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ANALISE SOCIOlOGICA DO ROMANCE
"Terrasdo
Sem Fim""Terras do Sem Fim"
Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do grau de mes tre em Educação.
Gicélia Lima Azeddine
Orientador: Elter Dias Maciel
RIO DE JANEIRO
FUNDAÇÃO GETOLIO VARGAS:
INSTITUTO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO DE ADMINISTRAÇÃO DE SISTEkAS EDUCACIONAIS
\
Na realização deste trabalho, cont~
mos com a colaboração dos seguintes orgaos:
Coordenação de Aperfeiçoamento de
Ensino Superior - CAPES
Instituto de Estudos Avançados em
Educação - IESAE.
Elter Dias Maciel
sa orientação.
pela amizade, apoio e
cuidado-Gaud~ncio Frigotto~ pela cooperaç~o e sol fcita
a-tenção.
Ahmed, Carim e Lei la, pela paci~ncia e
compreen
-sao de todas as horas.
Janiza, pelo estfmulo e lúcida opini~o.
Juan Mariátegui, pela sua vaI iosa colaboração nos
p{imei ros passos deste trabalho.
Todos os professores, colegas e amigos cuja
cola-boração, estfmulo e amizade nos ajudaram a levar a termo es
sa tarefa.
S UMA R I O
Pago
I.NTRODUçAO
...
:... .
CAPfTULO - QUADRO HISTORICO DA PRIMEIRA REPOBLICA .. 8
1.1 - A Economia Agroexportadora Brasileira no pe
-ríodo que antecede a Repúbl ica Velha... 8
1.2 - A Nova Burguesia Agr~ria e a Mudança nas Rela
ções de Produção I
3
1.3 - A Proclamação da República faz-se necessária
à
ascensão do C a f é . . .16
1.4 - Repercussões políticas do Sistema Coronelista 22
1.5 - A Consolidação do Sistema Coronelista . . .
27
1.6 -
A Política Econômica Agroexportadora na Bahiae sua Repercussão no Plano Pol ítico e Social
29
1.7 - Conflitos e Relações Sociais na Sociedade
Ca-caueira . . . 35
CAPfTULO 2 - ANALISE DA ESTRUTURA E DAS PERSONAGENS EM
"Terras
doSem Fim"
442 • I - As. Re 1 a ç õ e s de T r a b a 1 h o e o s C o n f 1 i tos em
"TeY'
ras
doSem Fim" . . .
4. • • • • • • • • • • • • • • • • • •• 442.1.1 - Confl i to de Poder
2.2 - A Origem Social dos Coronéis . . . .
2.3 -
Movimento Autoritarismo/"Malandragem"2.4 - Transposição da Estrutura Social para o Roman
49
55
67
i
ce . . . 77
2.5 - A visão de Mundo de Jorge Amado 90
2.5.1 - O Aspecto Formalem
"Terras
doSem Fim"
110'0CONCLUSÃO 105
B I B L I O G R A F I A . . . ' . . . '. 1 1 O
Este trabalho consiste na anál ise sociológica do
romance "Terras do Sem Fim", de Jorae Amado.
-Partimos da idéia de que a obra de arte nao e ap~
nas um reflexo da realidade mas que ela é capaz de reprod~
zir um determinado momento desta realidade, apreendendo-o
em toda sua complexidade, embora através de sua própria es
pecificidade.
Procuramos portanto ao anal isar esta obra captar
o princfpio estrutural que ordena o mundo ficcional e
mos-trar de que forma se faz a transposição do plano real ao
plano romanesco.
Em "Terras do Sem Fim" nos parece que as rela-çoes entre as personagens assim como sua trajetória são de
terminadas pelo princfpio do autoritarismo e da
"malandra-geml l
•
Nesta sociedade cacaueira do princfpio do século
transposta para o romance, os coronéis, fazendeiros de ca
~au,
domina~_por
meio daviol~ncia
e da fraude, mas paradar livre curso
à
sua ambição ou para se realizarem no pl~no individual, necessitam do concurso dos representantes
dos grupos médios (advoqados, médicos, funcionários
públi-c os, j o r n a 1 i s tas, e t públi-c . ). E s te s de mel h o r n f ve 1 e d u'c a c i o
-nal, de origem urbana, detentores do "saber" utilizam-se
desses trunfos para obterem dinheiro, prestfgio social ou
fama que os compensem pela sua submissão e lealdade aos co
ronéis.
