UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUÍSTICA
Ana Elisa Costa Ferreira
“Vamos juntas/es/os!”: a marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas
Florianópolis 2019
Ana Elisa Costa Ferreira
“Vamos juntas/es/os!”: a marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas
Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do título de Mestra em Linguística.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Edair Maria Görski.
Florianópolis 2019
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,
através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Costa Ferreira, Ana Elisa
"Vamos todas juntas/es/os!" : marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas / Ana Elisa Costa Ferreira ; orientadora, Edair Maria Görski , 2019.
128 p.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós Graduação em Linguística, Florianópolis, 2019. Inclui referências.
1. Linguística. 2. Gênero. 3. Variação linguística. 4. Estilo. 5. Identidade. I. , Edair Maria Görski. II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós Graduação em Linguística. III. Título.
Ana Elisa Costa Ferreira
“Vamos juntas/es/os!”: a marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas
O presente trabalho em nível de mestrado foi avaliado e aprovado por banca examinadora composta pelos seguintes membros:
Prof.ª Drª Carla Regina Martins Valle Universidade Estadual de Santa Catarina
Prof. Dr. Jair Zandoná
Universidade Federal de Santa Catarina
Certificamos que esta é a versão original e final do trabalho de conclusão que foi julgado adequado para obtenção do título de mestra em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística.
____________________________ Prof. Dr. Atílio Buturi Junior
Coordenador do Programa
____________________________ Prof.ª Dr.ª Edair Maria Görski
Orientadora
Florianópolis, 27 de agosto de 2019. Assinado de forma digital por Edair Maria Gorski:22448969000 Dados: 2019.08.27 09:38:35 -03'00'
Assinado de forma digital por Atilio Butturi Junior:03089639971
Este trabalho é dedicado a todas as pessoas que, pela expressão do seu gênero e de sua sexualidade, já sentiram a dor da opressão.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus progenitores, minhas primeiras referências de pessoas que rompem estereótipos, que questionam injustiças e não aceitam desigualdades. Pela educação saudável, consciente e inclusiva que me proporcionaram.
Agradeço ao meu pai, minha primeira referência acadêmica, o primeiro e grande motivo de eu ter cursado Letras. Não só lhe agradeço, como também dedico este trabalho a ele.
À minha mãe, por ser tão forte e persistente. Por me ensinar sobre empoderamento feminino, sobre ser uma mulher independente e autossuficiente que investe em si, na sua carreira, nos seus projetos. Por me ensinar que amores servem para agregar, jamais para diminuir. Por desde sempre me dizer “estude, porque conhecimento é a única coisa que ninguém pode tirar de nós”. Por, principalmente, não ter desistido da sua carreira profissional depois do meu nascimento e ter me proporcionado, assim, o exemplo de uma mãe trabalhadora.
Ao meu companheiro da vida. Por somar as alegrias e dividir as dores. Por ser meu maior incentivador, meu melhor amigo, por sonhar meus sonhos ao meu lado, por respeitar a minha identidade e por me ensinar tanto com sua simplicidade e sinceridade. Pela nossa parceria e cumplicidade que me faz tão feliz e segura.
À Vó Anália, por ser a luz da minha vida, minha injeção de alegria e de fé, por apoiar uma neta que “só estuda, trabalha e não faz nada em casa”. Por ser tão à frente do seu tempo, por me dizer que sou capaz e que tudo dará certo cada vez que minha fé titubeia.
Ao meu irmão, por todo apoio emocional e financeiro. Por ser a nossa base e segurança. Por ser tão diferente de mim, por me respeitar e me entender, mesmo quando não me compreende. Em extensão, agradeço à minha cunhada e aos meus sobrinhos, por fazerem parte desse amor incondicional.
Às minhas tias e primas, por fazerem o matriarcado reinar em nossa família. Por serem meu exercício diário de sororidade. Por serem mulheres apoiando mulheres, por fazerem eu me sentir forte, capaz e especial.
À família que meu companheiro me deu, meus sogros, cunhadas, concunhado e sobrinhos. Por serem de um mundo totalmente diferente do meu, por todo aprendizado em meio a essa
diferença. Pelo apoio imenso, pelo companheirismo e por me mostrarem que o amor pode, sim, prevalecer acima de tudo.
A toda a minha família, de sangue e de coração — às avós, ao avô, às tias avós, aos tios, primos, às irmãs, aos irmãos, às sobrinhas e aos sobrinhos —, que não cabe inteira neste agradecimento por ser tão grande e tão diversa. Agradeço a todas e a todos por fazerem parte de diferentes momentos da minha vida e serem de suma importância para minha constituição como ser humano.
Agradeço às minhas amigas e aos meus amigos da igreja. Pelas ricas experiências que compartilhamos em nossa infância e adolescência, por mantermos uma amizade forte e respeitosa mesmo que os nossos caminhos tenham tomado rumos tão diferentes.
Em especial, à minha amiga Camila, pelo tanto que crescemos e mudamos juntas ao longo da nossa história. Pelos momentos de profunda dor e também de intensa alegria compartilhados. Pelo companheirismo, pelo apoio e pela ligação transcendental que nos mantém unidas.
Aos meus amigos da vida, Breno e Thomaz, pela linda trajetória da nossa amizade, digna de uma história de série. Por me darem tanto orgulho e por estarem presentes em todos os momentos da minha vida. Por tudo que vivemos, por tudo que ainda iremos viver, pelas nossas mudanças e crescimentos, por esse amor tão grande e especial que há entre nós.
Às pessoas especiais que a graduação me trouxe. Por nossas intensas e profundas reflexões sobre absolutamente tudo, que tiveram grande impacto na minha persona militante; e por serem amizades que carregarei sempre em meu coração.
A toda equipe do gabinete do Desembargador Sérgio Rizelo, por me mostrarem que é possível encontrar pessoas muito especiais nos ambientes em que você espera encontrar apenas hostilidade, conservadorismo e superioridade. Ao próprio Desembargador, por me proporcionar uma excelente oportunidade de trabalho e por demonstrar respeito e admiração à minha atividade de revisora.
Às minhas amigas e ao meu professor de crossfit, por serem minha válvula de escape, minha dose de endorfina matinal, pela companhia, pelas superações e pelas risadas que me ajudaram a passar por momentos extremamente difíceis. Especialmente porque, nessa reta final, a prática de exercícios diários rodeada de pessoas especiais foi crucial para eu conseguir encerrar esta pesquisa.
A todo time VARSUL, que me abraçou e me fortaleceu durante essa trajetória, por ser formado de pessoas que são excelentes linguistas, mas, acima de tudo, são exímias humanas! Pelos bares e momentos acadêmicos compartilhados, por toda troca, toda parceria e toda ajuda.
À minha amada orientadora Eda, pela didática inigualável das suas orientações, por abraçar esta pesquisa, pelos conselhos cruciais e, principalmente, por ser tão humana. Por ter se tornado meu ícone de mulher, de professora, de pesquisadora e de acadêmica.
A todo programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSC, às amigas e aos amigos, ao corpo docente e administrativo. Por tudo que compartilhamos nesses anos, especialmente pela nossa resistência em momentos difíceis para o meio acadêmico.
À Universidade Federal de Santa Catarina, por ser meu segundo lar, por ter abrigado minha graduação e meu mestrado. Por ser um espaço especial desde a minha infância, quando frequentava as aulas com meu pai; e por ser o espaço que proporcionou minhas maiores conquistas.
À CAPES, pelo apoio financeiro através da bolsa de pesquisa.
À professora e amiga Carla Regina e ao professor Sandro Braga, por terem participado da minha banca de qualificação com ricas contribuições; e por terem aceitado, agora junto com o professor Jair Zandoná, participar da minha banca de defesa. Meus sinceros agradecimentos a essa e esses excelentes profissionais.
À minha fé, por me mover, por me preencher com o amor cristão, um amor inclusivo, resiliente, humano e caridoso.
E, por fim, a mim mesma. Apesar do apoio imenso que recebo de todos os lados, no fim das contas, só dependia de mim. Foi uma batalha travada comigo mesmo. Agradeço-me por ter resistido até o fim, pela constante superação das minhas inseguranças e dos meus medos. Por ter enfrentado o pânico, a ansiedade e a depressão e por, apesar de tudo, ter chegado até aqui.
