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GEL & Franchi: 30 anos juntos

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Revista do Gel, n. especial, 11-21, 2002

GEL

&

MANCHE

30 anos

juntos

Cristina Altman e Mercedes Hackerott

(CEDOCH/DL-USI) Caro Alceu. •

Convite do GEL nunca atrapplha. Afinal e gente deve alguma obrige;io ao Grupo. E alie da obrigaçõo anti uma •..Ueda boa e compensadora. Embora no tenha en-tendido bem qual e forma de minha participagõo, o con-vite eat aceito.

Se pudesse, pediris pare •sclarecer-me (pois no es-tive nos últimas rtunlões) como o grupo esta vendo o tema - lingufatice • orientagio oftctal do Amain* do portuguie - Qua poetise objetivos se esperam atingle?

1Jue pantos dever(smos abordar? Como os colegas dose-jariem dividir o tams?

Vocõs vatic) contend* comigo pare uma das exposições? ou foments o ara os debates?

Como voci ocher melhor — de acordo com o quo vocis

tee planejado — *stay 1 disposlq:o. mesmo que no pee-ve ricer ei os dois dies.

Desculpa-me o bilhete. A gents, •m moils, põe em die se informações e gist. o papo longo.

Vistos de hoje, os jovens professores que se reuniram com alguns alunos no I Seminário do GEL, em 1969, em Araraquara — Ataliba Teixeira de Castilho

* Reprodução fotográfica de correspondência inédita de Carlos Franchi a Alceu Dias lima

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ALTMAN, Cristina, e HAM:BROST, MERCEDES. GEL 41 Fz in chi: 30 Juntas

(Manila), Cidmar Teodoro Pais (USP), Francisco da Silva Borba (Araraquara), Ignácio Assis da Silva (São José do Rio Preto) e João de Almeida (Assis) —podem parecer heróis visionários.' Amparados pelo velho mestre, Isaac Nicolau Salum, o grupo pretendia abrir um espaço de discussão, ainda que informal, que propiciasse o intercâmbio de idéias entre professores e alunos que viviam circunscritos aos seus respectivos centros acadêmicos, ilhados na imensidão do Estado de São Paulo.' Os riscos da ousaclia de discutir em conjunto os rumos a seguir no ensino secundá-rio e universitásecundá-rio e as dificuldades que teriam que enfrentar não eram óbvios para todos naquele momento. Não se pode esquecer de que estávamos no final dos conturbados anos sessenta, em um período de violentas trans formações sociais, políticas, e intelectuais, que reverteriam de vez nossos pacatos valores estabelecidos, inclusive os acadêmicos.

0 clima de opinião entre os universitários brasileiros do momento era, de maneira geral, de extrema insatisfação. Insatisfação com o caráter (pseudo-) profissi-onalizante que haviam assumido as Faculdades de Filosofia, em detrimento das ativi-dades de pesquisa; insatisfação com a implantação tardia e descontínua da disciplina Lingüística nos cursos de Letras e, principalmente, insatisfação com a maneira como se definiam os currículos, tanto os da chamada escola secundária, quanto os do ensi-no superior: por resoluções federais, sem que se levassem em conta, muitas vezes, a diversidade social e lingüística do país e as especificidades regionais.

Some-se a isso o violento processo de crescimento e agravamento dos desajustes econômicos e sociais por que passava a sociedade brasileira — aí inclusa a expansão desordenada das redes de ensino de 1°. e 2°. graus —e se tem uma pálida idéia ' 0 tema de Pais era sobre 'o tratamento estatístico em Lingüística'; Borba sobre

'seleção e tratamento do copal; Ataliba e João de Almeida sobre o Projeto NURC', de Ignácio Assis da Silva, sobre 'análise estratificacional' e de Salum: `métodos de investigação histórica'.

