Considerações iniciais
Com a globalização, a geografia mundial se desterritorializou. Em vez de nações, fala-se mais hoje em fluxos que atravessam o mundo (fluxo de imigrantes, turistas, refugiados, tecnologia, capitais, mercadorias, informações, imagens midiais, ideologias, lutas sociais…). Em termos culturais, fala-se em «tráfico de culturas», ou seja, um mundo em movimento, espaço de interações e de trocas culturais. Como forma de reação a alguns desses fluxos e trocas culturais « indigestas », desenvolvem-se ideais de separação, de segregação étnica, espacial, neo-racismos, de defesa da identidade, de culturas, fundamentalismos e purezas étnicas.
Políticas macroeconômicos lançadas a partir da metade dos anos 80 dificultaram o desenvolvimento econômico de muitos países, principalmente os exportadores de mão-de-obra. As mesmas estiveram atreladas aos recursos de poupança externa (via mercado de capitais atraídos por altas taxas de juro, crédito externo de agências internacionais tradicionais), controle da inflação através de política fiscal rígida, abertura comercial da economia (produzindo desindustrialização, importação elevada, terceirização e falências). No campo do trabalho e da renda, políticas neoliberais ampliaram a grave concentração de renda, o desemprego informal, elevado nível de endividamento do Estado, estagnação de salários, a redução da participação direta do poder público na produção, desregulamentação dos mercados e da concorrência, entre um conjunto extremamente alargado de fatores que refletem a conjuntura de pressão e de inserção de países desenvolvidos e que o Brasil entrou como sócio minoritário e incluído marginalmente, processo esse que refletiu e continua influenciando processos de saída de mão-de-obra do seu território.
Nesse cenário, empregos foram reduzidos, a informalidade ganhou contornos nunca vistos, a terceirização e o part-time, em geral, também informais, passaram a ser vistos como panacéia para toda e qualquer ação empresarial e de trabalho considerada de maximização para trabalhadores e principalmente para que contratam mão-de-obra. Empresas migram pelo mundo a fora em busca de fatores maximizadores principalmente de mão-de-obra e matéria-prima produzindo formas precarizadas e chantagens aos trabalhadores em geral, sejam os bem quanto os mal pagos.1Temos a impressão de que o capitalismo global conseguiu inventar, em meio aos direitos do trabalho, trabalhadores sem direitos, processo esse fundamental para a aceitação e inserção de mão-de-obra nas fronteiras transnacionais, impondo novos padrões gerais e privados de acumulação de capital. Dados atuais estimam que em torno de três milhões de brasileiros estão fora de seu local de nascimento e de seus maiores vínculos familiares.
Não temos dúvida em afirmar que a valorização ou desvalorização da presença migratória no horizonte do trabalho depende muito das relações e fenômenos os quais ela se associa. Ao mesmo tempo, entendemos, também, que a mobilidade populacional revela a importância do trabalho como categoria-chave para a compreensão do processo de reprodução do capital através do viés (e)(i)migratório. A reprodução do capital se serve também de alguns elementos sócio-culturais para reproduzir-se (redes sociais, relações de parentesco e de conterraneidade, tipos de mão-de-obra, relações de gênero, formas precárias de integração social, grupos étnicos e nacionais). Esse processo conta com a benevolência de políticas públicas que, por sua dependência de recursos (ainda que de curtíssimo prazo), pela abertura ingênua e subordinada aos capitais financeiros de alguns países, como é o caso do Brasil e do México, contribui para a formação e expansão de mercados mundiais e, como consequência, para o alargamento das desigualdades no
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Ver, DUPAS, G. Atores e poderes na nova ordem global: assimetrias, instabilidades e imperativos de legitimação. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
desenvolvimento, para a total submissão à mundialização financeira, ao desmantelamento do Estado-social.
As características das novas migrações internacionais se apresentam em primeiro lugar no grande aumento do número de países envolvidos nos fluxos migratórios tanto os de saída quanto os de chegada. Países que ainda não faziam parte da cena migratória agora o são por excelência (principalmente africanos e asiáticos). A segunda grande característica é a mudança da origem e da destinação, ou seja, países que até bem pouco tempo eram representantes dos considerados que emigravam, agora são os de imigração. Esse fenômeno acontece pós-anos 80 quando de uma época caracterizada de um fechamento rígido de fronteira, de uma tentativa de “defender-se” dos novos fluxos. Essas emigrações são basicamente fluxos de oferta comumente de países de pressão demográfica e de desequilíbrio entre recursos e volume populacional.
Exemplos disso são a Alemanha, o país mais desenvolvido da Europa atualmente, que, nos últimos dez anos, recebeu mais imigrantes (37.000 em 1986 para 262.000 em 1999, e,m torno de 312 mil em 2002, aproximadamente 9% da população total do país); os Estados Unidos receberam um contingente ainda mais elevado (400.000 de 86 a 2001, mais de 10% da população total); a Itália não fica tanto para trás (160.000 de 86 a 2001, aproximadamente 3% da população total). Na Europa, no ano de 2002, era em 25 milhões o contingente populacional que residia em países diversos dos atuais. Segundo os dados do World Population Prospect das Nações Unidas de 2000, a população em idade laboral era, de longe, a principal protagonista do processo migratório internacional. Enquanto a população americana e européia cresceu (de 1980 a 2000) a uma taxa de em torno 7%, os países de escasso desenvolvimento cresceram em 76% (MACIOTI; PUGLIESE, 2003). Com isso fica claro que o processo migratório se torna um elemento importante para reduzir a pressão demográfica de um lado e compensar a ausência em outro.
Não obstante, não há dúvida que as migrações internacionais carregam consigo fatores múltiplos em termos causais, podendo expressar variáveis de vários campos, dentre eles o econômico, o tecnológico, o jurídico, o étnico, o político, o antropológico e o bélico. Essas dimensões expressam uma questão social de amplitudes multi-estatais e multi-fronteiras. Porém, revelam que a centralidade do trabalho foi e continua sendo fundamental para o processo social, principalmente em suas novas dinâmicas sejam elas técnicas, informacionais, eletrônicas, virtuais que, em teoria, seriam redutoras da inserção de mão-de-obra no trabalho, na sociedade.
Sabemos que muitos países desenvolvidos, após os acordos de cooperação econômica (blocos econômicos) da década de 1980, deram um grande impulso aos processos de integração para os membros pertencentes. Porém, no que concerne aos imigrantes que não fazem parte dos países membros, permanece ainda um elemento de exclusão, ou se não de exclusão, mas de inclusão marginal, ou de inclusão pouca inclusa e/ou inconclusa, ou, ainda, de uma inclusão regrada por várias políticas e legislações de imigração que, ao sabor das circunstâncias, das pressões econômicas, políticas, étnicas e culturais, dos interesses eleitorais (como o vivido em períodos recentes nos EUA), etc., determinam fechamentos, flexibilidades, restrições, inclusões que, para se viabilizar, necessitam de muitas coisas que, nem as condições objetivas mais elementares são oferecidas.