O “olhar masculino”, como determinante das escolhas da minha vida, não me interessa.
RESUMO
Esta dissertação trata da realização da variável marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas nas postagens das páginas – no Facebook e no Instagram – do Seminário Internacional Fazendo gênero 11 e da 13ª edição de Mundos de mulheres, que aconteceram juntos, como um único evento, em agosto de 2017, na Universidade Federal de Santa Catarina. Foram analisadas 43 postagens, publicadas entre 23 de julho e 7 de agosto de 2017. Sob a perspectiva teórico-metodológica da Sociolinguística Variacionista – considerando especialmente as noções de identidade, estilo e comunidade de prática –, a pesquisa objetivou depreender uma possível relação entre gênero linguístico e gênero social, bem como contextos relevantes à realização do fenômeno variável em análise. Com base no controle de grupos de fatores de natureza sintática e de natureza textual-discursiva que forneceram resultados quantitativos, bem como em análise qualitativa dos dados, os resultados apontaram (i) associações estilísticas de ordem social, relacionadas a) à relevância do feminino genérico [alunas] na amostra como uma referência mais representativa e inclusiva para as identidades de gênero; e b) ao uso das variantes não binárias, o grafema x [alunxs] e, especialmente, a vogal- e[alunes], como formas inclusivas para a comunidade LGBT+, principalmente, para as identidades trans; e (ii) associações estilísticas de ordem linguística, relacionadas ao uso das variantes barra [alunas/os], parênteses [alunas(os)] e construção coordenada [alunas e alunos] em postagens de assuntos mais formais, voltados ao meio acadêmico. O masculino genérico não teve relevância na análise dos dados.
ABSTRACT
This dissertation deals with the realization of the variable language linguistic marking in the generic reference to people in the page postings - on Facebook and Instagram - of the International Seminar Making Gender 11 and the 13th edition of Women's Worlds, which happened together, as a single event, in August 2017, at the Federal University of Santa Catarina. We analyzed 43 posts, published between July 23 and August 7, 2017. From the theoretical-methodological perspective of Variationist Sociolinguistics - especially considering the notions of identity, style and community of practice - the research aimed to understand a possible relationship between gender language and social gender, as well as contexts relevant to the realization of the variable phenomenon under analysis. Based on the control of groups of syntactic and textual-discursive factors that provided quantitative results, as well as qualitative analysis of the data, the results showed (i) social stylistic associations, related to a) the relevance of the generic female [alunas] in the sample as a more representative and inclusive reference to gender identities; and b) the use of non-binary variants, grapheme x [alunxs], and especially vowel -e [alunes], as inclusive forms for the LGBT + community, especially for trans identities; and (ii) stylistic associations of linguistic order, related to the use of the variants bar [alunos/as], parentheses [alunos(as)] and coordinated construction [alunos e alunas] in more formal postings related to the academic environment. The generic male had no relevance in data analysis.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Impossibilidade de concordância de gênero aleatória... 36
Figura 2 Campo indexical de -ing... 53
Figura 3 Marcha Internacional ... 89
Figura 4 Marcha Internacional - uso de Masc. Gen. ... 89
Figura 5 Mesa redonda Figura 6 Simpósio temático ... 97
Figura 7 Atividades artísticas e culturais ... 98
Figura 8 Marcha Internacional e Cores de Aidê ... 98
Figura 9 Convite Linn da Quebrada...100
Figura 10 Exposição...100
Figura 11 Mostra Audiovisual ...100
Figura 12 Pré-evento...100
Figura 13 Segurança durante evento ...101
Figura 14 Orientações para credenciamento ...101
Figura 15 Marcha Internacional...103
Figura 16 Tipo injuntivo/descritivo...103
Figura 17 Tipo injuntivo/descritivo ...105
Figura 18 Discurso reportado ...107
Figura 19 Atividades artísticas e culturais...109
Figura 20 Tipo injuntivo/descritivo...109
Figura 21 Distribuição das formas variantes nas postagens ...112
Figura 22 Exposição ...113
Figura 23 Marcha Internacional...113
LISTA DE TABELAS
Tabela 1. Frequência das formas variantes na amostra ... 88
Tabela 2. Correlação entre a forma de composição do dado e as formas variantes ... 91
Tabela 3. Correlação entre o elemento que recebe a marcação e as formas variantes ... 92
Tabela 4. Correlação entre a ordem de realização do gênero e as formas variantes ... 93
Tabela 5. Correlação entre função sintática e as formas variantes ... 95
Tabela 6. Correlação entre assunto e as formas variantes ... 99
Tabela 7. Correlação entre os tipos de sequência textual e as formas variantes ... 105
Tabela 8. Correlação entre público alvo e as formas variantes ... 108
Tabela 9. Correlação entre o uso da variante na postagem e as formas variantes ... 111
Tabela 10 Correlação entre postagem, uso da variante na postagem e as formas variantes ... 112
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 14
1.1 CARACTERIZAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO ... 14
1.2 OBJETIVOS ... 18
2 A QUESTÃO DO GÊNERO... 21
2.1 GÊNERO SOCIAL... 21
2.2 GÊNERO LINGUÍSTICO/GRAMATICAL ... 32
2.3 MARCAÇÃO DE GÊNERO NO PB: DE UMA VISÃO ESTRUTURAL À SOCIAL ... 35
2.4 ESTUDOS RELACIONADOS ... 41
3 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ESTILO E IDENTIDADE ... 48
3.1 AS TRÊS ONDAS DOS ESTUDOS VARIACIONISTAS ... 48
3.2 COMUNIDADE DE PRÁTICA ... 57 4 ENCAMINHAMENTO METODOLÓGICO ... 65 4.1 SELEÇÃO DA AMOSTRA ... 65 4.1.1 O evento ... 67 4.2 ENVELOPE DE VARIAÇÃO ... 75 4.3 QUESTÕES E HIPÓTESES ... 78 Questões norteadoras: ... 78 Hipóteses:... 79 4.4 VARIÁVEIS INDEPENDENTES ... 81
5 ANÁLISE DOS DADOS ... 86
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...120
1 INTRODUÇÃO
Esta dissertação desenvolve uma pesquisa acerca da marcação linguística de gênero1 no
português brasileiro (PB), buscando refletir sobre uma possível desconstrução de valores sociais patriarcais expressos/indiciados na língua.
Toma-se, como material de análise, uma coleta de dados nas páginas oficiais – no Facebook e no Instagram – do Seminário Internacional Fazendo gênero 11 e da 13ª edição de Mundos de mulheres, que aconteceram juntos, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), de 30 de julho a 4 de agosto de 2017. Uma melhor contextualização será ofertada na seção de metodologia. A seguir, apresenta-se uma caracterização do objeto em estudo, seguida dos objetivos desta pesquisa. Encerra este primeiro capítulo uma breve descrição da organização interna do texto.
1.1 CARACTERIZAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO
O objeto de pesquisa será preliminarmente apresentado nesta Introdução, mas antes é necessário esclarecer alguns aspectos sobre os pontos de vista aqui adotados. Em primeiro lugar, ressalta-se a diferença entre dois termos que serão constantemente utilizados: (I) gênero linguístico/gramatical e (II) gênero social. Cada termo engloba um tipo de discussão, que, mais adiante, irão se relacionar em certos pontos, mas, a priori, é fundamental compreender suas diferenças. Além disso, cada classificação se expande para uma série de outras classificações, que serão mais bem abordadas no decorrer do texto.
