Uma reflexão sobre a constituição
do sujeito poético intimista
em Camilo Pessanha
Katiucia da Silva Figueiredo
Graduada em Letras, Pedagogia, pós-graduada em Literatura Moderna e Contemporânea. Professora da Educação Básica I, e Tutora à distância.
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ABSTRACT
To write poetry, the poetic author transfers in it
what he feels about the world, he transfers his
intimacy, since writing involves exposing his
Self.
And the Self of the poetic author is constructed
from the interaction between himself and world.
However, there is a dialectical process between
author, internal and external space that results in
the interaction, and the interaction is visible in
the writing of poetic author. So what he writes,
it's what he thinks, it's what he feels about the
world he lives in.
KEYWORDS
Author-space-interaction-intimacy-writing
RESUMO
Ao escrever a poesia, o sujeito poético transfere
nela o que sente sobre o mundo, ele transfere o
seu intimismo, pois escrever implica expor o seu
Eu.
E o Eu do sujeito poético é construído a partir
da interação entre sujeito e mundo. No entanto, há
todo um processo dialético entre sujeito, espaço
interno, externo de que resulta a interação, e a
interação é visível na escrita do sujeito poético.
Assim o que escreve, é o que pensa, é o que sente
sobre o mundo em que vive.
PALAVRAS-CHAVE
LITERATURA
Antes de fazer uma reflexão sobre a cons-tituição do sujeito poético Intimista em Camilo Pessanha, vamos falar sobre o Intimismo do Su-jeito no espaço interno e externo, nos remete-mos às questões sociais, pois para o sujeito se constituir consigo mesmo inicialmente tem uma exter/inter-relação com o mundo. Não se fala de poesia sem antes compreender a constituição intimista do Sujeito no mundo. O intimismo é um termo que distingue a vida privada da vida pública; a vida íntima, recolhida, sólida, da vida social.
O intimismo, que tratamos nesse texto se constitui de três maneiras que se interligam: primeiro, o sujeito relaciona-se ao o espaço
ex-terno, depois ao espaço interno e por fim
resul-ta na interação do sujeito, e essa interação se re-vela de diversas formas, uma delas é na Escrita. Utilizamos palavras-chaves que compõem o intimismo no sujeito (espaço, interno, exter-no, interação); isso faz-nos compreender que há para o sujeito três momentos passageiros para sua constituição íntima: o primeiro se dá atra-vés de um espaço externo, que o sujeito
reser-va para si ( por exemplo: um quarto ou uma
casa), o segundo, o sujeito diante de seu espaço
mergulha através dele em seu íntimo (em seu
in-consciente), e o terceiro é a interação do sujeito e sua representação intimista.
Sendo esses três momentos importantes para a constituição do sujeito, nota-se que o foco intimista está no “reservar”, “mergulhar” e “representar” do individuo. A constituição do sujeito se dá por meio do espaço interno e exter-no ao mesmo tempo, então a partir disso, surge sua interação, os fatores duplos tornam-se úni-cos, e assim nasce a representação do sujeito de si para si e de si para o outro.
A referência do espaço externo correspon-de ao espaço doméstico em que o sujeito vive, o quarto em que dorme, a casa e seus devidos espaços, ou seja, o espaço íntimo. Pensando no imóvel que o sujeito possui para o seu recolhi-mento, leva-nos a pensar também que o sujeito ao recolher-se em seu espaço, leva consigo os instantes absorvidos fora de seu aposento; par-tindo desse pressuposto, percebe-se a interação
do sujeito com o mundo.
Sabe-se da impossibilidade do sujeito ser constituído por si só, mas sabe-se também que ele posteriormente pode optar para não viver mais, próximo à sociedade, isolar-se, alienar--se, marginalizaralienar--se, porém, é bem verdade que por mais longe que esteja, a “sociedade” estará em si, porque uma vez vivido, experimentado, dificilmente essa vivência é anulada pelo sujei-to, a não ser que esse sujeito seja alienado da sociedade desde sua infância tal como Kasper Hauser.
