FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃOOs painéis de azulejos sobre José de Anchieta no Pátio do Colégio,
concebidos por Claudio Pastro, interpretados em três
perspectivas: do artista, do espaço e do observador
CLAUDINÉIA CÁSSIA GENOVEZE
Orientador: Prof. Dr. Helmut Renders
Dissertação de Mestrado apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre.
SÃO BERNARDO DO CAMPO Setembro / 2015
FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃOOs painéis de azulejos sobre José de Anchieta no Pátio do Colégio,
concebidos por Claudio Pastro, interpretados em três
perspectivas: do artista, do espaço e do observador
CLAUDINÉIA CÁSSIA GENOVEZE
Orientador: Prof. Dr. Helmut Renders
Dissertação de Mestrado apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre.
SÃO BERNARDO DO CAMPO Setembro / 2015
OBSERVADOR”, elaborada por CLAUDINÉIA CÁSSIA GENOVEZE, foi apresentada e aprovada em ___ de __________ de ________, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Helmut Renders Alves (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Paulo Augusto de S. Nogueira (Titular/UMESP) e Profa. Dra. Wilma Steagall de Tomaso (Titular/PUS-SP).
__________________________________________ Prof. Dr. Helmut Renders
Orientador e Presidente da Banca Examinadora
________________________________________ Prof. Dr. Helmut Renders
Coordenador do Programa de Pós-Graduação
Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião. Área de Concentração: Linguagens da Religião Linha de Pesquisa: Teologia das Religiões e Cultura
turbulentas. Durante a construção da pesquisa mostrou-se um grande incentivador, cuidadoso em suas análises e sempre paciente frente as minhas incertezas, tornando-se ao final do processo uma referência de acadêmico a ser seguido.
Desejo agradecer ao Prof. Dr. Paulo Nogueira pois com seu espirito desbravador conseguiu ampliar meus horizontes e ao Prof. Lauri Emilio Wirth que, com sua habilidade investigativa, se tornou uma referência de historiador a ser seguida.
Desejo expressar minha gratidão ao suporte econômico recebido pelas instituições CAPES e IEPG para a construção de nossa pesquisa.
Também agradeço à Universidade Metodista, em especial ao programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, juntamente com a secretaria do programa, ao quais permitem que o ambiente acadêmico, instigado pelos professores e colegas, possa ser vivenciado em sua plenitude.
Agradeço ao artista Claudio Pastro por sua gentileza e atenção para com nosso processo de construção da pesquisa.
Agradeço a minha prima-irmã Clara que com sua ajuda e apoio fez a revisão ortográfica da pesquisa.
Finalmente, mas sendo eles os primeiros em minha vida, desejo agradecer ao Magnus e João Lucas, pelo tempo cedido, pelo auxilio incondicional; pela compreensão das dificuldades, pelas quais, sem vocês não teria conseguiria transpor; pelo acompanhamento carinhoso em minhas buscas por documentos e material para a pesquisa e, principalmente, pela confiança em minha capacidade de empreender tal voo, quando eu mesma não confiava em fazê-lo.
Dedico esse trabalho ao Magnus e João Lucas, amores de minha vida, sem os quais a pesquisa e minha vida seriam incompletas.
em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, SP: Universidade de Metodista de São Paulo, 2015.
Resumo
A presente pesquisa objetivou compreender os painéis de Azulejos de José de Anchieta, compostos por Claudio Pastro e instalados no Pátio do Colégio. Pretendemos, em um primeiro momento compreender o estilo do artista, identificarmos suas referências: a Arte Bizantina e o Estilo Românico, juntamente ao seu envolvimento com a Arte do Cristianismo Católico. No segundo momento, buscamos analisar a representação figurativa de José de Anchieta, na base do entendimento da Companhia de Jesus com suas regras norteadoras, além de compreender o desenvolvimento dos jesuítas no Brasil e sua importância. Finalmente, objetivamos identificar como a figura de José de Anchieta foi apresentada na composição dos painéis de Claudio Pastro, em distinção e continuidade das narrativas anchietanas gerais da história colonial brasileira e discursos imagéticas referentes a José de Anchieta que antecedem a obra de Claudio Pastro.
Palavras chaves: Cultura visual religiosa; painéis de azulejos; Companhia de Jesus; José de
Graduate Programm for Studies in Religion at the Methodist University of São Paulo. São Bernardo do Campo, SP: Universidade de Metodista de São Paulo, 2015.
Abstract
This research aims to understand the tile panels of José de Anchieta, composed by Claudio Pastro and installed in the of Pátio do Colégio, São Paulo Brazil. First, we try to understand the artist´s style as to identify the Byzantine and Romantic Art as his references, beside his general involvement into Christian Catholic Art. Second, we propose to analize the figurative representations of José de Anchieta, in dialog with his understanding within the Society of Jesus and its guidelines, as part of the general understanding of the development and importance of the Jesuits in Brazil. Third, we identify how José de Anchieta were finally represented in the panels composed by Claudio Pastro, in its distinction and continuity of the common Anchietan narratives in Brazilian colonial history and in the imagetic narratives referring to José de Anchieta prior to the work of Claudio Pastro.
Keywords: Religious visual culture; tile panels; Society of Jesus; Jose de Anchieta; Claudio Pastro; Courtyard of the college of São Paulo.
Figura 3 – Vitral Gertrudes e Cristo (PASTRO, 2013, p. 51) ... 28
Figura 4 – Cruz de Helfta (PASTRO, 2013, p. 47) ... 28
Figura 5 – Capela da Adoração (PASTRO, 2013, p. 49) ... 29
Figura 6 – Visão da Cruz (em Aço Vazado) (PASTRO, 2013, p. 46) ... 29
Figura 7 – Igreja dos Quarenta Mártires – Bulgária – 1230 – Iconóstase em Mármore (www.routard.com) ... 37
Figura 8 – Pantocrator – O Cristo Do Terceiro Milênio – Claudio Pastro – 1999 (plus.googleapis.com) ... 40
Figura 9 – Pantocrator – Por isso nos diz São Paulo: “Cristo é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). ... 44
Figura 10 – Pantocrator – Claudio Pastro – Capela dos Jesuítas no Anchietanun – 2006 ... 44
Figura 11 - Ícone Santo Inácio (_SITE001) ... 47
Figura 12 – Ícone de Santo Inácio com os Exercícios Espirituais (_SITE004) ... 49
Figura 13 – Claudio Pastro – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 2 e 3) ... 50
Figura 14 – Claudio Pastro – Inácio de Loyola – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 2 e 3) ... 51
Figura 15 – Claudio Pastro – Inicio da Colonização do Brasil – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 7) ... 51
Figura 16 – Claudio Pastro – José de Anchieta – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 9) ... 52
Figura 17 – Claudio Pastro – Antônio Vieira – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 11) ... 52
Figura 18 – Claudio Pastro – Alexandre de Gusmão – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 11) ... 53
Figura 19 – Claudio Pastro – Nossa Senhora Aparecida – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 15) ... 53
Figura 20 – Claudio Pastro – A Supressão da Companhia de Jesus – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 17) ... 54
