PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM LETRAS MESTRADO EM LETRAS - LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA
SINERES PAIXÃO
UM SUJEITO INSCRITO NO ROMANCE DE JOSÉ SARNEY
GOIÂNIA 2014
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM LETRAS MESTRADO EM LETRAS – LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA
Sineres Paixão
UM SUJEITO INSCRITO NO ROMANCE DE JOSÉ SARNEY
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Letras – Literatura e Crítica Literária, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, como pré-requisito para obtenção de título de Mestre em Letras - Literatura e Crítica Literária à Comissão Julgadora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
Orientadora: Prof ª. Dra. Lacy Guaraciaba Machado
GOIÂNIA 2014
Dados Internacionais de Catalogação da Publicação (CIP) (Sistema de Bibliotecas PUC Goiás)
Paixão, Sineres.
P149s Um sujeito inscrito no romance de José Sarney [manuscrito] / Sineres Paixão. – 2014.
88 f.; 30 cm.
Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras - Mestrado em Literatura e Crítica Literária, 2014.
“Orientadora: Profa. Dra. Lacy Guaraciaba Machado”. Bibliografia.
1. Linguagem e línguas. 2. Identidade. 3. Personagem. I. Título.
BANCA EXAMINADORA
__________________________________________ Profª Lacy Guaraciaba Machado (Presidente)
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
__________________________________________ Prof. Dr. Sávio Roberto Fonsêca de Freitas Universidade Federal Rural de Pernambuco
__________________________________________ Prof. Dr. Divino José Pinto
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
__________________________________________ Profª Dra. Maria Teresinha Martins do Nascimento
DEDICATÓRIA
A Deus, criador dos céus e da terra, toda honra e glória sempre.
AGRADECIMENTOS
A Deus, pelo dom da vida, pela oportunidade de retornar ao convívio acadêmico e pela coragem e determinação concedidas para enfrentar os obstáculos surgidos ao longo dessa jornada.
À minha família, pelo amor, incentivo e força manifestados em todos os momentos. À minha professora e orientadora, Dra. Lacy Guaraciaba Machado, pesquisadora de alma generosa, por suas leituras, sugestões e, principalmente, pela dedicação, carinho e paciência com que conduziu a orientação.
Aos professores, componentes da banca de qualificação, Dra. Maria Teresinha Martins do Nascimento e Dr. Divino José Pinto pelas valiosas contribuições fornecidas ao trabalho.
Aos meus amigos, companheiros de trabalho da SEMED/Ribamar, e do CE., Dr. Tarquínio Lopes Filho, pelo incentivo e apoio constante, que me fizeram acreditar num novo caminho.
PAIXÃO, Sineres. Um sujeito inscrito no romance de José Sarney. Goiânia, 2014. 88 p. Dissertação (Mestrado em Letras - Literatura e Crítica Literária) - Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras, Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
RESUMO
O objetivo desta pesquisa é analisar o romance O dono do mar, de José Sarney (1995), observando a construção do personagem Antão Cristório, na sua relação com os demais personagens e o contexto em que se situam. Adota-se como ponto de partida a constituição do sujeito visto como um ser de linguagem, que se move discursivamente, a sua atuação de protagonista e sua reação diante das diversas situações em que se inscreve. Observa-se a maneira como os sujeitos se constituem e se relacionam no percurso da narrativa, levando em conta a identidade representada pelo protagonista, sua relação com os outros personagens e com os valores que regem as crenças e condutas manifestadas. Analisa-se os fatores que norteiam a relação entre o personagem e o espaço narrado e, por último, identificam-se as imagens e os símbolos representativos das manifestações imaginárias que permeiam a ficção literária e o que elas representam na constituição do personagem protagonista.
ABSTRACT
The purpose of the research is to analyze the novel O dono do mar, by José Sarney (1995), observing the construction of the role Antão Cristório, in his relationship with the other roles and the context they are in. The constitution of the subject observed as a being of language is used as the starting point of the analysis. The subject that uses the discourse, the typical hero attitude and the reaction before several observed situations. They way how the subjects are and relate to others during the story, considering the identity represented by the protagonist, his relationship with the other roles and his values that lead the revealed beliefs and behaviors are observed. The elements that guide the relationship between the role and his space are analyzed, and lastly the images and the representative symbols of the imaginary manifestations that are the literary fiction and what they represent in the constitution of the protagonist are identified.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 08
I TRAÇOS DE IDENTIFICAÇÃO DA VIDA PESQUEIRA ... 12
1.1 Dimensões do sujeito ... 15
1.2 A identidade do sujeito marcada pela vida marítima. ... 30
II A BUSCA DE SI NO ESPAÇO ... 41
2.1 Em busca da linguagem dos espaços ficcionais ... 42
2.2 Representação do espaço ficcional no romance ... 54
III O PERSONAGEM E OS SÍMBOLOS IMAGINÁRIOS ... 62
3.1 A travessia literária dos elementos simbólicos ... 63
3.2 O sujeito, o mar e o barco: um triângulo no universo imaginário ... 74
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 84
O objetivo geral desta pesquisa é analisar o romance O dono do mar, de José Sarney (1995), observando a construção do protagonista Antão Cristório, na sua relação com os demais personagens e o contexto em que se situam. Do ponto de vista metodológico, adota-se como ponto de partida a constituição do sujeito visto como um ser de linguagem, que se move discursivamente, levando em conta sua atuação como protagonista e sua reação diante das diversas situações em que se inscreve. Demonstra-se que a obra aborda a temática relativa à construção da identidade de um povo refém de circunstâncias caracterizadas por arquétipos simbólicos e que o movimento dos personagens revela traços que valorizam e resgatam costumes, crenças e mitos. Destaca-se que a centralidade da narrativa gira em torno de um pescador que se defronta com situações inerentes à condição humana, em busca de sua realização plena. Esses aspectos motivaram-me ao interesse da escolha do romance O dono do mar como objeto desta dissertação. Ao longo deste estudo, designa-se essa obra como ODM.
Além dessas características, evidencia-se no objeto literário que há uma aproximação entre narrador e o personagem protagonista no espaço aquático que revela o uso da linguagem numa tentativa de tradução da vida de um sujeito. Nesta perspectiva, foram selecionados três objetivos específicos para esta pesquisa: observa-se a maneira como os sujeitos se constituem e se relacionam no percurso da narrativa, levando em conta a identidade representada pelo protagonista, sua relação com as demais personagens e os valores que regem as crenças e condutas manifestadas; analisam-se os fatores que norteiam a relação entre o personagem e o espaço narrado, e por último, identifica-se as imagens e os símbolos representativos das manifestações imaginárias que permeiam a ficção literária e o que elas representam na constituição do personagem protagonista.
A fundamentação teórica principal desta pesquisa terá como referência estudos de Michel Foucault, Edouard Delruelle, Mircea Eliade e Stuart Hall, pois as reflexões desses autores dialogam sobre a constituição do sujeito na sociedade moderna, sobre o perfil das identidades desses sujeitos e sobre as principais concepções de sujeito que marcaram a trajetória da humanidade no sentido de representar, de imaginar e de criar o pensamento do sujeito sobre o próprio sujeito. Partindo das formulações desses teóricos, outros estudiosos fornecerão subsídios
de implementação analítica entre a relação sujeito/personagem, espaço e símbolos imaginários, situados no universo da linguagem e do imaginário literários.
Ao se centrar nas fontes teóricas citadas, defende-se a hipótese de que o sujeito ficcionalizado em ODM é um ser moldado nos costumes e tradições e sua forma de agir e interagir pela linguagem implica permanências, razão pela qual essas mudanças, no campo da linguagem, as permanências ou impermanências que arrastam consigo os mananciais do passado. Assim, na narrativa em estudo, as ações vividas pelo personagem protagonista inscrevem-se em uma classe social específica, um povo com suas singularidades. Nesta perspectiva, cabe perguntar se se trata de uma narrativa das travessias marítimas, situando os sujeitos em busca de suas raízes, de uma identidade em construção, a partir do encontro com o outro.
