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Relação entre a favela e o lixo: uma ação transformadora.

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE NOVE DE JULHO - UNINOVE PROGRAMA PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO - PPGA. RELAÇÃO ENTRE A FAVELA E O LIXO: UMA AÇÃO TRANSFORMADORA.. LUZIA MARIA ESGOLMIN. SÃO PAULO 2010.

(2) LUZIA MARIA ESGOLMIN. RELAÇÃO ENTRE A FAVELA E O LIXO: UMA AÇÃO TRANSFORMADORA.. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Nove de Julho - Uninove, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Administração. Orientadora: Profa. Claudia Rosa Acevedo, Dra.. SÃO PAULO 2010.

(3) FICHA CATALOGRAFICA. Esgolmin, Luzia Maria Relação entre a favela e o lixo: uma ação transformadora / Luzia Maria Esgolmin. / São Paulo: 2010. 191 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Nove de Julho – Uninove, São Paulo, 2010. Orientador(a): Profa. Dra. Claudia Rosa Acevedo 1. Vulnerabilidade 2. Resíduos Sólidos Urbanos 3. Descarte de lixo 4. Pesquisa-ação. CDU 658.

(4) LUZIA MARIA ESGOLMIN. RELAÇÃO ENTRE A FAVELA E O LIXO: UMA AÇÃO TRANSFORMADORA. Dissertação apresentada à Universidade Nove de Julho,. Programa. de. Pós-Graduação. em. Administração, para obtenção do grau de Mestre em Administração, pela Banca Examinadora formada por:. ____________________________________________________________ Presidente: Profa. Claudia Rosa Acevedo, Dra. - Orientadora, Uninove. ____________________________________________________________ Membro: Profa. Maria Tereza Saraiva de Souza, Dra., Uninove. ____________________________________________________________ Membro: Prof. Jacques Demajorovic, Dr., FEI. São Paulo, 24 de Agosto de 2010.

(5) AGRADECIMENTOS. A Deus: “Você se fez presente em todos os momentos, firmes e trêmulos. E, passo a passo, pude sentir a Sua mão na minha, transmitindo-me a segurança necessária para enfrentar meu caminho a seguir... A Sua presença é qualquer coisa como a luz e a vida, e sinto que, em meu gesto, existe o Seu gesto e, em minha voz, a Sua voz”. (Vinícius de Moraes).. Aos meus pais, Walter (in memorian) e Albertina, por me ensinarem os valores essenciais de dignidade, bondade, e, sobretudo de amor à vida e às pessoas. Com certeza, meu pai, onde quer que esteja, comemora junto comigo mais esta vitória alcançada, um sonho realizado, fruto de muito esforço e perseverança, assim como ele me ensinou.. Aos meus filhos Fernando e Marcella, razão da minha vida, agradeço pela compreensão e paciência, e por entenderem todas as minhas ausências durante esses meses de pesquisas e estudos. E, ainda, aos filhos postiços, Leandro e Jenifer, pelo incentivo e solidariedade.. De forma especial, agradeço à Professora Claudia Rosa Acevedo, que me acolheu e não mediu esforços para a realização deste trabalho. Por sua competência intelectual e paciência, e pelos inúmeros ensinamentos transmitidos.. Aos professores doutores Jacques Demajorovic e Maria Tereza Saraiva de Souza, agradeço pela solicitude no trabalho de composição da banca de qualificação, e por suas valiosas sugestões para o encaminhamento desta dissertação. A professora Maria Tereza foi, ainda, uma grande incentivadora em outros momentos durante a execução deste trabalho.. Ao CEDECA, aos amigos da Comunidade Madalena I, ao grupo de Agentes do Meio Ambiente e ao grupo de Catadores, com que tive a oportunidade de trabalhar e conviver, e aprender antes de tudo, e, especialmente a Valeria Beloto da Silva, coordenadora dos projetos: Meio Ambiente: Educação para Ação, e Coleta de Lixo Porta a Porta, pela sua grandeza de alma, seu espírito de.

(6) luta, e por todas as nossas conversas no decorrer deste trabalho que me ajudaram a entender melhor o que é ser morador de favela.. Aos meus amigos, Elenir, Paula, Rosa, Sueli, Vera, e, em especial, ao Cláudio Queiroz, pelo apoio e incentivo que recebi durante todos esses meses de árduo esforço.. E, por fim, a todos os amigos de luta, Amando, André, Daniel, Daniela, Ezequiel, Gilson, Guilherme, Marcelo, Pajares, Sergio, Sibele e Wilson, pelas trocas, pela solidariedade, e pelo compartilhamento das novas descobertas..

(7) “A grande generosidade está em lutar para que, cada vez mais, essas mãos, sejam de homens ou de povos, se estendam menos, em gestos de súplica. Súplica de humildes e poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo”.. Paulo Freire.

(8) RESUMO. O objetivo deste trabalho foi examinar como as ações de uma intervenção em relação ao descarte e manejo de lixo domiciliar, e as experiências compartilhadas durante essa intervenção, podem facilitar (ou dificultar) a transformação dos valores e comportamentos ambientais dos indivíduos de uma comunidade social e ambientalmente vulnerável. Em termos de procedimentos metodológicos, a pesquisa utilizou o método qualitativo de investigação optando pela técnica da pesquisa-ação. A escolha de comunidade vulnerável recaiu sobre uma favela situada na região leste da capital de São Paulo que tem como característica descartar o lixo domiciliar de forma inadequada, geralmente despejando nas vielas e becos da favela, ou jogando morro abaixo. A intervenção teve a duração de oito meses e foi realizada por uma equipe composta por aproximadamente vinte indivíduos, atuando em diferentes estágios da intervenção. Os dados foram obtidos pela pesquisa bibliográfica, mediante observação participante e entrevistas com os catadores de resíduos e os demais participantes do projeto. Os resultados obtidos revelaram que a intervenção trouxe transformações tanto nos comportamentos quanto nos valores dos moradores da comunidade. Alem disso, verificou-se que: (1) as características individuais e da comunidade que mais influenciaram na intervenção foram a participação e a valorização das contribuições individuais e coletivas; (2) durante a intervenção as experiências compartilhadas mais determinantes para a mudança de comportamento e valores foram a participação nos seminários, reuniões e treinamentos e nas rodas de reflexão, e a interação entre os moradores proporcionada pela coleta de resíduos de porta em porta. No entanto, foi possível verificar que o desafio dos problemas causados pelos resíduos é uma questão de gestão compartilhada que envolve não só cada um dos indivíduos, mas também a comunidade como um todo e o poder público que tem um papel fundamental na garantia da continuidade das ações.. Palavras-chave: Vulnerabilidade; Resíduos Sólidos Urbanos; Lixo; Pesquisa-ação; Descarte de lixo; Favela..

