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O conflito cultural como elemento do direito e desenvolvimento no mundo complexo: um estudo de caso sobre o crime de terrorismo a partir da internet

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO

MESTRADO EM CONSTITUIÇÃO E GARANTIA DE DIREITOS LINHA DE PESQUISA 1 – CONSTITUIÇÃO, REGULAÇÃO ECONÔMICA E

DESENVOLVIMENTO

MARCUS MENDONÇA GONÇALVES DE JESUS

O CONFLITO CULTURAL COMO ELEMENTO DO DIREITO E

DESENVOLVIMENTO NO MUNDO COMPLEXO: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O CRIME DE TERRORISMO A PARTIR DA INTERNET

NATAL/RN 2017

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O CONFLITO CULTURAL COMO ELEMENTO DO DIREITO E

DESENVOLVIMENTO NO MUNDO COMPLEXO: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O CRIME DE TERRORISMO A PARTIR DA INTERNET

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Constituição e Garantia de Direitos.

Nome da orientadora: Profª. Drª. Patrícia Borba

Vilar Guimarães

NATAL/RN 2017

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Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Setorial do CCSA Jesus, Marcus Mendonça Gonçalves de.

O conflito cultural como elemento do direito e desenvolvimento no mundo complexo: um estudo de caso sobre o crime de terrorismo a partir da internet / Marcus Mendonça Gonçalves de Jesus. - Natal, 2017.

146f.: il.

Orientador: Profa. Dra. Patrícia Borba Vilar Guimarães.

Dissertação (Mestrado em Direito) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Programa de Pós-graduação em Direito.

1. Mundo virtual - Brasil - Dissertação. 2. Direito - Desenvolvimento - Dissertação. 3. Conflitos culturais - Dissertação. 4. Terrorismo - Dissertação. 5. Operação Hashtag - Dissertação. I. Guimarães, Patrícia Borba Vilar. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título.

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MESTRADO EM CONSTITUIÇÃO E GARANTIA DE DIREITOS

A dissertação “O conflito cultural como elemento do direito e desenvolvimento no mundo

complexo: um estudo de caso sobre o crime de terrorismo a partir da internet”, de

autoria do mestrando Marcus Mendonça Gonçalves de Jesus, foi avaliada e aprovada pela comissão examinadora formada pelos seguintes professores:

BANCA EXAMINADORA

________________________________________________ Profª. Drª. Patrícia Borba Vilar Guimarães - UFRN

Presidente

________________________________________________ Profª. Drª. Adriana Carla Silva de Oliveira - ESMARN

1º Examinadora

________________________________________________ Prof. Dr. Yanko Marcius de Alencar Xavier – UFRN

2º Examinador

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Dedico este trabalho a Symone Fernandes, Yuri Marques, Naline Araújo, Josi Venâncio, Patrícia Borba, Andreia Regina e Ziliane Marques, pelo apoio incessante na vida pessoal e acadêmica.

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extraordinária e profissional dedicada, a qual me acompanha desde a graduação, sempre me ensinando, oferecendo-me oportunidades de aprimoramento e me orientando com tanta paciência e presteza, a quem tenho como exemplo para o exercício da docência e da pesquisa acadêmica.

Agradeço ao professor Yanko Marcius de Alencar Xavier, que me acompanha desde a época do PRH, sempre acreditando no meu trabalho, pelas oportunidades e pela participação nas bancas de qualificação e defesa.

Agradeço à professora Adriana Carla Silva de Oliveira, por aceitar tão gentilmente em compor as bancas de qualificação e defesa e pelas contribuições valiosas para o aprimoramento deste trabalho. Agradeço ao professor Erick Wilson Pereira, pessoa gentil e profissional marcante na minha carreira. Agradeço à professora Maria dos Remédios Fontes Silva, sempre atenciosa comigo e que admiro pela forma responsável com que dirige o PPGD há tanto tempo.

Agradeço à professora Ana Beatriz Presgrave, profissional de referência para mim, por quem tenho e de quem recebo grande consideração.

Agradeço aos professores José Orlando Ribeiro Rosário, Cristina Foroni Consani, Fabrício Germano, Ingrid Zanella, Ivan Lira, Samuel Gabbay, Adamo Perrucci, Vladimir da Rocha França, Otacilio Silveira e Artur Cortez Bonifácio, professores nas épocas de graduação e de mestrado, pelos conhecimentos transmitidos.

Agradeço a toda minha turma do mestrado 2015, em especial aos amigos da linha 1: Higor Kalliano, Mário Augusto, Carlos Alexandre, Carlos Rios, Ana Cláudia Barros, Mariana Rocha, Sânzia Mirelly, Cíntia Dantas e Caio Ramon e de forma mais especial ainda, Ziliane Marques, minha amiga sempre presente e parceira acadêmica desde a época da graduação. Vocês contribuíram decisivamente para que a experiência de fazer mestrado fosse prazerosa e memorável. Fizemos história no PPGD com nossa união e nossa dedicação. Sinto orgulho de todos vocês e torço para que cada um conquiste tudo aquilo que almeja. Lembrarei tudo pelo que passamos juntos, as aulas, cada trabalho acadêmico, nossos happy hours, a festa de aniversário surpresa para mim em 2016, as brincadeiras e acima de tudo, a forma solidária com que sempre convivemos.

Agradeço a Symone Fernandes de Melo, pessoa sublime e de caráter ímpar com quem eu sempre pude contar em todas as horas e compartilhar a minha vida.

Agradeço à minha ex-professora e hoje grande amiga Andreia Regina, que sempre me estendeu a mão e que me faz buscar o melhor de mim mesmo.

Agradeço a Yuri Marques de Melo Santiago, meu grande amigo desde a graduação, que se tornou um irmão para mim com sua presença cativa e sempre solícita, sobretudo nas dificuldades.

Agradeço à minha amiga Naline Araújo, pessoa inteligente, lutadora e formidável conselheira. Sempre esteve ao meu lado, nutro por ela um afeto inexplicável e uma conexão sólida, de muita confiança e respeito.

Agradeço à minha amiga Josi Venâncio, minha guerreira, um exemplo de determinação e um ponto de equilíbrio para mim.

Agradeço à minha família: meus pais, Ana Lúcia e Saturnino; meus irmãos, Karla e Carlos; e meu sobrinho Pedro Augusto, os quais aguardaram tanto por este momento em minha vida.

Agradeço a Liete Coelho, exímia professora e pessoa extremamente querida e virtuosa.

Agradeço a Noeli Vitorino, amiga e servidora exemplar da UFRN, que me acolheu de forma tão afetuosa desde a época da graduação.

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Agradeço aos meus amigos Gabriel Souza, Jonathan Rocha, Alexandre Carlos, Isaac Igor, Daniel Kaynan, Felipe Brito, Wagner Gouveia, Michael Otaviano, Fernando Galvão e Benjamim Deyvison, grandes camaradas, homens de bem, que me fazem sentir a genuína amizade.

Agradeço às minhas amigas Priscila Henriques e Taliny Mendonça, com quem compartilho momentos tão hilários e por serem pessoas que sempre acreditaram no meu potencial.

Agradeço às minhas amigas da época da graduação Diana Silva e Angélica Almeida, que ainda se fazem presentes em minha vida, torcendo pelos meus êxitos.

Em memória de Maria de Lourdes Pinheiro Costa, minha inesquecível professora da época escolar, de quem eu recebi tantos conhecimentos e cuidados.

Em memória de Felipe Gabriel da Silva Alvares, grande amigo, de quem sinto tanta saudade.

Agradeço a Girlene Fernandes, Ilda Pinheiro, Erica Fonseca e Ivoneide Pereira, pessoas especiais, que de diferentes maneiras se fazem presentes na minha vida.

Agradeço a Maria Aliete Nascimento Paiva, Manoella Batista, Maria Claudia Saldanha e Roberto Silvestre, pessoas responsáveis e profissionais honrados, sempre prestativos comigo.

Agradeço a Nancy Franco e Marta Franco e toda sua família, pelo carinho e acolhimento.