Em função da representação dessa identidade, observar o pescador, sua constituição histórica, mitológica, pelo viés do discurso narrativo, significa olhar para o profundo do ser, olhar também para o que está externo ao personagem. Evidencia-se esse olhar em dois processos: o individual e o social em que se vê o sujeito fragmentado, mobilizado pelo ideológico. Estes processos parecem ser sustentados por certas concepções de mundo, crenças e imagens pertinentes ao universo da linguagem e do imaginário.
Com esses propósitos, este estudo será composto de três capítulos: com o título “Traços de identificação da vida pesqueira”, desenvolve-se o primeiro capítulo, tendo como suporte teórico os conceitos de sujeito apresentados pelas visões filosóficas e literárias, referentes aos traços identitários típicos do personagem central da obra. Subdivide-se este em dois tópicos: “Dimensões do sujeito”, no qual são apresentadas algumas concepções teóricas sobre sujeito, e em que concepção o personagem protagonista se constitui. O segundo, “A identidade do sujeito marcada pela vida marítima”, no qual se aborda conceitos de identidade e cultura e de que forma as dimensões sociais e culturais interferem nas ações do protagonista. Nas leituras feitas para compor esse capítulo, entende-se que todos desempenham um papel, uma função em uma comunidade, em um espaço como e com os sujeitos, então, constroem-se uma linguagem discursiva. O discurso que caracteriza esses sujeitos é visto como uma interlocução estabelecida entre eles, uma ação partilhada, que os conduz a questionamentos. Compreende-se também, que as noções de sujeito e de identidade estão intima e necessariamente
interligadas, pois todo sujeito tem uma identidade e essas identificações individuais se fortalecem diante daquilo que já foi vivido pelas coletivas.
Ao longo do segundo capítulo, “A busca de si no espaço”, as considerações focam-se em Cristório, personagem protagonista do romance ODM, e também na relação que há entre ele e o espaço da narrativa. Subdivide-se em dois tópicos que contém: “Em busca da linguagem dos espaços ficcionais”, trata-se do diálogo estabelecido entre alguns teóricos sobre as concepções espaciais e a “Representação do espaço ficcional no romance”, serão analisadas as descrições espaciais e a forma como contribuem para a construção identitária de Cristório e do romance maranhense proposto por José Sarney.
Com o título “O personagem e os símbolos imaginários”, o terceiro capítulo compreenderá a análise de imagens simbólicas e o que elas representam na constituição do protagonista. Até o momento, observa-se que no processo representativo do enredo há forte presença de dados simbólicos incluindo objetos míticos, místicos e crenças populares, que favorecem o sentido significativo da construção do discurso e seus efeitos simbólicos no romance.
A partir da leitura atenta, observa-se também que a obra tem suas particularidades, apresenta personagens que representam um mesmo pertencimento cultural. A influência desse contexto tem uma relevante significação que faz da obra um elo de importância dentro do processo literário na qual é produzida. Por essa razão, a obra ODM torna-se porta voz de um personagem pouco ouvido na história literária: o pescador, que se mostra como promessa de riquíssima contribuição para o campo literário brasileiro e estrangeiro, pois ao dar voz a esse grupo e a outros considerados até então excluídos, é que se poderá de fato reconhecer a produção literária maranhense ao pertencimento do conjunto da cultura nacional.
Nesse contexto, também é possível detectar no romance analisado que o ponto de vista do narrador abarca valores e ideias tradicionais e modernos, real e ficcional, da história e da memória. O narrador, neste caso, assume a função de recuperar uma parte da história dos pescadores do Maranhão, de organizar um recorte dessa história de forma que possa ser sentida como uma representação da humanidade geral. Diante de tais concepções que referencializam este estudo, tem-se o entendimento de que o personagem protagonista está intem-serido num tecido discursivo que mimetiza o cultural e também o universal, explorados pela voz
narradora. Como esses fatores influenciam na constituição de identidade que o personagem representa? Para responder essa questão, aborda-se em todo corpo desse estudo, a ideia de sujeito, de identidade atribuída a de cultura, de espaço.
O homem é um bicho diferente. Ele tem o pensamento e tem conversa que a gente não sabe como elas flutuam dentro da gente.
(SARNEY).
O referencial teórico será discutido via conceituação de sujeito que se realiza como personagem pelas visões filosófica e literária. Para analisar o modo como esse sujeito se constitui no percurso narracional, foi necessário recorrer aos teóricos Michel Foucault, Edouard Delruelle, Stuart Hall, Roberto Machado e Terry Eagleton. Ao tratar das relações entre os envolvidos no discurso narrativo que dá conta das complexidades do mundo moderno, da diversidade das linguagens e da sociedade, considera-se a temática do homem modernamente social que se busca conhecer no reconhecimento da sua relação com o outro, “representado artisticamente” (TODOROV, 1979, p. 135).
O olhar que foi lançado sobre o referido objeto de estudo sustenta-se na perspectiva discursiva, mas quando se trata da literatura tal como refletida em termos de Teoria e Crítica Literária, depara-se com uma questão historicamente discutida, o que leva ao ponto de que a literatura imita o real e, a outro que a separa. Então, subdividiu-se este capítulo em dois tópicos: no primeiro, “Dimensões do sujeito”, faz-se um breve histórico sobre os conceitos de sujeito/identidade como categoria teórica, que ao longo do tempo vem sendo modificado de acordo com o pensamento ocidental. O segundo trata do processo de identificação do sujeito, mediante a constituição identitária do personagem, a relação entre personagem/pessoa vinculado em certa medida à ideia de herói, e sua constituição no percurso narrativo.
Assim, em ODM, a voz narradora cria e adentra no corpo e na alma do personagem, mostrando com toda força ao interlocutor essas convicções. Já no segundo capítulo do romance narra-se a história do nome do sujeito protagonista, exemplificando a postura que a identidade adquire numa comunidade. Depois do nascimento, o pai do menino e a parteira dona Turinda conversam sobre o nome do protagonista:
– Qual é o nome do menino? –Tornou a perguntar Isidoro a dona Turinda.
– Dona Turinda, nossa folhinha não tem nome de santo. Isso era do tempo antigo. Mas eu tenho um Almanaque de Bristol aqui guardado e vou olhar. Depois a gente conversa sobre isso. A coisa agora é enrolar o menino e fazer um chá pra Natividade descansar. Dona Turinda, quantos filhos a senhora já teve?
– Pois é, seu Isidoro, eu já tive muito filho, mas se tivesse mais um, e fosse homem, eu botava o nome de Antão.
– Mas a senhora não me disse pra colocar o nome do santo da folhinha?
– Eu disse, porque o filho é seu.
– Pois eu boto, pra fazer o gosto da senhora. Vai ser Antão. Dona Turinda, certa vez eu pensei no mar em botar Cristo o nome de um filho, mas pensei que era jogar cruz nas costas dele. Então pensei de novo e achei que Cristório seria o nome sem ser o nome. Eu botava, Cristo sabia que era por ele, mas o povo não sabia.
– Então, seu Isidoro, por que o senhor não bota o nome de Cristório? – Não, já disse à senhora que era Antão, já tá ferrado. É Antão. – Por que o senhor não coloca Antão Cristório?
– Pois posso concordar.
Dona Turinda saiu para casa, não sem antes anunciar aos vizinhos, batendo nas casas onde passava: “Natividade pariu. É outro homem. Antão Cristório” (SARNEY, 1995, p. 24-25).
