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REVISTA
PAULISTA
DE
PEDIATRIA
ARTIGO
ORIGINAL
O
papel
do
ácido
úrico
na
resistência
insulínica
em
crianc
¸as
e
adolescentes
com
obesidade
Josiane
Aparecida
de
Miranda
a,∗,
Guilherme
Gomide
Almeida
b,
Raissa
Isabelle
Leão
Martins
b,
Mariana
Botrel
Cunha
b,
Vanessa
Almeida
Belo
c,
José
Eduardo
Tanus
dos
Santos
c,
Carlos
Alberto
Mourão-Júnior
be
Carla
Márcia
Moreira
Lanna
baUniversidadeEstadualdeCampinas(Unicamp),Campinas,SP,Brasil bUniversidadeFederaldeJuizdeFora(UFJF),JuizdeFora,MG,Brasil cUniversidadedeSãoPaulo(USP),RibeirãoPreto,SP,Brasil
Recebidoem19dedezembrode2014;aceitoem29demarçode2015 DisponívelnaInternetem1deagostode2015
PALAVRASCHAVE
Obesidadepediátrica; Resistênciaàinsulina; Ácidoúrico
Resumo
Objetivo: Investigaraassociac¸ãoentreosníveisséricosdeácidoúricoearesistênciainsulínica emcrianc¸aseadolescentescomobesidade.
Métodos: Estudotransversal,com245crianc¸aseadolescentes(134obesose111controles), entreoitoe18anos.Foramcoletadasvariáveisantropométricas(peso,estaturaecircunferência abdominal),pressãoarterialeparâmetrosbioquímicos.Ascaracterísticasclínicasdosgrupos foramanalisadaspelotestetoupeloqui-quadrado.Paraavaliaraassociac¸ãoentreosníveis deácidoúricoearesistênciainsulínicausaram-seotestedePearsoneregressãologística.A resistênciainsulínicafoiavariáveldependentenomodeloderegressão.
Resultados: Aprevalênciaderesistênciainsulínicafoide26,9%.Asvariáveisantropométricas, apressãoarterialsistólicaediastólicaeasvariáveisbioquímicasforammaioresnogrupoobeso (p<0,001),excetoocolesteroldealtadensidade.Foiobservadacorrelac¸ãopositivae signifi-cativaentreasvariáveisantropométricaseoácidoúricocomoHOMA-IRnogrupoobesoeno controle.Essafoimaiornogrupoobesoenaamostratotal.Nomodeloderegressãologísticaque incluiuidade,sexoeobesidade,aoddsratiodoácidoúricocomofatorassociadoàresistência insulínicafoide1,91(IC95%1,40-2,62;p<0,001).
Conclusões: Observa-se que oaumentono nívelsérico deácido úricoapresenta correlac¸ão estatísticapositivacomaresistênciainsulínicaeestáassociadoàelevac¸ãonoriscoemcrianc¸as eadolescentesobesos.
©2015SociedadedePediatriadeSãoPaulo.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Esteéumartigo OpenAccesssobalicençaCCBY(https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt).
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](J.A.Miranda).
http://dx.doi.org/10.1016/j.rpped.2015.03.009
KEYWORDS
Childhoodobesity; Insulinresistance; Uricacid
Theroleofuricacidintheinsulinresistanceinchildrenandadolescentswith obesity
Abstract
Objective: Toinvestigatetheassociationbetweenserumuricacidlevelsandinsulinresistance inchildrenandadolescentswithobesity.
Methods: Cross-sectionalstudywith245childrenandadolescents(134obeseand111controls), aged8to18years.Theanthropometricvariables(weight,heightandwaistcircumference), bloodpressureandbiochemicalparameterswerecollected.Theclinicalcharacteristicsofthe groupswere analyzedbyt-testorchi-squaretest.Toevaluatetheassociationbetweenuric acidlevelsandinsulinresistancethePearson’stestandlogisticregressionwereapplied.