Para se ter uma idéia desse processo todo, calcula-se que, no final do século XX, em torno de 120 milhões de pessoas viviam em países diferentes do de seu orignal, grande parte disso motivado por fatores político-ideológico e religiosos, mas acima de tudo, por motivo trabalho.
“A difícil e freqüentemente insuportável situação socioeconômica dos migrantes internacionais está sendo reiterada por uma difícil situação política e ideológica nos países industriais e ocidentais. Infelizmente, sob a pressão da concorrência do mercado mundial, não se desenvolve nesses países, assim como em todo o mundo, nenhum movimento adverso à socialização capitalista e suas impertinências. Ao contrário, está sendo creditada aos estrangeiros a culpa dessa situação. [...]. A retirada das fronteiras internas no mercado europeu vem sendo acompanhada por um fechamento das mesmas para o exterior” (TRENKLE, 1998, p. 43).
Desse modo, globalização econômica, tecnológica, do desenvolvimento e da mobilidade espacial são dinâmicas que se complementam, algumas vezes em conflito, outras em adequação/adaptação, porém, ambas imprimem racionalidade na velocidade, no encurtamento do tempo e do espaço para atingir seus objetivos. A realidade atual demonstra que a mundalização financeira é hegemônica em relação ao capital industrial e comercial (em alguns casos, ambos estão imbricados e correlacionados); há um aumento da liberdade e velocidade de circulação monetária, da chamada internacionalização da economia mundial; um movimento intenso do capital, em correspondência/contraposição à mobilidade de imigrantes, bem como da economia criminal em escala internacional. É por isso que se pode deduzir que as migrações internacionais não possuem só o lado instrumental, principalmente econômico, expresso nas formas de trabalho; as dimensões culturais, políticas, sociais e antropológicas caminham juntas no porcesso e não podem ser descuidadas. As novas formas de internacionalização de mercados fizeram também crescer as formas de mobilidade humana e as caracterizou pela sua multidirecionalidade e pela dimensão geográfica do fenômeno.
Dito isso de uma forma genérica, par ao presente texto, faremos algumas considerações sobre aspectos do trabalho no cenário de migrações internacionais. Mais especificamente refletiremos sobre alguns tópicos da realidade de trabalhadores brasileiros na Itália, no Japão e nos Estados Unidos com a intenção de perceber alguns dos grandes processos que dimensionam o mundo do trabalho no contexto atual e como são manifestos no cenário das migrações externas.2 Sobre aspectos da realidade de brasileiros na Itália, concluímos um estudo específico em 2003. No tocante aos outros dois espaços, nos basearemos em revisão de algumas análises produzidas nos últimos anos.3
a) Um novo horizonte na agenda política mundial
Muitos analistas sociais já deram ênfase ao avanço da racionalidade técnico-econômica de determinados espaços do ocidente, principalmente dos Estados Unidos e da Europa, centralizando aspectos como modernidade, industrialização, cultura, ciência e da técnica. A idéia de modenidade ocidental passou a ser sustentada pela idéia de progresso. Essa força indutora e de agressão as outras culturas, as resistências, as tradições, a vida rural camponesa... vem agora reforçada pela globalização econômica, financeira e cultural, mediada pela estrutura midiática e pela desterritorialização, uniformização das aspirações e secularização social (LATOUCHE, 1992).
A diversidade cultural é muito anterior ao processo imigratório e a globalização, ainda que com esses tenha ganhado mais visibilidade e consistência tanto da suas problemáticas quanto de sua solução. Identidades outras que não sejam as de estrangeiro coabitam em cenários de sociedades complexas. Os grandes fluxos migratórios, da atualidade, estão intensificando a produção de sociedades multi e interculturais, mais a primeira (que sempre existiu) do que a segunda.
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O presente texto foi escrito como subsídio para discussão numa aula que ministramos no Mestrado em História da UPF, no final de 2004.
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Ver TEDESCO, J. C. Imigração e integração cultural: interfaces. Porto Alegre/Passo Fundo, 2003. Dentre outros, ver OCADA, F. K. Trabalho, sofrimento e migração internacional: o caso dos brasileiros no Japão. In: ANTUNES, R.; SILVA, M. A. M. (Orgs.). O avesso do trabalho. São Paulo: Expressão Popular, 2004, p.153-206; PATARRA, N. (Org.). Emigração e imigração internacionais no Brasil contemporâneo. V. I, São Paulo: Unicamp, 1995. CASTRO, M.L. O fenômeno dekassegui – os trabalhadores nikkei brasileiros no Japão. São Paulo em Perspectiva, v. 8, 1994, p. 102-106. FLEISCHER, S. O trabalho de emigrantes brasileiras: conflitos entre housecleaners brasileiras e suas clientes americanas. In: TEIXEIRA, C. C. Em busca da experiência mundana e seus significados: Georg Simmel, Alfred Schutz e a Antropologia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 167-207; SALES, T. Brasileiros longe de casa. São Paulo: Cortes, 1998; MARTES, A. C. B. Brasileiros nos Estados Unidos: um estudo sobre imigrantes em Massachusetts. São Paulo: Paz e Terra, 2000; SALES, T.; REIS, R. R. (Org.). Cenas do Brasil migrante. São Paulo: Boitempo, 1999; CASTRO, M. G. Latinos nos Estados Unidos: unindo américas, fazendo a américa de lá ou perdendo a nossa américa? In: ADORNO, S. (Org.). A sociologia entre a modernidade e a contemporaneidade. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1995, p. 227-241, cit., p. 229.
O fenômeno migratório, nos últimos 20 anos, intensificado pós-anos 2000, tornou-se já prioritário na agenda política de muitos países, principalmente os recpetores. Alguns autores colocam que os imigrantes irregulares hoje formam um sexto continente, porém geográfica e culturalmente desterritorializados e sob regimes e orientações jurídicas e políticas deversas. As migrações internacionais seriam, dessa forma, a expressão mais pura das contradições da globalização econômica. O assunto é quase que matéria obrigatória diária dos grandes jornais americanos e europeus, principalmente no que tange à falta de controle público e a necessidade de novas regulamentações, bem como em torno aos contatos e problemas culturais. Atualmente até uma novela global resolveu centralizar o tema correlacionando brasileiros nos Estados Unidos.
