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A ESCOLA E O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA

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A ESCOLA E O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA

Pedro Aprígio dos Santos1 Resumo

O presente trabalho apresenta a pesquisa de campo realizada com docentes de uma Escola Estadual, que oferece Ensino Fundamental e Médio do município de Campo Grande-MS, sobre umas das ações de políticas públicas do governo federal - o Programa Bolsa Família. A investigação de forma geral analisou como os docentes desta escola veem o referido Programa; além disso, verificou se houve mudanças na vida escolar (de forma geral) a partir da vigência do Programa Bolsa Família.

Palavras-chave: Escola. Programa Bolsa Família. 1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho analisou como os profissionais docentes de uma Escola Estadual que oferece Ensino Fundamental e Médio do município de Campo Grande-MS, veem o Programa Bolsa Família - criado no ano de 2003 pelo então governo federal Luiz Inácio Lula da Silva. Tal interesse de investigação se dá a partir da crença de que esse programa tem gerado transformações na vida desta escola, especificamente no período vespertino, ou seja, no Ensino Fundamental.

Assim, a pesquisa teve como objetivo geral analisar como os docentes da referida escola veem o programa. Qual é a importância do Programa Bolsa Família para a Escola? Quais as transformações na vida escolar após a implementação do referido programa?

Além dessa introdução, o presente trabalho se estrutura apresentando pressupostos teóricos, metodologia e dados e as conclusões possíveis.

2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

A pobreza está presente na agenda política nacional, na mídia, na escola, mas não basta apenas reconhecer que a pobreza existe é essencial compreendê-la em sua forma multidimensional. Ela é fruto de uma construção social, cultural e histórica e afeta milhões de

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seres humanos. A sociedade do Brasil é uma das mais desiguais do mundo, pois milhões de brasileiros ainda vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza.

A pobreza é fruto de uma construção social, cultural e histórica. Ela está presente na sociedade, mas não basta apenas reconhecer que a mesma existe. É necessário compreendê-la em sua pluralidade. A história nos mostra que

[...] aos(às) pobres são negados os direitos sociais mais básicos, como alimentação, teto, renda e trabalho, os quais é atribuição do Estado garantir. Logo, o reconhecimento dessas condições deve conduzir à estruturação de políticas sociais – das quais o Programa Bolsa Família é um exemplo-. Mas, há várias críticas que rotulam de assistencialistas as políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família-. [É dever e responsabilidade do Estado, cuidar, formar e promover uma vida digna e feliz para todos.] Contudo, se a vida é o primeiro direito do ser humano e garanti-la é o dever mais elementar do Estado, não pode ser considerado assistencialismo algo que efetive essa garantia. Nesse sentido, o Programa Bolsa Família assume como inspiração política que o reconhecimento do direito à vida é um dever público, logo, a ser traduzido em políticas de Estado, como uma responsabilidade pública, para além do tradicional assistencialismo (ARROYO, 2016, s.p.).

A mídia e a sociedade por não saber ou mais greve ainda, por não querer saber sobre a estrutura complexa, sistemática, crítica do pobre e da pobreza, constrói uma imagem negativa desses sujeitos, essa negatividade

[...] passa pela atribuição aos indivíduos da responsabilidade pela sua situação (como se eles tivessem escolhido ser pobres, nascer em uma família pobre, bairro pobre, área rural pobre, enfim em um país pobre, ou que não cuida deles) há uma espécie de racismo que os vê como indivíduos antropologicamente ou - em termos mais “modernos” - geneticamente diferentes do resto da população. No melhor dos casos, a pobreza é estigmatizada como uma, situação humilhante que - quaisquer que sejam suas causas - impõe, silêncio e vergonha aos que nela se encontram. Tudo isso torna praticamente impossível aos pobres levantar sua voz, pois para tanto precisariam de um nível mínimo de autoestima que lhes é negado, de várias maneiras, pela imagem negativa mencionada e que os mesmos tendem a interiorizar (REGO; PINZANI, 2013, p. 35).

