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Eixo Temático – História e a Conquista do Espaço – sala nº 24 (ARTIGO)

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XII ERIC – (ISSN 1808-6004)

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XII ERIC – (ISSN 1808-6004)

ROLÂNDIA, CIDADE REFUGIO.

(MARCOS VINÍCIUS QUINI) (GRADUANDO EM HISTÓRIA PELA FAFIMAN)

(ORIENTADOR: PROF ME HEITOR HENRIQUE) [email protected]

RESUMO: neste trabalho será realizada uma pesquisa com o tema: ROLÂNDIA, CIDADE REFUGIO. Serão abordados assuntos como: imigração Judaico-Alemã para Rolândia em meados de 1930; como os Judeus e Alemães vieram para cá; quem foram os primeiros colonizadores e quais eram as suas intenções nesse novo mundo. Também nomes muito importantes para a história da cidade como: Erick Koch-Weser, Johanes Schauff e Oswald Nixdorf. Mais profundamente será trabalhado, como foi fundada a cidade, quem foi seus primeiros pioneiros, como foi a vida dos judeus em solo brasileiro, a perseguição do governo e a violência verbal que sofreram, também seus primeiros estabelecimentos, suas primeiras casas e o famoso hotel Rolândia. Este trabalho foi realizado a partir de uma pesquisa bibliográfica, onde serão citados autores importantes que já estudaram sobre este tema, também fatos e acontecimentos que ocorreram ao entorno da imigração judaico-alemã para o Brasil. Palavras-chaves: imigração, judeus, Rolândia.

ROLÂNDIA.

A cidade de Rolândia fica situada ao norte do estado do paraná. O município faz parte da região metropolitana da cidade de Londrina. A cidade recebeu esse nome em homenagem a um grande nome da Idade Média, o famoso Roland, sobrinho e parceiro de guerrilhas de Carlos Magno, que tinha como lema “Liberdade e Justiça”.

Em homenagem a essa grande figura que deu origem ao nome da cidade, há uma enorme estátua de Roland segurando seu escudo, a estátua fica localizada na praça central da cidade, a estatua foi um presente da cidade de Bremen na Alemanha. Os primeiros moradores alemães que se fixaram na Gleba Roland, junto

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com a direção da Companhia de Terras, batizaram o município com o nome de Rolândia, significando liberdade ou a busca de um lugar onde os alemães pudessem reconstruir suas vidas, longe das perseguições políticas, religiosas e raciais. Rolândia tinha na cafeicultura a sua principal fonte de riquezas, tanto que ficou conhecida como a “Rainha do café”. Nessa época, comerciantes da cidade de Bremen, na Alemanha, visitaram a cidade para conhecer de perto os cafezais, cujo produto era comercializado por eles. Impressionados com as lavouras, e a cidade, esse grupo decidiu, com a ajuda de políticos de Bremen, presentear a cidade com uma cópia da Estátua de Roland, estreitando os laços entre as duas cidades.

Imagem 1, estatua de Roland doada pela cidade de Bremen na década de 1950.

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Esta imagem faz parte do acervo de José Carlos Farina. Imagem Disponível em: <http://historiaderolandia.blogspot.com.br/2013/04/rolandia-inauguracao-da-estatua-de.html>. Acesso em: 17 ago. 2016

Fundada no dia 29 de julho de 1934, Rolândia se tornou um refúgio para uma nova vida, pois muitos alemães buscaram sair do país e alguns até fugiram do país, pois o estado de uma provável guerra os deixaram receosos e aqueles que conseguiram sair da Alemanha fizeram isso o mais rápido possível. Mas quem tinha mais pressa de fugir e deixar tudo para traz, eram os judeus, pois até 1938 era mais fácil sua saída do país.

No entanto a futura cidade seria fundada como uma colônia alemã no Brasil para tentar se resolver o problema de filhos de alguns lavradores, porém com tudo o que houve, a guerra aqui expressada (nazismo, antissemitismo, crise entre outros fatores), seus colonizadores seriam então de maioria fugitivos, e aqueles que buscavam uma vida longe do caos da guerra. A cidade de Rolândia foi fundada pela “Companhia de Terras Norte do Paraná”, subsidiada da “Paraná Plantation Ltda”, cujos donos eram ingleses. No dia 29 de junho de 1934, iniciou-se a construção da primeira casa no perímetro urbano, o Hotel Rolândia. Daí para frente as construções se sucederam e uma próspera vila emergiu no local da mata virgem. Nascia Rolândia.

A fama da fertilidade da “Terra Roxa” se espalhou por todos os rincões do país e o Norte do Paraná ficou sendo conhecido como a Canaã Brasileira. Logo, estrangeiros, mineiros, paulistas, baianos e filhos de imigrantes alemães radicados em Santa Catarina e Rio Grande do Sul estavam povoando e construindo Rolândia. Os imigrantes estrangeiros foram direcionados a se estabelecerem aqui, ou por alguma Sociedade que cuidava da imigração, ou por orientação da própria Companhia de Terras.

Dos imigrantes estrangeiros que colaboraram no desenvolvimento de Rolândia, destacam-se japoneses, alemães, italianos, portugueses, espanhóis, sírio-libaneses, húngaros, suíços, poloneses, tchecos, austríacos, entre outros.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi assolada por uma grande crise econômica. Alguns políticos alemães, interessados em solucionar os

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problemas, principalmente dos filhos dos pequenos lavradores, criaram Companhias com objetivo de incentivar a imigração. Entre estas se destacou a “Companhia Para Estudos Econômicos Além-Mar”. Esta Companhia teve como 1º Presidente o Ministro Alemão Hans Luther, e alguns anos após, Erich Koch-Weser assumiu a presidência. Neste período muitas Companhias Colonizadoras Inglesas ofereciam terras aos interessados em imigração, entre elas, a “Paraná Plantation Ltda.” que possuía duas filiais no Brasil, A “Companhia de Terras Norte do Paraná” e a “Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná”.

Ao assumir a presidência da Companhia para Estudos Econômicos Além-Mar, Erich Koch-Weser convidou Oswald Nixdorf para estudar junto à “Paraná Plantation”, um local ideal para dar início a uma colonização alemã no Brasil. (1931). Escolhido o local, em 1932, Nixdorf é contratado pela Companhia Alemã, com a finalidade de seguir para o Brasil e aqui orientar os imigrantes alemães. No início, os imigrantes que se dirigiram ao Brasil eram basicamente constituídos de filhos de agricultores ou pessoas que queriam tentar a sorte em outro país.

Contudo, a partir das perseguições políticas, religiosas e raciais, desencadeadas pelo Nazismo, e o antissemitismo empregado por Hitler na Alemanha, o tipo de imigrante mudou. Todo aquele que, de uma maneira ou de outra, temia a política repressiva do Nazismo procurou sair da Alemanha. Políticos, religiosos e alemães-judeus (estes quase todos com cursos universitários) vão engrossar o número daqueles que procuraram vir para Rolândia. Em 1934, inicia-se na Alemanha uma restrição à imigração. Até então, o valor que cada imigrante poderia levar consigo era de dez mil marcos. Com a restrição, este valor caiu para dez marcos. A Companhia de Terras logo encontrou a solução, a da PERMUTA.

Como a Companhia de Terras precisava de material para levar a Estrada de Ferro até Rolândia e a Alemanha possuía este material (trilhos, parafusos, etc.), ficou combinado que o dinheiro do imigrante ficaria na própria Alemanha. O imigrante compraria o material ferroviário que a Companhia de Terras precisava e em troca recebia títulos que equivaliam a terras em Rolândia. Graças a esta forma de permuta, a Companhia de Terras conseguiu o prolongamento da Estrada de Ferro até Rolândia. Em janeiro de 1935 aqui chegava pela primeira vez a famosa Maria Fumaça.

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A contribuição dos imigrantes estrangeiros e dos migrantes brasileiros foi de fundamental importância no desenvolvimento da cidade. Os primeiros anos foram de muitas dificuldades, mas a vontade de vencer e de sobreviver fez do pioneiro um forte, verdadeiro herói anônimo, que além de tudo teve que suportar as agruras decorrentes da Segunda Guerra Mundial.