Sabemos que países ricos convivem, intencionalmente ou não, numa situação ambígua com o fenêmeno migratório, ou seja, ao mesmo tempo em que, concretamente, necessitam de mão-de-obra, querem evitá-la; necessitam de população (variável consumo), porém colocam barreiras para a sua inserção. O que parece consensual é a necessidade econômica dos fluxos de migrantes, porém, quantos, quem, como, para que, e até quando, não há uma política comum, partindo do pressuposto, é evidente, que se poderia haver instrumentos políticos e burocráticos para tanto, ou seja, de que o fenômeno passaria meramente pelo canal político, o que se sabe não ser totalmente verdade.
A imigração, desse modo, apresenta-se como um processo, como um fenômeno não-estático, construído socialmente por meio de interações entre grupos e forças sociais (imigrantes de etnias variadas, instituições públicas, políticas e jurídicas, o mercado de trabalho, agências recrutadoras de mão-de-obra…); apresenta-se, também, como conexão entre níveis micro e macro da produção dos fenômenos sociais e dos processos que fazem a mediação entre aspectos estruturais e ações individuais.
Ter presente o fenômeno migratório numa perspectiva processual implica colocar em correlação o aspecto emigratório e o aspecto imigratório. O mesmo não pode ser visto como uma dimensão linear e, sim, circular e alimentada pelos fluxos de partida, de chegada, de retorno ou não.
b) Úteis invasores
Não há dúvida que os grandes processos relacionais e estruturais que normatizam e orientam a esfera do trabalho na contemporaneidade estejam no centro das grandes questões do processo migratório internacional. Dentre essas alterações poderíamos elencar algumas: globalização de mercados, o neomercantilismo que redefine novos formatos das políticas públicas e do papel do estado, blocos comerciais, desemprego estrutural, desterritorialização do capital e do trabalho, desassalariamento, desindicalização, mercados administrados (quotas, joint-venture, controle de qualidade, dumping, tarifas, oligopólios/oligopsônios...), informalidade, terceirização, desregulamentação (flexibilização produtiva, de mercados, na esfera do legislação trabalhista, etc), empregabilidade, industrialização difusa, feminização do trabalho, pós-industrialismo, intersetorização, trabalho imaterial, terceiro setor, desnacionalização das políticas e da vida econômica, financeirização (crise de investimentos produtivos), dívida externa, nova hegemonia americana, reformulação da geografia política, econômica e cultural da Europa, desenvolvimento das chamadas sociedades complexas (multiculturais, multiétnicas, multiraciais...), transnacionalização de um conjunto de fatores (econômicos, culturais, políticos, de direitos, de lutas...), aumento dos problemas e demandas sociais, crescimento da economia informal e da ilegalidade,
Entendemos que resulta cada vez mais imperiosa a evidente exigência de mão-de-obra imigrada para o sistema produtivo, principalmente no campo dos serviços, e para a esfera do consumo no interior de países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, por exemplo, nos últimos 10 anos, os imigrantes, já representam uma elevada e crescente quota da força de trabalho nacional, da classe operária, essa marginal ou não, bem como os índices de crescimento do consumo são expoentes devido ao aumento da população imigrada. Os imigrantes reproduzem, desse modo, processos de
diferenciação regional no interior do país, auxiliando no desenvolvimento de determinadas regiões e empobrecendo outras.
Segundo Portes (apud CASTRO, 1995, p. 229), a “nova lei de imigração estabelece rígidas quotas de vistos por países e tipos de migrantes [...]; um sistema de preferências por países; sanções para os empregadores de ‘indocumentados’ e, indiretamente, restrições ao acesso destes imigrantes – ‘os ilegais’- ao seguro desemprego, assistência médica e outros benefícios conquistados pelos trabalahadores nos Estados Unidos. Reconhece-se que a mão-de-obra migrante vem satisfazendo a demanda da força de trabalho nos Estados Unidos. Empresários da indústria de roupas,em particular os de ateliês [...], os donos de firmas de produtos eletrônicos, de restaurantes e outros que tipicamente empregam imigrantes declaram que se não contassem com tal mão-de-obra teriam que fechar seus negócios”.
Aspectos estruturais principalmente no campo da produção, da tecnologia e das políticas públicas estão sempre produzindo, aqui ou lá, processos de mobilidade. No México, nos últimos 30 anos, dezenas de milhares de pequenos agricultores haviam abandonado a agricultura e muitos desses foram trabalhar nos Estados Unidos como trabalhadores manuais na agricultura. Junto com a mecanização constituiu-se a mexicanização da agricultura americana! O aumento das desigualdades socieconômicas motiva segmentos crescentes de população a tomar a via da emigração. A decisão de emigrar apresenta-se como estratégia de diversificar os riscos; alguns membros da família emigram para propiciar melhores condições aos que ficam.
Um dos grandes temores desse processo migratório para as sociedades de destino, é que essas sejam incapazes de governar/controlar os fluxos crescentes de migrantes, os quais carregam consigo culturas diversas e diversas dos hospedeiros. São conhecidos já os processos de discriminação no campo de trabalho entre negros (sejam eles migrantes ou autóctones) e brancos e, entre esses e os imigrantes em geral, com maior exclusão para os negros pobres e sem profissão e, dentre esses e os ilegais. Na Itália e nos Estados Unidos essa realidade é bem clara (AMBROSINI, 1999).
Os movimentos migratórios em direção aos Estados Unidos e a Europa Ocidental e, também, ainda que com menor intensidade, ao Japão, expressam esse cenário constituído do movimento de mundialização, de deslocalização industrial e de flexibilização da esfera do trabalho e das fronteiras econômicas.
Nesse sentido, políticas são acionadas, muros físicos, esquadrões de fronteiras, ações repressivas se apresentam. Não obstante, a migração continua e, continua sendo útil e necessária às sociedades hospedeiras. As legislações e as medidas restritivas à imigração tendem ser mais eficazes em produzir representações sociais contra os imigrantes no interior das sociedades hospedeiras e torná-los inferiorizados e potencialmente criminosos.
As migrações internacionais tornam-se os amortizadores da economia globalizada. Obrigados a trabalharem, em muitas circunstâncias, ilegalmente, sujeitos à exploração,4 correndo riscos de vida,5 suportar os riscos e as consequências do trabalho clandestino, trabalho perigoso e outras formas de abuso e discriminação, migrantes de países pobres do mundo inteiro mobilizam-se em direção aos espaços de atração, de mobilidade de fatores, principalmente de trabalho e renda.
c) Politização das migrações e o papel ativo dos imigrantes
Com a crise do sistema fordista e sua consequente reestruturação produtiva, de gerenciamento do trabalho, de logística produtiva e mercantil, de penetração de produtos no mercado... está em processo uma nova divisão internacional e regional do trabalho para a valorização do capital, uma
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O Serviço de Imigração Americano gasta, todo o ano, em torno de 2 milhões de dólares na potenciação da defesa na fronteira com o México, porém faz vista grossa no controle policial das indústrias que utilizam trabalhadores imigrantes clandestinos. Acredita-se que 50% dos trabalhadores agrícolas americanos sejam ilegais (PUGLIESE, 2000).