Em (I) – gênero linguístico/gramatical – está toda a questão de marcação de gênero na língua. No capítulo 2, discutiremos as classificações dessa marcação na linguística, mas, em síntese, o PB possui dois gêneros gramaticais, o masculino e o feminino – algumas vertentes
1 Usamos, por ora, a expressão “marcação linguística de gênero” como equivalente a “marcação de gênero linguístico/gramatical”. Optamos por usar ambos os qualificadores, pois consideramos que apenas “gramatical” não recobriria usos como @ e x (alun@, alunx), que teriam valor mais estilístico do que propriamente gramatical/morfológico. Assim, o termo “gênero linguístico/gramatical” é usado em contraste com “gênero social”. Quando julgarmos pertinente, utilizaremos apenas um ou outro qualificador.
afirmam que o masculino seria a forma não marcada, e o feminino a marcada. De qualquer modo, o foco neste ponto é que só há, oficialmente, na língua portuguesa, esses dois gêneros. Dentre as especificações do gênero masculino, tem-se o masculino genérico, uma forma de fazer referência a grupo de pessoas diversas. Esse tipo de referência genérica é uma das formas variantes do fenômeno linguístico desta pesquisa.
O masculino – assinalado basicamente no artigo definido nas ocorrências a seguir – é utilizado para referenciar objetos inanimados, como “o lápis está apontado”; animais, como “o
cachorro e o gato não foram adotados”; seres humanos do sexo2 masculino, como “o presidente Temer assinou a reforma da previdência”; grupo de seres humanos, sendo todos os componentes
do grupo pessoas do sexo masculino, como “dentre os jogadores da seleção estão Paulinho e Daniel Alves”; e grupo de seres humanos de diferentes identidades, como “Os cantores Pablo Vittar, Anitta e Preta Gil estão ansiosos para a apresentação de hoje.” e “o brasileiro gosta de comer bem”. A este último se aplica o rótulo de masculino genérico por se tratar do uso do gênero gramatical masculino para fazer referência a seres humanos como um todo, independente do gênero de cada indivíduo, sendo homens, mulheres ou pessoas não binárias3.
O masculino genérico, conforme Mäder e Moura (2015), manifesta-se em quatro situações típicas: (i) para fazer referência a seres humanos cujo gênero é desconhecido ou não é relevante, por exemplo, “o homem não sabe conviver em sociedade”; (ii) para fazer referência a grupo de seres humanos de gêneros diversos, como “os alunos da UFSC estão retornando das férias”; (iii) para realizar a concordância com sujeitos coordenados que possuem gêneros diferentes, por exemplo “a menina e o menino estão atentos ao professor”; e (iv) para realizar a concordância entre nomes e pronomes que não fazem a distinção de gênero, como “quem foi sorteado?”.
Em (II) – gênero social – há outro tipo de discussão, de ordem social, que envolve a sexualidade do ser humano. Neste trabalho são considerados autores de diferentes épocas e diferentes áreas das ciências humanas para essa reflexão. A discussão sobre identidade de gênero é muito abrangente, complexa e sensível, consideramos, apenas a título de classificação e contextualização, três termos diferentes (LANZ, 2014): (1) sexo – que está relacionado com a natureza biológica e genética, e pode ser classificado em macho, fêmea, intersexuado e nulo; (2)
2 Usamos, nesse ponto, o termo sexo para identificar seres humanos porque a gramática normativa não considera a distinção entre sexo e gênero social. Essa distinção será discutida adiante.
gênero – que tem uma natureza social, política, histórica, cultural e religiosa, portanto, é construído socialmente, apresentando duas categorias binárias (homem e mulher, ou masculino e feminino) e duas subcategorias que abrem o leque para a não binariedade (cisgênero e transgênero, sendo que este abarca todas as identidades transgressoras do sistema binário de masculino e feminino); e (3) a orientação sexual – que é de natureza emocional e afetiva, e possui as categorias homossexual, heterossexual, bissexual e assexual.
Portanto, o termo gênero linguístico/gramatical faz referência, estritamente, à marcação de gênero na língua, e o termo gênero social faz referência a uma discussão sobre a construção social da sexualidade do ser humano.
Esclarecido esse ponto, partimos para outra questão: algumas vertentes da linguística defendem que o gênero linguístico é apenas gramatical e não possui relação com o social, que são dois fenômenos, de fato, diferentes e não se relacionam em nenhuma hipótese. Porém, para desenvolver esta pesquisa acreditamos que a reflexão sobre a marcação de gênero linguístico também implica uma reflexão sobre o gênero social. Todo este trabalho é permeado por indagações como estas: Quão relacionadas estão as duas dimensões de gênero? Até que ponto a marcação de gênero na língua está relacionada com a discussão de gênero na sociedade? A relação entre a marcação linguística e a discussão social de gênero é aleatória?
O recorte desta pesquisa se dá, então, na marcação linguística de gênero para fazer referência a grupo de seres humanos diversos. Por isso, a reflexão teórica sobre gênero linguístico/gramatical e sobre gênero social trará uma terceira reflexão sobre a relação entre esses dois polos: língua e sociedade. Ou seja, uma possível relação entre a marcação linguística de gênero e o gênero social. Atualmente percebe-se — em um movimento sócio-ideológico-cultural que, aparentemente, está questionando a representação morfológica única (-o/-a) — a utilização de outras formas, além do masculino genérico, para fazer referência a pessoas de diferentes gêneros.
Um exemplo concreto desse movimento é o uso do @, do grafema x, ou da vogal -e no lugar do morfema -o na internet, principalmente nas redes sociais, em postagens de divulgação de festas, campanhas políticas e publicitárias, blogs etc. Sabemos que as motivações, em diferentes esferas, meios de divulgação e gêneros discursivos como os mencionados, são de natureza diversa, envolvendo interesses culturais, comerciais, político-partidários, entre outros, que podem estar voltados à audiência – função apelativa da linguagem –, e/ou voltados ao próprio sujeito enunciador
– função expressiva da linguagem. Em qualquer das situações, acredita-se que haja um componente político/ideológico subjacente.
Um levantamento preliminar de alguns usos mostrou que grupos sociais ou indivíduos, motivados, principalmente, por questões políticas/ideológicas, procuram intervir na língua dessa maneira, muitas vezes como uma forma de militância. Vejamos alguns dados ilustrativos, extraídos da internet:
(1) “À luta, companheir@s. São Paulo precisa de nós.” (Trecho de uma campanha política).
(2) “Avon: para todes!” (Slogan de uma campanha publicitária de uma marca de cosméticos).
(3) “Bem-vindxs”; “Obrigade” (Cumprimento e agradecimento realizado por um artista que se declara como gênero neutro, agênero ou pessoa não binária — conceituações desses termos serão discutidas no próximo capítulo).
(4) “Elx tinha feito um vídeo antes desse clipe, nos primeiros segundos achei que era uma pessoa feia fazendo zoeira. Com o decorrer do vídeo elx calou a minha boca com as palavras delx amei muito. Elx quebrou um tabu.” (Comentário que um usuário de rede social fez sobre o artista referido).
(5) “Olá, menines” (Cumprimento que o artista Rizzih usa em seus vídeos na internet) Acreditamos que as pessoas usuárias dessas intervenções possuem uma visão e posicionamento ideológicos de uma sociedade moderna, com diferentes valorações, que tem por objetivo desconstruir padrões socialmente impostos, por isso seus discursos tendem a questionar os princípios que embasam discursos hegemônicos e dominadores, em diversas instâncias, seja na língua, na moda, na política, na religião, na educação etc.
Assim, supomos que, sendo a desconstrução de valores sociais patriarcais também realizada através da língua, os usos anteriormente apresentados são formas de questionar o hegemônico e expressar que, por um determinado olhar, a língua pode ser excludente. Tais suposições encontram respaldo na pesquisa descrita a seguir, entre outros trabalhos.