Rolândia, a exemplo de outras cidades brasileiras, cujos nomes eram de origem germânica, teve que mudar seu nome (assim como Cambé). Em 30 de dezembro de 1943, ao mesmo tempo em que era criado o município de Rolândia, o nome foi trocado para Caviúna. Somente em 1947 é que retornou o antigo nome, Rolândia.

No começo, os cafezais é que geravam a riqueza; hoje, a diversificação da agricultura se faz presente com destaque na soja, milho, trigo, cana de açúcar e laranja. Rolândia conta ainda com uma empresa frigorifica, uma cooperativa agropecuária, uma usina de álcool, um setor pecuarista e parque industrial forte.

COMPANHIA DE TERRAS NORTE DO PARANÁ E OS PRIMEIROS COLONIZADORES.

A companhia de terras norte do Paraná é derivada da empresa inglesa Paraná Plantation, que era composta por um grupo de capitalistas cujo um dos líderes era Lord Lovat. A Paraná Plantation ganhou em 1924 o direito de parcelamento e venda de terras da região que vai de Umuarama até Jataizinho, em troca a empresa deveria levar a diante a estrada de ferro que passaria por ali alguns anos depois.

Em uma viagem ao Paraná em dezembro de 1923, lord Lovat junto a Mesquita Filho, visitou a região norte do estado do Paraná e ficou muito surpreendido com a região, incentivado por Mesquita filho e impressionado com tudo o que havia visto por aqui, Lovat volta a Inglaterra a busca de investimento. Chegando na Inglaterra ele se encontra com seu amigo de confiança SR. Arthur Thomas, e o propõe um novo investimento.

SR. Arthur Thomas, era membro da missão financeira Britânica, ao ser designado ao cargo de diretor lançou o plano de colonização e realizou o

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levantamento topográfico das águas e dos espigões da região. Nascida como Companhia de Terras Norte do Paraná, a Paraná Plantation adquiriu 515.000 alqueires de terra, pouco mais de 13 000 quilômetros. Terra fertilíssima e em junho de 1929 assume o controle acionário da Companhia Ferroviária São Paulo–Paraná, ponto de partida para o reconhecimento e repartição de todo o acervo de terras da empresa e sua integração à economia do Estado.

Ao se instalar na região, a companhia de terras norte do paraná adquire duas glebas, a gleba Roland e a Gleba ferroviária. Os ingleses ao chegarem na região interessados em investir na agricultura e pecuária e principalmente no algodão, produto que estava em alta na Europa devido a evolução do ramo têxtil. A Segunda Guerra Mundial obrigou a Inglaterra a reduzir suas imensas despesas. Entre a relação de empresas colocadas à venda, constava a Companhia de Terras Norte do Paraná. A falta de sementes sadias no mercado nacional, e a baixa nos preços do algodão, também influenciaram a Paraná Plantation e investir em uma missão imobiliária.

PRIMEIROS IMIGRANTES: JOHANES SCHAUFF

Imagem 2:

Data de nascimento: 19/12/1902 Data de falecimento: 19/05/1990

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Foto de Johannes Schauff. Disponível em: http://arqshoah.com.br/justo/4/. Acesso em 19 de ago 2016.

Johannes Schauff foi o deputado mais jovem do Reichstag alemão, de 1930 a 1933, quando perdeu todos os seus cargos oficiais, Schauff foi destituído por Hitler em 1933 por ter sido contra o partido nazista nas eleições que houveram em 1932. Anteriormente esteve envolvido em uma espécie de colonização interna na Alemanha. Sua experiência na área fez com que fosse nomeado membro da Sociedade para Estudos Econômicos no Além-Mar, cujo objetivo era investigar na América Latina locais adequados à colonização alemã. O governo alemão chegou à conclusão de que deveria encaminhar, sistematicamente, grupos de colonos para uma mesma localidade onde, em conjunto, adquirissem terras. Com esse objetivo Schauff viajou para a Argentina e Brasil. Em Londres foi assinado um contrato entre a companhia alemã e a inglesa Paraná Plantation.

Schauff foi incumbido pelos ingleses de executar as transações, ele era responsável por vender os lotes de propriedade da Cia Terras Norte do Paraná, tendo viajado nove vezes para o Brasil entre 1934 e 1939. Foi intermediário nos negócios com a Ferrostaal, uma das maiores empresas fabricantes de material ferroviário da época.

Johannes Schauff atuou em Berlim, onde era encarregado de divulgar a oferta de terras no Brasil. Foi por seu intermédio que Ricardo Loeb-Caldenhof (classificado pelos nazistas como ¼ judeu) adquiriu terras (Fazenda Belmonte) localizadas na periferia de Rolândia. Esses trâmites ficaram conhecidos como "negócios triangulares", era possível comprar terras no Paraná através de uma conta vinculada com a Cia Paraná Plantations. Assim, o dinheiro depositado pelos judeus para o pagamento dos lotes não saia da Alemanha. Por este câmbio o comprador recebia um título que lhe garantia um determinado lote de terra. Esta foi uma das raras oportunidades que os judeus tiveram para transferir capital da Alemanha para o Brasil. Aqueles que já possuíam os lotes e um visto de entrada conseguiam salvar-se dos campos de concentração e extermínio.

Junto ao acervo de Johannes Schauff existe uma lista de nomes que totaliza cerca de 59 famílias (145 pessoas) que teriam se fixado em Rolândia entre

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1933-1939. Johannes Schauff teve que fugir para a Itália em 1936 por ter seu nome relacionado em uma lista de pessoas a serem eliminadas pelos nazistas. Schauff era perseguido por duas razões, por questões políticas e por ajudar judeus a fugirem da Alemanha. Refugiou-se no Vaticano para não ser enviado a um campo de concentração. Ali serviu de intermediário numa negociação entre o Papa Pio XII, seu amigo pessoal, e o governo brasileiro que mantinha em vigor circulares secretas contra essa imigração. A iniciativa partiu de dois importantes líderes do catolicismo alemão, Faulhaber, arcebispo de Munique e Berning, bispo de Osnabrück, que apelaram ao Papa em 31 de março de 1939. Essa negociação implicava na liberação de 3.000 vistos destinados apenas aos católicos não-arianos da Alemanha. Devido às dificuldades impostas pelo Brasil apenas 959 vistos foram concedidos por Hildenbando Accioly, embaixador em Roma. Os vistos restantes ficaram "congelados" por Cyro de Freitas Valle e Joaquim A. de Souza Ribeiro, diplomatas brasileiros em Berlim e Hamburgo, que se negaram a concedê-los.

Em Rolândia vivem até hoje, várias famílias que ali se refugiaram nos anos 30 e que estiverem envolvidos com esta "empreitada" liderada por Schauff.

PRIMEIROS IMIGRANTES: OSWALD NIXDORF

Herr Oswald Nixdorf nasceu em Stettin, Alemanha, em 1902. Graduou-se em engenharia agrônoma em seu país. Antes de vir para o Brasil, Nixdorf viveu por 9 anos na ilha de Sumatra, onde se especializou em agricultura tropical, a ilha na época era controlada pelos holandeses. O convite para Nixdorf vir para o Brasil, partiu de Erich Koch-Weser, deputado, ministro do Interior do governo alemão e presidente da Sociedade de Estudos Econômicos do Ultramar, uma empresa de colonização que se tornou parceira da Paraná Plantations do Lord Lovat. Oswald Nixdorf em 1931 faz sua primeira visita ao Brasil junto à Koch-Weser, quando recebe a proposta de se juntar a ele para comandar e guiar os novos moradores que chagariam ao local. Nixdorf chega a região em 1932, na região onde hoje é Cambé. Ao chegar aqui ele constrói o primeiro sitio da gleba cujo leva seu nome a Granja Nixdorf. Nixdorf tinha a incumbência de fazer os preparativos para a chegada dos primeiros colonos alemães na gleba onde hoje é Rolândia. Em sua Propriedade ele

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tinha algumas casas de recepção feitas de madeira onde os colonizadores se estalavam até terminar de construir sua própria moradia em sua propriedade.

Oswald Nixdorf era um homem muito respeitado por toda a colônia por seu vasto conhecimento e experiência tanto com a terra quanto com os imigrantes. Ele os ensinava tudo sobre lavouras, criação de amimais, colheita, etc, pois os alemães que chagaram em Rolândia não tinham nenhuma intimidade com a terra, pois eram todos magistrados, doutores, advogados, etc.

