Revista Acadêmica de Ciência Equina v. 01, n. 1, p. 7-14 (2017)
ISSN 2526-513X7 Grupo de Pesquisa e Ensino em Equideocultura
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Revista Acadêmica de Ciência Equina v. 01, n. 1 (2017)
LESÃO TRAUMÁTICA NO TENDÃO CALCANEAR COMUM EM
EQUINO
Anderson Fernando de Souza1, Joandes Henrique Fonteque2, Jackson Schade3, Milena Carol
Sbrussi Granella4, Thiago Rinaldi Muller2
1Residente em Clínica Médica e Cirúrgica de Equinos – Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil 2Professor, Departamento de Medicina Veterinária - Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Lages,
SC, Brasil
3Mestrando em Ciência Animal – Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Lages, SC, Brasil 4Graduanda em Medicina Veterinária - Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Lages, SC, Brasil
RESUMO
Relata-se um caso de trauma em tendão calcanear comum no membro pélvico esquerdo em um equino, macho, castrado utilizado para tração urbana (carroceiro), em que o proprietário adquiriu o animal com o problema e não soube relatar qualquer histórico. O equino apresentava claudicação grau III (I-V) do referido membro, a qual era exacerbada com o teste de flexão do tarso. A postura em estação era caracterizada pela semi-extensão da articulação femoro-tibio-patelar e deslocamento distal do tarso em relação ao contralateral. Identificou-se espessamento do tendão calcanear comum em toda sua extensão, de consistência firme, temperatura local elevada e algia intensa. Havia uma cicatriz circundante ao membro a 15 cm proximal ao osso calcâneo. A causa provável foi o trauma estrangulante por corda durante o pastejo, devido a não adaptação do animal. O tratamento instituído foi repouso absoluto por um mês, após retorno gradual a atividade, terapia anti-inflamatória não esteroidal, aplicação tópica de dimetilsulfóxido e ducha gelada duas vezes ao dia. A postura do membro adotadao pelo animal é sugestiva nos casos de tendinopatias do conjunto calcanear comum. Deve-se adaptar e supervisionar os equinos ao se utilizar longas cordas como método de contenção durante o pastejo.
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ISSN 2526-513X INTRODUÇÃO
As tendinopatias são afecções frequentes na rotina clínica equina e por vezes mostram-se como um desafio diagnóstico, associadas às experiências frustrantes no tratamento. Devido ao longo tempo necessário para a recuperação completa do tecido tendíneo e à alta incidência de recidiva, esse tipo de lesão compromete seriamente a função e resulta na diminuição da vida útil ou, por vezes, na interrupção das atividades do animal (Peloso et al., 1994; Genovese et al., 1990). As tendinopatias ocorrem em maior frequência no tendão flexor digital superficial, e resultam em prejuízo econômico significativo para os proprietários (Palmer et al., 1994).
Afecções no tendão calcanear comum são infrequentes em equinos, devido sua estrutura mais robusta e às múltiplas origens, geralmente estão associadas aos traumas diretos. Os animais acometidos apresentam postura e locomoção características, que quando conhecidas, procedem ao rápido e preciso diagnóstico (Sullins, 2011; Szaro et al., 2011). O tendão calcanear comum é formado pelo agrupamento dos tendões dos músculos flexor digital superficial, gastrocnêmio, soleus, semimembranoso, semitendinoso e tendão tarsal do bíceps femoral (Szaro et al., 2011). Este trabalho objetiva descrever as características clínicas, diagnóstico e tratamento de um caso de trauma no tendão calcanear comum em um equino.
