, ambos os autores substituíram categorias “econômicas” por categorias “raciais” (Ibidem, p. 83-84)33. A
crítica de Moreno a Mariátegui tinha como alvo Puiggrós e os setores à esquerda do PCA que reivindicava a obra do peruano.
Contrariamente à tese da colonização feudal por parte da Espanha, Moreno afirmou que:
La colonización española, portuguesa, inglesa, francesa y holandesa en América, fue esencialmente capitalista. Sus objetivos fueron capitalistas y no feudales: organizar la producción y los descubrimientos para efectuar ganancias prodigiosas y para colocar mercancías en el mercado mundial. No inauguraron un sistema de producción capitalista porque no había en América un ejército de trabajadores libres en el mercado. Es así como los colonizadores, para poder explotar en forma capitalista a América, se ven obligados a recurrir a relaciones de producción no capitalistas: la esclavitud o una semiesclavitud de los indígenas. Producción y descubrimiento por
32 O termo neoliberal se refere aos intelectuais que eram contrários às políticas intervencionistas do Estado no período do pós-II Guerra e não ao “neoliberalismo” tal como ele é conhecido após a década de 1970.
33A única hipótese plausível para entender esse ataque desmedido de Moreno a Mariátegui era a influência que este poderia ter no interior do trotskismo, ainda que Gallo e Peña (que critica e reivindica o mesmo) parecem ser os únicos intelectuais deste campo a citarem a obra do peruano.
objetos capitalistas; relaciones esclavas o semiesclavas; formas y terminologías feudales (al igual que el capitalismo mediterráneo), son los tres pilares en que se asentó la colonización de América. (Ibidem, p. 85)
É a combinação entre os objetivos capitalistas (produção para o mercado), as relações de produção escravistas e de semiescravidão e as formas e terminologias feudais que fizeram com que a formação social da colônia fosse diferenciada. Nesse sentido, como toda formação econômico-social, havia um predomínio de uma das formas produtivas: sobre as relações de semiescravidão e com formas feudais de distribuição de terra, predominava uma produção capitalista, isto é, voltada ao mercado mundial. Mas, isso não quer dizer que a sociedade argentina era capitalista, como veremos ao debater o processo de acumulação primitiva.
Antes de continuar, é necessário realizar uma pequena precisão conceitual: estamos trabalhando aqui com o conceito de “formação social” e não com “modo de produção”. Seguindo as definições de Gorender, podemos afirmar que o “modo de produção constitui