Há um projeto colaborativo, chamado Dicionário de gêneros, que busca a inclusão da diversidade de gêneros através da língua. Nele, pessoas de diversos gêneros, com o auxílio de uma lexicógrafa, criam verbetes que as representem, reunindo, assim, representantes de diferentes gêneros com suas distintas interpretações sobre suas identidades. Por ser um projeto promovido
por pessoas que ocupam o lugar de fala — portanto, dão mais legitimidade à reivindicação por ser algo da realidade delas —, foi retirado um verbete do site para exemplificar a afirmação de que as variantes inovadoras estão sendo utilizadas como questionamento ao masculino genérico. Além disso, o trecho também exemplifica a hipótese, a ser apresentada no próximo tópico, de que o grafema x e a vogal ‘e’ são formas não binárias. No site há o seguinte verbete sobre o uso da vogal ‘e’:
Nossa língua portuguesa é marcada pela binariedade, reconhecendo apenas o masculino, com o artigo “o” e o feminino, com o artigo “a”. E essa é mais uma barreira enfrentada pelos gêneros não normativos, que há anos vêm lutando pela neutralidade, usando “@”, “x” e, mais recentemente, a letra “e” como indicador de qualquer gênero, abraçando todes, não só mulheres e homens cisgêneros, mas transgêneros, pangêneros, gêneros-fluidos, agêneros, entre muites outres, para que possamos enxergar a diversidade na nossa língua. (Disponível em: <http://dicionariodegeneros.com.br>. Acesso em ago de 2017)
Por todas essas razões, propõe-se levar em consideração motivações sociais/políticas/ideológicas de determinados usos da marcação de gênero na referência genérica a pessoas para refletir sobre a relação que há entre os usos e seus significados sociais. Para realizar essa análise, desenvolveu-se a coleta de dados nas páginas de Instagram e Facebook dos eventos Mundos de Mulheres e Fazendo Gênero, cuja metodologia de coleta será elucidada no quarto capítulo.
Feita essa contextualização inicial acerca do objeto de estudo – identificado como marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas –, apresentam-se, a seguir, os objetivos que norteiam o trabalho.
1.2 OBJETIVOS
Objetivo geral:
Desenvolver uma reflexão sobre a relação entre gênero linguístico/gramatical e gênero social, considerando uma possível desconstrução de valores patriarcais expressos na língua, a partir da análise de formas alternativas de marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas nas páginas do Facebook e Instagram do Seminário Internacional Fazendo Gênero e do Congresso Internacional Mundos de Mulheres.
I. Levantar as diferentes formas (variantes) usadas para marcação linguística de gênero na referência genérica a pessoas, investigando o contexto de uso da variável e das variantes4.
II. Buscar compreender o papel do masculino genérico entre as formas alternativas encontradas.
III. Analisar quais papéis sociais as variantes indexalizam e, a partir disso, interpretar o que pode levar o locutor a optar por uma ou outra forma de expressão.
As questões norteadoras da pesquisa e suas respectivas hipóteses serão apresentadas no capítulo que trata da metodologia.
Em linhas gerais, quanto aos fatores condicionadores, esperamos que a configuração sintática, e o contexto textual-discursivo, como o público alvo (Fazendo Gênero, Mundos de Mulheres) e o assunto da postagem, sejam significativos e atuem como contextos que privilegiem o uso de uma ou de outra forma variante. Temos como hipóteses gerais que o grafema x [alunxs] e a vogal – e [alunes] são utilizados mais em postagens sobre a comunidade LGBT+, já as variantes5
feminino genérico [alunas], a barra [alunas/os], parênteses [alunas(os)] e construção coordenada [alunas e alunos] são mais utilizadas em postagens com militância de foco feminista, por, talvez, não haver uma preocupação primordial com a não binariedade. Acredita-se também que quando o assunto é mais formal, como o assunto acadêmico (postagens sobre os simpósios temáticos e mesas-redondas, por exemplo), as variantes barra, parênteses e construção coordenada são as mais propícias a serem utilizadas.
No que tange especificamente ao masculino genérico, tem-se como hipótese que tal forma de expressão terá uma presença inferior às demais, por isso, verificaremos nos dados a possibilidade de ter aparecido por descuido de linguagem. Acreditamos que a presença inferior ocorrerá porque mulheres, gays e pessoas não binárias não estão representadas nessa variante.
Quanto ao efeito estilístico do uso das variantes, acredita-se que as escolhas das formas de referência genérica a pessoas, associadas a alguns estilos indexicalizam certas identidades, configurando-se como marcas de identidade social ou de grupo.
4 O termo variável corresponde ao fenômeno linguístico em variação, no caso, a marcação de gênero na referência genérica a pessoas. O termo variantes designa as formas linguísticas que se alternam na expressão da variável. (Cf. exemplos (1) a (5).)
5Cabe aqui um esclarecimento: A barra e os parênteses são sinais gráficos usados para representar formas distintas de marcação de gênero binário (alunos/as, alunos(as)), não se constituindo, por si sós, em variantes da variável em estudo. Tenha-se isso em mente sempre que aparecerem associados, junto às demais formas alternantes, ao termo “variantes”.
Essas questões e hipóteses serão retomadas e detalhadas na seção relativa à metodologia.
***
O capítulo sobre gênero se subdivide em quatro seções: a primeira considera a discussão de gênero por um viés antropológico e social (acionando-se autoras como Judit Butler, Spivak e Letícia Lanz); a segunda discorre sobre a marcação de gênero na língua por um viés mais gramatical/estrutural (considerando-se gramáticos normativos como Cunha e Cintra e Rocha Lima, além de linguistas como Mattoso Câmara Jr. e Luiz Carlos Schwindt); a terceira trata da relação entre o gênero linguístico/gramatical e o social por um viés político/ideológico que envolve questões feministas (embasando-se em autores como Penelope Eckert e Sally McConnell, Mäder e Severo, Cervera e Frando); e a quarta apresenta uma revisão de trabalhos que abordam aspectos linguísticos para refletir sobre questões feministas e LGBT+, com abordagens políticas, ideológicas e variacionistas.
O capítulo sobre variação linguística inscreve o estudo numa perspectiva teórico-metodológica do que se tem chamado de terceira onda dos estudos variacionistas, contemplando aspectos estilísticos e identitários. Para essa discussão, serão acionados autoras como Penelope Eckert e Judith Irvine.
O capítulo sobre o encaminhamento metodológico é subdividido em três seções: a primeira tratando da seleção da amostra; a segunda apresentando o envelope de variação; e a terceira descrevendo as variáveis independentes controladas.
2 A QUESTÃO DO GÊNERO
Este capítulo trará uma discussão inicial sobre identidades de gênero com intuito de esclarecer alguns termos que serão utilizados durante este trabalho e de contextualizar, mesmo que de maneira ainda introdutória, a discussão que motivou o desenvolvimento desta pesquisa. Na sequência, discorre-se sobre gênero linguístico/gramatical, com base em alguns gramáticos normativos e linguistas. Em seguida, aborda-se uma transição de uma visão estrutural da marcação de gênero no PB a uma visão social e, por fim, apresenta-se alguns estudos que estão, de certa forma, correlacionados com o tema desta pesquisa.
2.1 GÊNERO SOCIAL
Nesta seção traremos as teóricas que embasam nossa discussão sobre o que chamamos de gênero social. Letícia Lanz (2014) contribui para esclarecermos parte das terminologias das identidades de gênero a serem utilizadas nesta pesquisa. Judith Butler (2003[1990]) traz as reflexões sobre identidade e performatividade para pensarmos gênero.
Inicialmente destaca-se a diferenciação entre sexo, gênero e orientação sexual. Porém, ressaltamos que toda essa discussão inicial com base nos termos de Lanz (2014) não pretende ser categórica, nossa intenção não é colocar as identidades em caixas. O intuito é apenas compreender os termos de maneira introdutória, para, depois, em uma discussão mais complexa, pensar na fluidez deles. Ao nosso ver, pra quem está na comunidade, a lida com essas terminologias pode ser tranquila por já estarem inseridos no contexto, acreditamos que a compreensão da fluidez dos termos pode ser mais natural para quem a vivencia. Porém, para as pessoas hétero e cis que não possuem familiaridade com as discussões de gênero e sexualidade, acreditamos não haver uma compreensão tão intuitiva. Cremos que há, entre pessoas não familiarizadas com a discussão, grande confusão entre os termos sexo, gênero e orientação, que são tomados um pelo outro, o que resultada nos estereótipos de que todo homem cis gay é afeminado e toda mulher cis hétero é "machorra". Por isso sentimos a necessidade de esclarecer que um termo não está necessariamente ligado ao outro e, para isso, precisamos, primeiro, pensa-los separadamente.
Nas palavras de Lanz (2014), o termo sexo está relacionado unicamente com a biologia, com o órgão genital da pessoa, podendo ser especificado em macho, fêmea, intersexuado e nulo.