Em plano secundário, como na vida real, estao os
trabalhadores e pessoas humildes que vivem sob a bota dos
coronéis, não tendo maior peso político ou influência
os acontecimentos.
VI
Para compreender essa estrutura social baseada na realidade baiana, partimos da análise da sociedade bra-si lei ra no, período estudado (Primei ra Repúbl ica), anal isan do-a do ponto de vista econômico, político e social.
Procuramos também mostrar como a formação e a vi vência do escritor contribuem para a apreensão dessa real i
dade mas não seriam por si sós garantia dessa fidelidade
que e, em última instância, determinada pela sensibi 1 idade e pelo trabalho criador do artista.
I ,
L'objet de ce travai 1 est une analyse ~ociolog~ que d u roma n de J o r ge Ama do: "Terre Vio lente n.
Nous sommes partis de l'idée que l'oeuvre d'art n'est pas seulement le reflet de la réalité mais q'elle est capable de reproduire un moment précis de cette réalité et de le saisir dans toute sa complexité malgré
spécificité.
sa propre
Au cours de notre analyse nous avons donc essaye de capter le principe structurel qui régit
nesque de cet ouvrage et de montrer comment
'univers roma se fait 1 a
transposition du plan réel au plan de la fiction.
Dans "Terre Violente", i 1 nous semble que les rapports qui s'établ issent entre les personnages de lÍlême Que leurs destinées sont essentiellement conditionnés par
le principe de 1 'autoritarisme et de la "fi louterie".
Au début' du siêcle, dans le mi 1 ieu des grands les "colonels", grands propriétai res plan~eurs de cacao,
~errlens, exercent leur domination par la violence ou les
procédures i llégales. Mais pour donner libre cours ~ leur ambition et satisfaire leurs désirs personnels, ils doivent recouri r aux représentants des groupes intermédiai res (a-vocats, médécins, fonctionnaires, journalistes, etc.).Ces derniers, d'origine urbaine, jouissent d'une::-"for.ma:tion plus élevée et detiennent le " savo ir", atouts qu'ilsexploitent pour obtenir
ã
la fois argent, prestige social et réputa-tion en échange de leur soumission et de leur loyauté aux "co 1 one 15".Comme dans la vie réelle, on trouve en toile de: fond, travailleurs agricoles et gens humbles
sous la botte des "colonels" et dont le poids
qui vivent politique -et 1 'influence sur les événements sont insignifiants.
Pour comprendre cette structure sociale fondée sur
la réalité de Bahia, nous avons pris comme point de départ
l'étude de la société brési 1 ienne sous la Premiere Républi.
que en analysant ses aspects économique, pol itique
c i a 1 •
et 50
Nous avons éga'lement cherché
ã
montrer comment laformation et 1 'expérience de l'auteur lui
d'appréhender cette réalité, sans qu'on puisse
considérer celles-ci comme uniques garants de
ont permis
toutefois
la fidélité
de l'oeuvre, laquelle, en dernier ressort, est le fruit de
la sensibi 1 ité et du travai 1 créateur de 'écrivain.
\
A id~ia de escrever este trabalho me veio h~
al-guns anos ~tr~s, q~ando me encontrava no exterior e desej~
va real izar uma tese de mestrado na Faculdade de Letras,da
Universidade de Argel, a fim de continuar minhas ativida
-des docentes.
Das primei ras discussões com o Prof. Cante1, e em
seguida com o Prof. Juan Mari~tegui, encarregados da orien
tação dos mestrandos, surgiu este tema da an~lise do roman
ce "Terras do Sem Fim", de Jorge Amado.
Esta escolha veio, em primeiro lugar, do ~esejo
d e e s t u d a r , d e n t r o d o c a m p o d a 1 i t e r a t u r a b r a s i '1 e i r a, um
autor cuja ótica e tem~tica estivessem mais próximas das
questões sociais, e em segundo lugar, do meu interesse em
dar a esse estudo 1 iter~rio um enfoque mais amplo, no qual
pudesse incorporar meus conhecimentos anteriores relativos
a educação e à sociologia.
Por uma s~rie de circunstâncias imprevistas, aqu~
la primeira id~ia ficou apenas esboçada.
