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Fatores que influenciam vulnerabilidade social

2.4 Vulnerabilidade

2.4.3 Fatores que influenciam vulnerabilidade social

Há um consenso geral no seio da comunidade das ciências sociais sobre alguns dos principais fatores que influenciam a vulnerabilidade social. Estes incluem: falta de acesso aos recursos (incluindo a informação, conhecimento e tecnologia); acesso limitado ao poder político e de representação; capital social, incluindo as redes sociais e conexões; crenças e costumes; moradia; idade; indivíduos fisicamente ou mentalmente limitados; tipo e densidade de infra- estrutura e linhas de vida (CUTTER; BORUFF; SHIRLEY, 2003).

Apesar da atenção que tem sido dispensada aos componentes biofísicos da vulnerabilidade e da vulnerabilidade do ambiente construído, os aspectos sociais da vulnerabilidade socialmente criada tem sido ignorada, principalmente devido à dificuldade em quantificá-las, o que também explica por que as perdas sociais estão normalmente ausentes dos relatórios de custos e estimativas de perdas na seqüência de catástrofes (CUTTER; BORUFF; SHIRLEY, 2003).

A vulnerabilidade social é mais freqüentemente descrita usando as características individuais das pessoas (idade, raça, saúde, renda, tipo de moradia, emprego), no entanto a vulnerabilidade social é particularmente produto das desigualdades sociais, dos fatores sociais que influenciam ou formam a suscetibilidade de vários grupos.

Além disso, a própria condição social, mesmo em termos de classes, age de diferentes maneiras na forma como pessoas e grupos irão enfrentar o risco. Estes elementos que promovem a absorção do impacto do risco / perigo podem ser entendidos em termos de capacidade de resposta, que é um dos principais elementos componentes da vulnerabilidade e que prejudicam ou regulam a sua capacidade de responder (CUTTER, 2005; CUTTER; BORUFF; SHIRLEY, 2003; MARANDOLA JR.; HOGAN, 2006).

O estudo de Cutter, Boruff; Shirley (2003) utilizou o modelo perigos-do-lugar, para examinar os componentes de vulnerabilidade social em relação aos riscos ambientais (terremotos, tornados, inundações). Nesse modelo, o risco (um objetivo mede a probabilidade de um evento de risco) interage com a mitigação (medidas para reduzir os riscos ou reduzir o seu impacto) para produzir o perigo potencial. O potencial de risco é moderado ou envolvido tanto por um filtro geográfico (local e situação do local), bem como pelo tecido social do lugar.

O tecido social inclui a experiência da comunidade com os riscos, e a capacidade da comunidade para responder, lidar com, recuperar, e se adaptar aos riscos, que por sua vez, são influenciados pelas características econômicas, demográficas e de habitação. A vulnerabilidade social e biofísica interagem para produzir a vulnerabilidade geral do lugar.

O Quadro 2 resume um conjunto de características que influenciam a vulnerabilidade social, e que são mais freqüentemente encontradas na literatura norte-americana.

Conceito Descrição Aumenta (+)

ou diminui (-) Vulnerabilidade

Social Status

Socioeconômico (renda, poder político, prestígio)

A habilidade para absorver perdas e aumentar a resiliência aos riscos dos impactos. A riqueza permite às comunidades absorver e recuperar as perdas mais rapidamente devido a seguros, redes de segurança social e direito a programas.

Alto status (+ / -) Baixa renda ou status (-)

Gênero As mulheres podem ter mais dificuldade durante a recuperação que os homens, muitas vezes devido a empregos em setores específicos, salários mais baixos e maiores responsabilidades com os cuidados familiares.

Gênero (+)

Raça e Etnia Barreiras lingüísticas e culturais afetam o acesso a financiamento e habitação em locais fora das áreas de perigo.

Brancos (-) Não brancos (+) Idade Extremos do espectro etário afetam o movimento para sair do

perigo. Pais perdem tempo e dinheiro para cuidar das crianças quando as creches são afetadas; idosos podem ter limitações de mobilidade ou preocupação com a crescente carga de cuidados gerados e da falta de resiliência.

Idosos (+) Crianças (+)

Desenvolvimento comercial e industrial

O valor, qualidade e densidade de edifícios comerciais e industriais fornece um indicador do estado de saúde econômica de uma comunidade, e o potencial de perdas na comunidade empresarial e as questões de longo prazo com a recuperação após um evento.

Alta densidade (+) Alto valor (+)

Perda de emprego A potencial perda de emprego após um desastre agrava o numero de trabalhadores desempregados nas comunidades, contribuindo para uma recuperação mais lenta.

Perda de emprego (+)

baixa renda e mais dependentes da localidade baseada na extração de recursos econômicos (por exemplo, agricultura, pesca). Alta densidade de áreas urbanas complicam a evacuação fora da zona de perigo.

Urbana (+)

Imóvel residencial O valor, qualidade e densidade das construções residenciais afetam perdas potenciais de reconstrução. A mobília das casas são facilmente destruídas, e menos resistentes aos riscos.

Mobília das casas (+)

Infraestrutura e linha da vida

Perda de rede de esgotos, pontes, água, comunicação e infra- estrutura de transporte compõem potencias perdas em desastres. A perda da infra-estrutura pode colocar encargos financeiros insuperáveis sobre as comunidades menores onde faltam recursos financeiros para a reconstrução.

Infraestrutura (+)

Profissões Algumas profissões, especialmente aquelas que estão envolvidas com a extração de recursos, podem ser severamente impactadas por um evento de risco. Pescadores sofrem quando seus meios de produção são perdidos e se vêem obrigados a se engajar em empregos com mais baixo rendimento.