O Estado é uma das mais belas instituições sociais criadas pelo homem ao longo da historia. É dever do Estado promover uma vida digna aos seus membros, embora “[...] a defesa e a promoção da vida não são monopólio de ninguém, mas tarefa e responsabilidade de todos” (JOÃO PAULO II, 1995, p. 182). Segundo Campbell (2003, p.117)

[...] é óbvio que todos os cidadãos estão obrigados a não violar determinados interesses importantes identificados por direitos humanos específicos, evitando atos, tais como matar, roubar e privar outros de liberdade, mas o Estado tem o especial dever de proteger os cidadãos uns dos outros através

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de legislação, de procedimentos administrativos e de políticas apropriadas. Faz parte das obrigações de direitos humanos dos Estados cuidar para que seu próprio aparato não transgrida os direitos humanos e atuar, sempre que necessário, no sentido de assegurar esses direitos a todos os que vivam dentro de sua jurisdição.

A Constituição Federal de 1988, que é considerada como Constituição Cidadã, determina no seu Art. 3º que são elementos fundamentais da República Federativa do Brasil os seguintes pontos: “I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos [...]” (BRASIL, 1988).

Assim, o Estado tem o dever de cuidar e promover uma vida digna, justa para todos. E, sobretudo para aquelas pessoas mais necessitadas que vivem numa realidade de pobreza ou extrema pobreza que são sem “voz”, sem autonomia e, consequentemente, estão as margens da cidadania real2.

Sabemos que a pobreza “não é somente privação de dinheiro e recursos materiais, é também privação de capacidades e não desenvolvimento de funções humanas importantes, o que torna os pobres ainda mais pobres” (REGO; PINZANI, 2013, p. 66). É necessário e urgente promover uma vida digna a todos. Pois todos tem o mesmo valor e dignidade, o Estado brasileiro como afirma à Constituição Federal no Art. 3º , inciso IV, tem como um de seus objetivos fundamentais “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (BRASIL, 1988).

Nessa direção é que foi criado em 2003, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Bolsa Família (BF); um programa de transferência direta de renda, destinado àquelas famílias que vivem no contexto de pobreza e extrema pobreza em todo território nacional. Ele é uma das ações de políticas sociais do governo federal.

O Bolsa Família é um programa que contribui para o combate à pobreza e à desigualdade no Brasil. [Ele possui três eixos principais, a saber:

[1] Complemento da renda — todos os meses, as famílias atendidas pelo Programa recebem um benefício em dinheiro, que é transferido diretamente pelo governo federal. Esse eixo garante o alívio mais imediato da pobreza. [2] Acesso a direitos — as famílias devem cumprir alguns compromissos (condicionalidades), que têm como objetivo reforçar o acesso à educação, à saúde e à assistência social. Esse eixo oferece condições para as futuras

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Para maiores informações sobre Cidadania Real e Formal é necessário ler: As duas cidadanias. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia para o ensino médio. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 139-141.

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gerações quebrarem o ciclo da pobreza, graças a melhores oportunidades de inclusão social.

Importante — as condicionalidades não têm uma lógica de punição; e, sim, de garantia de que direitos sociais básicos cheguem à população em situação de pobreza e extrema pobreza. Por isso, o poder público, em todos os níveis, também tem um compromisso: assegurar a oferta de tais serviços.

[3] Articulação com outras ações — o Bolsa Família tem capacidade de integrar e articular várias políticas sociais a fim de estimular o desenvolvimento das famílias, contribuindo para elas superarem a situação de vulnerabilidade e de pobreza.

Desde 2011, o Bolsa Família faz parte do Plano Brasil Sem Miséria, que reuniu diversas iniciativas para permitir que as famílias deixassem a extrema pobreza, com efetivo acesso a direitos básicos e a oportunidades de trabalho e de empreendedorismo.

A gestão do Bolsa Família é descentralizada, ou seja, tanto a União, quanto os estados, o Distrito Federal e os municípios têm atribuições em sua execução. Em nível federal, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) é o responsável pelo Programa, e a Caixa Econômica Federal é o agente que executa os pagamentos.

O Programa Bolsa Família está previsto em lei — Lei Federal nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004 — e é regulamentado pelo Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004, e outras normas (MINISTERIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E AGRARIO, 2016).

O BF é um programa que promove as condições mais básicas da existência humana, pois dar “voz”, “autonomia”, “dignidade” as pessoas; conforme Moura (2010) ele promove alívio da pobreza através de transferência direta de renda às famílias; reforça o exercício de direitos sociais básicos diversos através das condicionalidades, que contribuem para o possível rompimento do ciclo da pobreza.