(9) ABSTRACT. The aim of this study was to examine how the actions of an intervention on disposal and management of household waste, and the experiences shared during this intervention can facilitate (or hinder) the transformation of values and environmental behavior of individuals in a social community and environmentally vulnerable. In terms of methodological procedures, the research used the qualitative method of research in choosing the technique of action research. The choice fell on the vulnerable community located in a slum area east of the capital of São Paulo has the characteristic of disposing of household waste improperly, usually dumping in the alleys and lanes of the slum, or playing down the hill. The intervention lasted for eight months and was conducted by a team of about twenty indviduals, acting at different stages of intervention. The data were obtained by literature review, participatory observation and interviews with waste pickers and other project participants. The results revealed that the intervention has brought about changes both in behavior and values of community residents. Furthermore, it was found that: (1) individual characteristics and community interventions that were most influenced the participation and appreciation of individual and collective contributions, (2) during the intervention over the shared experiences for a change of behavior and values were participating in seminars, meetings and training wheels and reflection, and interaction among residents provided by the waste collection door to door. However, we observed that the challenge of the problems caused by waste is a management issue that involves not only shared each of the individuas, but also the community as a whole and the government has a key role in ensuring the continuity of actions.. Key words: Vulnerability; Municipal Solid Waste; Waste, Action Research; Disposal, Slum..

(10) LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURAS Figura 1 Figura 2 Figura 3 Figura 4 Figura 5 Figura 6 Figura 7 Figura 8 Figura 9 Figura 10 Figura 11 Figura 12 Figura 13 Figura 14 Figura 15 Figura 16 Figura 17 Figura 18 Figura 19 Figura 20 Figura 21 Figura 22 Figura 23 Figura 24 Figura 25 Figura 26 Figura 27 Figura 28 Figura 29 Figura 30 Figura 31 Figura 32 Figura 33 Figura 34 Figura 35 Figura 36 Figura 37. Composição média do lixo no Brasil ................................................................... 26 Modelo de vulnerabilidade como uma experiência compartilhada...................... 63 Modelo conceitual................................................................................................ 66 Localização da comunidade dentro da cidade de São Paulo, SP.......................... 69 Área ocupada pela favela Parque Santa Madalena I............................................ 70 Atores envolvidos no Projeto Coleta Porta a Porta.............................................. 78 Fases da pesquisa-ação......................................................................................... 83 Fase Exploratória................................................................................................. 85 Fase de Planejamento........................................................................................... 88 Fase de Ação................................................................................................ ........ 89 Fase de Avaliação........................................................................................ ........ 91 Aspecto da encosta do morro que une as casas da região superior com as da parte inferior....................................................................................... 100 Visão da “cascata” de lixo atirada pelos moradores da área superior.................. 100 Vista do lado de cima do morro........................................................................... 101 Percentual de moradias visitadas......................................................................... 104 Local de descarte do lixo .................................................................................... 105 Presença de ratos em Madalena I......................................................................... 106 Catadores na coleta dos resíduos......................................................................... 119 Tempo de residência............................................................................................ 139 Faixa de idade...................................................................................................... 140 Renda familiar..................................................................................................... 140 Cidade de origem................................................................................................. 141 Atividades de lazer............................................................................................... 142 Melhorias da coleta.............................................................................................. 142 Local de descarte do lixo..................................................................................... 144 Tipo de material separado.................................................................................... 144 Problemas causados pelo lixo.............................................................................. 145 Responsabilidade de cada um.............................................................................. 146 Responsabilidade da Prefeitura............................................................................ 147 Interesse pelas questões do meio ambiente.......................................................... 147 Reciclagem dá muito trabalho.............................................................................. 148 Controlar a poluição não vale a pena................................................................... 148 Sozinho não posso fazer nada.............................................................................. 149 Reciclagem diminui a poluição............................................................................ 149 Moradores na reunião de apresentação dos resultados........................................ 152 Características marcantes..................................................................................... 157 Características marcantes adaptadas ao modelo conceitual................................. 158.

(11) GRÁFICO Gráfico 1. QUADROS Quadro 1 Quadro 2 Quadro 3 Quadro 4 Quadro 5 Quadro 6 Quadro 7 Quadro 8 Quadro 9 Quadro 10 Quadro 11 Quadro 12 Quadro 13 Quadro 14 Quadro 15. Destinação do lixo produzido no Brasil....................................................... ........ 29. Características dos brasileiros mais e menos favoráveis à adoção do comportamento pró-ambiental............................................................................. 46 Conceitos de vulnerabilidade social..................................................................... 56 Resumo das fases, instrumentos de coleta de dados e demais ações da pesquisa................................................................................................................ 83 Relação de vielas e quantidade de moradias – Madalena I.................................. 99 Abordagens do 2º Semestre 2008....................................................................... 103 Ações desenvolvidas – Fase Planejamento.......................................................... 111 Ações desenvolvidas – Fase Implementação....................................................... 117 Avaliações das reuniões diárias........................................................................... 121 Características individuais e coletivas................................................................. 127 Motivos da mudança............................................................................................ 134 Contribuições da intervenção............................................................................... 134 Limitações da intervenção................................................................................... 135 Características da comunidade que facilitam a mudança.................................... 136 Características da comunidade que dificultam a mudança.................................. 136 Traços da comunidade na visão da sociedade...................................................... 138.

(12) LISTA DE TABELAS Tabela 1. Tabela 2 Tabela 3 Tabela 4 Tabela 5 Tabela 6 Tabela 7 Tabela 8 Tabela 9 Tabela 10 Tabela 11 Tabela 12. Domicílios particulares permanentes urbanos, total e sua respectiva distribuição percentual, por destino do lixo, segundo grandes regiões 1992/1999................................................................................................ 27 População total e sua distribuição segundo as grandes regiões 1992/1999............................................................................................................. 28 Composição do lixo coletado em São Paulo.................................... ..................... 30 Evolução da população favelada no Município de São Paulo............................... 34 Indicadores das favelas do Município de São Paulo ............................................. 36 Vulnerabilidade social das residências da favela Parque Santa Madalena I................................................................................................... 70 Infra-estrutura urbana da favela Parque Santa Madalena I ................................... 71 Objetivos da pesquisa-ação.............................................................. ..................... 75 Domicílios visitados – Fase Diagnóstico............................................................... 86 Domicílios visitados............................................................................................. 102 Caçambas em Madalena I.................................................................................... 105 Resíduos coletados durante o projeto................................................................... 122.