Percebe-se que o diálogo entre os personagens revela uma condição defendida pelos teóricos aqui apontados, a de que o sujeito é constituído pela sociedade, essencialmente, por meio da linguagem. Culturalmente, antes do nascimento, os pais já pensam numa identificação para os filhos que estão por vir, já atribuem uma escolha do nome que vão colocar nos filhos. De acordo com Hall, essa identidade sofre a influência de diversos aspectos, mas está sempre relacionada a uma suposta unidade. A natureza dessa identidade é também permeada pelo social. Esse exemplo confirma a ideia de Althusser, o sujeito antes de nascer já tem a sua história, a começar pelo nome. Segundo o autor:
Que o indivíduo seja sempre já sujeito, antes mesmo de nascer, é, no entanto a mais simples realidade acessível a qualquer um [...] Todos sabemos como e quanto é esperada a criança ao nascer [...] as formas de ideologia familiar/paternal/material/conjugal/fraternal, que constituem a esfera do nascimento da criança, lhe conferem antecipadamente uma série de características; ele terá o nome do pai, terá portanto, uma identidade, e será insubstituível (ALTHUSSER, 1985, p. 86).
Observa-se na perspectiva teórica, o conceito de sujeito aparece apenas como um recurso do discurso, pois mesmo antes do seu nascimento a ideologia já o converte em sujeito, ou seja, o ser humano é sempre sujeito. Em outros termos, o próprio sujeito é constituído para a sujeição ao modelo da sociedade no qual vive. O
autor ainda ressalta que “todo sujeito humano, só pode ser agente de uma prática se ele veste a forma de sujeito. A forma-sujeito é a forma de existência histórica de todo indivíduo agente das práticas sociais” (ALTHUSSER, 1985, p. 71), A construção da identidade de Antão Cristório circula pelos eixos do passado, ele passa a fazer parte de uma história já existente. Essa noção de forma-sujeito é recorrente também nas reflexões de Michel Foucault, dando lugar as articulações entre sujeito, história e discurso. Partindo desse conceito, apresenta-se um exemplo da narrativa que o sujeito Cristório interioriza, desde menino, os elementos existenciais de sua história e de sua cultura.
– Esse menino é como peixe, desde cedo gosta de água e não faz outra coisa senão olhar o mar e querer saber o segredo do salgado. Vamos levá-lo. O menino ajuda. É criança que tem dons.
Mal saíram, levantou-se um pé-de-vento sudeste que sacudiu a canoa e as ondas subiam em ladeiras grandes. Cristório não tinha temores. Segurava-se e enfrentava o mar e o vento como se fossem velhos conhecidos, e com eles mastreava.
Ele tinha que se acostumar a esses contrastes.
Ele levantou-se, apontou o rumo para o pai, e falou como velho navegante:
– Ali. É nessa direção (SARNEY, 1995, p. 27-30).
No discurso narrativo, os personagens tecem um diálogo que passa a caracterizar o menino Cristório, apontando elementos existentes na cultura da comunidade. E, como se nota, a construção do discurso é feita na frente do próprio menino sujeito que está atento a compreensão de diversas possibilidades desse discurso. Para Stuart Hall, as identidades enquanto sujeitos integrantes de um contexto social englobariam diferentes modos de identificação, entre eles, o cultural, o religioso, o profissional, entre outros. Afirma-se que esses diferentes aspectos só se constituem em relação ao outro. Em relação ao fator cultural, o estudioso Terry Eagleton afirma que
O que a cultura faz é destilar a nossa humanidade comum a partir de nossos eus políticos sectários, resgatando dos sentidos o espírito arrebatado do temporal e imutável e arrancando da diversidade a unidade [...]. A cultura é uma forma do sujeito universal agindo dentro de cada um de nós (EAGLETON, 2005, p. 85).
O autor reconhece as raízes do sujeito na sociedade, onde se sente membro, sente-se em casa. Esse reconhecimento é uma identificação para o sujeito. Nesse sentido, exposto pela voz narradora, ao agir, esse sujeito universal passa por
diversas situações e, ao recordar e narrar essas vivências para as novas gerações, conecta o passado ao presente. À proporção que as histórias vividas vão sendo contadas, passam por um processo de descontinuidade, ou seja, passam por diversos recortes, pois uma pessoa não conta uma história duas vezes do mesmo jeito. Essa ruptura interfere diretamente na constituição do sujeito, da identidade e da linguagem. Complementam-se essas convicções nas palavras de Michel Foucault ao afirmar que:
A história contínua é o correlato indispensável à função fundadora do sujeito: a garantia de que tudo que lhe escapa poderá ser devolvido; a certeza de que o tempo nada dispersará se reconstituí-lo em uma unidade recomposta; a promessa de que o sujeito poderá, um dia – sob forma da consciência histórica – se apropriar, novamente, de todas essas coisas mantidas à distância pela diferença, restaurar seu domínio sobre elas e encontrar o que se pode chamar de sua morada (FOUCAULT, 2010, p. 382).
A literatura constrói um discurso que mobiliza fragmentos da memória coletiva de um povo, narrados pelo viés das crenças e valores de forma não linear e ao mesmo tempo tem o poder potencial de produzir emoções e estranhamentos em seus interlocutores. A voz narradora faz uso no romance de elementos discursivos, tanto da tradição quanto do moderno, a partir das suas primeiras páginas já narrando um fato forte que envolve e deixa seu interlocutor tomado de curiosidade emotiva, seduzindo-o ficcionalmente.
1.1 Dimensões do sujeito
A introdução desse capítulo apresenta os sujeitos que se constituem pelas dimensões sociais, históricas em concomitância com a interferência das diversas situações discursivas pelas quais eles passam. Em nosso objeto de estudo não é diferente, o sujeito constitui sua identidade mediante histórias que vai vivenciando, ouvindo. Nas interações discursivas, pelas quais vai passando com o outro no discurso. Neste tópico é possível confirmar um exemplo dessas interações constituídas no discurso realizado entre o Cristório e o personagem Aquimundo:
– Quem é você? – perguntou Cristório. – Sou Aquimundo, o Tempo.
– Que diabo de conversa é esta? O tempo?...Tempo chove, tempo tem sol, tempo tem tempo. E você?
– Sou Aquimundo, em quem o tempo não passou. Venho olhando as coisas e vivo. Andei por muitas terras.
– E quem é você?
– Eu sou Cristório, pescador do Mojó. – Pois eu, Aquimundo, pescador do tempo.
– Cristório, não adianta fugir, que eu vou embarcar com você. – Eu não tenho lugar na minha canoa.
– Eu não quero divisão. Eu quero navegar. Cheguei aqui nas correntes que correm os oceanos e me deixaram nessa praia. Leve-me. Desejo ver o mar, as ondas, recordar-me das carracas da Índia. – Que conversa é essa? Nós, aqui, não temos essas embarcações. – Pare com essa conversa enrolada que eu não entendo.
– Pois vamos ao mar (SARNEY, 1995, p. 8-88).
A identificação dos personagens ocorre num processo relacional, na diferença que há entre ambas. Um dos principais mecanismos de construção de identidades é a marcação de diferenças, que está presente nos sistemas simbólicos de representação. Desse modo, percebe-se que de imediato, o discurso do outro causa um estranhamento em Cristório, mas isso fortalece a ideia de que tais diferenças interferem diretamente na sua identidade em sua linguagem e o caracteriza como sujeito moderno, complexo. Esse momento de socialização do sujeito se realiza a partir do contato com o discurso de outro. Em continuidade da narrativa, percebe-se o estranhamento do protagonista. A relação com outro, as histórias contadas por Aquimundo reforçam a identidade incompleta de Cristório, pois elas vão sendo passadas para outras gerações e chegam até nós. Stuart Hall afirma que:
As identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente perturbador de que é apenas por meio da relação com o outro, da relação com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que tem sido chamado de seu exterior construtivo, que o significado positivo de qualquer termo – e, assim, sua identidade – pode ser construída. [...] A identidade emerge do diálogo entre os conceitos e definições que são representados para nós pelos discursos de uma cultura e pelo nosso desejo (consciente ou inconsciente) de responder aos apelos feitos por estes significados, de sermos interpelados por eles, de cumprirmos as posições de sujeito construídas para nós por alguns dos discursos (HALL, 2011, p. 30-34).