Mas o referido programa ainda não é bem visto por parte da sociedade, as vezes é tido como assistencialismo, favorecimento político, acomodação dos beneficiários. Infelizmente essa forma de “[...] pensamento esta enraizada no fazer público, se faz presente nas políticas, programas e serviços de assistência social, educação, saúde, combate à pobreza” (MOURA, 2010, p. 74). Os autores do livro “Vozes do Bolsa Família” relatam os vários cenários da pobreza com suas diferentes manifestações, os estereótipos, os preconceitos e como o Estado, (agentes públicos) e instituições tratam os pobres. Segundo eles, “[...] no Brasil, é notória a hostilidade contra programas públicos de combate a pobreza por parte da mídia e da chamada opinião pública, que, na realidade, expressa a posição da classe média, alta, numericamente minoritária, mas poderosa como grupo social” (REGO; PINZANI, 2013, p. 148-149).

Cabe então apontar que o Programa Bolsa Família fornece importante auxílio às pessoas que vivem na pobreza ou extrema pobreza, pois “[...] além de garantir a subsistência imediata,

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[...] fornece uma base material necessária para que os indivíduos possam desenvolver-se em direção a uma maior autonomia” (REGO; PINZANI, 2013, p. 69).

O programa insere os benificiários na dimensão da cidadania; conforme Moura (2013, p. 92) a dimensão sócio-político-educacional dos programas de transferência de renda coloca as pessoas nas ações de políticas públicas e na participação da cidadania. Portanto,

[...] ao incluir o beneficiário no corpo dos cidadãos, promove nele um sentimento de identificação com a nação, devido ao reconhecimento de sua pessoa por parte das instituições políticas do Estado. Suas necessidades se tomam objeto de direitos, cuja satisfação ele pode exigir do poder público. Em contrapartida, exige-se dele que assuma suas responsabilidades perante a comunidade política e o próprio Estado. Assim, ocorre o aprendizado da cidadania em uma dupla dimensão: a do sujeito de direitos e a do sujeito de deveres. As duas dimensões são necessárias para que os indivíduos se considerem cidadãos, isto é, membros ativos do corpo político, e não meros clientes que recebem passivamente os serviços oferecidos pelo Estado. (REGO; PINZANI, 2013, p. 75).

Em termos de condições para o exercício da cidadania, é necessário apontar a importância da educação. É fato que esta transforma o homem e, consequentemente, a sociedade, uma vez que pode fomentar o respeito para com a diversidade cultural, religiosa, política, econômica, social, sexual e para com o meio ambiente, mas isso depende da qualidade educacional dada/vivenciada na sociedade.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB) no. 9.394/96, no Art. 1º, “[...] a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” (BRASIL, 1996). É dever da família e do Estado promover uma educação de qualidade e transformadora da realidade. Consoante ao Art. 2º da LDB, a educação é “[...] dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Conforme o Artigo 205 da Constituição Federal de 1988, “[...] a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988).

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A educação é um processo lento, complexo, “multifuncional” e perpassa a vida do indivíduo. Enfim, ela envolve a pessoa em sua estrutura: social, política, cultura, religiosa, moral e ética. Portanto de forma geral a educação envolve

[...] a transmissão e o aprendizado das técnicas culturais, que são as técnicas de uso, produção e comportamento, mediante as quais um grupo de homens é capaz de satisfazer suas necessidades, proteger-se contra a hostilidade do ambiente físico e biológico e trabalhar em conjunto, de modo mais ou menos ordenado e pacífico. Como o conjunto dessas técnicas se chama cultura, uma sociedade humana não pode sobreviver se sua cultura não é transmitida de geração para geração; as modalidades ou formas de realizar ou garantir essa transmissão chamam-se educação (ABBAGNANO, 2007, p. 357).

Assim, é preciso uma educação de qualidade que respeite e valorize a diversidade cultural, religiosa, sexual, política entre tantas outras. E, além disso, forme cidadãos comprometidos com o bem estar da sociedade e da biodiversidade, para que aconteça uma vivencia (convivência) democrática e humana.

A escola é uma das principais instituições sociais na construção e desenvolvimento da sociedade, mas não basta existir a escola e a permanência do aluno nela. É necessário que a mesma ofereça uma educação centrada no sujeito em sua realidade sociocultural, promovendo uma formação em que ele seja autônomo e responsável pelo bem do outro. Pois, de “[...] nada adianta oferecer escolas de péssima qualidade que contribuem para a reprodução das desigualdades em sentido amplo: culturais, sociais, econômicas e, sobretudo, políticas” (REGO; PINZANI, 2013, p. 178).