Agradeço a todos os que trabalham na secretaria do Programa de Pós-graduação em Direito (PPGD) e no Nepsa II, em especial aos servidores Maria Lígia Pipolo, Dulce Vilela e Gilvan Bernardo, e também aos bolsistas e funcionários da manutenção e da segurança, pelo comprometimento que sempre denotaram em suas atividades, tornando mais agradável a estadia neste período acadêmico. Agradeço a Denise Maciel de Paula, pela generosidade com que me apoiou quando precisei e de quem guardo ótimas lembranças.

Agradeço a Erick Leonardo, exímio profissional, que me deu um suporte valioso durante o mestrado. Agradeço ao meu grande mestre de muay thai Fábio Fontes, a quem devo gratidão e honra por ter me transmitido as técnicas dessa nobre arte marcial, a qual tem suma importância na minha vida.

Em atenção aos meus queridos padrinhos Edna Lúcia, João Luzia e Maria Lúcia de Souza.

Agradeço à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio institucional e financeiro imprescindível para que eu pudesse realizar este mestrado.

Agradeço a todos os autores das obras que foram utilizadas na produção deste trabalho.

Agradeço ao apoio do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), na figura da drª Paula Suylane, e ao IDEMA, instituições que me ofereceram suporte para que eu pudesse realizar produções científicas durante este mestrado.

Agradeço ao Ícaro Colégio e Curso, onde concluí meu ensino médio, à direção, a toda equipe pedagógica, docente e de manutenção, em especial à diretora Terezinha Martins e à professora Marilene Lima da Guia.

Agradeço a Adriana Teixeira, Adriana Nara e à juíza Leila Nunes, pessoas responsáveis e afáveis com quem eu tive a honra de trabalhar.

Agradeço ao cantor Jay Vaquer, esse artista talentoso e tão atencioso, que tive o prazer inenarrável de conhecer, cujas músicas me acompanharam na produção desta dissertação.

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“E nada vai desmerecer tudo que ainda somos toda certeza que supomos mas a vida lá fora tá chamando agora e não demora! quem dá mais? na falta que a falta faz”. (Jay Vaquer, em trecho da música “A falta que a falta faz”). “Há quem procure o padre, outros se refugiam na poesia, eu procuro os meus amigos” (Virginia Woolf). “E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música” (Friedrich Nietzsche). “A verdade não resulta do número dos que nela creem” (Galileu Galilei). “A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem igualdade e liberdade” (Milton Friedman).

O meu nirvana

No alheamento da obscura forma humana, De que, pensando, me desencarcero, Foi que eu, num grito de emoção, sincero Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

Nessa manumissão schopenhauereana, Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga, eu, feito força, impero Na imanência da Idéia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora Do tato - ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéias -

Gozo o prazer, que os anos não carcomem, De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéias! (Augusto dos Anjos).

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um elemento imprescindível para o desenvolvimento, uma vez que a internet e os meios eletrônicos fazem parte da maior parte da população. Sendo assim, será verificada a forma como o direito chancela essa área e como consequência, será oferecido o entendimento de como o direito está aliado ao desenvolvimento. A título de estudo de caso, será verificada a Operação Hashtag, da Polícia Federal, em 2016, a qual antecedeu o início dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro nesse mesmo ano. Nesse prisma de abordagem, é ressaltado um estudo a respeito dos conflitos religiosos e culturais que ocorrem pelo mundo, na seara dos choques entre civilizações, o que em tantos casos se manifesta em forma de terrorismo, cujo conceito é esmiuçado nesta pesquisa, dado o fato de que ele começa, em muitos casos, no ambiente virtual. Este trabalho se utiliza do método hipotético-dedutivo, o método de procedimento que prevalece é o monográfico e de fontes secundárias, com ênfase em obras da doutrina jurídica, análise da Constituição Federal e da legislação pertinente à área virtual, além de livros nas áreas da antropologia cultural e da história, bem como da sentença da Justiça Federal que condenou oito réus de acordo com a Lei Federal 13.260/2016, a qual representa um marco no Brasil no combate ao terrorismo. O que se pode concluir é que o Brasil demonstrou grande avanço no que se refere às exigências internacionais para confrontar os grupos terroristas no momento em que sancionou uma lei específica para o tema e que possui um aparato legal para disciplinar o uso da internet no país, como por exemplo, a Lei Federal nº 12.965/2014, o Marco Civil da Internet.

Palavras-chave: Mundo virtual. Direito e Desenvolvimento. Conflitos culturais. Terrorismo.

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element for the development, since the internet and electronic media are part of the larger part of the population. Thus, it will be verified how the law will seal this area and as a consequence, will be offered the understanding of how law is allied to development. As a case study, Operation Hashtag, of the Federal Police, will be verified in 2016, which preceded the beginning of the Olympic Games in Rio de Janeiro that same year. In this approach, a study is made of the religious and cultural conflicts taking place around the world, in the midst of the clashes between civilizations, which in many cases manifests itself in the form of terrorism, the concept of which is explored in this research, given the fact that it starts, in many cases, in the virtual environment. This work uses the hypothetical-deductive method, the prevailing method of procedure is monographic, and and secondary sources, with emphasis on works of legal doctrine, analysis of the Federal Constitution and legislation pertinent to the virtual area, besides of books in the areas of cultural anthropology and history, as well as the sentence of Federal Court that convicted eight defendants in accordance with Federal Law 13.260/2016, which represents a milestone in Brazil in the fight against terrorism. What can be concluded is that Brazil has shown great progress in relation to international demands to confront terrorist groups at the time it has sanctioned a specific law for the subject and that has a legal apparatus to discipline the use of the Internet in the country, such as Federal Law No. 12.965 / 2014, the Civil Internet Framework.

Keywords: Virtual world. Law and Development. Cultural conflicts. Terrorism. Hashtag

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Figura 2 - Distribuição de muçulmanos por continente... 35 Figura 3 – Conversa no grupo “JUNDALLAH” do Telegram... 97 Figura 4 – Conversa no grupo “JUNDALLAH” do Telegram... 98

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Tabela 2 – Grupos fundamentalistas muçulmanos... 39 Tabela 3 – Mudanças trazidas pelo Marco Civil da Internet... 78 Tabela 4 – Pedidos de nulidade na ação penal nº 504686367.2016.4.04.7000...100

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CF – Constituição Federal

COAF – Conselho de Controle de Atividades Financeiras D&D – Direito e Desenvolvimento

DIDH – Direito Internacional dos Direitos Humanos EI – Estado Islâmico

FBI - Federal Bureau of Investigation IDH – Índice de Desenvolvimento Humano IPS – Índice de Progresso Social

MPF – Ministério Público Federal ONU – Organização das Nações Unidas PF – Polícia Federal

PNAVSEC - Programa Nacional de Segurança da Aviação Civil Contra Atos de Interferência Ilícita

PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

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2 CULTURA, RELIGIÃO E TERRORISMO NO CENÁRIO DO MUNDO COMPLEXO: O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES ... 19

2.1 ORIGENS, DEFINIÇÃO E MANIFESTAÇÃO DO TERRORISMO ... 23 2.2 O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E AS PRÁTICAS TERRORISTAS: UM OLHAR SOBRE O ISLÃ ... 32

2.2.1 O fundamentalismo islâmico...36 2.2.2 A presença do Islamismo no Brasil...41

2.3 A DIVERSIDADE CULTURAL E RELIGIOSA DO BRASIL FRENTE AO MUNDO GLOBALIZADO...43

3 O CONSTITUCIONALISMO E A RELAÇÃO COM O DIREITO E DESENVOLVIMENTO (D&D)...49

3.1 O CONSTITUCIONALISMO E SEU ADENSAMENTO HISTÓRICO...50 3.2 OS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 ... 56

3.2.1 A proteção da liberdade de crença, culto e organização religiosa na Constituição Federal de 1988...59

3.3 O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E O DESENVOLVIMENTO...61 3.4 A CONSTRUÇÃO TEÓRICA DO DESENVOLVIMENTO E SUA INSERÇÃO NO DIREITO CONTEMPORÂNEO...67