(13) SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 16 1.1 Apresentação do Panorama Geral da Pesquisa................................................................. 16 1.2 Objetivos da Pesquisa....................................................................................................... 19 1.2.1 Objetivo Prático ............................................................................................................ 19 1.2.1.1 Objetivos específicos do objetivo prático................................................................... 19 1.2.2 Objetivo do Conhecimento............................................................................................ 19 1.2.2.1 Objetivos específicos do objetivo do conhecimento.................................................. 20 1.3 Justificativa da Relevância da Pesquisa............................................................................ 20 1.4 Caracterização do Estudo................................................................................................. 22 1.5 Organização do Trabalho.................................................................................................. 22 2 REVISÃO DA LITERATURA......................................................................................... 24 2.1 Contextualização sobre a problemática do lixo ............................................................... 24 2.1.1 Características sanitárias: relação entre resíduos sólidos e saúde pública..................... 31 2.2 Dinâmicas das favelas ...................................................................................................... 33 2.2.1 Conceituação e caracterização de favela................................................. ..................... 33 2.2.2 População das favelas ................................................................................................... 35 2.2.3 Realidades sócio-culturais nas favelas........................................................................... 36 2.2.4 Participação da comunidade.......................................................................................... 39 2.3 Comportamento pró-ambiental......................................................................................... 41 2.3.1 Meio ambiente e a questão do lixo................................................................................ 41 2.3.2 Mobilizadores do comportamento pró-ambiental.......................................................... 44 2.4 Vulnerabilidade ................................................................................................................ 48 2.4.1 Riscos e Adversidades – A questão da vulnerabilidade................................................ 49 2.4.2 Vulnerabilidade Social – Origem e definição................................................................ 52 2.4.3 Fatores que influenciam vulnerabilidade social............................................................ 55 2.4.4 Vulnerabilidade aos riscos ambientais........................................................................... 60 2.4.5 Vulnerabilidade como experiência compartilhada........................................................ 62 2.5 Pressupostos da pesquisa e modelo conceitual................................................................ 65 3 MÉTODO DA PESQUISA............................................................................................... 68 3.1 Objeto de pesquisa............................................................................................................ 68.

(14) 3.1.1 Processo de ocupação e situação atual........................................................................... 69 3.1.2 Delimitação e descrição da área estudada...................................................................... 71 3.2 Caracterização da pesquisa............................................................................................... 73 3.3 Participantes do projeto..................................................................................................... 77 3.4 Instrumentos de coleta de dados e fases da pesquisa-ação................................................ 79 3.4.1 Coleta de dados.............................................................................................................. 79 3.4.1.1 Pesquisa documental e bibliográfica........................................................................... 80 3.4.1.2 Observação participante.............................................................................................. 80 3.4.1.3 Entrevistas................................................................................................................... 82 3.4.1.4 Questionário................................................................................................................ 82 3.4.2 Fases da pesquisa-ação.................................................................................................. 82 3.4.3 Fase Exploratória (Diagnóstico).................................................................................... 85 3.4.4 Fase Principal (Planejamento)....................................................................................... 87 3.4.5 Fase de Ação (Implementação)...................................................................................... 89 3.4.6 Fase de Avaliação (Observação)................................................................................... 90 3.4.6.1 Fase de avaliação – Entrevistas ................................................................................. 92 3.4.6.2 Fase de avaliação – Questionário............................................................................... 93 3.5 Análise dos dados............................................................................................................. 94 3.6 Apresentação dos resultados para a comunidade.............................................................. 95 3.7 Apresentação dos resultados para o poder público........................................................... 96 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS........................................................... 97 4.1 Aproximação..................................................................................................................... 97 4.2 Fase exploratória: Diagnóstico......................................................................................... 98 4.2.1 Mapeamento da área...................................................................................................... 98 4.2.2 Resultados do levantamento......................................................................................... 102 4.3 Fase de planejamento: Principal...................................................................................... 110 4.4 Fase de ação: Implementação.......................................................................................... 117 4.5 Fase de avaliação: Observação........................................................................................ 124 4.5.1 Entrevistas com os catadores........................................................................................ 124 4.5.2 Entrevistas com os representantes dos participantes do projeto................................... 133 4.5.3 Questionário para os moradores....................................................................................138.

(15) 4.5.3.1 Características dos sujeitos........................................................................................ 139 4.5.3.2 Atividades de lazer da população.............................................................................. 141 4.5.3.3 Coleta porta a porta.....................................................................................................142 4.5.3.4 Problemas com o lixo.................................................................................................145 4.5.3.5 Responsabilidade ambiental...................................................................................... 146 4.5.4 Considerações da fase de avaliação.............................................................................. 150 4.6 Apresentação dos resultados para a comunidade............................................................. 151 4.6.1 Reunião com os moradores........................................................................................... 151 4.6.2 Desdobramentos na comunidade.................................................................................. 152 4.7 Apresentação dos resultados para o poder público.......................................................... 153 4.8 Síntese da avaliação das fases da pesquisa-ação............................................................. 154 4.9 Análise dos resultados sob o enfoque do modelo conceitual.......................................... 156 4.9.1 Condições externas....................................................................................................... 159 4.9.2 Características dos indivíduos...................................................................................... 159 4.9.3 Características da comunidade..................................................................................... 160 4.9.4 Elementos da intervenção............................................................................................. 160 4.9.5 Experiências compartilhadas........................................................................................ 161 4.9.6 Valores e comportamentos........................................................................................... 162 5 CONCLUSÃO................................................................................................................... 164 5.1 Limitações da pesquisa e propostas para futuros estudos................................................ 164 5.2 Contribuições do estudo.................................................................................................. 165 5.3 Considerações finais........................................................................................................ 166 5.3.1 Revendo os pressupostos.............................................................................................. 167 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................169 APÊNDICES APÊNDICE A – Roteiro da entrevista com os catadores de materiais................................. 179 APÊNDICE B – Formulário de Consentimento.................................................................... 180 ANEXOS ANEXO A – Questionário para os moradores...................................................................... 182 ANEXO B – Brasil................................................................................................................ 186.

(16) ANEXO C – Convite aos moradores..................................................................................... 187 ANEXO D – Aviso aos moradores........................................................................................ 188 ANEXO E – Pesquisa de Opinião......................................................................................... 189 ANEXO F – Ofício nº 049/2009........................................................................................... 190 ANEXO G – Ofício nº 050/2009........................................................................................... 191.