2 Até o início da década de noventa, a produção do GEL é essencialmente paulista, i.e.,

ligada ao contexto das Universidades Estaduais, das Universidades Católicas e de Faculdades Isoladas do Estado de São Paulo. Encontramos participação de pesquisa-dores de Universidades de outros Estados (principalmente das Federais: ES, FF, MG, MI; PE, PR, RS, RJ,Uberlândia, Viçosa; Estaduais: Bahia e Londrina), mas não se pode dizer que essa participação seja representativa da produção dessas outras Uni-versidades. Elas são estatisticamente não significantes e resultado do aumento da participação de alunos de pós, professores visitantes, colaboradores, que, em algum momento do seu percurso, estiveram ligados a uma das grandes Universidades paulistas

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Revista do Gel, n. especial, 11-21, 2002

do clima reformista dos debates acadêmicos naquela década. Debatiam-se a autono-mia universitária, a democratização da carreira docente, a democratização do acesso ao ensino, a necessidade de implantação de cursos de pós-graduação, os conteúdos curriculares e a atividade politico-partidária nas universidades.

Advogado estabelecido, também formado em Letras Clássicas, professor de Latim e Português nos tempos de Jundiaí, Franchi jamais conseguiu separar suas reflexões teóricas e sua postura didática das questões sociais e políticas que o incomo-davam. Leia-se `politicas', neste contexto, literalmente. Frandii fora vereador, candi-dato a prefeito, uma das lideranças do Partido Democrata Cristão de Jundiaí, e ativo defensor dos presos politicos do regime militar de 1964, antes de sair do país para completar sua formação acadêmica em Besançon.

Embora a estada em Besançon tivesse aberto para Franchi outros universos intelectuais, os problemas ligados ao ensino mantiveram-se muito tempo como uma temática importante do seu trabalho. Tanto é que logo vieram à baila na entrevista que concedeu ao ex-aluno, colega, e amigo, Rodolfo Ilari, em 2001: "Dei auks durante longo tempo Eu era uma pot absolutamente /*Jobe/a em Selo Paula Vocêse lembra quando dbigioprimeiro Guia Curricular? A Folha de São Paulo, 0 Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil entraram depau em dma." (cf jornal daUnkamp, uni-hoje-jul 66-tema08.htm, p. 4, 20/4/ 02).

Não por acaso, pois, é que podemos interpretar como inevitavelmente engajada sua participação nas sessões plenárias e mesas-redondas dos seminários do GEL na década de setenta ( V ..Quadro-Resumo das suas participações, ao final do texto). São temas recorrentes na sua reflexão as relações entre o conhecimento lingüístico que se produzia na universidade e o ensino do português, sua aplicação em sala de aula, e sua utilidade na elaboração de material didática

Era preciso mudar.

Boa parte dos textos debatidos em mesas-redondas, conferências e simpósios, antes do XIX Seminário, realizado em Mogi das Cruzes, em 1978, quando se começa-ram a publicar os ErtudosLingiiístkos.Anair dos Semindlios do GEL, é hoje irrecuperável. Muito do seu conteúdo e teor, entretanto, podem ser resgatados pela correspondên-cia arquivada, manuscritos, bilhetes, anotações, atas, fichas de inscrição, aos cuidados hoje do Centro de Documentação AlexandreEukiko (CEDAE-IEL/UNICAMP).

0 bilhete de Franchi a Alceu Dias Lima, no contexto do XV Seminátio do GEL, em 1976, que abre esta seção, testemunha o esforço que fazia para abrir espaço

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ALTMAN, Cristina, e HACIIEROTT, litERCEDES. GEL eit Franchi: 30 juntos

em urna agenda atribulada, para participar do GEL, fosse no início, para tratar de questões de ensino; fosse, a partir dos anos oitenta, para tratar de problemas descri-tivos do português, ou de questões teóricas.

