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HISTÓRIA DA DESOBERTA DA RADIOATIVIDADE E

SUAS CONSEQUÊNCIAS

Márcio Oliveira Silva

Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca do Rio de Janeiro Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática

[email protected]

Resumo

A descoberta dos raios X , assim como, da radioatividade causou um grande impacto na sociedade científica no final do século XIX e início do século XX. Com estes novos experimentos ascendeu a possibilidade de estudos em áreas da ciência que até então não existiam. O poder de penetração dos raios X, principalmente quando usado para ver através do corpo humano, foi uma notícia sensacional para uma sociedade que acabara descobrir as vantagens do uso da energia elétrica. E com os estudos sobre a radioatividade de alguns materiais, que apresentavam um poder de penetração muito maior do que os raios X mostravam que o mundo estava diante de uma nova forma de energia. O presente trabalho mostra como a descoberta da radioatividade ocorreu, o impacto da descoberta na sociedade da época e quais foram os antecedentes filosóficos para esta descoberta acontecer, assim como, quais conseqüências que o uso da energia radioativa trouxe de herança para a humanidade. Inicialmente, expõe os pensamentos filosóficos da antiguidade que influenciaram os cientistas a estudar o átomo e a origem da matéria, e por consequência chegar aos elementos radiativos. Apresenta também os personagens e o seu papel na pesquisa e desenvolvimento científico no estudo da radiação nuclear. Também, aborda o uso da radiação e a energia nuclear na sociedade moderna.

Palavras-chave : Radioatividade, História da Ciência, Contaminação radioativa. Introdução

Desde a antiguidade que o homem deseja saber de onde veio e como o universo se originou e de que são feitas as coisas que existem em nosso planeta. Através da observação do mundo e da filosofia, os gregos tentaram desvendar algumas dessas questões. Há três mil anos, Hesíodo, um poeta da Grécia antiga, foi autor de duas obras clássicas: Os Trabalhos e os Dias e A Teogonia. Com A Teogonia, que pode ser chamado de “genealogia dos deuses” (RONAN, 1983, p.66), aparece pela primeira vez a formulação daquilo que os gregos entendiam como a origem do universo (CAMARGO 2006, p.31). Segundo Hesíodo, o mundo foi criado a partir do Caos e deste surgiu a Terra e o Amor. Do Caos, surge a sombra e, da sombra, emerge a luz.

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Nesta concepção, os deuses criaram o mundo e foram responsáveis pela manutenção da justiça no planeta. Este relato coincide em algumas partes com a criação escrita em Gênesis, na qual o mundo foi criado por Deus em sete dias. No início, tudo era escuridão e veio a luz, em seguida, a Terra, os animais e, finalmente, o homem.

Além de responder às questões metafísicas de sua época, a obra de Hesíodo foi a base para as reflexões dos primeiros filósofos. Os pré-socráticos, que viveram a partir do século VII a.C., tentaram desvendar a natureza da matéria. O filósofo, Tales, da cidade de Mileto, na Jônia, contribuiu para o entendimento da origem do homem, dizendo em sua teoria que o mundo se desenvolvera a partir de um único elemento, a água. Outros pré-socráticos que vieram posteriormente acrescentaram como origem da matéria os quatro elementos – água, fogo, terra e ar – esta teoria perdurou por vários séculos (CAMARGO, 2006).

Em 400 A.C, Demócrito de Abdera escreve: “Dizemos doce, amargo, quente e frio; na realidade existem apenas átomos e vácuo”( GIBELLI,1966, p.217). Segundo Demócrito, todos os elementos da natureza eram constituídos por partículas infinitesimais inseparáveis e indestrutíveis, chamados átomos - aquele que não pode ser dividido. Ele também afirmava que existem duas coisas, os átomos e o vácuo: o mundo é, portanto, composto de montes de matéria em um mar de vazio total (RONAN, 1983, p.71).

Uma obra inspiradora para os grandes filósofos até os dias modernos, escrita por volta de 360 a.C., é o Timeu, que é um tratado teórico de Platão na forma de um diálogo socrático. Neste, há uma grande discussão sobra a origem da matéria – a noção de átomos “tão pequenos” que não podemos percebê-los e que compõem os corpos materiais quando juntos (CAMARGO 2006, p.35).