Nixdorf era assumido nazista, ele trocava cartas e recebia documentos nazistas em sua propriedade, em 1942 com a entrada do Brasil na guerra, o governo começou a caçar e prender os adeptos nazistas que aqui viviam. Nixdorf foi preso em 1942 acusado de nazismo, mas sempre negou tudo. Ele ficou preso cerca de três meses na delegacia de Londrina, a sela onde Nixdorf estava não havia banheiro e ele só se alimentava a cada dois dias, ao sair da delegacia de Londrina para Curitiba onde ele ficaria por mais três anos, ele foi humilhado e leva a atravessar a cidade a pé pelo centro da cidade de Londrina, ele já estava três meses sem tomar um banho, com a barba muito grande e muito debilitado, ele estava irreconhecível.

Com o fim da guerra todos os que forram presos acusados de nazismo como Nixdorf foram liberados, em 1945 ele volta para Rolândia onde com sua família ele passa o resto de sua vida.

HOTEL ROLÂNDIA

O famoso Hotel Rolândia, ficou muito conhecido em toda a região por abrigar muitas pessoas importantes. O hotel marca a data da fundação da cidade como primeira obra na região urbana, inaugurado no dia 1º de outubro de 1934 ficou eternizado por marcar a fundação da cidade como primeira construção, iniciada em 29 de julho de 1934.

Seu fundador o russo Eugenio Victor Larionoff, adquiriu com investimentos próprios no dia 20 de junho de 1934, três datas cujo seria o local da construção do hotel. A construção demorou três meses para se completar. Segundo: Paulo César Boni e Cássia Maria Popolin, “O que era para ser apenas um patrimônio, em

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pouco tempo tornou-se uma vila próspera (2009. p,2)”. Autores que estudaram a fundação do hotel, e o início da cidade.

Imagem 3: Um grupo de alemães, acompanhados por um padre, em visita ao hotel dia 11 de novembro de 1934 Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Rolândia.

Imagem disponível em <ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/7o-encontro-2009-1/Fotografia%20e%20memoria.pdf> acesso em 19 de ago 2016.

REFERENCIAS:

Wikipédia, Estátua de Roland. Disponível em:

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A1tua_de_Roland> Acesso em: 19 de ago de 2016.

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Prefeitura de Rolândia, História de Rolândia. Disponível em < http://www.rolandia.pr.gov.br/> Acesso em: 19 de ago de 2016.

Wikipédia, Rolândia. Disponível em: <

https://pt.wikipedia.org/wiki/Rol%C3%A2ndia> Acesso em: 19 de ago de 2016.

FARINA, josé carlos, HISTÓRIA DE ROLÂNDIA. Disponível em: < http://historiaderolandia.blogspot.com.br/> Acesso em: 19 de ago de 2016.

Arqshoa, SCHAUFF, Johannes. Disponível em: < http://arqshoah.com.br/justo/4/> Acesso em: 19 de ago de 2016.

DOC Londrina, Briga de cachorro grande. Disponível em: < http://doclondrina.blogspot.com.br/2012/02/briga-de-cachorro-grande.html> Acesso em: 21 de ago de 2016.

PASCAL, Luciano. Nixdorf. Disponível em:<

https://www.youtube.com/watch?v=rd-V2Mt6bEs> Acesso em: 21 de ago de 2016.

FARINA, José Carlos. Imagem Disponível em:

<http://historiaderolandia.blogspot.com.br/2013/04/rolandia-inauguracao-da-estatua-de.html>. Acesso em: 17 ago. 2016

SCHAUFF, Johannes. Imagem Disponível em: http://arqshoah.com.br/justo/4/. Acesso em 19 de ago 2016.

JULIAN, José. Imagem disponível em <ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/7o-encontro-2009-1/Fotografia%20e%20memoria.pdf> acesso em 19 de ago 2016.

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XII ERIC – (ISSN 1808-6004)

MOÇA PARA CASAR: A MORAL CATÓLICA NO JORNAL DAS MOÇAS (1915)

Lucineide Demori Santos PPG/DHI/LERR/UEM [email protected] Orientadora: Solange Ramos de Andrade PPG/DHI/LERR/UEM [email protected] Comunicação oral

Resumo: Nesta comunicação analiso o discurso proferido pelo Jornal das Moças,

em específico no ano de 1915. Os primeiros anos do século XX marcam a passagem do Brasil arcaico para o Moderno, desse modo, a agitação entre os meios pensantes do país direcionava-se à construção da identidade nacional. Ao passo que nesse período a Igreja Católica no Brasil era ultramontana. Contrária aos avanços da Modernidade, a Igreja ultramontana investe na formação das moças católicas com o objetivo de formar famílias católicas e consequentemente cristianizar a sociedade. Para a Igreja, a mulher que em sua mocidade leva vida digna de donzela é apta a formar uma familia santificada. Constata-se que no Jornal das Moças há preocupação com as famílias, e com a formação dessa nação brasileira. Desse modo, importa saber se o periódico laico mantinha identidade com a orientação da Igreja Católica Ultramontana, se havia em suas sessões um conteúdo moralizante, e de que maneira influenciava as práticas sociais. A partir da análise das fontes e do referencial teórico, teço considerações a respeito da mentalidade da época e das influencias da religiosidade católica sobre a sociedade, o que enquadra o texto em História das Religiões.

Palavras-chave: Familia; Sociedade; Periódico. Introdução

Como parte da pesquisa em andamento1, este trabalho expressa os primeiros passos dados no rumo de identificar os discursos que permearam a sociedade

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“Modos de Mulher”: O Catolicismo no Jornal das Moças (1914-1922). Pesquisa em desenvolvimento junto ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual de Maringá, para obtenção do título de Mestre.

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brasileira na passagem do século XIX para o século XX. Para isso, elenco dois tipos de fontes históricas: o Jornal das Moças2, e a Carta Encíclica: ARCANUM DIVINAE SAPIENTIAE DEL SUMO PONTÍFICE LEÓN XIII SOBRE LA FAMILIA.3 Como contrapelo ao artigo destacado do Jornal das Moças incluo a obra aprovada pelo Imprimatur: Maria fallando ao Coração da Donzella4. A obra aprovada pelo imprimatur corrobora o pensamento da Igreja Católica e aponta o ideal de mulher pensado pela instituição como base de um projeto maior: a formação cristã das famílias como meio de cristianizar a sociedade.

Minha abordagem é o ano 1915, segundo ano de publicações do Jornal das Moças, que circulou na sociedade carioca entre 1914 e 1961. Em meio as vinte e quatro publicações de 1915 destaco um exemplar5. Deste, a sessão Á Guisa de Chronica, que a partir do segundo exemplar aparece somente como Chronica. Nos três primeiros exemplares de 1915 a sessão é assinada por “Sylvio”; nas demais não consta assinatura.

Entrementes, Chronica mantêm permanência em todos os exemplares, com raríssimas exceções, o que não acontece com outras sessões. No ano de 1914, do primeiro ao nono exemplar, Chronica esteve assinada por “Helius Flavio”, exceto o sétimo exemplar que no lugar de Chronica encontra-se outro título e autoria: Conversando Com as Moças, por “Renato”. Já no número dez, a assinatura aparece como “Helus Flavio”, voltando ao “Helius Flavio” do décimo primeiro ao décimo quinto.

Essa é uma característica do periódico. Nas sessões A Arte de Ser Elegante, por exemplo, encontramos a assinatura de “Yvonne”, “Ivone”, ou “Ivonne”. Em alguns exemplares, A Arte de Ser Elegante não vem assinada. Esse detalhe chama

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Cf. Jornal das Moças – 1914-1961- Periódicos brasileiros, Rio de Janeiro (RJ) http://bndigital.bn.br/acervo-digital/jornal-mocas/111031 - visitado em 03/08/2016.

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Documento extraído de: http://www.vatican.va/offices/papal_docs_list_po.html - visitado em 03/08/2016 4

BAYLE, Abbade A. Maria fallando ao Coração da Donzella. Porto: Livraria Catholica Portuense, 1917. 5

Jornal das Moças – 15 de janeiro de 1915 –Ano II - nº 17.