4 A INTERFACE ENTRE O MUNDO VIRTUAL E O TERRORISMO: CASO EXEMPLIFICADO DA OPERAÇÃO HASHTAG...74

4.1 O ARCABOUÇO JURÍDICO BRASILEIRO DE SEGURANÇA AO MEIO VIRTUAL.... ... 75 4.2 O TRATAMENTO DO TERRORISMO NO ARCABOUÇO JURÍDICO BRASILEIRO... ... 81 4.3 AS OLIMPÍADAS DE 2016 NO BRASIL E OS RISCOS DE ATENTADOS TERRORISTAS DURANTE O EVENTO...88 4.4 A LEI FEDERAL Nº 13.260/2016 COMO ELEMENTO DE SEGURANÇA PARA OS JOGOS OLÍMPICOS DE 2016...91 4.5 A OPERAÇÃO HASHTAG E O USO DO MEIO VIRTUAL PARA A PRÁTICA DO TERRORISMO...95

5 CONCLUSÃO ... 103 REFERÊNCIAS...108

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1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho terá como objetivo geral estabelecer uma relação entre a tríade: desenvolvimento, mundo virtual e terrorismo, e analisar como o direito contribui e interfere nesse elo, uma vez que forem analisadas as normas jurídicas que regem essas temáticas. Tendo em vista que a escalada de grupos terroristas e a forma como eles têm se apropriado de recursos virtuais para propagar seus ideais e expandirem suas áreas de influência, torna-se cabível ver como os aparatos virtuais e digitais são manipulados para ações claramente destoantes do desenvolvimento, o que representa o grande problema a ser examinado nesta pesquisa.

Esta obra deriva de artigo científico anterior, publicado como capítulo de livro, acerca da possibilidade de ataques terroristas diante da ocorrência dos Jogos Olímpicos de 2016 na cidade do Rio de Janeiro e como o arcabouço jurídico nacional encontrava-se à época para prevenir e coibir esse tipo de ato.

Justifica-se este trabalho pela necessidade de criar um referencial teórico para estudos acerca do terrorismo na realidade brasileira, área a qual carece de estudos mais profundos no que se refere ao novo marco legal sobre a matéria, representado pela Lei Federal nº 13.260/2016, bem como entendê-la no atual contexto de combate ao terror e de disseminação das informações nos meios virtuais, como se relaciona ao que se concebe como desenvolvimento e as primeiras condenações penais com base nessa Lei.

Com o advento da internet, as relações humanas mudaram, os diferentes povos ganharam um novo meio de se comunicarem. Em meio às relações mais dinâmicas, propiciadas pela rede virtual, também se facilitou o intercâmbio cultural, em que comunidades de costumes tão distintos passaram a ter contato com elementos intrínsecos à cultura de outrem. Mas essa situação é visível, antes de tudo, pelo fenômeno da globalização, na qual há intensa mobilidade de bens, serviços, pessoas e patrimônio imaterial entre as nações. Apesar de que, essas trocas sempre aconteceram na história da humanidade, mas, na hodiernidade, estão mais intensas, o que gera duas consequências marcantes: por um lado, a assimilação de elementos de culturas diversas por cada povo, por outro lado, a resistência a esse processo, o que leva a movimentos de autoafirmação nacional e cultural em vários pontos do planeta.

Nesse contexto de absorção de novos hábitos, as religiões, sistemas presentes desde as épocas mais remotas da humanidade, resguardada sua importância de cunho subjetivo, têm assistido emanarem em suas congregações movimentos de viés fundamentalista, conceito a ser exposto neste trabalho, cujos membros mostram-se resignados na ideia de repúdio às

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mudanças de comportamento social, fato muitas vezes agravado se as novas formas de agir e fazer passarem a ser vistas como provenientes de um povo dito inimigo, fato que gera os choques entre os civilizações no mundo complexo.

O fundamentalismo religioso contemporâneo traduz-se muitas vezes em terrorismo, conjunto de atos que coloca em risco a integridade física de pessoas, destrói propriedades e interfere na estabilidade política de países, inclusive conduzindo muitos desses a elaborarem planos contra o terror sem muitas vezes considerar as perdas humanas e materiais que são causadas.

O terrorismo, muitas vezes, associado unicamente ao Islamismo, pode ser verificado em várias religiões, mas neste trabalho a explanação será voltada a essa religião, pela forma como grupos terroristas, tais quais o Estado Islâmico (EI), Boko Haram e Taliban, sobretudo o primeiro, vieram ganhando notoriedade na imprensa mundial, por sua atuação destrutiva que não respeita fronteiras nacionais e vidas humanas. Por conta disso, tem-se visto um crescimento no preconceito contra esse sistema de crenças por todo mundo, baseado em uma visão simplista dela, que generaliza a conduta de todos os seus fiéis. No entanto, entenda-se que o fundamentalismo também tem crescido no seio muçulmano, e grupos como o supracitado tem conquistado a simpatia de indivíduos que aderem às causas propostas e encontram no terrorismo um sentido para suas vidas.

Nesse panorama, a forma de fazer terrorismo também vem ganhando seus incrementos, e a mais notória dessas novidades é o uso da internet como forma de organização para esses grupos, inclusive na formação de células em países até então não violados por atentados desse tipo, além da própria disseminação de suas ideias e conquista de novos membros.

A internet desfaz fronteiras e a imprensa leva informações às massas, elementos que grupos terroristas têm buscado aproveitar para difundir o pânico generalizado. A mídia, que em tantos casos vive do sensacionalismo, tem sua pauta dirigida aos espectadores, ouvintes e leitores alimentada pelos atos de crueldade de grupos terroristas. E se for pensado nas redes sociais, em que o indivíduo tem maior liberdade, chegam ao conhecimento do público casos de barbáries como execução de prisioneiros, às vezes, acompanhados de fotos e vídeos estarrecedores.

Desde os ataques terroristas que atingiram os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, assumidos pela Al Qaeda, então liderada por Osama Bin Laden, o mundo passou a refletir mais profundamente acerca do tema, o que inclui a busca por formas de combate a esse fenômeno que está, ao que parece, em ascensão. Múltiplos ataques vêm sendo registrados

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desde 2015, sobretudo, na Europa, sendo reivindicados em sua maior parte pelo Estado Islâmico.

O modus operandi e os propósitos dos grupos terroristas são diferentes entre si, mas é recorrente o registro de que vários deles carregam consigo o repúdio a costumes e valores tidos como ocidentais, muitas vezes positivados nos ordenamentos jurídicos internos dos Estados-nação e contemplados em tratados internacionais.

A ideia de direitos fundamentais ou direitos humanos encontra forte respaldo nos países ocidentais como o Brasil. Esses direitos são diretamente afrontados pelos grupos terroristas, a exemplo do Estado Islâmico, que vê no seu conjunto de ações uma forma de reconstrução de um califado que abrace e proteja toda a comunidade muçulmana sunita.

Outro fato relevante acerca desse tema é a questão da imigração, em que países europeus e Estados Unidos, principalmente, têm assistido a um aumento no número de habitantes seguidores do Islã provenientes do Oriente Médio e do norte da África, além da conversão de indivíduos próprios do país. Os imigrantes, muitas vezes, encontram-se alijados na sociedade, não conseguem emprego e boas condições de vida nos países em que foram morar, e essa marginalização repercute diretamente na absorção deles por grupos terroristas, que lhes oferecem uma nova perspectiva de vida.

Nesse prisma de abordagem, pensa-se no desenvolvimento. O conceito é amplo e ele pode ser visto como um direito fundamental, mas pensa-se em como ele entrelaça com as questões do uso da internet e do terrorismo. A Constituição brasileira de 1988 menciona o termo em vários pontos, e da leitura dela depreende-se um desenvolvimento que vai além da questão econômica e da produção de riquezas, mas que também tem a ver com questões sociais.

O desenvolvimento também é um objetivo a ser alcançado e a própria fruição dos demais direitos fundamentais é indissociável desse fim, por isso mesmo, o acesso à internet e dos meios tecnológicos faz parte de tal propósito, enquanto o terrorismo coloca em risco a segurança virtual e física, comprometendo de forma incisiva o desenvolvimento pretendido. Concomitante a isso, a exclusão de imigrantes do processo de desenvolvimento nos países mais ricos explica, em partes, o fortalecimento do terrorismo.