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A Associação dos Trabalhadores Marrochinos na Espanha calcula que, de 1995 até 2000, mais de 3.000 pessoas morreram afogadas fruto das barreiras defensivas e das péssimas condições de navegação; ver Jornal Corriere della
produção de desiguladades regionais mais acirrada com produção de espaços marginais dessa estrutura econômica, financeira e tecnológica. Isso se reflete nos estados nacionais de pouca presença dos referenciais condutores e poderosos que a globalização impõe, principalmente os de setores terceirizados, desregulamentados e informatizados.
Há uma crescente feminização das migrações no interior dos fluxos, em alguns casos, sendo as mulheres as que lideram os índices;6 há uma politização das migrações no sentido de sua regularização nos países de chegada; políticas restritivas, o medo da chegada de imensos contingentes; em alguns países, o controle de saída; o problema dos refugiados, do horizonte das fronteiras fechadas... enfim, um conjunto de situações que demanda políticas migratórias controladas comumente pelos países de chegada;
Os imigrantes desenvolvem um papel ativo na sociedade; lançam mão de vinculos, estratégias, enfim, processos que se alimentam de relações sociais que constróem redes sociais; as decisões dos grupos sociais, os quais, em conjunto, contendo indivíduos e grupos distribuídos em espaços diferentes, maximizam as suas oportuniddes econômicas mediante formas variadas de transferências que se retroalimentam (parentesco, apoio na viagem, alojamento, busca de trabalho, amenização da dificuldade de ambientação…) ao mesmo tempo poderão amenizar a instabilidade, a precariedade e a dificuldade econômica dos que permancem nos locais de origem (VÁRIOS AUTORES, 1998).
As redes favorecem também a imigração clandestina, movendo-se habilmente entre canais legais e ilegais. Muitas dessas redes podem se transformar numa grande intermediação de negócios internacionais, negócios do corpo, da burocracia pública e jurídica, da intermediação financeira, do trabalho ilegal e clandestino, do contrabando de clandestinos e de mercadorias, na facilitação das entradas fronteiriças, costas marítimas7 e ponte-aéreas.
As migrações colaboram para desenraizar, excluir e incluir marginalmente, produzir uma condição que objetiva vender força de trabalho para uma de trabalhador à procura de trabalho, produzido pelo aumento do desemprego, da exigência de qualificação, da dificuldade e elasticidade temporal da reinclusão, da inclusão marginal tanto no mercado de trabalho quanto na integração social, das formas precárias e de rebaixamento da média salarial nos espaços de presença de migrantes, da terceirização do trabalho e da quase total ausência de responsabilidade de reprodução da força de trabalho pelo capital...
Autores enfatizam a radical mudança na demanda de trabalho nos países desenvolvidos, ou seja, a estrutura ocupacional da imigração do terceiro mundo varia de país a país na Europa e, também, dentro das regiões dos próprios países. Há espaços em que a agricultura não demanda tanta mão-de-obra, a indústria também se reestruturou em termos de espaço de trabalho e de horizonte ocupacional em geral. A questão básica aqui é que grande parte dos imigrantes é colocada numa faixa secundária do mercado de trabalho em ocupações geralmente pouco duradouras e não regulamentadas.
“O mercado de trabalho norte-americano é rigidamente segmentado, circulando os imigrantes, em especial os latinos, no chamado mercado secundário, em grande parte, como trabalhadores não especializados na indústria e no setor de serviços pessoais e de alimentação, desempenhando tarefas que aferem mais baixa remuneração e prestígio, não atraentes aos brancos norte-americanos”.8
Esses aspectos demonstram que, na modernização e na racionalização econômica e política pós-industrial-global e sua doutrina de competitividade e produtividade, nem tudo é moderno. A
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Na Itália, em 2001, existiam 227.249 trabalhadores estrangeiros em famílias italianas (60% desses trabalhadores possuia idade entre 21 e 40 anos). As mulheres detêm quase 90% desse espaço de trabalho. A presença de filipinas é de 32,1% do total, seguida do Peru e do Sri Lanka com 10%; o Brasil participa com 1,5%.
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Segundo Stalker, de 1993 até final de 2002, 1.574 pessoas morreram ao tentar chegar à Europa. Essas mortes compreendem só rios e mares e, são dados oficiais. Estima-se uma quantidade triplicada de mortes não documentadas. Em junho de 2003, desapareceram nas águas do Mediterrêneo mais de 300 imigrantes que tentaram chegar na costa marítima do sul da Itália, grande parte desses era proveniente da Turquia e da Albania. STALKER, P. L’immigrazione. Roma: Carocci, 2003.
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reprodução da exclusão social e a criminalização dessa, as novas formas de condições de neo-escravo inferiorizado, as políticas de assistência social cada vez mais intolerantes e incapazes de promover ações efetivamente alternativas… atestam a ausência de uma cidadania para todos e de uma inclusão marginal de imigrantes.9
É comum, em alguns países da Europa, EUA e Japão, setores de ponta no campo industrial, absorverem e necessitarem trabalhadores de baixa qualificação. Alguns autores colocam, tentando expressar a representação construída pela sociedade autóctone sobre os imigrantes, que os mesmos são importantes só até as 8 horas da tarde/noite, até o final do trabalho!
Aparentemente, é possível dizer que os fluxos migratórios causam desenvolvimento nos países de destino. Estudos demonstram que, ainda que não atribuindo como causa única, países que receberam imigrantes, nas últimas décadas, tiveram crescimento econômico; é o caso dos Estados Unidos que dobrou sua população nos 100 últimos anos e se tornou sempre mais rico; da Itália, Austrália, Canadá, Alemanha e Japão são exemplos disso.
De uma forma ainda que superficial e aparente não dá para negar que desde o momento em que migrantes adentram no país hospedeiro, estão produzindo serviços, promovendo consumos, gastando dinheiro; criam um conjunto imenso de atividades invisíveis.
Os imigrantes rejuvenescem a população, fazem mais filhos, costumam casar-se, e, comumente, mais cedo que os europeus ocidentais, ainda que estudos demonstrem que imigrados no país hospedeiro têm reduzido em muito o número de seus filhos, tornam-se sensível às diferenças entre um país e outro e, como consequência, reduzem a taxa de fertilidade. É o caso das argelinas na França, os albaneses, filipinos e marrochinos na Itália, mexicanos nos Estados Unidos.
d) Migrantes e a precarização do trabalho
Não há uma ligação imediata entre imigração e informalidade e, também, entre esta e a precarização do trabalho. Essa se apresenta independente daquela. O que pode acontecer é que, com o fenômeno migratório internacional, haja uma maior intensidade, pois algumas características que a compõem lhe são favoráveis.