Results: Theprevalenceofinsulinresistancewas26.9%.Theanthropometricvariables,systolic anddiastolicbloodpressureandbiochemicalvariablesweresignificantlyhigherintheobese group(p<0.001),exceptforthehigh-density-lipoproteincholesterol.Therewasapositiveand significantcorrelationbetween anthropometricvariablesanduric acidwithHOMA-IRinthe obeseandinthecontrolgroups,whichwashigherintheobesegroupandinthetotalsample. Thelogisticregressionmodelthatincludedage,genderandobesity,showedanoddsratioof uricacidasavariableassociatedwithinsulinresistanceof1.91(95%CI1.40to2.62;p<-0.001).
Conclusions: Theincreaseinserumuricacidshowedapositivestatisticalcorrelationwith insu-linresistanceanditisassociatedwithandincreasedriskofinsulinresistanceinobesechildren andadolescents.
©2015SociedadedePediatriadeSãoPaulo.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisanopen accessarticleundertheCCBY-license(https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/).
Introduc
¸ão
Oácido úrico é o produto final do metabolismo das puri-nas, produzido pelo fígado e excretado pelos rins,1 com reconhecidaac¸ão antioxidantequando seusníveis sanguí-neosseencontramdentrodoslimitesfisiológicos.2 Porém, aelevac¸ãonosníveisséricos,denominadahiperuricemia,é consideradafatorderiscoindependenteparadoenc¸as car-diovascularesetambémtempapelnodesenvolvimentode doenc¸as metabólicas.3-5 Além disso, estudos prospectivos recentes,comamostrasrepresentativas,apontama hiperu-ricemiacomopreditoradodesenvolvimentoderesistência insulínicae da diabetes melito tipo 2.4,5 Krishnan et al.5 demonstraramqueahiperuricemiaaumentaem1,87veza chancededesenvolverdiabetesmelitotipo2eem1,36vez achancededesenvolverresistênciainsulínicaapós15anos deseguimento.
Uma das condic¸ões patológicas associadas à hiperuri-cemiaé aobesidade.6,7 Indivíduosobesos mostrammenor excrec¸ão renal de ácido úrico e podem apresentar tam-bémmaiorproduc¸ão.8Emcrianc¸aseadolescentes,estudos apontam que a relac¸ão entre hiperuricemia e obesidade é positiva6 e associada a complicac¸ões cardiometabólicas comohipertensão,ateroscleroseesíndromemetabólica.9-12 Yooet al.13 avaliarama prevalência de resistência insulí-nicaesíndromemetabólicaempacientescomgota,queé umadoenc¸ametabólicacaracterizadaporhiperuricemiae deposic¸ãodecristaisdemonouratodesódionasarticulac¸ões e nostecidos. Os autoresconcluíram que essespacientes têmmaiorprevalênciaderesistênciainsulínicaesíndrome metabólica,comparadoscomseusparessaudáveis,equea hiperuricemia,emassociac¸ãocomaresistênciainsulínica, podetercomocausaaobesidadeabdominal.13
Nessecontexto,emqueahiperuricemiatemsido apon-tada comomaisum eloentreaobesidade ea resistência insulínica, estudos com a populac¸ão pediátrica ainda são escassos.Portanto,oobjetivodesteestudofoiinvestigara associac¸ãoentreosníveisséricosdeácidoúricoeresistência insulínicaemcrianc¸aseadolescentescomobesidade.
Método
Estudodedelineamentotransversal,comabordagem quan-titativa, parte de um projeto intitulado ‘‘Associac¸ão de polimorfismos genéticos de relevância cardiovascular com hipertensão arterial sistêmica e obesidade na infância e adolescência’’aprovadopeloComitêdeÉticaemPesquisa da UniversidadeFederal de Juiz deFora, MG, Brasil, sob onúmero1942.001.2010.Todososenvolvidosnapesquisa, paisouresponsáveisecrianc¸aseadolescentes,foram escla-recidos sobreos objetivos e procedimentosdapesquisa e os que concordaram em participar assinaramo Termo de ConsentimentoLivreeEsclarecido.