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a atenção, não sendo possível definir se a diferença denota um erro do datilógrafo, ou se revela que os nomes na verdade são pseudônimos, podendo ser usados, inclusive, por outros escritores, daí o descuido. Pseudônimos eram comuns nas assinaturas de artigos dos Jornais e Revistas nesse período. Do mesmo modo, no caso de Yvonne, não ser possível definir se se trata de uma mulher, ou de um homem, tendo em vista que o palavreado, por vezes, se aproxima muito mais do pensamento masculino do que do feminino. O uso de pseudônimos femininos por autores masculinos, e vice versa, era também prática corriqueira entre os séculos XIX e inícios do século XX.

O número décimo sexto (16º) adentra 1915, e Chronica vem assinada por Sylvio. Vindo logo abaixo do “Expediente”, constituía-se na chamada de apresentação do periódico. Portanto, o reconhecimento das características é importante na medida em que revela detalhes da composição da fonte. Esses detalhes somados ao conteúdo revelam representações que recompõem tanto o ideário do periódico quanto o da época. (MARTINS, 2001)

Reconhecer as representações de época, identificar o teor dos discursos presentes no periódico, são os objetivos desse estudo. Parto da tese de que o Jornal das Moças apresentava um discurso coerente com a proposta que a Igreja Católica mantinha para a sociedade brasileira, mesmo não tendo nenhum vínculo oficial com a Igreja. Para entender quais eram os propósitos da Igreja, estudo os documentos papais, as obras aprovadas pelo imprimatur. A reflexão se sustenta por meio das discussões oportunizadas pelos historiadores que estão a pensar a modernização da sociedade brasileira, o papel da imprensa nesse contexto, e como as práticas sociais são formalizadas por meio dos discursos.

Desenvolvimento

O Jornal das Moças veio a público em 21 de maio de 1914, e encerrou suas publicações em 1961. A Revista Ilustrada Quinzenal foi fundada por Agostinho de Menezes, produzida pela Editora Jornal das Môças Ltda., situada, a princípio, na

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Avenida Rio Branco, 180, Oficinas. A responsabilidade editorial ficou a cargo de F.A. Pereira.6

Desde o editorial de abertura7, o periódico firmava postura de informar sobre os acontecimentos sociais, trazer as tendências da moda e as boas maneiras civilizacionais, mas também de contribuir com a formação das moças de família. Afirmando a postura de contribuir com a educação das moças como princípio base para a edificação da nação, o periódico objetivava suprir uma lacuna existente nas revistas destinadas as mulheres, acentuando que tais revistas ocupavam-se com “frivolidades”.

Para Ana Luíza Martins, esse informe sobre “suprir uma lacuna” era recorrente nas revistas na virada do século. (MARTINS,2001, p. 16) Entretanto, o Jornal das Moças, em meio às propagandas de lojas, remédios, consultórios e afins, trata ao longo de suas publicações de assuntos pautados pelo teor sócio-político e cultural. Verifica-se que, mesmo abordando assuntos grosso modo considerados frívolos – como modismos – as sessões são precisamente marcadas pelo caráter moralizante, por vezes explicito, por outras implícito no texto.

Sylvio, em 15 de janeiro de 1915, escreve em Chronica sobre o “sexo frágil”, e assim inicia o texto:

POBRE sexo frágil! Tristes fragilidades da natureza humana. Em meio da luta tremenda em que se debatem os que vivem nas grandes cidades, nessas colmeias de milhares de almas, cada qual vivendo a seu modo, e agindo na proporção de seus recursos materiaes e subordinados á impetuosa corrente de suas tendências moraes, ah! que de vezes a mulher, entregue aos seus próprios destinos, sem um guia que lhe norteie o rumo e sem um coração que lhe comprehenda os anseios da

6 Informações coletadas no site da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Disponível em: http://hemerotecadigital.bn.br/jornal-das-mo%C3%A7/111031. Acesso em 20/05/2016.

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alma, quanta loucura não commette e a quanta desdita não se expõe! (JORNAL, 1915, p. 5)

O autor está a descrever a história de uma mulher que aos dezoito anos foi abandonada pelo marido, tendo a sorte a “entregue apenas a esse forte e enérgico sentimento de mãe, que tanto ampara a mulher [..]” (JORNAL, 1915, p. 5)

A felicidade de ter uma família, a única felicidade de uma mulher, escapou-lhe, restando apenas o sacrifício de bem criar o fruto do seu amor:

[...] não foi dado sem dúvida fruir a doce ventura da familia, o grato aconchego do lar, onde podesse compartir seu amor com outra alma irmã da sua e proseguir, irmanadas por esse venturoso enlace que a própria natureza creou para a felicidade humana. Para essa infeliz, desherdada do lar, passaram-se onze annos, só tendo por lenitivo dessa saudosa ausência do esposo que lhe pareceu, em seus sonhos de amor, ser o venturoso complemento dessa existência imaginada tão bella, o casto e amantissimo affecto de filha. (JORNAL, 1915, p. 5)

Na história de Sylvio, onze anos a mulher se dedicou a amar e criar a filha. Porém, a mãe chega à idade das paixões e cede à loucura dos desejos:

Mal, porém, o gênio infernal dos sentidos a arrastou, do canteiro verdejante onde floria a casta flor do affecto filial para o despenhadeiro sem fundo das paixões sem freio, presentiu ser certa a sua desdita. (JORNAL,1915, p. 5) Do desatino, uma outra concepção. No entanto, diferente da primeira que foi fruto do casamento, essa veio marcada pelo erro, e selou o trágico destino da mulher:

De sua fraqueza, do seu abandono ao novo amor que a assediara, conquistando-a, ia surgir o fructo sinistro que a

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iria perder, a baloiçar-se sempre da arvore venenosa do amor prohibido. (JORNAL,1915, p. 5)

Sylvio finda a história contando que a mulher, arrependida, perdida, tentou livrar-se da consequência do erro e encontrou a morte:

Quando acordou dessa verdadeira lethargia do amor que cede, poude calcular então o precipício tremendo em que se havia despenhado.

Procurou fugir desse abysmo, mas a sorte cruel, ao envez do meio salvador para a sahida, com honra, impelliu-a ainda mais na queda, dando-lhe a morte nas arestas tormentosas de seu desatino. (JORNAL, 1915, p. 5)

Nessa trágica crônica o erro da mãe arrasou os sonhos da filha. Sylvio, com pesar, conclui a história arremetendo-a ao contexto da existência humana: “Pobre sexo frágil! Tristes fragilidades da natureza humana!”

Atendo-nos a perscrutar o conteúdo moral imbuído nessa história, façamos uma leitura do texto dentro do contexto.

A narrativa de Sylvio tem um forte apelo moral. Toda moça que viesse a ler sentir-se-ia atraída pela trágica história que envolve duas personagens: a mulher e a filha. Os demais personagens, o marido que as abandonou, o amante e o feto concebido no pecado, são sombras. O apelo se faz em relação à mulher, também mãe, que de vítima passa a algoz de seu próprio destino e do destino da filha, por causa das paixões mundanas. Isto está explícito. E explícito está que o casamento e a família são condições exemplares, criadas pela própria natureza, que asseguram a felicidade da mulher. O apelo familiar estende-se à concepção, tendo em vista que a criança gerada no casamento é benção, enquanto a outra, gerada na fraqueza, é “fruto sinistro.” (JORNAL, 2015, p. 5)

O objetivo do texto é levar as moças a compreenderem que o casamento existe para elevar a condição da mulher. Uma vez desfeito sem que a mulher tenha dolo, resta sacrificar-se com amor na criação dos filhos, e nada mais. Lançar-se novamente à aventura amorosa é cavar o próprio precipício.

(19)

O que está implícito no texto é a moral cristã católica. A Igreja Católica no Brasil durante esse período era ultramontana. Manoel (2004)8 explica que o ultramontanismo significou uma reação da Igreja à Modernidade. Grosso modo, o período chamado de ultramontano inicia-se com o papa Pio VII (1800-1823) e tem seu declínio com Pio XII (1939-1958), caracterizando-se como um período marcado por práticas conservadoras e um crescente projeto centralizador dos atos da igreja em Roma, além de decretar a infalibilidade do papa. (MANOEL, 2004,p.45).