Como dissemos no início, ao se falar de in-timismo rapidamente nos remetemos ao públi-co e ao privado, que é uma questão totalmente social e que interfere no comportamento do su-jeito. Para entender melhor a ideia de público e privado, basta nos remetermos à Idade Média em que ao sujeito, por decisões superiores, era imposto pelo Clero, para serem constituídos, por solidariedades coletivas. Tanto é que Philipe Áries diz que o fim da Idade Média foi um perí-odo importante, pois as pessoas não tinham di-reito de terem privacidade, porque eram domi-nadas pela igreja, mas aos poucos a população foi crescendo, e as pessoas foram se privatizan-do; além disso, o curioso é que a igreja achava que mantendo todos sob seu jugo impediria que as pessoas refletissem sobre si mesmas; porém sem que a igreja percebesse fazia com que as pessoas se recolhessem cada vez mais.
A primeira acepção, que enfatizamos no início, parece ser frequente nos escritos do sécu-lo XVII e XVIII nos diários livres de raison, e me-mórias. Segundo Áries e Madelaine Foisil uma das maiores conquistas individuais foi a escrita ( claro que graças à imprensa que contribuiu para despertar a alfabetização) pelo fato de, através dela, o sujeito fazer o mergulho íntimo e conhecer-se melhor. Revelam-se na escrita as descrições do espaço, da sociedade, da família, e as formas dos aposentos.
A escrita intimista implica no sujeito pen-sar em dois tipos de escrita: a hiponemata e a correspondência; a correspondência funciona como algo “público” e a hiponemata pode ser comparada ao “privado”.
LITERATURA
Retomemos, agora, a segunda definição que foi feita do intimismo, pois corresponde ao espaço privado mais voltado ao psicológico da qual falamos no início. O intimismo privado é aquele em que o sujeito volta-se ao seu eu num espaço sólido, e opta por mergulhar em seu ín-timo. Essa característica intimista aparece ainda mais no século XIX, período em que os valores da humanidade tornam-se efêmeros, em conse-quência da industrialização estar no auge e do materialismo ser o mais valorizado no momen-to.
Neste período desemboca também a reno-vação da lírica, com um cunho fortíssimo na Literatura Intimista, que objetivava a busca da autenticidade do eu, a busca da cura dos an-seios vagos que surgem no ser, pois a literatura intimista se define sobretudo pela busca do sen-tido do sujeito, que implica despertar as ques-tões básicas do intimismo, da representação do sujeito.
Além de tudo a Literatura Intimista faz-nos refletir sobre os diversos aspectos da vida, as formas do tratar do eu, o significado do tempo e do mundo para o individuo. As formas que se usam para abordar o intimismo se fazem atra-vés da 1ª pessoa e 3ª pessoa do singular. Leia-mos a título de exemplificação um trecho da po-esia de Bernadim Ribeiro que embora estivesse no século XVI, já tinha a preocupação com o eu:
Entre mim mesmo e mim não sei que s’alevantou que tão meu imigo sou
Nota-se nestes versos um sujeito que fala de si e busca resposta para o seu vazio, tentando assim entender o que levou a ter um “imigo” dentro de si; no entanto se percebe um sujeito que ainda não tem consciência do que está bus-cando como os sujeitos das poesias simbolistas, que tinham consciência da perda da vida e mes-mo assim persistiam em sua dor.
Assim como há uma persistência de busca em Bernadim Ribeiro há também em Camilo Pessanha, porém em ambos há uma
persistên-cia diferente, pois o sujeito de Bernadim não tem consciência do que está buscando, já o su-jeito do Pessanha tem consciência da perda da harmonia da vida e a busca da essência do seu ser.
