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VOGUING: ALTERIDADE E SUBVERSÃO NA PÓS-MODERNIDADE Roney Gusmão Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Brasil
Endereço eletrônico: [email protected] Paula Guerra Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP),
Portugal Endereço eletrônico: [email protected] INTRODUÇÃO
O texto aqui apresentado é um dos produtos da pesquisa que temos desenvolvido em torno das interfaces cultura urbana e pós-modernidade. Aqui tratamos precisamente de um estilo do hip-hop denominado Voguing, nascido nos Estados Unidos no último quartel do século XX, emoldurado em consonância com o cenário pós-moderno.
Performatizado pela comunidade LGBT, após os anos 1990 o estilo Voguing ultrapassou as fronteiras estadunidenses e adentrou o universo underground gay ao redor do mundo. A este respeito parte desta pesquisa se estruturou, objetivando compreender as articulações dialéticas entre o Voguing e o contexto histórico pós-moderno, levando em conta o complexo trânsito de signos na contemporaneidade. Portanto, interessa-nos compreender a forma como a comunidade LGBT subverte seduções hegemônicas e ressignifica os sentidos de identidade através do Voguing.
Para tal, tornou-se necessário recorrer aos debates em torno da pós-modernidade, sem perder de vista as ambiguidades epistemológicas que ainda cercam este conceito. Considerado o maior expoente sobre o tema, Lyotard (1990) entende que o desprestígio do racionalismo científico potencializou uma descrença generalizada nas metanarrativas de legitimação, fato que robusteceu formas múltiplas de emancipação. Este cenário é também realçado por Hall (2006, p. 8), ao entender que “as identidades modernas estão sendo ‘descentradas’, isto é, deslocadas ou fragmentadas”, inserindo uma combinação incontável de variáveis que fragilizam referenciais rígidos de identidade.
Aliado à fragmentação dos sujeitos, o binômio individualização/sociabilidade também contribui para desestabilizar as identidades pós-modernas. Assim, embora a estrutura político-ideológica neoliberal sugestione o recrudescimento do individualismo,
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Maffesoli (2000) nota o surgimento de novas formas de sociabilidade, agora muito mais mediadas pela estética. Disso resulta que o sujeito pós-moderno é um narcísico dependente da relação com o grupo, sendo, portanto, “inexato assimilar a vida hiperindividualizada ao cocooning, ao fechar-se em si” (LIPOVETSKY, 2006, p. 176). Tal debate é pertinente para entender a dinâmica do Voguing, uma vez que seus praticantes expõem uma vontade de prestígio pessoal ao exagerar individualidades, mas sempre pelo desejo de inserção, o que faz coexistir o narcisismo individualista e a relação afetiva e estética com o grupo. Ademais, ao fazer poses da Marilyn Monroe, Greta Garbo ou Darlene Dietrich, o performer expõe esta relação paradoxal entre subversão e adequação à estética hegemônica, confirmando o fato de que na pós-modernidade a imagem se torna elemento crucial para a sociabilidade, afinal é mediado por ela que o sujeito existe pelo olhar do outro (MAFFESOLI, 2011).
METODOLOGIA
A pesquisa de pós-doutoramento que temos desenvolvido tem suscitado o interesse de analisar diversas vertentes em torno da pós-modernidade. Assim, inicialmente foi necessário debruçar sobre os debates teóricos acerca do referido tema, entendendo as contradições e incompletudes que cercam a categoria de análise. No curso dos estudos, foi preciso conectar as transformações na esfera produtiva capitalista com as mudanças de perspectivas e interpretações que afetam a supremacia da ciência nas últimas décadas. Portanto, compreendemos que a face cultural da pós-modernidade estabelece uma relação análoga com a conjuntura econômica, cuja abordagem não pode prescindir das interconexões dialéticas que rompem com visões etapistas da história.
Em simultaneidade com os debates teóricos em torno da pós-modernidade, no final de 2018 partimos aos Estados Unidos com o fim de entender mais precisamente os sentidos do Voguing para a comunidade LGBT naquele país. Frequentamos bailes no Harley, Bronx e Brooklin, sendo possível realizar entrevistas e registros audiovisuais. A pesquisa ainda não foi concluída quando da redação deste texto, uma vez que continuamos entrevistando performers, tendo por objetivo compreender a forma como o Voguing participa do empoderamento e alteridade da comunidade LGBT.
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RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nos anos 1980, com a explosão de casos de AIDS, políticas higienistas foram aplicadas em metrópoles estadunidenses que passaram a coibir determinados espaços frequentados pela comunidade LGBT. Como até então a doença estava muito associada à prática homossexual, os gays se refugiaram em espaços guetificados e ali encontraram a oportunidade de legitimação.
Neste contexto, o Voguing teve um papel imprescindível como catarse e empoderamento na cena gay underground, fazendo da dança um misto de movimentos e expressões extravagantes, maximizando todos os trejeitos banidos dos espaços hegemônicos. O corpo dançante do voguer é linguagem que anuncia o empoderamento, auto-aceitação, envolto por uma austeridade gestual que exacerba o senso de pertencimento ao grupo. É também nos corpos que são impressas memórias sobre um tempo de desafetos associados a políticas higienistas do passado, fato este que permite interpretar os corpos dançantes como “lugares de memória” (NORA, 1993), cujos discursos traduzem num empoderamento encontrado na catarse, na dança e na arte.