Entretanto, j~ de volta ao Brasi 1, à medida que
aprofundava minha reflexão sobre o tema, crescia-me a
von-tade de dar prosseguimento àquele trabalho.
No IESAE, ao concluirmos os cursos exigidos como
requisito para o Mestrado, quando deveríamos fazer a
esco-lha do tema de dissertação, veio+me, de novo, a tentação de
retomar o velho tema.
De p o s s e deu m i n s t rum e n tal t e Ó r i c o m a i s a p ro p r. i ~
do e com o apoio do Prof. E1ter Dias Maciel, achei que che
gara o momento adequado para dar prosseguimento àquele
2
Antes de explicar os princípios teóricos e a me
todologia que procurei util izar no desenvolvimento deste
trabalho, gostaria de lembrar, rapidamente, a importância
deste romance no conjunto da obra do autor e na literatu
ra brasi lei ra, em geral.
Trata-se de um romance que retrata a luta que
se travou~ no começo do s~culo, na regi~o de I lh~us, pela conquista de novas terras para as plantações de cacau, na Bahia.
Este tema, já tratado anteriormente por .J. Ama
do na obra "Cacau", ~ desenvolvido aqui de forma mais com
pleta e objetiva e, do ponto de vista 1 iterário, conforme a crítica costuma afirmar, de forma mais perfeita e amadu
recida.
Considerada uma das obras mais importantes da
primeira fase do escritor, já teve, no Brasil, mais de qu~
renta edições e, no exterior, foi uma das e traduzidas.
das mais divulga~
Já foi adaptada ao cinema, ao teatro e
à
televi~ao, tanto no passado como recentemente.
Foi publicado em setembro de 1943, quando Jorge
Amado deixava seu exíl ia no Uruguai, em um.momento muito
especial do contexto político.mundial, o que se reflete,sem dGvida, de forma clara no posicionamento do escritor'nesse romance.
Como tantas das suas obras, esse livro foi tema
de vários trabalhos· de mestrado e de doutorado, n~o apenas
no campo dos estudos literários propriamente ditos,mas ta~
bém no campo dos estudos sociológicos e políticos. A
títu-lo de exemptítu-lo, citarei alguns trabalhos' recentes
realiza-dos sobre Jorge Amado e sua obra, tanto em universidades es
Em notícia publicada pelo Jornal do Brasil, toma
mos conhecimento de que foram realizados, no exterior, os
seguintes trabalhos: "Humor Veículo para Comentário Social
nos Romances de Jorge Amado", de Bobby J. Chamberlain,
te-se de doutorado em Los Angeles, em 1975; "Jorge Amado a
Pol ítica e o Romance", tese de doutorado no México, por
Stephen Vincent; "Exame dos Personagens da Comédia Bahiana
de Jorge Amado", de Malcolm N. Silverman; "Jorge Amado Fic
cionista da Bahia - Estudo e técnica narrativa", de Nancy
T. Baden, 1971; lias Pobres e o Simbol ismo Social - Exame de
Três Romances de Jorge Amado' l , de Dóris J. Turner, 1967.
Não poderíamos deixar de assinalar, dois excelen
te s trabalhos sob r eA m a do, publicados aqui no Brasil: 11 J o r
g e A m a do: P o 1 í t i c a e L i t' e r a t u r a 11, d e A 1 f r e d o 'vi a g n e r B e r n o
de Almeida e "0 Condicionamento telúrico-ideológico do
de-se j o em T e r r a s doS e m F i mIl, d e L
í
g i a Mil i t z, a m b o s te se s demestrado recentes, que tivemos ocasião de çonsultar.
A obra de arte, seja livro, filme ou peça teatral
pode ser um instrumento privi legiado de estudo da real
ida-de s o c i a 1, sem c o n t a r a f o r ç a dos e u p o d e r d e c o m uni c ação e
a riqueza de sua forma de expressão. Quando bem real izada,
\ obra de arte é capaz de captar de forma mais rica e
com-pleta a real"(dade, talvez de forma melhor do que a obra ci
entffica.
Lembramos, de passagem, a riqueza sociológica de
filmes recentes como "Gaijin" ou "Eles não usam black-tie".