3 METODOLOGIA E DADOS

Diante da natureza do trabalho realizamos uma pesquisa de caráter qualitativo, de campo, uma vez que esta modalidade de pesquisa permite flexibilidades e melhores ajustes, pois está fora das equações matemáticas e

[..] trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (MINAYO, 2001, p. 21-22).

Para atingir os objetivos propostos, utilizamos como instrumento de coleta de dados entrevistas com roteiro semiestruturado, composto de por 10 questões realizadas com 10 professores que corresponde 30% do quadro dos docentes de uma escola estadual do município de Campo Grande-MS. O uso da entrevista se deu, tendo em vista que esta é

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[...] uma das principais técnicas de trabalho em quase todos os tipos de pesquisa utilizados nas ciências sociais. Ela desempenha importante papel não apenas nas atividades científicas como em muitas outras atividades humanas [...] na entrevista a relação que se cria é de interação, havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde. Além disso ela permite correções, esclarecimentos e adaptações que a tornam sobremaneira eficaz na obtenção das informações desejada[...] ela ganha vida ao se iniciar o diálogo entre o entrevistado e o entrevistador (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 33-34).

Os critérios para a seleção dos professores basearam-se na quantidade de aulas no período (matutino/vespertino), no maior número de contato desses profissionais com os alunos e mais tempo na escola em estudo. Tais critérios foram elaborados mediante a hipótese de que nessas condições, os profissionais podem deter mais informações da realidade social, familiar e cultural dos alunos.

Assim, apresentaremos então a visão destes profissionais em educação sobre a pobreza, o Programa Bolsa Família e a relação deste com a escola.

Na entrevista realizada com o corpo docente de uma escola estadual de Mato Grosso do Sul, encontramos diversos pontos de vista sobre a temática da pobreza. Segundo o professor João,3 “a pobreza não é apenas uma questão econômica, de forma geral é social e política”. Para o professor Antunes ela “existe desde os primórdios das civilizações... e hoje muitas comunidades que ainda por razões políticas, por razões religiosas sofrem com a falta de oportunidade para desenvolver sua própria vida, como pessoa, como cidadã, por falta de trabalho e interesse político”.

A professora Feliciana que leciona há mais de dez anos na Educação Básica faz uma distinção entre pobreza e pobreza extrema ou miséria. Segunda ela,

Pobreza é quando o cidadão tem as condições vamos dizer de arcar com suas necessidades ter, por exemplo, uma casa que possa oferecer uma certa comodidade, segurança para o mesmo é [quando] ele tem condições de arcar com suas obrigações como pagar a luz, por exemplo, e não depender de terceiros ter um trabalho para atender sua necessidade e da família (Profa. Feliciana).

A pobreza está presente na escola, no bairro onde se vive e em todo sociedade envolvendo vários aspectos sociais, culturais, políticos, educacionais entre outros. Conforme a professora Marília, a pobreza se dá pela ausência da escola, pois ela não está presente na vida

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da comunidade e também pela falta de questões básicas como alimentos, moradia entre outras. Então, ela é

[...] uma situação de calamidade, mas não só no seio da família na comunidade onde a gente vive, ela está relacionada a falta de educação, a ausência da escola dentro da comunidade, o afastamento da escola, não é pelo fato da escola está dentro de um município ou dentro de um bairro que ela está inserida na comunidade. Então a ausência da escola faz com que as pessoas se afundem na pobreza. Então a pobreza ela tem início na falta de educação e depois na falta da matéria que [a pessoa] precisa para sobreviver, que é o alimento, a própria casa [...] (Profa. Marília).

Ao serem questionados sobre se o governo brasileiro vem tendo ações para acabar com a miséria e reduzir a pobreza, alguns professores falaram que sim e outros que não. Para o professor Jorge há várias ações por meio de políticas sociais que buscam solucionar ou amenizar a situação da pobreza ou pobreza extremo “só que eu vejo como medida paliativa as vezes ou que simplesmente não funciona” (JORGE). Segundo Sofia “são lançados programas... como o bolsa família, mas muitas vezes nem todos tem acesso a esses programas”.