Figura 21 – Claudio Pastro – Século 19 – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 19) ... 55
Figura 22 – Claudio Pastro – Século 20 – Mural 500 anos da Evangelização do Brasil – 1990 – ITAICI C.E.I. (CIGÕNA & PASTRO, 1990, p. 21) ... 55
Figura 23 – Reprodução da capa do jornal A Gazeta de 25 de janeiro de 1954 (_SITE015) ... 56
Figura 24 – Pia batismal confeccionada em pedra sabão – de 1824 - Museu do Caraça - MG (_SITE005) ... 61
Figura 25 – Cristo Crucificado em madeira século 19, Museu de Arte Sacra de São Paulo (_SITE006). ... 61
Figura 26 – Igreja da Companhia de Jesus em Salvador, atual Catedral Basílica de Salvador (_SITE007) ... 64
Figura 27 – Antiga Igreja da Companhia de Jesus em Belém do Para. Local de Pregação de Padre Vieira (_SITE008). ... 64
Figura 28 – Capela do Pateo do Collegio (fonte da Autora). ... 65
Figura 29 – Imagem do livro ‘Vida Ilustrada do Venerável Padre José de Anchieta’ datado de 1771 . 70 Figura 30 – Anchieta na Selva – G. Marion – Século 18 ... 71
cidade” (CARDOSO, 1997, p. 41) ... 77
Figura 34 – Reprodução do baixo-relevo “O Apostolo e Taumaturgo do Brasil” (VIOTTI, 1980, p. 141) ... 79
Figura 35 – Reprodução do baixo-relevo “De Reritigba a Victoria (1597) ” (CARDOSO, 1997, p. 68) ... 80
Figura 36 – Reprodução do tema Poema à Virgem, instalado no Hospital Anchieta no Rio de Janeiro (VIOTTI & MOUTINHO, 1991, p. 112) ... 80
Figura 37 – Reprodução do tema Ressurreição e Baptismo do Índio Diogo, instalado no Hospital Anchieta no Rio de Janeiro (VIOTTI & MOUTINHO, 1991, p. 113). ... 81
Figura 38 – Reprodução ciclo de azulejos composto por A. Paim (VIOTTI & MOUTINHO, 1991, p. 57) ... 82
Figura 39 – Reprodução ciclo de azulejos composto por A. Paim (VIOTTI & MOUTINHO, 1991, p. 58) ... 82
Figura 40 – Reprodução ciclo de azulejos composto por A. Paim (VIOTTI & MOUTINHO, 1991, p. 59) ... 83
Figura 41 – Reprodução ciclo de azulejos composto por A. Paim (VIOTTI & MOUTINHO, 1991, p. 60) ... 83
Figura 42 – Reprodução ciclo de azulejos composto por A. Paim (VIOTTI & MOUTINHO, 1991, p. 61) ... 84
Figura 43 – Benedito Calixto – Poema à Virgem Maria – 1907 ... 86
Figura 44 – Benedito Calixto – Anchieta e as Feras – 1893 ... 87
Figura 45 – Benedito Calixto – Evangelho na Selva – 1897 ... 87
Figura 46 – Vida Ilustrada do Venerável José de Anchieta-animais estão submetidos ao missionário evangelizador ... 88
Figura 47 – Afresco que se encontra na Basílica Superior de São Francisco em Assis, feita por Giotto. Século 13 ... 89
Figura 48 – Veronese, Sermão aos peixes de Santo Antônio - 1580 ... 89
Figura 49 – Benedito Calixto – Na cabana de Pindobuçu - 1920 ... 91
Figura 50 – Benedito Calixto – ‘Padre José de Anchieta’(1902) ... 93
Figura 51 – Santinho de Anchieta – Companhia de Jesus ... 93
Figura 52 – Cândido Portinari – ‘Anchieta’ (s.d.) ... 94
Figura 53 – Claudio Pastro – Anchieta e Tibiriçá – 1997 – Pertencente ao Acervo Anchietanun ... 96
Figura 54 – Claudio Pastro – Anchieta, Painel 500 anos de Evangelização – 1990 – Instalado em Itaici, Centro de Espiritualidade Inaciana ... 99
Figura 55 – Anônimo – Anchieta – s.d. – Centro de Espiritualidade Inaciana ... 100
Figura 56 – Anônimo – Anchieta Escritor – s.d. – Museu do Pateo do Collegio ... 100
Figura 57 – Folheto de Missa Comunidade do Pateo do Collegio ... 100
Figura 58 – S. Takaki – Uma Tarde na Colina de Piratininga – 1966 – Palácio Anchieta, Vitória, ES ... 101
Figura 59 – G. Giotti – Anchieta Taumaturgo – 1982 – Roma ... 101
Figura 60 – Ir. Charles de S. Gregório Magno – Ícone do Beato José de Anchieta – 2002 ... 101
Figura 61 – Parede lateral da antiga igreja do Pateo do Collegio (fonte da Autora). ... 104
Figura 62 – Painel concebido por Claudio Pastro (_SITE009). ... 105
Figura 63 – Altar da Capela do Pátio do Colégio, antes da reforma elaborada por Claudio Pastro. (_SITE014) ... 105
da Autora)... 107
Figura 67 – Nichos laterais – a esquerda do observador na Capela do Pátio do Colégio (fonte da Autora) ... 107
Figura 68 – Ao fundo o atrium e a porta central da Capela do Pátio do Colégio (_SITE010, n.d.). ... 108
Figura 69 – Porta lateral da capela do Pátio do Colégio com o símbolo da Companhia de Jesus (_SITE013). ... 108
Figura 70 – São Bento (_SITE002) ... 113
Figura 71 – O Cristo do Terceiro Milênio – Claudio Pastro (_SITE003) ... 113
Figura 72 – Sacrário – fonte da Autora ... 114
Figura 73 – Símbolo da Companhia de Jesus – fonte da Autora... 114
Figura 74 – Presbitério da Capela de José de Anchieta – fonte da Autora ... 115
Figura 75 – Eixo central do painel Poema à Virgem – fonte da Autora ... 128
Figura 76 – Eixo central do painel Fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga – fonte da Autora ... 131
Figura 77 – Eixo central do painel A Evangelização dos índios – fonte da Autora ... 134
Painel 3 – A Evangelização – fonte da Autora ... 119
Painel 4 – O Conflito em Iperuig – fonte da Autora ... 120
Painel 5 – Painel de azulejo instalado atrás do batistério – fonte da Autora ... 121
INTRODUÇÃO ... 14
Justificativa ... 14
Metodologia ... 16
CAPÍTULO 1 - A ARTE SACRA SEGUNDO O ARTISTA CLAUDIO PASTRO ... 19
1.1. Dados biográficos de Claudio Pastro ... 20
1.2. A arte sacra segundo Claudio Pastro ... 22
1.3. Ícones, suas cores e fontes na Arte de Claudio Pastro ... 40
1.3.1. As cores na iconografia bizantina ... 41
1.3.2. As fontes usadas pela iconografia bizantina e na arte de Claudio Pastro ... 43
Considerações intermediárias ... 45
CAPÍTULO 2 - A ARTE SACRA NA COMPANHIA DE JESUS E AS REPRESENTAÇÕES DE JOSÉ DE ANCHIETA ... 46
2.1. A origem da Companhia de Jesus ... 46
2.2. O Mural 500 anos da Evangelização do Brasil de 1990, instalado em Itaici- C.E.I. 49 2.3. Padre José de Anchieta ... 56
2.3.1 Práxis evangelizadora de José de Anchieta ... 56
2.3.2. Biografia de José de Anchieta ... 57
2.4 Estratégias da Educação e Catequização Jesuíta No Brasil ... 58
2.5 Arquitetura Jesuíta ... 60
2.6 Iconografia Anchietana ... 67
2.6.1.Anchieta por Benedito Calixto ... 85
2.6.2. Anchieta por Cândido Portinari ... 94
2.6.3. Anchieta por Claudio Pastro ... 96
2.6.4.Retratos de José Anchieta de outros artistas ... 99
Considerações Intermediárias ... 102
CAPÍTULO 3 - EM DIÁLOGO COM O CICLO DOS AZULEJOS DE JOSÉ ANCHIETA NA CAPELA DO PÁTIO DO COLÉGIO ... 103
3.1. A capela como contexto do ciclo dos azulejos de Anchieta ... 103
3.2. O ciclo de azulejos de José de Anchieta ... 116
3.2.1. Características em comum dos azulejos ... 117
3.2.2. Estudos dos painéis ... 125
3.2.3. Os painéis interpretados pelo próprio artista e sua teoria da arte sacra: uma conversa. ... 137
REFERÊNCIAS ... 147 ANEXOS ... 152 1. Pedido do Vaticano para a Obra do Cristo do Terceiro Milênio ... 153 2. Homilia em São Paulo, Brasil, 3 de julho de 1980, Papa João Paulo II (VATICANO, 1980) ... 159 3. 24 de abril de 2014_ Santa Missa de ação de graças pela canonização de São José de Anchieta (VATICANO, 2014)... 165
INTRODUÇÃO
Da comunidade inaciana do Pátio do Colégio somos integrantes e também de ambiente escolar/religioso, pois, no momento embrionário da pesquisa, éramos responsáveis pela coordenação do ensino religioso em um colégio Católico na cidade de São Bernardo do Campo, São Paulo. Essas atividades nos fizeram perceber os desafios de levar a mensagem evangelizadora a um espaço no qual os jovens apresentam o próprio código sociocultural.