Passando para a realidade do Brasil, ele entrou no contexto dos megaeventos esportivos, tanto que foi sede dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007, a Copa Mundial de Futebol Fifa em 2014 e sediou os Jogos Olímpicos em 2016, também no Rio de Janeiro. É sabido que esse tipo de espetáculo envolve a participação de múltiplas delegações estrangeiras, vultosos recursos humanos e financeiros, a criação de uma infraestrutura para

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práticas esportivas e recepção dos atletas e evidentemente, para o desenvolvimento de um aparato de segurança que atenda às exigências das entidades organizadoras.

Além disso, já existiam pressões internacionais para que todos os países, inclusive o Brasil, criassem normas internas para tipificar e combater o terrorismo, situação que ganhou força com a “Guerra ao Terror” declarada pelo Presidente estadunidense George W. Bush após os ataques de 11 de setembro de 2011. Outro fator que fomentou a tipificação do terrorismo na seara penal brasileira é que eventos esportivos já sofreram atentados que dizimaram vidas, como nas Olimpíadas de Munique de 1972; nas Olimpíadas de Atlanta de 1996 e na Maratona de Boston de 2013.

Diante disso, houve no país um projeto para a inserção no Código Penal do crime de terrorismo, que dividiu opiniões. Por um lado, o Brasil nunca foi alvo de ataques terroristas e os Jogos Pan-Americanos de 2007 e a Copa do Mundo de 2014 transcorreram sem esse tipo de acontecimento, mas por outro lado, era provável que as normas de direito internacional e a existência da Lei Federal nº 7.170/1983 (Lei de Crimes contra a Segurança Nacional) não fossem suficientes para coibir esse tipo de ato, além do mais naquele momento, em que grupos extremistas ganhavam amplitude pelo mundo e mais ainda, quando recaía sobre o Brasil a suspeita de que cidadãos nacionais estivessem sendo recrutados para servir ao Estado Islâmico.

A polêmica que envolveu a tipificação penal do terrorismo estava na imprecisão de defini-lo e, sobretudo, na possibilidade de participantes de movimentos sociais, que porventura ocorressem nas Olimpíadas de 2016, fossem enquadrados nesse crime, o que poderia significar a construção de um Estado de exceção e arriscar direitos humanos fundamentais consagrados na Constituição Federal de 1988. Por isso mesmo, será feita uma análise da Lei Federal nº 13.260/2016, a qual disciplina o terrorismo e que foi aprovada em regime de urgência antes de os jogos começar.

No capítulo 2 serão explorados os conceitos e características de cultura, religião e terrorismo, a fim de se oferecer um entendimento acerca de sua correlação. Será verificada o arcabouço normativo do Brasil no que tange à proteção da liberdade de crença e culto, a partir de uma retrospectiva das constituições que já vigoraram no país e como a legislação corrobora com o cumprimento desse direito. Na mesma esteira, serão analisados os conceitos de fundamentalismo religioso e terrorismo no cenário do Cristianismo e, sobretudo, do Islamismo. Ademais, apontar-se-á a presença dessa segunda religião no Brasil e como os movimentos mais radicais se fazem presentes nele.

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No capítulo 3, haverá uma reconstrução histórica e teórica do constitucionalismo, o que enseja apontar a gênese dos direitos fundamentais, tendo como marco a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que inspirou a inserção dessas normas nas constituições de diversos países, consagrando uma nova forma de agir do homem perante o Estado. Ainda, será analisada a disposição dos direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988, considerando seus aspectos subjetivos e objetivos, funções e a divisão deles em gerações. Será dada ênfase à liberdade de consciência e crença, de proteção dos cultos religiosos e das organizações religiosas, previsões constitucionais. A partir disso, adentrar-se-á na ideia de desenvolvimento e de como ele estadentrar-se-á inserido na mesma Constituição, suas vertentes, as considerações teóricas que se fazem a respeito dele e o mais importante: o nexo dele com o direito e a consideração que ele ganha no Estado Democrático de Direito.

No capítulo 4, será feita a análise da interseção entre o terrorismo e o mundo virtual, que será exemplifica com o estudo de caso da Operação Hashtag, da Polícia Federal, a qual antecedeu as Olimpíadas de 2016, em um esquema de investigações para encontrar possíveis mobilizações para realizar atentados terroristas no país, e mais do que isso, serão exploradas as repercussões jurídicas dessa investigação, com a denúncia elaborada pelo Ministério Público Federal (MPF) e julgamento e condenação de oito réus pela Justiça Federal em 2017 a crimes previstos na Lei Federal nº 13.260/2016, situação inédita para a justiça brasileira. O capítulo trará uma explanação dos riscos que o Brasil apresentava naquele contexto em relação a sofrer um ataque terrorista, considerando a ocorrência de um megaevento que atrairia visibilidade midiática e a presença de pessoas de vários países e o histórico de atentados em eventos esportivos que se registra pelo mundo. Consoante à pertinência com o assunto, será mostrado o arcabouço normativo que o país apresenta para coibir crimes virtuais e garantir a segurança e liberdade dos usuários na internet. Na mesma esteira, será esmiuçado o arcabouço normativo brasileiro de combate ao terrorismo, com ênfase na Lei 13.260/2016.

O método de abordagem que predominará nesta pesquisa será o hipotético-dedutivo, os métodos de procedimento predominantes serão o monográfico e o histórico e a análise será qualitativa. O trabalho se valerá de fontes secundárias, o que incluirá a análise de disposições da Constituição Federal de 1988, da legislação brasileira sobre a internet, além das leis, decretos e tratados internacionais acerca do combate ao terrorismo. Ademais, será usada a doutrina jurídica, em especial nas áreas de direito penal e constitucional, livros sobre a internet e o direito digital, obras de antropologia, filosofia, história, obras acadêmicas, artigos científicos em periódicos eletrônicos e documentos com dados oficiais de organismos competentes e sítios eletrônicos com reportagens pertinentes aos temas destacados.

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2 CULTURA, RELIGIÃO E TERRORISMO NO CENÁRIO DO MUNDO COMPLEXO: O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES

Pode-se afirmar que o homem é resultado meio cultural no qual convive, tomando para si as influências das gerações que o antecederam em termos de conhecimento e experiência. Ao interferir no legado cultural em um processo de dimensão comunitária, e não, individual, permite-se as inovações e invenções1.

O surgimento da cultura pode ser assinalado a partir do momento em que se criou a primeira norma: a proibição do incesto, que estava presente em todas as sociedades humanas2. Essa vedação está no limiar da cultura, ao mesmo tempo em que seria a própria cultura3. Enquanto outra corrente defende que a transição do estado animal para humano foi possível a partir do momento em que o cérebro se tornou capaz de gerar símbolos4.

Dentre as características da cultura, pode-se destacar sua transmissibilidade não genética; suprapessoalidade e anonimato; obediência a padrões e manifestação de valores. Sobre a suprapessoalidade, percebe-se que um dado elemento torna-se cultural porque ele se desprende do(s) indivíduo(s) que o criou/criaram e ganha outras proporções ao ser reproduzido por outras pessoas e comunidades5.

A globalização representa um fenômeno que interliga todo o mundo. Graças a esse fenômeno, avanços científicos, bens de consumo, técnicas e conhecimentos conseguem ser disseminados, mas também por meio dele, vê-se a difusão de padrões normativos e

1 LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 22. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 45. 2 Laraia faz esse apontamento a partir do exame de Claude Lévi-Strauss. Ibid. p. 54.

3

“O problema da proibição do incesto apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que, num plano diferente, explica sem dúvida o caráter sagrado da proibição enquanto tal. Esta regra, social por sua natureza de regra, é ao mesmo tempo pré-social por dois motivos, a saber: primeiramente pela universalidade, e, em seguida, pelo tipo de relações a que impõe sua norma. Ora, a vida sexual é duplamente exterior ao grupo. Exprime no mais alto grau a natureza animal do homem, e atesta, no próprio seio da humanidade, a sobrevivência mais característica dos instintos. Em segundo lugar, seus fins são transcendentes, novamente de duas maneiras, pois visam a satisfazer os desejos individuais, que se sabe suficientemente constarem entre os menos respeitosos das convenções sociais, ou tendências específicas que ultrapassam igualmente, embora em outro sentido, os fins próprios da sociedade. Notemos, entretanto, que se a regulamentação das relações entre os sexos constitui uma invasão da cultura no interior da natureza, por outro lado a vida social é, no íntimo da natureza, um prenúncio da vida social, porque, dentre todos os instintos, o instinto sexual é o único que para se definir tem necessidade do estímulo de outrem”. LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Tradução de Mariano Ferreira. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 49.

