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A Nova História Cultural, suas noções e possibilidades
Andreza S. Cruz Maynard1
Muito tem se falado em uma “Nova História Cultural”, isso pode nos levar a pensar que só ultimamente a historicização da cultura se tornou uma realidade. No entanto as origens da História Cultural são apontadas a partir de publicações ainda no século XVIII. Tais obras, assim como os famosos livros de Jacob Burckhardt (A cultura
do Renascimento na Itália, de 1860) e Johan Huizinga (O Outono da Idade Média, de
1919) concebiam a Cultura apenas na sua versão erudita. Os objetos da História Cultural Clássica giravam em tono das Artes, da Literatura e da Ciência.
O objetivo desse texto é justamente apontar algumas características da Nova História Cultural a partir da virada antropológica e também apresentar sucintamente os principais conceitos elaborados por Roger Chartier, o historiador cultural mais lido e comentado recentemente.
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que não existem fenômenos exclusivamente da História, pois eles também pertencem à física e à medicina, por exemplo. De maneira semelhante, o mundo não pode ser compreendido apenas a partir da análise do social, do político, do econômico, ou mesmo do cultural. A história é múltipla, ainda que haja a possibilidade de examiná-la de perspectivas específicas. Assim, ao tomarmos a História Cultural, estamos apenas escolhendo uma forma de ver e analisar o mundo.
Nos anos 1960 a História Social parecia dar conta de tudo e hoje é a História Cultural que está em ascendência. Essa mudança, apontada por muitos como simples modismo acadêmico está relacionada a três fatores. David Cannadine explica que o crescimento deve-se ao fato desse campo ter recebido melhor as ideias da antropologia, por tomar para si a responsabilidade de estudar uma área do passado muito ampla, e também graças ao crescente interesse pela compreensão ao invés da explicação.
As diferenças entre o modelo antropológico da história cultural corrente e seus antecessores clássicos e marxistas são apontadas por Peter Burke. Ele acredita que o primeiro grande diferencial deve-se ao abandono do tradicional contraste entre
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Doutoranda em História pela UNESP/Bolsista CAPES/Integrante do GET/UFS/CNPq. E-mail: [email protected]
2 sociedades com cultura e sem cultura, ao mesmo tempo em que se passou a adotar a
noção de “culturas”, no plural.
Em segundo lugar Burke destaca que a cultura definida por Bronislaw Malinowiski enquanto “‘artefatos herdados, bens, processos técnicos, ideias, hábitos e valores’”, tem sido substituído pela definição de cultura de Clifford Geertz como “‘as dimensões simbólicas da ação social’”2
. Essa extensão do sentido permite uma abrangência mais ampla de atividades.
A terceira consideração de Burke diz respeito à ideia de tradição, que é essencial à antiga História Cultural, à qual se juntou a reprodução cultural. Dessa maneira se sugere que a tradição não é reproduzida automaticamente, ao mesmo tempo em que destaca a importância em observar a recepção.
O quarto e último ponto destacado por Burke diz repeito ao alheamento das suposições sobre a relação entre cultura e sociedade implícita na crítica marxista da história cultural clássica. Em outras palavras, trata-se de uma reação contrária à ideia de ‘superestrutura’, uma vez que muitos acreditam que a cultura consegue resistir às pressões sociais e que ela molda a realidade social.
A cultura passa a ser examinada como parte integrante do modo de produção e não mero reflexo da infra-estrutura econômica. A “classe” passa a ser vista como uma formação social e cultural, além do fator econômico. Afinal, como nos lembra o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins é o código cultural que rege a utilidade dos bens. A economia não é apenas um comportamento prático, mas sim uma organização social de acordo com um projeto cultural de pessoas e bens. Assim o valor de uso não pode ser reduzido ao nível do natural das necessidades e carências.
A viragem cultural enfatiza como imprescindível à interação humana as condições da comunicação, e ainda os modos pelos quais indivíduos e grupos se exprimem e o porquê de se exprimirem dessa maneira particular. A História Cultural recente não se contenta em perguntar o que realmente aconteceu, mas antes o que aconteceu sob o ponto de vista do grupo ou indivíduo que está sendo analisado.