A aná 1 i se que ten tamos rea 1 i za r, baseada nos pri~,
cípios teóricos difundidos sobretudo através das obras de
J. Lukács e de Lucien Goldmann, pretende mostrar que e po~
sível apreender neste romance de Jorge Amado um momento hi~
tórico !importante para a compreensão da evolução de ,nossa
sociedade.
,
~-
-4
soci~lógico do romance, baseado em tais princípios aprese~
ta, em virtude da recente utilização desta teoria
à
literatura e do desconhecimento quase total que até pouco tempo
atr~s existia de tais estudos oos nossos meios acadimicos.
Por outro lado, estes autores no decorrer de suas
atividades e estudos muitas vezes modificaram seu pensame~
to, corrigindo ou aperfeiçoando determinados conceitos ou
posições, o que exigiria uma leitura aprofundada da sua
obra.
No entanto, considerados estes limites, tentare
mos definir os conceitos b~sicos que nos- nortearam e como,
a partir deles, procuramos orientar nossa pesquisa tenta~
do evitar uma transposição mecânica de tais
vez que as mesmas foram sobretudo aplicadas
teorias, uma
à
an~lise de uma determinada literatura, no caso a 1 iteratura européia, principalmente a francesa, e num certo período de tempo.A primeira hipótese que Goldmann desenvolve, ba
seado na obra "Teoria do Romance", de Luk~cs, é a d e que
há urna homologia entre a estrutura romanesca clássica e a
estrutura de troca na econo~ia 1 iberal, e um certo
parale-tismo na evolução de ambas.
o
que caracteriza a forma romanesca, para Lukács,e a existincia de um "herói problemático" numa procura "d~
moníaca " de valores autinticos em um mundo também degrad~
do, mas a um nível e forma distintos.
o
romance seria a transposição no p'lano literárioda vida cotidiana na sociedade individual ista nascida da pr~
dução para o mercado. Segundo Goldmann tIna vida econômica"
I
pu-..
5
rame~te quantitativos".
o
que corresponderia na definição da formaroma-nesca lukacsiana
à
procura dos valores autênticos pelohe-rói mas de forma implícita, não manifesta. Uma estrutura
desse tipo, segundo ele, não seria fruto da criação indivi
dual mas teria necessariamente sua base na vida social de
um grupo.
o
que ·expl ica que ela tenha se desenvolvidoen-tre os mais diferentes escritores, em distintos países e
no decorrer de um tão longo período.
Essa relação consistiria portanto numa relação es
trutural entre o modo de vida na sociedade capitalista (on
de as relações entre os homens são mediatizadas pelo valor
de troca, isto ~, pelo dinheiro e pelo prestígio social) e
as relações internas no romance entre as personagens e seu
universo, mediatizadas por valores implícitos. Os valores
autênticos nunca aparecendo como realidades autênticas, as
sim como os valores de uso na vida econômica.
Como se daria essa transposição do plano econômi
co para o plano literário?
-\ Segundo Goldmann uma estrutura tao complexa nao
poderia ser"produto da atividade individual mas se deveria
ao esforço de um grande número de indivíduos vivendo os mes
mos problemas e procurando solucioná-los. Não se trataria
de uma identidade de conteúdo entre a forma de pensar do
grupo social e a criação individual, mas de uma coerência,
de uma homologia estrutural podendo ser expressa através de
criações imaginárias aparentemente muito diferentes do con
teúdo da consciência coletiva.
Não haveria necessariamente consciência, por
par-te do escritor, desta relação entre o mundo imaginário e a
realidade. O essencial e que a apreensão feita por ele al
cançasse os pontos essenciais da realidade. Essa forma li
6
talista em desenvolvimento, na qual os valores individuais
do liberalismo não encontram mais possibilidade de se mani
festarem, da mesma forma como o escritor e o artista
tam-pouco são bem aceitos pela sociedade de mercado.
Um estudo sociológico baseado nestes conceitos d~
veria portanto num primeiro nível procurar determinar as
estruturas internas que regem tanto do ponto de vista do
contéudo, como da forma, o universo da obra 1 iterária e, num
segundo nível, estabelecer a relação significativa entre
este mundo criado e a estrutura social, econômica e polít~
ca da sociedade no momento estudado.
