Revista Eletrônica de Biologia
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REB Volume 4 (2): 53-72, 2011 ISSN 1983-7682
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_______________________________________________________________ Banco de Sementes da Floresta Estacional às Margens do
Reservatório de Itupararanga, Votorantim-SP.
Seed Bank of Seasonal Forest at Banks of Reservoir Itupararanga, Votorantim, SP.
Rafaella Zuliani Lopes Soares1; Vilma Palazetti de Almeida2
1.Graduação em Ciências.Biológicas; 2.Departamento de Morfologia e Patologia. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, Campus Sorocaba, SP.
e-mail contato: [email protected] Resumo
Serapilheira é o material solto na superfície da mata composto de folhas e pequenos galhos em decomposição, microorganismos, insetos e sementes de plantas herbáceas, arbustivas e arbóreas. Protege a superfície do solo dos raios solares, conservando sua umidade, criando condições para o desenvolvimento das plantas e da fauna nela contida. Os diásporos que caem na serapilheira acabam formando um “banco de sementes” que proporciona a recolonização da área quando se formam clareiras. O seu conhecimento em uma área florestada fornece informações básicas sobre o potencial de regeneração da comunidade, permitindo que se façam inferências sobre o processo sucessional. Foram coletadas 30 amostras de serapilheira, 1 m2 cada, presente na Floresta Estacional Semidecidual às margens do reservatório de Itupararanga, Votorantim (SP). Destas amostras, 15 foram dispostas em bandejas plásticas umedecidas diariamente e mantidas em condições de luz natural. Periodicamente era observado a germinação e o desenvolvimento das plântulas. Outras 15 amostras foram destinadas à triagem, contagem de diásporos e separação por morfoespécies. Ao avaliar a emergência de plântulas observou-se 38 morfoespécies e um total de 536 indivíduos. Das morfoespécies identificadas (32%) verificou-se que a maioria são trepadeiras, herbáceas e arbustivas. Quatro espécies arbóreas foram identificadas: Cecropia, Croton, Eugenia, e Syagrus (jerivá), sendo as três primeiras pioneiras. Na triagem obteve-se um total de 3065 sementes, 31 morfoespécies, destas 16 (51%) foram identificadas. As famílias que tiveram um maior número de sementes foram: Annonaceae, Euphorbiaceae, Myrsinaceae, Myrtaceae, Palmae e Poaceae. Na triagem também foram encontrados uma grande quantidade de frutos (26,5%), botões florais (49,6%), cálice floral (3,7%), galhas (5,3%), fezes (3,7%), exuvia de insetos (8,5%), ovos de insetos (2,6%), totalizando 187 indivíduos. Os resultados encontrados evidenciam que o banco de sementes pode ser importante no
estabelecimento de diferentes espécies, capazes de regenerar áreas após alguma perturbação.
Palavras-chave: banco de sementes, serapilheira, germinação.
Abstract
Burlap is the material found on the forest’s surface, it’s made of leaves and small branches in decomposition, microorganisms, insects and seeds of herbaceous, shrubs and arboreal. It protects the soil surface against sunrays, conserving its humidity, creating conditions for the development of plants and fauna contained within. All the diaspores that fall on the burlap end up forming a seed bank, which provides the area’s recolonization when a clearing is formed. The knowledge of a forested area’s seed bank gives basic information about the community’s regeneration potential, allowing that inferences on the successional process take place. There were collected 30 samples of burlap each with 1 m² from the Seasonal Forest located at the margin of Itupararanga reservoir, Votorantim-SP. From the 30 samples, 15 were placed in plastic trays and daily humidified and kept in natural conditions of light exposure. Regularly were observed the germination and the development of the seedlings. The other 15 were sent to triage, diaspore count and separation by morphospecies. Through the evaluation of seedling emergence 38 morphoespecies were observed and a total of 536 individuals. Among the identified morphoespecies (32%) most species were tree-creeper, herbaceous and shrubs. Four arboreal species were identified: Cecropia,
Croton, Eugenia and Syagrus (jerivá) being the three first one pioneer. On the triage
3065 seeds were obtained and divided in 31 morphospecies, from which 16 (51%) were identified. The families which had the largest number of seeds were: Annonaceae, Euphorbiaceae, Myrsinaceae, Myrtaceae, Palmae e Poaceae. On the triage it was also found a large number of fruits (26,5%), flower buds (49,6%), flower calyx (3,7%), galls (5,3%), fecal samples (3,7%), insect exuviae (8,5%) and insects eggs (2,6%), totalizing 187 individuals. The results show that the seed bank may be important on the establishment of different species that are capable to regenerate areas after a disturbing.