Riolando Azzi (1991)9 expõe que a partir do Iluminismo ocorreu um confronto de ideias no interior da Igreja, sendo que dois modelos estiveram em conflito. Um acompanhava o projeto liberal de sociedade e, portanto, uma abertura no pensamento do clero em relação à Igreja e sua intervenção na sociedade. O outro se posicionava contra os avanços da Modernidade e a separação entre Igreja e Estado, em acordo com a visão ultramontana de Igreja e sociedade. Azzi confirma que para a realidade brasileira, no período que marca a passagem do Império para República, o ultramontanismo prevaleceu: “Já em fins desse período, porém, começou a se firmar no Brasil o catolicismo ultramontano, com papel cada vez mais expressivo na história religiosa a partir dos meados do século XIX.” (AZZI, 1991, p. 226)

Admoestando sobre a missão da Igreja, dada por Cristo, de conduzir a humanidade sob a vontade soberana de Deus, o papa Leon XIII (1878-1903)10 na Carta Encíclica de 10 de Fevereiro de 1880 aborda a questão sobre a família e a constituição sacramental do matrimônio. Leon XIII ensina que Deus criou o homem e, dele e para ele, a mulher. Sendo o casamento corrompido pelos gentios (pagãos) foi restaurado por Cristo, e elevado à condição de sacramento tornou os cônjuges carne da mesma carne, sendo, portanto, indissolúvel, exceto em caso de viuvez.

8

MANOEL, Ivan Aparecido. O pêndulo da História. Tempo e eternidade no pensamento Católico (1800-1960). Maringá: Eduem, 2004.

9

AZZI, Riolando. A Crise da Cristandade e o Projeto Liberal. São Paulo: Edições Paulinas, 1991. 10

Sobre o Papa León XIII e sua postura ultramontanista: Cf.: GALLEGO, Juan María Laboa. História de los Papas. Entre el reino de Dios y las passiones terrenales. Madrid: Editora La Esfera de Los Libros, 2005, p.430 – 439.

(20)

Para o papa, a sacralidade do matrimônio exerce a função social de criar e educar filhos que sirvam a Deus:

Pues, em primer lugar, se asignó a la sociedade conyugal uma finalidad mas noble y mas excelsa que antes, porque se determino que era misión suya no sólo la propagación del género humano, sino también la de engendrar la prole de la Iglesia, ciudadanos de los santos y domésticos de Dios. Esto es, la procreación y educación del pueblo para el culto y religión del verdadeiro Dios y de Cristo Nuestro Salvador. (ENCÍCLICA, 1880, p.5)

O objeto de análise do papa são as investidas contra a família advindas das filosofias modernas, numa clara interpretação de que há intenção por parte dos movimentos modernos em pôr a Igreja em derrocada, e assim, levar a humanidade à destruição. Leão XIII defende o caráter religioso do casamento, ataca o Naturalismo, adverte sobre os males do divórcio, da concepção fora do casamento, admoesta que uma vez separados os cônjuges não podem contrair outra relação. Indica como remédios para curar a humanidade das “doenças modernas” (filosofias mundanas), o fortalecimento e a unidade do poder de Estado e do poder Eclesiástico em defesa da família.

Estas enseñanzas y preceptos acerca del matrimônio Cristiano, que por medio de esta carta hemos estimado oportuno tratar com vosotros, venerables Hermanos, podeis ver facilmente que interesan no menos para la conservación de la comunidad civil que para la salvación eterna de los hombres. (ENCÍCLICA, 1880, p.16)

Para o ultramontanismo, a família edificada sob os alicerces católicos engendraria uma sociedade venturosa aos olhos de Deus. Manoel (2008)11 entende que preocupada com os rumos da humanidade, a Igreja desenvolve estratégias de

11

MANOEL, Ivan aparecido. Igreja e Educação Feminina (1859-1919): Uma Face do Conservadorismo. Maringá: Eduem, 2008.

(21)

combate aos valores que a vida Moderna apresentou, oferecendo um projeto de edificação social segundo o qual o papel da mulher é elevado à condição de núcleo da família cristã. Sendo dócil ao catolicismo, a mulher exerce a missão de converter o marido e educar os filhos, e assim edificar a sociedade, conforme a teoria dos círculos concêntricos: “da mãe cristã para os filhos cristãos, dos filhos cristãos para as famílias cristãs, e das famílias cristãs para a sociedade cristã”. (MANOEL, 2008, p. 58)

Considerando a importância da mulher para o projeto de edificação da sociedade, a Igreja passa a investir na formação das moças. Nádia Maria Guariza (2003)12 enfatiza:

A partir dessa constatação, a Igreja Católica adotou medidas para atingir as mulheres, como a educação e as associações leigas. O cuidado em formar a esposa e a mãe zeladora dos preceitos católicos no lar era perceptível na educação das moças, com inúmeras congregações de religiosas se espalhando pelo mundo para instalar escolas, tanto internatos quanto externato. (GUARIZA, 2003, p.03)

Importava a Igreja moralizar a sociedade. A moral dos inícios do século XX apregoava que a mulher considerada apta a formar uma família, a zelar pelo bom andamento do lar, seria aquela que em sua mocidade foi preparada para esse fim, levando uma vida honesta de donzela, cultivando a modéstia e a discrição como valores na composição de uma conduta virtuosa (BAYLE, 1917).

Num trabalho que reúne alocuções da Virgem Maria às moças, o Abade A. Bayle (1917) apresenta conselhos as donzelas, com o aval de terem sido proferidos pela própria Virgem Santíssima:

A Ignorância, minha filha, é a principal origem dos erros que comettem as jovens christãs. Não meditam

12

GUARIZA, N. M. As Guardiãs do lar: a valorização materna no discurso ultramontano. 148 p. Dissertação (Mestrado em História) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, UFPR, Curitiba, 2003.

(22)

sufficientemente nas coisas de Deus e da sua salvação, e d’ahi provêm que, enganadas pelas illusões do mundo, vivem a elle tão presas como se para elle e não para o ceo fossem creadas. Não se apercebem do princípio onde as conduz a corrupção do século; correm loucamente para elle seduzidas por um sonho vão de felicidade. Ah! Minha querida filha, tudo se perde por causa da leviandade! (BAYLE, 1917, p. 5)

A Igreja ultramontana porta um projeto para a cristianização da sociedade e um dos pilares é a formação da moça para casar, isto é, constituir familia. O acolhimento pela sociedade brasileira ao projeto ultramontano atende as necessidades de uma burguesia em ascensão capitalista, porém formada por oligarquias cafeeiras aferradas ao tradicionalismo. (Manoel, 2008)

O Moderno e o arcaico conjugam-se na paradoxal realidade brasileira dos inicios da República, e a intelectualidade brasileira confronta projetos para a construção da identidade nacional. (SCHWARCZ, 2012, vl. 03) É em meio ao contexto de formação da República que eclode a grande imprensa no Brasil. (SALIBA, 2012, p.246)

Nelson Werneck Sodré (2011)13 esclarece que na passagem do século é que a imprensa passa a ser uma empresa profissional de porte, atendendo as demandas do capitalismo no Brasil:

A passagem do século, assim, assinala, no Brasil, a transição da pequena à grande empresa. Os pequenos jornais, de estrutura simples, as folhas tipógrafas, cedem lugar as empresas jornalísticas, com estrutura específica, dotadas de equipamento gráfico necessário ao exercício de sua função. (SODRÉ, 2011, p. 405)

13

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: INTERCOM; Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011.

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Sodré (2011) oportuniza pensar a imprensa a partir da demanda econômica, mas também da necessidade de difusão de ideais políticos dos grupos de poder. É nesse contexto que os jornais e revistas primam por públicos alvo, como as mulheres, tendo em vista que a opinião dessa gente da nova nação republicana precisa ser formada. A própria identidade nacional precisa ser formada.

Dessa forma, a passagem da nação à República é um momento em que questões morais, preceitos civilizacionais, são pensados pelas instituições jurídicas, politicas, religiosa. Não obstante, o texto de Sylvio vir ao encontro das apregoações de Leão XIII. Ambos tratam de um mesmo assunto, embora os discursos sejam distintos. Sylvio não menciona o catolicismo, porém reproduz os preceitos católicos em relação à mulher, à família e à natureza humana. Tampouco o Jornal das Moças oficializou qualquer vínculo com a Igreja Católica. No entanto, ao longo de suas publicações o catolicismo se faz presente por imagens e textos, e as evocações morais de cunho religioso são permanentes.