Conforme o João “os governantes não estão preocupados com a pobreza da população em si”, já conforme Pascal,

“a gente ouve falar sobre muitas ações, mas, poucas colocadas em práticas, talvez não chegam ao público que realmente deveria chegar. Fica com uma propaganda muito bonita na mídia”. Para a Tereza “algumas ações foram feitas, como o bolsa família, a renda familiar que foi colocada pelo governo e as casas que ele (governo) ofereceu para o pessoal da pobreza”. Conforme a Marília tem muitas ações como “o Bolsa Família, Vale Renda, Brasil Carioso criado para dar educação a criança de 0,0 a 04 anos. Mas esses programas infelizmente são limitados”.

O governo precisa promover e executar políticas públicas para atender as necessidades da população, sobretudo a mais necessitada. Conforme o professor João o “governo precisa se preocupar mais com a população [...]. Eles [os governantes] deveriam olhar mais para população e resolver essas questões que são prioritárias”, as questões as quais o professore se refere são: educação, saúde e segurança. Já para a professora Helena "O governo nos últimos anos vem tentado trabalhar e tem várias ações para diminuir a pobreza no País. Então, dentro da educação a gente pode ver programas como: Bolsa Família, Bolsa Escola [...] alguns programas de acesso a universidade [como] o ProUni e Fies."

Os docentes da escola escolhida para pesquisa conhecem e entendem o Programa Bolsa Família de diversas formas, a saber: por meio da mídia (televisão, internet), por meio da escola

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e através da convivência com as famílias beneficiárias do citado programa. O docente João o conhece por meio da mídia e diz que o mesmo:

“é uma manobra do governo, uma forma de tentar ajudar a população mais pobre pra dar uma condição [de vida] melhor”. Conforme o professor Antunes “o bolsa família é marketing [é] uma virada política e torna o povo que tem carência e falta de dinheiro como cabo eleitoral”. O docente Jorge entende o programa como “uma política social que deveria cumprir uma situação temporária para ajudar, auxiliar as famílias que realmente vivem numa situação de pobreza ou abaixo da linha da pobreza”.

A docente que leciona no período matutino e vespertino no ensino Fundamental e Médio relata que:

Desde o início desse programa ouvir falar pela televisão. Na escola a gente ouve pouco sobre o bolsa família. Em síntese é um programa do governo de transferência de renda. O governo transfere um valor para a família pra que ela tenha condições de manter seu filho na escola [...] se não tivesse esse apoio as crianças não conseguiriam chegar a escola porque esse dinheiro é [e] deve ser usado para isso para comprar material, comprar roupas para criança ir a escola. Então é um dinheiro que tem que chegar naquelas crianças que realmente precisam e que necessitam desse valor, que faz a diferença (Profa. Helena).

Conforme a mesma o programa bolsa família é um dos programas de políticas sociais que deve existir no país, pois o mesmo dá dignidade e insere as pessoas dentro da cidadania com acesso a direitos como a educação. É dever do estado promover e dar uma vida digna a todos. A professora afirma que:

O papel do Estado é procurar fazer com que as pessoas ou cidadãos tenham um vida digna. Então o Bolsa Família é apenas mais um dos programas sociais que deve existir no país. Então ele dar dignidade sim a partir do momento que ele dar condições da criança ir para escola em igualdade com o outro (Profa. Helena).

A professora Marília ao falar sobre a temática, afirma que o conhece tanto por meio da mídia quanto pela escola na qual trabalha. Mas as pessoas e, especificamente os beneficiários, precisam conhecer melhor o programa e sua ação na sociedade, pois ele não é apenas um auxílio financeiro, envolve outras dimensões relacionadas à família, escola, saúde e a sociedade como um todo, segundo ela, este programa

[...] a gente conhece pela mídia, mas também na escola pelos alunos que se utilizam dele. O bolsa família é uma ajuda mínima, uma contribuição para que as famílias possam comprar os matérias escolares e até alimentação mínima para manter essa criança na escola. Mas eu vejo que o bolsa família é muito mais do que isso, porque existe uma rede atrás [...] que obriga as

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famílias, e a palavra é, obrigada mesmo, porque elas são obrigadas manterem a carteira de vacinação atualizada, o peso atualizado, são exames cotidianos que elas tem que levar as crianças, os pais tem que passar por estes exames na rede de saúde. Sem essa continuidade da frequência a saúde e a continuidade da criança na escola, elas acabam sendo cortadas do programa. Então é uma rede de auxílio, não é só financeiro, mas também um auxílio a saúde. Eu escuto as mães reclamando disso, que tem que levar o filho para tomar a vacina se não vai perder o bolsa família. Então ainda não existe a compreensão do que é o Bolsa Família (Profa. Marilia).