Esta tentativa de desvendar a matéria e seus componentes atravessou vários séculos. Existe um fascínio do homem de tentar entender, criar e modificar elementos. Uma interessante passagem que existe na primeira edição dos Princípia de Newton traz a seguinte frase: “Qualquer corpo pode ser transformado em outro de qualquer natureza, e todos os graus de qualidade podem, ser induzidos nele” (COHEN & WESTFALL, 2002, p.386). O químico John Dalton, em seu trabalho de 1808, expôs completamente sua teoria atômica, argumentando que a partir da massa de um composto, estabelecia o peso relativo das partículas e, com esta informação, deduzia-se o peso e o número de átomos que formavam outras combinações (BRAGA et al, 2008, p.37). Alguns anos mais tarde, o químico russo, Dimitri Mendeleiev, consegue mostrar que os átomos poderiam se organizar de forma harmônica pela periodicidade de seus pesos atômicos e, em 1863, organiza 63 elementos naturais em uma tabela.

Mas os estudos de átomos não se baseavam apenas no estudo dos elementos químicos, alguns cientistas também investigavam as moléculas de gases que eram ionizados através de descargas elétricas dentro de tubos, que seria os tubos de raios catódicos. Um destes foi o inglês Joseph John Thomson, que por volta de 1876, propôs um modelo atômico relacionando a carga e a massa do elétron. Thompson sugere que os elétrons estariam mergulhados em uma massa homogênea, como passas em um pudim.

No outono de 1895, o físico experimental alemão Wilhelm Röntgen, em seu laboratório na Universidade de Würzburg, começou a investigar a luminescência

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utilizando um tubo de raios catódicos semelhante a uma Ampola de Crooke, induzindo alguns elementos químicos. Para auxiliar sua observação, pôs o tubo de raios catódicos dentro de uma caixa de papelão. Quando ligava a corrente, vislumbrava uma luminescência do lado oposto à sala escurecida em uma folha de platinocianeto de bário. Algum tipo de radiação estava emanando do tubo de raios catódicos. Como essa radiação poderia atravessar o papelão e outros materiais? Röntgen repetiu o experimento várias vezes – com um cartão, um livro grosso, placas metálicas, até observar que os raios atravessavam seus dedos, revelando uma nítida imagem dos ossos da mão (CAMARGO, 2006, p.45).Perplexo quanto à natureza dos raios misteriosos, e como não conhecia a natureza dos raios, chamou-os de Raios X. A capacidade de penetração dos raios era imaginável. Röntgen, finalmente, produziu a primeira imagem radiográfica da ossatura humana, aplicando os raios X na mão de sua mulher. Após sete semanas de pesquisas, Röntgen estava pronto para revelar suas conclusões, e as fez em uma conferência pública em janeiro de 1896 (STRATHERN, 2000, p.31).

A descoberta de Röntgen rapidamente espalhou por toda Europa e chegou aos Estados Unidos. Nunca antes uma descoberta científica causara tanta excitação popular. (CAMARGO 2006, p.35). O estado de Nova Jersey aprovou uma lei proibindo o uso de raios X em binóculos de ópera, para preservar a virtude das mulheres presentes no teatro. (STRATHERN, 2000,p.32). Produzir raios X era muito simples, e logo apareceram os fins práticos, como a observação do interior corpo humano. Mas não se pensava em proteção contra a exposição dos próprios raios X, anos mais tarde verificou-se que esta elevada exposição provocava alguns males, como a leucemia.

Becquerel ouviu falar da descoberta dos raios X de Röntgen, e iniciou também experimentos com materiais fluorescentes para saber se estes produziriam raios X. Trabalhando com um sal duplo de urânio (sulfato de potássio uranilo), pôs este cristal sobre uma chapa fotográfica envolvida com papel preto, em seguida expôs este material à luz solar, ele sabia que a luz do Sol induziria a fluorescência, e, se esta contivesse raios X, eles penetrariam no papel preto e ficariam registrados na chapa fotográfica. E foi o que aconteceu. Mas Paris estava passado por um inverno muito rigoroso nestes dias e era rara a incidência solar. Becquerel então preparou diversas chapas fotográficas, envolvendo-as em papel preto e colocando o cristal de sulfato de potássio uranilo por cima. Guardou este material dentro de uma gaveta e esperou o Sol voltar a brilhar. Mas o sol insistia em não sair. Impaciente, resolveu examinar o material depois de alguns dias. Foi surpreendido ao revelar as chapas. Descobriu uma intensa névoa branca que se espalhava a partir de onde o cristal estava repousado. (STRATHERN, 2000, p.36).