(17) 16. 1 INTRODUÇÃO. Este capítulo tem o objetivo de situar o leitor sobre o estudo que será desenvolvido e aborda os seguintes tópicos: apresentação do panorama geral da pesquisa, objetivos da pesquisa, justificativa da relevância da pesquisa, a caracterização do estudo e a organização do trabalho.. 1.1 APRESENTAÇÃO DO PANORAMA GERAL DA PESQUISA. O impacto negativo ao meio ambiente, causado pela disposição inadequada dos resíduos sólidos urbanos tem sido uma preocupação dos estudos de meio ambiente nas últimas décadas. O descarte dos resíduos sólidos quer seja domiciliar, industrial, hospitalar ou agrícola, constitui um dos principais problemas enfrentados pelas sociedades atuais. As atividades humanas sobre o meio ambiente, com o crescente aumento da população, aliado ao acelerado processo de industrialização, vêm causando um aumento vertiginoso na produção de resíduos sólidos, o que tem contribuído para um processo contínuo de deterioração ambiental, com sérios prejuízos para a qualidade de vida da população. Atualmente, o resíduo sólido doméstico é constituído por uma massa heterogênea de materiais, dos quais fazem parte uma gama de produtos de risco, muitos deles tóxicos, além de materiais combustíveis, orgânicos, inertes, etc. Os resíduos também são formados por produtos com vida útil muito curta e que acarretam um grande volume de embalagens descartáveis, como sacos plásticos rígidos, isopores, tetrapack, entre outros (GRIPPI, 2006). Entre os resíduos domiciliares descartados também são encontradas uma grande quantidade de materiais com características de periculosidade como pilhas, baterias de celulares, tintas, medicamentos vencidos, etc., gerando preocupação quanto ao tratamento e/ou disposição final compatível com a preservação do meio ambiente. A questão do descarte de resíduos sólidos domiciliares agrava-se quando se trata de regiões ou comunidades pobres, tanto pela carência de recursos disponíveis como pela falta de informação quanto aos riscos produzidos. E é sobre as populações mais carentes que recai a maior parte dos efeitos negativos da urbanização desenfreada, sem mecanismos regulatórios e de controle, típica das áreas periféricas das grandes cidades (GOUVEIA, 1999). Tanto a pobreza,.

(18) 17. como a escassez de recursos, e a expansão populacional combinam-se para criar círculos viciosos de degradação e colapso dos ecossistemas e das comunidades locais. Na Região Metropolitana de São Paulo, apesar da melhora dos indicadores sociais nas últimas décadas, verifica-se a existência de um grande diferencial nas condições de vida e de acesso a serviços públicos, com a presença de áreas extremamente pobres e carentes de equipamentos públicos e serviços, espalhadas por toda a periferia metropolitana. Dessa forma, existem situações com péssimas condições e exposição cumulativa a diversos tipos de risco, tanto social como ambiental, como é o caso dos riscos de enchentes e deslizamentos de terra, em um ambiente intensamente poluído, e de serviços sociais, que quando existem, são extremamente ineficientes (TORRES; MARQUES, 2001; TORRES et al., 2003). Uma das regiões que apresenta um dos mais altos índices de risco ambiental, e com maiores concentrações de população pobre é a Zona Leste da cidade de São Paulo (TORRES, 2002). De acordo com Torres (2002), na Zona Leste de São Paulo, as áreas de risco ambiental (definidas como os setores censitários localizados a até 100 metros dos cursos d’água) apresentam. maiores. concentrações. de. domicílios. em precárias. condições. sanitárias. (principalmente o acesso à rede de esgoto), bem como proporções mais elevadas de crianças e adolescentes, e de favelas, caracterizando essa região como de grande vulnerabilidade. Os riscos ambientais envolvem uma gama de implicações sociais, econômicas, tecnológicas, culturais, ambientais e políticas que estão diretamente vinculadas à condição de pobreza e de vulnerabilidade social de representativa parcela da sociedade. O termo vulnerabilidade social vem sendo utilizado com freqüência, tanto por grupos acadêmicos como por entidades governamentais da América Latina (ALVES, 2006). De acordo com Alves (2006), os estudos sobre vulnerabilidade social devem-se a uma certa insatisfação com os enfoques tradicionais sobre pobreza e com seus métodos de mensuração, baseados exclusivamente no nível de renda monetária e em medidas fixas, como a linha da pobreza. Estudos contemporâneos relacionados à pobreza trazem um novo olhar para essa questão que vai além da dimensão sócio econômica. A noção de vulnerabilidade geralmente é definida como uma situação em que estão presentes três elementos (ou componentes): exposição ao risco; incapacidade de reação; e dificuldade de adaptação diante da materialização do risco (MOSER, 1998)..

(19) 18. Neste sentido, a noção de vulnerabilidade social, ao considerar a insegurança e a exposição a riscos e perturbações provocadas por eventos ou mudanças econômicas, sociais e ambientais oferece uma visão mais ampla sobre as condições de vida dos grupos sociais mais pobres e, ao mesmo tempo, considera a disponibilidade de recursos e estratégias das próprias famílias para enfrentarem os impactos que as afetam. A questão do lixo urbano, em especial nos paises em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, está associada a vários problemas de ordem ambiental, sanitária, social e econômica. Percebe-se que grande quantidade dos resíduos sólidos gerados no meio urbano é disposta em condições sanitárias inadequadas, que conduzem a impactos ambientais, bem como a algum tipo de desequilíbrio ecológico e danos à saúde pública. A tendência das pessoas é se livrar do lixo de qualquer maneira, geralmente pelo meio mais fácil que estiver disponível (GRIPPI, 2006). Dessa forma, cada pessoa, com seus valores, crenças, informações e comportamentos, imprime características particulares no espaço em que habita e aos elementos desse espaço (AJZEN, 1991). Assim, verificamos que o modo como os moradores de comunidades carentes se relacionam com o lixo traduz, em grande parte, a falta de informações sobre os riscos e prejuízos causados à saúde e ao meio ambiente, adotando comportamentos que aumentam a vulnerabilidade a que estão expostos, ou seja, permitindo, de certa forma, que o lixo predomine sobre todo o ambiente. Apesar da preocupação das sociedades atuais com os problemas causados pelo lixo, poucos estudos descrevem como uma comunidade se comporta quando submetida a uma intervenção de manejo de lixo. Este estudo buscou analisar como os indivíduos, e a comunidade como um todo, reagem a partir da implementação de uma intervenção de manejo e coleta de lixo domiciliar. Mais especificamente, a pergunta que direcionou este trabalho foi: Como as ações de uma intervenção em relação ao descarte e manejo do lixo domiciliar, e as experiências compartilhadas durante essa intervenção, facilitam (ou dificultam) a transformação dos valores e comportamentos dos indivíduos de uma comunidade vulnerável? Para alcançar esse objetivo utilizou-se a estratégia da pesquisa-ação junto a uma comunidade considerada vulnerável, em razão de suas características sociais e econômicas. Foi escolhida a Comunidade Madalena I que está situada na zona leste da cidade de São Paulo..

(20) 19. 1.2 OBJETIVOS DA PESQUISA. Um estudo que utiliza a técnica da pesquisa-ação possui, normalmente, dois tipos de objetivos. Um objetivo prático, e outro do conhecimento (THIOLLENT, 2008). Assim, a pesquisa-ação na Comunidade Madalena I visou:. 1.2.1 Objetivo Prático. Facilitar a mobilização dos moradores da Comunidade Madalena I para a implantação da coleta de resíduos sólidos domiciliares, de porta em porta, contribuindo para intervenções mais eficazes em comunidades vulneráveis, considerando a percepção ambiental e o manejo do lixo como desencadeadores de mudanças nos valores e comportamentos dos indivíduos.. 1.2.1.1 Objetivos específicos do objetivo prático: •. Aumentar o conhecimento e a capacitação das pessoas relacionados ao processo de disposição dos resíduos domiciliares e da coleta seletiva;. •. Oferecer oportunidade de inclusão voluntária em atividades de cunho social e ambiental;. •. Desenvolver a produção de novos conhecimentos para os participantes do projeto e para a comunidade como um todo;. •. Promover o desenvolvimento da consciência ambiental;. •. Resgatar a cidadania.. 1.2.2 Objetivo do conhecimento. Investigar como as ações de uma intervenção em relação ao descarte e manejo do lixo domiciliar, e as experiências compartilhadas durante essa intervenção, facilitam (ou dificultam) a transformação dos valores e comportamentos dos indivíduos de uma comunidade vulnerável..