4 Corrente defendida pelo antropólogo estadunidense Leslie White. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um

conceito antropológico. 22. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 55.

5

“As qualidades da cultura são: 1 – É transmitida e continuada, não pelo mecanismo genético de hereditariedade mas pelo intercondicionamento de zigotos. 2 – Quaisquer que sejam as suas origens nos, ou através dos, indivíduos, a cultura depressa tende a tornar-se suprapessoal e anónima. 3 – Obedece a padrões ou regularidades de forma, estilo e significação. 4 – Personifica valores, os quais podem ser formulados (abertamente, como costumes) ou sentidos (implicitamente, como nos hábitos populares) pela sociedade portadora da cultura, e que o antropólogo tem como tarefa caracterizar e definir”. KROEBER, Alfred Louis. A natureza da cultura. Tradução de Teresa Louro Peres. Lisboa: Edições 70, 1993. p. 159.

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comportamentais do Ocidente. Nesse cenário, ocorre uma antítese: enquanto a globalização tende a unificar, surgem ao redor do mundo movimentos de reafirmação e preservação de identidades nacionais, culturais e religiosas, que repudiam esses padrões ocidentais. Tal persistência ganhou força com o ceticismo no progresso. Antes disso, os indivíduos acreditavam que a humanidade ficaria em condições melhores, o que se poderia chamar de desenvolvimento ou de progresso, trazido pelo crescimento econômico e pela industrialização. No entanto, essa visão foi corrompida com a gênese de fatos considerados regressivos: ao mesmo tempo em que se via a ciência e a indústria evoluírem e propiciarem itens de bem-estar para as pessoas, viu-se a criação de armas nucleares, as indústrias produzem insumos cada vez mais acessíveis à população, ao mesmo tempo em que indivíduos são escravizados em algumas delas, além da própria degradação da natureza6.

A globalização, que a priori se traduz em um processo de ocidentalização, e por isso não é integral. Antes de tudo, o mundo se ocidentaliza por que existe uma busca pela tecnologia, como se pode verificar no caso do Irã, o qual demonstrou aversão às influências ocidentais, mas nem por isso deixou de buscar ter armamentos mais modernos7.

A ideia de ocidentalização fora definida como a civilização do progresso, e várias outras tomaram para si esse modelo. Ainda nesse panorama, destaca-se a ascensão de regimes totalitários pelo globo, com extermínios em massa. Ainda que a paz tenha sido restabelecida, os alegados benefícios da ciência e da técnica foram colocados em xeque, bem como as instituições políticas, os princípios filosóficos e as manifestações da vida social surgidas no século XVIII não tiveram êxito em dirimir as controvérsias e conflitos típicos da condição humana8.

A identidade do ser humano reside em sua complexidade, já que possui concomitantemente uma jaez biológica e outra metabiológica. Essa identidade se assenta na

6 BAUDRILLARD, Jean; MORIN, Edgar. A violência do mundo. Tradução de Leneide Duarte-Plon. Rio de

Janeiro: Anima, 2004. p. 65-67.

7 Ibid. p. 89-90. 8

“Há cerca de dois séculos, a civilização ocidental definiu a si mesma como a civilização do progresso. Irmanadas no mesmo ideal, outras civilizações acreditaram dever toma-la como modelo. Todas partilharam a convicção de que a ciência e as técnicas avançariam sem cessar, proporcionando aos homens mais poder e felicidade; que as instituições políticas, as formas de organização social surgidas no final do século XVIII na França e nos Estados Unidos, e a filosofia que as inspirava, dariam a todos os membros de cada sociedade mais liberdade na conduta de suas vidas pessoais e mais responsabilidade na gestão dos negócios comuns; que o julgamento moral, a sensibilidade estética, em suma, o amor ao verdadeiro, ao bom e ao belo se propagariam por um movimento irresistível e ganhariam o conjunto da terra habitada”. LÉVI-STRAUSS, Claude. A antropologia

diante dos problemas do mundo moderno. Tradução de Rosa Freire D‟aguiar. 1. ed. São Paulo: Companhia das

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dupla natureza humana, em parte no mundo tangível, físico e biológico, e a outra parte no mundo transcendental, concernente à consciência e ao espírito9.

A complexidade supracitada expressa uma relação dos indivíduos com o universo cujo entendimento é trazido de diferentes formas pelos filósofos, os quais, em muitos casos, reduzem a ideia de complexidade em vez de revelá-la. Partindo para o campo científico, nesse a ideia de complexidade é rejeitado. A ciência, ao que parece, fragmentou áreas do conhecimento e fechando-as para que não sofressem a interferência uma da outra, fato que dificulta a visão de um todo, que seria a complexidade10.

Na ideia de auto-eco-organização de Morin, que representa uma organização viva, a qual depende do ambiente em que está para dele retirar energia e informação para assim se automanter e por despender energia para realizar o seu trabalho, necessita retirar energia desse ambiente. No sistema de autopoiese proposto pelo autor, a sociedade é resultado das interações entre indivíduos, ao mesmo tempo em que os produz ela oferecendo-lhes a linguagem e a cultura com a qual ela própria se constitui11.

No contexto de sociedades complexas e nas mais simples, nenhum indivíduo é capaz de imiscuir-se em todos os elementos da cultura em que está inserido. Vários fatores definem limites a essa participação, a questão etária e de gênero, por exemplo. Nesse prisma, é válido que o indivíduo tenha um mínimo de participação no rol de conhecimentos sobre a cultura da qual participa para assim poder estabelecer conexões com os demais membros da sociedade12.

Na sociedade complexa, faltam metas e objetivos coletivos. As necessidades deixam de ser o motor da sociedade, elas se tornam modificáveis e indefiníveis. O que importa na sociedade complexa não são os indivíduos, mas os macrossistemas, as grandes organizações. Os indivíduos se tornam meras “peças” em um sistema que pode subsistir sem eles, os quais ficam relegados a uma função residual13.

9

BAUDRILLARD, Jean; MORIN, Edgar. A violência do mundo. Tradução de Leneide Duarte-Plon. Rio de Janeiro: Anima, 2004. p. 93-94.

10 “A ciência clássica rejeitou a complexidade em virtude de três princípios explicativos fundamentais. 1. O

princípio do determinismo universal, ilustrado pelo demónio de Laplace, capaz, graças à sua inteligência e aos seus sentidos extremamente desenvolvidos, não só de conhecer todo o acontecimento do passado, mas ainda de prever todo o acontecimento do futuro. 2. O princípio da redução, que consiste em conhecer um todo compósito a partir do conhecimento dos elementos primeiros que o constituem. 3. O princípio da disjunção, que consiste em isolar e separar as dificuldades cognitivas umas das outras, o que conduziu à separação entre disciplinas que se tornaram herméticas umas às outras”. MORIN, Edgar; MOIGNE, Jean-Louis. Inteligência da complexidade: epistemologia e pragmática. Tradução de João Duarte. Lisboa: Instituto Piaget, 2009. p. 36.

11 Ibid. p. 45-46.

12 LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 22. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p.

80-82.

13 FERRAROTTI, F. et al. Sociologia da religião. Tradução de Bertilo Brod. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.

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A cultura é estudada pela antropologia, a qual ganhou legitimidade científica na segunda metade do século XIX, em que ela toma para si como objetos empíricos autônomos os povos considerados primitivos, não correlacionados aos povos europeus e norte-americanos14. Não só a cultura, mas também as sociedades, os indivíduos e os acontecimentos constituem temas de interesse de outros campos de estudo, tais quais a sociologia, a psicologia e a história, mas vale o adendo de que o antropólogo deve entender a cultura como atributo do comportamento humano e do que exerce influência sobre ele15. Esses primeiros estudos não são anteriores a 1850, período histórico em que Darwin inaugurava as bases do evolucionismo biológico, teoria essa que corroborava com uma evolução social e cultural16.