Key-Words: seed bank, burlap,germination.
1. Introdução
Nos ecossistemas florestais, os diásporos que alcançam o solo são constituídos predominantemente por espécies encontradas relativamente próximas ao local, pela liberação direta de sementes de frutos e diásporos do local ou de áreas mais distantes, dependendo da eficiência dos mecanismos de dispersão de cada espécie (Martínez-Ramos & Soto-Castro, 1993), e este processo denomina-se chuva de sementes. O banco de sementes é uma reserva de sementes viáveis no solo, presente na superfície ou em profundidade. A variabilidade e densidade botânica de um povoamento de sementes no solo é resultado do balanço entre a entrada de novas sementes,
através da chuva de sementes, perdas por germinação, perda da viabilidade, deterioração, e parasitismo (Carmona, 1992).
No banco de sementes do solo pode existir uma elevada densidade de sementes, podendo ser quiescentes (se houver umidade, temperatura adequada e oxigênio as sementes germinarão em um período relativamente curto) ou dormentes (que apresentam alguma restrição interna ou sistêmica à germinação) (Cardoso, 2004). O banco de sementes é um produto da história do local (Fenner, 1985), uma vez que espécies dormentes podem persistir até o surgimento de condições favoráveis para a sua germinação e estabelecimento (Williams-Linera, 1993).
As sementes/diásporos estão presentes na superfície ou interior do solo e associadas à serapilheira, sendo uma das principais fontes naturais de recrutamento de novos indivíduos em fases iniciais de sucessão (Hall & Swaine, 1980; Butler & Chazdon, 1998). Dentro de um banco de sementes, estas podem ser classificadas em recalcitrantes e ortodoxas. As recalcitrantes são geralmente grandes, apresentam elevados conteúdos de água na maturidade fisiológica e são aparentemente incapazes de desenvolver mecanismos de proteção à desidratação e aos processos metabólicos dela decorrentes, possuindo uma viabilidade muito curta (Ferreira & Borghetti, 2004). As sementes ortodoxas são relativamente pequenas, desidratam e diminuem seu metabolismo a ponto de permanecerem viáveis por longos períodos, este tipo de semente pode ser encontrada em espécies pioneiras (Ferreira & Borghetti, 2004; Wielewicki et al., 2006).
A evolução das sementes permitiu que se adaptassem no sentido de permanecerem ou não no banco de sementes (Cardoso, 2004). A característica de dormência foi desenvolvida para permanecerem no solo, assim a semente não germina e mantêm sua viabilidade. Tais sementes apresentam alguma restrição interna ou sistêmica à germinação, devido a um bloqueio situado na própria semente ou unidade na de dispersão (Cardoso, 2004).
Florestas que raramente sofrem perturbações tendem a ter densidades baixas em seu banco de sementes. Roizman (1993) estudou o estabelecimento do banco de sementes no solo pela chuva de sementes e concluiu que o banco de sementes em floresta primária é constituído principalmente por sementes
depositadas por plantas matrizes anteriormente presentes na floresta. No entanto, a perturbação contínua de uma área pode levar ao esgotamento progressivo do banco de sementes, tornando o local com restrições para regenerar na primeira fase da sucessão (Kageyama et al., 1989). Locais muito abertos e ensolarados propiciam a entrada de gramíneas, que impedem a regeneração natural da floresta (Nogueira & Nogueira ,1991).
Budowski (1965) classificou as espécies vegetais em grupos ecológicos de acordo com a sucessão: (i) - pioneiras e secundárias iniciais, (ii) - secundárias tardias, (iii) - clímax. Segundo o autor, o mecanismo de disseminação das sementes de espécies pioneiras e secundárias iniciais é muito eficiente. As secundárias tardias são tolerantes à sombra na fase jovem e tornam-se intolerantes na medida em que crescem. Nos estágios de sucessão mais avançados surgem as espécies clímax, que são tolerantes à sombra na fase adulta, apresentam abundância de regeneração, e a disseminação das suas sementes é feita por gravidade.
Este trabalho teve como objetivo caracterizar o banco de sementes presente na serapilheira de um fragmento florestal localizado às margens do reservatório de Itupararanga – Votorantim (SP), determinando o número de sementes viáveis e a diversidade do banco de sementes.