Dito isto, é relevante pensar a luz de Michel de Certeau (1998)14 como os discursos proferidos por um meio de comunicação, sem vínculo oficial com a instituição, reproduz o discurso institucional, que é estratégico. Essa prática leva a sociedade a identificar o discurso como próprio, único e verdadeiro modo de pensar o comportamento humano, interiorizando, reproduzindo, e recriando condutas que caracterizam uma época, uma sociedade.

Em grau menor, o mesmo processo se encontra no uso que os meios “populares” fazem das culturas difundidas pelas “elites” produtoras de linguagem. Os conhecimentos e as simbólicas impostos são o objeto de manipulações pelos praticantes que não seus fabricantes. A linguagem produzida por uma categoria social dispõe do poder de estender suas conquistas às vastas regiões do seu meio ambiente, “desertos” onde parece não haver nada de tão

14

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Artes de Fazer. Tradução Ephaim Ferreira Alves. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

(24)

articulado, mas se vê prisioneira nas armadilhas de sua assimilação por um maquis de procedimentos que suas próprias vitórias fazem invisível ao ocupante. (CERTEAU, 1998, p.95)

Sylvio está a escrever para as moças da sociedade carioca. É possível traçar um perfil para o público leitor do Jornal das Moças, por meio das fotografias enviadas, entre as quais batizados católicos, primeira comunhão, colégios católicos, eventos beneficentes. Assim como as propagandas, envios de poesias e correios elegantes, notas sociais. As mulheres que interagiam com o Jornal das Moças eram de famílias católicas, moças de classe média à alta, filhas de comerciantes, fazendeiros do café, de políticos, militares, celebridades.

Contanto, não se quer afirmar que o periódico não primasse por alcançar o amplo público. Ao contrário, as revistas foram pensadas para que as ideias fossem disseminadas por toda a sociedade. Mesmo por que, como pensa Sodré (2011) e refirma Saliba (2012), a ascensão da imprensa profissional no Brasil na passagem do século XIX para o XX, atendendo a um nicho de mercado, objetivava tanto o lucro quanto a difusão de ideais de construção da identidade nacional. E a Igreja Católica ultramontana mantinha sua posição, seja do alto dos altares, seja investindo na educação, ou por meios de comunicação, como no caso do Jornal da Moças que enseja discursos normatizadores da moral cristã católica.

Considerações finais

Neste trabalho faço o exercício de identificar o discurso do Jornal das Moças (1915), ao passo que procuro uma aproximação com o documento papal (1880) e com a obra publicada pelo Abade Bayle (1917), em conformidade com o selo imprimatur. Dessa maneira, identifico a mentalidade que permeava a sociedade brasileira nos primeiros anos da República: uma mentalidade influenciada pelo catolicismo ultramontano, contrário ao modo de vida imposto pela Modernidade.

Implica considerar que a Igreja Católica aponta um projeto para construção da identidade nacional em que pese a figura feminina como núcleo desse sistema. A

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mulher é elevada à condição de missionária no núcleo familiar visando uma sociedade cristianizada. E periódicos, como o Jornal das Moças, exercem uma função importante para a educação das moças que preparadas em sua juventude, levando vida digna de donzela, estarão aptas ao casamento. O ideal seria preparar as moças para casar, pois o casamento cristão torna-se a base de uma sociedade cristã. Por fim, cabe lembrar que a moralização da sociedade nesses moldes atendia uma visão dos grupos que exerciam o poder econômico e político, a burguesia cafeeira progressista do ponto de vista econômico, porém conservadora culturalmente.

Referências Bibliográficas

AZZI, Riolando. A Crise da Cristandade e o Projeto Liberal. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.

BAYLE, Abbade A. Maria fallando ao Coração da Donzella. Porto: Livraria Catholica Portuense, 1917.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Artes de Fazer. Tradução Ephaim Ferreira Alves. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

GUARIZA, N. M. As Guardiãs do lar: a valorização materna no discurso ultramontano. 148 p. Dissertação (Mestrado em História) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, UFPR, Curitiba, 2003.

Jornal das Moças - 1914 a 1919 - PR_SPR_00735_111031

Cód.: TRB00210.0072 Data: 24/10/2012 Label: 111031_01

Local: Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=111031_01

LEÓN XIII. Carta Encíclica. ARCANUM DIVINAE SAPIENTIAE. Disponível em: http://www.vatican.va/offices/papal_docs_list_po.html - visitado em 03/08/2016

MANOEL, Ivan aparecido. Igreja e Educação Feminina (1859-1919): Uma Face do Conservadorismo. Maringá: Eduem, 2008.

MANOEL, Ivan Aparecido. O pêndulo da História. Tempo e eternidade no pensamento Católico (1800-1960). Maringá: Eduem, 2004.

(26)

MARTINS, Ana Luíza. Revistas em Revista: Imprensa e Práticas Culturais em Tempos de República (1980-1922). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: FAPESP: Impresso Oficial, 2001.

SALIBA, Elias Thomé. Cultura / As Apostas na República. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. História do Brasil Nação: 1808-2010. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, vl.3, pp. 239-294.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. A Abertura Para O Mundo. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz.

História do Brasil Nação: 1808-2010. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, vl.3.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: INTERCOM; Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011.

(27)

XII ERIC – (ISSN 1808-6004)

FONTES HISTÓRICAS E PERIÓDICOS: CONSIDERAÇÕES SOBRE A PESQUISA CIENTÍFICA

Lucineide Demori Santos PPG/DHI/LERR/UEM [email protected] Orientadora: Solange Ramos de Andrade PPG/DHI/LERR/UEM [email protected] Comunicação Oral

Resumo: Resumo: Este texto traz considerações sobre o uso dos periódicos

enquanto fontes para a execução da pesquisa científica em História. Tendo o objetivo de, primeiramente, entender a relevância da fonte para a pesquisa, a reflexão busca entender a importância dos periódicos no desenvolvimento da escrita da História. Isto porque, principalmente a partir do segundo meado do século XX, no Brasil, grande parte dos historiadores elencam esse gênero de leitura de alcance de massas por fonte de pesquisa. Analisando as intervenções de consagrados intelectuais, entre os quais, renomados historiadores brasileiros, o texto aponta a temática sobre o avanço da Imprensa no quadro de desenvolvimento capitalista, e modernização da sociedade brasileira. Além do quê, veicula a ampliação do conceito de documentos-fontes-históricas com as inovações historiográficas advindas da Escola de Annales, repercutidas na historiografia brasileira, e consolidadas a partir das décadas de 1970 e 1980. As inovações metodológicas da Escola de Annales, como a interdisciplinaridade, a problematização da História e a ampliação do conceito de fontes, oportunizaram novas perspectivas para a escrita da História, como a História das Religiões, dos Costumes, da Vida Privada, conformando o que no Brasil convencionou chamar de História Cultural.

Palavras-chave: Periódicos; Fontes; Historiografia. Introdução

Uma das dificuldades apresentadas pelos iniciantes em pesquisa científica, em específico na área de Ciências Humanas, é entender a estrutura de um trabalho científico. Para contribuir com esses primeiros e decisivos passos, intelectuais

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dedicam-se a produzir orientações metodológicas embasadas por teorias. Entre os quais, destaco a obra de Humberto Eco (1977): Como se faz uma tese em Ciências Humanas.15 Nesta obra, conforme o título, Eco indica, passo-a-passo, como desenvolver um trabalho reconhecidamente científico. Outra obra elucidativa é a de José D’Assunção Barros (2005)16

: O Projeto de Pesquisa em História: da escolha do tema ao quadro teórico. Elucidativa porque, assim como Eco, Barros instrui sobre o tema, acrescentando reflexões que envolvem o desenvolvimento das pesquisas no contexto da realidade brasileira.

Detalhando dificuldades, uma questão primordial refere-se as fontes. Fonte pode ser considerada nuclear na execução de uma pesquisa, pois os demais elementos giram em torno da escolha da fonte: a temática, a problematização, os recursos, as conclusões. Nesse rumo, me propus pensar sobre a relevância da fonte no projeto e execução da pesquisa. Porém, faço de uma forma direcionada, me decido investigar o papel dos periódicos enquanto fontes históricas; mesmo porque, trabalho em minhas pesquisas com esse tipo de fonte.17

Perscrutando a bibliografia sobre o assunto, encontrei no aporte teórico discussões a respeito de fonte que levam a entender características das Escolas Históricas, entre as quais, fulguram a Escola Metódica dita Positivista, os Marxismos e a Escola de Annales. Sem aprofundar em tais características, neste trabalho faço apontamentos que indicam a ampliação a respeito de documentos-fontes-históricas promovida pela Escola de Annales. Essa ampliação sobre o conceito de fontes levou a historiografia a considerar os Periódicos, e esse contexto alcançou a realidade acadêmica no Brasil por volta da década de 1970, quando a História Cultural é absorvida por grande parte da intelectualidade brasileira.