Mais esclarecedora, talvez, dos problemas em evidência na comunidade dos professores paulistas dos anos setenta, tenha sido a resposta ao bilhete que reprodu-ziremos a seguir. Ressaltem-se os comentários sobre o conteúdo proposto pelos 'Guias Curriculares', em contraposição a urna orientação lingüística 'moderna', e so-bre a necessidade do profissional esclarecido alertar as autoridades competentes, es-sas sim, aparentemente, as verdadeiras detentoras do poder de resolver os descon-tentamentos.

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Revista do Gel, n. especial, 11-21, 2002

G EL - GRUPO DE ESTUDOS LINGOISTICOS DO ESTADO DE SAO PAULO * son.mm mr. m um, m :us umm•om. - M. /0410

"0 JOS ' ,10 Pio !'roto, 5 de maio de 1976.

Prof. arlos Franchi MICA:1? - Campinas

PREZADO PROFESSO?,

ates do tudo, ogradeço-lhe um nono do C. . . , sua disponicio cm colaborar no XV Sonderio a roalizar-,c cm 55o José do Rio Preto, de 20 a 21:4o maio.

Como o tempo 7 curto, rospondo sintuticamwnte 7s suas dnvidas:

- -cria dosojAvol luo so entrasso na discuss'

s4o da validade o pertinancla dos chanados • etas Curricularee, on

rolagao ao onsino do Portugu5s (Lies cont a Og clots elementos envolvi

,os no tona da mcsa-;cdonda: orientagão oficial u pretense orientag:o

de LinsIlistica moderna).

- Como objetivos da mesa-,edonda terranos a

poss:vol doter:Anna° do Gnomes nogativos contidos nessa orientagao oficial o a possibilidade do =at". olonentom para alortar as autori dados compotontos, Sobro as ooss , vois conse7ncias decastrosas da

a-plicoço de um modelo curricular .:Int von tondo durarento

criticado.

- Sao ha em princ:pio, a essas alturas, con

diciics do dividirote=i .ada um dar! a SUO COAtrIbUi(!:0 4.111 :or ro de exposic5o _vg$0.1 (e no integrada).

proveito o essejo para reiterar agradecimontos

e cordials saudaglos.

,tenciosamente,

Pala Prosiencia / Prof. Sildemdr Ferreira do Carvallo

- SocrotIrio do G E -

" Resposta do Prof. Nildemir Ferreira de Carvalho (Secretário do GEL — no biênio 1975-1977). CEDAE-IEL/Unicamp, S2 Doc, 235.

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ALTMAN, Cristina, e HACEEROTT, MERCEDES. GEL ro• Franchi: 30 juntos

Os percursos individuais que levaram os profissionais paulistas à fundação do GEL em 1969 e a tomada de consciência de que seriam necessáriosfora coletiva de discussão, para sanar as insatisfações que os acometiam, não foram totalmente casu-ais. O `colégio invisível' em que Franchi dava vazão à sua inegável vocação para a polêmica se revela aqui e ali através dos temas que o motivavam a comparecer ao GEL; entre seus interlocutores mais constantes faziam parte Ataliba de Castilho, Rafael Hoyos, Rodolfo Bari, Sírio Possenti, Leila Bárbara, Mary Kato, Cláudia Lemos e Esmeralda Negrão.

Aryon Rodrigues, em colóquios informais, chamou nossa atenção para o fato de que neste mesmo ano se promovia, em São Paulo, o II Instituto Brasileiro de Ling/1U-tka, que coincidia com o Ill Interamericano do PILEI (Programa Interamericano de Lin-

e Erzrino &Linguas); o Con,gre-rso da ALFAL (Associação deLingaiica e Fikkgia da América Latina), cujo Presidente era Joaquim Mattoso Câmara Jr., e se criava a

primei-ra sociedade formal de lingüistas bprimei-rasileiros, de caráter nacional, a ABRALIN, de que o próprio Aryon seria eleito o primeiro Presidente.