Esta radiação diferente do raio X vinha do próprio cristal. Mesmo no escuro completo, o cristal de sulfato de potássio uranilo continuava emitindo esta radiação misteriosa. Becquerel se perguntava que tipo de radiação seria esta. “Quem sabe essa energia podia ser armazenada de alguma maneira pelo cristal ao longo de um período?” Röntgen alcançou amplo reconhecimento e recebeu o primeiro Prêmio Nobel de física, em 1901. Recusou-se a patentear qualquer coisa relacionada com a produção ou uso dos raios X. Morreu velho e empobrecido, em 1923 ( idem, p.34).

A descoberta dos raios X de Röntgen influenciou e orientou as pesquisas de Marie e Pierre Currie.Marie Currie nasceu em Varsóvia, em 1867, filha de um professor

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secundário de matemática e física. Em uma França que achava que mulher não tinha cérebro e não servia para estudos, Marie fez uma carreira brilhante no Liceu e depois na Universidade de Souborne, que, na época, tinha 1800 estudantes dos quais apenas 23 eram mulheres (ibidem, p.17). Ela terminou o curso de física em 1893, em primeiro lugar e, no ano seguinte, completou o curso de matemática (CAMARGO, 2006, p.45). Casou-se com um professor e físico de renome, Pierre Curie, e acompanhava com interesse as pesquisas de Röntgen e Bequerel. Então, o casal Curie resolveu estudar mais profundamente esta nova radiação. Ocuparam um velho depósito na Escola de Física e Química Industrial, em Paris. Iniciou os experimentos em 16 de dezembro de 1897. Ao inventar a palavra “radioatividade”, descreveu como a faculdade que certos elementos pesados têm de emitir espontaneamente radiações de uma energia considerável e de origem então incompreendida (CAVEDON, 1996, p.8). Sabia que o ar era ionizado pela radiação e, quanto mais forte a radiação, maior era a corrente elétrica produzida. Usando um experimento de Pierre sobre o efeito piezelétrico1 em materiais,

conseguiu montar um instrumento de medida de radiação extremamente sensível. O fato de que um cristal sob pressão emite uma carga minúscula de eletricidade, para contrabalancear a minúscula carga oposta presente no ar através do qual os raios estavam passando. (STRATHERN, 2000, p.39).

Marie começou a estudar vários compostos de urânio que vinham da pechblenda2 de certos sais de urânio. Em julho de 1898, depois de processar e refinar

uma grande quantidade de pechblenda de urânio chegou a um metal ainda não determinado semelhante ao bismuto. A este metal deram o nome de polônio em homenagem à terra natal da cientista. Observaram que o polônio era 400 vezes mais radioativo que o urânio. Mas sabiam que havia algo mais a ser encontrado na pechblenda devido ao seu nível de radiação. Continuaram a processá-la e um segundo elemento com altíssima radioatividade foi encontrado e anunciaram:

As várias razões que acabamos de enumerar levam-nos a admitir que a nova substância radioativa e extraída da pechblenda encerra um elemento novo, para o qual propomos o nome de rádio. A radioatividade deste elemento, portanto, deve ser enorme. (apud KEPINSKI, 1998).

Além de afirmar a existência dos elementos, era preciso mostrá-los fisicamente ao mundo acadêmico. O casal Curie anunciou ao mundo em 1902, a obtenção de 0,2g de cloreto de rádio, que se mostrava 900 vezes mais radioativo que o óxido de urânio (CAMARGO,2006, p.47).

Assim, com este trabalho, em 1911, Marie ganha o seu segundo Prêmio Nobel, este de Química pela descoberta do Rádio e do Polônio. O primeiro foi o de Física, em 1903, que ganhara junto com seu marido Pierre e com Becquerel, pelos trabalhos feitos com a pesquisa sobre a radioatividade.

1 O Efeito Piezelétrico acontece quando certos cristais recebem uma pressão mecânica, e como resposta, estes geram uma corrente elétrica.

2 Pechblenda é uma variedade impura, de uraninita. Dela é retirado o urânio, que é constituinte de muitas rochas. É extraído do minério, purificado e concentrado sob a forma de um sal de cor amarela, conhecido como "yellowcake".

