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IDEOLOGIA E ORDEM ECONÔMICA

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Ideologia e Ordem Econômica

WASHINGTON PELUSO ALBINO DE SOUZA

Professor T itu la r de D ire ito Econômico da Faculdade de D ire ito da U.F.M .G .

ENSAIO NAS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

O cuidado de re s trin g ir com o qual se propõe a tarefa de identificação dos «elem entos ideológicos», lim itando-a à «Ordem Econômica», apenas nas Constituições Brasileiras, em lugar da Constituição em geral, define a intenção de evitar objetivo por demais am bicioso e, por isso mesmo, sempre cheio de riscos e inseguranças que possam com prom eter de tem erário, o trabalho científico. Mesmo assim, não há como evitar os efeitos correlatos da abordagem de tem as ainda tão discutidos e portadores de desentendim entos teóricos e conceituais não esgotados, como sejam ideologia e Constituição, quer na área das Ciências Sociais em geral, quer no campo específico do Direito.

A lim itação às Constituições Brasileiras deverá po ssib ilita r a obediência de um sentido de esforço científico, tomando-se os textos como «m a te ria l» de observação e, embora por vezes se possa assemelhar o procedim ento ao uso do método histórico ou do com parativo, o que se pretende é p a rtir dos dados objetivos, submetê-los a tratam ento nos term os de «experiência», numa tentativa de detectar «regras» referentes à realidade social e jurídica, e que estejam em butidas nos textos constitucionais trabalhados.

Evitando penetrar as discussões conceituais correspondentes a Ideologia e a Constituição, para evita r desvios do presente trabalho, nem por isso seria possível construí-lo sem uma tom ada de posição a respeito dos mesmos, e indispensável ao próprio decorrer do discurso que deverá expô-lo.

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IDEOLOGIA ADOTADA NA ORDEM JURÍDICA

Em nossa obra «D ireito Econômico» 1 tivem os a oportunidade de cuidar mais detalhadam ente da questão da ideologia e da evolução do pensamento a seu respeito, para chegarmos até ao seu tratam ento na «ordem ju ríd ica », às suas im plicações no pensamento econômico e, enfim , ao seu registro na Ordem Econômica tratada nas Constituições.

Ainda que de modo não exaustivo, considerávamos, então, a evolução do sentido dado à expressão ideologia, desde o pejorativo de acusação do adversário, configurado na anteposição entre Destut de Tracy e Napoleão, entre Marx e os seus desavindos, até os argum entos teóricos oferecidos por M einnheim , que foi buscá-los nos «idola» de Bacon, identificá-los no llum inism o, com a «consciência «em si». Mais para a frente, chegou-se ao «espírito popular», ao «espírito m undial» em Hegel, para m anifestar-se na «ideologia de classe», quando a classe sucedeu o povo ou a nação. Do mesmo modo, tom ávam os conhecim ento dos resultados do Curso prom ovido pelo Instituto Belga de Ciência Política, em 1962, dedicado ao estudo das «Ideologias e suas aplicações no Século XX», quando Weidlé assinalara a diferença entre ideologia e sistema filosófico, afirm ando-a como um «sistem a de idéias» que serve para algo, enquanto que o sistem a filo sófico constitui um fim em si; ou o ponto de vista de Chevalier, que a tomava como «um sistema coerente de idéias, de representações intelectuais, suscetíveis de determ inar, em uma certa direção, o com portam ento humano, «passando a suporte da ação política». Vimos, então, como Meynaud preocupava-se em analisar o que denominara de «crise das ideologias», em curso m inistrado na Suíça, quando revelava que no Sec. XX não se haviam configurado ideologias autônomas, ficando presas às do Capitalism o Liberal e do Socialismo Marxista, ambas vindas do Sec. XIX, e para se desembocarem nos m ovim entos de «pacificação ideológica» dos regimes pluralistas das chamadas

1. Direito Econômico, Washington Peluso Albino de Souza, Edição Saraiva, 1980, pgs. 32 ss.

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«econom ias desenvolvidas». Estas teses e n con tra riam apoio nas exposições de Koestler, em 1950, no «C ongresso para a Liberdade e C u ltura », onde salientava o esvaziam ento das an tino m ias

socia-lismo x capitasocia-lismo, esquerda x direita, assim como, no m esm o

Congresso, em M ilão, 1955, fo i a firm a d o que a diversidade de filia ç ã o p a rtid á ria dos que ali com pareciam não conduzia a desacordos ideológicos graves. A mesma tese e n con tra ria c o n fir-m ação no pensafir-m ento de Daniel Bell e S eyfir-m our M. Lipset, nos «C olóquios R heinfelden» segundo as com parações feita s po r A ro n entre 1930 e 1950, e tam bém nas opiniões de Duverger, de G ailbra ith ou de Heckscher, cada qual em áreas dife ren te s do pensam ento.

O tem a passou a deslocar-se, de certo modo, para a preocupação com a p ró p ria desideologização da ideologia, quando se procurou c o n fig u ra r uma luta en tre ideologia e tecnologia, segundo Meynaud, p re fe rin d o este a u to r e n tre ver nisto, não o fim , mas um processo de « u nificação ou de con fo rm ism o ideo-lógico». Neste sentido, aliás, é de se s a lie n ta r a posição de M arcuse no esforço de d e te rm in a r uma «ide olo gia na sociedade in d u s tria l» ao dizer, por exem plo, que «o povo, a n te rio rm e n te o fe rm e n to da tra n s fo rm a ç ã o social, mudou para se to rn a r o ferm en to da coesão social. Aí, e não na re d is trib u iç ã o da riqueza e igualação das classes, está a nova e s tra tific a ç ã o cara cte rística da sociedade in d u s tria l desenvolvida». S alienta, que, en tre tanto , « p o r baixo da base conservadora p o pu lar» existem os explorados e perseguidos, os desem pregados e os não em pregáveis, e outros, que estão «fora do processo dem ocrático» e assim a sua oposição é revolucionária, ainda que sua consciência não o seja».2

Por seu tu rn o , de ta l modo a tecnologia e a ciência vieram s ub verter os valores políticos, em term os de ideologia, que em lu ga r da «desideologização», ou da sim ples «fusão» ou «acom o-dação das ideologias», Haberm as iria re tira r das con tribu içõe s de M arcuse a po ssib ilid a d e de tra ta r tam bém a técnica e a

2. Ideologia da Sociedade Industrial, Herbert Marcuse, pag. 227, ss.

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ciência, enquanto ideologias.3 A firm a ria que a «consciência

tecn ocrática não é apenas tecnologia, com o acontecia nas ideologias burguesas onde se encontrava a «interação ju sta e liv re de dom inação, sa tisfa tó ria para os dois lados» em luta. Não exprim e uma projeção do «bem -viver» mas, em lu ga r da «violê ncia social subjacente às relações entre os ca p ita lista s e os traba lh ado res assalariados», destaca as «condições e s tru tu ra is com o a form a de econom ia privada para o cap ital e a form a p o lítica de d is trib u iç ã o das com pensações sociais, com o que m antém a tra n q ü ilid a d e das massas».