Atentemo-nos ao título do seu livro
Clepsydra, palavra que vem do grego
(Klepsidra) que designa numa espécie de relógio que funciona pelo movimento da água. Já no título aparecem três símbolos importantes na palavra: o relógio, o movimento e a água; relógio simboliza o Tempo (passado, presente e futuro), o movimento corresponde à ação, e a água simboliza o mergulho na vida interna do sujeito.
Analisando o título do livro percebe-se que esses elementos estão presentes no seu conteú-do. Leiamos na integra o soneto “Caminho” que se compõe de uma trilogia:
Caminho
I
Tenho sonhos cruéis; n’alma doente Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro, Embebido em saudades do presente... Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente, Devendo, ao desmaiar sobre o poente, Cobrir-me o coração dum véu escuro!...
Porque a dor, esta falta de harmonia, Tôda a luz desgrenhada que alumia As almas doidamente, o céu d’agora,
Sem ela o coração é quási nada: Um sol onde expirasse a madrugada, Porque é só madrugada quando chora.
II
Encontraste-me um dia no caminho Em procura de quê, nem eu sei. – Bom dia, companheiro – te saudei, Que a jornada é maior indo sozinho. É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei... Na venda em que poisaste, onde poisei,
LITERATURA
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É no monte escabroso, solitário. Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!...Foi no entanto Que chorámos a dor de cada um... E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
III
Fez-nos bem, muito bem, esta demora: Enrijou a coragem fatigada... Eis os nossos bordões da caminhada, Vai já rompendo o sol: vamos embora. Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada... Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!... Cada um por seu lado!...Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho, Eu posso resistir à grande calma!... Deixai-me chorar mais e beber mais, Perseguir doidomente os meus ideais,
E ter fé e sonhar – encher a alma.
Agora atentemo-nos a esse gráfico que cor-responde à trilogia:
ou seja a parte I do gráfico corresponde à parte I do soneto e assim sucessivamente, além disso cada parte do gráfico tem título, que correspon-de à icorrespon-deia correspon-de cada parte do soneto.
Como já foi dito, a escolha do gráfico se deu através do segundo verso da primeira parte do soneto, pois o sujeito está indo a medo na aresta do futuro, ou seja, o sujeito está diante de uma intersecção de dois planos que têm por finalida-de chegar a algum lugar;
Pensando na imagem do ângulo, vê-se re-almente duas retas que finalizam em um ponto, pode-se dizer que o sujeito desta trilogia (Ca-minho) está destinado a chegar “num ponto”, e esse “ponto” se refere ao futuro.
A I parte do gráfico nomeada Eu-Só, está posicionada no ângulo, na primeira parte e na parte mais aberta (se for necessário olhe no grá-fico), isto indica que o sujeito está “aberto”.
Sinto um vago receio prematuro... Saudades desta dor que em vão procuro...
As palavras - vago//vão, dão ideia de “aber-tura” para um “encontro”, no entanto o sujeito está só e a procura de “algo” que é a DOR; nota--se que a dor (na primeira parte) está presen-te, mas está implícita, ele tem “sonhos cruéis; n’alma doente”. Logo na II parte, nomeada EU--OUTRO nota-se que a intersecção de dois
pla-I II III
EU - SÓ EU - OUTRO INTEGRAÇÃO
Dor
Suj.
Aresta - Ângulo
Este gráfico tem a pretensão de explicitar o foco principal da trilogia e foi criado a partir do verso “vou a medo na aresta do futuro”. O grá-fico se divide em três planos; cada plano corres-ponde aos algarismos romanos ( I, II e III) que estão relacionados com cada parte do soneto,
LITERATURA
nos está “explicita”, porque há o encontro do sujeito e a dor.
“Encontraste-me um dia no caminho...”
Na primeira parte do soneto os verbos re-ferem-se somente ao sujeito ( Tenho/ sinto/ vou/ Embebido/ procuro/...), já na segunda parte os verbos se referem ao sujeito (dor), ( Encontras-te-me/ paraste/ Bebemos/...).
