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Rousseau: a educação de Emílio nas primeiras etapas da sua vida

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO

MESTRADO EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS

ROUSSEAU: A EDUCAÇÃO DE EMÍLIO NAS PRIMEIRAS ETAPAS

DA SUA VIDA

ALEXANDRE JOSÉ KRUL

Ijuí/RS 2012

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ALEXANDRE JOSÉ KRUL

ROUSSEAU: A EDUCAÇÃO DE EMÍLIO NAS PRIMEIRAS ETAPAS

DA SUA VIDA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação nas Ciências da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação nas Ciências.

Orientador: Prof. Dr. Claudio Boeira Garcia

Ijuí/RS 2012

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K944r Krul, Alexandre José.

Rousseau : A educação de Emílio nas primeiras etapas da sua vida. – Ijuí, 2012.

59 f. ; 30 cm.

Dissertação (mestrado) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí e Santa Rosa). Educação nas Ciências.

“Orientadora: Claudio Boeira Garcia”.

1. Rousseau. 2. Educação. 3. Etapas da infância. 4. Preceptor.

I. Garcia, Claudio Boeira. II. Título. III. Título: A educação de Emílio nas primeiras etapas da sua vida.

CDU : 37

37.034

Catalogação na Publicação

Frederico Cutty Teixeira CRB10 / 2098

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Quereis que a criança conserve sua forma original. Preservai-a desde o instante em que vem ao mundo. Assim que nasce, tomai conta dela e não a deixeis até que seja adulta; jamais tereis êxito de outra maneira.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais, Paulo e Idemir, e ao irmão Jaime, por sempre me incentivarem ao estudo.

Agradeço a minha namorada Rúbia Emmel, por me motivar a cursar este Mestrado; pelos momentos de diálogo e publicações conjuntas;

Aos Professores José Pedro Boufleuer, Paulo Evaldo Fensterseifer e Ascísio dos Reis Pereira, pelas observações feitas por ocasião da Banca de Defesa;

Ao orientador, Prof. Dr. Claudio Boeira Garcia, que acolheu meu projeto e me incentivou nas fases de pesquisa, escrita, publicação e estágio docente;

À República Federativa do Brasil, que, através da CAPES, financiou por meio de uma taxa este Curso.

À equipe de professores/as e funcionários (as) do Curso de Mestrado em Educação nas Ciências, pelo acolhimento.

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RESUMO

A investigação elucida noções que estão no centro das considerações de Rousseau acerca da educação do infante e das estreitas relações que o autor aponta entre as experiências das primeiras etapas de sua formação física moral e toda a sua vida. Entre as afirmações importantes de Rousseau sobre o assunto, a presente investigação destaca as que seguem: a educação do infante está diretamente vinculada a sua formação moral para o exercício da autonomia e da autenticidade durante toda a sua vida; a educação deve se preocupar primeiramente com o desenvolvimento físico, depois das relações com as coisas, a fim de aperfeiçoar os sentidos e perceber as utilidades das coisas, assim o homem fortalece a si mesmo e mantém o ritmo da natureza; o acompanhamento do preceptor tem por objetivo apoiar o desenvolvimento físico e sensorial do infante, protegendo-o contra a imposição de preconceitos e de vícios sociais; o infante, antes dos 18 anos, não tem necessidade de entender e de se envolver na complexidade da vida social; o preceptor precisa dirigir as oportunidades, os objetos e os locais para um fim educativo, acompanhando cada situação para que a criança faça suas próprias experiências e elabore seus próprios conhecimentos; os homens são moldados pela educação, cuja adequação e correção deles mesmos depende.

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ABSTRACT

Research elucidates notions that are central considerations of Rousseau's education of the infant and the close relationship between the author points out the experiences of the first steps of his moral and physical training all his life. Among the important statements of Rousseau on the subject this research highlights the following: education of the infant is directly related to their moral training for the exercise of autonomy and authenticity throughout his life, education should be concerned primarily with the physical development, after relations with things in order to enhance the senses and realize the utility of things, so one man strengthens itself and keeps the pace of nature; monitoring the tutor aims to support the physical and sensory protecting the infant against the imposition of social vices and prejudices; the infant before age 18 does not need to understand and engage in the complexity of social life, the preceptor needs to address the opportunities, objects and places an order for education, following each situation for the child to make their own experiences and develop their own knowledge, and men are shaped by education and its adequacy depends on their own patch.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 10

1 ROUSSEAU: A EDUCAÇÃO DO INFANTE ... 15

2 O PRECEPTOR ... 22

3 A EDUCAÇÃO NA PRIMEIRA ETAPA DA VIDA ... 27

4 A EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS NA INFÂNCIA ... 34

5 O INFANTE: EDUCAÇÃO DA CURIOSIDADE E DA UTILIDADE ... 46

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 54

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INTRODUÇÃO

"Se quiserdes prolongar pela vida inteira o efeito de uma boa educação, conservai ao longo da juventude os bons hábitos da infância, e, quando vosso aluno for o que dever ser, fazei com que seja o mesmo em todos os tempos" (ROUSSEAU, 2004, p.636)

Este estudo se centra em reflexões de Rousseau acerca da educação dos infantes para evidenciar os conceitos e argumentos mediante os quais o autor vincula estreitamente os cuidados para com as crianças desde o nascimento até a idade dos 15 anos, com suas atitudes e ações em todas as demais etapas de suas vidas. O fato é que há uma preocupação de Rousseau (2004) em formar o homem, moldando-o pela educação, pois "tudo o que não temos ao nascer e de que precisamos quando grandes nos é dado pela educação" (p.9). Da educação é que recebemos a força, assistência e juízo, aspectos essenciais para a vida. Rousseau (2010b) afirma: "Durante toda a minha vida por esse longo encadeamento de misérias e infortúnios que a preencheu, me fez buscar, em todos os momentos, conhecer a natureza e a finalidade de meu ser com mais interesse e cuidado do que encontrei em qualquer outro homem" (p.29).

Que tipo de educação é proposta por Rousseau? Ele divide a educação em três tipos que possuem fontes diferentes: a natureza, os homens e as coisas. "O desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação dos homens; e a aquisição de nossa própria experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas" (ROUSSEAU, 2004, p.9). A educação da natureza não depende de nós; a das coisas, só em alguns aspectos. A educação dos homens é a única de que somos realmente senhores (p.9). Sobre a educação dos homens, Rousseau (2004) indaga: "quem pode esperar dirigir inteiramente as palavras e as ações de todos os que rodeiam uma criança?" (p.9).

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A educação é definida pelo autor do Emílio como uma arte distinta daquela que corresponde a um método lógico-matemático que pretenda garantir um resultado exato. "Uma vez que a educação é uma arte, é quase impossível que ela tenha êxito, (...) tudo que podemos fazer à custa de esforços é nos aproximar mais ou menos do alvo, mas é preciso sorte para atingi-lo" (ROUSSEAU, 2004, p.9).

O dificil alvo de Rousseau é o de dirigir a educação dos homens e das coisas à educação da natureza. Para educar o infante, Rousseau (2004) afirma que devemos exercitar: "a bondade, a humanidade, a comiseração, a beneficência, todas as paixões atraentes e doces que agradam naturalmente aos homens e impedir que nasça a inveja, a cobiça, o ódio, todas as paixões repugnantes e cruéis, que por assim dizer, tornam a sensibilidade não somente nula, mas negativa, e fazem o tormento de quem as experimenta" (p.304).

A felicidade de viver a condição humana acontece quando as faculdades são postas em prática de tal forma que o homem sinta-se pertencente à espécie. Trata-se de exercitar o homem para sentir o mundo; para "suportar os golpes da sorte, a desafiar a opulência e a miséria" (ROUSSEAU, 2004, p.16), preparando-o para viver em qualquer sociedade do mundo.