Form ar-se-ia uma consciência tecn ocrática , que levaria à «e lim ina ção da diferença entre praxis e técnica, tira n d o a força dos quadros in s titu c io n a is tra d ic io n a is e to rna nd o independentes os sistem as de a g ir racional com respeito a fin s . Há um interesse pela m anipulação técn ica, e com o o crescim ento das forças pro du tivas passou a depender do p ró p rio progresso técn ico c ie n -tífic o , este tam bé m passou a desem penhar a função de legitim ação da dom inação. A ssim , analisando o sentido da «racionalização» a p a rtir do conceito de Max Weber, e à luz do pensam ento de M arcuse, Haberm as chega ao «ponto em que a pró pria técnica e a pró pria ciência com eçaram a a s s u m ir sob a form a de uma consciência com um positiva e artic u la d a com consciência te cn o -crática , o v a lo r h is tó ric o de uma ideologia sucedânea das ideologias burguesas desm ontadas».

A flora m os a diversidade de pontos de vista sobre o que se deva to m a r po r ideologia e o que ela representa na ordem ju ríd ic a , tão som ente para ju s tific a r a necessidade de p a rtirm o s de uma posição tom ada, pondo em destaque o elemento

econô-mico. Tam bém neste p a rtic u la r as d ific u ld a d e s não são menores.

As te o ria s referentes aos sistem as econôm icos giram de certo modo em to rn o de alguns elem entos centrais que merecem estudos ap rofundados e ju ríd ico s, de onde decorrem posições ideológicas. A ssim , em to rn o da liberdade de ação econômica e do direito de propriedade, das relações entre trabalho e capital,

3. «Técnica e Ciência enquanto «ideologia», in. «Os Pensadores,

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com as conseqüências e s tru tu ra is projetadas na produção, na

circulação de sua rep artiçã o da riqueza criada, é que giram

posições capitalistas, ou socialistas, com suas conotações m ais ou menos lib e ra is e m ais ou menos dem ocráticas.

Por o u tro lado, se te m e rá rio seria falar-se de uma ideologia ju ríd ic a , em bora Kelsen a firm e que a crença na ju stiça seja uma ideologia, no que O livecrona encontra uma con tra dição kelseniana pois que assim não estaria «desideologizado» o D ireito, para p u rific á -lo ,4 deixarem os de lado tam bé m este aspecto, para p ro c u ra r s itu a r tão som ente os elem entos que, no sentido p o lítico, ju ríd ic o e econôm ico devam ser tom ados com o in dicadores de sem elhanças e dessem elhanças no tra ta m e n to co n stitu cio n a l recebido.

R esum indo, pretendem os tra b a lh a r a p a rtir do que d e no m i-nam os de «ideologia c o n stitu cio n a lm e n te adotada», cujo sentido, com o dizíam os em nossa obra citada, «não tem com prom isso fun dam e ntal com os tip o s ou m odelos puros de ideologias» e sua pe culiaridade estaria apenas «nas m odernas m anifestações do tra ta m e n to do tem a econôm ico pela ordem ju ríd ic a » .

Destacarem os, pois, com o dados ideológicos aqueles que caracterizam o liberalismo, o socialismo, as form as intermediárias destes m odelos, ou aquelas que neles se im iscuam , com o o nacionalism o, o tecn ocratism o , o pro te cio nism o , e assim por diante, notando sem pre que giram em to rn o da liberdade de in icia tiva , da igualdade econôm ica, do d ire ito de propriedade sobre os bens, com toda a decorrência de conceitos referentes ao tra b a lh o e seus produtos, aos ganhos nas suas diversas m odalidades, ou à circulação da riqueza com tod o o seu in stru m e n ta l.

Falaremos, pois, em ideologia lib e ra l, lib e ra l-c a p ita lis ta , s ocialista e suas dife re n te s com posições com o neo-liberal, inter- vencionista, ord o -ca p ita lista , e outros, com o referência a m odelos puros ou com o expressões com ponentes do discurso e in s tru -m entais da co-m unicação que ele deva a tin g ir.

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Do m esm o modo, não c o n s titu i preocupação do presente tra b a lh o , por o u tro lado, penetrar as te o ria s ou os conceitos de C o nstituição, e m u ito menos d is c u tir a sua atualidad e ou a necessidade de um tra ta m e n to mais am plo que se desloque de seu sen tido clássico, para o de «sistem a co n stitu cio n a l» , m ais flexível e m ais am plo.

As p ró p ria s conseqüências de causas teo ricam e nte d iscutid as e que se traduzem pela m aior ou m enor correspondência, pelo m ais ou menos intenso dista nciam en to en tre o disposto nos textos c o n s titu c io n a is e a realidade, na tese lassaliana sem pre renovada de uma constituição real, quase nunca atendida pela tra d ic io n a l constituição política ou pela constituição jurídica, não c on s titu e m o fu lc ro de nossa abordagem , em bora dela se a p ro -xim em quando sejam consideradas as ideologias em sua conotação

po lítica, e na m edida em que irem os p ro c u ra r a sua presença no te xto da C onstituição.

Em verdade, havemos de considerar, para m aior s im p lifi-cação, o sentido da C o nstituição com o lei maior, encarregada de absorver a ideologia, sendo esta uma expressão m etajurídica e que, a p a rtir desta absorção lhe terá dado o condicionam ento ju ríd ic o do dado ideológico que, assim , passará a ser o elem ento referencial e fun d a m e n ta l das m edidas postas em prática na vida econôm ica do país. Este é o sentido que nos interessa no m om ento, c o n figu rand o a «ideologia co n stitu cio n a lm e n te adotada» com base da « p o lític a econôm ica», ou seja, de toda a prática da vida econôm ica assim m oldada por aquela ideologia. Digam os, com certa liberdade de expressão que se tra ta de estabelecer as bases ju ríd ic a s da praxis econôm ica a ser seguida em vista do d iscurso co n s titu c io n a l.