No nosso trabalho, aventamos a hipótese de que a
obra de Jorge Amado "Terras do Sem Fim" é uma obra que tran~
põe com clareza um momento específico da sociedade
brasi-leira, no caso a sociedade do início do século no Sul da
Bahia, caracterizada pela economia de exportação cacaueira
que lhe confere um caráter particular. Trata-se da visão
de uma sociedade agrária de tipo primitivo na sua passagem para uma economia capitalista, na qual se retratam as rela
ções de trabalho e o conflito de poder típicos do sjstema
coronelista.
\
Este trabalho está dividido em duas partes. Na
primeira procuramos definir o quadro histórico da socieda
de brasileira na Primeira Repúbl ica, tentando mostrar as
interações do econômico, do político e do social, tanto no
Brasil como um todo, quanto na Região Sul da Bahia partic~
1 a r me n te, a f i m de. o b t e r u ma v i são g 1 o b a 1 que fo rneces se os
elementos necessários
à
compreensão da análise da sociedade cacaueira de "T~rras do Sem Fim". Na segunda parte e~
tramos na anál ise propriamente dita da estrutura e das pe~
sonagens da obra, procurando demonstrar que em torno de
do.is conceitos bás:icos - o autoritarismo e a "malandragem"
- estruturavam-se todas as relações entre as personagens do
mundo ficcional,
à
sem~lhança do que ocorria no plano real,ber como se revel a· at ravés do ro'mance a vi são de mundo de
Jorge Amado, fruto de sua formação e vivência pessoais, e
tentamos situá-la num plano mais vasto que seria o do
mun-d o i n te 1 e c tua 1 e p o 1 í t i c o a o q u a 1 se 1 i g a voa o e s c r i t o r
CAPfTULO 1
QUADRO HISTORICO DA PRIMEIRA REPOBLICA
1. 1 -A Economia Agroexportadora Brasileira no período
que antecede a República Velha.
O sistema econômico brasi leiro baseado na grande propriedade rural e na exportação de produtos primários tem
no coronel ismo sua máxima expressão, no período que vamos
estudar.
Essa situação de país agroexportador leva-o a s~
frer, ao longo de toda sua história, de uma série de cri ses e de uma fragi 1 idade muito grande face ao mercado ex
-terno. Mas é sobretudo sua inserção, desde a época colo
nial, no padrão da divisão internacional do trabalho que
marcara os rumos que tomará sua economia ao longo de sua
evolução.
O Brasil teve, desde o início, um papel de forne-cedor de. matéria prima para o comércio internacional,
per-mitindo assim a Portugal auferir a maior quantidade de lu
cro com o mínimo de custos. Não se tratava portanto de fa
\er grandes investimentos aqui, de se procurar uma màior
produtividade do trabalho, de se diversificar a produção,
mas, tao somente, de se encontrar uma estratégia que perm~
tisse
ã
Metrópole assegurar a apropriação do excedente. Ocaminho encontrado foi a instituição do trabalho compulsó-rio, isto é,do escravismo.
Este fato, segundo Francisco de Oliveira, e responsável pela impossibilidade da divisão social do traba
-lho no Brasi 1, pois, associado
ã
concentração da renda,bl~queava a criação de uma economia de trocas ou de produção
de mercadorias interna.
Na epoca colonial, não há um Estado Colonial,mas
."inte~vim
diretamente naorganizaç~o
do sistema produtivo e na conformação da estratificação social. Participa da produção atra~is das minas ~xploradas por administração e das encomendas reais. Outorga doaç5es de terras e encom~ndas de indios~ jazidas e priviligios de mineração~ monop6-lios comerciais, a conquistadores~ colonizadores e favori-tos. Tem papel decisivo nd criação~ mobiZização e regula-ção de mão~de-obra forçada - e~cravidão dissimulada dos in d{genas e aberta dos negros . . . Participa dd criação de clas
ses e grupos sociais, na determinação de sua situação~ s~a
tus~ funç5es e limites reciprocos . . . A Coroa cria uma aris
tocracia.· Estimula seu surgimento~ outorga-Ih,e sólidas b~
ses econômicas~ para que atue como eixo~ fundamento e
sal-vaguarda do regime coZonial~ em nome e em favor da monar -quia metropolitana. "
Sobre a formação social colonial divergem os es
tudiosos quanto a seu caráter capitalista, feudalista ou
dualista. Sem querer entrar no âmbito da questão concord~
mos com L. C. Bresser Pereira que conclui a discussão afir
mando " .•. Em suas relaç5es com o exterior~ o latifúndio i
uma empresa mercantil~ orientado para o comircio e o lucro.