Tabela1 Característicasclínicasdosgruposestudados
Variáveis Controle(n=111) Obeso(n=134) p
Gênero(%F) 66 48 0,005
Idade(anos) 12,5±2,5 11,2±2,3 <0,001
IMC(Kg/m2) 18,8±2,6 27,0±4,5 <0,001
CA(cm) 68,7±8,7 90,2±12,8 <0,001
PAS(mmHg) 107,2±10,7 117,9±14,5 <0,001
PAD(mmHg) 66,6±9,2 74,5±9,5 <0,001
Colesteroltotal(mg/dL) 134,2±28,6 150,3±40,7 0,001
HDL-c(mg/dL) 44,1±9,7 38,5±9,7 <0,001
LDL-c(mg/dLl) 73,7±21,1 91,8±33,1 <0,001
Triglicerídeos(mg/dL) 74,1±27,1 92,0±44,9 <0,001
Glicose(mg/dL) 82,3±10,5 86,6±9,4 0,001
Insulina(UI/mL) 9,4±4,0 13,8±6,2 <0,001
HOMA---IR 1,93±0,92 2,98±1,49 <0,001
Ácidoúrico(mg/dL) 3,50±1,12 4,47±1,13 <0,001
F,feminino;M,masculino;IMC, índicede massacorporal;CA,circunferênciaabdominal; PAS,pressão arterialsistólica;PAD, pres-sãoarterialdiastólica;HDL,lipoproteínadealtadensidade;LDL,lipoproteínadebaixadensidade;HOMA-IR,modelodeavaliac¸ãoda homeostase-índicederesistênciainsulínica.
Opesoealturaforammedidoscomosparticipantes ves-tindoroupaslevesesemcalc¸ados.Aalturafoimedidacom precisãode0,1cm,com-seumestadiômetrodeparede.O pesocorporalfoimedidocomumabalanc¸adigitalde preci-sãode0,1kg.Aobesidadefoidefinidacomoíndicedemassa corporal(IMC)acimadopercentil95deacordocomidade esexo.14 Acircunferênciaabdominal(CA)foimedida com fita inelástica,nopontomédioentreaúltimacostela e a bordasuperiordacristailíaca.15 Apressãoarterialfoi afe-ridapelo métodoauscultatório e consideradoso tamanho adequado do manguito. Após repouso de 10 minutos em ambientecalmo,foifeitaaaferic¸ãodapressãoarterial.16 Apósoexamefísico,foifeitaacoletadesangue,porpunc¸ão venosademanhã,depoisde12 horasdejejum.Osangue foiimediatamentecentrifugadoàtemperaturaambientee asamostrasdeplasmae soroforamarmazenadasa-70◦C atéseranalisadas.
As concentrac¸õesdeglicoseeácidoúrico eos parâme-tros lipídicos(colesterol total,triglicérides e lipoproteína de alta densidade [HDL]) foram determinados em soro, com métodos enzimáticos de rotina, com o uso de kits comerciais(LabtestDiagnósticos,AS, LagoaSanta, Brasil). A concentrac¸ão da lipoproteína de baixa densidade (LDL) foiestimadapelafórmuladeFriedewald.17Aconcentrac¸ão deinsulinafoideterminadaporimunoensaioenzimáticoem soro(kitGeneseProdutos Diagnósticos,SãoPaulo, Brasil). A estimativadaresistência à insulina foiobtida por meio do Homeostasis Model Assessment for Insulin Resistance (HOMA-IR),que éoprodutodainsulinadejejum(U/mL) edaglicemiadejejum(mmol/L)divididopor22,5.A resis-tênciaàinsulinafoidefinidaquandoovalordeHOMA-IRfoi maiorouiguala3,16.18
Os dados estão apresentados como média±desvio padrão. Ascaracterísticas clínicasdosgrupos foram anali-sadaspormeiodotestetouqui-quadrado.Para avaliara associac¸ãoentreidade,IMC,CA,pressãoarterialsistólica, pressãoarterialdiastólica,HDLeácidoúricocomo HOMA--IR,usamosotestedecorrelac¸ãodePearson.Foitambém produzidoummodeloderegressãologísticaparamensurar
aassociac¸ão entreosníveisdeácido úrico(variável inde-pendente)e a resistência insulínica (variáveldependente binária).Outrasvariáveisindependentesepotenciais variá-veisdeconfusão(idade,sexoeobesidade)foramincluídas no modelo de regressão com a finalidade de controlar seu possível efeito na resistência insulínica. As variáveis independentesselecionadasforamincluídasnomodeloem virtude da conhecida associac¸ão entre elas e a resistên-ciainsulínica.6 O nível designificância adotadofoi de 5% (p<0,05)paratodosostesteseoprogramaestatísticousado foioSPSSversão15.0.