No Livro I do Emílio, Rousseau (2004) expõe suas regras máximas sobre a educação que "embora contrárias às que estão estabelecidas, são de uma evidência a que é difícil para todo homem razoável recusar o consentimento" (p.30). A educação de Emílio necessita de um regime diferente dos alunos que são formados de outra maneira, porque os fins são outros.

Rousseau denomina o período que se estende do nascimento até 15 anos de idade, de primeiro nascimento ou infância, por falta de outros termos, como ele mesmo salienta nos seguintes trechos: "Eis a segunda fase da vida, aquela onde acaba propriamente a infância, pois as palavras infans e puer não são sinônimas. A primeira está contida na segunda e significa que não pode falar; [...] Mas continuo a me servir dessa palavra segundo o costume de nossa língua1, até a idade para a qual ela possui outros nomes" (ROUSSEAU, 2004, p.69); "Eis o terceiro estado da infância, aquele de que falarei hoje. Continuo a chamá-lo de infância, na falta de um termo apropriado para designá-lo, pois esta idade está próxima da adolescência, sem ser ainda a da puberdade" (Ibid., p.211).

A dissertação ocupa-se em especial com os primeiros livros do Emílio, porque eles nos permitem destacar os vínculos que Rousseau estabelece entre os temas da educação nas

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primeiras etapas da vida, do perfil e dos cuidados do preceptor e da educação dos sentidos e da educação da curiosidade e da utilidade.

Nos três primeiros livros do Emílio, Rousseau considera a infância um momento da vida que exige atenção e cuidado especiais, pois ao nascer o infante não consegue suprir as próprias necessidades, por isso precisa fortalecer o corpo, criar relações com as coisas, aperfeiçoar os sentidos e compreender para que pode utilizar cada coisa, e nessa tarefa terá que ser acompanhado e formado de acordo com os princípios mais importantes da humanidade, ou seja, desenvolver-se de acordo com a condição humana. Rousseau (2004) afirma, "homens, sede humanos, este é vosso primeiro dever; sede humanos para todas as condições, para todas as idades, para tudo o que não é alheio ao homem" (p.72); "o homem nasce verdadeiramente para a vida e que nada de humano lhe é alheio" (Ibid., p.287)

Em resumo: O método utilizado nesta dissertação foi o da revisão bibliográfica, sendo que na maior parte do tempo me detive ao estudo das obras escritas por Rousseau.

O capítulo denominado A Educação do Infante trata sobre o que Rousseau pensa sobre a educação e como ela deve ser conduzida após o nascimento da criança, principalmente a partir da leitura dos Livros I, II e III, do Emílio. Rousseau defende a ideia de que a criança deve sempre ser formada segundo a ordem natural, estando o preceptor atento às suas necessidades, exercitando principalmente a força física dos seus órgãos. Desde que a criança nasce, ela deve ser acompanhada, pois o abandono às opiniões e vícios dos adultos causará a miséria do homem. Segundo Rousseau (2004), a educação implica o desenvolvimento das faculdades, para que a criança exercite seu corpo e suas relações com as coisas desde o nascimento. Ao preceptor cabe a tarefa de preparar a criança, para que deixe de ser dependente e ingênua frente às diversas situações da vida.

No segundo capítulo argumento, a partir das considerações de Rousseau, sobre quem é o preceptor e como deve ser sua tarefa de conduzir a criança de acordo com cada etapa da infância, respeitando sempre a ordem da natureza, a fim de permitir diversas experiências com o corpo, com seus sentidos e com as coisas, preservando a criança dos vícios e artificialidades.

O preceptor não pode sacrificar nenhuma etapa educacional, pois cada etapa da vida deve ser vivida e experienciada de maneiras distintas; o educador deve identificar as necessidades de cada etapa, a fim de conduzir a criança para que ela desenvolva as próprias faculdades. Deve-se estar atento para não sustentar hábitos que possam criar falsas necessidades, pois dessa atitude é que resultarão as artificialidades.

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No capítulo intitulado A educação na primeira etapa da vida, enfatizo algumas ideias de Rousseau sobre a educação que compreende o período entre o nascimento da criança até a idade dos dois anos. É fundamental que o preceptor acompanhe o infante e esteja atento as suas primeiras necessidades. Os principais objetivos nessa etapa são a proteção, o zelo e o fortalecimento físico.

Para suprir as necessidades relacionadas à conservação da vida, a primeira educação é a do desenvolvimento das faculdades, dos órgãos internos e dos membros externos. Nessa fase o desenvolvimento não depende dos homens; pelo contrário, o papel do preceptor é apenas proteger, prover as necessidades, e permitir que tudo se desenvolva livremente, de acordo com a natureza. É uma educação da não interferência do preceptor; apenas uma educação do acompanhamento e da proteção.

No capítulo quatro, abordo a importância de promover uma educação que permita à criança o desenvolvimento dos sentidos e do intelecto em contato com o que existe no seu contexto de vida. Cada relação precisa ser construída pelo próprio aluno, não podendo sofrer influência dos adultos, pois essas experiências fortalecem a autonomia.

O preceptor precisa favorecer diversas experiências que proporcionem o desenvolvimento das forças do corpo, embora a educação dos sentidos seja seu principal objetivo; não basta estar atento somente ao aumento da força do corpo, pois com ela desenvolve-se o conhecimento do uso dos sentidos em reconhecer as coisas.

Os desejos são muitos, por isso precisam ser freados de acordo com as faculdades que já estão desenvolvidas, evitando as artificialidades. Ao preceptor é designado o cuidado para que a imaginação não conduza a criança para as mais longínquas fronteiras que surgem a partir da comparação com outros homens. Para que a educação seja proporcional à idade, o físico e o intelecto precisam estar em acordo, evitando o surgimento de misérias devido à imaginação e à fantasia. As relações com os homens desenvolverão na criança as primeiras noções de moral, como, por exemplo, o direito de propriedade e a convenção do uso monetário, mas evitar-se-ão lições de moral e comparação entre os homens.

No quinto capítulo, escrevo sobre a importância de a criança ser acompanhada para que continue a desenvolver seu corpo, mas tendo o foco no desenvolvimento de suas relações com as coisas, ou seja, uma educação dos sentidos para conhecer, relacionar e fazer um bom uso das coisas.

O infante, nessa etapa, precisa ampliar seus conhecimentos e relações com as coisas e com os outros. Os objetos ainda aparecem desconectados, porém, como já os conhece, deseja entender como vários deles se relacionam entre si, e como pode fazer uso deles em seu

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benefício. A educação deve fazer com que o aluno admire as criações humanas e observe que elas são utéis, motivando-se a realizar experiências com as coisas e criar seus próprios entendimentos sobre elas.

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1 ROUSSEAU: A EDUCAÇÃO DO INFANTE

"Tanto me pareceu triste o momento em que o pavor me aconselhou a fuga, quanto encantador aquele em que a executei. Criança ainda, deixar meu país, meus parentes, meus pontos de apoio, meus recursos; deixar o aprendizado em meio, sem haver aprendido bastante do ofício para poder viver; entregar-me aos horrores da miséria sem meio algum de sair dela; na idade da fraqueza e da inocência, expor-me a todas as tentações do vício e do desespero; procurar ao longe os males, os erros, as armadilhas, a escravidão e a morte, sob um jugo muito mais inflexível do que aquele que eu não pudera suportar" (ROUSSEAU, 2008, p.63).

No Emílio, Rousseau dedica-se a rebater noções educacionais dominantes em sua época, entre as quais se destacam as que seguem: os infantes, desde a mais tenra idade, devem ser tratados como adultos e receber lições de moral. Tais ensinamentos, segundo Rousseau (2004), criavam mais mentiras e falsidades, e mais atrapalhavam do que contribuíam com o processo educacional. Essa educação moralista excitava a teimosia, a contradição e facilitava a formação de maus hábitos, criando ideias de dominação e de tirania. Sobre isso indaga: se as opiniões contribuem no aumento da miséria humana desde a infância, como será a vida do homem quando crescer e suas relações com os outros homens começarem a se ampliar e a se multiplicar? (ROUSSEAU, 2004, p.87).