15 A edição utilizada neste trabalho é a 13ª, de 2007. Conforme consta em Referências Bibliográficas.

16 Utilizo a 8ª edição, de 2012. Conforme consta em Referências Bibliográficas.

17 “Modos de Mulher”: O Catolicismo no Jornal das Moças (1914-1922). Projeto aprovado para o Programa de Mestrado da Universidade Estadual de Maringá, em andamento.

“O Dia do Trabalhador”: O Primeiro de Maio no Jornal Folha do Norte do Paraná (1963-1970). Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para o Curso de Especialização em História das Revoluções e Movimentos Sociais- EAD/UEM, em andamento.

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Outra questão que desponta por meio das abordagens dos historiadores é a importância da imprensa no desenvolvimento da sociedade brasileira. No processo de modernização dado pelo advento da Proclamação da República, estabelece-se o profissionalismo da imprensa, lançando sobre a sociedade maior produções do gênero de informação e formação, destinados a públicos específicos, porém amplamente. Considerando que este pequeno trabalho possa contribuir como um início para que a temática seja aprofundada, compartilho os resultados, dentro dos limites de espaço determinado.

Desenvolvimento

No que diz respeito ao trabalho de pesquisa, para que seja reconhecidamente científico, a princípio, são necessários quatro requisitos básicos. O primeiro que haja um tema. O segundo que as fontes a que se recorre sejam acessíveis. O terceiro que as fontes estejam ao alcance do conhecimento cultural do pesquisador. E quarto, que haja um quadro metodológico ao alcance da experiência do pesquisador. (ECO, 2007, p. 33)

Esses requisitos apontados por Humberto Eco (2007) expressam com objetividade a prática da execução da pesquisa. A escolha do tema é indissociável da fonte, sendo que a expectativa de desenvolver um tema parte do reconhecimento de um tipo de documento enquanto fonte histórica. A acessibilidade da fonte implica em que estejam disponíveis, que haja acesso, e numa linguagem reconhecida pelo pesquisador. Manusear a fonte, explorar os recursos que ela oferece, extrair dela o objeto da pesquisa, e construir uma narrativa, requer metodologia que lhe seja aplicável.

Diante disso, é recorrente pensar que fonte é o elemento nuclear da pesquisa, tendo em vista que toda a problemática gira em torno do “deixar falar as fontes”. Entretanto, as fontes para serem compreendidas precisam ser questionadas, tarefa esta que cabe ao historiador. A fonte é, por si só, portadora de um conteúdo que torna-se a matéria-prima do historiador, que ao problematizá-la reconstrói o fato histórico, ou mentalidade de época, estudados no recorte:

A fonte histórica é aquilo que coloca o historiador diretamente em contato com o seu problema. Ela é

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precisamente o material através do qual o historiador examina ou analisa uma sociedade humana no tempo. Uma fonte pode preencher uma destas duas funções: ou ela é o meio de acesso àqueles fatos históricos que o historiador deverá reconstruir e interpretar (fonte histórica = fonte de informações sobre o passado), ou ela mesma... é o próprio fato histórico. [...] Neste sentido, a fonte pode ser vista como "testemunho" de uma época e como "discurso" de uma época. (BARROS, 2005, pp.63-64) Ao escolher uma fonte, o pesquisador precisa ter o conhecimento sobre sua representação e sua representatividade, isto é, em que condições a fonte foi produzida, a quem e a qual vertente ela traduz, e qual o grau de inserção no universo a ser pesquisado. Por exemplo, no que se relaciona a jornais, revistas, periódicos, há uma certa confusão quando tais documentos são relevados à condição de “testemunhos” de uma época, ou como “discursos” de uma época.

Barros (2005) elenca revistas especializadas e, ou, acadêmicas como fontes ou respaldo de fontes para a pesquisa científica. Sua avaliação é inquestionável, porém, ao se tratar de revistas destinadas ao amplo público, do tipo magazines, periódicos ou jornais de circulação local, regional ou nacional, é preciso um outro olhar.

Ana Luíza Martins (2001) esclarece que as revistas são um gênero de impresso valorizado por ““documentar” o passado através de registros múltiplos: do textual ao iconográfico, do extratextual – reclame ou propaganda – à segmentação, do perfil de seus proprietários àqueles de seus consumidores”. (MARTINS, 2001, p. 21) Porém, a historiadora admoesta que é preciso tomar cuidado com isso, pois pode ser um falso espelho da realidade.

É preciso considerar que as revistas foram feitas para atender as expectativas de um mercado, ou seja, foram feitas para gerar lucro, e para atender a interesses de grupos. Portanto, é preciso conhecer as condições de produção, de negociação, de mecenato, as revoluções técnicas a que assistia, a natureza dos capitais envolvidos, e compreender sua aplicabilidade para a segmentação de um público e

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reprodução de um sistema. (MARTINS, 2001, pp.21-25) Por exemplo, ao decidir por um periódico a fim de conhecer a realidade de época do Brasil, é preciso conhecer a contextualidade de sua produção, pois muitas vezes, o ideário montado pelo periódico pode estar “longe de retratar o cotidiano sofrido de um País analfabeto, atrasado e arcaico.” (MARTINS,2001, p. 24)

No entanto, essa realidade não descaracteriza os periódicos de sua condição documental:

Insista-se que o caráter fragmentado e periódico da revista é seu traço recorrente, imutável nas variações geográficas e temporais onde o gênero floresceu, resultando sempre em publicação datada, por isso mesmo de forte conteúdo documental. Quanto aos seus objetivos, variam ao longo do tempo, condicionados às circunstâncias históricas de gestação e circulação, cabendo apreendê-los, reafirmamos, nos contextos próprios de sua existência, ao seu tempo cultural, revelador da variedade de seus propósitos. (MARTINS, 2001, p. 46)

Tania Regina de Luca (2008) entende que por meio dos periódicos os pesquisadores identificam códigos de comportamentos de época, representações e idealizações sociais, além do que o estudo sobre os mesmos revela as tensões sociopolíticas, econômicas e ideológicas que envolvem o processo de existência das revistas.

Tais ponderações são imprescindíveis para entender o alcance dos periódicos enquanto fontes de pesquisa científica. No início do século XX, o periódico inaugurou para a sociedade brasileira um novo gênero de leitura. (MARTINS, 2001, pp. 16-17) Fato que influenciou a opção dos historiadores pelos periódicos como fontes históricas, por volta da década de 1970, quando à historiografia brasileira firmam-se os pressupostos da historiografia francesa, de matriz cultural, vinculada à Escola de Annales. (LUCA, 2008, pp.111-153)

(32)

Cabe considerar duas temáticas que intercalam-se para entender a relação entre o desenvolvimento do gênero de leitura do tipo “periódicos” na sociedade brasileira, e a consideração dos historiadores pelos periódicos enquanto fontes documentais para a pesquisa historiográfica. A primeira temática ocupa-se com a modernização da sociedade brasileira, e consequentemente, com o desencadear das publicações que viessem atingir o público em massa. A segunda ocupa-se com a trajetória da historiografia, que na primeira metade do século XX é inovada pela Escola de Annales.

Nicolau Sevcenko (1998) oportuniza pensar o quadro de inserção do Brasil ao mundo Moderno, esclarecendo que a Modernidade chega ao Brasil na passagem do século XIX para o século XX. A Proclamação da República (1889) significou o culminar de um processo em que forças mescladas pelos ideais liberais no plano econômico e o positivismo ideológico, impulsionadas pelo desenvolvimento técnico científico, implementaram a modernização da sociedade brasileira, em resposta ao quadro de universalização do sistema capitalista:

É já o “mundo moderno” no qual vivemos. Embora estejamos convivendo hoje com um momento ainda mais intensamente marcado pela saturação tecnológica, podemos perceber que é dentro dessa configuração histórica “moderna”, definida a partir da passagem do século, que encontramos nossa identidade. (SEVCENKO,1998, p. 11)

Como mostra Lilia Moritz Schwarcz (2012), no processo de modernização da sociedade brasileira na passagem do século XIX para o XX “o grande modelo civilizatório seria a França, com seus circuitos literários, cafés, teatros e uma sociabilidade urbana almejada em outras sociedades”. (SCHWARCZ, 2012, v.3, p.19) Isto para as cidades centrais, como Rio de Janeiro e São Paulo, sendo que as regiões periféricas, os “interiores”, permaneciam em atraso.