A figura de José de Anchieta, que aprendeu a falar a língua de seus educandos, as técnicas adotadas, que se tornaram referências na área educacional, objetivando transmitir a mensagem para a qual fora designado, atraiu-nos sobremaneira. Ao participar das missas dominiciais, na Capela de São José de Anchieta, os azulejos estavam ao nosso alcance para serem contemplados. A contemplação não nos bastava; necessitávamos compreendê-los em sua narrativa. Sentávamos a cada domingo perto de um painel de azulejo procurando absorver sua imagem, relacioná-lo com a vida da Igreja. Tentávamos entender um jovem missionário que se tornou poeta, linguista e, principalmente, desbravador em um país nascente. Juntamente com a narrativa, as figuras e a composição tornavam-se uma metáfora e necessitávamos buscar as origens, pois sua complexidade era motivo de atração permanente. Começamos a pesquisar o estilo e o autor dos painéis de azulejos: o artista sacro Claudio Pastro.
Justificativa
A construção da pesquisa que apresentamos: os azulejos sobre José de Anchieta, instalados no Pátio do Colégio e compostos por Claudio Pastro, mostra-se de significativa importância, em decorrência de vários aspectos, os quais identificamos em um primeiro olhar: o Brasil é um
país de predominância católica, tal fato se deve a colonização portuguesa que impôs assim como sua forma de governo, regras sociais e culturais. Estabeleceu a religião a ser seguida: o cristianismo católico romano.
José de Anchieta é uma figura que estabelece a conexão entre esses dois pontos, a religiosidade e a colonização no Brasil, pois aqui estava em uma missão evangelizadora, solicitada pelo rei de Portugal à Companhia de Jesus, a qual Anchieta era membro, portanto devemos analisar a figura de José de Anchieta por ser de extrema relevância à formação de nossa identidade religiosa. Devemos relatar que, quando a composição foi solicitada e elaborada ao artista Claudio Pastro, José de Anchieta não era ainda reconhecido pela Igreja como santo. Em um longo processo que durou mais de quatrocentos anos, a figura de Anchieta, apesar de sua relevância para a colonização e evangelização no Brasil, não recebeu o reconhecimento de santidade. Buscamos então entender se a composição era uma forma de estabelecer alteridade, fazendo ressoar uma solicitação que já estava há muito tempo em processo.1
O segundo aspecto a ser observado está no local de instalação dos painéis: na Capela de São José de Anchieta, no Pátio do Colégio. O local é reconhecido como ponto de nascimento da cidade de São Paulo, os primeiros tempos de colonização, mas, também, palco de disputas religiosas e políticas por vários anos. As disputas ocorreram pela posse e administração do espaço entre a Companhia de Jesus e o Governo Paulista. Somente na década de 1980, o conflito cessou. Podemos, assim, questionar se a obra composta por Claudio Pastro, em 1999, busca fazer memória à Fundação da cidade de São Paulo ou apresentar argumentos esclarecedores da contenda.
O terceiro aspecto a ser observado é a escolha do artista e de seu estilo para a composição dos painéis. O artista Cláudio Pastro é reconhecido no ambiente cristão católico como um importante artista plástico, identificado como um artista sacro, sendo o único no país a viver unicamente para compor obras e projetos para a Igreja. E sendo responsável por projetos no Brasil; sendo ele o responsável pela concepção da arte visual da Basílica de Nossa Senhora Aparecida e pela composição do Cristo do Terceiro Milênio, obra encomendada pelo Vaticano, assim percebemos que entre seus projetos estão obras compostas para o Brasil assim como para o exterior, além de peças que foram usadas em visita pelo Papa Francisco quando esteve em visita ao Brasil, na Jornada Mundial da Juventude em julho de 2013 (ZACCARO, 2013). Juntamente com seus projetos artísticos, Claudio Pastro é um autor bastante profícuo, auxiliando a retomar ou apresentar a tradição da arte e das imagens para os cristãos católicos.
1 O processo de Canonização de José de Anchieta foi iniciado em 1627 no Rio de Janeiro (VIOTTI, 1980, p. 98)
Assim o projeto apresenta elementos que necessitam ser descortinados ao observador. Vários artistas entre eles Benedito Calixto e Cândido Portinari retrataram Anchieta, mas onde está o diferencial de Claudio Pastro? Como podemos identificar seu recorte histórico? Anchieta; pertencente à Companhia de Jesus, uma ordem que preza pela formação acadêmica, como tal ordem e tal identidade podem ser reconhecidas nos painéis? Devemos também nos ater à pergunta: se essa é uma primeira representação de Anchieta elaborada por Claudio Pastro, como o artista encontra correspondência com a Companhia de Jesus? Sua representação apresenta uma tradição dentro da Companhia de Jesus ou estabelece novos termos de representação? Na continuidade de relevância frente à construção da pesquisa observamos o período de composição, final do século 20. Seria esse momento para estabelecer um paralelo entre as primeiras comunidades cristãs, fazendo memória à tradição da arte para o cristianismo católico? Portanto, entendemos que a relevância da construção da referida pesquisa busca fornecer respostas aos questionamentos que estabelecem uma conexão entre o início do processo colonizador e a identidade religiosa atual no Brasil.
Metodologia
A nossa pesquisa será construída utilizando-se dos painéis de azulejos de José de Anchieta, instalados no Pátio do Colégio sendo os mesmos compostos por Claudio Pastro. Objetivamos compreender os elementos que se tornaram norteadores para a composição como os recortes históricos escolhidos para servirem de base para a composição de cada painel, entendermos a relação do painel com o espaço onde está instalado, assim como o estilo do artista para a elaboração da referida composição.
Podemos afirmar que a figura de José de Anchieta é emblemática2, pois sua identidade vai ao encontro do início do processo colonizador no Brasil, assim como diversas áreas de atuação, como dramaturgia, literatura, pedagogia, utilizam-se da figura de José de Anchieta para demonstrar alteridade no surgimento ou desenvolvimento da referida área no Brasil. Pretendemos analisar em nossa pesquisa qual figura está descrita nos painéis, escolhemos tal projeto imagético por entendermos ser de significativa importância para a religiosidade brasileira compreendermos como o missionário e evangelizador José de Anchieta, mesmo após quatrocentos e dezoito anos de seu falecimento possa ser entendido, pois uma imagem religiosa não é somente o assunto ou intenção da composição, mas o contexto de sua implantação e
2 “Nos utilizaremos da expressão emblemática como uma nova forma de linguagem capaz de reunir o elemento
figurativo e o elemento reflexivo, a imagem e o conceito, também tendo em vista a persuasão e o convencimento do leitor, do ouvinte e do espectador” (BOMBASSARO apud RENDERS, 2011, p. 51).
interpretação (ROSE, 2012, p. 55). A composição leva-nos a observar ideais nacionalistas, a natureza em destaque, e a mensagem religiosa, com uma mediação visual, onde a comunidade e o observador podem estar relacionados. Pois, como afirma Gombrich estamos sempre sujeitos a influência do olhar do artista e de sua representação (GOMBRICH, 2007, p. 38).
Para a referida construção da pesquisa utilizaremos como referencial o material elaborado para o entendimento da cultura visual de Gillian Rose, pois a composição de pinturas e gravuras, assim como a composição para os azulejos, necessitam de um caminho norteador para sua análise, buscando compreender a narrativa ali apresentada. As ferramentas metodológicas indicadas por Rose seguem dois princípios referentes aos locais, (sites) ou perspectivas, e as modalidades (modalities) ou aspectos que em conjunto contribuem para uma compreensão crítica das imagens (ROSE apud RENDERS, 2011, p. 18 e 19).
Frente aos painéis de azulejos de José de Anchieta, instalados no Pátio do Colégio e composto por Claudio Pastro, entendemos haver três perspectivas a serem observadas:
• A primeira perspectiva a ser observada é a de modalidade tecnológica (RENDERS, 2011, p. 19). Trata-se de observar o espaço onde estão instalados os painéis de azulejos. É de significativa importância o local de sua instalação, onde o observador pode contemplar a composição, levando-se a relevância de estarem instalados dentro de uma igreja, assim como a ordem estabelecida para a instalação dos painéis, que se apresentam em um ciclo.
• A segunda perspectiva a ser observada e a de modalidade composicional (RENDERS, 2011, p. 19), onde analisaremos os aspectos da composição, o suporte escolhido, as imagens, as cores, a figura de José de Anchieta e os recortes históricos que a composição utiliza como referencial. A correspondência entre imagens, números e formas geométricas, as palavras presentes nos painéis, a relação entre a imagem e a palavra, todos esses aspectos nos fazem supor haver uma narrativa imagética de significativa importância na composição.