Por certo, vários elem entos da m aior im p ortân cia são sugeridos ao tra ta m e n to c ie n tífico , em decorrência deste pro ce-dim en to . O p rim e iro deles é a form a, o e s tilo do p ró p rio discurso co n s titu c io n a l, que não tem encontrado o desejado cam inho, v is to com o insiste em estru tu ra gra m atica l ru d im e n ta r, vinda de a d ap ta-ções dos p rim e iro s textos libera is, e que tem de receber por enxertos os elem entos de m ensagens dinâm icas, ta is com o as econôm icas. O resultado tem sido, po r o u tro lado, uma sintaxe

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tum ultuada, na qual as am bigüidades e as contradições se impõem em prejuizo do entendim ento, da aceitação, da comunicação inteligível, levando ao desprestígio e ao descrédito das próprias Constituições.

PONTOS SALIENTES DA ANOTAÇÃO IDEOLÓGICA NAS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

Restringim o-nos, tan to quanto possível, ao dado ideológico de im plicação econômica, conform e as lim itações propostas de início. Esta posição não deve pre ju dica r o entendim ento nesse discurso quando sejam alegadas ideologias usualm ente referidas por seu aspecto político. Mesmo porque, não há confusão possível entre ideologia e regime político, sobretudo a ser identificada em textos constitucionais, embora por natureza e por essência valorativa, elementos de expressão como liberalismo ou socialismo sejam imbuídos de sentido econômico.

CONSTITUIÇÃO DO IMPÉRIO DO BRASIL, DE 1824

A Carta de 1824 fo i o prim eiro diplom a legal de uma Nação que se tornava independente e tinha, por isto, a marca da institucionalização de um Estado que nascia juridicam ente por seu interm édio.

Compunha-se de elementos ideológicos rem iniscentes da estrutura jurídica e social anterior, especialm ente no que repre-sentava a adoção de um regime político que continuava, isto é, a M onarquia. Sofria os efeitos das conquistas políticas e sociais do liberalismo vitorioso na Europa, onde já se haviam delineado as figuras dos déspotas esclarecidos, o que valia dizer, adotantes de princípios liberais mais ou menos amplos.

Fundamentou-se, no que se refere aos elementos ideológicos econômicos, nas «Declarações dos Direitos do Homem e do Cidadão». Em vários dos seus artigos foram transpostos lite ra l-mente dispositivos daquele documento.

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Assim, form ando-se em princípios do liberalismo capitalista, garantia a «inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual e a propriedade» (art. 179).

Daí decorriam as conseqüências com plementares, como a obrigação de fazer ou a de não fazer alguma coisa só em virtude de lei, o estabelecim ento da liberação com pleta do exercício da atividade econômica, como a adoção da livre iniciativa, e assim por diante. Especialmente o dispositivo liberal que seria ainda mais reforçado como aquele que sig nifica ria o rom pim ento ideológico anterior, que dispõe textualm ente: «ficam abolidas as corporações de ofícios, seus juizes, escrivães e mestres» (art. 179, 2.2 5).

Por seu turno, e nesta mesma linha, teriam de ser abolidos os privilégios, tam bém componentes da estrutura anterior. Mas o texto de 1824 o fez de maneira con ciliatória, dem onstrando a presença m uito viva dos traços resistentes ao liberalismo, ao de term in ar que: «ficam abolidos todos os privilégios que não forem essencial e inteiramente ligados aos cargos por utilidade pública (art. 179, 2.16).

Quanto ao direito de propriedade, vindo das estruturas anteriores, deveria receber, agora, a sua marca liberal, ou m elhor, liberal e capitalista. Resquícios dom iniais, entretanto, vindos do sistem a feudal, que desembocaram no m onarquism o, viciaram de início o seu caráter ideológico liberal. Ficou estabelecido que era «garantido o dire ito de propriedade em toda a sua plenitude». Mas, em seguida, vinha a restrição: «Se o bem público, legal-mente verificado, exigir o uso do emprego da propriedade do cidadão, será ele previamente indenizado do valor dela. A lei marcará os casos em que terá lugar esta única exceção e dará as regras para se determ inar a indenização» (art. 179, n. 22).

A exigência de lei era, sem dúvida, o traço ideológico do liberalism o capitalista. O «bem público», expressão que por ser indefinida, deixava presa a ponta ideológica do absolutism o. A indenização mostrava o zelo pela propriedade e este chegava no projeto elaborado pela Assembléia C onstituinte, ao ponto de considerar o ato como «esbulho», ainda que m otivado pela

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«conveniência pública e levado a efeito m ediante autorização legal». Mandava que se indenizasse «com exatidão, atento não só ao valor intrínseco, como o de afeição, quando ela tenha lugar» (art. 7, n. 20 ).

O sentido de privilégio continuava tam bém no dire ito dos inventores, criando-se a figura do «p rivilég io tem porário» — e o integrando ao pró prio in s titu to da propriedade do invento.

Não seria possível falar-se com perfeita propriedade de um liberalismo correspondente ao de um Estado burguês, visto como o regime m onárquico, com a sua estrutura agrária escravocrata, im punha sistem a de produção próprio e não coincidente com o liberalism o daquela espécie. Por outro lado, a «economia de mercado» conferia-lhe o colorido liberal, sendo que a orientação do com ércio externo, a p a rtir da influência de Cairú, ainda o configurava de modo mais amplo.

No que se refere à ordem econômica constitucionalm ente estabelecida na C onstituição de 1824, temos, portanto, elementos ideológicos liberais em im plantação e elementos corporativos e regulam entares declaradam ente rom pidos, ou então, de certo modo remanescentes.

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DO BRASIL, DE 24.02.18 91

Em term os econômicos, não havia grandes mudanças ideológicas a fazer pela Constituição de 1891, a não ser a de c on figu rar m elhor com a im plantação do regime republicano, um liberalism o capitalista burguês, agora politicam ente livre das rem iniscências m antidas pelo m onarquism o. Nem tanto foi conse-guido, porém. Antes de tudo, os inspiradores das mudanças e da própria Constituição republicana, vinham de altas posições no regime an terio r e não foram conduzidos a esta mudança por motivos ideológicos. Em segundo lugar, a form a presidencialista conservava a concentração de poderes em certos casos até mesmo superiores à m onarquia, onde funcionava o parlam entarism o e, por isto, poderia haver mudanças de gabinete m otivadas em dados mais reais do que a substituição eventual de m inistros no regime republicano que se im plantava.