A informalidade possui um caráter pluridimensional, diversificado, evolutivo, complexo, não facilmente reduzido a categorias unicamente econômicas. Flexibilidade, exploração e produtividade são categorias-práticas que a compõem. No caso da imigração, ilegalidade, baixo custo, precariedade, segmentação do trabalho, dependência, etc., também são partes integrantes e constituintes do contexto.
É inegável que o trabalho sazonal na agricultura permitiu o desenvolvimento da informalidade no setor; não dá para negar que o trabalho doméstico facilita o gênero do trabalho informal. O alto índice de prostituição que comumente está relacionado à imigração tanto de homens quanto de mulheres, tende a ser irregular e, consequentemente informal. Muitas formas empreenditorias étnicas ou não, a qual utiliza mão-de-obra familiar, de famílias étnicas, desenvolvem, sobretudo, a irregularidade nas relações de trabalho.
As novas exigências e formas organizacionais do mercado de trabalho, a interação entre oferta e demanda de trabalho, a capacidade das instituições de controle econômico de restringir ações de trabalho e de comércio informal, o fato do imigrante (principalmente o irregular) em conceber sua presença no país por um tempo curto e a necessidade de acumular mais rapidamente possível uma soma financeira que lhe permita investir no país de origem, o papel das redes étnicas que facilitam certas inserções no espaço de trabalho… são elementos macro e micro que dinamizam, diferenciam, evolucionam, dão funcionalidade ao “setor”.
A informalidade é dinâmica pela sua heteogeneidade, mutação, ambiguidade entre reprimir e permitir, funcionalidade de um lado, disfunção de outro, correlação profunda com o setor formal, complementaridade com o funcionamento do sistema socioeconômico ligado à crise de controle e
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ação social do welfare, concorrência intersetoril e econômica em geral (busca de flexibilidade, externalização de serviço, terceirização e fragmentação produtiva).
Atribuir a imigração clandestina como causa da disfunção social e no mercado de trabalho é, no mínimo, exagero ideológico e entender a causa pela consequência. A complexidade das variáveis em jogo vão muito além da presença de imigrantes e, desses, os clandestinos.
É comum na literatura sobre o tema a ênfase a informalidade como fator de acomodação social, de maior facilidade de controle social. Ambrosini (1997) coloca que uma hipotética regularização do trabalho submerso, dos serviços, nas condições atuais, poderia incidir fortemente sobre o custo do trabalho, deprimir a estrutura de demanda do consumo, reduzir a produtividade, maior absenteismo, acentuada pressão, garantia e tutela dos serviços públicos, reduzida capacidade de concorrência da agricultura italiana e de seu modelo de indústria média e pequena. No entanto, é evidente que a informalidade e sua correlação com a imigração não pode ser vista numa perpspectiva de fatalidade. Porém, sabe-se que esse processo expressa o emblema da inserção da ação econômica dos imigrantes vinculada a uma rede social de interações culturais, politicas, afetivas, de trajetórias e situações individuais e de formas de inserção no mercado de trabalho.
O setor terciário (serviços), ainda que não estando em primeiro lugar na alocação de imigrantes, é o espaço que mais cresce, e o que está se apresentando como de maior privilegiamento das novas migrações internacionais; são, em geral, atividades de baixo prestígio, sem qualificação, com baixa remuneração, elevada precariedade e mais expressivo da informalidade; é a chamada faixa secundária do mercado de trabalho; excluídos do sistema de garantias. Esse setor, pela sua diferenciação, fragmentação de atividades e reduzida performance laboral, dificulta processos de integração social dos imigrantes.
A crise do modelo fordista, ou seja da grande empresa localizada, da estabilidade ocupacional, das garantias salariais e sindicais… cede lugar ao chamado pós-fordismo. Esse se caracteriza, em linhas gerais, pela produção fragmentada, descentralizada, empresas de pequenas dimensões, especialização flexível, redução da relevância da ocupação industrial e do papel do estado no gerenciamento da economia, redução da ocupação agrícola e o aumento do terciário, do trabalho independente/autonomo, da instabilidade ocupacional principalmente na grande indústria moderna, da mobilizaçao da oferta de trabalho não-tradicionais, espaço esse para trabalhadores a margem do processo de trabalho, no caso em questão, para os imigrantes. O pós-fordismo localizou, alimentou e se serve dos fluxos imigratórios.
Deduzidos dessa situação, ficam fragilizados os mecanismos de integração socio-cultural; desenvolvem-se mais os efeitos de isolamento, discriminação, fechamento cultural, conservadorismo, guetização marginalizante, impermeabilidades dos universos simbólicos que constituem suas culturas.
Para as mulheres, o problema da discriminação subterrânea no mercado de trabalho assume formas graves e mais complexas ainda. Serviços domésticos, assistenciais, de limpeza do lar… por serem, em grande parte, informais, temporários, fragmentados em vários espaços sejam do lar ou não, são poucoou nada reconhecidas e muito pouco levadas em conta as competências profissionais das imigrantes. Esse processo submete as trabalhadoras a horários, serviços, condições de trabalho não mais aceitos pelas nacionais.
Os imigrantes se encontram frequentemente coadjuvantes e também prisioneiros das redes de pertencimento, as quais não colaboram para promover a qualificação dos imigrantes e, sim, para cobrir nichos de mercado de trabalho flexíveis; muitos trabalhadores qualificados (diplomados, técnicos, profissionais), ao se inserirem nesses espaços em rede, não conseguem colocar em prática sua aprendizagem.
O problema se apresenta pelo fato de que, desvinculados dessas mediações, torna-se mais difícil encontrar trabalho em geral; há uma grande tendência de absorção de imigrantes em nichos de trabalho sazonais (colheitas agrícolas, bares e restaurantes, restauros e atividades de infraestrutura…), o que contribui ainda mais para expô-los à precariedade ocupacional.
e) O trabalho como geração de divisas no além-fronteira
A saída de pessoas de um país pode significar um desastre como também uma excelente fonte de renda. O que está em jogo é a saída de capital humano e a possível entrada de um fluxo de capital financeiro significativo para o país.