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Mas a vida de Marie Curie não foi apenas glórias e premiações, no intervalo desses períodos seu marido morre atropelado por uma carroça de carga, em 1905. Marie agora tem que continuar os trabalhos sem a ajuda de Pierre. Com o advento da Primeira Guerra Mundial em 1914, Marie abandona sua pesquisa com radio e inicia experimentos que resultaram em uma máquina de raios X portátil, para ajudar as tropas na frente de batalha. Em 1916, passou a ter a ajuda da filha Irène que, na época, tinha 21 anos, em aulas de radiologia para o pessoal médico militar.

Após a guerra, Marie funda o Instituto do Rádio em Paris. O rádio estava sendo usado agora em radio terapia. Irène se casa com Fréderic-Juliot e, nas pegadas da mãe, junto com o marido, segue a pesquisa em radioatividade. Em janeiro de 1934, o casal Joliot-Curie descobrem a radiatividade artificial que é uma consequência da radioatividade induzida descoberta por Pierre.

Marie Curie termina seus dias em um sanatório nos Alpes franceses no mesmo ano da descoberta de sua filha e, no dia 4 de julho de 1934, aos 66 anos, morre em decorrência da leucemia provocada pela grande exposição à emissão radioativa.

Existiam diversas frentes de pesquisa sobre a radioatividade, as descobertas de Röntgen, Becquerel do Casal Curie inspirou vários pesquisadores. No estudado da radioatividade natural, verificou se 3 tipos de radiações:

Raios ou partículas positivas α – Ernest Rutherford, em 1903, determina seu desvio através de um campo elétrico e um campo magnético. .

Raios ou partículas β – São mais penetrantes que partículas α. Pierre Curie verifica que são elétrons e, portanto, possuem cargas negativas. Foram estudados também por Giesel, Meyer, Schweidler, Becquerel, Kaufmann e Bragg.

Raios γ – Ernest Rutherford verifica que são radiações eletromagnéticas emitidas pelo núcleo com carga neutra (MARTINS, 2006).

O mundo era apresentado a uma nova forma de energia, que poderia ser usada para o bem ou para o mal. Pierre Currie, ao receber o Premio Nobel em 1903, alertou:

É concebível que o rádio, em mãos criminosas, possa se tornar muito poderoso. Explosivos de grande potência permitiram ao homem realizar algumas obras admiráveis. São, também, um meio de destruição terrível nas mãos dos grandes criminosos que levam as nações à guerra ( apud CAMARGO, 2006, p.53).

Radioatividade e energia nuclear para fins militares

Quando o casal Currie começou a utilizar a pechblenda para produzir o rádio, eles ganharam toneladas do minério de uma mina de prata e urânio na República Tcheca em St.Joachimsthal. Essa pechblenda era considerada sobra de minério. Por isso,

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poderiam levar quanto quisessem. Esta mesma mina, em 1938, foi controlada pelos alemães depois do domínio da Tchecoslováquia feito por Hitler. Em 1939, Einstein escreve ao presidente Roosevelt, informando sobre a possibilidade de se construir uma nova arma de grande potência, que segundo suas palavras:

Durante os últimos quatro meses comprovou-se que é possível, graças aos trabalhos de Joliot na França e de Fermi e Szilard na América do Norte, realizar reações nucleares em cadeia em uma grande massa de urânio, o que poderia libertar grandes quantidades de energia e de novos elementos semelhantes ao rádio. Parece quase certo que isto se poderá conseguir em futuro próximo. Esse novo fenômeno levaria a uma construção de bombas, e tornar-se lógico supor que poderiam se construídas bombas de um novo tipo, de extraordinária potência. Uma única dessas bombas, transportada por uma nave qualquer ou detonada sobre um porto, poderia muito bem destruir todo o porto e, também, parte do território adjacente. Entendo para mim que a Alemanha interrompeu atualmente a venda de urânio das minas da Tchecoslováquia, as quais se apoderou após a ocupação daquele país. Uma tal ação, da parte do referido país, pode estar realcionada com o fato de que o filho do subsecretário de Estado alemão, Von Wiezsacker, foi posto a serviço do Instuto Kaiser Wilhelm, de Berlin, onde se trabalha atualmente em tarefas semelhantes às que se realizam na América do Norte relativamente ao urânio. Sinceramente seu, Albert Einstein (apud GIBELLI,1966, p.219 ).