A formação do reservatório de Itupararanga com o represamento do Rio Sorocaba (SP) causou uma ocupação do solo desorganizada, desconsiderando a necessidade de manutenção de matas ciliares no entorno de corpos d’água. Ao longo do reservatório existem fragmentos de Floresta Estacional Semi-Decidual perturbados, que são as únicas fontes próximas de
sementes/diásporos para uso na recuperação destas áreas degradadas, com material botânico geneticamente o mais próximo possível da floresta original antes da perturbação antrópica, daí a importância de trabalhos de restauração e preservação das áreas ao redor do reservatório.
2. Material e Métodos
O estudo foi desenvolvido na Floresta Estacional Semidecidual às margens do reservatório de Itupararanga (S23º37’25”; W47º23’14”) no município de Votorantim. A represa é formada pelos rios Sorocabuçu, Sorocamirim e Una, está no planalto Cristalino na serra de São Francisco, com
transição para a Depressão Periférica. Possui uma área de drenagem de 851 km2, banha os municípios de Ibiúna, Piedade, São Roque, Cotia, Vargem Grande, Paulista, Mairinque, Alumínio e Votorantim. A barragem está situada no município de Votorantim, tendo uma queda de 206 m (Smith, 2003).
A represa possui múltiplos usos como área de lazer e pesca, além de ser principalmente utilizada para o abastecimento. Em seu entorno há um intenso uso agrícola. As margens estão sendo ocupadas por empreendimentos imobiliários, degradando a vegetação, resultando em campos sujos.
O remanescente florestal de onde foram retiradas as amostras de serapilheira possui uma Floresta Estacional Semidecidual que é caracterizada por duas estações climáticas, uma tropical com época de intensas chuvas de verão, seguida por estiagem acentuada e outra subtropical sem período seco, mas com seca fisiológica provocada pelo intenso frio do inverno (IBGE, 1992). A mata apresenta uma grande quantidade de bambu no seu interior e o solo é coberto por uma serapilheira espessa e rica em sementes.
A amostragem do banco de sementes do solo foi realizada em um remanescente florestal à beira do reservatório de Itupararanga, e consistiu em 30 unidades amostrais delimitadas através de um quadrante de madeira de 1 m2. As amostras foram coletadas com profundidade de 3 cm, em uma linha perpendicular à represa e com uma distância mínima de 50 metros lineares, entre si.
As amostras foram armazenadas em sacos plásticos rotulados e transportadas para o local da instalação do experimento no Laboratório de Herpetologia e Bioacústica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Centro de Ciências Médicas e Biológicas, Campus Sorocaba.
Das 30 amostras, 15 foram depositadas em bandejas de plástico 41x27x7cm sobre uma base de 2 cm de espessura de vermiculite. A observação da emergência das plântulas foi realizada diariamente por um período de oito meses. As bandejas foram regadas com água quando necessário, de modo a manter as condições de umidade adequadas à germinação e mantidas sob iluminação natural indireta.
As plântulas resultantes da germinação foram contadas, identificadas, e retiradas após o seu registro fotográfico, foram feitas também fichas das plântulas herborizadas para auxiliar a comparação e identificação. Os
indivíduos jovens cuja identificação permaneceu duvidosa ficaram na bandeja até possível identificação botânica, ou foram considerados como novas morfoespécies.
A identificação das espécies foi realizada através de consulta à bibliografia específica, dentre elas: Lorenzi 1992, Kissmann & Groth 1995, Lorenzi 1998, Barroso 1999 e Lorenzi 2000.
Outras 15 amostras foram destinadas à triagem de serapilheira separando sementes/diásporos com o auxílio de pinças, pincéis e espátula plástica. Foram contados o total de sementes de cada morfoespécie, o número de sementes com escoriações e predadas (determinando a predação por morfoespécie). Todas as sementes/diásporos triados nas 15 amostras de serapilheira foram agrupados formando lotes por morfoespécies. Em cada um destes lotes, retiradas as sementes predadas, foram feitos testes de viabilidade. A viabilidade das sementes foi verificada pelo teste do tetrazólio (Delouche et al., 1962), que consiste em escarificar as sementes quando necessário e submeter-las a embebição em placas de Petri de 9 cm de diâmetro, com duas camadas de papel filtro contendo 7 ml de água destilada, por 24h em temperatura de 25°C (Câmara de DBO). Apó s este período as sementes foram mergulhadas em tetrazólio 0,5% por 24h, isoladas da luz com papel alumínio, voltando para a câmara. Seccionando-se longitudinalmente as sementes com uma lâmina, aquelas que apresentaram embriões corados em vermelho foram consideradas viáveis, as que não apresentaram variação na cor foram consideradas inviáveis (Piña-Rodrigues & Santos, 1988; Marcos Filho, 1999).