O governo filipino, por exemplo, deu boas vindas aos 100.000 emigrantes que reentraram para o país por ocasião do Natal de 2000. O país possuía, em 2000, 5 milhões de cidadãos no estrangeiro (6% da população). O referido governo se sentiu grato pelos 7 bilhões de dólares que seus migrantes mandaram nos últimos anos. É também o caso do governo mexicano que trata seus emigrantes como heróis, pois, recebeu, em 2001, o equivalente a 2,5% do PIB com remessas de imigrantes. As remessas oficiais enviadas dos estrangeiros soggiornati na Itália, no ano de 2001, atingiram 749.369 milhões de euros, com aumento de 27,4% em relação ao ano de 2000. Em 1999, o Brasil recebeu em torno de 1.200 milhões de dólares de remessas de emigrantes. Alguns países como Cuba, Yemen (esse 26,% do PIB) e El Salvador (12,3% do PIB) expressam a importância dessas entradas (CARITAS, 2000).
Os benefícios econômicos, muitas vezes, subsumem ou escondem os problemas sociais das emigrações nos espaços de origem para famílias em termos de gerenciamento, afetividade, contatos familiares, parentesco, mudanças culturais, etc.
O imigrante é visto pela sociedade hospedante pela sua funcionalidade ao sistema produttivo. Esse processo faz perder de vista a trama de relações sociais, familiares e simbólicas com o passado, com as intenções pessoais do presente.
f) Migrantes e seu grau de fragilidade
O imigrante, por ser migrante, encontra-se num estrado de fragilidade. Em primeiro lugar, a ele é atribuído grande parte dos males e das situações de marginalidade social, de alteração cultural do país; fragilidade de si próprio (em termos econômicos, políticos e culturais) e pela privação de cidadania política a qual não lhe possibilita canais de expressão pessoal; fragilidade pelas dúvidas, incertezas e medo em relação à possibilidade de não conseguir entrar no país, ou, então, de permancer e não encontrar trabalho, de constituir relações sociais ainda que frágeis e incipientes; fragilidade por ser visto como um outro, como antagonista ao autóctone, como diferente; fragilidade porque não lhe são oferecidas facilidades nos dois âmbitos fundamentais da vida social: trabalho e moradia, pode-se ter um e dificultado o outro, ou, então, os dois estarem em situações de dificuldade; fragilizado porque não possui aceitação imediata e recíproca do autóctone, ao contrário, na maior parte dos casos, é estigmatizado e distanciado.
Pode-se lhe atribuir fragilidade também porque é completamente ignorado seu sistema de vida anterior à emigração, aliás, ignorado, não, é estigmatizado e preconceituado na ótica da discriminação e da marginalização, produzindo temores e riscos de insegurança, dificuldade de pertencimento, cimentando, com isso, a possibilidade de um fenômeno de difícil leitura; fragilidade porque constantemente é objeto de grandes discussões e polêmicas políticas, manchetes midiáticas negativas e obsoletos interventos normativos pela via das constantes alterações de dispositivos das políticas migratórias. Não se diz que grande parte dessa ralidade no mercado de trabalho é fruto da disponibilidade do imigrante em inserir-se em segmentos menos qualificados do setor produtivo e ignorados dos autóctones. Com isso, não se divulga a importância dos imigrantes para a economia e para o mercado de trabalho e, sim, produz-se só horizontes de patologias.
g) Os vínculos em redes
Os imigrantes localizados já no país hospedante exercem uma grande influência sobre os sucessivos desenvolvimentos do processo, servindo como ponte, interligação, cadeia… Porém, é evidente, esse proceso não pode ser visto à margem ou independente dos processos econômicos que
envolvem o mercado de trabalho principalmente de uma economia pós-fordista no campo das relações e das exigências sociais. “Se é everdade que não é mais a demanda a hegemônica na determinaçao do funcionamento do mercado de trabalho nos cofrontos dos imigrantes, parece excessivo inverter o sinal das relações de causação e suporte que seja a oferta de trabalho imigrada a determinar os comportamentos da demanda ou criar autonomamente fluxos relevantes de ocupação” (AMBROSINI, 2000, 50).
“Os fluxos migratórios tendem a ser fortemente influenciados pelas redes sociais, que contribuem não apenas para fornecer os referenciais do local de destino, como a acomodação inicial do imigrante e sua inserção no mercado de trabalho. [...]. A solidareiedade e a ajuda mútua de um lado, e o egoísmo, expresso pelas situações de divisão e conflito, de outro, constituem na verdade as duas faces da mesma moeda, a moeda do network ou redes sociais” (SALES, 1998, p. 61 e 64).
As redes, além de sua dimensão afetiva, espacial, familiar…, adentra para o campo dos negócios étnicos. As atividades nesse campo são variadas, comumente não havendo grande intermediação e correlação com o inteiro mercado, malgrado seu alto e eficiente grau de racionalidade econômica; repondem às exigências de uma particular comunidade imigrada fornecendo produtos no mercado “normal”. Em geral, essas empresas prestadoras de serviços se identificam com as raízes étnicas de pertencimento. É um espaço considerado também de refúgio de muitos imigrados que não conseguem se inserir em espaços mais legitimados no campo de trabalho, é o caso de ambulantes que vendem produtos típicos aos “seus” e à população em geral (CONTI, 1998).
É bom ter claro que as formas de inserção dos imigrantes na realidade econômica dos países hospedeiros apresentam níveis e formatos de uma realidade fragmentada e dinâmica; pode ser uma inserção suplementar (ocupar espaços vazios deixados “pelos outros”, consciente e propositadamente), complementar (fruto da dinâmica de setores produtivos que demanda a necessidade de mão-de-obra), adicional (trabalhos em espaços pouco atrativos e de baixa concorrência como é o caso da agricultura e da construção civil), independente (como empreendedor ou prestador de serviços) e marginal (espaços deslocados da dinâmica entre oferta e procura, trabalhos submersos…).
O setor cooperativo é outro que se desenvolve com a inserção de imigrantes; pode ser de trabalho, como instituição facilitadora e mediadora do ingresso no trabalho, na documentação, na burocratização oficial necessária para inserção no campo ddo trabalho e da permanência no país. No entanto, análises demonstram que muitas cooperativas são meras agenciadoras de mão-de-obra ganhando duas vezes mais do que cada trabalhador recebe pelo trabalho mediado por elas; há uma espécie de discriminação silenciosa colaborando para tornar o trabalhador dócil, flexível em termos de horário e de atividades exercidas.10
f) O gênero no trabalho e o trabalho de gênero
Em 2000, 48% das migrações internacionais era composta por mulheres; em alguns países as mulheres chegam a ser a maioria como é o caso do Sri Lanka, Filipinas e Indonésia (STALKER, 2003). As histórias de vida individuais das migrantes femininas ou dos elementos que as envolvem são muito mais problemáticos do que os dos homens, principalmente no campo da cultura, do mercado do sexo, dos valores de sociedades patriarcais…
A força de trabalho feminina continua a ser vista como subsidiária com respeito as carências e flexibilidades que as agências e estruturas sociais apresentam; são manifestação da crise do estado social no tocante a assistência familiar, aos anciãos, aos portadores de deficiências, no trabalho de enfermeira…; adentram para o terceiro setor, para horários anômalos no comércio, nos restaurantes, se apresentam como mulher e mãe num processo de reprodução de uma força de trabalho estrangeira cada vez mais estrutural na sociedade (DUSI, 2000).