RELATO DE RELATO
Um equino, mestiço, macho, castrado, 10 anos de idade, pesando 400 kg, utilizado para tração urbana (carroceiro), foi encaminhado ao Hospital de Clínica Veterinária, do Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV), da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em Lages, SC sob queixa de claudicação do membro pélvico esquerdo. O proprietário não soube relatar qualquer histórico sobre a claudicação, pois havia adquirido o animal recentemente e não realizou qualquer tratamento. Ao exame físico, o animal apresentava-se alerta, em posição quadrupedal, normotermia (37,6°C), frequência respiratória de 12 movimentos por minuto, frequência cardíaca de 40 batimentos por minuto, grau de desidratação menor que cinco por cento, pulso normocinético e tempo de preenchimento capilar de dois segundos. Foi observada lesão cicatricial linear circundando o membro pélvico esquerdo 15 cm proximal ao tarso, apoio deficiente, e verticalização da quartela com a articulação metatarsofalangeana projetando-se dorsalmente, que não sedia as tentativas de extensão forçada, assimetria entre as tuberosidades calcâneas, sendo que a do membro
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Durante o exame em movimento, observou-se claudicação grau III (I - IV), redução do arco da passada com arraste da pinça do casco. A claudicação foi exacerbada com o teste de flexão da articulação társica. À palpação, identificou-se espessamento do tendão calcanear comum desde sua inserção na tuberosidade calcânea até as primeiras origens musculares proximais, de consistência firme, temperatura local elevada e algia intensa. Radiografias não revelaram quaisquer alterações. Como tratamento indicou-se repouso absoluto por 30 dias, seguido de retorno gradual das atividades sob exercício assistido, além da administração de fenilbutazona (4,4 mg/kg SID, VO, por 10 dias), aplicação tópica de produto a base de dimetilsulfóxido, escina, lidocaína, prednisolona e dexametasona (DM-Gel®, Vetnil, Louveira, SP, Brasil), associado a ducha gelada duas vezes ao dia. O animal não retornou para avaliação posterior.
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Figura 1. (A e B) Equino, mestiço, 10 anos, 400 kg, apresentando lesão cicatricial linear circundando o membro pélvico esquerdo acima do tarso (seta branca), apoio deficiente e verticalização da quartela do mesmo membro (seta vermelha).
DISCUSSÃO
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de forma convincente as mais prováveis causas de claudicação (Baxter, 2011). No caso de afecções do conjunto calcanear comum, a postura caracterizada pela semi-extensão da articulação femoro-tíbio-patelar e a projeção mais distal do tarso, são sugestivos, que ao se palpar a região logo se identifica o problema (Proudman, 1992). Do ponto de vista biomecânico, apenas a inflamação no referido tendão não justificaria a postura observada no presente caso, a menos que houvesse a ruptura do conjunto calcanear comum, o que não foi identificado ao exame físico. Entretanto, como há algum grau de extensão da articulação femoro-tíbio-patelar associada a semi-flexão do tarso, é possível que o componente caudal do aparelho recíproco (tendão flexor digital superficial) não esteja totalmente íntegro. Nesse caso a ultrassonografia poderia ser esclarecedora, pois à palpação não foi possível identificar descontinuidade do tendão. Incriminou-se como causa a lesão traumática estrangulante por corda, pela lesão cicatricial alusiva e por ser comum na região os animais serem colocados para pastejo, presos por longas cordas, muitas vezes sem prévia adaptação.
A verticalização da quartela acompanhada pela projeção dorsal do boleto, com o casco permanecendo no alinhamento próximo ao normal, demonstra haver contratura do tendão flexor digital superficial, pois esse provavelmente encontrava-se afetado pelo mesmo evento traumático, devido às relações anatômicas no aspecto proximal ao calcâneo. Nesses quadros ocorre o aumento da angulação da articulação e com frequência, pode haver envolvimento do tendão flexor digital profundo, sendo que em casos mais graves também há comprometimento do ligamento suspensor do boleto (Barr, 1994). Quando ocorre quadro de deformidade flexural, tem-se a indicação de realizar a tenotomia do flexor digital superficial ou a desmotomia de seu ligamento acessório (Hussni et al., 2010), associado a aplicação de talas e suporte analgésico. O prognóstico para os casos leves de deformidades flexurais da articulação metacarpo/metatarso falangeana depende da resposta à terapia instituída. Nos casos de deformidades severas, dificilmente consegue-se a correção da lesão (Adams & Santschi, 1999).