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Desta form a, manteve-se a ideologia liberal capitalista na «inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à segu-rança individual e à propriedade, repetia-se a redação dos artigos e seus incisos ou parágrafos da Carta an terio r (art. 179, Const.

1824; art. 72, Const. 1891).

No tocante aos privilégios, vinha o toque da mudança política com o desconhecim ento «dos fôros de nobreza» e «ordens honoríficas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias, bem como os títu lo s nobiliárquicos e de conselho» (art. 72, § 2 9). Quanto à propriedade, porém, era reconhecida e respeitada mesmo para os que ficaram assim despojados desses títulos, pois que, sem exceção, «o direito de propriedade é m antido em toda a sua plenitude, salvo a desapropriação por necessidade ou utilida de pública, m ediante indenização prévia». Por outro lado, abolida a escravidão permaneceu o regime sobrevivente feudal das parcerias. Ainda com referência à propriedade, o texto constitucional cuidou explicitam ente das minas, estabelecendo que «as minas pertencem ao pro prie tário do solo, salvo as lim itações que forem estabelecidas por lei a bem da exploração deste ramo de in dústria».

Com este dado certam ente liberal, rompia-se a tradição do d ire ito no país desde a época colonial, passando-se ao «regime da acessão» e abandonando-se o da «separação», por m uitos autores considerado dominial e, portanto, de natureza feudal.

Prosseguia-se na linha de garantia da propriedade dos inventos aos seus autores, por «p rivilég io tem porário», e esten-dia-se aos autores de obras literárias e artísticas o direito exclusivo de reproduzí-las, sendo exclusivo aos seus herdeiros esse mesmo direito, pelo tem po que a lei determ inasse (art. 72, n. 25, 26). Além deste contemplava tam bém as marcas de fábrica com dire ito de propriedade (art. 72, n. 27).

Quanto à liberdade de iniciativa, era garantido o exercício de qualquer profissão m oral, intelectual e industrial.

A Emenda C onstitucional de 1926, no aspecto que estamos tom ando, tem a sua m aior expressão quanto às minas, ao acrescentar que: «as minas e jazidas m inerais necessárias à segurança e defesa nacionais e as terras onde existirem não

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podem ser transferidas a estrangeiros». Com isto, lim itava-se o liberalism o an terio r que ainda era m antido no corpo do inciso, mesmo que se não voltasse expressamente ao regim e de «separação».

CONSTITUIÇÃO DE 16 DE JULHO DE 1934

A Constituição de 16 de ju lho de 1934 constitui um marco decisivo no tratam e nto dos elementos ideológicos de sentido econômico nos textos constitucionais brasileiros. M odifica o discurso constitucional desse tratam ento, dedicando um Título à concentração de artigos com os quais define a «Ordem Econômica e Social» (T it. IV, art. 115 a 143).

Em estudo anterior, dedicado ao tra b a lh o com parativo do modo de tratam ento do tem a econômico em cerca de 70 Cons-tituiçõ es dos diversos países, classificávam os aquelas que tratam o assunto econôm ico em capítulo especial, as que o dissem inam pelo texto geral e aquelas que sim plesm ente o ignoram em detalhes, cingindose ao seu registro lacônico nos direito s fu n -dam entais do indivíduo.5 Ali se dem onstrava como o texto brasi-leiro de 1934 se antecipou à grande m aioria das demais C onstituições estrangeiras, cuja m aior parte seguiu esta o rien-tação somente após a Segunda Guerra M undial.

Configura-se, portanto, nesta Carta, a passagem à ideologia neo-liberal,6 neo-capitalista, ordo-liberal, e, por outro lado, devemos dizer que tam bém se registrou a passagem do Estado de D ireito para o Estado Social de D ireito,7 correspondente a este tip o de ordem econômica. Intervencionism o, planejam ento, desem-prego, justiça social, desenvolvim ento seriam expressões novas a serem incorporadas.

5. Washington Peluso Albino de Souza, «Do Econômico nas Consti-tuições Vigentes», Edição «Revista Brasileira de Estudos Políticos», v. 2, 1961.

6 . Louis Salleron. ob. cit. p. 109 ss.

7. Paulo Bonavides. «Do Estado Liberal ao Estado Social», p. 205 ss.

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A m odificação form al no discurso constitucional tem levado a cham ar de «C onstituição Econômica» a esta concentração de artigos, expressão am biciosa mas que vai ganhando lugar na

lite ratura especializada.8

Realmente, são introduzidos os elementos ideológicos relacionados com interesses sociais ao lado e, por vezes, em dom inância sobre os individuais exacerbados da ideologia liberal do Estado Burguês Capitalista tradicional.

Assim, logo no In tró ito da Constituição de 1934 vamos encontrar o in tu ito de «organizar um regime dem ocrático, que assegure à Nação a unidade, a liberdade, a justiça e o bem estar social e econômico».

Conserva os artigos clássicos da ideologia liberal sobre os «D ireitos e Garantias Individuais» e já lhes introduz os novos elementos ideológicos agora esposados. Assim, entre os direitos invioláveis da liberdade, segurança individual e propriedade, acrescenta o da subsistência (art. 113). E, nos incisos que o com pletam , ao declarar todos iguais perante a lei e abolidos os privilégios, proíbe as distinções por classe social, riqueza e profissões próprias ou dos pais; no livre exercício profissional, manda que se observem «as condições de capacidade técnica e outras, que a lei estabelecer, ditadas pelo interesse público»; e quanto à propriedade, garante-lhe o direito, mas estabelece que o mesmo «não poderá ser exercido contra o interesse social ou coletivo».

Concentrados no T ítulo «Da Ordem Econômica e Social» situa, então, um conjunto de artigos de expressão ideológica neo-liberal. Começa pelas condições para o exercício da liberdade econômica, que têm de se coadunar com a «ordem econômica» estabelecida no texto constitucional e que, por sua vez «deve ser organizada conform e os princípios de justiça e as necessi-dades da vida nacional, de modo que possibilite a existência

8. Vital Moreira. «A Ordem Jurídica do Capitalismo», Coimbra, p. 135 ss; Ignácio Maria de Lojendi, in «Constitucion y Economia», Editorial Revista de Derecho Privado, Madrid.

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digna de tod os». Como parágrafo esclarecedor, m anda que os poderes pú blicos ve rifiq u e m pe rio dica m en te o padrão de vida das várias regiões do país (a rt. 115).