Arriscado ou não, era um momento favorável às novas idéias em matéria de ensino e pesquisa lingüísticos, que começavam a adentrar o país. Nada mais natural, portanto, que Franchi, afastado à revelia do cenário politico paulista entre 1968 e 1970, se associasse, em sua volta de Besançon, aos projetos desses jovens professores universitários que se propunham a repensar os caminhos de ensino e pesquisa lingilis-tica diante da nova 'realidade' nacional.

Pelos manuscritos da geração fundadora do GEL que chegaram a nós, nos damos conta de que se tratava de um projeto essencialmente prático. Tentativamente, procurava-se articular as novas metodologias de análise linguística— transcrição foné-tica e classificação de morfemas — à proposta de uma programação unificada de ensino de teoria lingüística para os cursos das Faculdades paulistas de Letras.

Para isso, esboçaram-se no contexto dos primeiros seminários do GEL dois projetos coletivos: a edição de uma coletânea de textos 'modernos' de Lingüística e de Língua Portuguesa, elaborada pelos próprios associados, e a coleta de dados para a descrição da 'norma urbana culta' de São Paulo, ramificação paulista do Projeto NURC (cf. CEDAE-IEL/UNICAMP, D.01).

Nos manuscritos que preservaram essas metas do grupo, lêem-se claramente os temas que preocupavam a comunidade acadêmica paulista como um todo (idem, D.02). Do ponto de vista institucional, centravam-se na reivindicação de moderniza-ção do ensino universitário e de redução do excessivo número de alunos em sala de aula; na deficiência das bibliotecas; na dificuldade de manter um bom ensino calcado

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apenas em exposições orais; na pouca participação dos estudantes em seminários e grupos de estudo; na pulverização do ensino da disciplina em apostilas improvisadas e heterogéneas.

Do ponto de vista do conteúdo, os interesses pendiam nitidamente para o estudo sincrônico de textos do português contemporâneo, na sua modalidade não-literária; na revisão da tradição gramatical de estudo da sintaxe e da morfossintaxe do português, com uma forte retórica de ruptura com as tradições lingüístico-pedagógi-co anteriores; para o estudo da variação e uso do léxilingüístico-pedagógi-co de lingüístico-pedagógi-comunidades especiais, urbanas, e para a descrição do uso do português oral, em sua modalidade coloquial, dita culta. Observe-se, a título de exemplo, o plano de trabalho proposto no VIII

Seminário do GEL

Projeto Coletânea de textos de LingAtica (VIII Seminário, 1972, Araçatuba): Vol.INoções Micas

Vol.II Fonética e Fonologia

VoL 111 Motfos.nntaxe

Vol. IV Lexicokgia e Semântica

Um exame das propostas que teriam constituído o Vol. I aponta nitida-mente para uma recepção de autores da chamada Lingüística estrutural fundonalista' (que chegava até nós através de publicações francesas), em intersecção com uma Semiologia estrutural. Ainda que venha a optar por outros caminhos, Franchi co-nhecia muito bem o alcance e os limites desta literatura: Mattoso Câmara, Saussure, Hjelmslev, Malmberg, Martinet, Coseriu, Benveniste, Barthes. Em fonética e fonologia, recomendavam-se Trubetzkoy, Jakobson, Mounin, mas não só. Incluí-ram-se textos de Bloomfield, Ullman, Lyons e Ruwet.3 (V. 'Depoimento em Primeira

Pessoa do Singula? a seguir).

Em outras palavras, o português contemporâneo, desvinculado do seu con-texto românico (histórico), latino-americano, e mesmo do seu concon-texto brasileiro

3 Assinam as traduções deste Vol. I, nunca publicado, Rafael E. Hoyos-Andrade, Erasmo

D'Almeida Magalhães, Maria Lúcia Pinheiro Sampaio, Alceu Dias Lima, Jesus Anto-nio Durigan, Salvatore D'Onofrio, Carlos de Assis Pereira, Vandersi Santana, Pedro Caruso, Ignácio Assis da Silva, Maria Angela Abud, Teimo Correa Arrais, Zilda Zapparoli, Idméia Semeghini, José de Almeida Prado, Assuer Quadri Prestes.