A decisão sobre realizar tentativas de correção da deformidade adquirida neste caso, viria em um segundo momento, aguardando a resposta à terapia clínica primariamente proposta. Especulando-se que poderia haver uma melhora da condição e talvez não houvesse a necessidade da uma intervenção cirúrgica. Muitas vezes, somente com o manejo de casco e aplicação de ferraduras terapêuticas são suficientes para reestabelecer a angulação da articulação. O casqueamento e ferrageamento corretivos por meio do uso de prolongamentos
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na ferradura em região de pinça irá atrasar o breakover do casco, o que causa maior tensão sobre os tendões flexores durante a fase caudal do passo, facilitando a extensão do membro (Correa & De Zoppa, 2007). Devido ao não retorno do animal, não se pôde vislumbrar o desfecho desta condição.
A ultrassonografia é a ferramenta mais útil e frequentemente utilizada para diagnóstico e avaliação da evolução nos casos de tendinopatias e de outras afecções de tecidos moles nos equinos, não sendo diferente nesta condição (Dik, 1993). Entretanto, no presente caso não foi possível realizar tal avaliação devido à indisponibilidade de equipamento durante o atendimento. A maior importância desse exame de imagem habitaria na posterior avaliação, afim de graduar e comparar a intensidade de lesão tendínea presente e consequentemente mensurar a efetividade do tratamento aplicado.
O tratamento das tendinopatias podem ser extremamente frustrantes pela dificuldade em restaurar a estrutura e funções dos tendões. Mesmo quando se observa consistente melhora, existe um potencial para reincidência. Há uma ampla variedade de tratamentos que têm o objetivo de diminuir a inflamação, minimizar a formação de tecido cicatricial e promover a restauração da estrutura e da função normal do tendão (Mcilwraith, 2006).
No presente caso, pela lesão cicatricial observada, o evento traumático deve ter ocorrido a algum tempo, o que caracteriza um quadro crônico. No entanto, havia sinais que indicavam ainda um componente agudo presente, em que o tratamento inicial direcionou-se para tal. A combinação de anti-inflamatórios locais e sistêmicos é empregada na tentativa de reduzir a inflamação nas fibras de colágeno e na matriz adjacente a lesão. A aplicação tópica de produtos a base de dimetilsulfóxido, são a muito tempo utilizados e apresentam bons resultados, pois reduzem o edema, removem radicais livres e promovem vasodilatação (Teigland et al., 1967). Uma etapa, provavelmente de maior importância no tratamento das tendinopatias é o repouso, entretanto o retorno apropriado ao exercício pode auxiliar a estimular o alinhamento das fibras de colágeno (Gillis, 1997).
O prognóstico é de reservado a desfavorável para o trabalho, pois com a cronicidade do quadro haverá restrição da movimentação da articulação társica e para que haja melhoria da locomoção é necessário comprometimento com o tratamento, podendo-se associar outras terapias como ultrassom terapêutico, aplicações de células tronco e/ou plasma rico em plaquetas (Sullins, 2011). A orientação aos proprietários em realizar prévia adaptação dos animais, quando se realiza o pastejo destes, através do uso de cordas, é importante para
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ISSN 2526-513X mesmo fatal.
CONCLUSÃO
Lesões no tendão calcanear comum são eventos raros em equinos e apresentam-se como condições desafiadoras ao clínico. São imprescindíveis o comprometimento e a paciência por parte do proprietário, sem garantia sólida de retorno funcional do animal. A postura adotada do membro afetado é sugestiva ao diagnóstico das tendinopatias do conjunto calcanear comum.
REFERÊNCIAS
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