Resultados
Avaliamos 245 crianc¸as e adolescentes (55,9% do sexo feminino) e a prevalência de resistência insulínica foi de 26,9%.Ascaracterísticasclínicasdosgruposavaliadosestão representadasnatabela1.Comoesperado,ogrupoobeso apresentou IMC e CA maiores do que o grupo controle (p<0,001).Apressão arterialsistólicaeadiastólica foram mais elevadas no grupo obeso, comparado com o grupo controle (p<0,001). Além disso, todas as características bioquímicas, colesterol total, LDL, triglicérides, glicose, ácidoúrico,insulinaeHOMA-IRapresentaram-seemníveis maisaltosnogrupoobeso,excetooHDL,quefoimaisbaixo nogrupoobesocomparadocomogrupocontrole(p<0,001).
Natabela2estãoapresentadososresultadosdaanálise
Tabela2 Correlac¸ãoentreHOMA-IReasvariáveisanalisadasporgrupos
GrupoObeso GrupoControle Amostratotal
Variáveis HOMA-IR HOMA-IR HOMA-IR
r p r p r p
Idade(anos) 0,065 0,458 0,036 0,708 -0,075 0,241
IMC(kg/m2) 0,355 <0,001 0,239 0,011 0,447 <0,001
PAS(mmHg) 0,261 0,003 0,128 0,197 0,292 <0,001
PAD(mmHg) 0,261 0,003 0,115 0,224 0,256 <0,001
CA(cm) 0,364 <0,001 0,119 0,222 0,437 <0,001
HDL(mg/dL) -0,118 0,029 -0,027 0,780 -0,258 <0,001 Ácidoúrico(mg/dL) 0,282 0,001 0,214 0,024 0,380 <0,001
IMC,índice demassa corporal;CA,circunferênciaabdominal;PAS,pressão arterialsistólica;PAD,pressão arterialdiastólica;HDL, lipoproteínadealtadensidade;HOMA-IR,modelodeavaliac¸ãodahomeostase-índicederesistênciainsulínica.
excetoaidade,que nãosecorrelacionoucomoHOMA-IR, eoHDL,queapresentoucorrelac¸ãonegativa.Asvariáveis antropométricas(IMCecircunferênciaabdominal)eoácido úrico foram as que apresentaram melhor correlac¸ão com oHOMA-IR (r=0,447,r=0,437 e r=380; p<0,001 respectiva-mente).