Em suas relações internas~ o latifúndio i uma unidade
eco-~ômica quase auto-suficiente~ operando em regime de subsi~
tência.3 na qu"al o senhor tem amp los poderes.3 pr6prios dos potentados pri-capitalista~."
Importa, para o estudo que vamos realizar, subl~
nhar aqui que a sociedade colonial foi marcada pelo capit~
lismo mercantil de um lado,e que a classe dominante :local
se subordinava aos interesses ~o Estado portuguis, ~o que
distinguirá fundamentalmente este período do que se lhe se gue.
A crise das metr6poles, Portugal e Espanha, no
século XIX, ocorre no momento em que as colônias já "mais
desenvolvidas começam a se sentir fortes e querem marchar
10-lista~ um mercado mais amplo se abre a~s países produtores
de mat~rias prim~s, e as co15nias compreendem que podem o~
ter maior parcela de excedente associando-se diretamente
aos países capital istas eme_rgentes.
Desde o final do século XVI I I e até metade do se cu10 XIX, o Brasil conhece uma fase de estagnação e de
de-cadênci-a.
'A
expansão colonial, à riqueza da produçãoaçu-careira, baseada na mão-de-obra escrava, e mais tarde -.. ao fluxo imigratório do século XVIII, que provocou um ; rápjdo crescimento demográfico, sucede-se um período de crescimen to econ5mico muito lento.
o
processo de independência que se del ineia -:coma crise colonial, na segunda metade do século XVI 11, ganha
vulto com o estabelecimento aqui do Estado absolutista po~
tuguês, pois o_Brasil adquire a preparação administrativa necessária para a vida aut5noma.
A revolução portuguesa de 1820, que traz um novo governo preocupado em recuperar uma economia arrazada pe -las guerras e pelo fim do monqpó1io comercial com o Brasil, e dedicido a recuperar os antigos privilégios, vai precipi \ar o advento dessa nova etapa de nossa história.
Nossa independência é p~~tanto o desfecho de uma
luta da classe dominante colonial contra as tentativas de
recolonização da metrópole. Não foi um processo unificado
e tranquilo. Houve lutas no Brasil inteiro, e
particularmente nas províncias da Bahia e do GrãoPará, onde a pre sença de um grande número de comerciantes, cujos interes
-ses se ligavam diretamente a Portugal, criava uma forte re~
ção ao novo regime. Nessas províncias, o povo partitipou
ativamente, aliando-se às forças imperiais; no entanto
es-sa participação popular não devia ultrapases-sar os limites t~
-Consol idada a separaçao entre o Bras i 1 e Portu-gal, coube a D. Pedro I, graças a seu envolvimento nos
a-contecimentos locais e a sua ligaçio com a~ aristocracia
rural, garantir a continuidade do regime monárquico.
Continuava inalterado o modo de produçio ante
-rior baseado na grande propriedade agroexportadora e n o
regime escravocrata, apenas saindo fortalecida a ,classe
dominante que podia entio defender melhor o excedente ob-tido na exportaçio de seus produtos.
A crise econômica fomentadora do movimento sep~
ratista recrudesce logo após a independência, em :conse
-quê n c i a d o d e s e qui .1
í
b r i o e n t r e a sim p o r t a ç õ e s e a s e x p o r-taçoes, e em razio dos gastos necessários para a organiz~
çio e implantaçio do novo Estado. Para fazer face às des
pesas sio feitos novos empréstimos ao exterior, o que ele
vara a dívida brasiléira a somas muito altas.
apagamen-to dos juros repercute negativamente na economia e vai
a-centuar a oposição feita ao Imperador. Os descontentamen
tos aumentam e surgem inúmeros jornais e pasquins ora a
favor dos Ilexaltados" ora a favor dos Ilmoderados ll , uns fran camente apregoando idéias republ icanas enquanto outros lu
\. ta m p e 1 a II
~~a.
n s t i tu i ç i o sem r e vo 1 u ç ã o II .Dois acontecimentos servi rão para acentuar a cri se econômica e pol ítlca: a guerra da Cisplatina e a ques-tão da sucessão do trono português.