Na 1ª estrofe da II parte, o sujeito parece estar contando algo que passou ( num tom de oralidade), mas nota-se um certo distanciamen-to entre “eu” e “outro” ( encontraste-me) ], já na 2ª estrofe o “eu” (sujeito) e o “outro” ( dor) parecem fundir-se juntos (Bebemos cada um do mesmo vinho), no entanto há uma intersecção também em ambos.
Na III parte nomeada “Integração do eu com o eu” no gráfico, indica que até determina-do momento o sujeito estava com a determina-dor e depois tenta integrar-se ainda mais em seu eu, na 3ª e 4ª estrofe:
“Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho, ...”
“Deixai-me chorar mais e beber mais, Perseguir doidamente os meus ideais,
É ter fé e sonhar encher a alma”.
Numa leitura Shopenhauriana, o sujeito faz uma tentativa de integrar-se cada vez mais em seu “eu”, como se quisesse deixar a dor e não conseguisse é como se nesse momento também “finalizasse” a aresta, pois temos um sujeito que se curva diante desse momento, im-plorando a dor “Deixai-me chorar mais e beber mais,...” essa dor funciona como uma espécie de sofrimento e ao mesmo tempo como uma neces-sidade de senti-la.
Estar sem a dor é estar sem motivo de bus-ca para o sujeito, estar sem dor seria estar sem o choro e sem os ideais, pois o único ideal do sujeito é procurar em vão a dor que o perturba,
sem ela seu caminho fica sem sentido.
O fim do ângulo, a curva do ângulo; seria o fim e a curva do sujeito, mas esse fim se des-faz quando diz “Perseguir doidamente os meus ideais, / e ter fé e sonhar – encher a alma” parece retornar ao início da I parte “Tenho sonhos cruéis; n’alma doente...”, e também parece retornar ao primeiro principio do homem que é a fé, a crença dos ideais; o próprio contexto da poesia permite-nos a circularidade do soneto, da dor do sujeito, por isso o sujeito diz “Vou a mêdo na aresta do futuro, / Embebido em sau-dades do presente...”, pois no futuro a saudade o levou, e a mesma o levou a retornar ao presen-te inicial (ao passado).
Na trilogia há dois tipos da Dor e em duas perspectivas diferentes; a primeira é uma dor que leva o sujeito ao tédio, ao sofrimento, à des-truição, e a outra nos sugere a imagem de uma totalidade, de um fechamento ainda maior para a conquista da Luz, da “Verdade”, pois o sujeito anseia por um nível primordial que o aproxima do transcendental, em que retoma, inclusive, o valor altamente religioso.
Para compreensão da primeira imagem destruidora lembramo-nos de Shopenhauer; ele diz que todo querer se origina da necessidade, portanto, da carência, do sofrimento e a cada desejo satisfeito, dez permanecem irrealizados.
Quando o sujeito resolve buscar a dor, ele está sendo condicionado pelo querer. No entan-to a dor o faz sofrer e ser escravo de si próprio, escravo do seu desejo, das suas vontades e uma vez que não consegue realizar o seu desejo tor-na-se miserável, porque é conduzido por uma vontade invencível, que desemboca no tédio, na insatisfação.
A título de exemplificação leiamos os ver-sos:
a) Sinto um vago receio prematuro. b) Saudades desta dor que em vão procuro...
c) Cobrir-me o coração dum véu escuro!... (Nos versos a/b/c o sujeito está à pro-cura, e está sendo escravo do seu desejo)
LITERATURA
A leitura dos versos numa visão Shopenhaureana, faz-nos pensar que há no mundo algo representativo à aquele que é
inocente, que ainda não provou das vontades,
mas a partir do momento que o sujeito reconhece nas representações o desejo da busca, ele percebe que seu desejo é irrealizável, portanto, enquanto havia antes em si a inocência ele tinha “sonhos na alma”, porém após as decepções das vontades e dos sentidos, passa a ter na alma sonhos, porém, crueis, que o deixaram doente. Sendo assim, resta para o sujeito que tem apenas sonhos crueis a caminhada com a dor.