Analisou-seaindaa associac¸ãoderesistência insulínica comosníveisdeácidoúrico, emummodeloderegressão logísticaqueincluiuidade,sexoeobesidadecomovariáveis independentes.Omodeloderegressãologística produzido paramensurara associac¸ão entreosníveisdeácido úrico (variávelindependente)earesistênciainsulínica(variável dependentebinária)incluiuoutrasvariáveisindependentes epotenciaisvariáveisdeconfusão(idade,sexoeobesidade), inseridasnomodelocomafinalidadedecontrolarseus possí-veisefeitosnaresistênciainsulínica.Avariáveldependente (resistênciainsulínica)foidicotomizadaemfunc¸ãodoponto decortedoHOMA-IR(3,16).Ooddsratio(OR)doácidoúrico foi 1,91 (IC95%: 1,40 a 2,62; p<0,001). Isso indica que o aumentodeumaunidadeácidoúricoelevaem91%a proba-bilidadederesistênciainsulínica.
Discussão
Oprincipalachado desteestudo foia associac¸ão entreos níveis séricos deácido úrico e a resistênciainsulínica em crianc¸aseadolescentes,mesmoapósosajustesparaidade, obesidade e sexo. Depois do ajuste para essas variáveis, observou-sequeacadaaumentode1mg/dLnosníveis séri-cosdeácidoúricohaveriaumaumentode91%nachancede resistênciainsulínica.Mesmoaoanalisarogrupoobesoeo controledeformaisolada,oácidoúricoeoIMCmostraram correlac¸ãocomoHOMA-IR(tabela2).
Esseachadoestádeacordocomoutrosautoresque tam-bémobservaramassociac¸ãoentreosníveisdeácidoúricoe resistênciainsulínicaemestudosque envolveramcrianc¸as em faixaetária maisrestrita.6,9 Gil-Campos etal.6 verifi-caramqueemcrianc¸asobesaspré-puberesaconcentrac¸ão de ácido úrico foi significativamente maior, comparada comogrupo controle,apósajuste parasexo,idadee IMC associada à resistência insulínica. Esses autores propõem quea elevac¸ão séricadoácido úrico podeser um indica-dordealterac¸ãometabólicaprecoceassociadacomoutras
características daresistênciaà insulina.Em nossoestudo, observou-se diferenc¸a estatística na idade entre os gru-posavaliados,quefoideapenasmetadedodesviopadrão (50%),ecomdistribuic¸ãonormal.Assim,considerou-seque adiferenc¸anãofoiclinicamenterelevante,tendoemvista ograudedispersãodessavariável.
De fato, na populac¸ão adulta, estudos prospectivos recentesapontamserahiperuricemiapreditorade resistên-ciainsulínicaediabetesmelitotipo2.4,5,19Apósseguimento de 15 anos, Krishnan et al.5 evidenciaram que a hiperu-ricemia aumenta em 1,87 vez a chance de desenvolver diabetesmelitotipo2eem1,36vezachancede desenvol-ver resistênciainsulínica.Em metanálise,Kodama etal.19 apontaramaumentode17%noriscodediabetetipo2para cadaaumentode1 mg/dLnoácidoúricosérico.
Emboraosmecanismosfisiopatológicosdaligac¸ãoentre ahiperuricemiaearesistênciainsulínicaaindanãoestejam claramenteestabelecidos,ahiperuricemiaé,com frequên-cia, apontada como o resultado da reduc¸ão na excrec¸ão renal de ácido úrico sob ac¸ão da hiperinsulinemia.1,20 Todavia, os estudos citados se contrapõem a essa ideia por evidenciar que a hiperuricemia precede a resistência insulínica.4,5,19
Nopresenteestudo,tambémnãofoipossívelresponder quaissãoosmecanismosfisiopatológicosdacontribuic¸ãodos níveis séricos deácido úrico sobrea resistênciainsulínica na obesidade,masnosapoiaremos emresultados anterio-res,tantodeestudoscommodelosanimaiscomodeestudos clínicos,parafazeralgumasespeculac¸ões.