(21) 20. 1.2.2.1 Objetivos específicos do objetivo do conhecimento •. Compreender quais são as características da comunidade e as características dos indivíduos a ela pertencentes, que mais influenciaram na experiência compartilhada vivida durante essa intervenção;. •. Verificar se as experiências compartilhadas na intervenção contribuíram para a transformação dos comportamentos e valores dos indivíduos, e da comunidade, em relação ao descarte e manejo do lixo;. •. Verificar quais foram as características da intervenção que colaboraram para o processo de mudança do comportamento e valores em relação ao manejo e descarte do lixo.. Para efeito deste trabalho, considera-se intervenção, como o ato ou efeito de mediar a ação de coleta e manejo de resíduos sólidos produzidos pela comunidade, buscando a participação ativa da comunidade, de forma a modificar o significado ou as expectativas do senso comum, quanto ao objeto da ação.. 1.3 JUSTIFICATIVA DA RELEVÂNCIA DA PESQUISA. Muitos estudos sobre este tema têm mostrado que os resíduos sólidos constituem um dos maiores problemas da atualidade. Uma das causas da destruição ambiental está relacionada à forma como o lixo é gerado pelas pessoas e os efeitos ambientais que são provocados por sua composição, volume e dispersão. Nesse sentido, a geração e o acúmulo de resíduos domésticos e industriais é um grave problema que tem sido enfrentado pelos governantes e legisladores, e que ocorrem principalmente quando são produzidos em áreas com pouco espaço para armazenagem, exercendo um forte impacto sobre a saúde pública e o equilíbrio ambiental. Dessa forma, é prioritário compreender como se dá a relação entre o lixo e as comunidades carentes, e buscar estratégias para enfrentar essas questões ambientais. Apesar de todo o esforço das políticas públicas no sentido de estimular a correta destinação dos resíduos urbanos, pouco se tem feito para a efetiva conscientização da população quanto à necessidade de.

(22) 21. se reduzir e/ou reciclar os resíduos produzidos, haja vista a falta de incentivos e de campanhas mobilizadoras para aumentar a coleta seletiva. A realização desta pesquisa é justificada por adentrar em uma realidade pouco investigada, que é a exclusão da participação civil frente aos problemas ambientais. Neste sentido, é de grande importância a aproximação do contexto teórico, ou seja, do conhecimento científico sobre os problemas da sociedade, junto ao contexto concreto. Os moradores das favelas que percebem a realidade como ela é, muitas vezes, não conseguem desvendar as raízes dos problemas e mobilizarem-se para buscar uma nova solução. A relação entre conhecimento concreto e teórico possibilita maior compreensão dos malefícios que representa a poluição causada pelo lixo. Para tanto, é necessário que seja investigado o que sabem, como pensam e se comportam em relação ao fenômeno “resíduos sólidos”, que é uma rotina na vida de cada cidadão. Essa preocupação deve-se ao fato de que cada indivíduo é responsável pela correta destinação dos resíduos que gera diariamente. E, diante desse fato, é de extrema importância que as pessoas sejam devidamente sensibilizadas para os pontos mais críticos do problema. Sem a participação consciente de cada um dos indivíduos, não se conseguirá transformar seus comportamentos. Mandelli (1997), ao estudar o comportamento da população urbana no manejo dos resíduos sólidos no âmbito das residências, comenta que é importante considerar as habilidades, comportamentos, conhecimentos, interesses ou disposições que a população já tem, para começar um programa de gerenciamento de resíduos sólidos domésticos. O fato de muitos programas de educação ambiental que incentivam a solução dos problemas relacionados aos resíduos sólidos urbanos serem sempre aplicados de uma forma genérica, trazendo o nome de “manuais” ou “cartilhas” contraria a própria concepção do processo participativo, pois ao invés de estimularem estratégias criativas, na perspectiva real da construção da realidade, trazem receitas prontas para serem obedecidas e seguidas, com uma ênfase à coleta seletiva dos resíduos. Assim, a participação civil na gestão dos problemas ambientais é fundamental para a sua minimização, e o aumento dessa participação tende a influenciar, cada vez mais, na melhoria da qualidade de vida da população..

(23) 22. Uma das contribuições deste trabalho é apresentar informações para futuras intervenções em áreas de vulnerabilidade sócio-ambiental, segundo a percepção, o saber e os anseios dos moradores, tendo como referência a comunidade estudada.. 1.4 CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO. Em relação ao método, foi adotado neste estudo o método qualitativo de investigação, utilizando-se a metodologia da pesquisa-ação, cuja principal característica é a sua concepção e realização em estreita associação com uma ação para a resolução de um problema coletivo, e na qual, os pesquisadores e os participantes representativos da situação, estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 2008). Como recorte de comunidade vulnerável, optou-se por uma favela, por ser um local onde o lixo toma conta de todos os espaços, invadindo a vida das pessoas, trazendo riscos e doenças para a população, principalmente para as crianças. O presente estudo foi realizado na Comunidade Madalena I, situada na zona leste da cidade de São Paulo. Justifica-se a escolha dessa favela em função de trabalhos anteriores desenvolvidos na área ambiental, coordenados pela organização não governamental da qual a autora deste trabalho presta serviços como voluntária. O pressuposto, a priori, antes de entrar em campo, era de que o lixo vinha sendo descartado de forma inadequada, atirado a céu aberto, sem qualquer preocupação com a sua destinação, com a redução ou com a reciclagem. Esse pressuposto está baseado na investigação pessoal do local escolhido, e na verificação “in loco” da grande quantidade de lixo acumulada nas ruas e no entorno das favelas.. 1.5 ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO. Em conformidade com os objetivos definidos para este estudo, o trabalho foi estruturado em cinco capítulos. O presente capítulo de introdução apresenta a temática que será estudada e seus objetivos, abordando ainda, as justificativas para a escolha da pesquisa, o método empregado e a delimitação do estudo..