Em resposta a Einstein, Roosevelt afirma que irá nomear uma comissão para estudar o assunto. Então, na madrugada de 16 de julho de 1945, em uma localidade a cerca de 330 km ao sul de Los Alamos, no deserto do Novo México, os EUA realizam o primeiro teste nuclear da história. Em 6 e 9 de Agosto, foram detonadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki respectivamente, as primeiras e únicas bombas nucleares da história sobre pessoas, até o momento. Pelo menos, imediatamente após o bombardeio, 130 mil pessoas morreram em Hiroshima e 74 mil em Nagasaki.( IIJIMA & ISHIKAWA, 1977,p.14). Cinco anos depois de ter escrito a Roosevelt, Einstein diria: “Se soubesse... jamais deveria ter escrito aquela carta...” (GIBELLI,1966, p.219)

Os efeitos da radioatividade sobre as pessoas foram terríveis. Além da radiação dos raios gama e dos nêutrons emitidos pela bomba existe também o chamado – fallout – que é a chuva radioativa formada pela queda de partículas através da atmosfera. Esta grande exposição à radiatividade provocou nas pessoas uma grande quantidade de lesões, que podem ser classificadas em três fases: os ferimentos da fase inicial (fase aguda de lesões da bomba); os efeitos retardados dessas lesões e suas conseqüências, que incluem efeitos genéticos.( IIJIMA & ISHIKAWA, 1977, p.15)

O mundo conhecia, pela primeira vez, o grande poder destruidor da energia nuclear e os efeitos que a radioatividade provoca no ser humano. Desde 1945 até os dias atuais, foram realizados mais de 2000 testes nucleares em todo mundo. Só os Estados Unidos da América foram responsáveis pela metade deste número. Em 1953, um teste nuclear, que foi transmitido em rede nacional, apelidado de Annie, mostrou os efeitos da bomba atômica em automóveis e manequins. Outro teste feito dentro do território

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americano em março de 1955, espalhou radiação através de uma nuvem radioativa ou

fallout, que atingiu diretamente a cidade de Las Vegas (CARDOSO, 2006). A grande

parte dos países do mundo, nos dias de hoje, tem tratados de não proliferação de armas nucleares e, desde 1998, não temos mais testes.

Atualmente, assistimos a disputas entre alguns países quanto à questão das armas de destruição em massa. A retaliação americana após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 teve base de sustentação que, no Iraque, havia armas com potencial poder de destruição, fato que, após a invasão daquele país, iniciada em 20 de março de 2003, pela aliança formada pelos governos dos Estados Unidos e Reino Unido, confirmou ser falsa. Outros países que insistem em aumentar seu poderio bélico vem do regime da Coréia do Norte e de alguns países como a Índia e o Paquistão.

Os países que possuem armas nucleares tentam impedir os outros países de obtê-las. Mas não adianta tentar impedir que mais países tenham armas nucleares não se efetivar o desarmamento global. O artigo sexto do Tratado de não-proliferação de armas nucleares de 1995 da Agencia Internacional de Energia Atômica, prevê o desarmamento global. Diz o artigo:

Cada Parte deste Tratado compromete-se a entabular, de boa fé, negociações sobre medidas efetivas para a cessação em data próxima da corrida armamentista nuclear e para o desarmamento nuclear, e sobre um Tratado de desarmamento geral e completo, sob estrito e eficaz controle internacional (ONU, 2004).

Acidentes Nucleares

O tempo todo estamos expostos à radiação que vem do cosmos, mas esta radiação é de baixo nível. Acidentes nucleares podem espalhar uma grande quantidade de radiação. E já aconteceram diversos. Quando acontece um acidente nuclear, os níveis de radiação podem chegar a valores mortais. As lesões mais graves a grande exposição atingem diretamente as cadeias de DNA3, provocando rupturas que podem ser

irreparáveis. A célula lesada pode evoluir segundo três vias. Morte imediata; morte diferida, na qual a célula continua funcionando, mas perde a capacidade de se dividir sem erro; e a imortalidade da célula, que seria a primeira etapa para uma canceração.

3DNA ou ADN (ácido desoxirribonucléico) é uma molécula longa, formada pela combinação de grande número

de unidades menores denominadas nucleotídeos. Responsável pela formação do RNA ou ARN (ácido ribonucléico). Na síntese do RNA, o DNA desenrola suas cadeias, e apenas uma delas vai encaixando nucleotídeos de RNA, modelando a cadeia única do RNA. Esta transcreve o código genético do DNA –fenômeno chamado transcrição.