Um grupo de a rtig o s tra ta d iretam e nte da intervenção do

Estado no domínio econômico. Por eles, pode ser «m onopolizada

determ inada in d ú s tria ou ativida de econôm ica, m ediante lei especial» (art. 11); serão fom entadas a econom ia popular, o desenvolvim ento do c ré d ito e a nacionalização progressiva dos bancos de depósitos, bem com o dá providência à nacionalização das em presas de seguros, tornando-se b ra s ile ira s as estrangeiras que operassem no país (a rt. 117); era prom ovido o am paro da produção e estabelecidas condições de tra b a lh o na cidade e nos cam pos, tendo em vista a proteção social do tra b a lh a d o r e os interesses econôm icos do país, dando as bases para a legislação do traba lh o, in clusive com pro ib ição de d iscrim in a çã o salaria l, s alário m ínim o, jo rnada de o ito horas diária s, pro ib ição de tra b a lh o a m enores de 14 anos; repouso sem anal, fé ria s anuais, indenização po r dispensa sem ju s ta causa; assistência m édico- s an itária, regulam entação de todas as profissões, reconhecim ento das convenções coletivas do tra b a lh o , além de outros (a rt. 121).

Para co n cre tiza r ta is m edidas era in s titu íd a a Justiça do Trabalho. E para dar-lhes base, eram reconhecidos os sin dica tos e associações pro fissio n a is.

Q uanto às m inas e jazidas m inerais, o texto de 1934 retom ava a tra d iç ã o da volta clara ao regim e de «separação», declarando aquelas e dem ais riquezas do sub-solo, bem com o as quedas d'água, com o « p rop ried ad e d is tin ta da do solo para e fe ito de exploração ou ap roveitam ento in d u s tria l» (a rt. 118, 119), m andando ainda que a «lei regulam entasse a nacionalização progressiva das m inas, jazidas e quedas d'água e outras fontes de energia h id rá u lic a ju lgadas básicas ou essenciais à defesa econôm ica ou m ilita r do país».

Um sen tido de ideologia nacionalista fico u reg istrad o na .nacionalização dos bancos e em presas de seguros (a rt. 171), das jazidas e riquezas m inerais e quedas d ’água (art. 194, 4 9), no con tro le da entrada de im igran te s (a rt. 121, 6 ?), na pro ib ição de estrangeiros na pro priedade de em presas jo rna lísticas,

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poli-tic a s ou nopoli-ticiosas (a rt. 131), assim com o com referência a arm adores, p ro p rie tá rio s e com andantes de navios de cabotagem (a rt. 132), as porcentagens de em pregados estrangeiros nos serviços pú blicos (a rt. 13 5) e nas em presas concessionárias ou con tra tante s dos mesmos, (a rt. 136) e assim por diante.

No sentido assistencial, o Estado cham ou a si o am paro aos desvalidos, o estím ulo à educação eugênica, o socorro às fa m ília s de prole num erosa, proteção à juventude, m edidas referentes à m ortalida de in fa n til e à higiene m ental e outras form as de atendim ento (a rt. 138).

Num resquício esdrúxulo para o discurso c on stitucio na l, foi in tro d u z id o no texto, com o parágrafo único do art. 117, o dispo-s itiv o libera l que adispo-sdispo-sum ia im portância co n dispo-stitu cio n a l: «É pro ib ida a usura, que será punida na form a da lei».

Como se vê, não poderia ser m ais extensa, nem m ais am biciosa a d e finição da «Ordem Econômica e Social» oferecida pelo c o n s titu in te de 1934, como d e finidora de um tip o de ideo-logia que ultrapassava de m uito o m odelo liberal.

Por ou tro lado, inspirou-se em term os de estrutu ração p o lítica, na ideologia fascista italiana, com deputados em parte representantes das profissões, sendo estas, a in d ú s tria , o com ér-cio e transp ortes, profissões liberais e fu n ér-cio n á rio s públicos (a rt. 22, § 3 ?).

Do mesmo modo, registra-se a presença de elem entos ideológicos tecn ocrático s com os Conselhos Técnicos (art. 103), aos quais, em determ inadas circu nstân cias, se dava força sup erior à dos M in istro s (a rt. 103, § 4'’).

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL — 10 DE NOVEMBRO DE 1937

Em term os políticos, a C onstituição de 1937 apresentava com o razões de sua adoção o com bate «à in filtra ç ã o com unista» e a «necessidade de rem édios de ca rá te r radical e perm anente», porque «as in s titu iç õ e s anteriores» não haviam dado ao Estado meios para tanto.

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REVISTA DA FACULDADE DE D IR E ITO

No tocante aos dados econôm icos, porém , houve a d ife re n -ciá-la das dem ais, uma certa dim in u içã o no sentido dos d ire ito s sociais e a a firm a tiv a da adoção de uma econom ia corporativa. Assim , retiro u a expressão subsistência dentre os d ire ito s in v io

-láveis e m anteve apenas a liberdade, a segurança individual e a

propriedade.

Form alm ente o discurso não teve a organização cuidada com o a da C onstituição de 1934, com tem as soltos.

Na «Ordem Econôm ica» fo i mais incisiva sobre a « in te rvenção do Estado no dom ínio econôm ico». U tilizouse fra n c a -m ente desta expressão, e-m bora -m antendo o sen tido libera l s upletivo que o pró prio Adam Sm ith havia a d m itid o , dizendo que a mesma «só se legitim a para s u p rir as de ficiê ncia s da in icia tiva in dividu al e coordenar os fatores da produção, de m aneira a e v ita r ou resolver os seus c o n flito s e in tro d u z ir no jogo das com petições in d iv id u a is o pensam ento dos interesses da Nação, representados pelo Estado». De m aneira explícita, ia do

libera-lismo ao neo-liberalibera-lismo, com o se vê. E adotava discurso

pedagógico in te rven cion ista, ao prosseguir: «A intervenção no dom ínio econôm ico poderá ser m ediata e im ediata, revestindo a form a do controle, do estím ulo ou da gestão dire ta » .

Q uanto ao traba lh o, não inovou e não d im in u iu porém teve o cuidado de a b ran dar expressões correntes e os seus pró prio s efeitos, dizendo, por exem plo, que

«a

m odalidade do salário seria a mais apropriada à exigências do op erá rio e da em presa»: em lugar de fé ria s anuais, pre fe riu referir-se ao d ire ito de «uma licença anual rem unerada», e assim po r diante.

P roibiu taxa tivam en te a greve ou lock-out (a rt. 139).

Estabeleceu que «a econom ia da produção será organizada em corporações, e estas, com o entidades representativas das forças de tra b a lh o nacional, colocadas sob a assistência e a proteção do Estado, são órgãos deste e exercem funções delegadas do poder pú blico» . (A rt. 140).