O termo gênero está relacionado com a construção social. Na cultura ocidental, há apenas dois gêneros reconhecidos, o feminino e o masculino, e, consequentemente, ambos se espelham no sexo biológico. Portanto, nesse sistema binário, é socialmente imposto àqueles que nascem com as características biológicas reconhecidas como masculina (sexo masculino) que devem se identificar com o gênero masculino e àquelas que nascem com as características biológicas reconhecidas como feminina (sexo feminino) que devem se identificar com o gênero feminino.
Segundo Lanz (2014, p. 40):
Em virtude da naturalização do sexo como fonte das construções sociais relacionadas a gênero, é comum as pessoas tomarem uma coisa pela outra no seu dia-a-dia. Mas é sempre importante lembrar que sexo refere-se tão somente às diferenças genéticas, fisiológicas e anatômicas entre a genitália do macho e da fêmea da espécie humana, enquanto gênero é um dispositivo de controle social instituído com base em normas de conduta culturais, políticas, jurídicas, etc. endereçadas específica e respectivamente a machos e fêmeas biológicas em cada sociedade e época.
É importante compreender, então, que, embora em um discurso hegemônico sexo e gênero estejam necessariamente interligados, aqui acreditamos que, como gênero é construído social e historicamente, não há uma obrigatoriedade de esses dois termos estarem sempre relacionados com o que foi imposto socialmente. Ou seja, quem nasce com a genitália masculina pode se identificar com o gênero feminino e vice-versa. Para além disso, também há gêneros que não se enquadram nesse sistema binário, são as identidades de gêneros divergentes, as quais serão discutidas adiante. O termo orientação sexual diz respeito ao desejo erótico e afetivo do ser humano. Para um esclarecimento inicial podemos dizer que a orientação não está estritamente relacionada com o sexo nem com a identidade de gênero, tem relação unicamente com a atração física e emocional entre pessoas. A relação heterossexual é aquela entre gêneros opostos, entre homem e mulher; a relação homossexual é aquela entre mulher e mulher ou entre homem e homem; e a relação bissexual é aquela entre pessoas do mesmo gênero e de gêneros opostos, mulher e mulher, mulher e homem ou homem e homem.
Esses três termos – sexo, gênero e orientação sexual – não estão completa e totalmente relacionados, pois cada um diz respeito a um espectro da sexualidade humana: biologia, construção social e atração erótico-afetiva, respectivamente. Mas, da mesma forma que a cultura ocidental impõe que o gênero está relacionado com o sexo, a orientação também é imposta. Ou seja, é imposta uma relação direta e linear, quem nasce com o sexo macho deve ser do gênero masculino e sentir-se atraído por mulheres e quem nasce com o sexo fêmea deve se identificar com o gênero feminino e sentir-se atraída por homens.
Judith Butler (2003[1990]), como veremos adiante, define essa relação como heteronormatividade, que significa a instituição compulsória e naturalizada das normas binárias de gênero, normas estas reguladas pela heterossexualidade, condutoras da diferenciação entre os estereótipos do feminino e do masculino e consolidadoras dessa correspondência interna e linear entre sexo, gênero e orientação.
Retornando à conceituação de gênero, como discutido, trata-se de uma construção social, política, histórica, cultural e religiosa. Mas, além disso, é necessário considerar as classificações: além das categorias feminino e masculino, há cisgênero e transgênero – esta diz respeito aos gêneros divergentes do sistema binário e aquela aos gêneros conformes a esse sistema. Portanto, de maneira simplificada, quem se identifica com o gênero que lhe foi imposto é cisgênero, já quem não se identifica com o gênero imposto no nascimento ou, além disso, também não se identifica com nenhuma das duas categorias reconhecidas socialmente é transgênero.
Segundo Letícia Lanz (2014, p. 27):
Entende-se por identidades transgêneras aquelas identidades de gênero que se constituem a partir de alguma forma de transgressão, desvio ou violação das normas de conduta estabelecidas pelo dispositivo binário de gênero masculino-feminino. Portanto, o transgênero só existe em contraposição à norma binária, como uma forma de diferenciação do hegemônico. A palavra transgressão é o ponto chave na discussão sobre trans-identidades, justamente por transporem, infringirem ou violarem as normas binárias de gênero.
O texto de Lanz (2014) busca refletir sobre a transgeneridade dentro do espectro social, como um fenômeno de desvio das normas sociais de gênero, focando na natureza sociopolítica e cultural, não em discussões biológicas o biomedicinais. Percebe-se haver uma questão paradoxal quando pessoas transgêneras realizam uma transgressão por não se enquadrarem no gênero que lhes foi imposto, mas, ao mesmo tempo, esforçam-se para se enquadrar nas normas sociais do gênero com as quais se identificam.
O termo transgênero, então, não diz respeito apenas a pessoas que se identificam com o gênero oposto ao que lhe foi imposto no nascimento. Por exemplo, uma pessoa que nasceu com o sexo fêmea e, consequentemente, o gênero feminino lhe foi imposto, mas, na verdade, ela se identifica com o gênero masculino. Há uma transgressão de gênero, mas não há uma transgressão do sistema binário, pois, mesmo que a pessoa não se identifique com o que lhe foi imposto ao nascer, ela busca se enquadrar no outro gênero. Porém, o termo transgênero também abrange toda e qualquer identidade de gênero divergente, como travesti, transexual, não-binárias, crossdresser,
dragqueen etc. É um termo guarda-chuva, pois abarca diversas identidades que, de alguma forma, transgridem o sistema binário de gênero.
Através dessa breve reflexão sobre identidade de gênero, algumas expressões que irão aparecer nesta pesquisa estão esclarecidas. Porém, de novo ressaltamos que é apenas um esclarecimento inicial, a discussão é muito complexo e, principalmente, mais fluída do que se apresentou até aqui. Para recapitular, retomam-se alguns pontos específicos:
1. O termo gênero diz respeito à identificação do ser humano e não está necessariamente relacionado com o sexo biológico:
a. Pessoas cisgêneras são aquelas que se identificam com o gênero designado ao nascer;
b. Pessoas transgêneras são aquelas que não se identificam com o gênero designado ao nascer e/ou não se identificam no sistema binário masculino ou feminino, por isso o termo transgênero abarca inúmeras identidades.
2. O termo orientação sexual diz respeito à atração física e afetiva do ser humano e não está necessariamente relacionado com o gênero e nem com o sexo biológico da própria pessoa:
a. Homossexuais são pessoas que se sentem atraídas por pessoas do mesmo gênero (Por exemplo, casais de homens, sejam eles cis ou trans, e casais de mulheres, sejam elas cis ou trans.);
b. Bissexuais são pessoas que se sentem atraídas tanto por pessoas do gênero masculino quanto do feminino;
c. Heterossexuais são pessoas que se sentem atraídas por pessoas do gênero oposto.
Há diversas siglas, que são historicamente situadas, para referenciar comunidades que não se enquadram no mundo heterossexual, como GLS (gays, lésbicas e simpatizantes); LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans); LGBTT ou LGBT* (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis transgêneros); e LGBTQI (lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer e interssexuado). Neste trabalho adota-se a sigla LGBT+, com o símbolo + fazendo referência a todas as identidades a serem incluídas nessa comunidade.
Esclarecidas essas questões, nos reportamos, a seguir, a Butler (2003[1990]), em Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade, porque ela desconstrói conceitos fundamentais no feminismo, em especial a noção de identidade como unidade e a relação entre sexo e gênero quando se considera este como uma categoria construída e aquele como categoria natural, neste ponto a complexidade da discussão sobre identidades de gênero é elevada, e torna-se necessário uma desconstrução, ou uma ampliação, dos termos apresentados anteriormente.
A autora aponta a impossibilidade da existência de uma identidade unitária e a necessidade de se considerar uma pluralização, portanto, de se pensar identidade como fluida e ressignificada, como um efeito que existe em um sistema de diferenciação. Essa reformulação do termo é o caminho para a libertação da mulher, a emancipação feminina só é possível quando ocorrer a subversão da identidade de mulher.