Cada sistema cultural encontra sua razão de ser e constitui um ato etnocêntrico aplicar a lógica em que se estrutura um desses sistemas para outro, ou seja, utilizar-se de sua própria cultura como parâmetro para avaliar outras, atribuindo a essas um caráter de inferioridade ou irracionalidade17. Quanto a isso, os antropólogos estão na função de demonstrar as múltiplas possibilidades de comportamentos e conjuntos de valores que permitem que diferentes comunidades humanas possam encontrar a felicidade. Dessa forma, essa ciência humana abre espaço para o contato com os conhecimentos sobre outras culturas, ensejando o respeito a elas18.

Ao considerar-se uma multiplicidade cultural, também é possível adotar um conceito genérico de cultura, que se revela pelas características inerentes e comuns à espécie humana, distinguindo-a das demais, em clara contraposição à hierarquização das culturas19. Essa noção é uma quebra do paradigma filosófico que opõe espiritual e real, pensamento e matéria, corpo e mente. Por isso, a única qualidade distintiva fundamental e insubstituível desse conceito é o

14 LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2000. p. 14. “Olhar as dimensões

simbólicas da ação social – arte, religião, ideologia, ciência, lei, moralidade, senso comum – não é afastar-se dos dilemas existenciais da vida em favor de algum domínio empírico de formas não-emocionalizadas; é mergulhar no meio delas. A vocação essencial da antropologia interpretativa não é responder às nossas questões mais profundas, mas colocar à nossa disposição as respostas que outros deram – apascentando outros carneiros em outros vales – e assim incluí-las nos registros de consultas sobre o que o homem falou”. GEERTZ, Clifford. A

interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. p. 21.

15 KROEBER, Alfred Louis. A natureza da cultura. Tradução de Teresa Louro Peres. Lisboa: Edições 70, 1993.

p. 159.

16

LÉVI-STRAUSS, Claude. A antropologia diante dos problemas do mundo moderno. Tradução de Rosa Freire D‟aguiar. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 28-29.

17 LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 22. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 87. 18 LÉVI-STRAUSS, Claude. A antropologia diante dos problemas do mundo moderno. Tradução de Rosa Freire

D‟aguiar. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 33-34.

19 BAUMAN, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de

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processo de estruturação, englobante das estruturas produzidas pelo homem com seus resultados objetificados20.

Por tudo isso, será analisado no seguinte tópico o terrorismo em seus aspectos históricos e sociais, características principais, entendendo-o como fenômeno de natureza cultural que se construiu ao longo do tempo e se ramificou em diferentes locais cada qual com suas peculiaridades.

2.1 ORIGENS, DEFINIÇÃO E MANIFESTAÇÃO DO TERRORISMO

O Brasil não contava, até pouco tempo, com uma definição oficial do que seria terrorismo em sua Constituição ou em suas leis. A divergência nas definições dadas ao terrorismo pelos diferentes Estados dificulta uma ação integrada por parte deles e o compartilhamento de informações entre seus respectivos sistemas de inteligência, inclusive no que se refere a determinar quais grupos podem ser considerados terroristas ou não21.

Há a ideia de que as dificuldades de se combater o terrorismo começam na falta de uma definição exata para ele, ou até mesmo de um consenso entre as nações para tanto. A ideia de terrorismo surgiu, antes de qualquer coisa, por necessidades estatais, no contexto da Revolução Francesa para reprimir quaisquer atitudes que se opusessem ao regime que se instalou após a derrubada do Absolutismo na França. Surgiu daí a vinculação do terror ao âmbito político, diferente do que se via na Idade Antiga, em que a concepção estava ligada a questões religiosas22.

Elencam-se alguns critérios que podem caracterizar o terrorismo23:

a) a natureza indiscriminada: quaisquer pessoas ou grupos podem ser acometidos por atos dessa natureza, contudo pode haver alvos específicos, seja em termos de grupos de pessoas ou patrimônio, como, por exemplo, um grupo étnico rival ou um monumento que seja símbolo de poder político, econômico ou militar;

b) imprevisibilidade e arbitrariedade: é muito difícil identificar quando, como e onde ocorrerá um atentado terrorista. Essa intempestividade mostra-se muito danosa, já que nem

20 BAUMAN, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de

Janeiro: Zahar, 2012. p. 153. O referido autor nessa obra aponta “estrutura” como antônimo de “estado de desordem”, op. cit., p. 157.

21

COSTA, Sérgio Miguel Correia. A atividade de inteligência na prevenção da ameaça terrorista no Brasil. 2013. 65 f. Monografia (Graduação em Relações Internacionais) – Departamento de Economia e Relações Internacionais, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2013. p. 60.

22

VERGUEIRO, Luiz Fabrício Thaumaturgo. Terrorismo e crime organizado. São Paulo: Quartier Latin, 2009. p. 16-17.

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sempre as pessoas e entidades de segurança estão aptas a reagir nessas situações, e por isso estão mais vulneráveis aos efeitos de um ataque desse tipo;

c) gravidade ou espetacularidade: os terroristas procuram realizar ataques que causem danos em massa, não ataques pontuais a um indivíduo ou outro, mas que provoquem o máximo de lesividade possível a um número indiscriminado de pessoas, utilizando-se, por exemplo, de armas biológicas ou de dispositivos explosivos. Consequentemente, atos como esse ganham grande visibilidade na mídia, tal qual é o intuito dos praticantes.

d) Caráter amoral e de anomia: os praticantes de atos terroristas não consideram valores éticos vigentes e atentam contra a vida de pessoas e patrimônios se isso permitir que eles atinjam seus objetivos, dentre eles o de desmantelar a organização política que se apresenta para conseguirem firmar seu poder.

Uma definição que merece ser considerada é aquela adotada pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), elaborada pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (Creden), do Conselho de Governo (organismo do Poder Executivo), definição essa que considera um amplo conjunto de atos violentos contra indivíduos, grupos sociais específicos ou contra o governo com o propósito de atingir objetivos políticos ou sociais24.

Passando para o século XIX, o terrorismo ganhou nova acepção, com o surgimento do movimento anarquista, no qual os seus partidários incitavam, por intermédio da propaganda, a sociedade a se rebelar contra o Estado. Esse movimento tinha por intuito acabar com toda forma de autoridade sobre o ser humano, dentre elas a do Estado, sugeriam a destruição do poder político e se contrapunham ao capitalismo25.

O primeiro registro da utilização do termo terrorismo no âmbito jurídico ocorreu em 1930, na III Conferência Internacional para a Unificação do Direito Penal, a qual foi sediada em Bruxelas. Já em 1931, ocorreu em Paris a IV Conferência, na qual se propôs a criação de

24 Definição do Creden para o terrorismo: “ato de devastar, saquear, explodir bombas, seqüestrar, incendiar,

depredar ou praticar atentado pessoal ou sabotagem, causando perigo efetivo ou dano a pessoas ou bens, por indivíduos ou grupos, com emprego da força ou violência, física ou psicológica, por motivo de facciosismo político, religioso, étnico/racial ou ideológico, para infundir terror com o propósito de intimidar ou coagir um governo, a população civil ou um segmento da sociedade, a fim de alcançar objetivos políticos ou sociais. Também é o ato de: Apoderar-se ou exercer o controle, total ou parcialmente, definitiva ou temporariamente, de meios de comunicação ao público ou de transporte, portos, aeroportos, estações ferroviárias ou rodoviárias, instalações públicas ou estabelecimentos destinados ao abastecimento de água, luz, combustíveis ou alimentos, ou à satisfação de necessidades gerais e impreteríveis da população. Trata-se de ação premeditada, sistemática e imprevisível, de caráter transnacional ou não, que pode ser apoiada por Estados, realizada por grupo político organizado com emprego de violência, não importando a orientação religiosa, a causa ideológica ou a motivação política, geralmente visando destruir a segurança social, intimidar a população ou influir em decisões governamentais”. PANIAGO, Paulo de Tarso Resende e outros. Uma Cartilha para melhor entender o terrorismo internacional: conceitos e definições. Revista Brasileira de Inteligência, Agência Brasileira de Inteligência, Brasília, v. 3, n. 4, p. 13-22, set. 2007. p. 14-15.