3. Resultados
Durante o período de oito meses, foram encontradas 51 morfoespécies de plântulas na serapilheira, resultando em uma média de oito morfoespécies por m2. Das morfoespécies encontradas 20 estão identificadas. O número total de indivíduos foi de 582, uma média de 38 indivíduos por m2 (Tabela 1).
Tabela 1. Número de indivíduos morfotipados no total das 15 amostras de serapilheira do fragmento florestal existente nas margens do reservatório de Itupararanga (SP).
Morfoespécie Família / Espécie Nome comum Hábito Número de indivíduos 1 POACEAE - Herbácea 145 Sp1 2 - - - 13 3 ASTERACEAE - Arbustiva 172
4 ASTERACEAE Chicória-brava Herbácea 34
Sonchus oleraceus
5 - - - 10
6 - - - 5
7 - - - 3
8 SOLANACEAE Joá-bravo Herbácea 17
Solanum sisymbriifolium
9 - - - 2
10 MYRTACEAE Pitanga Arbórea 2
Eugenia uniflora
11 ARISTOLOCHIACEAE - - 10
Aristolochia
12 CECROPIACEAE - Arbórea 75
13 PASSIFLORACEAE Maracujá Herbácea 3
Passiflora
14 AMARANTHACEAE Caruru Herbácea 2
Amaranthus
15 PALMAE - Arbórea 2
16 POACEAE - Herbácea 8
Sp 2
17 SOLANACEAE Lobeira Arbustiva 3
Solanum
18 - - - 2
19 SOLANACEAE Maria-pretinha Herbácea 11
Solanum americanum 20 - - - 9 21 - - - 1 22 - - - 1 Cont. 23 - - - 1 24 - - - 1
25 - - - 12
26 PIPERACEAE - Arbustiva 6
Piper aduncum
27 VERBENACEAE - Arbustiva 2
Lantana
28 SOLANACEAE Joá-de-capote Herbácea 1
Physalis angulata
29 - - - 1
30 - - - 1
31 ASTERACEAE - - 2
32 - - - 3
33 SOLANACEAE Joá-bravo Arbustiva 1
Solanum aculeatissimum 34 - - - 1 35 - - - 2 36 EUPHORBIACEAE - Arbórea 1 Cróton 37 - - - 1 38 ASTERACEAE - Arbustiva 1 Emilia 39 - - - 1 40 - - - 1 41 - - - 1 42 - - - 1 43 ASTERACEAE - - 3 44 - - - 1 45 - - - 1 46 - - - 1 47 - - - 1 Cont. 48 - - - 1 49 - - - 1 50 - - - 1
51 - - - 1
Total 582
A forma de vida que predominou foi trepadeira, que juntamente com herbácea e arbustiva, podem favorecer a formação de um sub-bosque semelhante àquele encontrado na mata, em caso de transposição de serapilheira. Entre os morfotipos herbáceos identificados estavam representantes das famílias Asteraceae, Solanaceae, Amaranthaceae. Considerando as espécies arbustivas a família Asteraceae apresenta o maior número de indivíduos. Identificou-se quatro espécies arbóreas dentre elas: Cecropia, Croton, Syagrus (jerivá) e Eugenia, sendo as três primeiras espécies indicadas na literatura, como pioneiras.
As Figuras 1-3 apresentam algumas fases de desenvolvimento das plântulas nas bandejas.
Figuras 1-3. Diferentes fases da emergência de plântulas da serapilheira coletada no fragmento florestal de Mata Semidecidual existente às margens do reservatório de Itupararanga, Votorantim (SP). 1. Crescimento inicial de plântulas. 2. Crescimento observado após 15 dias da emergência de plântulas. 3. Crescimento após oito meses de observação do crescimento de plântulas.
Na triagem da serapilheira foi observado um total de 3065 sementes, uma média de 204 sementes por m2, separadas em 31 morfoespécies, resultando em uma média de 6 morfoespécies por m2. Destas morfoespécies 16 foram identificadas (Tabela 2), as famílias que tiveram o maior número de sementes foram Annonaceae, Euphobiaceae, Myrsinaceae, Myrtaceae, Palmae e Poaceae e as famílias mais representativas foram Euphorbiaceae e Mimosoideae.