O Bolsa Família é um direito da pessoa ou favor do governo? Para a Tereza “não é um favor, é um direito” da pessoa. Segundo o professor Pascal, “é um direito da família e de todo cidadão de ter direito básico de educação, alimentação, saúde. É uma obrigação do governo, não é um favor que o governo faz a população”. O programa “é um direito das pessoas que realmente necessitam não vejo como um favor” (Prof. Jorge). A professora Helena diz que:

Não precisa ser especificamente o programa bolsa família, mas essa assistência que o governo tem que dar é dever do Estado [de] dar condições mínimas para que todos os cidadãos tenham acesso aos bens que o país produz. Então se a criança não tem condições não tem dinheiro de comprar roupa, não tem dinheiro [para] comprar material, comprar comida o governo tem sim que fazer transferência de condição seja através de dinheiro ou de outro tipo de serviço. Então é um dever, não é um favor, é um dever.

Um dos objetivos do programa bolsa família, como vimos anteriormente, é reforçar o acesso à educação, à saúde e à assistência social, para isso, entre outras realidades, é posto a família algumas condicionalidades/responsabilidades.

Ao serem indagados sobre as condicionalidades do citado programa, alguns professores afirmaram não o conhecer, outros que conheciam sim. Para estes, tais condicionalidades estão relacionadas a matrícula e frequência escolar. A professora Marília quando questionada se era difícil para as famílias cumprirem com as condicionalidades diz que:

É difícil para elas porque elas não são instruídas para isso e a ausência da escola na comunidade. Elas não entendem o que é o bolsa família, elas veem o finalmente, que é o cartão que elas retiraram o valor, que para elas é o máximo, o fim. O bolsa família se resume nisso para elas, mas não é só isso. Elas não entendem a importância de ter a vacinação em dia de controlar o peso e o crescimento da criança para que ela não seja vítima de doença do próprio crescimento, criança que tem dificuldade de crescimento, anemia [...]. Mas as famílias não entendem porque não tem instrução nem vontade para isso.

A frequência escolar é fundamental para o desenvolvimento do aluno. Mas além da frequência escolar, quais são outros fatores fundamentais no desenvolvimento do aluno para

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que ele seja um bom cidadão e esteja preparado pra o mercado? Consoante o professor Jorge, a frequência escolar por si só não é capaz de formar o cidadão, pois para formar um bom cidadão e prepará-lo para ingressar no mercado de trabalho são necessárias outras realidades, outras ações. A educação é um direito fundamental da pessoa, tal direito precisa ser vivenciado. O governo deve pensar e promover políticas educacionais que de fato transformem as pessoas der a elas autonomia, o governo não deve apenas pensar em questões numéricas e econômicas. Segundo o professor Jorge

A frequência escolar por si só não vai colaborar para a formação do cidadão. Acho que a educação deve ser encarada primeiramente como um direito [...]. Nós sabemos que infelizmente o sistema educacional brasileiro é muito falho [...] a política na educação do Brasil é muita falha não consegue realmente transformar e atender como deveria atender as famílias. Salas superlotadas, onde nós vivemos essa realidade, então o governo na ânsia de economizar para ele inverte algumas situações que deveriam ser prioridades.

Nós temos que fazer da educação prioridade. A educação pode realmente ser um caminho, que pode não sei [se] acabar com a pobreza, mas é realmente um instrumento, uma oportunidade para que as pessoas tenham um horizonte.

Conforme a professora Tereza são fundamentais para o desenvolvimento do aluno “alimentação e principalmente saúde” (Profa. Tereza), para o docente João é preciso

[...] a participação efetiva da família em relação a esse aluno, vejo muito hoje é a falta do apoio familiar na escola, os pais uma grande quantidade tem abandonados seus filhos na escola, jogando toda responsabilidade em relação ao futuro da criação, do jovem [na escola] como se a escola estivesse toda responsabilidade no preparo geral desse indivíduo para a vida social lá fora (Prof. João).

A professora Helena segue a mesma temática da participação familiar no processo do desenvolvimento da criança, adolescente e do jovem na vida escolar, assim relata:

Para que a criança se desenvolva é necessário que a família acompanhe de perto o desenvolvimento dessa criança, [...]. Quando a criança chegue em casa que os pais acompanhem diariamente o que que ela faz na escola, o que ela está precisando. Então assim, não é só isso, não é só a frequência, [é preciso] dia a dia a presença da família à escola. A escola também precisa compreender o mundo dessas crianças, as necessidades delas para [que] a escola consiga trabalhar com elas senão não faz sentido fica só um programa que dá dinheiro e coloca os corpos dentro da escola e o tempo passa e fica por isso mesmo. Então tem que ter essa compreensão dos três, esses três fatores aí: família, escola e a criança.