(24) 23. No capítulo 2 é apresentado o referencial teórico utilizado para explicar o fenômeno em análise que está subdividido em cinco partes: contextualização da questão do lixo, conceituações e definições de favela e seus moradores, discussão de fatores que influenciam atitudes e comportamentos em relação ao meio ambiente, pesquisas acadêmicas sobre o tema da vulnerabilidade social e os pressupostos da pesquisa. O capítulo 3 trata da metodologia da pesquisa de campo, a definição do público alvo da pesquisa, o método e a técnica de coleta de dados, assim como a metodologia utilizada para a análise dos dados coletados. Considerando que este trabalho utilizou a técnica da pesquisa-ação, são apresentadas também a descrição de cada uma de suas fases, quais sejam: fase exploratória (diagnóstico), principal (planejamento), ação (implementação) e de avaliação (observação). O capítulo 4 aborda os resultados encontrados em cada uma das fases da pesquisaação e a avaliação a partir do modelo conceitual adotado. E, por último, no capítulo 5 são apresentadas as conclusões desta pesquisa e suas implicações, assim como suas limitações e sugestões para futuros estudos..

(25) 24. 2 REVISÃO DA LITERATURA. O objetivo deste capítulo é efetuar a revisão da literatura sobre vulnerabilidade sócioambiental, relacionada à questão das favelas, com enfoque sobre a questão do manejo do lixo domiciliar. Nesse sentido, o presente capítulo é composto por cinco seções. Na primeira é apresentada uma contextualização sobre a problemática do lixo e um panorama geral da relação entre resíduos sólidos e saúde. Na segunda seção são expostas conceituações sociais das favelas e uma abordagem sobre as características sociais, econômicas e culturais de seus moradores. Em seguida, a terceira seção apresenta os fatores que influenciam as atitudes e comportamentos das pessoas em relação ao meio ambiente. A quarta seção trata dos conceitos da vulnerabilidade social, suas articulações e complementaridades sob o enfoque da pobreza e da exclusão social, dentro de uma perspectiva de compartilhamento da vulnerabilidade em comunidades. Trata ainda do conceito de vulnerabilidade aplicado em outros campos da ciência, que, assim como a pobreza, caracteriza a vida de muitos habitantes. E, por fim, a quinta seção apresenta os pressupostos da pesquisa e modelo conceitual.. 2.1 CONTEXTUALIZAÇÃO SOBRE A PROBLEMÁTICA DO LIXO. Considerando que esta pesquisa se propôs a investigar as experiências compartilhadas por moradores de uma comunidade vulnerável, em relação ao descarte e manejo do lixo domiciliar, é relevante contextualizar a situação do lixo no cenário brasileiro. No que tange à definição, há uma dificuldade em se conceituar o que é entendido por lixo e por resíduo, uma vez que pode variar conforme a época e o lugar, e dependendo de fatores jurídicos, econômicos, ambientais, sociais e tecnológicos (SANTOS, 2008). A Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do documento Agenda 21, define lixo ou resíduo(s) da seguinte forma: Os resíduos sólidos compreendem todos os restos domésticos e resíduos não perigosos, tais como os resíduos comerciais e institucionais, o lixo da rua e os entulhos de construção. Em alguns paises, o sistema de gestão dos resíduos sólidos também se ocupa dos resíduos humanos, tais como excrementos, cinzas de incineradores,.

(26) 25. sedimentos de fossas sépticas e de instalações de tratamento de esgoto. Se manifestarem características perigosas, esses resíduos devem ser tratados como resíduos perigosos (SÃO PAULO, 2008).. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), por meio da Norma Brasileira Registrada (NBR) nº. 10.004, apresenta a seguinte definição para resíduos sólidos: Resíduos nos estados sólido e semi-sólido que resultam de atividades da comunidade de origem industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnicas e economicamente inviáveis, em face à melhor tecnologia disponível (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1987, p. 2).. No estado de São Paulo, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SMA) e a Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), apresentam a seguinte definição: Resíduos sólidos como o conjunto de produtos não aproveitados nas atividades humanas (domésticas, comerciais, industriais e de serviços) e aqueles gerados nas operações de varrição urbana, como folhas, galhos, terra, areia, que são retirados de ruas e logradouros públicos. Também podemos definir lixo como os restos das atividades humanas, considerados pelos geradores como inúteis, indesejáveis ou descartáveis (SÃO PAULO, 1998, p. 45).. De acordo com Demajorovic (1995), lixo é aquilo que não possui qualquer tipo de valor, e que deve apenas ser descartado, enquanto que resíduo sólido é aquilo que possui valor econômico agregado por possibilitar o seu reaproveitamento no próprio processo produtivo. No entanto, para a finalidade deste trabalho, os termos lixo e resíduos sólidos serão utilizados para designar todos os materiais descartados, uma vez que nem sempre conseguiremos fazer distinção entre esses elementos. No Brasil, cerca de 88% dos 5.564 municípios colocam seus resíduos em lixões ou aterros controlados (não considerados tecnicamente sanitários), provocando situações de impacto social e de degradação ambiental, como a contaminação dos lençóis freáticos pelo chorume e dos solos agricultáveis. Por outro lado, o entupimento da rede de esgotos e o assoreamento de rios e rede pluvial por Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) somam-se aos desmatamentos e ao processo de expansão urbana (como o asfalto) como fatores agravantes ou determinantes de inundações. Nos últimos 30 anos, o Brasil mudou muito o tipo de lixo gerado. A aceleração do crescimento das cidades e as mudanças de consumo das pessoas trouxeram fatores que vêm.

(27) 26. gerando um lixo muito diferente daquele que as cidades brasileiras produziam há 50 anos atrás (GRIPPI, 2006). O lixo atual é diferente em quantidade e qualidade, em volume e em composição. O aumento do consumo atrelado ao crescimento populacional gera também cada vez mais lixo para ser descartado. Nos países desenvolvidos cerca de 20% do lixo doméstico é composto de matéria orgânica, enquanto que no Brasil esse índice é bem diferente, conforme ilustra a Figura 1 (IBGE, 2003).. 4% 3% 3%. Matéria Orgânica Papel. 25%. Metal Plástico 65%. Vidro. Figura 1. Composição média do lixo no Brasil Fonte: IBGE, 2003.. Como mostra a Figura 1, o lixo brasileiro é composto por 25% de papel, 4% de metal, 3% de plástico, 3% de vidro e 65% de matéria orgânica (IBGE, 2003). Nos países desenvolvidos essa relação é significativamente redistribuída, sendo que o lixo biodegradável ou matéria orgânica, responsável pela produção do gás metano, um potente gás de efeito estufa que contribui para as alterações climáticas, em geral não ultrapassa 20% da composição total do lixo produzido. Em todo o mundo, a falta de saneamento básico e de tratamento do lixo causa a morte de 5,2 milhões de pessoas por ano, sendo que 4 milhões delas, são crianças (CALDERONI, 1998). No Brasil, apenas 539 municípios encaminham o lixo hospitalar para incineradores ou aterros de segurança (IBGE, 2002). Somente 13,8% dos municípios brasileiros dispõem de.

