VAIDADE DE VAIDADES, TUDO É VAIDADE?
INTRODUÇÃO
Deveria o livro de Eclesiastes permanecer na Bíblia? Esta já foi uma objeção levantada contra a importância e validade desse livro. Isto por certo se deve a dificuldade que qualquer um tem ao se deparar inicialmente com sua leitura. São doze capítulos, sendo que nos onze primeiros, quase não ouvimos outra coisa senão que tudo não passa de vaidade. De forma mais clara, somente ao final do último capítulo, conseguimos perceber o propósito do autor em ser tão contundente ao falar sobre a existência terrena. Podemos dizer que no capítulo 12, nos versos de 9 a 14, encontramos a chave para a compreensão de sua mensagem. Alguém já sugeriu que ao se ler tal obra, devêssemos começar sua leitura pelo final. No entanto, a despeito da dificuldade de compreender este livro, podemos com certeza obter grande proveito, pois, as suas ob- servações são grandemente relevantes e nos leva a refletir sobre como temos nos condu- zido e do perigo de tudo quanto conseguirmos nesta vida, se resumir em inutilidade.
QUEM FOI O AUTOR E QUANDO O LIVRO FOI ESCRITO?
O título Eclesiastes é derivado da palavra traduzida em nossa Bíblia por "Pregador", que aparece em 1.1. Nosso título em português deriva da tradução grega da palavra hebraica qoheleth. O termo "Eclesiastes" foi utilizado na Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento. A autoria de Eclesiastes é atribuída ao Rei Salomão. Isto é feito com base em algumas informações que aparecem no livro, dando indicações sobre ser ele seu autor. O livro inicia dizendo: "Palavra do Prega- dor, filho de Davi, rei de Jerusalém" (1.1). Em 1.12 lê-se: "Eu, o Pregador, venho sendo rei de Israel, em Jerusalém". Nos versículos seguintes, o autor fala de suas conquistas, que nos fazem de fato pensar na pessoa do Rei Salomão: "Disse comigo: eis que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém; com efeito, o meu coração tem tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento" (1.16). Ainda em 2.4-9, o autor descreve suas conquistas, como grandes empreendimentos, bens e tesouros acumulados, etc. Ao final do livro, em 12.9-14, há uma homenagem à sabedoria de Salomão. É importante ressaltar que, embora o autor nomeie-se filho de Davi, em lugar nenhum do livro o nome Salomão aparece, muito embora, nenhum outro filho de Davi se enquadre nas descrições feitas. Este tem sido o ponto de vista tradicionalmente defendido sobre a autoria de Eclesiastes.
Alguns outros intérpretes não concordam que o autor tenha sido Salomão e sim alguém que viveu depois de seu tempo. Acreditam que o estilo da linguagem hebraica utilizada e a visão negativa a respeito dos governantes (4.13; 7.19; 8.2-4; 10.4-7), sejam indicações disso. Entretanto, compreendem que o estilo adotado pelo autor desconhecido, seja semelhante ao de Salomão, tendo este como o melhor expoente da tradição sapiencial (relativos aos escritos de sabedoria).
A data da autoria é considerada por volta do século X a.C. Ainda que haja quem proponha outra autoria e data, isso não afeta sua mensagem e o propósito para o qual foi escrito. Por meio do livro de Eclesiastes, no qual o autor se utiliza de argumentos negativos, e muitas vezes até pessimistas acerca da vida, aprendemos que o temor e a fé em Deus é o único caminho que dá sentido a toda realização humana.
CARACTERíSTICAS E TEMAS
O livro de Eclesiastes é considerado uma obra apologética, pois o autor defende a fé em Deus, demonstrando ser ela o único caminho para satisfação humana em tudo que possa realizar. Com sua já citada argumentação negativa, o autor percorre todo o livro apresentando uma noção de inutilidade com respeito a tudo quanto se pode realizar nesta vida. Ao final, ele conclui que o valor real da vida está em servir a Deus e considerá-lo em todas as coisas. É claro que compreender esse propósito do autor é uma tarefa difícil, devido à sua constância em um aparente pessimismo.