Para o autor, é nas relações exteriores, existentes entre os sujeitos que as identidades se constroem e se fortalecem. Dialogando com Tomaz Tadeu da Silva, o autor afirma “a identidade depende da diferença” (SILVA, 2003, p. 39), as marcas das diferenças, provém de sistemas classificatórios, ou seja, a classificação
simbólica permite o estabelecimento de fronteiras entre as identidades, permitindo ao sujeito diferentes possibilidades de posicionamentos. A partir dessas manifestações provocadas pelo discurso que interferem no perfil de identificação do sujeito, envereda-se nos percursos traçados pelo sujeito moderno, tendo como suporte as ideias dos autores citados. Tais referências sustentam esta discussão e traz elementos importantes para fundamentar a abordagem do corpus literário, elas integram na análise das dimensões do sujeito/personagem no romance ODM. Sobre a forma como esse sujeito se constitui, encontram-se, na obra ficcional estudada, ações vivenciadas pelos personagens que interligam diretamente o passado deles, criando uma tensão entre a tradição e a modernidade. Assim, Edouard Delruelle explica que
não há uma forma universal do sujeito. Nas sociedades tradicionais, o sujeito realiza-se pelo reconhecimento do caráter transcendente das regras e das normas que constituem o fundamento da comunidade [...]. A modernidade não inventou nada, nem a ideia de um sujeito que pensa por si próprio, nem a de um sujeito consciente da sua interioridade e da sua singularidade. Enquanto nas filosofias pré-modernas o sujeito definia sempre a sua finitude a partir de um limite que lhe era exterior, o sujeito moderno toma consciência de que ele próprio, é o limite do seu ser. No início do século XX (com Kant, Foucault), o homem em si mesmo nasce, deste desdobramento do sujeito histórico, empírico num sujeito constituinte e transcendental (DELRUELLE, 2004, p. 151-327).
Em consonância com as convicções do autor, observa-se em diversos fragmentos da narrativa que o protagonista utiliza o discurso, moldado nos costumes e tradições do passado e no estranhamento que sente e se depara com esses alicerces. É um sujeito que marca um espaço privilegiado no que tange o tradicional e o moderno.
– A Quertide era a minha mulher de altar. Com ela eu vivi o primeiro sonho da minha vida, marquei casamento e provei de sua carne. – O que a senhora reza?
– Mas dona Geminiana, eu quero mesmo é encontrar a Quertide. A senhora sabe rezar pra isso?
– Pra isso não sei, não, nem quero saber. O conselho que lhe dou é o conselho que já dei. Se você não encontrar ela, volte aqui que eu tenho a Camborina, minha sobrinha, que vai ser boa mulher.
– Que é isso, primo? - disse Garatoso. – Tá olhando pra chuva, sem chover, com o pensamento e os olhos longe. Acorde. – Nada, primo, estou pensando nos meus passos.
– Você vai ser feliz comigo. Vou dormir em minha casa. Meu primo toma conta de você pra sua família não dizer que eu me aproveitei
antes de casar. De manhã eu vou ao padre em Ribamar tratar de nosso casamento (SARNEY, 1995, p. 88-142).
A partir do diálogo dos personagens percebe-se que os costumes e as tradições continuam sendo resgatados pela arte literária em especial pelo romance, mas “que não expressam nenhuma realidade preexistente” (DELRUELLE, 2004, p. 154), pois esse sujeito que a narrativa constitui se encontra também mergulhado num mundo cultural que partilha com os outros, que também experimentam a realidade do mundo, que tem seu ponto de vista. São características representáveis do sujeito moderno na concepção de que não há “uma forma universal de sujeito” (DELRUELLE, 2004, p. 20). O sujeito da narrativa assume-se e choca-se “no limite das suas próprias ações e dos seus próprios pensamentos.” (DELRUELLE, 2004, p. 154). Na observação do narrador, o Capitão Cristório participa deste desdobramento e permanece em sua luta pelo resgate memorialístico de sua vida. Essa é uma característica que remete o protagonista ao tempo e a sua história, pois “o homem nasce deste desdobramento do sujeito histórico, empírico, num sujeito constituinte transcendental”. (DELRUELLE, 2004, p. 327). Nesse fluxo de ideias, Cristório se constitui como personagem através do discurso, moldado nos costumes e tradições do passado a fim de solidificar a sua identidade. Tais aspectos podem ser confirmados no diálogo tecido entre o protagonista e dona Geminiana:
– De casa!
– Quem é? De bem ou de mal? – Sou eu, Cristório!
– Volte amanhã! – Não posso. É urgente. Quero lhe falar.
Geminiana veio. Abriu a porta, estava com olhos da noite e não acendeu nenhuma luz.
– O que aconteceu?
– A reza deu certo. No meio dela, a Camborina saiu de casa e veio ao meu encontro dizendo que estava resolvida.
– E você fez alguma coisa com ela?
– Não. Dona Geminiana, eu sou homem de bem (SARNEY, 1995, p. 124).
O discurso narrativo promovido entre os personagens torna o sujeito protagonista legítimo na constituição da sua identidade, pois “todas as culturas <formam> os sujeitos” (DELRUELLE, 2004, p. 327). O personagem, uma figura moderna com traços tradicionais, agente de sua própria trajetória, ou seja, aquele “que toma consciência de si mesmo, como parte da natureza” (DELRUELLE, 2004, p. 212). O sujeito da modernidade, assim como o sujeito Antão Cristório, tem uma
trajetória vinculada a um conjunto de enganos, desilusões e opressões os quais são componentes do descentramento. Diante de tais componentes dar-se importância na ideia de cultura, já que o sujeito tem autonomia para assumir ou não a ideia do outro para si. Nessa esteira de pensamentos, retoma-se as convicções de Terry Eagleton ao afirmar que a busca do indivíduo acontece pela necessidade de encontrar algo. Segundo o autor,
O que constitui minha própria auto-identidade é a auto-identidade do espírito humano. O que me faz aquilo que sou é minha essência, que é a espécie a qual pertenço. A cultura é em si mesma o espírito da humanidade individualizando-se em obras específicas, e o seu discurso liga o individual e o universal (EAGLETON, 2005, p. 212).
Grande parte do que é exposto por Terry Eagleton, compreende-se que a essência do sujeito está enraizada ao meio que pertence, que ele vivencia. Pode ser amparada essa abordagem discursiva aos estudos de Roberto Machado em função de suas análises sobre os efeitos e consequências da representação – como o conhecimento do sujeito produzido pelos discursos incide sobre as condutas, a formação e a construção da identidade recaem sobre a interpretação plausível em determinadas épocas históricas. Para Machado, a representação, um produto da consciência humana, é diferente do próprio homem, mas que não deixa de manter uma relação indissociável com as coisas que se encontram em outro nível. Nas palavras do autor,
O ser da linguagem da literatura moderna é também uma elisão do sujeito, da alma, da interioridade, da consciência, do vivido, da reflexão, da dialética, do tempo, da memória. No momento em que a linguagem escapa da representação clássica e é tematizada como significação da modernidade, a palavra literária se desenvolve, se desdobra, se reduplica a partir de si própria como exteriorização, passagem para fora, afastamento, distanciamento, diferenciação, fratura, dispersão com relação ao sujeito (MACHADO, 2005, p. 115).