Quanto à divisão sexo/gênero, Butler problematiza a premissa de o sexo ser natural e o gênero cultural. A maioria das teorias feministas tem o gênero como um “atributo” de pessoa, que é “caracterizada essencialmente como uma substância ou um ‘núcleo’ de gênero preestabelecido, denominado pessoa” (2003 [1990], p. 29). A autora argumenta que o gênero, na verdade, é inconstante e contextual, não é o que designa uma pessoa, mas sim “um ponto relativo de convergência entre conjuntos específicos de relações, cultural e historicamente convergentes” (2003 [1990], p. 29).
Iniciamos a discussão sobre identidade comentando, primeiro, o perigo do que Butler chama de efeito globalizante da categoria mulheres, ou seja, sobre um discurso fundacionista de que existe uma identidade feminina única. Tornar essa identidade universal também é tornar universal a opressão, como se as experiências de sexualidade, de maternidade, de feminilidade etc. fossem iguais, ou partissem de um mesmo ponto, e sofressem uma mesma opressão.
Nesse contexto, a identidade ‘mulher’ torna-se excludente por não considerar, por exemplo, a diversidade de realidades. Nas palavras de Butler, “a insistência sobre a coerência e unidade da categoria das mulheres rejeitou efetivamente a multiplicidade das intersecções culturais, sociais e políticas em que é construído o espectro concreto das ‘mulheres’.” (2003 [1990], p. 39)
Compreendemos que essa visão, ao invés de fortalecer o movimento feminista, o enfraquece. Primeiramente, porque apenas uma parcela irá se identificar e se engajar na ação política, a discussão dificilmente chegará às mulheres menos privilegiadas, que são justamente as que mais necessitam de empoderamento e autonomia feminina; e, quando mulheres de outras
realidades colocam em discussão questões pertinentes às suas vivências, suas problematizações podem ser reduzidas ao discurso de que “somos todos iguais”. Por exemplo, nos momentos que mulheres negras colocam em pauta questões como apropriação cultural o diálogo pode ser enfraquecido quando outras mulheres relativizam essas questões com o discurso de que “somos todos seres humanos”.
Qualquer tentativa de definição da imagem da mulher, então, causará um engessamento identitário e submeterá o feminismo ao sistema de poder que ele procura combater. Assim, sem a expectativa compulsória de que as ações feministas devam instituir-se a partir de um acordo estável e unitário sobre a identidade, essas ações bem poderão desencadear-se mais rapidamente e parecer mais adequadas ao grande número de ‘mulheres’ para as quais o significado da categoria está em permanente debate (BUTLER, 2003 [1990], p. 41).
Incutir na ação política, uma noção de ‘unidade’ só torna tudo mais exclusivista e causa um apagamento de diferentes vivências. Butler (2003 [1990]) propõe o reconhecimento e a manutenção das contradições, propõe considerar as divergências, as fragmentações e dissensões parte do diálogo e um caminho para a democratização. Em outras palavras, reconhecer os níveis de diferenças nas identidades deve fortalecer as ações políticas e potencializar o alcance, enquanto a noção de unidade só torna as ações mais intolerantes, permitindo apenas que um número restrito de pessoas se identifique e tenha engajamento.
Sobre a noção de diálogo, a autora afirma ser “culturalmente específica e historicamente delimitada, e mesmo que uma das partes esteja certa de que a conversação está ocorrendo, a outra pode estar certa de que não.” (2003 [1990], p. 40). Devemos, então, constantemente questionar as relações de poder subjacentes às formações dialógicas, pois corremos o risco de cair na crença utópica de que, no diálogo, as pessoas ocupam as mesmas posições e falam de um único local de acordo e de unidade, sem haver, portanto, o risco de uma das partes ser silenciada.
Com relação à referência genérica, acreditamos que os usos de outras formas para fazer referência a pessoas é um modo de reconhecer as intersecções de gênero. Ao invés de referenciar de uma maneira unitária, incluindo toda a diversidade em apenas um uso – o masculino genérico – usa-se outras formas, o grafema x e a vogal -e, por exemplo, que abrem a possibilidade de diálogo com quem não se sente representado no masculino. É um caminho para os usos linguísticos promoverem a inclusão, alcançarem mais identidades, para dar nome às fragmentações, cada vez mais plurais, na discussão de gênero. Assim, não só pessoas cis estão representadas, mas também
pessoas trans, levando a discussão de gênero além do binarismo e dessa globalização de uma identidade única criticada por Butler (2003 [1990]).
Embora estejamos falando de um maior alcance no âmbito de ações políticas, essa visão também é utilizada no mercado econômico como recurso para atingir um público maior e mais diverso. A empresa de cosméticos Avon, por exemplo, já lançou uma campanha de maquiagem sem gênero, na qual pessoas das mais diversas identidades participavam, mulheres e homens cis e trans, com o slogan “Avon: para todes!”. A rede de fast food Bob’s, recentemente, também lançou uma campanha com uma proposta inclusiva, expressando, através de diversas frases, que as pessoas são livres e não devem ficar seguindo padrões, como, por exemplo, “Não tem o corpo igual ao da resvista? Você não está sozinhx!”.
Esses exemplos mostram que uma identidade de gênero global pode não ser representativa, e, na verdade, incluir apenas uma pequena parcela que está de acordo com as normatizações sociais. Assim, considerar as intersecções é uma maneira de propagar o discurso, de fazer com que mais pessoas se sintam incluídas, vistas e representadas. Isso vale desde as práticas discursivas, como o objeto desta pesquisa, até ações políticas e jogadas de marketing.
Tratando, ainda, de identidade, Butler (2003 [1990]) questiona as noções estabilizadoras de sexo, gênero e sexualidade e a maneira como a identidade tem a função de conferir inteligibilidade social às pessoas com base nessas noções. Ela traz à luz a percepção de pessoa, que está externamente relacionada com as normas sociais que definem o que é pessoa. Logo, ser uma pessoa ‘coerente’ é estar de acordo com as normas instituídas.
Normas de sexo, gênero e sexualidade são uma das ferramentas de estabelecimento de identidade. Essa normatização prega uma relação de continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo, na qual o gênero deriva do sexo e resulta na prática sexual. Chamada pela autora de heterossexualização do desejo, é instituído uma oposição binária, o masculino e feminino, considerados como propriedades de macho e fêmea. Por exemplo, como já discutimos acima com Lanz (2014), se a pessoa é do sexo fêmea, terá o gênero feminino e sentirá atração pelo masculino. São chamados de gêneros inteligíveis os que estão de acordo com as noções que estabelecem a ligação entre sexo e gênero. Aqueles que não se enquadram nessa normatização são tidos como gêneros incoerentes, e só são concebidos como ‘transgressores’ por serem colocados em oposição com aquele tido como coerente. Portanto, só é considerado inadequado aquilo que é colocado em comparação com o que foi instituído como adequado.
Considerando, então, a noção de pessoa e as normas estabilizadoras de identidade, quem possui identidade de gênero ‘descontínua’ tem sua noção de pessoa socialmente questionada. Isso poderia explicar o porquê de discursos de ódio serem tão recorrentes e não possuírem um olhar humano às pessoas da comunidade LGBT+.
Existem muitos casos de agressões de gênero em que o agressor justifica sua ação tirando a humanidade da vítima, a culpabilizando, colocando-a como a “errada” para justificar as atrocidades. Mais recentemente, por exemplo, temos o caso de uma travesti de Campinas, SP, cujo nome não foi divulgado em nenhuma reportagem que acessamos, apenas em uma tivemos acesso ao nome de registro, Genilson José de Silva. Ela foi brutalmente assassinada e teve seu coração arrancado, a justificativa do assassino foi: "Porque ele era o demônio e eu arranquei o coração dele. É isso, entendeu? Não era meu conhecido. Conheci ele meia-noite"6
Por acontecimentos como este, por toda violência de gênero que inúmeras vítimas sofrem diariamente, esse tipo de discussão faz-se extremamente necessária. Tomar consciência das normas que nos limitam, questioná-las e buscar não as reproduzir é um caminho para combater a heterossexualidade compulsória que leva nossa sociedade a atos tão extremos quanto o exemplificado.