Que a jornada é maior indo sozinho b) Paraste a repousar, eu descansei...
Bebemos cada um do mesmo vinho.
Estar junto com a dor implica no sujeito estar mais próximo ao real, pois como diz Shopenhauer as alegrias são passageiras e as dores são permanentes, sendo a dor estável é ela o símbolo da aresta imóvel, que permanece estacada no sujeito, pois ainda que o sujeito tente separar-se da dor, não consegue mais, pois ela faz parte do seu ser, por isso o desejo de “beber mais” e “chorar mais” a dor.
Retomando, agora, a outra imagem da dor, da qual havíamos dito anteriormente ela nos sugere uma imagem de vida, de totalidade e de transcendência de um plano de sofrimento para a plenitude subjetiva.
Tendo a dor essa característica, nota-se uma dimensão religiosa que aproxima o sujeito poético dos elementos primordiais, que retomam o mito e o tempo.
Sabe-se que o retorno ao mito, é o mesmo que o retorno ao tempo sagrado; Segundo Mircea Eliade retornar aos elementos mitológicos é regressar à divindade, para isso é necessário o mergulho inconsciente, que implica a proximidade do sujeito com o primitivo.
Feito o mergulho inconsciente do sujeito há uma intersecção dele com a dor, e da junção de ambos resulta a integração com o divino que se
apresenta no soneto como um ritual.
Visto que na parte I o sujeito está sem espe-rança e num intermediário entre vida e morte, entre duas intersecções duma aresta, a dor na segunda parte pode ser vista como uma tenta-tiva de renascimento, através de um ritual de comunhão cristã.
É longe, é muito longe, há muito espinho! Paraste a repousar, eu descansei... Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho. É no monte escabroso, solitário. Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!...Foi no entanto Que chorámos a dor de cada um... E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
Logo quando se lê esses versos aparece-nos a imagem de uma jornada cheia de espinhos, cheia de sofrimento de dor. A dor redime; como no mito de Cristo; nessa visão cristã da vida, a dor faz o sujeito sofrer, chorar, se entediar, e através dela propicia a nova vida.
Tanto é que, o vinho simboliza o sangue de Jesus Cristo e além de tudo é uma bebida que representa um elemento que faz parte do ritual de passagem. Na medida, que o sujeito bebe o vinho, ele bebe o pranto, a dor, e ao mesmo tem-po é transcendido para outra dimensão do ser. Sua alma foi purgada.
Na III parte o sujeito aparece renovado, e ...
“Este vinho, mais vir-gem do que a aurora,...”
...Fortificado para “resistir à grande cal-ma!...”, e perseguir doidamente seus ideais.
A imagem de decadência, na primeira parte do soneto, depois o encontro com a luz na II par-te e renovação da fé na III, dá-nos a ideia circular do sujeito no tempo, de ter sempre presente a
LITERATURA
ânsia do futuro e o desejo do passado, o lateja-mento de morte e vida, de crença e descrença; tudo isso faz-nos notar que não só há redundân-cia como também a inconstânredundân-cia no sujeito, isso se manifesta na sua manifestação dualista.
Observemos:
O latejamento aparece também na própria técnica da poesia; nota-se que os sonetos desta trilogia são decassílabos, e os versos são heróicos, com acento na 6ª e 10ª sílaba, e o curioso é que a cisão dos versos ocorre nas palavras chaves que demonstram o estado do sujeito ( cruéis/ receio/ aresta/ saudades/ dor/ afugentar/ desmaiar), e essas palavras servem sempre de complemento, ou seja, adjetivos de um substantivo que por si só não tem uma conotação tão obscura.