Tabela 4. Identificação das morfoespécies de sementes encontradas na triagem das 15 amostras de serapilheira do fragmento florestal existente nas margens do reservatório de Itupararanga (SP).
Morfoespécie Família / Espécie Nome comum
1 PALMAE Jerivá Syagrus romanzoffiana 2 ANNONACEAE - - 3 MYRTACEAE - Psidium 4 POACEAE Bambu Cont. - 5 - - - 6 - - - 7 MYRSINACEAE Capororoca Rapanea guianensis 8 - - - 9 RUTACEAE Tembetari Zanthoxylum rhoifolium 10 EUPHORBIACEAE - - 11 - - - 12 - - - 13 POACEAE - - 14 MIMOSOIDEAE Angico-branco Piptadenia gonoacantha 15 MIMOSOIDEAE Angico-vermelho Anadenanthera macrocarpa 16 - - -
17 PAPILIONOIDEAE Amendoim-falso Acosmium subelegans 18 BIGNONIACEAE - - 19 - - - 20 - - - 21 - - - 22 MIMOSOIDEAE Pithecolobium incuriale 23 - - - 24 - - - 25 - - 26 MIMOSOIDEAE - Albizia 27 - - - 28 - - - 29 EUPHORBIACEAE - Cont. - 30 - - - 31 VOCHYSIACEAE - Qualea
Durante a triagem foi possível avaliar a quantidade de sementes predadas ou intactas, sendo estas viáveis ou não de acordo com o teste do tetrazólio. As Figuras 4-5 apresentam uma semente viável e outra inviável. Um grande número de sementes apresentaram-se 100% predadas ou mortas, sendo estas de 17 morfoespécies. Das sementes que foram submetidas ao teste de tetrazólio mostraram-se 100% viáveis a morfoespécie 11 e 50% viáveis a morfoespécie 18 da família Bignoniaceae. Sementes inviáveis foram observadas na morfoespécie 13 (100%) morfoespécie 9 da família Rutaceae (50%) e da morfoespécie 6 (47,2%).
Figura 4-5. Sementes avaliadas através do teste de tetrazólio. 4. Embrião viável. 5. embrião inviável.
No decorrer da triagem também foram encontrados além de sementes, frutos (26,5%), outras estruturas reprodutivas como botões florais (49,6%), cálice floral (3,7%), além de galhas (5,3%), fezes (3,7%), exuvia de insetos (8,5%), ovos de insetos (2,6%), totalizando 187 indivíduos.
A presença destes outros elementos dificulta e confunde na identificação das morfoespécies de sementes. As Figuras 6-9 apresentam algumas sementes encontradas na triagem (morfoespécie 1 e morfoespécie 4), frutos e botões florais.
Figura 6-9. Morfoespécies encontradas na triagem de serapilheira coletada no fragmento florestal de Mata Semidecidual existente às margens do reservatório de Itupararanga, Votorantim (SP). 6. Morfoespécie 1 - PALMAE – Syagrus romanzoffiana - Jerivá. 7. Morfoespécie 4 – Bambu. 8. Fruto. 9. Botão floral.
4. Discussão
A importância do banco de sementes para a regeneração das florestas relaciona-se ao estabelecimento de grupos ecológicos, como das pioneiras, e com a restauração da riqueza de espécies arbóreo-arbustivas (Baider, 1999). Espécies pioneiras invadem lentamente um sítio disponível à colonização e facilitam o estabelecimento de outras, pois agem como abrigo para os vetores de dispersão, melhoram as condições de fertilidade do solo e fornecem habitats adequados ao recrutamento (Baider, 1999). Dessa forma, espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas pioneiras constituem grupos ecológicos com diferentes funções distintas na regeneração da floresta (Baider, 1999).
O banco de sementes da floresta às margens do reservatório de Itupararanga caracterizou-se pela presença de herbáceas, arbustivas e arbóreas pioneiras, o que vem ao encontro com dados bibliográficos em regiões tropicais. Whitmore (1990), na Nigéria, e depois em outras regiões tropicais, obteve sempre o mesmo resultado: o banco de sementes das
florestas tropicais é constituído, basicamente, por espécies pioneiras herbáceas e arbustivo-arbóreas de ciclo de vida curto.