Para o autor, a representação é vista como um fenômeno de ordem empírica que se produz no homem. Seu interesse centra-se no discurso, no enunciado e no saber, nos quais os sujeitos e os objetos não existem a priori, são construídos discursivamente sobre o que se fala sobre eles. No romance em estudo, a representação das ideias e valores do mundo tradicional e do mundo moderno rege o papel do sujeito Cristório, ou seja, o protagonista inserido e regido na construção
simbólica desses dois mundos. O processo de construção do sujeito tem sido representado segundo diferentes enfoques teóricos e obras de ficção, pois o sujeito permite legitimar, com maior consistência, as construções da cultura. Um exemplo significativo dessas concepções é a passagem, a qual o discurso dos personagens revela-se ao mesmo tempo, na fusão entre o real e o ficcional, o protagonista envolve-se com aquilo que é materializado e com coisas completamente abstratas, que não se podem tocar,
Que tipo de embarcação é ela? Parece montaria. – Aproa atrás dela! – reagiu Querente.
A canoa branca sumia e ressurgia nas ondas.
De longe, quando eles viram, ela começou a inchar, o pano ficou maior, cresceu e de logo transformou-se num barco e depois num navio. Tentou aproximar-se. Chegou bem perto.
– Quem é? – Gritou.
– É o encanto das brancuras, que eu já vi muitas vezes. É a canoa da pureza – respondeu Querente. De repente, todos começaram a ficar azuis e um vento azul-claro invadiu a canoa, e Chita Verde, firme, corajosa e dura, galopava nas ondas.
– Que é isso Chita Verde? Para de ter vontade só tua!
Ao chegar bem perto, abriu-se um buraco no mar e um bando de gaivotas pretas apareceu voando em círculo e descia do céu para mergulhar num baile de asas, enquanto a canoa branca desaparecia, afundando para os abismos eternos (SARNEY, 1995, p. 158).
A relação estabelecida pelo discurso dos personagens constrói a representação de um universo ficcional e expõe a identidade do pescador. Os personagens ao se verem envolvidos nas ações expressam sentimentos e situações sentidas e representadas por um grupo social. Na história cultural dos pescadores, as visões, aparições e as crenças daquilo que é visto no mar estão intimamente ligadas com a própria história do pescador. Sobre esses aspectos, em diversos percursos da narrativa, o fictício e o real se misturam, fazendo um retorno ao passado que parte do momento contemporâneo, nos levando a compreensão de que o processo constituinte do sujeito em ODM tematiza uma reflexão teórica centrada na articulação do histórico com o simbólico e o ideológico. Acrescenta-se os ideais de Maria do Rosário Gregolin no que se refere a esse processo ao afirmar que
Pensando o “sujeito” como uma fabricação, uma construção realizada historicamente pelas práticas discursivas, é no entrecruzamento entre discurso, sociedade e história que Foucault investiga as mudanças nos saberes e sua consequente articulação
com os poderes. Para Foucault o sujeito é resultado de uma produção que se dá no interior do espaço delimitado pelos três eixos da ontologia do presente: os eixos do ser-saber, do ser-poder, dos ser-si (GREGOLIN, 2004, p. 54).
Segundo a autora, essa ontologia do presente, reconhecida na obra do filósofo nos permitem ver a centralidade das reflexões sobre as práticas discursivas e a constituição do sujeito moderno. De fato, ao olhar o sujeito como recurso do discurso, retorna-se aos postulados de Edouard Delruelle sobre o conceito de discurso. Citando Foucault, o autor parte da premissa de que o sujeito é produzido no discurso a partir do que representa, ou seja, “o que uma cultura define como um sujeito é o produto das múltiplas relações de poder que controlam, cobrem e separam” (DELRUELLE, 2004, p. 235). Nesse sentido, a representação torna-se um produto da consciência humana diferente do próprio homem, pois a partir do momento em que pensa, surge aos seus próprios olhos como um ser que se encontra já numa espessura necessariamente oculta, numa anterioridade irredutível, um serviço, um instrumento de produção. Sobre essas questões do perfil do protagonista em ODM, percebem-se, na linguagem discursiva de Cristório, seus traços culturais,
– Como você acha que eu devo viver agora?
– Compra uma canoa nova. Aqui ninguém te nega vender uma embarcação, porque sabe que tua palavra vale dinheiro.
– Todo mundo vai, também, me querer como mestre e arrendador de canoa, não vai?
– Bom dia, capitão Cristório, como a gente fica em festa com os olhos no senhor, depois de tantos dias – falou Quebrado, o quitandeiro, seu amigo, ao vê-lo chegar com o passo firme e os pés largos.
– Estava mareado do coração com o que aconteceu com a minha canoa. Hoje fiz das tripas coração e vim pra cá.
– Vamos comprar uma canoa nova, não é, capitão?
– Não, o capitão Cristório nunca mais terá canoa. Resolvi. Está decidido dentro de mim.
– Vai deixar de ser pescador?
– Isso não vou deixar nunca, até fechar os dentes e formiga comer meus beiços (SARNEY, 1995, p. 241-243).
Observa-se que a construção dos discursos entre os personagens expressa o emprego de diversos elementos que foram resgatados da tradição e trazidos de forma criadora para a modernidade. Mesmo envolto por um sentimento de impotência, o protagonista revela a raiz da sua identidade, justificando a sua existência no amor pela profissão, a identificação do sujeito se enfatiza de dentro
para fora em relação ao poder que o discurso tem ao ser proferido pelo mesmo. Outra característica que se pode extrair do fragmento, retrata a finitude do sujeito moderno, fica claro no discurso de Antão Cristório a consciência de que algum dia chegará seu fim, sabe-se que, por mais cruel que seja, as pessoas tem a certeza da morte.
Retomando as reflexões de Stuart Hall sobre o sujeito, nota-se a percepção do personagem em ODM que aponta contribuições metafóricas sobre o conceito filosófico do sujeito moderno, pois segundo René Descartes, primeiro filósofo a colocar o sujeito no centro da ‘mente’, constituindo-o assim um ser pensante, consciente. Outra ideia apontada pelo autor está a de Raymond Williams: o sujeito é indivisível, uma entidade unificada em seu interior, singular, única. Parte desses conceitos resultou do Iluminismo, das teorias clássicas liberais de governo, da economia política, da teoria de Darwin e das ciências sociais e humanas. Stuart Hall afirma que
emergiu uma concepção mais social do sujeito. O indivíduo passou a ser visto como mais localizado e definido no interior dessas grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna. Nesta descrição sociológica encontra-se a figura do indivíduo isolado, exilado, fragmentado. O que aconteceu à concepção do sujeito moderno foi o seu deslocamento, através de uma série de rupturas nos discursos do conhecimento moderno (HALL, 2011, p. 30-34).
Compreende-se que na citação do autor que os sujeitos se constituem dentro dos limites da formação do discurso, dentro de um regime de verdade, de um determinado período e cultura. É produzido no discurso, pois esse sujeito não pode estar fora do discurso. Stuart Hall sugere que os próprios discursos constroem as posições de sujeito quando estes são significativos, ou seja, os sujeitos podem se distinguir por suas características sociais, culturais, raciais, mas só conseguem ter significados como sujeito quando se identificam com as posições constituídas pelo discurso.
Assim, em ODM, Cristório em situações de relação com o outro há o envolvimento de vários mecanismos, dentre eles o de poder. Num discurso vivo, o elemento da resistência, de força, se mostra também como característica marcante do protagonista é o fio condutor da constituição de sua identidade, e é o princípio de que a busca empreendida por ele é de cunho existencial. O sujeito protagoniza uma procura contínua. O episódio da morte do filho de Cristório é um exemplo desse
elemento. Ao saber da morte do filho Jerumenho, o protagonista adota uma atitude surpreendente, ele irá atrás do corpo, depois irá continuar a sua procura para saber detalhes sobre o motivo da morte. E no momento em que se depara com a realidade dessa busca, ele dará continuidade ao que o filho não concluiu.