Rousseau considera que muitos mestres tinham o costume de querer fazer de uma criança, um doutor, e em vez de educar com seus exemplos a partir de necessidades, acabavam por formar primeiro a razão, despreocupando com o desenvolvimento físico e com os sentimentos. No intuito de querer proporcionar um raciocínio ao aluno (ato que ele por conta própria não conseguia elaborar), acabavam por fazer com que esse curto e único tempo da infância se perdesse. Tais mestres recorrem muitas vezes a adulações, ameaças, falsas promessas e argumentações na tentativa de envolver a criança em preocupações e raciocínios distanciados das experiências e necessidades que lhes são próprias.

Rousseau (2004) sustenta a ideia de que, durante a infância, a criança é fraca e miserável, pois pode ser facilmente influenciada por quem a rodeia. Algumas situações não

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são compreendidas pela criança, como podemos perceber no seguinte exemplo: "Se alguma vez se viu um espetáculo indecente, odioso, ridículo, este é o de um corpo de magistrados, com o chefe à frente, em trajes de cerimônia, prosternados diante de uma criança de cuerios que arengam em termos pomposos, e que grita e baba como resposta" (Ibid., p.88). Percebemos que o infante, não entendendo tal atitude do corpo de magistrados, não conseguiu fazer relação entre o papel que eles assumem na sociedade civil, nem entender por que suas ideias e vestimentas são importantes. E será que na infância é necessário tal entendimento? As questões civis devem ser objeto de preocupação e de análise do infante?

Afirma Rousseau (2004): "nascemos fracos, precisamos de força; nascemos carentes de tudo, precisamos de assistência; nascemos inaptos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer e de que precisamos quando grandes nos é dado pela educação" (p.9). Neto (2005) reforça que no Emílio "nos deparamos com uma nova visão de homem e, consequentemente, com uma nova visão de infância. A criança, deixando de ser um homem em miniatura, passa a ser considerada em si mesma, enquanto criança" (p.411).

Rousseau (2004) afirma que muitas mulheres possuem maus hábitos, pois

desprezando seu primeiro dever, não mais quiseram alimentar seus filhos, foi preciso confiá-los a mulheres mercenárias que, vendo-se assim mães de filhos alheios, por quem a natureza nada lhes dizia, só procuram furtar-se ao incômodo. Teria sido preciso zelar continuamente por uma criança em liberdade; mas, quando ela está bem amarrada, jogam-na a um canto sem se preocuparem com seus gritos (p.18).

Rousseau (2004) percebe o quanto a educação do infante era descuidada pelas mães ou pelas amas-de-leite, que se preocupavam somente em proteger o corpo. Por sua vez, o autor destaca a importâncias de zelar pelo desenvolvimento das forças físicas e o crescimento sadio. Ou seja, a criança deve ser formada mantendo a ordem da natureza, tendo o adulto o dever de suprir suas necessidades de alimentação e os cuidados com a saúde. Essa primeira fase da vida do infante é fundamental para o crescimento do corpo e para que ele conheça seu próprio corpo.

Se uma criança for abandonada, sem os cuidados de um adulto, pode ter uma educação desfigurada, pois estaria à mercê dos preconceitos, das autoridades, das necessidades, dos maus exemplos, que podem advir da sociedade; nesse caso, “todas as instituições sociais em que estamos submersos abafariam nele a natureza, e nada poriam em seu lugar" (Rousseau, 2004, p.7).

Rousseau (2004) sustenta a ideia de que a criança precisa estar com a família, convivendo com os pais e com outros adultos, tendo experiências com outros homens.

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Segundo Costa (2005) Rousseau, afirma que a família " tinha uma aura que combinava simplicidade e gratuidade, o que lhe conferia a distinção de ser o lugar propício, por excelência, para uma sociabilidade e para a educação das novas gerações" (p.301).

Zadorosny (2005) afirma que, para Rousseau, "a criança é um ser em condição única, à espera de orientação, carinho e formação. A confiança na criança, com base no reconhecimento de sua riqueza interior, renova as esperanças da construção de um mundo mais humano, justo e igualitário" (p.392). Rousseau (2004) entende que a educação na infância deve reforçar o crescimento num ambiente livre de vícios, e no qual cada experiência reforce o caráter autônomo, livre das opiniões dos adultos.

Rousseau afirma que cada ato da criança expressa algo e não descarta que alguns de seus comportamentos podem expressar "domínio e servidão" (ROUSSEAU, 2004, p.25), pois, mesmo não sabendo falar, algumas tentam dar ordens aos adultos. Como reação a esses comportamentos, muitos adultos reagem por meio do castigo. Por outro lado, há situações e comportamentos que podem expressar a necessidade de algo. Portanto, o autor afirma que o adulto precisa ter um bom discernimento no momento de interpretar cada expressão, pois em muitos casos o choro não passa de um capricho, e esses podem tornar-se maus hábitos.

Rousseau (2004) afirma que não existe um local perfeito para educar as crianças, pois tanto o ambiente urbano quanto o campestre pode ser favorável à educação desde que o adulto problematize com a criança situações que podem promover reflexões. Ou seja, é o preceptor que deverá aproveitar situações a fim de promover a educação. Neste viés afirma que se a família vive na cidade, e os pais trabalham na cidade, não poderão viver o tempo todo no campo, mas pelo menos poderão promover a convivência em diversos locais, a fim de proporcionar momentos em que a criança poderá perceber a diferença dos ambientes, dos ares e entrar em contato com a diversidade da flora e da fauna. Esse exemplo ao inverso também é válido, bem como a ideia de que a família poderá morar na cidade e trabalhar no campo, ou morar no campo e trabalhar na cidade.

Quando Rousseau (2004) afirma que "as cidades são o abismo da espécie humana" (p.43), ele está alertando para os cuidados que se deve ter com as crianças, pois elas entram em contato com um número expressivo de pessoas, que possuem opiniões variadas. Para Rousseau as fontes dos vícios e opiniões podem ser as outras pessoas, principalmente quando elas possuem más intenções. Portanto, as crianças devem ser preservadas do contato com um grande número de pessoas sem a ausência do preceptor. Não há problema em viver com os outros, mas uma preocupação de impedir que as necessidades e as opiniões dos outros se

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tornem as das crianças. Assim, nada impede que uma criança caminhe pela rua e converse com outras pessoas quando estão acompanhadas e orientadas.

A vida urbana não pode ser interpretada como um risco à criança, porque nada garante que a vida campestre não possa esconder vícios, e que a vida nas cidades possa promover espaços de estímulo ao desenvolvimento do infante. Rousseau define que um ambiente não é fonte de vícios, mas que esses advêm dos próprios homens. Segundo Dent (1996), a crítica de Rousseau "era, antes, àqueles perversos desenvolvimentos da vida social", e não uma crítica à cidade em si.

A educação das crianças implica preveni-las dos hábitos e dos vícios dos adultos. Sobre a proteção da criança contra as opiniões, Rousseau (2009b) é enfático na Quarta Carta ao Senhor de Malesherbes, ao afirmar que "não é pouca coisa advertir os homens da loucura das opiniões que os tornam miseráveis" (p.46).

Os pais precisam constantemente examinar suas ideias e comportamentos, a fim de conservar a criança longe dos vícios; aos pais compete conservarem-se justos, honestos em todos os atos, para que sempre dedicados ao desenvolvimento e proteção da criança, sejam exemplos e referências. Os filhos possuem o direito de crescer, se fortalecer e criar relações que possam ser úteis, e livres dos vícios.

Rousseau afirma que a educação é uma arte e não possui garantias, porém cada preceptor deve se esforçar ao máximo para manter o foco em educar bem o seu aluno. Para o autor, mais vale empreender-se nessa jornada espinhosa, do que ignorar que ela seja útil.