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C o ntraria nd o prin c íp io s libera is, ficava estabelecida a fig u ra dos «crim es contra a econom ia po p u la r equiparados aos crim e s con tra o Estado»... (a rt. 14 1). Ainda na mesma linha, estabelecia que «a usura será punida» (a rt. 14 2).

A nalisando o p rin c íp io nacionalista sobre as jazidas e e quedas d'água, dispensou autorização para as que estivessem sendo exploradas in d u s tria lm e n te na data da C o nstituição (a rt.

143 § 4 ’), mas a m anteve para os bancos e em presas de seguros (a rt. 14 5 ), as em presas concessionárias de serviços pú blicos (a rt. 147, os p ro p rie tá rio s , arm adores e com andantes de navios nacionais, os p ro fissio n a is libera is, o percentual de im igran te s e assim po r diante.

No sentido de in te rfe rê n cia técnica onde se poderia id e n tific a r a ideologia tecn ocrática , criou o Conselho da Economia Nacional para colab orar com o Poder Legislativo (art. 3 8 ), sendo com posto de representantes dos vários cam pos da produção e com posição p a ritá ria de em pregados e em pregadores.

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL — 18 DE SETEMBRO DE 1946

O pre âm b ulo da C o nstituição de 1 9 46 anunciava s im p le s -m ente a -m issão de « o rg a n iz a r u-m regi-m e de-m ocrático».

Direcionado para a ideologia dem ocrática, no que se refere ao tem a econôm ico, m anteve-se em posição neo-liberal, m antendo tod os os prin c íp io s lib e ra is consignados nas Cartas anteriores.

Seguiu o discurso c o n stitu cio n a l de 1934, m ais escorreita de estilo do que esta, e con feriu à ORDEM ECONÔMICA E SOCIAL o nível de T ítu lo (T ítu lo V), nele in c lu in d o 17 artigos.

Quanto às bases da «ordem econôm ica» determ inava que «deva ser organizada conform e os p rin c íp io s da ju s tiç a social, con cilian do a liberdade de in icia tiva com a valorização do tra b a lh o hum ano». O tra b a lh o fo i considerado «obrigação social» sob a garantia do Estado.

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REVISTA DA FACULDADE DE D IR E ITO

A d m itiu a intervenção no dom ínio econôm ico, referindo-se à União, exigindo lei especial, mas determ in and o que «a in te r-venção terá por base o interesse pú b lico e po r lim ite os d ire ito s fun dam e ntais assegurados na C onstituição», valendo dizer, aqueles da ideologia liberal (a rt. 146).

A d m itiu , porém , lim itações ao uso da propriedade, c o n d i-cionando-o «ao bem -estar social». E, m ais do que isto, p e rm itiu à lei «prom over a ju sta d is trib u iç ã o da propriedade, com igual op ortun ida de para tod os», deixando aberta a porta a reform as e s tru tu ra is na área p a trim o n ia l privada (a rt. 147).

Tam bém fo i lim itativo-d efen siva ante a ideologia libera l da liv re concorrência, re p rim in d o

«o

abuso do poder econôm ico» quando levado a efeito por expedientes «que tenham por fim d o m in a r os m ercados nacionais, e lim in a r a concorrência e aum en-ta r a rb itra ria m e n te os lucros» (a rt. 148).

No sentido da ideologia liberal quanto aos bancos, em presas concessionárias de serviços públicos e dè u tilid a d e pública, foi lacônica, a trib u in d o à lei a orientação a ser dada (a rt. 149).

Q uanto às m inas, dem ais riquezas do subsolo e quedas d ’água, manteve o p rin c íp io da separação (a rt. 152 e 15 3), o mesmo fazendo com a navegação de cabotagem .

M anteve o p rin c íp io a n ti-lib e ra l da condenação à usura (art. 15 4). No toca nte ao tra b a lh o , conserva as conquistas anteriores, com correções im portantes, com o por exem plo na referência ao salário m ínim o, que de «capaz de satisfa zer as necessidades norm ais de tra b a lh o » (C onstituições de 1937 e 1934) passou a determ iná-lo capaz de satisfazer as necessidades norm ais do tra b a lh a d o r e de sua fam ília (art. 157, I).

Estabeleceu a «p articipaçã o o b rig a tó ria e direta do tra b a -lh ad or nos lucros da em presa» (art. 157, IV), a ob rig atorie da de da in s titu iç ã o do seguro contra acidentes do traba lh o, pelo em pregador, a esta bilida de na em presa ou exploração rural e a indenização ao tra b a lh a d o r despedido (a rt. 157, XII).

Reconheceu o d ire ito de greve (a rt. 158).

Os dem ais registros seguiam de certo m odo as conquistas constantes em C onstituições anteriores.

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CONSTITUIÇÃO DO BRASIL, DE 24 DE JANEIRO DE 1967

A C o nstituição do Brasil, de 1967, m odificou em grande parte a e s tru tu ra fo rm a l do discurso, especialm ente em relação ao a rtig o in tro d u tó rio ao conjunto dos 18 que vão c o n s titu ir o títu lo «da O rdem Econômica e Social».

No «ca p u t» deste artig o (1 5 7 ), define o fim a que alm eja a «ordem econôm ica» com o sendo a ju s tiç a social. Esta a firm a -tiva, pura e sim ples, id e n tific a ria a ideologia de predom inância, se não socialista , pelo menos socializante. A seguir, entre tanto , alinhava os incisos que indicava com o p rincípios «básicos» para o cu m p rim e n to daquele objetivo. Nestes, vam os en co n tra r p re c i-sam ente os dados ideológicos que passavam a c o n fig u ra r o ne o-libe ralism o e, em sentido m ais adequado, os elem entos do Estado Social do D ireito, como busca de harm onização entre os extrem os de lib e ra lis m o ca p ita lista e do socialism o.

Assim é que no inciso I, situa a « libe rda de de in ic ia tiv a » . Deste modo, em frase enxuta, retom aria todos os elem entos ideológicos d e fin id o s em term os clássicos no art. 150, onde estão fixados os « D ire ito s e G arantias Ind ivid uais».

Nos incisos II, com a «Valorização do tra b a lh o como condição de dignidade hum ana» e IV, com a harm onia e solidariedade e n tre os fatore s da produção, utilizou-se de expediente de tra z e r para o discurso c o n s titu c io n a l os rem édios contra os elem entos da a firm a tiv a da luta de classes, que afin al não deixavam de, então, ser igualm ente presentes à ideologia libera l pura, onde foram observados pela c rític a de Marx.