– Capitão Cristório, venha depressa...
– Com que diabos você me chama assim? Já vou. – Mataram Jerumenho!
– Que notícia desgraçada é essa? – Mataram.
Cristório ficou calado...baixou a cabeça, vestiu a camisa de pano cru, apertou o cinto de corda, pôs o chapéu e saiu amassado [...]. Enrolou o corpo do filho, carregou-o no ombro e tomou o caminho de casa. Ali chegou. Grande era o silêncio. Saíra sem avisar ninguém. Parou em frente a casa, o corpo quente nas costas. Só então gritou pela mulher:
– Camborina, acorda! Camborina, Camborina! – a voz era firme e seca, assim, como a ordem para lançar o arpão.
Cristório tomou o braço de Garatoso e pediu:
– Vamos, primo, quero chegar na casa da mulher antes do soturno da noite. E sem falar com ninguém, só tristeza e dor, foi saindo e caminhando para o desconhecido [...]
– Você foi a mulher que estava embaixo de Jerumenho, ontem, quando ele foi morto pelo Carideno? Eu vim terminar o que Jerumenho começou! (SARNEY, 1995, p. 14-22).
Ao reagir dessa forma, o protagonista, mesmo passando por um momento de tristeza, não fica parado aos acontecimentos, ao se deparar com o conflito, Cristório tenta dar algum sentido a sua vida, através de um comportamento considerado irracional. Assim, nessa situação de conflito, o inconsciente do protagonista constitui-se dos desejos reprimidos e inaceitáveis, estruturando-se como discurso. Tais distinções entre a consciência e inconsciência do sujeito Cristório colabora para a compreensão da identidade e também da subjetividade. Dialogando, então, sobre essa atitude de Cristório com o que afirma Tomaz Tadeu da Silva, tem-se
A ideia de um conflito entre os desejos da mente inconsciente e as demandas das forças sociais, tais como eles se expressam naquilo que Freud chamou de supereu, tem sido utilizada para explicar comportamentos aparentemente irracionais e o investimento que os sujeitos podem ter em ações que podem ser vistas como inaceitáveis por outros, talvez até mesmo pelo eu consciente do sujeito (SILVA, 2003, p. 62).
Logo, por apresentar uma personalidade forte, o protagonista resolve sozinho todo o preparatório do velório do seu filho amado, sem botar uma lágrima. É um
traço típico de sua identidade extraída nesse momento da narrativa numa relação de conflito, exemplificando a vivência de um sujeito dividido e movido pelo duelo entre o racional e o emotivo. Outro importante exemplo de relação conflituosa do sujeito relacionada à resistência é a busca ferrenha pela sua amada Quertide, pelos piocos e pelos mistérios do mar, como pode-se ver no diálogo entre o protagonista e seu amigo Querente,
– Mas Cristório, nós vamos voltar naquela ilha encantada, onde aconteceu aquela história?
– É lá mesmo que eu quero ir. É capaz do bicho estar lá e eu quero ele.
– Qual é o bicho? – O pioco.
– Não me fale em monstros do mar. Minha vida me diz que coisa de cima da água a gente deve evitar.
– Olha, Querente, eu sou novo, nas desde menino meu companheiro é o mar. Estou com ele dia e noite, e dentro da cabeça.
– Estou com minha espingarda pronta, comprei uma caixa de cartucho. Está enrolada debaixo do convés da tampinha, num saco de estopa. E só quero ver o bicho e largo fogo nele (SARNEY, 1995, p. 66).
O sujeito pescador mostra no discurso as suas características, trazidas de suas raízes familiares. Compreende-se que os paradoxos inerentes ao percurso do protagonista impedem que a linha percorrida seja compreendida pela lógica do pensamento convencional, permitem que o leitor assimile alusões à ideia da busca do ser, pois Cristório carrega consigo traços de um sujeito tradicional estando na modernidade. Ao analisar os diversos enfoques filosóficos sobre o sujeito, Edouard Delruelle afirma que na Idade clássica, o sujeito vive sua finitude tendo Deus como referência; já o sujeito cartesiano toma consciência de sua imperfeição por comparação com a ideia de um ser mais perfeito. Algum tempo depois, o pensamento filosófico registrou o caráter histórico do sujeito finito, ou seja, o que vai determinar a existência do sujeito é o trabalho, a vida e a linguagem, pois:
Se o homem é um ser histórico, um produto do passado que, ao mesmo tempo, tende para o futuro, se todo o seu ser é absorvido pelo movimento da história, então um progresso da humanidade torna-se teoricamente pensável e praticamente desejável [...] a partir do momento em que pensa , surge aos seus próprios olhos como um ser que se encontra já numa espessura necessariamente subjacente, numa anterioridade irredutível, um ser vivo, um instrumento de produção, um veículo para palavras que preexistem (DELRUELLE, 2004, p. 227).
Para Edouard Delruelle, a entrada do sujeito no horizonte das subjetividades, recordar, sonhar reconhecer-se é em certo sentido, existir, pois ao sentir-se membro de uma sociedade o sujeito reconhece nela suas raízes. Afirma ainda que o pensamento moderno ampara-se nas concepções de Descartes, de Kant e de Husserl, os quais afirmam “o sujeito como fundamento que permite legitimar, com maior consistência possível, as construções da cultura” (DELRUELLE, 2004, p. 182). Esse sujeito dito moderno torna-se autônomo ao desconstruir e reconstruir uma “evidencia de si para si que escapa a qualquer determinação histórica” (DELRUELLE, 2004, p. 184). Em suas análises filosóficas, o estudioso afirma que o sujeito testa-se como superação, é uma linha a agitar, uma metamorfose a operar continuamente em si e na sociedade. Evidentemente, essa transformação que acontece no sujeito e que nos atinge são pontos contraditórios, mas, ao mesmo tempo pontos de aproximação entre os sujeitos. Seja no diálogo entre os personagens ou pela voz narradora, o discurso narrativo, mostra paralelamente, distanciamento e aproximação na linguagem ficcional:
– Veja Cristório – disse Aquimundo, – assim se sofria no passado. – Buscamos o rumo da fortaleza de São Luis.
[...]
– Eu não estou vendo nada. Vamos velejar para fora e não sei onde é fora.
O navio estava perto e não era navio; era um salão que flutuava, ora era castelo, ora era uma quinta com árvores que nasciam do mar (SARNEY, 1995, p. 97-137).
Percebem-se traços fragmentários que distanciam e aproximam os discursos ficcionais, como comentamos anteriormente, traços do tradicional numa perspectiva moderna, um deles trata-se da projeção de Cristório a ser conquistador do mar. Desde a infância, o pai de Cristório o via como alguém que entendia dos segredos do mar, ou seja, ele não tinha dúvidas de que seu filho “era nascido com encantos do mar” (SARNEY, 1995, p. 30). Nota-se a projeção de Cristório para ser um desbravador dos oceanos, que conhece e entende dos mistérios das águas. O outro é a crença no destino, visto na ficção como uma justificativa da existência, da impossibilidade apresentada ao sujeito de conduzir suas próprias ações, ou seja, é não acreditar na suposta liberdade que se possui em decidir o rumo que se dará a própria vida. O personagem por ser um elemento importante na criação literária, vem sendo estudado em diferentes considerações teóricas. É também visto hoje, como
um signo, com várias possibilidades de transformação, “é um dado de linguagem, é signo narrativo” (MACHADO, 2011, p. 13). Desse modo, refletindo sobre o estudo do personagem, Beth Brait afirma
O problema da personagem é, antes de tudo, um problema linguístico, pois a personagem não existe fora das palavras; as personagens representam pessoas, segundo modalidades próprias da ficção [...] a personagem é um habitante da realidade ficcional, de que a matéria de que é feita e o espaço que habita são diferentes da matéria e do espaço dos seres humanos (BRAIT, 1998, p. 15).