Segundo Rousseau (2004), é importante que o preceptor proteja e eduque o aluno na sociedade. A educação implica o desenvolvimento das faculdades para que a criança exercite seu corpo e suas relações com as coisas desde o nascimento. Ao preceptor cabe a tarefa de preparar a criança para que deixe de ser dependente e ingênua frente às diversas situações da vida. Conforme a criança cresce, irá se relacionar com outras pessoas e com as coisas. Nas diversas experiências de vida, cada homem deve optar pelo que lhe é melhor e mais útil.

A formação durante a infância deve oportunizar o fortalecimento do corpo e as experiências das sensações, ou seja, objetiva moldar os sujeitos para que possam sentir e entender as relações do seu corpo com as coisas. Para Rousseau (2004), "a educação do homem começa com o nascimento; antes de falar, antes de ouvir, ele já se instrui. A experiência antecipa as lições" (p.48).

Starobinski (1991) observa que, para Rousseau, "o homem não tem necessidade de transformar o mundo para satisfazer suas necessidades" (p.37), pois o que vale para o homem é a sua experiência de viver e agir, como fundamentais para a formação dos infantes tendo em

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vista a felicidade. É importante que a educação possa, por isso, fornecer alguns elementos como desenvolvimento físico e sensitivo durante a infância, para que cada homem possa viver livre em relação ao outro. "Essa liberdade comum é uma consequência da natureza do homem. Sua primeira lei é zelar por sua própria conservação, seus primeiros cuidados são os que deve a si mesmo" (ROUSSEAU, 2010, p.24).

Martins (2011) esclarece que Rousseau não nega a razão, "ele afirma que a educação começa pelos sentidos e não que ela se dá só pelos sentidos" (p.61-62). O movimento da espécie humana precisa provocar uma mudança no modo como o sujeito se entende e como interpretará sua vida frente às coisas que existem. Tudo o que o homem recebe de fora de si, pode ser filtrado pela consciência.

Segundo Rousseau (2004), o homem é dotado de uma consciência individual que pode ser denominada de "voz da consciência". "A consciência é a voz da alma, as paixões são a voz do corpo. [...] Ela é o verdadeiro guia do homem; [...] quem a segue obedece à natureza e não tem medo de se perder" (ROUSSEAU, 2004, p.405). Na interpretação de Maruyama (2001), a consciência é um sentimento inato, diferente da sensibilidade física. A consciência é responsável pelo senso de justiça e virtude que envolve todos os objetos intelectuais da razão humana. Percebe-se que ainda não se está falando de formação moral, mas está se referindo a uma faculdade que se desenvolve na criança, de maneira que essa coloca-se de igual com o outro.

Rousseau (2004) enfatiza que a primeira etapa da vida é fundamental para o crescimento e o conhecimento do próprio corpo. Nessa etapa da vida o "eu" é mais importante do que o "nós". Por exemplo, se a criança está com fome, ela usa de todos os recursos que dispõe para atrair a atenção do adulto, para que este lhe alimente. Ela não possui interesse em saber se o outro está com fome, ou se há comida em casa; sua necessidade é clara, e se pudesse falar, suas palavras provavelmente seriam: Estou com fome e quero comer.

O movimento da educação do infante, empreendido e afinado pelo Emílio de Rousseau, segue a seguinte organização: nos Livros I, II e III, visa valorizar a liberdade da espécie humana, bem como sua autonomia nos momentos de optar pelo que lhe é melhor e mais útil. Não se pode criar nenhum tipo de hábito, ou reduzi-los ao menor número possível, afirma Rousseau (2004), pois deve-se pôr a criança em condição de "sempre ser senhora de si mesma e de fazer em todas as coisas a sua vontade, assim que a tiver" (p.49).

O infante que desenvolve bem o corpo e entende suas relações com as coisas, tomando sempre por parâmetro suas próprias necessidades, estará se desenvolvendo segundo a ordem natural. O corpo é usado para conseguir aquilo do que se necessita, pois é educado

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para que não ordene nada aos objetos inanimados, as plantas, aos animais e aos seus semelhantes. No entendimento de Starobinski (1991), Rousseau afirma que educar preservando a criança dos vícios e opiniões, é permitir que a criança realize suas experiências por meio de "um contato límpido com as coisas, que ainda não é turvado pelo erro: os sentidos, limitados a si mesmos, não contaminados pelo juízo e pela reflexão, não sofrem nenhuma distorção" (p.37).

A criança deve ser formada segundo uma única ciência: os deveres do homem, afirma Rousseau (2004). A educação mais necessária para ela é aquela que a prepara para viver em qualquer lugar do mundo, ou seja, no calor ou no frio, no hemisfério norte ou sul, no ocidente ou no oriente. "A educação natural deve tornar um homem próprio para todas as condições humanas" (ROUSSEAU, 2004, p.32).

A educação do infante precisa considerar a mobilidade das coisas humanas, pois há uma preparação para ele "suportar os golpes da sorte, desafiar a opulência e a miséria, se preciso, nos gelos da Islândia ou sobre o ardente rochedo de Malta" (Rousseau, 2004, p.16). Parafraseando Rousseau (2004), pode-se questionar: De que adianta a família ficar cuidando para que ele se conserve bem cuidado dentro de um quarto, se o seu lugar não é ali?

Primeiramente as necessidades devem ser supridas pelo adulto, pois o corpo da criança ainda é frágil. Assim que suas aptidões físicas lhe permitirem, devem ser usadas em seu próprio benefício. Rousseau sustenta a ideia de que independentemente de onde o homem vive, suas necessidades humanas são iguais, portanto deve-se educar para as necessidades e não para as artificialidades. Quando adulto, cada homem escolherá um local para viver, e dependerá das próprais forças para se sustentar.

Rousseau (2004) confronta a criança dotada de bondade natural com o mundo que se apresenta paradoxal, com comportamentos e atitudes denegridos e mascarados. Emílio é desafiado a viver em uma sociedade que valoriza na maioria das vezes o ter no lugar do ser, ou como afirma Salinas Fortes (1997), o parecer e o ser, ou seja, a autenticidade que é própria da natureza, pois não sofre influência, e a aparência que é resultado dos desvios sociais.

Segundo Neto (2005), "Rousseau afirma que a formação humana deve anteceder a qualquer outra coisa que o homem possa vir a ser. E para dar início ao processo de formação que levará o homem a seu desenvolvimento moral, deve ser preparado o caminho que deverá percorrer a criança até sua adolescência" (p.427-428). Rousseau afirma que essas etapas da infância devem ser oportunidades de a criança desenvolver suas faculdades, para que quando adultos, cada homem deixe de ser dependente do que os outros pensam ou o que as instituições sociais determinam.

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O acompanhamento e o cuidado com o infante têm por objetivo prolongar o desenvolvimento das forças da natureza. Segundo Santos (2011), "Rousseau afirma que não devemos perverter a ordem das coisas, pois a natureza quer que as crianças sejam crianças antes de chegarem à idade adulta. É necessário tratar a infância de acordo com sua idade, e deixá-la em contato com a natureza, sem promessas, sem adulações" (p78). Para que tal propósito ocorra, deve-se evitar as relações sobre o estudo dos homens e de suas sociedades, pois as relações devem ser estabelecidas pela própria criança.

Rousseau, no Emílio, esclarece que a educação precisa preocupar-se primeiramente com o desenvolvimento físico e depois das relações com as coisas, visando conhecer e experienciar os sentidos para que, na hora certa, possam fazer bons usos deles. Enfatiza também a ideia da educação natural, afirmando que o preceptor é fundamental para cuidar, acompanhar e promover a educação, em família e em sociedade. O objetivo é preservar no infante a sua condição humana e reforçar a constituição do físico e dos sentidos.

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2 O PRECEPTOR

"Ao sair de minhas mãos, concordo que não será nem magistrado, nem soldado, nem padre; será homem, em primeiro lugar;"

(ROUSSEAU, 2004, p.15).