D iríam os que, de certo modo, com põem a frase com dado de sintaxe da ideologia liberal ao lado do inciso I. O m esm o se poderá a firm a r quanto ao inciso VI, «Repressão ao abuso do poder econôm ico, cara cte riza do pelo do m ín io dos m ercados, a e lim i-nação da concorrência e o aum ento a rb itrá rio dos lucros». É que, de certa form a, esta mesma redação já vinha sendo adotada em C onstituições anteriores, porém a sua posição m odificou-se e o discurso fic o u m ais claro por esta reunião em uma mesma fa m ília de princípios.

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REVISTA DA FACULDADE DE D IR E IT O

Restam os incisos III — «Função social da pro priedade» e V «D esenvolvim ento Econôm ico». O p rim e iro deles deu ao con ju nto o elem ento com pletam ente dissonante em term os ideológicos,

porque é n itida m ente socializante. Liberal e ca p ita lista , pelo reconhecim ento do d ire ito de propriedade privada, socializante pela restrição ao seu uso. Já u tiliza d o em C onstituições anteriores, do mesmo m odo que os dem ais, m elhorou-se a técnica de colocação, porque passou a buscar um resultado con ju ntivo, em lu ga r de dis ju n tiv o , na com preensão da mensagem do artig o por inteiro.

Quanto ao «desenvolvim ento econôm ico», c o n s titu iu ele-m ento ideológico ele-m ais fo rte do que lhe poderia c o n fe rir uele-m sim ples inciso, o que se depreende ao com pará-lo com os dem ais, que são tip ic a m e n te com p rom e tidos com sistem as ideológicos definidos, enquanto que este poderia en globar fa c ilm e n te qu alque r dos outros, no sentido de sua concretização.

O § 1’ refere-se à po ssib ilidad e de tra n s fo rm a ç ã o e s tru tu ra l por meio da reform a agrária e só destoa das soluções an terio res po r in tro d u z ir o tip o de pagam ento nas desapropriações, m ediante títu lo s da dívida pública e, não, em moeda corrente. Ide olo gi-cam ente não tra z novidades com o recurso in stru m e n ta l, em bora po litica m en te possa ser tom ado como um expediente contra a perpetuação da es tru tu ra agrária de base feudal, vinda dos tip o s in icia is de pro prie da de da te rra no país e preservado pela

legislação libera l.

A referência a «planos» dessa desapropriação c o n s titu i, no T ítu lo da «O rdem Econômica e Social», o re g istro deste im p o rta n te

in stru m en to de po lítica econôm ica do Estado in tervencionista, que encontra o respaldo indispensável no a rt. 4 6 , III, quando é c onferida ao Congresso Nacional a a trib u iç ã o de dispor, m ediante lei, sobre «planos e program as nacionais, regionais e orçam entos p luria nu ais» .

Quanto à intervenção no dom ínio econôm ico, além dos m otivos a n terio rm ente considerados, de «m o no pólio de d e te rm i-nada in d ú stria ou atividade, m ediante lei da União, quando indispensável por m otivo de segurança nacional, acrescenta que tam bém «para org an izar setor que não possa ser desenvolvido

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com e ficiên cia no regim e de com petição e de liberdade de in ic ia tiv a » . Caracterizou-se, pois, a intervenção por ação supletiva, ta n to tole rad a na ideologia libera l à moda de A. S m ith e m ais m odernam ente neo-liberal, segundo Keynes, com o não a d m itid a pela linha lib e ra l francesa extrem ada. M ais destacável, porém , é que para a fin a lid a d e dessa intervenção que envolveria o paga-m ento ao p a rtic u la r desapropriado» ou aos prejuízos decorrentes da pró pria natureza da atividade, ficava autorizada a U nião a in s titu ir con tribu içõe s correspondentes. (A rt. 157 §§ 8^ e 9?) ou seja, uma form a de socializar os prejuízos ou o pagam ento.

O utro item in tro d u z id o é o que de term in a a lim itação da produção de bens supérfluos, c o n figu rand o uma orientação da natureza das leis suntuárias, de pouca inspiração liberal.

No toca nte ao salário não são registradas novidades, a não ser a su b s titu iç ã o da « p a rticip a çã o dos em pregados nos lucros da em presa da C o nstituição de 1946, por «integ ração do tra b a

-lh a d o r na vida e no desenvolvim ento da em presa, com p a rtic i-pação nos lucros e, excepcionalm ente, na gestão...». A introdução do expediente da gestão registra uma das m ais recentes conquistas da ideologia do Estado Social de D ire ito e que vem sendo posta em prática em países realm ente interessados na sua im plantação. A tim id e z com a qual é incluída no artig o, condicionando-a «aos casos e condições que forem estabelecidos», arrefece de certo

m odo a sua força no discurso.

O utro a rtig o que adota a técnica e x p lic ita n te de um discurso ideológico cla ro e d ire to é o de n. 163, pelo qual: «Às empresas privadas com pete pre ferencialm ente, com o estím ulo e o apoio do Estado, org an izar e exp lo rar as atividades econôm icas». «C om

-pleta o dado ideológico do art. 157, § 8 9 sobre intervenção do Estado no dom ínio econôm ico, mas am p lia a ênfase porque «C om plem enta o dado ideológico do art. 157 § 8 ? sobre intervenção do Estado no dom ínio econôm ico, mas am p lia a enfase porque c o n tra ria n d o a pró pria ideologia libera l, em lu ga r de de ixa r livre a a tivida de privada, ainda lhe garante apoio e estím ulo. Passa para uma posição ideológica tu te la r, que exorbita do lib e ra lis m o e não cam inha para o socialism o. Por ou tro lado, tra n s fe rin d o recursos pú blicos para os lucros p a rticu la re s, tam bé m não se

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REVISTA DA FACULDADE DE D IR E ITO

insere na ideologia do Estado Social de D ireito, c o n s titu in d o um

neo-capitalismo-paternalista da in ic ia tiv a privada, isto é, dos

p ró prio s c ap italistas. O tra ta m e n to da ativida de econôm ica do Estado com o exceção, e da concorrência com o regra, com pleta-se com os parágrafos deste mesmo artig o, onde «na exploração pelo Estado, da ativida de econôm ica, as em presas públicas, au tarqu ias e sociedades de econom ia m ista reger-se-ão pelas norm as aplicáveis às em presas privadas, «inclu sive quanto ao d ire ito de tra b a lh o e das obrigações» e, «a empresa pú blica que explorar atividade não m onopolizada fic a rá sujeita ao m esm o regim e trib u tá rio aplicável às em presas privadas». A liás, para m elhor satisfazer este preconceito libera l, a lei ord in á ria b ra s ile ira acabou de fin in d o com o pessoas de D ireito P rivado ta n to a Empresa Pública com o a Sociedade de Economia M ista (Dec. lei n. 2 0 0 e n. 9 0 0 ).