Para a autora, a constituição de um personagem e o espaço por ele habitado consolidam-se dentro de um imaginário totalmente fictício. Partindo da ficção, considera-se então, uma afirmação constante dos personagens ao pertencimento cultural e a presença das tensões entre um conjunto de ideias e valores do mundo tradicional a um conjunto de ideias e valores do mundo moderno. Essa junção tornou-se um dos principais elementos para analisar os personagens, os espaços conduzidos por eles, e o narrador diante das tensões criadas para o personagem, visualizando essas intervenções entre o tradicional e o moderno. De fato, é possível observar que a narrativa em estudo vai sendo tecida pela voz narradora, numa rede de significados indicadores da impossibilidade de uma interpretação única. Por exemplo, nas referências aos mitos, aos navios fantasmas, aos monstros marinhos. Cristório se envolve com “Entes Sobrenaturais” e em outros momentos com “Ancestrais míticos” (ELIADE, 2011, p. 87).
[...] lá veio chegando, andando por cima do mar, a figura de um homem de longas barbas, como um raio já estava em pé na proa da Babiana. Todos ficaram parados e, sem saber o que fazer, abriam a boca de espanto, perplexos diante o que acontecia.
Cristório espantou-se:
– De onde você me conhece?
– Do tempo e do destino. Nossas vidas estão ligadas.
Quando amanheceu, curiosos, forma vê-lo. Ele tinha se transformado.
[...]
– Quem é você? - perguntou Cristório. – Sou Aquimundo, o Tempo.
O velho aproximou-se dele. E quando vinha, rodopiava um redemoinho de areia que saía das dunas e um vento que ventava como se fosse um chicote.
Aquimundo embarcou na biana. Ficou em pé na proa. Deixou o vento acariciar a barba, seus olhos tinham a direção do Sol e navegou com os braços abertos, enquanto Cristório vivia mais um mistério das águas (SARNEY, 1995, p. 38-40; 87-89)
Os fragmentos acima revelam um personagem recalcado num mundo imerso na cultura maranhense. A identidade mostrada identifica-se pelo viés do discurso narrativo, na medida em que esse sujeito interage com o outro. São características apresentadas de forma explícita na demonstração da identidade do pescador maranhense, nas quais se constatam um sujeito agindo e sofrendo a ação na fronteira, ora real ora imaginária. Para Stuart Hall, os sujeitos se constituem dentro dos limites da formação do discurso, dentro de um regime de verdade, de um determinado período e cultura, ou seja, o próprio discurso constrói a posição do sujeito quando é significativo. Nesse aspecto, o autor explica:
Estas transformações estão mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um sentido em si é chamada de deslocamento, descentração dos indivíduos tanto de seu lugar mundo social e cultural quanto de si mesmos, constitui uma crise de identidade para o indivíduo (HALL, 2011, p. 9-13).
De acordo com Stuart Hall, tal caráter ideológico de um dos principais impulsos atuais pode de fato, ser identificado nos discursos surgidos na sociedade, na cultura e principalmente na arte literária. Assim, essas mudanças atingem o sujeito individual e a sociedade. Podem-se assemelhar tais características embrenhadas no sujeito moderno ao perfil do nosso protagonista Cristório. Com o sujeito de ODM não é diferente, ele apresenta atitudes diferentes para diversas situações vividas:
– Tu falas dessa canoa como se fosse tua mulher de cama. Esses pedaços de pau pregados em cavernames. Além disso, ela já estava imprestável...
– Não diz isso. Pára! – alterou-se na voz e nos olhos, as mãos levantadas, e com uma indignação que poucas vezes, ou nenhuma, tinham visto nele, acrescentou: – Alto lá! Chita Verde era a biana de maior serventia destas praias e você não fale dela!...
– Cristório, estou te desconhecendo. Você nunca gritou comigo desse jeito.
– Pois grito agora!
– Pois não torne a gritar. Pela primeira vez, Camborina viu aqueles olhos pequenos, acostumados a se fecharem para se defender das maresias e dos ventos, se abrirem. Deles jorraram grossas lágrimas que escorriam como derramadas de um copo de água.
– Cristório, que está acontecendo contigo, homem? (SARNEY, p. 9-13).
Nessa situação narrada, o protagonista surpreendeu Camborina ao desabar-se num choro compulsivo. Foi algo que ela não esperava e que não estava
acostumada a ver. Presencia-se uma mudança de comportamento, de identidade pessoal do personagem. A esses exemplos citados do romance o conceito de sujeito deve ser compreendido em sua essência como atuante, como vida em pura atividade. Em um mundo no qual o fluxo histórico perde constantemente sua força na interpretação da própria vida, as relações são estabelecidas entre os sujeitos em diferentes aspectos. Dessa forma, a literatura passa a constituir um discurso fragmentado, um discurso portador de uma identificação incompleta. Na visão de Stuart Hall,
A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicação desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente (HALL, 2011, p. 14).
Compreende-se da citação, em consonância com o trecho do romance, as identidades vão se fortalecendo mediante os problemas reais de cada homem. As vivências da humanidade são transportadas para a obra literária que reinventa a história, pois “a identidade nunca é um a priori, nem um produto acabado; ela é apenas e sempre o processo problemático de acesso a uma imagem da totalidade” (BHABHA, 1998, p. 85). Compartilhando com a ideia de que a identidade não é unificada e nem um produto pronto, remete-se aos postulados de Michel Foucault, o qual afirma em suas proposições que o sujeito é produzido no discurso, pois não pode estar fora dele. Nele, o homem é visto como o próprio objeto a ser desvendado. Sobre esses aspectos, o autor analisa as mudanças na sociedade através do discurso que a regula, e então, justifica que desaparece a ideia de uma essência que determina a identidade de um sujeito, tornando-o único e imutável, visto que esse mesmo se adapta a diferentes momentos e contextos.
Assim, a partir das proposições abordadas por Stuart Hall e Michel Foucault, em como se conduz a constituição do sujeito no discurso narrativo nas relações discursivas da ficção pode-se verificar sob vários ângulos no romance O Dono do Mar, tais como na progressão das relações entre o protagonista Cristório e seu amigo Querente, entre ele e o barco, e os piocos, e principalmente entre Cristório e o mar. Cada uma dessas interações reflete uma diferença para mais na consciência do sujeito protagonista. Em alguns momentos da narrativa, observa-se que sua
posição de domínio e submissão ao mar são substituídas ora por uma relação conflituosa, ora de cumplicidade, resultando numa possível transformação no que se refere as suas condições de sujeito.
[...] falou de si para si: ‘As coisas comigo estão me perturbando a moleira. É dia e noite acontecendo coisas e eu neste ramo de procurar sem achar’.
‘Estou doidão!... Já perdi o caminho de procurar as coisas. Há uma sombra dentro de mim. Foi maldição dos piocos ou sou eu? A lembrança destas minhas desgraças não passa. Minha vontade é não sair da canoa. Ir pelo mar. Navegar de navegação sem rumo, assim como tartaruga’.
– Que há com você, Cristório? Vai sair agora? Para onde vai? - perguntou Valentim.
– Não sei, não tenho satisfação a te dar. – Você tá louco?
– Não, estou com cachorro verde na cabeça. Vou atrás daquela visagem que nós vimos no mangue (SARNEY, 1995, p. 93).