25 GUIMARÃES, Marcello Ovidio Lopes. Tratamento Penal do Terrorismo. São Paulo: Quartier Latin, 2007. p.

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um texto com cinco artigos, o qual não foi analisado, e consequentemente, não foi aprovado. Dois anos depois, em 1933, aconteceu a V Conferência em Madri, o assunto terrorismo foi abordado com superficialidade, de forma que os participantes se detiveram em analisar os delitos terroristas e os delitos de perigo comum. Depois de várias tentativas de dá um tratamento penal ao terrorismo, é que houve uma alteração significativa de orientação nesse âmbito, fato que se deu em 1935, na VI Conferência, sediada na capital dinamarquesa, Copenhagen26.

O objetivo era de fato compelir os países a imputarem punições drásticas contra os praticantes de atos terroristas. Essa necessidade surgia do contexto que a Europa vivia desde o fim do século XIX até a metade do século XX: a ocorrência de atentados por parte de organizações insurgentes para desestabilizar o poder de Estados Nacionais, o que incluía o assassinato de altas autoridades, como foi o do Rei Alexandre I, da Iugoslávia, praticado por um terrorista croata27. Antes mesmo desse episódio, para se ter uma ideia das proporções que esses atentados vinham provocando à época, pode-se citar o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco, e de sua esposa, em 28 de junho de 1914, pelo estudante sérvio Gavrilo Princip, de 19 anos, membro do grupo Mão Negra. Esse fato representou a causa imediata para a deflagração da I Guerra Mundial, a partir do momento em que o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, gerando um conflito que durou até 191828.

O autor Mário Pessoa fala sobre a ideia de segurança coletiva como aquela de maior realce entre as seguranças políticas. Essa concepção coloca todos os povos em um sistema de superlativização e universalidade da segurança29, tendo sido prevista no Pacto da Sociedade das Nações de 1919, que ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, no qual os países signatários se propõem a não recorrer à guerra com o fito de garantir a paz e a segurança aos povos. Entre as previsões desse pacto estava a de que se houvesse um litígio entre países-membros que pudesse trazer rompimento, eles deveriam se submeter ao processo de arbitragem ou ao exame do Conselho antes de deflagrar uma guerra, conforme o artigo 1230.

26

GUIMARÃES, Marcello Ovidio Lopes. Tratamento Penal do Terrorismo. São Paulo: Quartier Latin, 2007. p. 15-16.

27 Ibid. p. 16. 28

DW. 1914: Atentado em Sarajevo. Disponível em: <http://www.dw.com/pt/1914-atentado-em-sarajevo/a-584424>. Acesso em: 20 mar. 2016.

29 PESSOA, Mário. O direito da segurança nacional. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 1971. (Coleção

General Benício, v. 91, publ. 416). p. 15.

30

PACTO DA SOCIEDADE DAS NAÇÕES 1919. Disponível em:

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Foi a Liga das Nações que deu início às discussões que estão presentes no direito internacional até hoje. Mesmo com o intuito de tornar a guerra ilícita na seara internacional, a Liga das Nações não obteve êxito nesse sentido, uma vez que o período entre as duas grandes guerras mundiais foi marcado pela ocorrência de vários conflitos armados. Pelo contrário, viu-se nessa mesma época a ascensão de regimes totalitários na Europa, como o Fascismo na Itália, o Nacional-Socialismo na Alemanha e o Bolchevismo na Rússia, caracterizados pelas ideias ultranacionalistas e antiliberais, além da postura beligerante para resolver conflitos31. Nesse contexto de instabilidades políticas e crise econômica na Europa, emergiu a Segunda Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945.

Com o fim desse conflito, surgiu a Organização das Nações Unidas (ONU), como iniciativa para evitar a ocorrência de novos conflitos com tamanha proporção, uma vez que a própria Liga das Nações não se mostrou apta a evitar esses eventos bélicos. A ONU foi estabelecida por intermédio da entrada em vigor da Carta das Nações Unidas em 25 de outubro de 1945, na cidade estadunidense de São Francisco. Dentre as disposições desse documento, está a disciplina do uso da força em âmbito internacional, em que ficou de fato firmada a ilicitude do recurso à guerra32.

Outrossim, é importante destacar o papel do Conselho de Segurança, órgão criado com previsão na Carta das Nações Unidas, de forma que ele tem que atuar recomendando às nações a adoção de meios pacíficos para que elas dirimam suas contendas. Além disso, é importante destacar que esse mesmo Conselho pode autorizar que os Estados intervenham em nome da ONU em caso de surgirem situações que coloquem em risco a segurança entre nações ou dentro de uma mesma nação33.

Posto isso, não há dúvidas de que o surgimento da ONU representou um grande avanço no que se refere à segurança internacional e a busca por consolidar meios pacíficos para solucionar tensões entre países, no entanto, a existência desse ente não tem sido capaz de coibir a formação e atuação de grupos terroristas, o que enseja uma nova forma de cooperação entre os Estados com esse objetivo e mais do que isso, exige que cada país encontre as abordagens, em termos de legislação e de atuação de seus órgãos internos de segurança, que se mostrem pertinentes para atingir tal fim.

O fim da Segunda Guerra Mundial marcou o início da Guerra Fria, um conflito, antes de tudo ideológico, entre Estados Unidos e União Soviética, defensores do capitalismo e do

31 MEZZANOTTI, Gabriela. Direito, guerra e terror: os novos desafios do Direito Internacional Pós 11 de

Setembro. São Paulo: Quartier Latin, 2007. p. 31-32.

32 Ibid. p. 33-37. 33 Ibid. p. 50-52.

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socialismo, respectivamente. Os embates para difundir seus sistemas político-econômicos ganharam grandes proporções ao longo da segunda metade do século XX, ocasionado conflitos armados como a Guerra do Vietnã e a Guerra da Coreia, golpes de Estado instauradores de regimes ditatoriais em várias nações apoiados por essas superpotências, corrida espacial e disputas acirradas nos Jogos Olímpicos, como nas edições de Montreal, Moscou e Los Angeles.

O fim da Guerra Fria deu azo para a transição de uma ordem mundial bipolar, marcada pela hegemonia daquelas duas nações, para uma ordem mundial multipolar, além de que, a desagregação da União Soviética formou vários outros países, os quais somados ao surgimento de vários países no processo de descolonização da África e da Ásia, elevou o número de nações soberanas reconhecidas no âmbito internacional. Ao mesmo tempo em se viu a proliferação de conflitos armados em Estados independentes, cujos governos centrais mostraram-se inaptos para contornar problemas internos, que Eric Hobsbawm chamou de “Estados falidos”34

.

Destaca-se também que entre as heranças deixadas pela Guerra Fria, uma delas é o enorme suprimento de armas pequenas, com grande potência nas mãos de grupos que afrontam os Estados sustentados com recursos financeiros emanados de atividades paralegais presentes na economia capitalista global. Essa situação ensejou massacres, como o de Ruanda, em 199435.

Apontam-se ainda como fatores que corroboram com a crise das nações e do nacionalismo os efeitos causados pela acelerada globalização na mobilidade dos seres humanos, de forma que há intensos movimentos migratórios de países com economia menos desenvolvida para aqueles de economia mais desenvolvida, situação fomentada pelo aprimoramento das comunicações e dos transportes36.

Outro fator para essa crise é a xenofobia, presente tanto na Europa marcada pelo nascimento dos movimentos nacionalistas como em países com histórico de forte recebimento de imigrantes desde sua formação, como os Estados Unidos. Essa xenofobia se perfaz porque movimentação de força de trabalho não teve a ampla liberdade de movimento que o capital e o comércio obtiveram no contexto de liberdade de mercado proposta pelo capitalismo

34

HOBSBAWM, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 87.

35 Ibid. p. 87. 36 Ibid. p. 89-90.

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globalizado. O futebol é uma atividade que tem exemplificado bem a conjugação entre globalização, identidade nacional e xenofobia37.

Samuel P. Huntington já sinalizara em 1993 sobre o choque de civilizações que iria ser visto no Pós-Guerra Fria, o que representaria o fim da história, o retorno às tradicionais rivalidades entre Estados Nacionais e o arrefecimento do Estado Nacional. Ele ainda afirma que a causa principal para essas tensões seria ideológica e não, econômica38.