• A terceira perspectiva a ser observada torna-se referência para questões de produção (Quem? Quando? Para quê? Por quê?) (RENDERS, 2011, p. 19).
É relevante ressaltar a importância do artista plástico que compôs os painéis de azulejos dentro do ambiente cristão católico. Sendo seu nome referência dentro da arte sacra católica, assim devemos nos ater aos questionamentos citados acima, quem compôs, em qual período foi solicitada a composição? Qual a função? Para qual local a composição foi idealizada para fazer parte? Por que tal solicitação?
Como os painéis de azulejos de José de Anchieta podem ser observados pela recepção é um ponto de destaque no processo da construção da pesquisa, pois o artista Claudio Pastro apresenta-se um defensor da arte sacra, assim entendemos que para o mesmo a arte está dividida
em planos, superior e inferior, arte sacra e arte religiosa, sendo o ícone uma forma de arte sacra, Rose afirma que “o ícone cristão paira sobre a fronteira entre o mundo presente e o mundo futuro como um meio de invocar um Santo” (ROSE, 2012, p. 54). Devemos, então, buscar no decorrer da construção da pesquisa entender se o artista apresenta José de Anchieta como um mensageiro do Sagrado ou fonte de aprendizado como acontecem com os processos miméticos (WULF, 2013, p. 76). Para tal compreensão podemos nos utilizar das primícias apresentadas por David Morgan referente a piedade do olhar/ver, “pesquisa que apresenta a predominância de dois caminhos do sujeito de se relacionar tanto com Deus como com o/a próximo/a, denominados por ele o caminho da empatia ou da simpatia” (MORGAN apud RENDERS, 2011, p. 20).
David Morgan apresenta a distinção entre empatia e simpatia da seguinte forma:
• A empatia permite a compreensão de que todos os seres somos imago Dei sendo essa afirmação responsável por estabelecer conexões de igualdade em todas as nossas relações (RENDERS, 2011, p. 21).
• A simpatia é responsável pelo aspecto ou sensação de familiaridade, de aproximação sem, entretanto, estabelecer conexões de igualdade (RENDERS, 2011, p. 21).
Construir uma pesquisa tendo como figura central José de Anchieta sempre é desafiador, pois muito já se falou sobre ele, mas a composição elaborada por Claudio Pastro apresenta uma nova perspectiva imagética que com o auxílio do método proposto por Rose e Morgan, juntamente a outros autores como Wulf e Gombrich podem oferecer uma oportunidade única descrita em um ciclo entre a religiosidade e o processo de colonização brasileira.
CAPÍTULO 1 - A ARTE SACRA SEGUNDO O ARTISTA CLAUDIO
PASTRO
No primeiro capítulo, abordaremos sobre a vida, obra e formação do artista Claudio Pastro, responsável pela concepção do projeto que será analisado por nós, os painéis de azulejos instalados na Capela de São José de Anchieta, no Pátio do Colégio. Em um primeiro momento, apresentaremos uma breve biografia sobre o artista, identificaremos parte de suas obras elaboradas no Brasil e no exterior. Sem esgotar a contínua produção artística do mesmo, ressaltaremos suas principais obras objetivando esclarecer a importância de Claudio Pastro como artista e o reconhecimento de sua arte. Em um segundo momento, nos dedicaremos ao ciclo dos azulejos de José de Anchieta, como parte da obra de Claudio Pastro. Observaremos como os azulejos estão em sintonia com o estilo do autor/artista e como outras obras destacam elementos que podem ser vistos como correspondentes àqueles apresentados no ciclo de azulejos. Identificaremos também como a arte sacra, tão cara a Claudio Pastro se mostra presente na obra em sua amplitude estabelecendo assim um paralelo entre a obra de Claudio Pastro com o ciclo dos azulejos de José de Anchieta; relacionaremos os indícios do que podemos identificar como característico na arte de Claudio Pastro, nos azulejos e em outras obras, relacionando inclusive com a literatura escrita pelo próprio artista. No terceiro momento, pretendemos observar e analisar outros ciclos de arte onde José de Anchieta é o tema central ou referência, buscando perceber como outros artistas apresentaram Anchieta em seus painéis de azulejos, telas e esculturas.
1.1. Dados biográficos de Claudio Pastro
Hoje, após 30 anos de trabalho, podemos dizer que Claudio Pastro é um marco e uma referência para os católicos, na arte sacra no Brasil e no mundo. Ele tem reavivado a linguagem imagética cristã, numa época em que a secularização e os modernismos psicológicos e sociais quase esvaziaram o conteúdo e a forma do ser, do ethos cristão.
Para entendermos melhor a arte de Claudio Pastro, devemos observar sua formação.
Claudio Pastro nasceu em 15 de outubro de 1948, na cidade de São Paulo, cidade que abriga ainda hoje seu ateliê, de formação católica e humanista, com intenso contato com as irmãzinhas da Assunção, seu convento era próximo à residência da família de Claudio Pastro. O monaquismo beneditino foi um ponto central na formação do jovem Claudio. Por intermédio de Colette Catta conheceu o monaquismo beneditino, vindo a conhecer posteriormente o Mosteiro Beneditino da Anunciação, em Curitiba, no qual recebeu os primeiros conceitos e aulas práticas sobre composição de arte com o monge Dom Gérard Calvet. Curitiba também foi o local onde encontrou de forma mais intensa o ícone bizantino, através do Mosteiro do Encontro, pertencente também às monjas beneditinas. Seus pais pertenciam ao grupo leigo que conviviam com as irmãs. Podemos observar que a sobriedade e o conceito de essencial, deixando o supérfluo ou floreios, próprios dos beneditinos, deixou sua marca na pessoa de Claudio Pastro e também no artista. Em sua juventude, com o convívio das irmãzinhas da Assunção aprendeu a refletir sobre a Palavra, como a Lectio Divina (PASTRO, 2004, p. 17).
Nas palavras do próprio artista é assim descrita sua infância:
Nasci em São Paulo, no Brasil, em 1948. De família de origem europeia (do Vêneto, da Galícia e das Ilhas Canárias), herdei uma fé firme, espírito de ordem, respeito, harmonia, garra e amor pela Verdade. Meus heróis infantis foram os santos que testemunharam o Senhor Jesus. Desde cedo aprendi que viver, assim como morrer, mais que um simples ato animal, é nobre. Aprendi a confiar naquele que dá equilíbrio e paz: é Deus que nos ama primeiro, nos dá vida e nos conduz (PASTRO, 2004, p. 16).
Cursando a Ciências Sociais pela PUC-SP, viveu a necessidade de trabalhar para sustentar seu curso universitário, tornando-se professor de cursos pré-vestibular e madureza, fornecidos pela Prefeitura de São Paulo. Reconhece que através desse momento adquiriu o pensamento crítico com o curso de Ciências Sociais e a necessidade do pensamento didático com o, magistério. O curso de ciências sociais, no entanto, não o agradava, sua aptidão estava clara para a arte, mas as opções existentes naquele período não eram possíveis para o padrão econômico da família. Sem recursos econômicos, terminou o curso na PUC-SP.
Conheceu a Bíblia Pauperum3, identificada como a Bíblia dos Pobres, de grande importância no período medieval, época em que a grande maioria da população não dominava a leitura e as imagens traziam o texto para a compreensão do povo. Com a Bíblia dos Pobres, Claudio Pastro passou a valorizar a iconografia primitiva (TOMASSO, 2013, p. 31).
No contínuo aperfeiçoamento de sua espiritualidade Claudio Pastro começou a participar da Igreja Russa da Anunciação, de rito eslavo, católica ortodoxa, dirigida por Joan Stoïsser, padre jesuíta austríaco. Nos anos 80, os imigrantes russos não eram muito numerosos, sendo que também o rito Ortodoxo era praticamente desconhecido pelos brasileiros. Padre Joan Stoïsser proclamava em eslavo a Palavra e depois em português para que Claudio Pastro pudesse acompanhar. O convívio com o Padre Stoïsser com os beneditinos de sua juventude e as informações recebidas pelo Concilio do Vaticano II, com as já citadas companhias das monjas beneditinas levaram Claudio Pastro a reverenciar a arte bizantina. Em viagem à Europa foi tomado de emoção, pela sobriedade e esplendor do estilo românico, onde conseguiu perceber a força da mensagem teológica. Através de contato com o Padre Francesco Ricci, recebeu o incentivo para o início de sua caminhada de reconhecimento no ambiente da arte (PASTRO, 2004, p. 16).