Profissionais independentes (+)

Estrutura familiar Famílias com grande número de dependentes ou famílias monoparentais, com finanças limitadas, têm a capacidade de resiliência afetada para a recuperação dos danos.

Alta taxa de nascimento (+) Famílias grandes (+)

Educação Educação está ligada ao status sócio econômico. Ensino superior resulta em maior vida útil do salário. Baixa educação restringe a capacidade de compreender as informações e o acesso aos recursos de recuperação.

Baixa educação (+) Alta educação (-)

Crescimento da população

Em municípios que experimentam um crescimento rápido podem não ter tido tempo para se adaptarem às populações aumentadas.

Crescimento rápido (+) Serviços médicos Médicos, asilos e hospitais são importantes recursos de alívio pós-

evento. A falta de serviços médicos imediatos irá prolongar o socorro e a recuperação de longo prazo dos desastres

Baixa densidade de serviços médicos (+)

Dependentes sociais As pessoas que são totalmente dependentes dos serviços sociais para a sua sobrevivência já são economicamente e socialmente marginalizados, e exigem novos apoios no período pós-desastres.

Alta dependência (+) Baixa dependência (-) Populações com necessidades

Doentes, moradores em abrigos, sem-teto, apesar de difícil de identificar e medir, são desproporcionalmente afetados durante

População com necessidades

especiais desastres por conta de sua invisibilidade nas comunidades e são principalmente ignorados durante a recuperação.

especiais (+)

Quadro 2. Conceitos de Vulnerabilidade Social Fonte: Adaptado de Cutter, Boruff e Shirley (2001).

Observa-se, através dos conceitos descritos no quadro acima, que a vulnerabilidade social pode ser analisada não apenas como um fenômeno social ou biofísico, mas como uma complexa interação entre os dois. As discussões em curso sobre a utilização do tema da vulnerabilidade são especialmente úteis na medida em que dizem respeito a uma área que está intimamente ligada à pobreza e marginalização social, como é o caso dos moradores em favelas.

Da mesma forma que a pobreza e a marginalização social, os desastres naturais são também considerados como uma coincidência entre os riscos naturais (tais como inundações, ciclones, terremotos e secas) e condições de vulnerabilidade. “Existe um grande risco de desastres quando um ou mais riscos ocorrem numa situação vulnerável” (DELOR; HUBERT, 2000, p. 1561).

A idéia de populações em situação de risco consolida uma percepção dos pesquisadores de que perigos e riscos ambientais atingem de forma mais intensa populações vulneráveis (MARANDOLA JR; HOGAN, 2006). Os desastres, na maioria das vezes, trazem à tona as carências que caracterizam os lugares e as vidas de muitas pessoas.

Tanto a pobreza, como deficiências, certos estilos de vida, determinadas formas de produção, ou qualquer outro fator suscetível, contribuem para que determinados grupos humanos sejam atingidos com maior intensidade pelos desastres naturais. Isso explica o fato de que todas as pessoas que sentem as influências dos mesmos fatores, não sofrem da mesma maneira (DELOR, HUBERT, 2000).

De acordo com Wisner (1993), o desafio no campo da pesquisa da vulnerabilidade é criar maneiras de analisar a vulnerabilidade na vida cotidiana. Em outras palavras, a atenção deve ser dada às condições da vida real da população, a fim de discernir as potencialidades e as deficiências que podem torná-los vulneráveis aos eventos adversos.

Nesse sentido, Rodriguez (2001) sugere que a noção de vulnerabilidade precede a identificação dos grupos posto que exige especificar riscos e determinar tanto a capacidade de

respostas das unidades de referência, como sua habilidade para adaptar-se ativamente. Nesse sentido, a fragilidade das instituições e a falta de equidade sócio-econômica podem ser consideradas riscos, pois obstruem o desenvolvimento sócio econômico e impedem a coesão social.

A falta de ativos e/ou a indisponibilidade de estruturas nas favelas significam “desvantagens sociais”, ou seja, condições sociais que afetam negativamente o desempenho de comunidades, famílias ou pessoas. Implica em menor acesso (conhecimento e/ou disponibilidade) e menos capacidade de gestão dos recursos e das oportunidades que a sociedade dispõe. A pobreza é um fator de desvantagem pelas limitações que ela impõe aos indivíduos (RODRIGUEZ, 2001).

Para Rodriguez (2001), existe um conjunto de características demográficas que estão ligadas à capacidade das pessoas e/ou famílias de mobilizar os ativos disponíveis na sociedade. Essas características podem ser agrupadas em três dimensões, apresentadas a seguir:

a) Estrutura Familiar – nessa dimensão são destacados dois fenômenos que tendem a acentuar a vulnerabilidade: o aumento da uniparentalidade (a família formada por chefe e cônjuge teria melhores condições para atender os aspectos emocionais, financeiros, de tempo e de trabalho para a manutenção de um lar com dependentes menores), e o aumento da proporção de mulheres chefes de família (que teriam maiores dificuldades para o seu desenvolvimento quotidiano);

b) Ciclo de vida – famílias que se encontram nas etapas finais do ciclo (por restrições biológicas), e nas etapas iniciais (pela falta de experiência) tenderiam a apresentar maiores dificuldades para dispor de ativos;

c) Aspectos demográficos tradicionais – o tamanho da família (número de membros) seria um indicativo de vulnerabilidade já que o custo de sua manutenção é maior e, portanto, menor a capacidade de acumulação. Há também evidências empíricas de que os pobres vivem, em média, em famílias maiores, sendo que um maior número de crianças também implica em desvantagens para a família, no sentido de que os recursos se diluem na criação de menores.