O personagem questiona-se e é questionado, pois tem consciência do lhe acontece e do que sente. De acordo com Edouard Delruelle, “o momento crucial para o sujeito é aquele em que ele toma consciência de si mesmo” (DELRUELLE, 2004, p. 212). O protagonista vai se constituindo na narrativa a partir da exterioridade que está margeada por diversas relações, de saberes, de poderes, de delírios, dentre outras, “testemunham a angústia sentida pelo sujeito moderno ao descobrir-se só diante de si próprio” (DELRUELLE, 2004, p. 226). A angústia sentida por Cristório o leva a refletir sobre suas ações e, todas se encontram em permanente ligação com o mar. E chega a dizer que ele e o mar são um só ser e que sente, ouve o mar. Há uma personificação do mar como elemento que se revela à narrativa para traduzir uma atmosfera fronteiriça entre o real e o imaginário. É uma relação que testifica Cristório e o mar.
– Cristório, o que você está vendo?
– Estou vendo o mar. Ele e eu temos um trato. – Se eu tivesse um cordão de ouro, dava para o mar. – Cristório? Cristório? Cristório?
– É gente conhecida, está me chamando.
– Aquilo que não é gente; como já se viu gente em cima da Risca? – Cristório, vem me apanhar. Cristório!
– Quero que vocês me salvem! Cristório, me ajuda. – De onde você me conhece?
– Do tempo e do destino. Nossas vidas estão ligadas. – Meu apelido é Querente... Querente.
– Diga logo, você é assombração ou é gente? – Não sei, Cristório.
– De onde você me conhece?
– Do destino (SARNEY, 1995, p. 30-179).
Constata-se no fragmento acima mais um exemplo de identificação do sujeito com o mar, em que a partir do exterior, a identidade de Cristório se constitui, nas interações discursivas, que vai vivenciando com o outro. Trata-se, de uma relação discursiva fragmentada, pois o sujeito se apoia em suas raízes para tecer o seu discurso. Até aqui, discutiu-se, pelo olhar literário e filosófico, alguns conceitos de sujeito. Situações foram observadas que dizem respeito aos limites e às possibilidades de se constituir ao mundo que o cerca no contexto literário. Falar de como o sujeito personagem se constituiu no romance ODM é partilhar que ele passa por diversos momentos – de alegria, de tristeza, de angústia. Momentos que fazem, enquanto leitores, reconhecer parecidos tal qual em alguns momentos. É assumir que mesmo sendo um sujeito moderno, o protagonista Cristório traz consigo diversas artimanhas do tradicional. Com isso, pode-se dizer que o homem é o único ser que apresenta consciência de sua mudança através do tempo, na qual, “os pontos de transformação possível fixam a linha que o sujeito deve seguir para se constituir” (DELRUELLE, 2004, p. 346).
Portanto, em toda investigação acerca do conceito de sujeito feita pelos autores que fundamentaram essa pesquisa resultou de uma certa forma, numa transformação filosófica/histórica do próprio sujeito. Assim, pode afirmar que as dimensões do sujeito personagem e sua relação com o discurso narrativo não ocorrem de forma pacífica, ou seja, o mesmo discurso que retrata um passado também constitui a ficção, o que torna tênue a fronteira entre o real e o imaginário. No segundo tópico, será abordado o processo identitário do sujeito em relação ao seu locus.
1.2 A identidade do sujeito marcada pela vida marítima
Ao se analisar a constituição do processo de identificação do personagem, e sua relação discursiva no percurso narrativo, inicia-se exemplificando, um trecho do romance, em que é possível observá-lo caracterizando um sujeito mutável, ou seja,
aquele que muda seu discurso dependendo da situação em que se encontra. Em sua luta diária, o sujeito fictício Antão Cristório ora acredita, ora desacredita.
– Bom dia, capitão Cristório – saudou Bertolino.
– Capitão? Capitão é a puta que pariu. Todo mundo sabe que sexta-feira eu não gosto que me chamem capitão – respondeu seco e firme.
– Pois eu não sou homem de ouvir ameaças e essa história quem vai decidir é a moça e não você. Não tenho medo nem de cara amarrada nem de conversa fiada.
– Que é isso, Cristório, o que vocês pescaram?
– Cristório não: capitão Cristório! A partir de hoje, quero este tratamento: capitão, capitão Cristório. Tomei a patente esta noite, no mar (SARNEY, 1995, p. 175).
No fragmento citado, o sujeito, ao revelar o mesmo discurso em situações diferentes, assume uma postura discursiva diferente. O mesmo discurso assumido, em um momento, muda em outro. Neste sentido, o sujeito é visto como aquele que percorre o caminho da racionalização do mundo, que busca justificar sua existência de uma forma racional. Porém, é um sujeito que traz consigo mananciais da tradição, de sua cultura e no confronto dessas fronteiras sente-se incompleto por não conseguir conciliar no discurso os dois mundos. Dessa forma, a identidade de Cristório configura-se como algo em permanente mutação, sua construção encontra-se intimamente ligada às relações que ele estabelece com o encontra-seu mundo, com o espaço em que ocupa, em determinado momento, é uma identidade constantemente em crise, construída no seio dos conflitos internos e externos. Ao considerar esses aspectos o foco centra-se na constituição identitária do personagem no romance ODM. Para Stuart Hall, a identidade é compreendida como
O ponto de sutura, entre, por um lado, os discursos e as práticas que tentam nos interpelar nos falar ou nos convocar para que assumamos nossos lugares como os sujeitos sociais de discursos particulares e, por outro lado, os processos que nos constroem como sujeitos aos quais se pode falar. As identidades são, pois, pontos de apego temporário às posições de sujeitos que as práticas discursivas constroem para nós (HALL, 2011, p. 172).
Considerando essas proposições, ao analisar o conceito de identidade em seu livro “A identidade cultural na pós-modernidade”, Stuart Hall observa três concepções diferentes de sujeito identitário: o sujeito do Iluminismo, o sociológico e o pós-moderno. Na concepção iluminista, há a crença de que o sujeito detinha uma
identidade única e estável. É uma concepção individualista, pois mostra a ideia de que o sujeito já nasce com sua identidade e que essa não se altera. Em relação ao sujeito sociológico, pode-se perceber que há uma interação entre esse sujeito e o meio social em que se envolve. Há ainda nessa concepção um resquício do núcleo individual, mas já se observa uma transformação contínua na identidade, criada pela troca de informações discursivas entre o eu e o outro. Nessa análise da evolução do conceito de identidade do sujeito, Stuart Hall chega a atualidade e confirma em seus estudos que a identidade do sujeito se mostra completamente mutável, trata-se de uma construção contínua. Nessa nova configuração de identidade, os mitos, histórias e lendas se inserem no discurso e ganham força com a arte literária. Portanto, o sujeito do discurso reflete as próprias transformações. Dessa forma,
A identidade é algo formado ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre em processo, sempre sendo formada (HALL, 2011, p. 39).
Tal relação que constitui o eixo do que se constata, na narrativa de ODM, eixo que envolve fundamentalmente Cristório e o mar, compondo a perspectiva que abrange as teorias de que o sujeito se constitui sempre mediante situações de relação com os outros.
– Quem é você? – perguntou Cristório. – Sou Aquimundo, o Tempo.
– E quem é você?
– Sou Cristório, pescador do Mojó.
– Pois eu, Aquimundo, pescador do Tempo.
– Cristório, quero passear contigo. Sei que você vinha e precisava de minha companhia.
– Pois vamos, seu Aquimundo, que hoje eu quero ver onde mora a mãe das águas.
Aquimundo embarcou, os dois saíram para o grande mar oceano (SARNEY, 1995, p. 95).
A partir do diálogo entre os personagens, é possível compreender que ter uma identidade significa pertencer a algum lugar, Cristório é pescador do “Mojó” (SARNEY, 1995, p. 23). Isso é uma identificação. É um traço de identidade, faz parte dele e recria-o sempre que necessário, pois os traços que compõem a identidade fazem parte intimamente da subjetividade do sujeito. Um ser torna-se participante de uma identidade a partir de determinados traços que o assemelha a seus pares.