Todas essas influências não poderiam ficar guardadas, deveriam ser partilhadas, assim, junto a outros jovens, fundou a Casa Cultura e Fé4. Foi responsável por toda a parte cultural, projetou
e realizou a capela, onde a missa era celebrada diariamente, além das Laudes, o Ofício, conferências, palestras, (etc). Esse espaço recebeu o convívio de padres conhecidos como padres operários, de origem francesa, os padres Michel Cüonot e Jomar Vigneron, foram importantes para a formação de Claudio Pastro, que em suas próprias palavras:
Eles puseram-me em contato com nossas raízes orientais, com o espírito hebraico e a ortodoxia, as origens do Evangelho. Assim aprendi a amar o Oriente, o valor físico da pessoa, do corpo, dos gestos, do encontro e do lugar do acolhimento (PASTRO, 2004, p. 17).
Foi em contato com esses padres operários que posteriormente conheceu em profundidade os traçados da iconografia bizantina na França, os quais já havia iniciado os estudos em
3 A designação Biblia Pauperum, significa "a Bíblia de Pauper" ou "Bíblia dos Pobres." Ele é utilizado para se
referir a um gênero de livros de imagens medievais que procurou retratar narrativas bíblicas de forma ilustrativa para o grande número de pessoas que não têm acesso à educação literária. http://www.fowlerbiblecollection.com/biblia-pauperum.html. Acessado em 24/04/2015.
4 Casa Cultura e Fé: atualmente é conhecida como Núcleo de Fé e Cultura, espaço de encontro entre pessoas que
se dedicam ao trabalho cultural e que, na diversidade de culturas que caracteriza o mundo de hoje, buscam um lugar de diálogo. Pertence à Arquidiocese de São Paulo e interage com a Pastoral Universitária na PUC-SP.
Curitiba. Conheceu a teologia de origem oriental como Pavel Evdokimov e Oliver Clément. Em Paris iniciou-se em iconografia bizantina com Egon Sendler5. Entendemos, portanto, a origem da seguinte afirmação:
Na língua hebraica, falta uma palavra para expressar o conceito de beleza no sentido estético. Em geral, a Escritura nos fala mais da bondade e do justo intrinsecamente que de sua qualidade extrínseca; assim, há uma estreita relação entre beleza e bondade, entre interno e o externo (PASTRO, 2008, p. 43)
Claudio Pastro é responsável pela construção, idealização e projeto de mais de trezentas igrejas, no Brasil e no Exterior (PASTRO, 2007, p. 319). Junto a seu caminhar de artista plástico, é um autor sobre arte sacra bastante profícuo, costuma participar de eventos que ofereçam conhecimentos básicos sobre arte sacra, ajudando a difundir a fé cristã católica, sempre apontando para o Ecumenismo proposto pelo Concílio do Vaticano II.
Destacamos alguns dos cursos que colaboraram para a formação de Claudio Pastro; Curso de Cerâmica na Abbaye Notre Dame de Tournay, Hautes-Pyrénnés, França. Curso de Arte Românica no Museu de Arte de Catalunha, em Barcelona, Espanha. Curso de Técnicas Pictóricas, História da Arte, Teoria da Forma e Percepção, Tecnologia e uso das Arenárias e Materiais Sintéticos, Tecnologia de Incisão, Estética, Sociologia da Arte e Teoria e Método dos Meios de Comunicação, na Accademia di Bella Arti Lorenzo da Viterbo, Itália.
Utilizaremos a bibliografia que o artista apresenta sobre arte, sendo esta vasta e significativa; também utilizaremos outras obras do mesmo autor que foram executadas para apresentar a vida de santos ou santas como forma de entendermos e analisarmos a composição e a força de sua arte.
1.2. A arte sacra segundo Claudio Pastro
Claudio Pastro é considerado para a Igreja Católica Apostólica Romana, um dos mais importantes artistas sacros dos séculos 20 e 21. Foi escolhido para executar o Cristo do Terceiro Milênio. Pedido feito pelo Vaticano, no período do Papado de Bento XVI6. Para esclarecermos a importância da obra do Cristo do Terceiro Milênio necessitamos estabelecer algumas pontes. A primeira delas é a relação arte e artista como agentes de uma nova pastoral, a qual foi instruída na Constituição Dogmática Sacrosanctum Concilium7, responsável por uma reforma litúrgica.
5 Padre jesuíta, nascido na Silésia, em 1923, um mestre na arte bizantina, Padre Sendler dirigiu oficinas de ícone
em Meudon e Publier (França) e Siracusa (Itália) por mais de trinta anos. http://www.atelier-st-andre.net/en/pages/presentation/father_sendler.html acessado em 24.04.2015
6 Cópia do Pedido reproduzida no Anexo 9.1
7 O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso
7. Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas acções litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro - «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» (20) -quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém baptiza, é o próprio Cristo que baptiza (21). Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt. 18,20) (VATICANO, 1963).
O contexto de renovação promovido pelo Concílio do Vaticano II e a Constituição Dogmática Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia tornaram os artistas colaboradores da liturgia. Quando às portas do terceiro milênio, um movimento ecumênico tornou-se presente em toda a Igreja, para tal celebração buscou-se uma representação imagética de Cristo, estabelecido para os Católicos o fundador de sua fé. Para tarefa tão complexa e de extrema importância para os Católicos, foi escolhido Claudio Pastro, artista plástico inserido no ambiente católico e dedicado somente à arte sacra. A obra resultante do pedido do Vaticano, em destaque abaixo, intitulada “O Cristo Evangelizador para o Terceiro Milênio” ou “O Cristo do Terceiro Milênio, encontra-se em exposição no Vaticano entre as Capelas Sistina e Paulina (TORRES, 2007, p. 2).
Figura 1 - Cristo do Terceiro Milênio (_SITE003)
Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia. http://www.vatican.va/archive/ hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html acessado em 24/05/2015.
Claudio Pastro é o responsável de uma extensa obra iconográfica e arquitetônica. Atualmente é o idealizador da reforma interna da Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Obra arquitetônica e religiosa de grande expressão da religiosidade brasileira. Sobre esse importante projeto, o artista apresentou as seguintes ideias para organização do espaço e ambientação:
No primeiro desenho (em Corte) quis chamar a atenção sobre o “centro”, razão do edifício: o presbitério com o altar, lugar do memorial.
Na cúpula, como um anel, coloquei a flora e a fauna brasileiras – Deus faz aliança com esta terra – é AQUI (Brasil) que a “Jerusalém nova desce como Esposa bem adornada” para desposar seu amado.
Do alto, sobre o altar, desce uma cruz cósmica e dourada (4 lados iguais), símbolo da vitória pascal, orgulho de seu povo. Sinal da aliança nova, árvore da vida no centro da praça da Nova Jerusalém, a própria basílica.
Esta forma de cruz bem estudada deve tornar-se um distintivo para o povo brasileiro como, por exemplo, o Corcovado é para o Rio de Janeiro.
Bíblia Pauperum
Ao longo das paredes das quatro naves, logo acima dos primeiros arcos, o Antigo e Novo Testamentos fará (de forma elegante) uma cinta com a “história da fé” dos peregrinos que geração após geração aí virão celebrar e receber, assim, uma educação permanente da fé. Sob a forma de azulejos, pois fazem parte das tradições ibérica e brasileira, essas paredes descreverão na linguagem visual (universal) a ESCRITURA.
A “Abside” (que não é côncava) deve receber três grandes painéis (RETÁBULOS) em azulejos:
o Retábulo 1. Cristocêntrico
o Retábulo 2. As mulheres na Bíblia é também o lugar da “Imagem da Padroeira” o Retábulo 3. Padroeiras dos estados brasileiros.
A Parede de fundo (entrada da basílica do lado interno) receberia um grande painel (de azulejos) com a temática “As Mulheres na Igreja” (PASTRO, 2010, p. 251 e 252). Claudio Pastro apresenta um detalhamento do projeto, não só referente à composição imagética, mas também uma fundamentação na tradição e na Sagrada Escritura. Estando assim de acordo com o norteamento da Igreja quanto à arte sacra.
O artista sacro está a serviço da divindade, da comunidade, de sua religião e cultura, não de seus próprios propósitos. Coloca o seu dom em função do objetivo maior. Essa e a razão primeira da arte e do artista sacro. O princípio de arte sacra é o que dá sentido à arte em geral (PASTRO, 2008, p. 16).