Um dos maiores acidentes da história foi o rompimento do reator de Chernobyl, na antiga União Soviética, que, em 1986, vitimou uma centena de pessoas e contaminou

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milhares de indivíduos, simplesmente por não ser obedecidas normas de segurança durante o trabalho na usina nuclear. No Brasil, tivemos o acidente de Goiana, em 1987, com Césio 1374 que matou inicialmente 4 pessoas e cerca de 60 mortos posteriormente,

com 628 vítimas contaminadas diretamente. A radiação desses acidentes deverá levar muitos anos para ficar em níveis aceitáveis devido ao autovalor de meia-vida5 dos

radioisótopos.(GREENPEACE, 2007)

A descoberta da radioatividade proporcionou um grande avanço tecnológico. Mas o uso da energia nuclear deve ser feito com responsabilidade e competência. Há grandes benefícios, mas também há grandes riscos.

Radioatividade e energia nuclear para fins pacíficos

Mas não apenas catástrofes e acidentes são provocados pela radiação. A cada dia são anunciadas nova aplicações para o uso da radioatividade e da energia nuclear, atualmente ela é usada na medicina, na agricultura, na indústria e na farmacêutica. Os isótopos radioativos, que têm a propriedade de emitir radiação, são utilizados em diversas aplicações. Na medicina nuclear, usa-se, por exemplo, o idodo-131, que emite partículas beta e radiação gama. Este elemento é absorvido pelo corpo humano e especificamente pela glândula tireóide, podendo assim ser detectado, permitindo um diagnostico perfeito da tireóide. Pode-se fazer mapeamento (cintilografia) renal, cerebral, hepato-biliar, pulmonar, ósseo, estudos circulatórios, dentre outros, utilizando o tecnécio-99 como contraste. A radioterapia originada pelo casal Curie tornou-se uma boa arma contra células cancerosas. ( CARDOSO, 2006)

Na agricultura, são utilizado traçadores radioativos para acompanhar o metabolismo de plantas. Usa-se também irradiação de raios gama para aumentar a conservação de alimentos.

Na indústria, radioisótopos são usados para verificar defeitos e fissuras em peças. Se houver qualquer fissura, uma chapa de filme fotográfico será impressionada. Usa-se esta técnica também para verificar se existe alguma “fadiga” na fuselagem de aviões.

4 O césio 137 é um isótopo radioativo com meia-vida de 30 anos, produzido artificialmente pela fissão do

urânio ou plutônio. É altamente perigoso para o ambiente e para os humanos.

5Nos processos radioativos meia-vida ou período de semi-desintegração de um radioisótopo é o tempo

necessário para desintegrar a metade da massa deste isótopo, que pode ocorrer em segundos ou em bilhões de anos, dependendo do grau de instabilidade do radioisótopo.

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O advento da descoberta da radiação e por conseqüência o uso da energia nuclear trouxe diversos para avanços a tecnologia como um todo. Hoje é possível investigar cada parte do corpo humano em detalhes, assim, fazer um diagnóstico tornou-se muito mais fácil do que há um século. Os exames são feitos de forma imediata, trazendo resultados no menor tempo possível. Além disso, com a produção de medicamentos a base de radioisótopos a cura de diversas doenças tornou-se possível. Há também a utilização dos elementos radioativos na indústria, que vai desde produção e conservação de alimentos até o uso na engenharia de aviões.

Mas apesar de todos os benefícios, verificou-se que a radiação emitida pelos radioisótopos não era totalmente benéfica para os órgãos do corpo humano, principalmente se este tiver uma exposição excessiva a esta energia. Marie Curie, a principal pesquisadora de radioatividade, sofreu as conseqüências de grande exposição, contraindo leucemia, ao descobrir os elementos Rádio e Polônio. Alguns anos mais tarde, ao se construir e detonar a primeira bomba nuclear no Japão, os malefícios a exposição radioativa ficaram ainda mais evidentes. Gerações de japoneses sofreram e irão sofrer com alterações genéticas que alteraram a estrutura do DNA de suas células. Nos desastres de Chernobyl em 1986 e Goiana em 1987, ainda era desconhecida uma forma eficaz de amenizar os efeitos imediatos de uma grande exposição radioativa. Portanto, é preciso saber usar, armazenar e descartar o material radioativo. Os países que produzem radioisótopos devem ter agências controladoras para evitar que acidentes ocorram novamente. A CNEN, Comissão Nacional de Energia Nuclear, fundada em 1956, é uma autarquia federal ligada diretamente ao Ministério de Ciência e Tecnologia, e tem como missão garantir o uso seguro e pacífico da energia nuclear no Brasil.

Referências bibliográficas

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