O objetivo deste item é evidenciar como Jean-Jacques Rousseau procede, em suas obras, e especialmente no Emílio, para destacar as tarefas do preceptor na educação das primeiras etapas da vida do infante para que ela o favoreça no momento que ele estiver apto a realizar plenamente sua educação moral e política; pois, "tudo o que não temos ao nascer e de que precisamos quando grandes nos é dado pela educação" (ROUSSEAU, 2004, p.9). A educação é que moldará a criança desde o seu nascimento, ou seja, será uma ação do homem sobre o homem.

Rousseau (2004) afirma que "nascemos capazes de aprender, mas sem nada saber, nada conhecendo. [...] Os movimentos, os gritos da criança que acaba de nascer são efeitos puramente mecânicos, carentes de conhecimento e de vontade" (p.46). Desde o momento que a criança nasce, inicia a educação, e sua primeira mestra é a natureza. O que cabe ao preceptor? "O preceptor só estuda com esse primeiro mestre e impede que seus esforços sejam contrariados" (ROUSSEAU, 2004, p.46). O preceptor tem a função de acompanhar a criança para que seu desenvolvimento siga a ordem natural, sem interferências das opiniões e vícios sociais; sua tarefa é a de conduzir o infante de acordo com cada momento da vida. Por exemplo, a assistência é fundamental durante a primeira etapa da infância, pois a criança ainda não possui o fortalecimento físico.

Dent (1996) esclarece que a tônica dada à educação rousseauniana como "educação negativa", reforça a ideia de que com isso "se evite controlar, dirigir, admoestar ou forçar a criança a todo o instante. Devemos, pelo contrário, perceber que existe um curso naturalmente saudável e ordenado no desenvolvimento do corpo, raciocínio e sentimentos de uma criança" (p.117).

Rousseau indaga: a quem cabe a tarefa de educar o homem? Como deve acontecer a desnaturação, que objetiva preparar o homem para ser humano? Uma das preocupações de Rousseau (2004) é definir quem acompanhará o desenvolvimento e cuidará da criança. Rousseau (2004), no Livro I do Emílio, define alguns termos para designar quem ele entende como sendo aquele que possui o papel de formar as crianças: pais, pai, mãe, preceptor,

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ama-de-leite, mestre, professor, como adultos que se preocupam com a educação do infante. Acrescenta-se a estes, também a palavra educador. Em contrapartida geralmente quando quer falar dos falsos mestres, ele usa o termo pedante.

Rousseau aponta problemas na educação do seu tempo e faz duras críticas, porém seu foco principal não é apenas criticar, mas, "por meio da pena", ele se propõe expressar ideias e reflexões sobre a educação nas primeiras etapas da vida, que ele denomina de infância, questionando: De que vale uma lição boa, baseada em uma moral, se o aluno não tem as capacidades cognitivas para entender tal importância? "Sempre admoestadores, sempre moralistas, sempre pedantes, para cada ideia que lhes dais acreditando ser boa, dais-lhe ao mesmo tempo vinte outras que não valem nada; repletos do que se passa em vossa cabeça, não vedes o efeito que produzis na cabeça deles" (ROUSSEAU, 2004, p. 100).

O preceptor de uma criança deve ser jovem, pois pouco em comum existe entre a infância e a maturidade; Rousseau (2004) afirma: "Apenas observei, contra a opinião comum, que o preceptor de uma criança deve ser jovem, e até mesmo tão jovem quanto pode sê-lo um homem sábio. Gostaria que ele mesmo fosse criança, se fosse possível, para que pudesse ser um companheiro de seu aluno, e conquistar sua confiança ao compartilhar suas diversões" (p.30). A jovialidade suposta no preceptor é fundamental para que a infância seja respeitada no sentido de valorizar-se as brincadeiras, experiências físicas, explorações de locais; as crianças possuem energia e necessitam se movimentar, portanto o preceptor deve ser alguém disposto a envolver-se em tarefas junto com seu aluno.

O preceptor não pode sacrificar nenhuma etapa educacional, pois cada fase da vida deve ser vivida e experienciada. Cabe ao educador identificar as necessidades de cada etapa, para propor à criança o desenvolvimento das próprias faculdades. Deve-se estar atento para não sustentar hábitos que possam criar falsas necessidades, pois dessa atitude é que resultarão as artificialidades. Rousseau (2004) afirma que o preceptor deve ter cautela e solicitude, e jamais sustentar ou fortalecer as artificialidades.

Nas Cartas Morais, Rousseau indica que o papel do preceptor, na educação de Sophie, não é o de ensiná-la a resolver objeções, mas de reforçar sua bondade. Rousseau, assumindo o papel de preceptor, afirma "o estudo que vos proponho não produz um saber ornamental para desfilar aos olhos dos outros, mas enche a alma de tudo o que faz a felicidade do homem" (ROUSSEAU, 2005b, p.147).

Na educação de Emílio, e na de Sophie, o preceptor deve estar atento e ser um conhecedor do seu contexto de vida, bem como possuir conhecimentos de outros locais do mundo. O educador precisa agir com objetividade, clareza, determinação, ser forte para não

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deixar-se iludir pelas falsas promessas de modelos educativos que desviem o foco da tarefa de educar para formar homens, a qual exige uma preparação para a vida.

A tarefa de educar crianças é um empreendimento que exige calma, pois, dentre os desafios enfrentados na sociedade, o maior deles está lidar com os vícios. Ao preceptor é incumbida a difícil tarefa de educar, evitando formar homens superficiais, dependentes, desinteressados (...) desprovidos do que Rousseau denomina de "sementes de humanidade" (termo que engloba os desenvolvimentos físico, sensorial, psíquico e moral).

Ao preceptor cabe a tarefa de dirigir oportunidades, objetos e locais para um fim educativo, acompanhando cada situação para que a criança faça suas próprias experiências e elabore seus conhecimentos. Todas as tarefas realizadas pelo aluno devem pressupor que esse pense estar agindo por vontade própria. Para ser formado por outra pessoa pressupõe-se o envolvimento e o interesse pelo objeto de estudo, mas como na infância a criança ainda não sabe o que lhe é necessário, o preceptor deve propor experiências que lhe atraiam o interesse.

Para Rousseau, o melhor preceptor que uma criança pode ter durante a sua infância é o pai e a mãe; cabe a eles educar seu filho de maneira consciente, de que o acompanhamento é um movimento empreendido pela educação para desnaturar o homem, ou seja, que faz com que o homem assuma certo papel na sociedade e abandone sua unidade absoluta para assumir-se enquanto parte de um todo, um cidadão. Dent (1996) entende que a palavra desnaturar, para Rousseau, significa fazer com que o homem consiga entender-se como homem entre outros homens, já que "a desnaturação é conveniente para as boas insituições sociais" (p.100) Esse desejo de mudar tudo aquilo que a natureza deu por acabado, é o que Rousseau denomina processo de desnaturação.

Os adultos são os responsáveis pela desnaturação dos infantes, e não há outra possibilidade de conduzir essa formação a não ser suprindo suas necessidades para que se possa constituir humano e fortalecer o seu corpo. A desnaturação é necessária para que continue existindo vida social.

Rousseau (2004) acredita que caso a educação não ocorresse, ou acontecesse pela metade, seria ainda pior, já que a sociedade teria que enfrentar muitos homens maus. Para o autor, a sociedade não está bem constituída porque faltam bons preceptores e acima de tudo falta delinear possibilidades educativas que rompam com o padrão estabelecido. O autor afirma isso, porque percebe que a sociedade está desvirtuada e muitos vivem infelizes, havendo pouca seriedade e comprometimento no que concerne à educação do homem. São poucos os bons homens que podem assumir a tarefa de educar os outros. Com essa afirmação,

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Rousseau reforça a ideia de que não se pode apressar o desenvolvimento, pois a educação se dá em determinado tempo, de acordo com a natureza.

Observamos o pedido encarecido de Rousseau (2004): "Mestres zelosos, sede simples, discretos, contidos. Jamais vos apresseis em agir, a não ser para impedir que os outros ajam. [...] Não podendo impedir que a criança se instrua por fora através de exemplos, limitai toda a vossa vigilância a imprimir esses exemplos em seu espírito sob a imagem que lhe convém" (p.101).