Outroachadodonossoestudofoiqueogrupoobeso apre-sentouníveis séricosde ácidoúrico estatisticamentemais elevados,comparadocomogrupocontrole(4,47±1,13vs. 3,50±1,12,p<0,001).Essacaracterísticapodeseratribuída aos seguintes fatores: 1) indivíduos obesos apresentam reduc¸ão na depurac¸ão renal de ácido úrico, o que pode implicarmaioresníveisséricos;232)otecidoadiposo,similar aofígadoeaointestino,apresentaabundanteatividadeda xantinaoxidase(enzimaresponsávelporcatalisarpurinasa ácido úrico)e aobesidadeé associadacom elevada ativi-dade daxantinaoxidase e maiorproduc¸ão de ácidoúrico pelotecidoadiposo.8
Um dos possíveis elos entrea hiperuricemia e a resis-tência insulínica parece ser a disfunc¸ão endotelial. A induc¸ãodehiperuricemiaemanimaisresultouemreduc¸ão na biodisponibilidade de óxido nítrico, vasoconstric¸ão e desenvolvimentodedoenc¸amicrovascular24e,segundoPark etal.,25oácidoúricoéresponsávelporatenuaraproduc¸ão deóxidonítricopormeiodadiminuic¸ãodainterac¸ãoentre a eNOS (enzima óxido nítrico sintase endotelial) e a cal-modulina.Defato,estudosclínicosapontamqueelevados níveisdeácidoúricoestãoassociadosaprejuízonafunc¸ão vasculardecrianc¸aseadolescentes12,26 Assim,adisfunc¸ão endotelialmediadapelahiperuricemiapoderiaresultarem menorcaptac¸ãodeinsulinapelareduc¸ãonofluxosanguíneo emtecidosperiféricos(menorofertadeóxidonítrico).1
Alémdeinterferirnaproduc¸ãodeóxidonítrico,oácido úrico tambémpode ser responsável pela suadegradac¸ão. Embora,emconcentrac¸õesfisiológicas,oácidoúricotenha efeitoantioxidanteeseja,portanto,umfatordeprotec¸ão endotelial,aelevac¸ãonosníveisséricosfazcomqueassuma um papel pró-oxidante, pois sua via de formac¸ão pela xantinaoxidaseproduzespéciesreativasdeoxigênioe peró-xido de hidrogênio, que, em excesso, irão reagir com o óxidonítricoendotelialeformaroperoxinitrito,importante agenteoxidante.27
Embora a concentrac¸ão sérica média de ácido úrico observada em nossoestudo tenha se mostrado significati-vamentemaiornogrupoobesocomparadocomocontrole, nãoexiste concordância na literaturasobre osvalores de referência desse marcador em crianc¸as e adolescentes, o que impede comparac¸ões. Todavia, acreditamos que a dosagem do ácido úrico sérico seja uma boa opc¸ão para avaliar o risco cardiometabólico mesmo em faixa etária jovem, como é possível constatar em nossos resultados. Paraisso,tornam-senecessáriosestudosquevisema esta-belecer valoresde referênciapara auxiliarnodiagnóstico clínico.
Esteestudoapresentaalgumaslimitac¸õese,dentreelas, aponta-seousodoHOMA-IRparaavaliararesistência insu-línica. Esse indicador, embora não seja o padrão ouro, é ummétodoamplamenteusadodevidoàsuaviabilidade.A ausênciadeavaliac¸ãodoestadopuberaléoutralimitac¸ão desteestudo,tendoemvistaavariac¸ãodafaixaetária ana-lisada (oito a 18 anos). A natureza transversal doestudo tambémnãonospermiteestabelecerrelac¸ãodecausalidade entreasvariáveis.
Com base nos resultados observados, pode-se concluir que o aumento no nível sérico de ácido úrico apresenta correlac¸ão estatísticapositivacoma resistênciainsulínica eseassociaàelevac¸ãonoriscoemcrianc¸aseadolescentes obesos.
Financiamento
Fundac¸ão de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)eCoordenac¸ãodeAperfeic¸oamentodePessoalde NívelSuperior(Capes).
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Agradecimentos
AoNúcleoInterdisciplinardeEstudosePesquisaem Nefro-logia(Niepen)eàDra.DéboraCristineSouza-Costa.
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