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ALTMAN, Cristina, e HACHERMT, MERCEDES. GEL d Franehl: 30 juntos

(em relação a outras línguas minoritariamente faladas no país) é que ocupou o centro dos interesses da comunidade que apresentou seus trabalhos no GEL. Não que se tenha pensado em excluir da associação—neste sentido é interessante comparar a ata de fundação do GEL com a ata de fundação da ABRALIN — professores de Lingüística Românica (Comparativa), de Lingua Latina, Línguas Estrangeiras, Lín-guas Indígenas, mas trabalhos sobre essas especialidades foram sempre raros, se comparados à atenção que se dedicava ao português.

Dito de outra maneira: a correspondência entre Franchi, Bari e outros que com eles compartilharam as gestões na direção do GEL deixa patente essa vocação pluralista. Não houve, na formação e desenvolvimento do GEL, uma política de exclusão, quer pela orientação teórica, quer pelo objeto estudado. Por isso mesmo, o fato de se haver registrado um número muito pequeno de trabalhos sobre outras línguas brasileiras que não o português, ou mesmo sobre o estudo histórico-compa-rativo, passa a ser relevante. 0 lugar para divulgação dessas áreas existia virtualmente no momento de formação do GEL. 0 fato de ele não ter sido ocupado dá uma medida significativa do desinteresse dessa 'nova' geração por manter as tradições de estudo nas quais se formaram. A hora era de mudanças.

No contexto do Gel, o programa de investigação reconhecido, hoje, como da

Ling:it:Oka, está inegavelmente ligado ao estruturalismo de Mattoso Câmara (mais do

que o de Aryon Rodrigues, por sinal. 0 interesse pelo ensino do português explica em parte essa preferência). Neste sentido, uma das mais importantes mudanças de-tectadas nos estudos lingüísticos do Brasil, com o desenvolvimento do programa da

Lingüística, foi a procura de um embasamento teórico e metodológico em outros

referenciais que não aqueles advindos da tradição filológica portuguesa. A busca de autonomia da Lingiiirtica em relação à tradição entendida como Filologia pode ser interpretada, portanto, a partir dos anos setenta, não só como uma ruptura sócio-institucional, mas também como uma ruptura com o conhecimento produzido por ela anteriormente Embora o programa da Lingüística nos anos sessenta fosse ainda para muitos uma vaga promessa (a implantação da disciplina foi descontínua e tardia em relação a outros centros), essa primeira geração de pesquisadores brasileiros sabia muito bem o que não queria fazer— não queria mais o estudo da história da gramá-tica do português e/ou a edição crígramá-tica de textos literários.

O clima de opinião da época, intensamente reformista, propiciou o surgimento de novas lideranças intelectuais e organizacionais. Franchi, sem dúvida, foi um dos líderes organizacionais desta geração.

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Teorização como Ideal de Cientfficidade

A resolução de 1962 que constituiu a Lingüística como disciplina obrigatória para todos os alunos de Letras não foi suficiente para que a disciplina se solidificasse institucionaltnente a ponto de definir um campo específico de atuação profissional. A Lingüística Brasileira, até o final dos anos setenta, foi uma lingüística de indivíduos. Levaria mais alguns anos para que saíssem de nossas Universidades alunos formados em Cursos de Lingiiístira, que reivindicassem objetivos que não se resumissem somente

atuação no magistério secundário, mas também em pesquisa.

Até meados da década de sessenta, portanto, a possibilidade de continuida-de continuida-de estudos e continuida-de aperfeiçoamento continuida-dependia, ou da contratação continuida-de professores estrangeiros, ou da ida dos alunos para o exterior. Além, evidentemente, daqueles que, autodidaticamente, procuravam acompanhar as publicações estrangeiras, cujo acesso exigia basicamente recursos individuais de importação, já que não havia bibliotecas que pudessem ser consideradas especializadas, ou mercado editorial interessado. Tal contexto contribuiu, inegavelmente, para a propalada imagem de

mceptividade da Lingüística Brasileira durante a década de sessenta e de suas relações,

no mínimo assimétricas, com os então considerados mais importantes centros aca-dêmicos ocidentais.