Na sociedade cercada de vícios e paixões, faltam pessoas habilitadas para conduzir o processo educativo. Rousseau (2004) afirma que o homem "[...] para ser mestre da criança deve ser preciso ser mestre de si mesmo" (p.102) Ser mestre de si mesmo pode se compreender como ser um homem bem formado, ser: sábio, inteligente, decidido, organizado, autônomo, temperante, piedoso, autônomo, criativo, motivador, polido, afetuoso.

"Mestres, deixai os fingimentos, sede virtuosos e bons e que vossos exemplos se gravem na memória de vossos alunos, enquanto esperamos que possam entrar em seus corações" (ROUSSEAU, 2004, p.113). A educação das crianças exige do mestre virtude e bondade, pois é uma arte difícil, ainda mais que exige abandonar preceitos, e "tudo fazer, sem nada fazer" (Ibid., p.39).

Nos momentos e ocasiões em que o infante quer escolher, o preceptor deverá agir de acordo com a seguinte ordem: A criança somente deve fazer o que quer, mas só deve querer o que quereis que ela faça. A criança deve escolher, mesmo que essa escolha seja aparente. Compete ao preceptor, sutilmente, problematizar cada experiência que acotence no contexto em que seu aluno vive, para delas tirar lições práticas. É função do preceptor "ordenar as paixões humanas conforme a constituição do homem" (ROUSSEAU, 2004, p.74), a fim de proteger as crianças dos vícios sociais.

Em várias ocasiões será o mestre que proporá a reflexão inicial ou incitará a criança a realizar por conta própria suas experiências; é o preceptor que sabe quais exercícios são necessários, para promover momentos que podem resultar em aprendizagens para o seu aluno. Pois, segundo Rousseau (2004), não se pode criar vícios de domínio e obrigação. O aprendizado deve acontecer por necessidade, e não para contentar aquele que está propondo.

O preceptor deve valorizar o tempo da criança e favorecer "suas brincadeiras, seus prazeres, seu amável instinto" (ROUSSEAU, 2004, p.72). Muitos maus mestres acreditam que se deve prevenir a criança dos males futuros dando-lhe longas lições de moral, porém Rousseau pensa que não se deve adiantar às crianças as dores futuras.

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Quando chegar o momento em que o infante estiver próximo à idade dos 15 anos, o mestre enfrenta o desafio de lidar com a sagacidade da criança em querer achar um ponto fraco, para que assim possa fugir de sua autoridade. Como esse hábito de analisar as pessoas pelos seus defeitos é um vício, também deve ser contido.

Além do hábito citado acima, outro que se cria, com a vontade de querer o que lhe interessa, é o capricho. O capricho não nasce com o homem, mas é um ato que se desenvolve pela má disciplina. Muitas crianças pensam que o preceptor deve agir como elas querem, porém o que elas querem nem sempre é o que lhes é necessário. Esse mal também deve ser podado, com uma boa orientação e muita paciência.

O preceptor precisa estar preparado para conduzir a criança pelos caminhos que lhe serão mais propícios para o desenvolvimento do corpo, depois das relações com as coisas, e ainda das relações entre os homens. Quem opta por aquilo que é necessário para ser ensinado é o professor. A educação negativa "consiste não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em proteger o coração contra o vício e o espírito contra o erro" (ROUSSEAU, 2004, p.97).

Em resumo, afina Dent (1996), que "o papel do educador consiste em respeitar a integridade desse desenvolvimento, em dar espaço e oportunidade para que ele ocorra em seu modo e tempo adequados, e em ajustar as lições da criança de forma que sua atenção seja atraída direta e imediatamente em conformidade com o seu nível corrente de interesse e aptidões" (p.117).

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3 A EDUCAÇÃO NA PRIMEIRA ETAPA DA VIDA.

"Começamos a nos instruir quando começamos a viver; nossa educação começa junto conosco; nosso primeiro preceptor é a nossa ama-de-leite"

(ROUSSEAU, 2004, p.15).

A primeira educação é aquela que ocorre logo após o nascimento da criança, até cerca de dois anos de vida. Nessa primeira fase os pais terão que voltar sua atenção completamente para seu filho, pois somente a dedicação e o empenho deles poderá garantir que a criança fortaleça o corpo e sinta-se segura; nesse momento da vida, importa mais o desenvolvimento físico. O infante precisa aprender quais são as suas necessidades, e, por conseguinte, usar o seu corpo para transpor cada uma de suas misérias.

Rousseau (2004) afirma que não há outro objetivo à educação senão educar o homem para ser homem e exercer seus deveres. "Só há uma ciência a ensinar às crianças, que é a dos deveres do homem" (ROUSSEAU, 2004, p.31). Segundo Rousseau (2004), há uma necessidade de formar os homens, e essa educação acontece de maneira negativa, no sentido de que o infante deverá ser acompanhado por um preceptor, que preserve a educação de maneira ordenada e organizada, segundo cada uma das etapas da vida. A criança não tem condições de sobreviver sem a ajuda dos adultos; ela precisa ser acompanhada, pois "tudo é instrução para os seres animados e sensíveis" (ROUSSEAU, 2004, p.49).

Não é qualquer homem que terá condições de acompanhar o desenvolvimento de uma criança, pois há tantos homens e humores quanto o número de pessoas espalhadas pelo mundo; para tanto, Rousseau salienta que durante a primeira educação a condução do infante deverá ficar a cargo da mãe; ela é a pessoa certa para cuidar, amamentar, proteger, dar carinho, ouvir, enfim, ensinar como seu filho deverá agir nos seus primeiros contatos com o mundo.

Uma criança abandonada a si mesma não terá condições físicas para suprir suas próprias necessidades, e, se abandonada, ela facilmente cairá nos preconceitos e vícios, deixando-se levar pelas opiniões de tantas pessoas quanto poderá ter contato. Segundo Rousseau (2004) no início da vida, muitas pessoas podem ter contato com as crianças, mas poucas têm a paciência e o esmero em educá-la para que se desenvolva. A mãe é aquela que

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acompanha e se preocupa o tempo todo com o seu filho, pois é de sua natureza cuidar para que ele se desenvolva e viva feliz.

A criança nasce sem força e sem conhecimento sobre o mundo; a fraqueza do corpo poderá levá-la à miséria, caso suas necessidades não sejam supridas pela mãe. O tempo empreendido à educação do infante aguarda que o corpo se fortaleça, para que ele mesmo consiga suprir suas necessidades. Para suprir as necessidades relacionadas à conservação da vida, a primeira educação é a do desenvolvimento das faculdades, dos membros externos e dos órgãos internos.

Nessa fase o desenvolvimento não depende dos homens; pelo contrário, o papel do preceptor é apenas proteger, prover as necessidades e permitir que tudo se desenvolva livremente, de acordo com a natureza. É uma educação da não interferência do preceptor; apenas uma educação do acompanhamento e da proteção. Há uma necessidade de preservar o infante para que o seu corpo se desenvolva, e já que o preceptor não pode fazer nada nessa fase, no que tange à mudança da natureza, deve apenas propiciar que o corpo se desenvolva longe das más influências.

Para Rousseau (2004), os homens são moldados pela educação, que depende do preceptor. A criança deve ser moldada de acordo com o seu desenvolvimento físico, seu corpo se desenvolverá de acordo com suas necessidades; dentre as necessidades, Rousseau compreende: a alimentação, a aversão à dor e a busca do prazer.

Rousseau (2004) critica duramente o costume que algumas parteiras possuem de querer moldar o corpo dos recém-nascidos. Para ele, a mãe deve preservar o corpo da criança livre, sem panos e amarras; sem obstáculos, pois o pequeno corpo possui uma necessidade de esticar-se e movimentar-se; tem vontade de estar livre para mexer a cabeça, as pernas, os braços, enfim, o corpo poderá crescer sadiamente. Rousseau denomina essa vontade de "impulso do crescimento".