O historiador cultural busca o simbólico e como os significados são criados. Para Chartier a História Cultural “tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada,
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BURKE, Peter. Variedades de História Cultural. Trad. Alda Porto. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 246.
3 dada a ler”3
. Roger Chartier e Michel de Certeau relacionam a História Cultural à História Política. Eles avançam contra a concepção monolítica de cultura analisando modalidades do Agir e do Pensar.
Enquanto Michel de Certeau tenta decifrar normas culturais através do cotidiano, Roger Chartier interessa-se pelas transferências entre a cultura oral e a cultura escrita, mostrando que indivíduos letrados podem participar da cultura letrada através de práticas culturais diversas. Ou pode ocorrer o contrário, conteúdos veiculados na oralidade podem passar à forma escrita.
Entretanto, a contribuição incisiva de Chartier à História Cultural recente está na elaboração das noções complementares de Prática e Representações. Segundo Chartier, a cultura pode ser examinada no âmbito produzido pela relação interativa entre esses dois polos. Dessa maneira os objetos culturais e sujeitos produtores e receptores da cultura circulariam em torno desses dois polos: modos de fazer e modos de ver.
A terceira noção fundamental de Chartier é a de Apropriação Cultural. Com esta expressão, o teórico francês se refere a formas diferenciadas de interpretação e apreensão do real. A noção de apropriação é o elo que encaminha a interação entre poder e cultura ou entre a História Cultural e a História Política. Nas palavras do próprio Chartier “as representações se inserem em um campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e dominação”4
. Há lutas de representação e elas geram várias apropriações possíveis de representações de acordo com interesses sociais, políticos e necessidades.
Longe do modelo de Huizinga, que via a tarefa da História Cultural Clássica como a análise das Artes, Música e ideias leves, o modelo de História Cultural de Chartier é atravessado pela noção de poder, o que faz dele de certa forma um modelo de História Política. No entanto é preciso esclarecer que me refiro a uma História Política que compreende desde o poder estatal, até os micropoderes da vida cotidiana, como as massas anônimas e indivíduos comuns.
Através da construção de sentido e da tarefa de dar significação ao mundo é que ocorrem as lutas de representação de que falou Chartier. Estas (lutas de representação) por sua vez seriam responsáveis pela hierarquização da estrutura social produzindo um
3 CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuel
Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. p. 17.
4 CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuel
4 sentido e diferencialmente construindo uma significação. Repito aqui que este é um
modelo teórico, e, portanto uma das vias possíveis de análise da realidade.
Por fim, é preciso lembrar que os objetos da História cultural são inúmeros. Além dos antigos objetos de estudos historiográficos da cultural como as Artes, Literatura e Ciência, agora foram integrados os objetos da cultura material e o que vem da cultura popular, o que é produzido na vida cotidiana. Assim também são considerados objetos culturais as visões de mundo, os sistemas de valores, os sistemas normativos, os modos de vida de vários grupos sociais, os modos de pensar e sentir individual e coletivamente.
CONCLUSÃO
As reflexões trazidas pela Nova História Cultural, ou História Cultural de vertente francesa, permitem repensar as instâncias da realidade social. As tarefas de organização e preservação da memória creditada aos museus têm agora diante de si um horizonte de possibilidades e a responsabilidade de atentar para as diversas formações que permitem ao ser humano atualizar suas impressões, ou informações passadas.
Sabemos que o passado não sobrevive em sua totalidade, mas ele constitui uma parte significativa de nossa identidade. Assim espera-se que a prática museológica contemporânea faça escolhas que reflitam a complexidade dos indivíduos e de suas relações.
Aproveitando as discussões da História Cultural acerca das diferentes práticas culturais, espera-se que os museólogos pensem além das instâncias oficiais da produção cultural, como as instituições, técnicas e realizações, e que se possa brotar em larga escala uma prática museológica atenta a essa noção mais abrangente de cultura como os usos e costumes que caracterizam uma sociedade.
Assim, que os objetos culturais expostos nos museus possam dar conta que também dos modos como os homens falam e calam, comem e bebem, sentem, andam, conversam, morrem e adoecem, seus modos de pensar e sentir, individual e coletivamente.
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Referências Bibliográficas
BURKE, Peter. Variedades de História Cultural. Trad. Alda Porto. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuel Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.