Do ponto de vista das inovações metateóricas, entretanto, teria sido neces-sário (talvez?) um pouco mais de cautela. A obsolescência das teorias lingüísticas que bombardeavam a ainda frágil comunidade universitária era muito mais rápida do que a capacidade dos lingüistas brasileiros de absorvê-las. 0 cruzamento quase simultâneo de tendências e orientações teóricas divergentes contribuiu para separar, nos termos de Ataliba de Castilho, 'conservadores' e 'inovadores' em matéria de estudo da linguagem. Observe, neste sentido, os temas teóricos de cuja discussão Franchi participou a partir do XIX Seminário, de 1978 (cf. ainda .Quadro-Resumo ao final do texto): 'estruturalismo e gerativismo'; `saldos e perspectivas da lingüística,"a lingüística contemporânea,' gramática e discurso,' formalismo e funcionalismo.' Essas divisões estão na origem da nossa formação enquanto grupo profissional e das relações ambíguas que ora nos aproximam, ora nos afastam das outras áreas de Letras.

A Lingüística Brasileira dos anos setenta reivindicou para si — e para mais ninguém — o estatuto de dentifiddade em matéria de linguagem, em nome dos aspectos quantitativo, formal e rigoroso que dizia (e procurava) imprimir aos seus procedimentos. Neste ponto, Franchi e os co-fundadores do TEL não faziam con-

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ALTMAN, Cristina, e lac:moon, MERCEDES. GEL if 5 P Franchi: 30 juntos

cessão. Dividiram-se dicotomicamente os estudos sobre a linguagem em 'ciência' e

'não-ciência', o que sempre esteve na origem de certos desconfortos da Lingüística em relação is outras disciplinas dos cursos de Letras e, principalmente, de certos preconceitos em relação a ela.

Trinta e poucos anos depois, é fácil avaliarmos o que deu certo e o que não se concretizou dos anseios dessa geração pioneira i qual pertenceu Franchi. Dificil é preservá-los em nossa análise e reflexão contemporár' leas. 0 que é inegável é que as propostas que circulavam, sem censura, entre os participantes do GEL (não sem polêmicas internas, com certeza) transformaram a lingua falada e suas gramáticas, os dialetos urbanos, o calão, as metáforas políticas, o ensino de línguas estrangeiras, enfim, a realidade brasileira em ebulição, em legítimos objetos de debate acadêmico, o que nem sempre parecia sensato promover nos estreitos (em qualquer sentido) limites de uma sala de aula.

Se nem tudo deu certo, o fato é que o GEL garantiu espaço para todas as vozes, orientações teóricas, nuances metodológicas, ou posições acadêmicas, e moti-vou outros planos e iniciativas, por cujos resultados, certamente, seremos cobrados. Se tivermos sorte (engenho e arte), nossa historiografia nos incluirá igualmente no legado de Franchi.

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Apêndice

.

Tabela I - Quadro-Resumo da Participação de Carlos Franchi

no GEL (1973-2000)

X Seminário (outubro de 1973) FFCL — Avará

CURSO "Lingüística II: Problemas diversos" Wilson Joia Pereira, José Luís Casagrande, Ignacio Assis da Silva, Dino Prat, Vara Frateschi Vieira, Izidoro Blickstein e Carlos Franchi

Xi Seminário (junho de 1974) FFCL - Tupã

MESA REDONDA "A Ungüfstica moderna e o livro didático" Geraldo Matos, Carlos Franchi e Dino Preti XIV Seminário (outubro de 1975) FFCL - Araraquara