Identidade de gênero é, então, entendida como a relação entre sexo, gênero, prática sexual e desejo, e a questão, neste ponto, é de que forma a identidade de gênero é um efeito da heteressexualidade compulsória?
Para pensar essa questão, Butler (2003 [1990]) mobilizada as posições de Irigary, Foucault e Wittig. Irigary defende a existência de apenas um sexo, o masculino, construído a partir do “Outro”. Essa visão é chamada de teoria da diferença sexual e sugere que mulheres são apenas uma diferença, não são uma negação do masculino, não são o “Outro” do sujeito masculino e também não podem ser compreendidas como sujeito nos “sistemas representacionais convencionais da cultura ocidental” (BUTLER, 2003 [1990], p. 46). Restando apenas serem uma diferença na oposição binária e uma armadilha para o discurso monológico do masculino.
O que nos leva ao ponto de identidade como efeito de práticas discursivas para pensarmos que, se o masculino é socialmente hegemônico, a linguagem é, então, falocêntrica. Irigary (1985
6 (Disponível em: <https://oglobo.globo.com/sociedade/policia-prende-homem-por-assassinar-retirar-coracao-de-travesti-em-campinas-23391344>. Acesso em janeiro de 2019).
apud BUTLER, 2003 [1990]) aponta que a gramática não irá expressar as relações de gênero por amparar apenas a relação binária.
Na opinião de Irigary, a gramática substantiva do gênero, que supõe homens e mulheres assim como seus atributos de masculino e feminino, é um exemplo de sistema binário a mascarar de fato o discurso unívoco e hegemônico do masculino, o falocentrismo, silenciando o feminino como lugar de uma multiplicidade subversiva. (BUTLER, 2003 [1990], p. 46)
Pensando no português brasileiro e, especialmente, no fenômeno linguístico deste estudo, consideramos essa visão pertinente. Nossa língua é, de fato, binária, e o masculino é o dominante, o substantivo global, o feminino é apenas a distinção. Assim, as diversidades que fogem às normas reguladoras de gênero, além de terem suas identidades socialmente consideradas incoerentes e descontínuas, também não possuem uma justa representação linguística/discursiva.
As variantes inovadoras são, conforme nossas hipóteses, e ao que indica essa reflexão, uma maneira de questionar o hegemônico e de tentar burlar a casca da heterossexualidade e da cisgeneridade compulsória. Se identidades são, também, efeitos de práticas discursivas, é de se esperar que ações políticas de gênero ocorram também na língua, não apenas em práticas sociais.
Corroborando essa ideia, no diálogo com Foucault, Butler (2003 [1990]) afirma que a normatização do binarismo, na sociedade e, consequentemente, na língua, omite as sexualidades subversivas que violam a supremacia heterossexual. Foucault defende a existência de uma economia que regula e difunde e sexualidade, no caso, a identidade de gênero inteligível, a binária, é fruto dessa economia. Em consonância, a gramática impõe essa relação binária, a “regulação binária da sexualidade suprime a multiplicidade subversiva de uma sexualidade que rompe as hegemonias heterossexual, reprodutiva e médico-jurídica.” (BUTLER, 2003 [1990], p. 47).
Complementando, Wittig (1985 apud BUTLER, 2003 [1990]) aponta que a regulação binária é uma consequência da heterossexualidade compulsória, está inserida, portanto, num regime falocêntrico. O fim da heteressexualidade cumpulsória é o caminho para a humanização dos gêneros incoerentes, uma vez livres dos tabus sexuais, as pessoas serão mais humanizadas independente de suas identidades de gênero.
A identidade de gênero é um efeito da heteressexualidade cumpulsória quando a norma impõe que ela tem uma relação direta e estática, quando, por exemplo, o corpo identificado/lido como masculino deve identificar-se com o gênero masculino, seguir determinados padrões de masculinidade e ter interesse erótico afetivo apenas por mulheres. Os discursos que dão suporte à essa heterossexualidade compulsória são mantidos pela performatividade. Butler, para pensar
como a norma é constantemente reiterada, reutilizou o conceito de performatividade trabalhado por John Austin.
Nessa linha, vimos que Austin (1962), ao refletir que a linguagem não possui apenas uma função descritiva e que, para além disso, ela é um caminho de criação e ressignificação, trouxe o conceito de performatividade. O autor questiona o quanto as sentenças declarativas são apenas uma declaração ou descrição destituída de contexto de produção e de recepção, fazendo uma crítica à visão filosófica que defende que enunciados linguísticos são apenas declaração sujeitas à condição de verdade ou falsidade.
Além de declarar e informar, as sentenças também ordenam, desejam, concedem, questionam etc. Por isso, as declarações não devem ser consideradas separadas do enunciador e do contexto de enunciação. Em outras palavras, o que é dito não expressa apenas que o que foi literalmente dito, também há uma série de intenções que, inclusive, podem trazer novos significados ao que foi dito.
O autor se opõe, então, à ideia de que a linguagem tem apenas uma função de informar, de expressar significados. Ela também pode atuar como prática social, como um meio da constituição de identidades. A performatividade concede à língua a possibilidade de ação, não só de informação. Nessa visão, as fronteiras entre a linguagem e o mundo são reconfiguradas, pois a língua passa a ser vista também como prática social, constituindo-se e ressignificando-se em diferentes contextos sociais e culturais.
Na teoria Queer, que tem Butler como expoente, tanto sexo quanto gênero são construções sociais. A sexualidade é desenhada em um campo saber e poder, constituído histórico e culturalmente, onde discursos normatizadores são veiculados e atuam como reguladores da conduta dos indivíduos. A regulamentação discursiva, a partir de condicionadores biológicos, físicos e culturais, torna a identidade de gênero algo unitário e fixo, distante de toda a subjetividade humana, e desconsidera a alta variação e heterogeneidade da sexualidade. É nesse meio, de regulação, que a performatividade existe, é impelida e sustentada.
A partir da discussão sobre identidade (BUTLER, 2003 [1990]) e partindo da visão de discurso como prática social (AUSTIN, 1962), consideramos que os indivíduos se estabelecem socialmente através dos seus atos de linguagem, da sua prática discursiva e, por isso, a sexualidade é instituída através de atos performativos. Nesse viés, sexo e gênero não necessitam de uma base biológica por serem apenas criações de discursos reguladores que delimitam indivíduos.
O sexo, então, não é considerado uma categoria natural/biológica e, portanto, o corpo humano não deve ser tomado como algo dado, pronto, mas sim como um corpo sujeito ao agenciamento humano e às escolhas individuais de cada um, sempre moldados pelo contexto social.
Nesse sentido, Butler (2003 [1990], p. 51) reitera que gênero não é sobre ‘ser’ ou ‘ter’, gênero é apenas um meio de produzir e naturalizar as noções normatizadoras de identidade. Se a sociedade desenvolve normas de gênero impostas aos sujeitos, para se manterem como normas elas precisam ser constantemente repetidas e corporificadas. A autora aponta que, apesar disso, os corpos não são completamente resignados às imposições, motivo de existirem os ditos gêneros incoerentes, e, por essa razão, para se efetivarem, as normas necessitam ser referidas e confirmadas sempre. Nesse ponto está o caráter performativo de gênero, uma repetição e ressignificação constante para reiterar a noção dominante, no caso a heteronormatividade.
Enquanto a performatividade é repetição de normas que estão além do sujeito, a performance é um ato isolado no qual o sujeito manifesta sua vontade ou sua escolha. A performatividade promove, fomenta e delimita a performance, esta acontece em contextos nos quais há a possibilidade de desconstruir e repensar as normas impostas, significa que tomamos um papel, que estamos, de certa forma, atuando. Esse papel ou essa atuação são, geralmente, condizentes com o gênero que nos apresentamos ao mundo.
Já a performatividade de gênero produz uma série de efeitos, nós agimos, andamos, falamos, nos vestimos e produzimos uma série de ações que consolidam uma impressão de ser uma mulher ou de ser um homem. Pressupõe-se que esse ‘ser um homem’ ou ‘ser uma mulher’ é, na verdade, algo que acontece internamente ou algo que é simplesmente uma verdade, um fato, sobre nós. Mas, na realidade, trata-se de um fenômeno produzido e reproduzido o tempo todo. Em síntese, afirmar que gênero é performativo é dizer que ninguém pertence a um gênero desde o início, ou seja, que não há uma pré-determinação.