No decorrer da leitura nos deparamos com a pergunta "que proveito?". Essa pergunta aparece logo no início do livro, em 1.3: "Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?". Sua argumentação é conduzida de modo a responder essa pergunta. Há também a repetição de palavras como "vantagem", "proveito" e outras semelhantes, como "melhor". Outra palavra importante é "vaidade", que é usada no tema que domina todo o livro e transmite a ideia de inutilidade. Esse tema abre o livro em 1.2 e o encerra em 12.8.
Como parte dos temas desenvolvidos pelo autor, é apresentado uma perspectiva acerca do trabalho e da sabedoria.
Uma expressão importante que serve para o entendimento do livro é "debaixo do sol" (1.3,9,13). Ela é utilizada para referir-se ao limite da existência terrena, ou seja, ao mundo em que vivemos, a tudo quanto está ao nível do chão e que é igual para todos os homens em todos os tempos. Essa expressão se repete cerca de trinta vezes nos doze pequenos capítulos. É interessante percebermos que as descrições feitas pelo autor, fruto de suas observações, podem muito bem ser constatadas por cada um de nós aos prestarmos atenção aos acontecimentos que envolvem nossa vida. Quem nunca ficou entediado com a rotina que domina nossa existência? Quem nunca se perguntou se tudo tem sentido? Podemos concluir que, se tudo que realizamos nesta vida tiver um fim em si mesmo, tudo não passará de inutilidade, de "correr atrás do vento" (1.14), "vaidade de vaidades, tudo é vaidade" (1.2). Para que isso não aconteça, ou em outras palavras, para que haja contentamento na vida, faz-se necessário atentar para o que o autor propõe, principalmente ao final de sua obra, apontando o caminho de temor a Deus como a solução para o abismo em que se encontra a existência "debaixo do sol", ou seja, a terrena.
A ABORDAGEM SOBRE O TEMA "TRABALHO"
Dentre os temas abordados em Eclesiastes, dois deles recebem grande atenção: trabalho e sabedoria. Agora trataremos do trabalho. Veremos como o livro o aborda e como de forma profunda apresenta os perigos que envolvem essa atividade hu- mana. O tema sabedoria será estudado na próxima lição.
A VAIDADE DO TRABALHO
esforço e trabalho. Ele apresenta uma descrição sobre tudo que conseguiu: grandes obras, jardins e pomares, adquiriu servos e servas, comprou bois e ovelhas, se cercou de tudo que pudesse lhe dar prazer, etc. A conclusão dele é a seguinte: "Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol" (2.11). Quando lemos os versos que vem a seguir (2.18-26), conseguimos com- preender melhor aonde o autor quer che- gar. Para ele todo esforço se torna sem sentido, pois, por mais que se faça e se busque a realização pessoal por meio do trabalho, no final fica a incerteza quanto ao fim que terá tudo quanto conseguimos acumular, pois, com a morte qual será o destino de tudo? Quem irá herdar o que acumulamos durante toda a vida, saberá como adminis- trar? Todo o trabalho que se realiza no final se resume em canseira, em fadiga e a morte põe fim a tudo.
EXISTE ALGUMA FINALIDADE NO TRABALHO? BÊNÇÃO OU MALDIÇÃO?