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Já vimos que, com crise do sistema de welfare principalmente em setores mais sensíveis como são a família e os idosos, o trabalho doméstico configurou-se já como um componente estrutural do mercado de trabalho. É a chamada feminização no setor serviços do mercado de trabalho. O trabalho doméstico talvez seja expressão mais nítida da cadeia migratória, pois se constitui por familiares, amigas, vizinhas, parentes que se auxiliam em encontrar trabalho (FLEISCHER, 2000).
A composição demográfica da imigração também se alterou; ou seja, há uma presença feminina quase em paridade com a masculina; grande tendência de sazonalidade de trabalho e de permanência como imigrante; ausência de normas regulativas de ingresso em momentos e altamente restritivas em outros; a forte absorção no trabalho terciário em correspondência com acrise do welfare e do sistema fordista; alteração de sistemas políticos e econômicos e o aumento da emigração (como é o caso de países do Leste Europeu); aumento intenso de refugiados na categoria de imigrantes.
As imigrantes domésticas ou que atuam em cozinhas de restaurantes, são pessoas comumente com larga experiência em atividades do lar no país de origem. Análises demonstram que, devido a oferta de trabalhadores no setor, está havendo uma passagem do trabalho fixo para o “por hora” (part-time), acompanhado da independência habitativa, sendo essa com a família ou com pessoas outras (comumente conterrâneas).
O trabalho da mulher atesta a importância do trabalho imigrante na dita sociedade pós-industrial: funcional ao equilíbrio econômico e social num cenário da imigração. Sua presença atesta as transformações no horizonte familiar (separação de famílias, dos filhos…), da afetividade, de emancipação, de socialização da dependência e da obrigação a permanecer grande parte do tempo e sua existência no lugar de trabalho (no caso mais para as domésticas), de integração marginal e subalterna.
Apresenta-se uma espécie de feminização da imigração. O mercado de trabalho, nos últimos anos, abriu muitos espaços para o gênero feminino principalmente no terceiro setor e, desse, em especial, na prestação de serviços (saúde, turismo, espaço doméstico, lazer, estética…). Pode-se inferir que essa tendência no mercado de trabalho tenha reflexos na dinâmica imigratória.
Autores colocam algumas outras características da presença desse trabalho considerado de gênero, dentre elas estão os trabalhos pouco regulamentados, de intensa flexibilização temporal e espacial, e, alguns casos, como o de residência, apresentam-se longos turnos, variabildiade de remuneração em termos de tipo de contrato, do contexto territorial, da nacionalidade de origem, da vizinhança cultural da mediação quando da contratação de trabalho (parentes, indicações de amigos, cooperativas de trabalho...) (DE FILIPPO, 2000).
Estudos de gênero na imigração alertam para a profunda exploração, a total desregulamentação do trabalho, a ausência de uma rede social de serviços, as privações culturais, os assédios masculinos, a debilitada visibilidade institucional e social, a segregação no espaço de trabalho, a total desvalorização do estudo e da experiência profissional, dentre outras questões em que as domésticas estão expostas (DE FILIPPO, 2000).
Nessa questão do gênero na imigração, não dá para esquecer da família. Por mais que a imigração atual tenha grande performance de indivíduos singulares e não de famílias, essa não pode ser ignorada. A família, se não migra, não significa que esteja ausente objetiva e subjetivamente. A migração, no fundo, constitui-se fortemente como um evento familiar ainda que a mobilidade especial seja de membros e não de todo o grupo. Aspectos financeiros, demográficos, afetivos… estão presentes na condivisão dos que emigram e dos que ficam. Muitas vezes, a fragmentação, a saída de alguém serve para propiciar a permanência de outros e/ou para manter a unidade familiar, para melhorar as condições de existência do todo (SALES, 1998).
g) Desejos de “mudar de vida” num cenário de relações difíceis
Não há dúvida de que a imagem da presença estrangeira se apresenta como estranha e inquietante, principalmente nos Estados Unidos em razão das políticas de vigilância anti-terroristas
dos últimos anos. Não é mais tão incomum a repatriação de imigrantes considerados ilegais no país. Pouco tempo atrás nos Estados Unidos foram fretados dois aviões transportando imigrantes que foram obrigados a retornar ao Brasil. Para outros países, principalmente do centro-américa, já não é mais novidade. O caso da Itália em relação a países do norte da África é uma prática já quase que cotidiana, já não sensibiliza e nem toca mais a população do país hospedeiro.
A tensão na relação entre imigrantes/residentes, como já falei, torna-se hoje, um elemento crucial da chamada questão interétnica na ordem da emergência pública. A construção social do estrangeiro se deu e se dá na perspectiva do social e culturalmente perigosa. A conexão entre insegurança-imigração está correlacionada não só com aspectos de ordem de criminalidade e de segurança social, mas também com sua comumente transitoriedade temporal no espaço e no tempo. Isso se reflete na confiança depositada do contratante do trabalho, nos seus projetos, na falta de controle de processo mais amplo do envolvimento do trabalho.
Num cenário de crise de políticas públicas, aumentam-se os conflitos sociais e a dificuldade do estado em controlar processos sociais. Desse modo, pode-se deduzir que há maior dificuldade de integração e de cidadania numa situação de crise do welfare. Ao mesmo tempo, como consequência dessa crise, abre-se um grande espaço para que esferas da sociedade assumam papel na organização de processos políticos, organizacionais, previdenciários e culturais, principalmente em espaços/setores onde as distâncias entre sociedades de origem e a hospedeira se apresentam mais elásticas e onde a crise de controle e de definição social do Estado abre muita margem para as grandes tendências repressivas e autoritárias da lógica do mercado na economia capitalista.
Esses processos revelam um outro grande problema que é o da integração social e intercultural. Os imigrantes não se sentem na totalidade no país hospedeiro; sua relação com o país é extremamente instrumental; podemos dizer que, nesse aspecto, a recíproca também seja verdadeira. Isso anula a possibilidade da abertura para o encontro, para o intercâmbio sócio-cultural.
Não se sentir co-participante de processos de integração social, não sentir empatia pelo cenário de vida e de trabalho faz com que o imigrante se sinta numa situação cotidiana de conflito/tensão entre o dinheiro (que implica a permanência) e um melhor e desejoso convivio sócio-cultural e familiar (o que implica seu retorno ao espaço de origem).