122. Entre as mais nobres actividades do espírito humano estão, de pleno direito, as belas artes, e muito especialmente a arte religiosa e o seu mais alto cimo, que é a arte sacra. Elas tendem, por natureza, a exprimir de algum modo, nas obras saídas das mãos do homem, a infinita beleza de Deus, e estarão mais orientadas para o louvor e glória de Deus se não tiverem outro fim senão o de conduzir piamente e o mais eficazmente possível, através das suas obras, o espírito do homem até Deus (VATICANO, 1963).
O próprio artista se apresenta como fruto do Concílio do Vaticano II8, onde a abertura ou entendimentos teológicos foram significativos para que a assembleia se tornasse participante ativa da celebração eucarística. A Constituição Dogmática do Sacrosanctum Concilium é norteadora para os fiéis e celebrantes.
Para assegurar esta eficácia plena, é necessário, porém, que os fiéis celebrem a Liturgia com rectidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão (28). Por conseguinte, devem os pastores de almas vigiar por que não só se observem, na acção litúrgica, as leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela consciente, activa e frutuosamente (VATICANO, 1963).
É importante ressaltar que, apesar de estar vinculado ao Concilio do Vaticano II, buscando em recentes determinações litúrgicas, (fim do século 20), utiliza representações imagéticas relacionadas às primeiras comunidades cristãs, faz reverência ao estilo românico, onde estabelece que a grandeza de Deus está na simplicidade da construção, busca através da tradição uma forma de expressar a fé. Em Irineu, que repete em seus escritos ‘Há um único Deus, unus
et idem’ encontramos uma afirmação de como a arte está a serviço da fé:
Como, aliás, será tu Deus, se ainda não foste feito homem? Como serás perfeito, se mal acabas de ser criado? Como serás imortal se numa natureza mortal, não obedeceste a teu Criador? Pois em primeiro lugar é preciso que assumas tua condição de homem, e só em seguida te caiba em partilha a glória de Deus: pois não és tu que fazes Deus, aguarda pacientemente a Mão de teu Artista que tudo faz em tempo oportuno, digo, no tocante a ti que és feito. Mostra-Lhe um coração flexível e dócil, e guarda a forma que te deu este Artista, tendo em ti a Água que d’Ele provém, na falta da qual, ao endurecer-te, não receberias a modelagem produzida por Seus dedos. Mantendo essa conformidade, ascenderás à perfeição, porque pela arte de Deus vai ser oculta a argila que existe em ti. Sua Mão criou tua substância; Ela te cobrirá de tais ornatos que o próprio Rei se encantará com tua beleza. Mas se, deixando-te endurecer, repelires Sua arte e te mostrares descontente com o fato de que Ele te tenha feito homem, tua ingratidão para com Deus fará com que rejeites em bloco não só a Sua arte, mas a vida: da natureza do homem. Se, então, Lhe
8 Concilio Vaticano II: XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de dezembro de 1961,
através da bula papal "Humanae salutis", pelo Papa João XXIII. Este mesmo Papa inaugurou-o, a ritmo extraordinário, no dia 11 de outubro de 1962. O Concílio, realizado em 4 sessões, só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI
entregares o que a ti pertence, ou seja, a fé n’Ele e a submissão, receberás o benefício de Sua arte e serás a obra perfeita de Deus. Se, pelo contrário, resistires a Ele e te furtares a Suas Mãos, a causa de teu inacabamento residirá em ti que não obedeceste, não nele que te chamou (IRINEU apud BESANÇON, 1997, p. 145).
Podemos nos utilizar da tradição para nos aproximarmos da compreensão da arte de Claudio Pastro como em Plotino: o mundo sensível está pendente do mundo inteligível e este lhe confere uma certa dignidade: “Ele conserva em si a imagem do inteligível” (PLOTINO apud BESANÇON, 1997, p. 143). Em suas palestras percebemos um contínuo esforço para que suas imagens sejam compreendidas como forma de oração, utilizando-nos de Gregório de Nissa: “Como o divino é a beleza suprema e o mais elevado dos bens ao qual tudo o que deseja o belo se inclina, por isso dizemos que o espirito (nous) formado à imagem da mais elevada beleza permanece, ele próprio, na beleza...” (GREGORIO DE NISSA apud BESANÇON, 1997, p. 165). Como representação Claudio Pastro reconhece sua arte em um estilo, mas busca, além da forma e estilo que a arte pode oferecer, uma identificação da fé que vivencia, a fé cristã católica. Para representar os conceitos da mesma, bebe nas fontes do catecismo da Igreja, nos documentos dogmáticos e conciliares.
Minha vocação, dádiva, carisma está na raiz de minha história. Há um fio condutor único em minha vida, com pessoas, nomes e lugares que são protagonistas do Espírito que me mantém vivo. Por intermédio dessas pessoas, o Espírito veio ao meu encontro e entregou-me o tesouro da fé, da beleza e do gosto pela vida (PASTRO, 2004, p. 16).
É importante ressaltar que em sua obra, há um mergulho na vida espiritual dos santos e santas que representa; busca trazer para o olhar do interlocutor a mensagem que o representado recebeu do crucificado, como podemos observar nas palavras de Agostinho: “Uma relação de pessoa a pessoa entre Deus e sua criatura, de um lado e do outro estabelece um ato de liberdade e coloca este existus-reditus no tempo histórico individual e cósmico (AGOSTINHO apud BESANÇON, 1997, p. 168).
Para Claudio Pastro, como artista, Jesus Cristo é a fonte da eterna beleza: A beleza só aflora numa perfeita correspondência entre o ser e o fazer. Se sou cristão, batizado, iluminado, então todo o meu fazer decorrerá daquilo que sou. Fra Angelico dizia: ‘Para pintar as coisas de Cristo, é necessário ser de Cristo’ (PASTRO, 2008, p. 31). Claudio Pastro apresenta um detalhamento e imersão em cada projeto, não só referente à composição imagética, mas também uma fundamentação na tradição e na Sagrada Escritura, como mencionado nos detalhamentos do
projeto de reforma da basílica de Aparecida. Esses detalhamentos, estão presentes em todos os seus projetos, como exemplos os projetos de Santa Gertrudes de Helfta e São Bento.
Podemos exemplificar com a vida de Santa Gertrudes de Hefta. O artista aceito o convite para conceber um projeto para um templo em devoção à santa, pois o antigo foi destruído nos bombardeios da segunda guerra mundial. Santa Gertrudes é importante para os católicos como a santa que apresentou a capacidade humana de aproximar-se ou ir ao encontro do coração de Cristo, (RENDERS, 2011, p. 148) O projeto de Claudio Pastro recebeu o título: ‘ O espaço do encontro’, no qual o artista evocou dois momentos: no primeiro, a imagem do coração na parede central do altar, Jesus crucificado com o coração em destaque. A parede concebida como suporte para o Crucifixo possui parte das pedras remanescentes da igreja original.
Figura 2 – O Lugar do Encontro – O Coração (PASTRO, 2013, p. 42)
Em um segundo espaço, um enorme vitral apresenta Gertrudes e Cristo em um só coração. Percebemos os preceitos que foram levados em conta no projeto; toda a história geográfica, política, social e espiritual, fazendo-se presentes na construção do templo, a união da comunidade em torno do projeto, a tradição mantida com as pedras da antiga igreja e a experiência mística que tornou a pessoa de Gertrudes uma santa de importância mundial.
Figura 3 – Vitral Gertrudes e Cristo (PASTRO, 2013, p. 51)
Figura 5 – Capela da Adoração (PASTRO, 2013, p. 49)
Em vários momentos de apresentação de suas obras/obra ou em palestras proferidas pelo artista, nas quais estivemos presentes, uma frase ecoa recorrente: ”As paredes rezam”. Inferimos então que, para o artista, mais do que a arte de formas e estilos, o importante está na relação conceito/ mensagem. Aproximando-nos de Agostinho, entendemos que a alma não pode contar consigo própria para receber a luz sobre Deus que ela não possui. Ela deve recebê-la de Deus, e essa luz é criada tanto quanto a alma. A iluminação pressupõe, pois, a criação (AGOSTINHO apud BESANÇON, 1997, p. 170).
Entendemos assim que o local de encontro, o templo, deve permitir o encontro entre a criação e Deus para que a iluminação possa ocorrer. “Portanto, uma construção não é apenas uma ocupação de caráter prático, para o uso imediato, mas também é um indicativo do espírito que ali vive (PASTRO, 2007, p. 51). “Vós sois o edifício de Deus” (1Cor 3,9 apud PASTRO, 2007, p. 51).