Não que o autor não veja sentido algum no trabalho, ou queira com isso estimular a ociosidade, pois, para ele é tolo quem cruza os braços (4.5). Conforme os versos 24 a 26 do capítulo 2, há como se obter alguma alegria por meio do trabalho, pois ele tem origem em Deus. O trabalho e as bênçãos decorrentes dele são dádivas do Senhor. Podemos entender que o autor procura demonstrar como será fútil a vida se devotada ao trabalho, tendo a realização pessoal como um fim em si mesmo. Entendemos que o autor quer que seus leitores pensem acima das preocupações mundanas, ou que considerem as ocupações terrenas de um ponto de vista celestial. Que não coloquem no trabalho a sua satisfação, não querendo afirmar com isso que o trabalho não possa proporcionar algum prazer. Que entendam que o trabalho foi dado por Deus, para que por meio dele o homem, e principalmente o servo de Deus, obtenha seu sustento e até mesmo satisfação: "Sei que nada há melhor para o homem do que regozijar-se e levar vida regalada; e também que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho" (3.13). Em outras partes do livro encontramos o mesmo entendimento (2.24- 26; 5.18-20). Portanto, o autor compreen- de que em si mesmo o trabalho não é uma maldição, mas uma bênção do céu. O trabalho ou seu ganho não deve ser considerado um fim em si mesmo, antes deve ser considerado um meio para se atingir um fim, ou seja, a subsistência do homem e o seu conforto. Afinal de contas, foi Deus quem criou o trabalho para esta finalidade. Isto pode ser comprovado no relato da criação de todas as coisas, conforme Gênesis 1 e 2. Quando Deus criou o homem não o colocou no jardim para ficar ocioso. Muito pelo contrário, o homem tinha que cultivar e guardar o jardim, obtendo por meio de seu trabalho o sustento. Desta forma analisado, concluímos que o trabalho pode ser uma bênção se desenvolvido com o fim para o qual foi dado ao homem. Porém poderá ser uma maldição, caso se torne a finalidade da vida.
O que é demonstrado por Eclesiastes deveria ser levado em consideração por nós que vivemos no século 21. Suas palavras são bastante pertinentes e a despeito do espaço de tempo que nos separa da época em que foi escrito, o que diz sobre o trabalho tem sido uma realidade vivida na atualidade. Não é verdade que muitas vezes o trabalho tem dominado as pessoas, a ponto de sufoca- las? Não é igualmente verdade que a causa de muitos problemas conjugais, familiares, tem a sua raiz na dedicação excessiva ao trabalho? Pais e mães ausentes, não dão a desculpa de que precisam trabalhar? A dedicação exclusiva ao trabalho não tem sido a razão da quebra do quarto mandamento? As igrejas cristãs lutam hoje para ter uma boa frequência aos cultos, pois, muitos de seus membros, não podem fazer outra coisa se não trabalhar e
trabalhar. Mais e mais ouvimos as expressões: "não tenho tempo", "estou cansado", "estou com pressa" e etc. É bem verdade, e Eclesiastes considera isso, que precisamos trabalhar, mas será que é preciso trabalhar tanto, como trabalham alguns ou como o mundo sugere?
O livro de Eclesiastes coloca diante de nós uma oportunidade ímpar de pararmos e avaliarmos, de que forma temos de- sempenhado nosso trabalho no dia-a-dia, para que evitemos os males decorrentes do envolvimento desenfreado com o trabalho. Afinal de contas, aonde queremos chegar com tanto trabalho?