Presidente: Alceu Dias Uma. Vice-Presidente: Carlos Franchi. Secretário: 41 DIRETORIA DO GEL Nildemir Ferreira de Carvalho. Tesoureira: Maria Tereza de Camargo

Biderman

XV Seminário (maio de 1976) FFCL - São Jose do Rio Preto / UNESP 41 DIRETORIA DO GEL Vice-Presidente: Carlos Franchi

MESA REDONDA "A linguistica e a orientação oficial do ensino de Português" Carlos Franchi, Dino Fioravanti Preti e Ignacio Assis da Silva

XVI Seminário (outubro de 1976) FFCL - Manha 41 DIRETORIA DO GEL Vice-Presidente: Carlos Franchi

XVII Seminário (junho de 1977) Faculdade de Aries e Comunicações da Fundação Educacional de Bauru

42 DIRETORIA DO GEL Vice-Presidente: Carlos Franchi

XVIII Seminário (outubro de 1977) FFCL "Jose Olympio" -Batatais

51 DIRETORIA DO GEL Presidente: Rodolfo Hari Vice-Presidente: Onosor Fonseca. Secretário: Ataliba Teixeira de Castilho. Tesoureiro: Carlos Franchi

XIX Seminário (junho de 1978) Universidade de Mogi das Cruzes

MESA REDONDA "Estruturalismo e Gramática Gerativa: duas maneiras de fazer ciência?" Rafael E. Hoyos-Andrade, Sírio Possenti, Carlos Franchi, Leila Barbara

XXI Seminário (setembro de 1979) FFLCH - USP

DEBATE "Vinte anos de linguística e de linguistas no Estado de Silo Paulo: saldos e perspectivas" Leila Barbara, Francisco da Silva Borba, Carlos Franchi, Cidmar Teodoro Pais

XXIV Seminário (outubro de 1981) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo CONFERÊNCIA "Perspectivas da Lingüística hole" Carlos Franchi

XXV Seminário (maio de 1982) Pontifícia Universidade Católica de Campinas

MESA REDONDA "Sintaxe, semântica e pragmática ou pragmática, semântica e sintaxe ou ..." Carlos Vogt, Mary A. Kato, Carlos Franchl, Claudia Lemos

XXVIII Seminário (outubro de 1984) FFCL "José Olympio" — Batatais CONFERÊNCIA "Além da Gramática, o Discurso" Carlos Franchi

XXX Seminário (novembro de 1985) instituto de Blociênclas, Letras e Ciências Exatas de Sio Josè do Rio Preto

GRUPO DE TRABALHO "Funcionalismo" Rafael Hoyos-Andrade, Carlos Franchi, Hildo Hon6rio do Couto, Erminio Rodrigues

XXXI Seminário (maio de 1986) FFCL "Auxílium" - Lins

GRUPO DE TRABALHO *0 funcionalismo lingúfstico: noções Intuitivas comuns aos diferentes modelos" Rafael Hoyos-Andrade, Carlos Franchi, Izidoro Blikstein, Rodolfo Ilari XXXVI Seminário (maio de 1989) FFLCH / USP

GRUPO DE TRABALHO "Advérbios: uma classe de palavras?" Rodolfo Ilari (coord.), Ataliba de Castilho, Célia M. de Castilho, Carlos Franchi, Margareth S. Elias, Maria Helena Moura Neves, Sino Possenti

XXXVII Seminário (outubro de 1989) Faculdades integradas "Teresa D'Avila" - Lorena GRUPO DE TRABALHO "Questões sobre a anáfora em Português" Carlos Franchi, Anternio Suarez

Abreu, Ana Muller, Esmeralda Negrão

COMUNICAÇÃO "0 papal dos 'papéis' temáticos na teoria Linguística" Carts Franchi XLII Seminário (maio de 1994) FFLCH - USP

CONFERÊNCIA Pluralismo em Undlistica: a tematização das diferenças" Carlos Franchi XLVIII Seminário (maio de 2000) UNESP- Assis

Referências

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