De acordo com Hopkins & Graham (1984) e Vasquez-Yanes & Orozco (1987), espécies herbáceas pioneiras não são componentes de florestas tropicais, mas aparecem em grande número no banco de sementes, pois, geralmente, apresentam dormência facultativa, além de possuírem mecanismos eficientes de dispersão. Este fato tem sido observado na área de coleta de serapilheira, onde não foram observados indivíduos adultos das famílias Solanaceae e Convolvulaceae, encontrados entre as plântulas que cresceram as serapilheira.
Tanto em florestas temperadas como em tropicais, raramente encontra-se similaridade florística entre o estoque de encontra-sementes e a vegetação local (Martinez-Ramos & Soto Castro, 1993; Roizman, 1993). A dissimilaridade apresentada pode ser devida, para algumas espécies, à formação de um banco de plântulas ao invés de banco sementes (Garwood, 1989; George & Bazzaz, 1999; Antos et al., 2005), pela presença de sementes maiores ou por dificuldade destas incorporarem-se ao solo (Putz & Appanah, 1987). As espécies, que germinaram, em amostras de solo, geralmente estão ausentes ou são raras na vegetação local, e provêm de diferentes locais e épocas (Garwood, 1989), justificando a importância da presença de dispersores para o transporte de propágulos na recomposição florestal. A dispersão de sementes sobre uma área degradada é essencial para a sua regeneração, uma vez que o banco de sementes do solo sofre uma rápida diminuição na abundância e riqueza de espécies devido à curta viabilidade de muitas delas (Garwood, 1989).
Espécies arbóreas, como as pioneiras Cecropia, Croton, Syagrus (jerivá) encontradas no estudo e também entre os indivíduos adultos presentes no fragmento florestal, são comuns nos bancos de sementes, tanto que, as duas primeiras espécies são indicadas como espécies tolerantes a áreas abertas e úteis para plantio misto em reflorestamento de área degradada de preservação permanente (Lorenzi, 1992). Em um número elevado de estudos em florestas tropicais, espécies arbóreas têm sido encontradas, em especial, pioneiras e grandes pioneiras (Guevara & Gómez-Pompa, 1972; Hall & Swaine, 1980; Enright, 1985; Lawton & Putz, 1988; Hopkins et al., 1990), representando entre
18% e 91%, respectivamente, do total de espécies encontradas no banco de sementes (Garwood, 1989).
Espécies que ocorrem enterradas no banco de sementes, via de regra, são pequenas. Entre as vantagens adaptativas comumente conferidas a essa característica, estão a menor pressão de predação e a maior facilidade de incorporação ao estoque do solo (Orozco-Segovia et al., 1993), entretanto sementes pequenas são difíceis de serem tiradas do solo, tanto que não foram observadas sementes de Cecropia na triagem de serapilheira.
A produção de sementes é um evento decorrente da polinização e os fatores ecológicos envolvidos nesta etapa da reprodução têm impacto direto sobre a quantidade e qualidade da semente obtida (Pina-Rodrigues, 1993). As espécies florestais são, na maioria, polinizadas por agentes bióticos, principalmente por insetos, aves e morcegos. Nas regiões tropicais a grande diversidade das florestas faz com que haja uma grande especificidade quanto aos seus polinizadores. Este fato demonstra grande dependência dos vetores de polinização para o sucesso na produção de sementes em espécies tropicais (Kageyama, 1986).
A predação é o fator que pode atuar a produção de sementes diretamente, por danos causados às flores, frutos e sementes, ou indiretamente pelo efeito da herbívora em partes vegetativas. Poucas espécies florestais estão livres dos ataques de insetos. A maioria dos danos é causado no estádio de larvas, oriundas de ovos depositados ainda na flor ou fruto em desenvolvimento (Kageyama, 1986).
A predação pode ocorrer em dois momentos, na pré-dispersão, em geral promovida por insetos cujas larvas se desenvolvem nas sementes, consumindo parte ou todo seu material de reserva ou na pós-dispersão também chamada de pós maturação que ocorre em frutos recém dispersos. Esta última é ocasionada por vários agentes bióticos como fungos, insetos, pequenos mamíferos e aves, o que reduz a quantidade de sementes disponíveis (Kageyama, 1986).
Os resultados encontrados evidenciam que o banco de sementes pode ser importante no estabelecimento de diferentes espécies, capazes de regenerar áreas após alguma perturbação.
5. Agradecimentos
À Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) pelo apoio financeiro e permissão para desenvolver esta pesquisa na APAdo trabalho na Floresta Estacional Semidecidual às margens do reservatório de Itupararanga.
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