Segundo alguns analistas, a presença de etnias, em co-presença no espaço físico aproximado, funciona e influencia na visão geral da sociedade multiétnica e multiracial e, que o contato entre grupos surte efeitos favoráveis na redução de pre-juízos ou de conflitualidade; no entanto, esse contato não pode ser breve, nem superficial; há necessidade de intenso envolvimento intersubjetivo.
Comumente não é isso que ocorre nos espaços de intensa presença de etnias migratórias. Pré-julgamentos no horizonte das diferenças e de uma diferenciação com desigualdades dosadas de inferioridade em relação ao que chega, produzem hostilidades e comportamentos conflituais. Ainda que possa haver tolerância, essa pode se opôr à xenofobia, porém pode correlacionar-se à indiferença, o que não deixa de ser outra forma de anulação e de exclusão do outro.
Frente a progressiva mundialização do fenômeno imigratório, muitos países ricos e absorvedores de imigrantes, continuaram a se mover por leis tradicionais e estreitas lógicas nacionalistas, acentuando internamente aos singulares países a infundada síndrome da invasão. Os menos belicistas e xenófobos chegam a falar que o único modo “prático” de enfrentar o problema é aquele de construir uma sociedade que garanta a todos os direitos elementares econômicos, sociais e afetivos. Muitos europeus e americanos julgam os imigrantes muçulmanos como pertencentes a uma cultura com princípios nem sempre considerados conciliáveis com os seus, uma cultura considerada em oposição a qualquer possibilidade de comunicação com as formas de civilidade européia e americana.
Enfim, sem poder aprofundar os aspectos, podemos concluir com algumas idéias genéricas, porém, que, segundo nossa pesquisa e a literatura revisada, fazem parte de ambos os cenários de imigração sinteticamente analisados:
- Imigrantes brasileiros segregam-se no interior de grandes e pequenas cidades, também no meio rural, dificultando processos de integração, lazer, afetividade, organização...
- O interesse que perdura é a intenção de “ir, fazer dinheiro e voltar”, porém, isso nem sempre se evidencia, principalmente os que estão nos Estados Unidos. Na prática, busca-se estender ao máximo o tempo de permanência no país de acolhida;
- Em geral os imigrantes adentram para espaços de trabalho precários, com remuneração abaixo da média, de pouca visibilidade social, os quais trabalhadores do país não se sujeitam a realizar;
- Os trabalhadores migrantes são vítimas da discriminação, desconfiança, exploração, falta de amparo social, político e jurídico, isolamento, falta de prestígio das ocupações...
- As redes sociais são fundamentais para a inserção, para servir de referência e apoio, porém podem exercer, também, processos sociais de exclusão e de exploração;
- A remuneração ainda que baixa no país de destino, é muito mais alta se comparada ao de origem. Esse processo é o que alimenta o desejo de permanência ainda em situação de precariedade social e identitária;
- Em geral, brasileiros são vistos com muito preconceito, esteriótipos ligados a pobreza, favelas, assaltos, preguiça... Não obstante a esse imaginário produzido, não é muito incomum, principalmente para mulheres incorporarem-se à sociedade de destino pela via de casamentos e/ou uniões estáveis e variadas;
- Não somente as redes construídas podem desenvolver relações de exploração e dependência entre conterrâneos, mas, também, grupos e indivíduos isolados que, em geral, legalmente no país e bem empregados, podem produzir relações de subalternidade principalmente nos espaços de trabalho, de moradia e de mediação documental (HIRATA; MARUANI, 2003);
- O horário de trabalho, em geral, varia de 9 a 12 horas diárias, contemplando domingos e feriados. O horário, quanto mais elástico for, estará favorecendo o maior acúmulo de dinheiro, encurtando, teoricamente, tempo de permanência do país. Não é incomum trabalhadores exercerem atividades em turnos diurnos e noturnos ininterruptamente. Na Itália essa realidade é bem evidente. A presença do maior número de jovens, sem famílias, favorece essa realidade (BOGUS; BASSANEZI, 1999); - De fato, não somente o volume de população migrante, mas principalmente interesses estratégicos de distintas ordens, fazem o tema da imigração ser parte da agenda de estados, ou melhor, da relação entre os mesmos. Nos últimos anos, inúmeros encontros de governantes possuíam em suas pautas de discussão o problema da imigração: como evitar, como selecionar, quantos permitir, em que condições, para que, quanto tempo de permanência, conseqüências, vantagens e desvantagens para ambos os países.... Não há dúvida que é um tema, em meio aos de ordem bélica/terrorismo e de mercado que mais galvaniza a atenção no plano de análise macro das políticas entre países desenvolvidos e os pobres (CASTRO, 2001);
- É de conhecimento geral a intensa repressão e controle viabilizados pelas leis de imigração, acrescidos de formas variadas de violências e constrangimentos, principalmente no que se referem aos direitos humanos de imigrantes, as deportações, ao tráfico de mulheres, bem como as dificuldades de organização, reivindicações, inclusão nos direitos, nos projetos e nas entidades representativas dos trabalhadores;
- Ainda que haja um esforço de controle dos fluxos de trabalhadores imigrantes para os Estados Unidos, estima-se que para cada um que entra legalmente, ou de acordo com os dispositivos das últimas leis de imigração, cinco migrantes, em especial do Terceiro Mundo, entram sem documentos. “... à medida que as condições econômicas do Brasil vêm se deteriorando, Nova Yorque e outras cidades norte-americanas testemunham um crescente influxo de imigrantes brasilerios de classe média. Embora muitos tenham educação de nível superior, a maioria desses imigrantes pertence para os indocumentados e mal conhece o inglês. Nestas condições, a maior
parte dos empregos disponíves para eles são do tipo manual como limpar casas, lustrar sapatos, lavar pratos e atender mesas em bares” (CASTRO, 2001, p. 236).
Podemos, portanto, dizer que a intenção primária do emigrado em migrar para trabalhar não deve ser ignorada, porém não devem ser subvalorizadas outras dimensões principalmente aquelas ligadas a vida social, familiar, educacional (dos filhos também, quando existirem), ao distanciamento do espaço e da cultura de origem, a dificuldade de inserimento em outro espaço.
É por isso que entendemos que a sensibilidade pública, social e cultural (através de políticas públicas, de direitos, de educação, dos meios de comunicação…) devem fazer entender o fenômeno migratório internacional mais além de sua expressão instrumental e economicista do acolhimento ao imigrante como portador de trabalho; deve, sim, permitir uma democracia mais alargada, criar condições para uma consciência crítica da dignidade da pessoa que quer ser vista mais do que como força de trabalho.
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