Para haver um bom desenvolvimento do aluno como pessoa e cidadão na concepção do docente Antunes são necessários três fatores, a saber:

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I – A família mesmo vai contribuir com esse papel, educar e acompanhar o crescimento da criança;

II – a escola que vai trabalhar com uma educação sistematizada, que vai gerar conhecimento, ai cabe os responsáveis acompanhar e

III – A religião que vai falar [sobre] alguns valores, atribuir alguns conceitos que vai melhorar a sua capacidade de pensar de se relacionar com as pessoas.

Quando questionados sobre a relação da escola com o programa bolsa família, se houve mudanças ou não a partir da vigência do mesmo, alguns professores afirmaram que não perceberam, outros que houve sim transformações. Segundo o professor João aconteceu uma contribuição na vida do aluno e da escola como “frequência escolar, notas e estudo, mas são poucas mudanças, na verdade os alunos tem medo de perder o benefício, tire deles esse benefício para ver se eles vão agir da mesma forma, se vão ser frequentes, se vão se esforçar”. Conforme o professor Pascal, aconteceram algumas transformações graças ao citado programa a família tem o incentivo em “mandar seu filho para a escola, isso diminui a evasão escolar, o aprendizado também melhora. O aluno vindo com mais frequência, vai ter um aproveitamento maior e consequentemente, uma bom resultado”. Portanto, a partir do programa bolsa família “a escola tem mais vida, tem mais crianças” (Profa. Helena).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pobreza é um tema que está presente na agenda política local e nacional. Ela se faz presente na zona rural e urbana. Mas não basta saber que ela existe é preciso compreendê-la em sua forma multidimensional. A pobreza é fruto de uma estrutura social, cultural e histórica, que afeta milhões de seres humanos. A sociedade do Brasil é uma das mais desiguais do mundo. Pois milhões de brasileiros ainda vivem na pobreza ou extrema pobreza.

É dever do Estado cuidar, dar condições de uma vida digna à todos; para isso, ele precisa ter e executar políticas públicas. O Programa Bolsa Família é uma dessas ações políticas, que promove as condições mais básicas da existência humana, pois dá voz, autonomia e dignidade às pessoas que estão na pobreza ou extrema pobreza e vivem às margens de uma real cidadania. Portanto, a pesquisa analisou por meio de entrevista a relação de uma Escola Estadual em Campo Grande, MS, com o programa do governo federal – o Bolsa Família - na visão dos docentes. Diante disso, vimos que alguns docentes falaram sobre a pobreza e suas características, como conheceram, entendem o Programa Bolsa Família, sua relação com a Escola. Então para um grupo ele é apenas um programa assistencialista, já pra outro grupo é

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um programa que valoriza a pessoa e dar dignidade a mesma, além disso, ele é um direito da pessoa como cidadã, pois o Estado deve promover meios para que todos tenham uma vida digna.

5 REFERÊNCIAS

ARROYO, M. Pobreza, desigualdades e educação. Disponível em:

<http://catalogo.egpbf.mec.gov.br/modulos/intro/capitulo3.html>. Acesso em: 05 ago. 2016. ABBAGANNO, N. Dicionário de filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BRASIL, Lei n 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.

BRASIL. Constituição da República Federativa do. Texto promulgado em 5 de outubro de 1988. Brasília.

MINISTERIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E AGRARIO. Conheça o Programa Bolsa Família. Disponível em: <http://mds.gov.br/assuntos/bolsa-familia/o-que-e>. Acesso em: 14 set. 2016.

JOÃO PAULO II. Evangelium Vitae (Sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana). São Paulo: Paulinas, 1995.

REGO, W. L. D.; PINZANI, A. Vozes do Bolsa Família: autonomia, dinheiro e cidadania. São Paulo: UNESP, 2013.

LUDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.

MINAYO, M. C. S. (Org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

MOURA, R. C. B. Programa Bolsa Família e Bolsa Escola no Recife: uma análise a partir da avaliação dos docentes gestores. O Autor, 2010. 130f.; il 31 cm.

Referências

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