A mãe tem o dever de não desprezar um filho, pois, quando for alheia, insensível e insensata, não estará formando um filho diferente de seu comportamento, afirma Rousseau (2004). Há negligência por parte de muitas mães em relação aos cuidados básicos com os seus filhos, como, por exemplo, alimentação, carinho, saúde. A criança desde o seu nascimento está sentindo o mundo e as pessoas, portanto cada ação do adulto deve ser consciente, pois os exemplos também educam.

A mãe não deve dar lições de moral ao recém-nascido, mas precisa se comportar adequadamente para que seus exemplos sejam bons. Principalmente nessa primeira fase da vida, os sentidos são os meios pelos quais acontecem os contatos com o mundo e com as

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outras pessoas. Rousseau (2004) enfatiza que as crianças podem sentir a negligência da mãe, havendo possibilidade de no futuro sustentarem por ela desprezo, como no caso das mães que negam a amamentação, ou entregam essa tarefa à ama-de-leite.

A sensibilidade é uma das faculdades que nasce com o homem. O infante, desde seu primeiro contato com o mundo, já está fazendo uso de suas sensações, e a partir delas se posiciona aceitando tudo o que lhe agrada e recusando aquilo que o desagrada.

Geralmente é muito mais cômodo encontrar meios de prender a criança para que ela não incomode, pois os adultos possuem muitos afazeres, além de que muitos não têm paciência para acompanhar o infante. Para justificar as amarras usadas na criança, alguns adultos se fundamentam em falsos raciocínios que alegam que há movimentos e posições que prejudicam o desenvolvimento dos membros. Pelo contrário, Rousseau argumenta que é conservando o corpo amarrado que acontecem as maiores deformações físicas, que afetam também o desenvolvimento afetivo e racional.

Ser mãe é um papel oneroso, afirma Rousseau (2004), que requer dedicação, tempo, paciência. Há mães que se dedicam a outros afazeres, sendo intransigentes e insensatas em relação à criação, ou abandonam a estranhos os cuidados com seus filhos; percebe-se a indiferença das mães em relação aos filhos, no trecho que segue: "Não é duvidoso o dever das mulheres, mas o que se discute é se, com o desprezo que elas têm por ele, é indiferente para os filhos que sejam amamentados com seu leite ou com outro" (ROUSSEAU, 2004, p.20). Em alguns casos, veem mulheres entregarem seus filhos com a desculpa de se verem livres. Há também aquelas mulheres que preferem não gerar filhos justamente por terem outros interesses.

Aquelas que geraram filhos possuem um dever, que é o de não depravar a ordem moral, e para fazer isso necessitam de valorizar seu papel e manter a ordem familiar. Sobre a ordem da moral familiar, Rousseau (2004) afirma que "os atrativos da vida doméstica são o melhor contraveneno para os maus costumes" (p.22). São alguns atrativos da vida doméstica: a boa convivência entre os membros, os passeios, as brincadeiras, as refeições, os bons costumes, os cumprimentos, as demonstrações de carinho e ternura.

Rousseau afirma que tudo aquilo que não é reforçado pelos laços de sangue jamais o será pela educação. "Se a voz do sangue não for fortalecida pelo hábito e pelos zelos, ela desaparece nos primeiros anos, e o coração morre, por assim dizer, antes de nascer. Eis-nos desde os primeiros passos fora da natureza" (ROUSSEAU, 2004, p.23). Logo, a educação não será capaz de fazer com que um filho ame sua mãe e respeite a família.

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Outra forma de depravar a ordem familiar acontece quando os cuidados de mãe são exagerados, não permitindo que o filho sinta as misérias humanas. Lembremos que a criança vai se preparar para a vida, por meio das experiências que viverá primeiro em família.

A educação da infância precisa observar a natureza e seguir sua rota, superando principalmente a doença e o perigo, para que ganhe forças físicas e exercite seus sentidos. Pela educação acontece o rompimento com aquilo que pertence à natureza, pois há interferência do preceptor. Deve-se permitir o aperfeiçoamento do corpo e das faculdades por meio de exercícios de acordo com suas forças. Deve-se ter o cuidado de "tornar robusta uma criança sem expor sua vida e sua saúde" (Ibid., p.24), pois deve-se zelar sempre pela sua conservação, tendo em vista sua vida adulta. Lamenta-se que alguns preceptores tiranizem seus alunos, fazendo com que criem somente vícios artificiais.

A educação rousseauniana esclarece que a formação dos infantes terá êxito quando o preceptor empreender todas as forças em meios que preservem o desenvolvimento com originalidade, pois o conhecimento é uma construção do aluno, que está sendo acompanhado até a fase adulta. O melhor preceptor, logo após o nascimento, será a ama-de-leite (a mãe) e depois o pai; não será aquele que for treinado e habilidoso, conhecedor do mundo e de todos os homens. Educação tem a ver com empenho, determinação e paciência, por parte do preceptor, que precisa aproveitar cada situação com um fim educativo; portanto, tem a ver mais com zelo do que com talento.

Um preceptor não é um criado, pois um criado não terá o envolvimento e o interesse que o pai pode ter na criação de seu filho; portanto, se a educação ficar a cargo de um estranho, as obrigações serão postas em prática e haverá polidez na educação, porém não se criará afetividade e comprometimento, com o mesmo afinco que acontece com alguém que possui vínculos sanguíneos. Um empregado foi feito para servir e não para educar, afirma Rousseau (2004). Há tarefas que só competem à mãe e ao pai, e caso não tiverem tempo para isso, deve-se encarregar um amigo que não seja corrupto; "como é possível que uma criança seja bem educada por quem não tenha sido bem educado?" (ROUSSEAU, 2005, p.28). Caso o pai não encontre um amigo para confiar a educação do seu filho, ele mesmo terá que assumir essa tarefa, afinal a criança necessita de cuidados e acompanhamento, e não pode ser abandonada.

Um preceptor com falsos princípios e com valores deturpados terá grandes chances de tornar seu aluno a sua imagem, pois maus exemplos criam maus hábitos. Até mesmo se um bom preceptor fosse encontrado, seria impossível não imaginar que este formaria seu aluno a

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sua imagem; então esse aluno reconheceria o seu pai? "Na verdade, para criar um homem é preciso ser ou pai, ou mais do que um homem" (Ibid., p.28).

A preferência seria que um preceptor somente o fosse uma vez na vida, pois ao acompanhar uma vez o seu aluno, não teria idade suficiente para acompanhar um segundo. Rousseau (2004) afirma que para apresentar o seu método ele pode escolher um aluno, e até mesmo dotar-se de características capazes de conduzir a educação da melhor forma possível, mas justifica que suas escolhas foram necessárias para apresentar a educação conforme o seu ponto de vista. Quanto aos pais, não terão essa mesma oportunidade, pois não podem escolher o filho; e caso tiverem mais de um, não poderão preferir um ou outro. Os filhos devem ser tratados com igualdade, pois o resultado dependerá de como serão educados.

"Com a vida começam as necessidades" (ROUSSEAU, 2004, p.38), e também o acompanhamento do preceptor, primeiramente para prover a alimentação da criança; caso a mãe não amamente, terá que escolher outra mulher sadia de corpo e de coração, pois não importa somente o físico, mas também seu caráter, afirma Rousseau (2004). E, não basta somente amamentar; a criança precisa de outros cuidados, como "zelo, paciência, doçura e limpeza" (ROUSSEAU, 2004, p.40).

O preceptor não deve ser mudado, por causa do perigo das secretas comparações que a criança realiza. Essas comparações acontecem tendo por objeto a maneira como cada adulto se comporta e pensa. Rousseau (2004) afirma que para educar corretamente deve haver somente um preceptor, pois senão as várias opiniões poderão criar muitas dúvidas, e a razão e a moral dos adultos cair em descrédito; a única referência da criança deverá ser o preceptor.