(28) 27. aterros sanitários e 68,4% do total de resíduos sólidos gerados nos municípios com população acima de 20.000 habitantes são depositados em lixões e vazadouros a céu aberto (IBGE, 2002). As Tabelas 1 e 2 apresentam o total de lixo coletado, por região brasileira, para os anos de 1992 e 1999, bem como o crescimento da população para o mesmo período (IBGE, 2000). Observa-se que nesse espaço de tempo, enquanto o crescimento da população foi de 10,23%, a produção de lixo foi de 21,64%. Assim, a produção per capita aumentou significativamente no período considerado em todas as regiões do país, com destaque para a região Norte que teve o maior percentual de aumento de população e de lixo também, 26,10% e 33,28%, respectivamente. No Brasil, estima-se que a produção de lixo esteja em torno de 135 mil toneladas por dia, equivalente a cerca de 50 milhões de toneladas por ano (SNIS, 2009).. Tabela 1. Domicílios particulares permanentes urbanos, total e sua respectiva distribuição percentual, por destino do lixo, segundo as grandes regiões 1992/1999. Regiões do Brasil. Domicílios particulares permanentes urbanos Total Coletado diretamente. Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Total. 1.340.632 6.026.642 14.756.341 4.575.518 1.965.905 28.666.014. Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Total. 1.786.841 7.384.254 17.581.561 5.620.675 2.537.421 34.870.828. 1992 45,1 56,2 83,6 87,0 75,7 76,0 1999 66,6 69,1 89,6 94,3 90,8 85,0. Destino do lixo (%) Coletado Queimado Indiretamente ou enterrado. Outro. 11,1 10,0 4,7 3,1 2,1 5,7. 26,2 9,0 6,2 7,1 13,3 8,4. 17,5 24,8 5,4 2,8 8,9 9,9. 14,8 15,4 7,6 3,4 5,4 8,8. 13,2 6,1 1,8 1,9 2,9 3,4. 5,4 9,3 1,0 0,5 0,9 2,9. Fonte: Adaptado de Pesquisa Nacional por amostra de domicílios IBGE (2000)..

(29) 28. Tabela 2. População Total e sua distribuição segundo as grandes regiões 1992/1999. Grandes Regiões Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Total. População 1992 6.212.288 42.985.475 63.731.248 22.444.361 9.705.247 145.447.491. 1999 7.828.407 46.400.796 70.067.880 24.514.219 11.273.592 160.336.471. Fonte: Adaptado de Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios IBGE (2000). O crescimento da população urbana não levou em consideração a necessidade de adequação de locais específicos para depósito e tratamento dos resíduos sólidos. Tal fato é verdadeiro, sobretudo para as regiões ocupadas por habitações de forma desordenada, com carências de infra-estrutura, seja em relação ao abastecimento de água e saneamento, ou em relação à falta de coleta de resíduos (GRIPPI, 2006). Associa-se a isso, um quadro de exclusão social e elevado nível de pobreza da população. Muitas pessoas vivem em áreas de risco, como encostas, margens de rios e periferias industriais. É preciso considerar também que uma significativa parcela dos brasileiros entende que o meio ambiente diz respeito somente à natureza (rios, mares, florestas, etc.) excluindo homens, mulheres, cidades e favelas desse conceito (TRAJBER et al., 2005). Segundo dados do IBGE (2002), 80% da disposição final do lixo brasileiro é feita em vazadouros a céu aberto, sendo a região nordeste a que apresenta o pior cenário. Já a região brasileira que mais tem contribuído com a reciclagem é a sudeste, no entanto, esta representa apenas 1,1% de todo o lixo produzido no país. O gráfico 1, ilustra a destinação do lixo produzido no Brasil por regiões do pais..

(30) 29. 100 80 60 40 20 0. Norte. Nordeste. Vazadouro a céu aberto. Sudeste. Reciclagem. Sul. CentroOeste. Média Nacional. Aterros e/ou outras disposições legais. Gráfico 1. Destinação do lixo produzido no Brasil. Fonte: GRIPPI, 2006, p. 6.. Observa-se que o percentual de lixo destinado a vazadouros a céu aberto é muito superior ao destinado aos aterros sanitários e principalmente à reciclagem e que a região que mais tem fomentado a reciclagem é a sudeste, no entanto, representa somente 1,1% de todo o lixo produzido no país (GRIPPI, 2006). Em São Paulo, a responsabilidade pelo gerenciamento dos serviços de limpeza urbana, como coleta de resíduos domiciliar e seletiva, varrição de vias públicas e remoção de entulhos é do Departamento de Limpeza Urbana – LIMPURB. De acordo com informação contida no portal da Prefeitura Municipal de São Paulo, a cidade gera 15 mil toneladas de lixo diariamente (lixo residencial, de saúde, restos de feiras, podas de árvores, entulho, etc.). Só de resíduos domiciliares são coletadas mais de 9,5 mil toneladas por dia (SÃO PAULO, 2009). A coleta regular de lixo costuma se dar três vezes por semana, no entanto, verifica-se que essa periodicidade é insuficiente nas favelas, uma vez que o lixo e o entulho marcam a sua paisagem. Verifica-se, na Tabela 3, a composição do lixo coletado na cidade de São Paulo em 2008 (SÃO PAULO, 2009), no entanto, não se dispõe de informação sobre a quantidade de lixo produzida e não coletada. Do total dos resíduos coletados apenas uma pequena quantidade é relativa à coleta seletiva, em São Paulo menos de 1% do total coletado recebe tratamento..

(31) 30. Tabela 3. Composição do lixo coletado em São Paulo Tipo de Resíduo. Quantidade média diária (toneladas). Domiciliar. 9.500. Serviço de Saúde. 90. Varrição. 270. Inerte. 3.000. Seletivo. 130. Outros. 1.300. Total. 14.290. Fonte: SÃO PAULO, 2009.. Com relação à coleta seletiva, em virtude do pouco conhecimento da população sobre os resíduos passíveis de reciclagem, e da falta de separação dos resíduos, muitos desses materiais acabam se tornando impraticáveis para a reciclagem, consumindo muito esforço, tempo e trabalho das equipes que manuseiam os materiais coletados (PEREIRA et al., 2009). Apesar dessas dificuldades verifica-se que tem aumentado a atuação das cooperativas de catadores, permitindo que muitas pessoas tenham uma ocupação digna, longe dos lixões onde ficariam expostas a doenças. De acordo com um levantamento realizado em 2005 pela Prefeitura de São Paulo, existiam na cidade, 94 grupos organizados ou cooperativas atuando com a coleta seletiva. Destes grupos, 26 têm entre 10 e 20 participantes; 40 têm menos de 10 pessoas; 13 grupos têm mais de 20 pessoas e 15 grupos são ligados às Centrais de Triagem da Prefeitura (SÃO PAULO, 2009). Todo resíduo desviado de aterros sanitários contribui, em tese, para a redução dos recursos financeiros utilizados pelo setor público com a coleta e o tratamento do lixo. Dessa forma, as várias toneladas de materiais coletadas por esses grupos de catadores diariamente, representam uma grande contribuição para a gestão dos resíduos. No entanto, pouca atenção tem sido direcionada para as questões de saúde decorrentes do manuseio do lixo..