Q uanto aos p rincípios nacionalistas registrados nas dem ais Constituições, foram de certo modo m antidos, havendo referência ao m onopólio do petróleo, que fo i e xp licita d o (art. 162). No toca nte às em presas jo rna lísticas, ou de televisão e de ra d io d i-fusão, ficou autorizada a lei a estabelecer «condições no interesse do regim e dem ocrático e do com bate à subversão e à corrupção». CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL EMENDA CONSTITUCIONAL N? 1, DE 17 DE OUTUBRO DE 1969

A Emenda C o nstitucional n’ 1, de 1969, m antém a técnica de discurso no a rtig o in tro d u tó rio do T ítu lo «da Ordem Econômica e Social» (T it. III). E ntretanto, tra z para o «ca pu t» o desenvol-vim ento, o que nos parece uma correção na força da mensagem, dizendo que «a ordem econôm ica e social (expressão que acres-centa) tem por fim rea liza r o desenvolvim ento nacional e a ju stiça social, com base nos seguintes prin c íp io s » (a rt. 16 0). Define, então, elem ento ideológico e desenvolvimento e, ao seu lado, a

justiça social, com pondo de m aneira adequada a ordem econô-mica e social.

Nos incisos, acrescenta o VI — «Expansão das oportunidades de em prego pro d u tivo » , de grande im p ortân cia por d e fin ir a responsabilidade do Estado nesse p a rtic u la r e por se coadunar com a ideologia anunciada no «ca pu t» do artigo.

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Acrescenta, ainda, a defesa do meio am biente, dando ao discurso to ta l o cunho de atualização e consonância com um dos m ais im p ortan te s problem as que som ente poderão e n con tra r solução por meio do d ire ito , sendo que o d ispo sitivo fere fro n ta l- m ente a ideologia lib e ra l, quanto ao uso dos recursos naturais.

CONCLUSÃO

A apresentação de alguns aspectos de um tra b a lh o mais com p le to que estam os levando a efe ito sobre «a ideologia cons-titu c io n a lm e n te adotada» e que se lim ito u a alguns pontos db pro je to to ta l, m esm o assim lim ita d o s às C onstituições B rasileiras, enquanto que aquele deverá abranger o m a io r núm ero possível de C onstituições vigentes no mundo, é, tão som ente o prosse-guim ento, agora en riq uecido de aprendizados mais ricos, de obra que publicam os em 1961, quando levamos a efeito a pesquisa nos textos c o n s titu c io n a is de cerca de 70 países e que teve o títu lo «Do Econôm ico nas C onstituições Vigentes».

Depois disto, divulgou-se no m undo todo, rica lite ra tu ra a respeito e conceitos foram desenvolvidos, com o por exem plo o de «C on stitu ição Econôm ica», cada vez mais cuidadosam ente tra b a lh a d o especialm ente pelos ju ris ta s alemães sob a de no m

i-nação de «W irtscha fstve rfa ssung ».

Não pretendem os, entretanto, fazer uma sim ples c o m u n i-cação da im p o rtâ n cia do tem a e o alerta à com unidade ju ríd ico - cie n tífic a de nosso país nesse sentido. Nossa presença no assunto já se m arcou por algo m ais do que isto, naquela obra.

Tam bém não pretendem os oferecer dem onstração de tra b a -lho com p ara tivo entre textos c o n stitucio na is, que fic a ria nos dom ínios do D ireito Com parado.

O que pretendem os é tão som ente le m b ra r a esta com unidade o cam po im enso que se lhe abre em term os de tra ta m e n to ideológico dos textos con stitucio na is, em nosso país, onde as ideologias são geralm ente im portadas sem m aiores enraizam entos e onde o «fa zer» C onstituições tem chegado por vezes a m otivo de apanágio de ju ris ta s consagrados, pela rapidez e pela ligeireza

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REVISTA DA FACULDADE DE D IR E ITO

com que as apresentaram em m ais de uma op ortun ida de , quando não pela cópia e tra d u çã o inadequadas, que tem sido uma constante.

Falamos do tra b a lh o do cie ntista do d ire ito , e não do p o lítico m ilita n te ou do soidisa nt ju ris ta a serviço de c irc u n s -tâncias.

De todo o exposto, que nos fornece um sem núm ero de indicações e de motivações, destacarem os apenas para dem ons-tração as três seguintes:

— A necessidade do aperfeiçoam ento do discurso c o n s ti-tucio na l no que se refere à ideologia, con ferin do-lhe o sentido orgânico, claro e coerente que impeça o seu crescente descrédito.

— O tra ta m e n to dos elem entos ideológicos captados pela C onstituição, de modo a oferecerem e s tru tu ra orgânica que corresponda à sua condição de «ideologia con stitucio na lm en te adotada» e, portanto, desligada dos m odelos ideológicos puros ou com postos que as tenham inspirado. Sua objetivação deverá a tin g ir a característica de valor jurídico, com todas as p e c u lia ri-dades desta, em bora portadora de objetivos político-econôm icos,

— Suas de finições e conceitos deverão ser pe rfe itos e acabados no sentido técn ico-jurídico , de modo a e vita r que se tra n sfo rm e m em m eras evasivas do sen tido «educativo» ou «prog ram ático », com o a referência a m edidas legais posteriores anunciadas sem com prom isso de efetivação, sem que isto im p orte em referência a tip o s de C onstituição rígida ou flexível.

Ao cie ntista do D ireito cum pre d e tectar as «Regras» nesse sentido. E não só aquelas referentes à «técnica de le gislar» , mas especialm ente as que se relacionem in tim am en te com o problem a do dado ideológico que tenha na C o nstituição a força norm ativa conferida pela lei, mas que se coadune com a re a li-dade, de modo a reforçá-la pela força fática.

Trabalho in te rd is c ip lin a r de Ciência Política, Sociologia e A ntropologia do D ireito, entre outros ram os do saber, parece-nos a única form a de chegar a resultado sa tis fa tó rio , porque m ais avançado em u tilid a d e e propriedade do que o pro du to do sim ples esforço com p ara tivo de textos c o n s titu c io n a is e de análises estritam e nte ju ríd ic a s e técn ico-legislativa s.

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