Em debate pertinente sobre este tema, Butler (2003) analisa os discursos impressos no corpo a partir de problematizações em torno do gênero. A autora aborda a associação do corpo à ideia de perigo e poluição, no momento em que certas práticas sexuais podem demarcar fronteiras culturais entre corpos. A AIDS consistiu numa forma explícita desta poluição, principalmente por ter sido associada a grupos marginais, cuja permeabilidade não regulada parecia ser lugar de poluição e perigo. Assim, a AIDS “é representada como ‘doença gay’, mas na reação histérica e homofóbica da mídia à doença registra-se a construção tática de uma continuidade entre o status poluído do homossexual” (BUTLER, 2003, p. 189). Assim, quando trejeitos e condutas confrontam a heteronormatividade, associações com a “degeneração do corpo” surgem como mecanismo legitimador do discurso hegemônico.
Foi a partir dos anos 1990, com lançamento da música “Vogue” da Madonna e do documentário “Paris is Burning”, que a linguagem corpórea subversiva do Voguing
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ganhou maior midiatização, mobilizando diversos discursos de aceitação e também de repulsa nos ambientes heteronormativos. Os trejeitos extravagantes do voguer subvertiam demarcações de gênero e, embora tenham mobilizado discursos sobre a “degeneração do corpo”, como tratado por Butler, também se hibridizaram nos espaços heteronormativos, gerando dissenso, inclusive, na comunidade LGBT.
Dentre os entrevistados, interpretações sobre a ampliação da visibilidade do Voguing são bastante heterogêneas. Existem aqueles que celebram a midiatização do Voguing pela suposição de que a notoriedade dos bailes tenha promovido maior naturalização da diversidade sexual; mas também existem aqueles que lamentam a descaracterização do que seria definido como originalidade do “ballroom scene”.
Esse segundo grupo critica, sobretudo, Madonna por ter realizado uma apropriação cultural, desconsiderando o Voguing como lócus de luta e contestação de direitos. Ademais, neste discurso, Madonna apenas reforçaria estereótipos, uma vez que, associando Voguing à ideia de glamour, segregações poderiam trincar a comunidade LGBT pela introjeção de uma estética pouco democrática.
Para grande parte dos entrevistados, a luta pela tolerância não deve ser perdida de vista e o contexto de midiatização pode apenas desviar o foco do Voguing que, embora seja revestido de extravagância, é composto por reivindicações que não devem ser eclipsadas. As falas são extremamente plurais, fato que revela o quão heterogêneo é o “neotribalismo” pós-moderno, tornando anacrônica a ideia de identidade como unidade harmônica. Dentre os voguers, o senso de identidade existe latente, contudo a pluralidade de posicionamentos desestabiliza qualquer ideia coesa e uníssona que se tem sobre a cena underground do Voguing.
O consenso ocorre apenas na ideia de que o Voguing é entendido como importante meio de empoderamento, é ambiente de catarse e também lugar de memória acerca de uma luta que não cessou. Entretanto, as variáveis que tocam a recente midiatização dos bailes, bem como o posicionamento político-ideológico dos voguers são motivo de dissenso. Afinal é precisamente nestes temas que identidades outras são acionadas, revelando que não é apenas a orientação sexual que demarca a identidade do grupo, mas ali também trafegam outras combinações identitárias que faz coexistir o pertencimento e despertencimento.
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CONCLUSÕES
As considerações possíveis de serem aqui redigidas são parciais, tanto porque a pesquisa se encontra em desenvolvimento, como também porque o tema tratado é permeado de um complexo tal de variáveis que dificilmente uma abordagem acadêmica conseguiria objetiva-las em texto.
Entendemos o Voguing como expressão pós-moderna de identidade porque corresponde a um meio de sociabilização mediado por uma estética que negocia com os signos hegemônicos. Aqui os padrões convencionados e midiatizados são incorporados, ressignificados, mas também subvertidos pela estética underground. Posa-se como Monroe, mas exagera-se na maquiagem, nos gestos ou no penteado, fazendo da estética hegemônica um objeto, não de transcrição, mas de reapropriação. Tudo isso faz o voguer situar nessa linha difusa entre ser sujeito individual e tornar-se por meio do outro, que chancela sua individualidade sem furtar seu poder de reinvenção.
Numa análise mais conservadora, o Voguing pareceria uma mera rendição ao ethos fetichizante do consumo, todavia esta análise ignora o fato de que o padrão hegemônico é exatamente a causa de uma subversão que congrega por intermédio da estética, transfigurando a beleza pelo que a comunidade gay brasileira chamaria de “lacração”.
PALAVRAS-CHAVE: Voguing; Pós-modernidade; Subversão. REFERÊNCIAS
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. LIPOVETSKY, G. & SERROY, J. A estetização do mundo: viver na era do
capitalismo artista. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
LYOTARD, J. F. A condição pós-moderna. Lisboa: Gradiva, 1990.
MAFFESOLI, M. O tempo das tribos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. ______. Pós-modernidade. Revista Comunicação e Sociedade. São Paulo, Vol. 18, 2011 p. 21-25.
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NORA, P. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduação em História do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo, Vol.10, Dez.1993 p.7-28.