A esse processo de modernização, a urbanização, as modificações nas relações de produção e nos modos de trabalho, a constituição de outras instituições jurídicas, legais e estatais, somam-se as contradições e mazelas criadas no seio da

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sociedade. E também aprimoram-se a violência, e os meios de coação e coerção social, no sentido de “acomodar” a sociedade nos moldes de um sistema implementado por setores de mentalidade arcaica, provindos das oligarquias cafeeiras. (SCHWARCZ, 2012, V.3, pp. 35-83)

É também em meio ao processo de modernização que as tendências do pensamento intelectual brasileiro encontram formas de expressão, entre as quais, os jornais e revistas despontam como veículos para a disseminação dos projetos de edificação da sociedade brasileira, como informa Elias Thomé Saliba:

Neste contexto, só apareceu algo inédito no campo da difusão da cultura: o novo jornalismo, que proporcionou os meios para o alargamento do exíguo campo cultural na República. Nas duas últimas décadas do século XIX ocorreu um incremento da grande imprensa e, depois, já no início do século XX, um novo impulso, sobretudo quando os periódicos começaram a tomar um aspecto mais jornalístico e “menos mundano”. (SALIBA, 2012, p.246)

Num trabalho de fôlego, Nelson Werneck Sodré (2011) expõe a “História da Imprensa no Brasil”18

. De metodologia marxista, porém peculiar a Sodré, a história da imprensa no Brasil é analisada pelo viés das relações que mantém com a história do desenvolvimento capitalista e formação da nacionalidade brasileira dentro do contexto. A obra apresenta a trajetória da Imprensa no Brasil, desde o período colonial, caracterizando o período em que a República é proclamada e os anos iniciais de consolidação como o momento do estabelecimento da Grande Imprensa no Brasil:

Nos fins do século XIX estava se tornando evidente, assim, a mudança na imprensa brasileira: a imprensa artesanal estava sendo substituída pela imprensa

18

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: INTERCOM; Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011.

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industrial. A imprensa brasileira aproximava-se, pouco a pouco, dos padrões e das características peculiares a uma sociedade burguesa. (SODRÉ, 2011, p. 384)

Não obstante, a profissionalização dos escritores de periódicos, os jornalistas, acompanhar a eclosão da imprensa no momento de consolidação do moderno na sociedade republicana, expõe outra realidade: os leitores eram poucos, a população em sua maioria analfabeta, e quando liam, liam o que custasse mais barato, pois o baixo poder aquisitivo não permitia o luxo do livro. Esse novo gênero, o periódico cumpria o papel de atender as necessidades de uma população leitora pobre e de pouca formação educacional, com romances, receitas, indicações de curas domésticas, curiosidades que a inseriam no mundo social. Por outro lado, atendia também um público mais refinado, com revistas destinadas àqueles que davam-se à reflexão política, ou senhoras e senhoritas interessadas em modas, boas maneiras, e frivolidades. Meios de expressões culturais, veículos de disseminação de tendências, catalisadores de um dos nichos de mercado, os periódicos foram indicadores, nas primeiras décadas do século XX, da sociabilidade em construção no país. (SALIBA, 2012, pp. 239-294)

A obra de Sodré (2011), assim como a obra de Martins (2001), oportunizam pensar as relações que envolvem a produção de um periódico como um processo de intensa mobilização social, desde a produção do papel ao projeto de edificação de uma nação. Sendo que a história vista por esse viés englobaria a “História dos, nos, e por meio dos periódicos”, conforme o sugestivo título do texto de Tania Regina de Luca (2008)19. Cada etapa do processo, podendo ser destacada e analisada, revela uma infinidade de representações constituídas pelos sujeitos históricos na dinâmica em curso. Como define o historiador: representações são “entidades que vão construindo as próprias divisões do mundo social”. (CHARTIER, 2015, p.7)

Sendo, portanto, essas produções representações construídas pelos sujeitos históricos, por si só, são fontes. Porém, o entendimento ampliado sobre o conceito

19

LUCA, Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanesi. (Org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2008, pp. 111-153.

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de fontes remonta à inovação historiográfica francesa da Escola de Annales. Em 1929, quando Lucien Febvre e Marc Bloch fundam a Revista “Annales d’histoire économique et sociale” o mundo está a vivenciar transformações na ordem política, econômica, cultural, social, de modo que a História tradicional positivista, assim como a História doutrinária de militância marxista, não mais atendia aos anseios dos historiadores franceses. A interdisciplinaridade e a problematização da História embasaram nova metodologia (DOSSE, 1992), ampliando o conceito de documento enquanto fonte histórica: todo vestígio deixado pelos homens passam a ser documentos, e significam fonte a partir da qual “o historiador fabrica seu mel” (FEBVRE, 1989, p. 249)

O movimento historiográfico iniciado por Febvre e Bloch caracterizou-se pelo combate contra o positivismo, essencialmente, mas também contra a visão escatológica de História dos marxismos. Febvre e Bloch não desmerecem o papel que a Escola Metódica exerceu nos ensinamentos sobre documentos, sua importância enquanto registro histórico. Ao contrário, ampliam o reconhecimento quanto ao trato com os documentos, demonstrando que são fontes históricas não somente os documentos oficiais, como queria a Escola Metódica, mas todo tipo de produção que traga em seu bojo a representação de uma época, de um fato histórico ou mesmo de um indivíduo. O historiador é aquele que sabe interpretar essas representações, não se distanciando do acontecimento, nem tampouco embutindo nele quaisquer discursos doutrinadores, mas sim, buscando apreender a utensilagem mental de uma época.

O historiador, para Marc Bloch e Lucien Febvre, não pode se contentar em escrever sob o ditado dos documentos, deve questioná-los, inseri-los em uma problemática. Contra a história-relato de Langlois e Seignobos, preconizam a história-problema, matriz teórica da conceituação futura da história estrutural. O recorte histórico não se articula mais segundo os períodos clássicos, mas segundo os problemas postos em evidência e dos quais se busca a solução. A afirmação de

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uma história problema é o elemento essencial do paradigma dos Annales". (DOSSE, 1992, p. 76)

Uma história-problema se faz com interdisciplinaridade e fontes, basicamente, por serem as fontes portadoras das representações constituídas pelos agentes históricos. O papel do historiador é o de leitor das fontes, o que implica considerar sua capacidade de entendê-las no contexto em que se inserem, interpretar as relações intersticiais por elas reveladas, e construir uma narrativa não anacrônica, não doutrinária, mas uma narrativa que aproxime o leitor de um tempo vivido, de um contexto experimentado por homens de outras épocas, ou de outras sociedades.

História das Mentalidades, História Cultural... Os conceitos que se estabelecem a respeito da escrita da História a partir da Escola de Annales influenciam a historiografia brasileira, a partir da década de 1970, de tal modo, revolucionando a produção acadêmica. A ampliação do conceito de documento e fonte histórica leva os historiadores brasileiros a identificar nos periódicos autenticas fontes históricas. Mas foi uma descoberta gradual. Influenciada pela metodologia positivista, para a qual a subjetividade e a parcialidade das mensagens contidas nos jornais e revistas limitavam o conhecimento do ocorrido, a historiografia brasileira não reconheceu de imediato a potencialidade dos periódicos:

Na década de 1970, ainda era relativamente pequeno o número de trabalhos que se valia de jornais e revistas como fonte para o conhecimento da História do Brasil. A introdução e difusão da imprensa no país e o itinerário de jornais e jornalistas já contava com bibliografia significativa, além de amiudarem-se as edições fac-símiles e os catálogos dando conta de diários e revistas que haviam circulado em diferentes partes do território nacional. Reconhecia-se, portanto, a importância de tais impressos e não era nova a preocupação de se escrever a História da imprensa, mas relutava-se em mobilizá-los para a escrita da História por meio da imprensa. (LUCA, 2008, p.111)

Referências

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