Observamos que, em várias obras, suas linhas alongadas, puras, sem floreios, tentam alcançar, nas palavras do próprio artista a Jerusalém Celeste; ou o que imaginamos sê-la. Quando santos são retratados, podemos perceber seu estilo sóbrio, traços firmes, muitas vezes monocromáticos, sem distrações, informações visuais significativas para que possamos nos interessar pela reverência do Sagrado, que se apresentou na vida do santo ou santa por ele retratado. O importante parece ser, aos olhos do artista, a mensagem que o santo traz para o povo que o segue. Podemos relacionar tal atenção em seu produzir artístico com a informação contida na Carta Dogmática do Sacrosanctum Concilium:
Recordem-se constantemente os artistas que desejam, levados pela sua inspiração, servir a glória de Deus na Santa Igreja, de que a sua actividade é, de algum modo, uma sagrada imitação de Deus criador e de que as suas obras se destinam ao culto católico, à edificação, piedade e instrução religiosa dos fiéis (VATICANO, 1963).
Atentemo-nos, também, à uma continua busca pelas formas geométricas - o círculo, quadrado, triângulo - em suas obras que remetem aos princípios básicos da beleza. “O sentimento do “maravilhar-se”, do “tremendum”, vem-nos de uma simples e grandiosa descoberta: diante da perfeição, da harmonia, da incrível ordenação em tudo, desperta em nós o Maravilhoso” (PASTRO, 2007, p. 15).
Ressalta-se através dessa afirmação que, para o artista, a obra somente expressa a Beleza que provém do mistério quando apresenta harmonia e perfeição. Resta-nos agora compreender o
que para o autor é a harmonia e a perfeição. Para Agostinho a harmonia, a unidade, a igualdade, o número são fontes de beleza (AGOSTINHO apud BESANÇON, 1997, p. 171)
Em sua obra Guia do Espaço Sagrado, o autor e artista Claudio Pastro traz um longo tratado sobre seus conceitos de arte, arte sacra e arte religiosa. A arte sacra segundo o autor, principia com uma simbologia proveniente da geometria, onde círculos, quadrados e espirais são caminhos de um símbolo, que é o centro gerador, o centro de um ser, do espaço (PASTRO, 2007, p. 17). Assim como Agostinho buscou entender a beleza:
A relação do Verbo ao Pai, sendo a fonte do Ser e do Uno, é igualmente a fonte do belo. Quando uma imagem iguala seu modelo estabelece-se entre eles a simetria, a igualdade, a proporção, vale dizer: a beleza (AGOSTINHO apud BESANÇON, 1997, p. 174).
Há toda uma preocupação em busca do sentido místico em relação a números e arquitetura. Para o autor a expressão “as paredes rezam” é uma verdade, que pode ser apresentada através de sua linguagem imagética. O templo pode ser descrito com a seguintes perícopes:
O espaço sou eu, o espaço somos nós. E porque somos cristãos. “Vivo, mas não sou mais eu, é Cristo que vive em mim” Gl 2,20” ou o autor/artista se utiliza de João; “A Palavra se fez Carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). É o Mistério da Encarnação em que o Divino desposou a matéria (PASTRO, 2007, p. 21)
Referindo-se ao espaço e ao corpo como uma união mística, faz todo sentido que para o autor/artista o espaço Celebrativo seja da maior importância, com uma referência simbólica estabelecida nos tratados e concílios da Igreja, pois a celebração é um memorial que torna o crucificado presente entre os celebrantes. Assim, utilizando-se principalmente de textos de Odo Casel (beneditino alemão 186-1848), Pio XII e a encíclica Mediator Dei (1947) a expressão liturgia9 adquire o seguinte significado:
A liturgia não tem caráter de “culto”, de esforço humano em que se busca um contato com Deus por meio de sua oferta e adoração, ao contrário, liturgia é o momento de ação salvífica de Deus sobre o homem, de tal modo que os
9 Liturgia: do grego leitougia, serviço público: leitougos, funcionário; de laos, povo, e érgon, obra).
No Novo Testamento, a palavra liturgia é utilizada para designar não apenas a celebração (cf. At 13,2; Lc 1,23), mas também o anúncio do Evangelho (cf. Rm 15,15; Fl 2,14-17,30) e a caridade em ato (cf. Rm 15,27; 2Cor 9,12; Fl 2,25). Em todas essas situações trata-se do serviço a Deus e aos homens” (CIC, N. 1070). “É o exercício do sacerdócio de Cristo, que se manifesta por sinais e se realiza a seu modo a santificação dos seres humanos, ao mesmo tempo que o Corpo Místico de Cristo presta culto público perfeito à sua cabeça” (SC, n. 7).
No oriente, a eucaristia é chamada de liturgia. No Ocidente, em contrapartida, denomina-se assim a todas as celebrações que a Igreja considera suas, estão contidas em seus livros oficiais e são realizadas pela comunidade e pelos ministros indicados para cada caso. Em concreto chama-se liturgia à celebração da Eucaristia e dos demais sinais sacramentais e à reza da Liturgia das Horas. Não são celebrações litúrgicas as devoções privadas ou populares como o Rosário e a Via Sacra (DOTRO & HELDER, 2006, p. 98).
homens, uma vez assumidos no mistério de Cristo presente no rito possam louvar e adorar a Deus “em Espirito e Verdade” (PASTRO, 2007, p. 41). Sendo a liturgia mensagem que traz o crucificado presente entre a assembléia, o templo e o espaço onde a mensagem litúrgica é transmitida através da celebração, a arte de Claudio Pastro se propõe como uma forma de diálogo que ocorrerá entre templo, celebração e assembleia. A Celebração pode ser compreendida como uma sintonia entre o amor de Deus e sua criação: “Que ninguém vá imaginar que à origem das obras de Deus acha-se um amor nascido da necessidade, quando a verdade é que esse amor nasce, isto sim, da superabundância de sua benevolência” (AGOSTINHO apud BESANÇON, 1997, p. 175).
Como afirma Gregório de Nissa, a arte estabelece o diálogo entre a vida intelectual e a vida espiritual do homem, levando-o ao encontro do Criador;
A imagem significa uma participação sobrenatural na santidade de Deus (. Por isso Gregório compara Deus a “um pintor que floreia sua imagem, transforma--a em sua própria beleza e desvenda nela sua própria excelência” A imagem diz respeito a vida intelectual (nous). E à vida espiritual (pneuma) do homem, os dois componentes da natureza (physis) do homem, no estado em que ele foi criado (GREGORIO DE NISSA apud BESANÇON, 1997, p. 159).
Inserido no estilo de arte de Claudio Pastro está uma distinção muito clara entre arte sacra e arte religiosa. Em todas as suas obras, o artista/autor faz questão de ressaltar a diferença entre as duas. Para ele, a arte sacra é fruto de um complexo envolvimento entre a tradição e a Palavra na Igreja, com suas encíclicas, tradições, normativas e a Palavra. A arte religiosa é fruto de um momento histórico, particular ou comunitário, que traz à tona a forma de interpretar um dos aspectos da religião observada por esse grupo ou pessoa. Dessa maneira, tradições populares se formam, como a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, em que a imagem de Jesus com o coração exposto é adorado como transformador ou milagroso. Para a arte sacra o Sagrado Coração de Jesus está embasado em uma longa tradição teológica, a qual nos faz refletir e observar a mensagem do Crucificado, não é uma imagem renascentista, mas uma imagem cujas formas alongadas lembram que Jesus esvaiu-se de tudo para pertencer a Deus10.
A arte sacra é um sentir com a Igreja. A imagem de culto vem do Mistério em si, de sua transcendência, e dirige-se à própria transcendência. Essa imagem não é fruto da interioridade humana e psicológica. A arte de culto não diz “isso é o Cristo” ou “isso representa Cristo”, mas uma terceira coisa: “aqui está presente o Cristo”. ... O artista que a realiza é um ser humano de fé que vive dos sacramentos da Igreja e serve à ação do Espírito Santo (PASTRO, 2008, p. 83).
“...Outro motivo para que as imagens sejam “sem semelhança” é que, se acaso a relação fosse maior com o objeto representado, elas levariam ao erro idolátrico. Devem ser de pouca elevação e insuficientes, a fim de que ninguém as confunda com as essências celestes e supracelestes (DIONISIO o AEROPAGITA apud BESANÇON, 1997, p. 250).