Cruéis Doente
sonhos n'alma Sub. abstrato Sub. abstrato
adjetivo adjetivo
Já vimos os desdobramentos do sujeito, agora, vamos pensar como se dão o interno e
externo nessa poesia. Primeiramente notemos
que, o intimismo desse sujeito é constituído por meio dos elementos espaciais.
Pensando no título da trilogia “Caminho”, já temos um elemento espacial que indica uma espécie de trilho que conduz de um lugar a ou-tro; a palavra caminho pode ser lida como um espaço concreto (espaço externo) e ao mesmo tempo como uma alegoria (espaço interno) , pois foi por meio do externo que o sujeito inter-nalizou em si o Caminho (que era algo significa-tivo) e o transformou em uma alegoria extrema-mente significativa .
A partir disso, o sujeito expressa o que lhe significa a vida, e explora seus sentimentos através de elementos que surgem durante a caminhada: que ora é a crença, o sonho, o desânimo, o surgir de um sol e depois de uma madrugada (passagem do dia).
Ao utilizar esses elementos na poesia po-de-se entender o que diz Gaston Bachelard que é por meio do externo que surge o interno; por causa disso, o sujeito absorve em si esses ele-mentos e se prende como diz no início da tri-logia a um sonho, e no final a uma fé, vivendo assim num intermediário de real e ideal.
Ressaltando também que o sujeito utiliza outras alegorias, como: vinho, rocha, espinho. O vinho é uma bebida que simboliza o sangue de Cristo, é o cálix da dor, e ao mesmo tempo é o veículo de passagem do velho para o renovo, portanto tem um significado transcendental; a
(Morte) Tenho sonhos cruéis;
n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro
(Vida) Deixai-me chorar mais e
beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar – encher a alma.
(Descrença) Devendo, ao desmaiar
sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!....
(Crença) Eu quero arrostar só
todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!
a) As almas doidamente, o céu d’agora,
Sem ela o coração é quási nada:... d) E queima como areia!... Foi no entanto
Que chorámos a dor de cada um...
tra o seu estado, os trechos também se desdo-bram nos enjambement:
O estilo deste soneto indica-nos não só o desdobramento das palavras como do próprio sujeito poético, que por si só é um sujeito co-mum, e a partir do momento em que o sujeito encaixa-se em determinados adjetivos, ele
mos-LITERATURA
rocha é uma alegoria de resistência e de reco-lhimento sólido, que eleva o sujeito acima dos demais seres, e por fim é o espinho que nos faz lembrar mais uma vez o mito de Cristo, seu so-frimento que teve que carregar consigo até o fim da sua vida.
Desse modo, notemos que esses elemen-tos espaciais servem para intensificar a dor do sujeito no mundo que por sua vez está em seu espaço interno (em seu inconsciente), apesar do recolhimento do sujeito consigo mesmo parecer um regresso, mas não é, pois é um progresso intimista, que o faz refletir sobre seu eu, sobre a essência da vida, e sobretudo, o levou à apro-ximação dos elementos divinos (mitológicos), e da busca da sua autonomia.
Cumpre-se nesta poesia de Camilo Pessanha a alegoria do título Clepsydra – relógio/tempo, ação/movimento e água/vida – mesmo que o sujeito viva “estático” sobre o
tempo outrora aleatório, contudo, sua dor é o
motivador do seu CAMINHO.
NOTAS
1. O sujeito decide muitas vezes se constituir (sua au-tonomia) sozinho , por não aceitar as posições impos-tas pela sociedade.
2. Como escrever meu “EU”? Porque escrever? e Como ser lido pelo outro?
3. Segundo o dicionário Globo, “uma intersecção de dois planos que formam um ângulo”.
4. Isso dá-nos a ideia que algo é sempre completo por um outro elemento ( tema frequente neste soneto) 5. Regresso no sentido de não progressivo e sim ne-gativo.
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