(32) 31. 2.1.1 Características sanitárias: relação entre resíduos sólidos e saúde pública. Há uma dificuldade em se relacionar diretamente o manejo inadequado dos resíduos sólidos residenciais e a saúde (ACCURIO et al., 1998). Segundo os autores as causas das enfermidades são múltiplas, conforme apresentam, entre outras, a pobreza, a desnutrição, e a carência de saneamento básico, como as seqüelas do manejo deficiente dos resíduos sólidos. Apesar desse reconhecimento, são poucos os estudos e pesquisas realizados no Brasil e na América Latina sobre o assunto. A falta de interesse por esse assunto se dá, em parte, pelo fato de existirem poucos centros de pesquisa que tratam das questões dos resíduos sólidos municipais e, na maioria das vezes, os trabalhos não abordam os componentes saúde e meio ambiente. Para Ferreira e Anjos (2001) os fatores que contribuem, em maior ou menor grau, para esta situação são: ƒ. O pouco interesse que os resíduos comuns, do cotidiano, despertam nos profissionais e pesquisadores, especialmente entre aqueles com formação em paises desenvolvidos, onde as questões e o nível de conhecimento sobre esses resíduos estão relacionados a outro estágio de desenvolvimento;. ƒ. A pequena pressão exercida pela população – desde que haja uma coleta domiciliar para os problemas decorrentes da gestão dos resíduos sólidos;. ƒ. A pouca atenção dada pelo poder público às questões de saúde em geral e que também se associa ao setor dos resíduos;. ƒ. A prática de incorporação de tecnologia de paises desenvolvidos sem a necessária adaptação às condições locais, resultando, grande parte das vezes, em falhas e fracassos. Como exemplo desta situação são citados os equipamentos compactadores projetados para coleta de resíduos com baixo conteúdo de matéria orgânica úmida. Nos Estados Unidos, a presença de restos de comida nos resíduos domiciliares varia entre 6% e 18% enquanto que na América Latina varia entre 40% e 60% (ZEPEDA, 1995, apud FERREIRA; ANJOS, 2001), propiciando o vazamento de líquidos ao longo das vias públicas, provocando mau cheiro e atraindo moscas..

(33) 32. Algumas populações podem ser identificadas como mais suscetíveis de serem afetadas pelas questões ambientais, com redução da qualidade de vida e ampliação dos problemas de saúde. A primeira população a ser considerada é aquela que não dispõe de coleta domiciliar regular e que, ao se desfazer dos resíduos produzidos, lançando-os no entorno da área em que vive, gera um meio ambiente deteriorado com a presença de fumaça, mau cheiro e vetores transmissores de doenças (por exemplo, moscas, mosquitos, baratas e roedores). A questão dos resíduos, e seus problemas associados estão intimamente ligados ao estágio cultural e ao desenvolvimento tecnológico das sociedades (ANDRADE, 2002). Desta forma, a geração de resíduos parte de um nível básico referente à própria existência do homem, seu ciclo biológico e as formas mais primitivas de organização social, e avança, em intensidade, variedade e complexidade dos elementos, para outros níveis em função dos aspectos culturais das sociedades. O problema do lixo é um dos mais sérios nas favelas. A grande densidade demográfica fica em torno de 400 habitantes por hectare. Além disso, o traçado irregular das vielas, dificulta os serviços tradicionais de coleta (PASTERNAK, 2002). Atualmente, por representar uma ameaça real ao meio ambiente, e conseqüentemente ao próprio homem, essa questão vêm conquistando a crônica mundial, especialmente no que diz respeito ao processamento, transporte e à disposição final dos resíduos industriais e urbanos, além do questionamento acerca da intensidade de geração dos resíduos e das possibilidades e limitações no seu reaproveitamento. Diferentes estudos (VALENTE; GROSSI, 1999; D’ALMEIDA et al., 2000; TEIXEIRA, 1999; SATO, 1999), apontam para a importância de desenvolver junto à comunidade a conscientização quanto a sua fundamental participação, modificando seus hábitos no processo de geração, separação, minimização, reutilização e reciclagem dos resíduos, porém não analisam como desenvolver esse assunto complexo. A sugestão, na maioria das vezes, aponta para a prática da educação ambiental. De acordo com Minc (2006, p.3), “O lixo é matéria prima fora do lugar. A forma com que uma sociedade trata do seu lixo, dos seus velhos, dos meninos de rua e doentes mentais atesta o seu grau de civilização. O tratamento do lixo doméstico, além de ser uma questão com implicações tecnológicas é antes de tudo uma questão cultural”..

(34) 33. Os problemas de saúde relacionados às questões do lixo afetam a todos indistintamente, mas especialmente nas favelas é que esses problemas se tornam mais visíveis.. 2.2 DINÂMICA DAS FAVELAS. Este tópico apresenta definições e caracterizações para Favela e as principais articulações da dinâmica da população das favelas. Neste sentido, são apresentados dados demográficos das favelas brasileiras, e, mais especificamente, da situação da cidade de São Paulo, assim como aspectos das características sociais, econômicas e culturais da sua população. As formas de participação da comunidade também foram consideradas, pela importância que esse comportamento representa para uma intervenção social participativa.. 2.2.1 Conceituação e caracterização de Favela. De acordo com o IBGE (2000), FAVELA é definida como um aglomerado de moradias classificado como subnormal. É constituída por, no mínimo, 51 unidades habitacionais (barracos, casas), sem definição de metragem. O terreno ocupado é, em geral, de propriedade alheia (pública ou particular) e sua disposição é de forma desordenada e densa. Na maioria das vezes é carente de serviços públicos essenciais (IBGE, 2000). Em 2001, 1.269 prefeituras brasileiras (23%) declararam possuir favelas, mocambos, palafitas ou assemelhados em seu município, porém, apenas 13% afirmaram possuir cadastro desse tipo de moradia (IBGE, 2001). O total de favelas então cadastradas era de 16.433, e nelas existiam 2.362.708 domicílios cadastrados. Desses domicílios, 1.654.736 (70%) se localizavam nos 32 maiores municípios do país (municípios com mais de 500 mil habitantes) demonstrando, portanto, a incidência de maior quantidade de favelas nos municípios mais populosos do território brasileiro. Entre as Grandes Regiões, a que mais possui domicílios cadastrados em favelas, em números absolutos é a Sudeste, com 1.405.009 domicílios distribuídos nas 6.106 favelas cadastradas (IBGE, 2001). Na cidade de São Paulo encontram-se cadastradas 1.577 favelas com 386.619 domicílios cadastrados (SÃO PAULO, 2009). Somente na região de Vila Prudente e Sapopemba.

Referências

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