Rousseau (2004) esclarece que os pais, sendo os preceptores, devem agir de comum acordo; tomar decisões conscientes, firmes, inteligentes visando unicamente o desenvolvimento do filho; para este, os dois devem constituir uma unidade.

Os pais são os primeiros e únicos responsáveis pelo filho, e têm o dever de praticar bons hábitos que criem bons costumes, para que esse pequeno ser desenvolva um corpo saudável. Rousseau, no Livro I do Emílio, demonstra preocupação com os cuidados no que se refere à alimentação, à higiene, às roupas, aos passeios, ao local onde colocar a criança.

Os pais não podem pensar que os primeiros gritos do bebê são dotados de conhecimento e vontade, pois "nascemos capazes de aprender, mas sem nada saber e nada conhecendo" (ROUSSEAU, 2004, p.46). Muitas são as necessidades do infante, mas ele não as conhece e nem sabe como satisfazê-las, pois ainda não sabe ouvir e falar, portanto quem deve prover a criança do que ela precisa para se desenvolver é o preceptor.

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O preceptor precisa criar meios para que as crianças experimentem diferentes sensações, para que não sejam criadas falsas ou dogmáticas impressões sobre determinadas coisas. O preceptor deve prevenir ao máximo a criação de um hábito, tendo em vista que cada momento da vida exige uma reação circuscrita a um determinado momento. "O único hábito que devemos deixar que a criança adquira é o de não contrair nenhum" (Ibid., p.49).

Caso surja algum hábito com o passar do tempo de vida, que ele não seja um mau hábito. Os maus hábitos formam-se por influência de outros maus hábitos e dos vícios sociais. Para que se criem hábitos bons é fundamental o acompanhamento do preceptor, e um raciocício fundamentado na consciência.

Rousseau alerta e indica sugestões sobre o comportamento que o preceptor deverá ter quando está com seu aluno; há uma grande preocupação em promover o desenvolvimento pleno do infante e não corromper a educação. Os pais devem agir naturalmente, preparando a distância tudo que fortalecerá a criança; não podem agir de maneira que o filho perceba ou desconfie do que lhe está sendo proposto; organize e proponha tudo à criança a fim de que ela acredite estar escolhendo, pois é importante que exercite também o poder de escolha pelas experiências. Cada exercício deve preparar a liberdade e o uso das forças, pois

"no início da vida, quando a memória e a imaginação ainda estão inativas, a criança só presta atenção ao que realmente atinge seus sentidos; sendo as sensações os primeiros materiais de seus conhecimentos, oferecê-las numa ordem conveniente é preparar sua memória para um dia apresentá-las na mesma ordem ao entendimento. Como, porém, a criança só presta atenção às suas sensações, basta inicialmente que lhe mostremos de maneira bem distinta a ligação dessas mesmas sensações com os objetos que as causam" (Ibid., p.51).

Aos poucos a criança distingue o que faz parte dela do que lhe é externo. Um dos exercícios sugeridos por Rousseau (2004) é o de proporcionar que a criança crie a ideia de extensão para conseguir manusear as coisas. Quando, por exemplo, ela grita ou chora para querer um objeto, ir ao colo de alguém ou querer determinado alimento, se for necessário, o preceptor deve levá-la até o objeto, mas que fique claro que esse grito não é nenhum tipo de ordem ao outro; e também deve-se assim agir, para que ela entenda que não manda naquilo que lhe é externo. O preceptor precisa sempre agir com paciência e disposição, sem ameaças ou agressões físicas, porém sem ceder a birras e teimosias. O adulto é o preceptor, portanto ele que sabe o que é melhor ou o que se deve evitar, colocando sempre a resistência nas coisas e não em sua vontade, a fim prevenir o infante de surtos, irritação e cóleras excessivas.

Nessa etapa da infância também há necessidade de se preocupar em formar um comportamento moral, porém não com lições e palestras, pois por enquanto a moralidade

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pode provocar na criança uma dependência sem sentido. A atenção deve aumentar quando começam a brotar os primeiros efeitos morais, que são de poder e domínio. "Antes da idade da razão, fazemos o bem e o mal sem sabê-lo, e não há moralidade em nossas ações, embora, às vezes, ela exista no sentimento das ações de outrem que se relacionam conosco" (ROUSSEAU, 2004, p.56).

Por que ocorrerá um nascimento da ordem moral? Porque juntamente com o desenvolvimento físico e das sensações, outros vícios naturais brotarão: "o orgulho, o espírito de dominação, o amor-próprio, a maldade do homem" (Ibid., p.56).

O desenvolvimento da ordem física basta quando as necessidades para a conservação são supridas. Portanto, o preceptor deve estar atento a tudo que ultrapassa a ordem física, para que não se desenvolvam maus hábitos e opiniões. O desejo da criança é usar da linguagem para mandar nos outros e nas coisas, o preceptor precisa "dar às crianças mais verdadeira liberdade e menos domínio, deixar que façam mais por si mesmas e exijam menos dos outros" (Ibid., 2004, p.58), limitando suas forças e desejos, mas de forma que não percebam essa intenção.

"Não desaprovo que a ama-de-leite divirta a criança com os cantos e tons muito alegres e muito variados, mas desaprovo que ela a atordoe continuamente com uma multidão de palavras inúteis, das quais a criança não compreende nada a não ser o tom" (Ibid., p.61-62); pois para a criança não importam os sermões e os palavrórios, mas suprir o que de necessita. Portanto, nesta etapa da infância a felicidade da criança está em conseguir alcançar sozinha tudo de que necessita, dispensando os favores dos adultos. "Os primeiros desenvolvimentos da infância dão-se quase todos ao mesmo tempo. A criança aprende a falar, a comer e a andar aproximadamente ao mesmo tempo. Esta é propriamente a primeira fase de sua vida" (Ibid., p.68).

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4 EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS NA INFÂNCIA

"Sede razoável e não raciocineis com vosso aluno, sobretudo para fazê-lo aprovar o que não quer, pois levar assim sempre a razão para as coisas desagradáveis só faz torná-la aborrecida e

desacreditá-la bem cedo num espírito que ainda não está em condições de ouvi-la" (ROUSSEAU, 2004, p.97).

Nesta etapa da vida compreende o momento em que, segundo Rousseau (2004), acaba a infância propriamente dita, porém o termo será mantido. A infância acaba quando a criança abandona o choro e inicia o uso da fala. As sensações ganham uma forma de representação pela fala. Primeiramente a criança chorava quando sentia dor; agora os choros darão espaço às palavras. Os gritos e os choros são desnecessários quando uma criança sabe falar; ou seja, quando a criança começa a falar, não é necessário que ainda existam choros e gritos, por qualquer motivo. Rousseau afirma que caso a fala se confunda com choros, é sinal de que a educação falhou, pois não permitiu a aprendizagem de um comportamento diferente da fase anterior.

A criança deve ser acolhida pelos pais, de forma que suas dores e sofrimentos não sejam tratados com descaso. É dever dos pais realizar experiências com seu filho para que possa aprender a suportar algumas dores, para que quando adulto não tenha sentimentos de ingurança e medo. Para Rousseau (2004), as crianças que são muito sensíveis nessa idade, são as mesmas que foram mimadas durante os primeiros anos de vida.

A educação das crianças acontece pelas experiências dos sentidos; deste modo, sendo puramente afetivas, "elas só percebem o prazer e a dor" (Ibid., p.49); por isso que o choro é a única linguagem que será usada. Antes mesmo do fortalecimento do corpo para alcançar objetos, a criança criará sensações representativas; devem ser educadas para se adequarem a diferentes lugares e objetos. Essa preparação é preventiva para, que quando adulto, não sofra surpresas; há necessidade de realizar várias experiências, como, por exemplo, o contato com o escuro, a variedade de alimentação, os barulhos, as máquinas, máscaras, plantas, animais, objetos inanimados. Só evite que ela tenha sistematicamente os mesmos contatos, para que não se habituem.

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