Gênero, então, é formado culturalmente, mas também é um domínio de agência ou de liberdade. É importante resistir às violências impostas pelas normas ideais de gênero, especialmente para aquelas que possuem incoerência de gênero em sua apresentação.
Pensando nas variantes inovadoras desta pesquisa, nos questionamos se seus usos são performances de gênero, tendo em vista que se trata de um uso consciente e que, em seu contexto, corresponde à maneira como o sujeito apresenta sua identidade de gênero. Consideramos, portanto, se os usos linguísticos analisados nesta pesquisa são promovidos, delimitados e fomentados pela
performatividade, ou seja, por uma série de produções e reproduções que constituem uma identidade de gênero.
2.2 GÊNERO LINGUÍSTICO/GRAMATICAL
Nesta seção encontra-se uma reflexão inicial sobre a marcação de gênero linguístico/gramatical no português. Para isso, considera-se o posicionamento de linguistas como Câmara Jr. e Luiz Carlos Schwindt (2017). Ressalvamos, porém, que a análise a ser proposta nesta pesquisa não se enquadra no ponto de vista desses autores.
A marcação gramatical de gênero, no português brasileiro, expressa uma oposição entre o masculino e o feminino e pode ocorrer de diversas formas:
(i) Através do masculino como morfema zero, que, segundo Câmara Jr. (1970), é a forma não marcada; em pares como garoto/garota o /o/ é analisado como vogal temática nominal;
(ii) Através do morfema /a/, marcando, pelo acréscimo, o gênero feminino, como em autor/autora, cantor/cantora;
(iii) Através de nomes terminados em -o flexionados para e /a/, como nos pares menino/menina, gato/gata; e
(iv) Através de determinantes precedendo e/ou concordando com os nomes que não possuem flexão de gênero, como o/a mestre, o/a líder.
Em português, há nomes uniformes, que não variam entre masculino e feminino, e há nomes biformes e comuns de dois gêneros, que podem variar conforme os exemplos acima. Mas, mesmo os nomes uniformes com traços [+concreto] e [-animado] possuem gênero, por exemplo o lápis, a mesa, o telefone.
Casos como o desses nomes que designam seres inanimados justificam o fato de Câmara Jr. e outros gramáticos afirmarem que o gênero gramatical não possui relação com o significado biológico que distingue sexualmente homens e mulheres, bem como animais machos e fêmeas. Ademais, alegam que alguns nomes, mesmo se referindo a seres mais animados, também apresentam gênero que não tem relação com o sexo biológico, como a testemunha e a vítima (palavras do gênero feminino designando tanto homem como mulher) e, em caso de espécies animais, como a cobra (designando tanto macho como fêmea).
Devidas elucidações são necessárias porque, conforme visto em Schwindt (2017), os falantes de PB intuem que nomes terminados com a vogal /a/ são femininos, nomes terminados com a vogal /o/ são masculinos e que há uma relação simétrica e binária entre essas duas terminações. Além de intuírem que existem mais palavras masculinas que femininas no nosso léxico.
Tais intuições podem justificar os usos das referências genéricas analisadas nesta pesquisa (grafema ‘x’, vogal /e/, construção coordenada, barra e parênteses, a serem melhores explicitadas no quarto capítulo), e os esclarecimentos desta seção poderiam refutar esses usos caso estivéssemos considerando apenas o ponto de vista estrutural.
Por isso, o estudo empírico de Luiz Carlos Schwindt (2017), apresentado no texto Predizibilidade da marcação de gênero em substantivos no português brasileiro, é relevante para esta pesquisa. O autor parte das intuições que falantes do português brasileiro (PB) possuem sobre a marcação de gênero na língua e, em uma análise mais geral dos dados coletados, todas são contestadas. Porém, em um olhar aproximado de subgrupos específicos, as percepções dos falantes são justificadas e, até certo ponto, confirmadas, como se expõe a seguir.
O estudo é realizado a partir de três amostras: (i) léxico dicionarizado, levantamento de substantivos presentes no Dicionário Aurélio Eletrônico; (ii) uso vernacular, análise quantitativa de entrevistas do projeto VARSUL; e (iii) corpus de referência, levantamento de substantivos terminados nas vogais /a/, /e/ e /o/ do projeto ASPA.
De acordo com Schwindt (2017), aspectos de disponibilidade (regras e representações disponíveis na língua) e rentabilidade (emprego das regras e representações na comunicação) estão em jogo na atribuição de gênero gramatical em português.
Os dados coletados pelo autor foram classificados em grupos para facilitar a análise dos resultados. O primeiro grupo seria a distribuição de gênero por tipo: uniforme feminino, uniforme masculino, biforme e comum de dois. Os resultados desse grupo mostraram que há mais palavras femininas do que masculinas e que a maioria dessas palavras é uniforme, portanto, não alterna entre masculino e feminino, o que já destitui a segunda intuição dos falantes de PB.
O segundo grupo envolve sexo, animacidade e concretude. A maioria dos substantivos é [+concreto, -animado, -sexuado], e a relação entre animado e sexuado é assimétrica, “todos os sexuados são animados, mas nem todos os animados possuem valor definido para o traço [sexuado] (ex. a criança, um membro etc.).” (SCHWINDT, 2017, p. 7).
Também se considerou o grupo das terminações dos substantivos (de vogais e consoantes) e se observou que a maioria termina nas vogais átonas /a/, /e/ e /o/. Os resultados mostram que a maior parte dos nomes terminam em /a/, em seguida tem-se a vogal /o/ como mais frequente e, por último, o /e/. Corroborando o resultado anterior, no qual o maior número dos nomes é feminino, mesmo que não haja uma relação total entre gênero e vogal terminal, boa parte dos nomes femininos terminam em /a/ e dos masculinos em /o/. Além disso, sobre as palavras terminadas em /e/, os resultados mostram que, em uso, predominam os nomes femininos. Assim, a distribuição dos dados dessas vogais átonas terminais vai de encontro com a tese popular de que há um pareamento entre o /a/ feminino e o /o/ masculino e de que o /e/ pode representar um suposto neutro. Em síntese, os resultados da pesquisa desenvolvida por Schwindt (2017) não confirmam a intuição dos falantes de PB sobre a oposição direta entre /a/ como feminino e /o/ como masculino e sobre a predominância de nomes masculinos. Na verdade, viu-se que a predominância é de nomes femininos e que a oposição de gênero ocorre apenas em um conjunto muito limitado de substantivos, além de a frequência lexical não apontar mais recorrência em nenhuma das formas.
Por isso, em um olhar mais geral, é possível afirmar que os dados de rentabilidade (de emprego das regras na comunicação) não confirmam a tese de predizibilidade da marcação de gênero na língua.
Schwindt (2017), então, analisa conjuntos menores, mais específicos, de dados e percebe que diferentes conclusões podem ser alcançadas.
Foi visto na pesquisa que há uma quantidade maior de nomes uniformes e que os nomes biformes constituem um grupo de pouca representatividade. Mas, para os falantes, estes nomes possuem considerada importância, possivelmente devido à regularidade que apresentam e à rentabilidade no uso ser superior à disponibilidade no léxico. Por isso, foi realizada uma análise mais aproximada dos subgrupos biformes (como menino/menina) e comuns de dois (como líder) que, a princípio, não possuem relevância numérica Esses dados também apontaram que há mais palavras femininas, mas, nos usos biformes e comuns de dois, o emprego de formas masculinas é muito maior, explicando a tese popular de predomínio masculino na língua.
Embora esses dois subgrupos (biformes e comuns de dois) tenham menor número de palavras que os substantivos uniformes, a frequência de uso de cada palavra (tokens = ocorrências) é superior ao número de palavras (types = tipos). Ou seja, o número de itens lexicais é menor nesses subgrupos, porém a frequência de ocorrências de cada item é grande, igualando-se à frequência de