O mesmo autor aponta que a humanidade se divide nas seguintes civilizações: ocidental, confuciana, japonesa, islâmica, hindu, eslavo-ortodoxa, latino-americana e africana. Ele vaticinou que os conflitos mais sérios no futuro se dariam devido às fraturas culturais que separam essas civilizações, que se diferenciam por vários elementos como: história, linguagem, cultura, tradição e pela religião, considerado por ele o mais importante. As características inerentes a cada uma dessas civilizações ensejariam diferentes pontos de vistas de seus respectivos povos em relação aos mais diferentes assuntos, a exemplo, as relações humanas, as relações divinas, igualdade e liberdade39.

A ocorrência desse choque de civilizações se dá não só por essa diversidade cultural, mas também porque o mundo tem se tornado cada vez menor em termos de relações humanas, dado o aumento da interação entre os povos, o que intensificaria a consciência da própria civilização e das diferenças com outras civilizações40.

Ainda se aponta o fenômeno de modernização na segunda metade do século XX, nas esferas econômica, cultural e social, como causadora do arrefecimento de antigas fontes de identidade (como o pertencimento a um Estado Nacional, por exemplo), o que abriu espaço para a religião assumir essa função, inclusive dado azo à formação de movimentos fundamentalistas. Tal fenômeno provocou o reerguimento das religiões pelo mundo41. Essa situação pode ser verificada com a atuação dos vários grupos terroristas islâmicos presentes em diferentes países, mas que têm em comum a ideia de Guerra Santa contra o Ocidente42. Além disso, pode-se destacar a atuação do Ocidente para aumentar a consciência de

37

HOBSBAWM, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 91-92.

38 HUNTINGTON, Samuel P. ¿Choque de civilizaciones? 1. ed. Madri: Tecnos, 2002. p. 1. 39

Ibid. p. 23.

40

Ibid. p. 24.

41 HUNTINGTON, Samuel P. O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial. Tradução de M. H.

C. Côrtes. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997. p. 118.

42

LIMA, Leonardo Perez. Terrorismo, doutrina Bush e a estabilidade do sistema internacional. Fronteira, Belo Horizonte, v. 4, n. 7, p. 109-131, jun. 2005. Disponível em: < http://periodicos.pucminas.br/index.php/fronteira/article/viewFile/5301/5250>. Acesso em: 29 mar. 2016. p. 112.

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civilização, o qual, apesar do seu poder de influência, enfrenta a oposição de outras civilizações que querem moldar o mundo com elementos não ocidentais43.

De igual forma, o choque de civilizações é fomentado pelo fato de que as diferenças culturais não poderem ser alteradas com a mesma facilidade com a qual as diferenças políticas e econômicas podem, afinal é possível haver mudança na classe sociofinanceira a que um indivíduo pertence, até mesmo pode carregar em sua formação genética características de duas ou mais etnias, ou ter mais de uma cidadania, porém é mais difícil que professe mais de uma religião44.

Por último, é válido salientar o regionalismo econômico como fator que aumenta as transações comerciais entre diversos povos, reforçando a consciência de civilização, mas para Huntington, a formação de blocos econômicos só é possível quando os seus integrantes pertencem a uma civilização comum45.

Após essa explanação sobre os fatores que têm estimulado o surgimento de grupos terroristas, é necessário compreender como a abordagem em relação terror se alterou após os famigerados ataques de 11 de Setembro de 2001, os quais ensejaram a forma contemporânea de tratar e combater o terrorismo, segundo o poder de influência dos Estados Unidos. A derrubada das Torres Gêmeas foi mais do que física, foi simbólica, pois elas representavam uma manifestação do liberalismo mundial e do poder financeiro, e revelou uma fragilidade na maior potência política, econômica e militar do mundo, nunca antes atacada em sua área continental, fato que pode ser nomeado como fato simbólico total46.

O referido episódio deu espaço para que fosse inaugurada a Doutrina Bush, a qual idealizada pelo então Presidente estadunidense George W. Bush, representada por um documento denominado “A estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos”, configurava um conjunto de medidas propostas para combater a ação de grupos terroristas no Globo. Entre tais medidas pode-se enunciar a busca por cooperação internacional, sem prejuízo de ações unilaterais, além de que é afirmado que os Estados Unidos se utilizarão de todo seu poder de influência para disseminar suas concepções pelo mundo. Por intermédio desse mesmo documento, os Estados Unidos afirma um compromisso de investir em países

43 HUNTINGTON, Samuel P. ¿Choque de civilizaciones? 1. ed. Madri: Tecnos, 2002. p. 25-26. 44 Ibid. p. 26-27.

45

Ibid. p. 27.

46 BAUDRILLARD, Jean; MORIN, Edgar. A violência do mundo. Tradução de Leneide Duarte-Plon. Rio de

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periféricos de forma a criar um ambiente menos favorável ao surgimento desses grupos extremistas47.

No entanto, um ponto que se mostrou polêmico na referida doutrina foi o da guerra preventiva, em que os Estados Unidos realizaram ofensivas contra qualquer localidade onde houvesse a presença de recursos humanos e materiais, como armas de destruição em massa, que pudessem colocar em risco a segurança da nação48.

A partir dos ataques de 11 de Setembro de 2001, a concepção de inimigo, a partir de então denominado combatente inimigo, tornou-se um paradigma do sistema jurídico-político, exercendo influência sobre o entendimento de guerra, estado de exceção e legalidade. No caso dos próprios Estados Unidos, um exemplo foi a ampliação dos poderes do Presidente da República para que ele possa utilizar de todos os meios que se fizerem necessários para combater o terrorismo49.

Situações como essa dão margem ao aparecimento de um Direito Penal do Inimigo50, no qual se segue a diretriz de punir todo e qualquer ato preparatório para um delito e ainda faz incidir uma ação penal sobre um indivíduo ou um grupo, baseando-se no estado de periculosidade presumido por fatores como religião, etnia, origem nacional, por exemplo51.

A situação dos Estados Unidos pode levar a um questionamento sobre a realidade brasileira atual, em que com a aprovação da Lei Federal nº 13.260/2016, derivada do projeto de lei nº 2016/2015, não seria essa norma por si só um criador de estado de exceção no país e se não abriria espaço para arbitrariedades por parte do Poder Público contra aqueles que fossem acusados de terrorismo.

Sendo assim, vê-se que a novo panorama de combate ao terror produzido pelos Estados Unidos, ao que parece, tem influenciado o arcabouço normativo de outras nações, como procede com o Brasil, que na iminência de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, na

47 LIMA, Leonardo Perez. Terrorismo, doutrina Bush e a estabilidade do sistema internacional. Fronteira, Belo

Horizonte, v. 4, n. 7, p. 109-131, jun. 2005. Disponível em: < http://periodicos.pucminas.br/index.php/fronteira/article/viewFile/5301/5250>. Acesso em: 29 mar. 2016. p. 122.

48 Ibid. p. 122.

49 ECHEVERRIA, Andrea de Quadros Dantas. Combatente inimigo, Homo Sacer ou inimigo absoluto? O Estado de exceção e o novo Nomos na Terra: o impacto do terrorismo sobre o sistema jurídico-político do século

XXI. 1. ed. Curitiba: CRV, 2013. p. 96.

50 Sobre esse termo, faz-se necessário considerar essa afirmativa: “[...] Portanto, o Estado pode proceder de dois

modos com os delinquentes: pode vê-los como pessoas que delinquem, pessoas que tenham cometido um erro, ou indivíduos que devem ser impedidos de destruir o ordenamento jurídico, mediante coação. Ambas perspectivas têm, em determinados âmbitos, seu lugar legítimo, o que significa, ao mesmo tempo, que também possam ser usadas em um lugar equivocado”. JAKOBS, Günther; MELIÁ, Manuel Cancio. Direito penal do

inimigo: noções e críticas. Organização e Tradução de André Luis Callegari e Nereu José Giacomolli. 2. ed.

Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 42.

51 VALENTE, Manuel Monteiro Guedes. Direito Penal do inimigo e o terrorismo: o “progresso ao retrocesso”.

Referências

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