A Beleza definida por Claudio Pastro é a manifestação do Mistério. Com uma busca teológica para essa afirmação o autor/artista se utiliza de documentos da Igreja, como carta aos artistas, de João Paulo II, datada de 04 de abril de 1999, na qual encontramos a seguinte afirmação: “a beleza é a expressão visível do bem, do mesmo modo que o bem é a condição mística da beleza” (VATICANO, 1999). Ou na tradição patrística, como por exemplo Santo Agostinho: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! ” (Santo Agostinho em Confissões apud PASTRO, 2008, p. 43). A Beleza está justificada na Sagrada Escritura: “Enfim, na Sagrada Escritura a Beleza é a manifestação do divino, de sua glória, do Ser dos seres que é Deus e dos seres por ele criados. Deus é a beleza, é belo, pois só ele é o Um, o Bom e o Verdadeiro” (PASTRO, 2008, p. 43).
Também podemos encontrar sua referência na Carta Dogmática do Sacrosanctum Concilium, Sobre a Arte Sacra:
É esta a razão por que a santa Mãe Igreja amou sempre as belas artes, formou artistas e nunca deixou de procurar o contributo delas, procurando que os objectos atinentes ao culto fossem dignos, decorosos e belos, verdadeiros sinais e símbolos do sobrenatural. A Igreja julgou-se sempre no direito de ser como que o seu árbitro, escolhendo entre as obras dos artistas as que estavam de acordo com a fé, a piedade e as orientações veneráveis da tradição e que melhor pudessem servir ao culto (VATICANO, 1963) .
Há uma aparente contradição, pois utiliza-se do medieval e se apresenta como representante do Concilio Vaticano II. Justifica-se por seu trabalho estar fincado também na tradição e documentos eclesiais, assim a Igreja assume que viveu todos os períodos históricos, culturais, sociais, políticos e artísticos, que contribuíram para a Igreja atual, que fazem parte de um viver e sentir a fé hoje.
A Igreja preocupou-se com muita solicitude em que as alfaias sagradas contribuíssem para a dignidade e beleza do culto, aceitando no decorrer do tempo, na matéria, na forma e na ornamentação, as mudanças que o progresso técnico foi introduzindo.
123. A Igreja. Nunca considerou um estilo como próprio seu, mas aceitou os estilos de todas as épocas, segundo a índole e condição dos povos e as exigências dos vários ritos, criando deste modo no decorrer dos séculos um tesouro artístico que deve ser conservado cuidadosamente. Seja também cultivada livremente 'na Igreja a arte do nosso tempo, a arte de todos os povos
e regiões, desde que sirva com a devida reverência e a devida honra às exigências dos edifícios e ritos sagrados. Assim poderá ela unir a sua voz ao admirável cântico de glória que grandes homens elevaram à fé católica em séculos passados (VATICANO, 1963).
Com frequência observamos citações de Dionísio, o Areopagita, pois sendo fundamental para o difícil momento vivenciado pela igreja nos conflitos iconoclastas11, suas observações referentes ao uso da imagem e conceitos de beleza tornaram-se uma expressão de defesa da arte a serviço do sagrado:
O chamam Belo, Beleza, Amor, Amado. Dão-lhe outro nome divino que convenha a esta fonte de amor e plenitude de graça. Belo e beleza se distinguem e se unem numa só causa que os une... Chamamos Beleza aquele que transcende a Beleza de todas as criaturas, porque estas a possuem como presentes dele, cada qual segundo sua capacidade. Como a luz irradia sobre todas as coisas, assim está Beleza a tudo reveste irradiando-se desde o próprio manancial. Beleza que chama as coisas a si mesma. Portanto, seu nome Kalós quer dizer Belo, que contém em si toda a Beleza. Se chama Belo, pois está embaixo de todos os aspectos... belo eternamente, invariável.... Não é amável em um sentido e desagradável em outro, às vezes Belo e às vezes não; para uns Belo e para outros feio, não. É constantemente idêntico a si mesmo, sempre Belo. Nele estava em grau eminente toda a Beleza antes que ela existisse, ele é sua fonte (Dionísio, o Areopagita, Os nomes de Deus apud PASTRO, 2008, p. 44).
Encontramos em seus textos, repetidas vezes, passagens que reportam a Paul Evdokimov, consequentemente entendemos ser de significativa importância o teólogo, pois Claudio Pastro afirma a importância da Assembleia presente no templo, onde Paul Evdokimov destaca:
Todavia a seu modo, todo crente pode tornar-se ‘monge interiorizado’, e encontrar o equivalente dos votos monásticos, exatamente do mesmo modo, nas circunstâncias pessoais de sua vida, seja ele celibatário ou casado (EVDOKIMOV, 2007, p. 71).
Tal afirmação vem ao encontro do trabalho de Claudio Pastro, onde ele considera impossível separar arte e liturgia na celebração cristã. O viver cristão para o artista é ser cristão em sua plenitude, em todos os espaços (PASTRO, 2008, p. 27).
Em seu livro O Evangelho da Beleza, Claudio Pastro afirma: “O sentido de sagrado é indispensável para entendermos o porquê da beleza” (PASTRO, 2008, p. 15). Entendemos ser
11 Iconoclastia ou Iconoclasmo (do grego εικών, transl. eikon, "ícone", imagem, e κλαστειν, transl. klastein,
"quebrar", portando "quebrador de imagem") foi um movimento político-religioso contra a veneração de ícones e imagens religiosas no Império Bizantino que começou no início do século VIII e perdurou até ao século IX. Os iconoclastas acreditavam que as imagens sacras seriam ídolos, e a veneração e o culto de ícones por conseqüência, - idolatria.
de significativa importância nos atentarmos aos conceitos e aos princípios do estilo bizantino e ao conceito de beleza, relacionado à arte sacra, elementos indicados pelo artista. O Ícone está ligado à oração, à contemplação, como afirma Stefano De Fiores: “Rezar é necessário para o pintor que pinta a imagem, rezar exige-se dos fiéis diante do ícone, rezar é indispensável para a Igreja inteira” (FIORES apud PARRAVICINI, 2008, p.7).
O iconógrafo como afirma Claudio Pastro é instrumento a serviço da fé, ele deve recitar uma oração antes de pintar. Em seu livro, Arte Sacra, o artista nos apresenta a Oração do Iconógrafo, anterior ao século 11:
Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, Vós que tendes uma natureza divina e sois sem limites Tomastes um corpo no seio da Virgem Maria para a
Salvação do homem!
Vos dignastes desenhar o caráter sagrado da vossa face imortal e o imprimiste sobre o santo tecido, que serviu para curar a doença do governador Abgar e clarear sua alma para o conhecimento do verdadeiro Deus!
Iluminastes com o vosso santo Espírito o vosso apóstolo e evangelista Lucas, para que pudesse representar a beleza de vossa Mãe puríssima que vos carregou criança sobre os braços, dizendo: “ A graça de quem nasceu de mim derramou-se sobre os homens! ”
Ó Divino Senhor, de tudo aquilo que existe, limpai e dirigi a minha alma, o coração e o espírito do vosso servidor (aqui se recita o nome do iconógrafo) Conduzi minhas mãos, para que possa representar dignamente e perfeitamente a vossa Imagem, a de vossa santíssima Mãe e a de todos os santos, para a glória, a alegria e o embelezamento de vossa santíssima Igreja.
Perdoai os pecados de todos aqueles que veneram essas imagens, que se colocam piedosamente de joelhos diante delas, prestando, assim, honra ao modelo que está nos Céus.
Salvai-nos de todas as más influências e instrui-os com bons conselhos. Vos pedimos pela mediação de vossa santíssima Mãe, do ilustre apóstolo e evangelista Lucas e de todos os santos.
Amém (PASTRO, 2002, p. 50).
Entendemos, que a vida do iconógrafo ou do artista que se utiliza de seus princípios, deve estar ligada à Igreja, à contemplação e a oração. Podemos então apresentar Claudio Pastro como um artista que segue esses princípios, pois ele afirma: “O artista sacro está a serviço da divindade, da comunidade, de sua religião e cultura, não de seus próprios propósitos. Coloca o seu dom em função do objetivo maior. Essa é a razão primeira da arte e do artista sacro” (PASTRO, 2008, p. 16). Precisamos, agora, estabelecer o princípio norteador da arte sacra. Em várias obras, com autores diversos, quando se argumenta sobre arte sacra, utiliza-se a seguinte