O PERIGO RELACIONADO AO ACÚMULO DE RECURSOS
Uma questão relacionada ao trabalho que o "Pregador" considera, diz respeito ao acúmulo de riquezas ou o amor pelo dinheiro. Ele disse que seu esforço em acumular recursos, no final das contas, não passou de correr atrás do vento. Ele demonstra que quem trabalha com o fim de acumular recursos, apenas com a finalidade de ter cada vez mais, vive uma grande frustração, nunca encontrando satisfação (4.7-8; 5.10). O apóstolo Paulo também falou acerca desse perigo, ou seja de se amar o dinheiro e buscar nas riquezas a satisfação. Em 1 Timóteo 6.6-10, Paulo alerta Timóteo quanto ao perigo em colocar nas riquezas a satisfação. Timóteo é ensinado a viver sa- tisfeito, mesmo se tivesse apenas o que fosse necessário à sua sobrevivência: "Tendo sustento e com que nos vestir estejamos contentes" (v. 8). O apóstolo demonstra que aqueles que querem ficar ricos se expõem a diversas tentações e pecados: "Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição" (v. 9). Diz ainda que o amor do dinheiro é raiz de todos os males (v. 1 O). Não que o amor ao dinheiro, ou avareza, seja a única raiz dos males existentes, mas, sem dúvida é uma raiz que dá origem a todo gênero de males. Certamente a questão que Paulo quer suscitar, não é que o dinheiro, seja um mal em si mesmo, mas sim, o valor que atribuímos a ele em detrimento da confiança e do amor a Deus acima de tudo. Nos versos 17 a 19, o apóstolo não encoraja os crentes ricos a se desfazerem das suas riquezas, mas, em contra partida, que confiassem em Deus, fizessem o bem, sendo generosos em dar e prontos a repartir, e que acumulassem tesouros nos céus. Podemos dizer que a preocupação do autor de Eclesiastes é semelhante a do apóstolo, pois, também, no contexto em que fala da vaidade de se acumular recur- sos por meio do trabalho, aponta para a inveja e outros males que são resultantes dessa postura (Ec 4.1-8).
Na Bíblia existem outras evidências de como o amor depositado nos recursos terrenos, e/ou a preocupação com o seu acúmulo podem conduzir à ruína espiritual. O jovem rico não pôde seguir a Jesus, pois amava mais do que tudo as suas posses (Lc 18.18-23). Em Atos 5, Ananias e Safira, sofreram o juízo de Deus, pois, mentiram sobre o valor que haviam conseguido com a venda de uma propriedade. Em Lucas 12.13-21, Jesus conta uma parábola sobre um homem avarento que por meio de seu esforço acumulou muito recurso, mas, não se preocupou com o destino de sua alma, tornando inútil tudo o que havia acumulado. Jesus conclui a parábola dizendo: "Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus". Tiago em sua epístola condena a atitude dos ricos que oprimiam os trabalhadores, retendo os salários des- tes, para poderem desfrutar de uma vida regalada (T g 5.1-6).
muito e outros não têm nada. Somos pressionados de todos os lados a buscarmos satisfação nas possessões e nos recursos econômicos. O consumismo, o materialismo, o hedonismo, e outros "ísmos", têm sido aliados nessa campanha. Somos bombardeados todos os dias com propagandas e incentivos dos mais variados para que consumamos cada vez mais. Afinal de contas é assim que caminha a humanidade, é dessa maneira que o desenvolvimento ocorre. É por isso que muitas ve- zes trabalhamos tanto. Estamos tendo a oportunidade de, ao estudar Eclesiastes, refletirmos sobre essas questões de nosso cotidiano que grandemente nos afeta e lutarmos para romper com tudo isso, desvencilhando-nos de tais preocupações terrenas. Não que exista algum mal inerente em ter posses, mas precisamos cuidar para não sermos dominados por elas. Neste aspecto aplica-se a exortação de Cristo: "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o tesouro, aí estará o teu coração" (Mt 6.19-21).
CONCLUSÃO
O estudo do livro de Eclesiastes tem grande importância para nossos dias em que a vaidade é uma constante. Ignorar os apelos do Pregador e suas observações sobre a existência terrena, constitui-se estulticia. Seremos sábios se observarmos seus conselhos. Podemos perceber, ao estudar mais detidamente o tema trabalho, que ele é uma bênção de Deus e só tem sentido quando realizado para a glória do Senhor. Do contrário, será mais uma vaidade.
REFEXÃO
Tiago em sua epístola (2.22-25), considera bem-aventurado aquele que atenta para a palavra de Deus e a pratica, e compara aquele que negligencia seus ensinamentos, àquele que de frente para um espelho contempla sua face, se retira e logo se esquece de sua aparência. Considerando que a palavra de Deus é como um espelho, coloque-se diante dela e examine se em seu viver, você está atento aos perigos da vaidade.