Todos esses problemas vão canalizar a insatisfa
,
çid dos proprietarlos rurais, dos escravos, e das
popula-Ções urbanas, multiplicando as manifestações populares e
as ~ c r i s e s p o 1 í t i c a s que cu 1 mi n a m com a a b d i cação de D ~ P e
dro.
o
período que se inicia é ainda maisagitado,a-centuam-se as divergências dentro da classe dominante; as
. ,
,
.
1 2
~cham um espaço para manifestarem sua revolta contra a
es-trutura vigente. Surgem movimentos e rebel iões por todo o
país, a Cabanagem no Grão-Pará, a Balaiada no Maranhão, a
Sabinada na Bahia e a Farroupilha no Rio Grande do Sul. To dos esses movimentos são reprimidos violentamente.
Os liberais moderados, representantes da aristo-cracia rural do Sudeste, em aI iança com os mais conservado
res ocupam o poder, efetuando apenas pequenas mudanças que
-nao alteram fundamentalmente seus privilégios nem afetam o sistema econômico vigente.
A antecipação da maioridade de D. Pedro I 1 co~so
lida a monarquia e vai confirmar a aristocracia rural no p~
der, garantindo a grande propriedade e o trabalho escravo.
Enquanto no campo os senhores rurais dispõem de
amplos poderes, nas cidades dominam os grandes comerciantes (ingleses e portugueses), ficando as camadas médias absolu tamente marginalizadas.
Influencia,dos pelas idéias socialistas
france-sas, 'amplamente divulgadas na época, os I iberais provenie~
\es das classes médias e dos grupos intelectuais vio
lide-rar manifes~~~ões e movimentos de rebel ião que levam
i
lu-ta armada, como em Pernambuco, no caso da Revolução Praiei ra.
A d e r r o t a d a R e vo 1 u ç ã o p r a i e i r a é ta m b é m o f i m da agitação 1 iberal e o começo de um período ,mais "tranquilo" para a monarquia.
Inicia-se também a partir de 1840 um período de
tranquilidade econômica. O café, graças ã;desorganização
de seu maior produtor, o Haiti, conhece um~ alta -de preços,
que permitirá ao Brasil que já o cultivava' em pequena e~ca
la transformá-lo em seu produto básico de exportaçao, nas
13
. 1:2 - A 'N o v a B u r g u e s i a A 9 r á r i a e a M u da n ç a nas R e 1 a ç õ e s de Pro
dução
A cultura do café desenvolve-se inicialmente no
Estado do Rio, em direção ao Vale do Paraíba, e na região
montanhosa da Mantiqueira, espalhando-se em seguida em
di-reção,a são Paulo.e a Minas. Nessa região, contou
excedente de mão-de-obra escrava proveniente das
com um
regiões das antiga~ minas. Como essa cultura necessitava um míni-mo de capitais, teve assim garantida a sua expansão, mesmíni-mo
q~ando os preços internacionais baixavam.
No entanto,
à
medida que se desenvolve a culturacafeeira, necessitam os produtores de m~iores capitais que
cubram os gastos com o aumento do número de escravos para
as fazendas e sobretudo que cubram as despesas com a sua
manutençao, que a cada dia se torna mais onerosa.
05agr-a-vamento dessa situação reflete-se no desequi 1 íbrio entre as
importações e as exportações, levando a uma crise no cafeeiro.
seto r
Há,
por outro lado, cada vez mais pressões porparte da Inglaterra no sentido de se extinguir a escravi
~ã
o, o que i rã,;_
c o n t r i b u i r p a r a que s e e n c o n t r e uma sol u ç ã oque satisfaça aos cafeicultores e aos seus parceiros comer
ciais. A abolição da escravatura vai aliviar o ônus com a
mão-de-obra escrava e satisfazer aos anseios 1 iberais do
capital inglês.
B ra si 1
Através da exportaçao de café,
vai i n t e g r a r o qi u a d r o d a II d i v i são
essencialmente, o
internacional do
t r a b a 1 h o II e n q u a n t o f o r n' e c e d o r d e ma t é r i a p r i ma p a r a o s p a
i
ses industrializados. :As novas,dimensões do parque
indus-trial europeu e o aumento do nível de consumo das suas
po-pulações vai garantir um mercado para as exportações bras~
leiras. Mas o desenvolvimento capitalista necessita, por
14
,dustria1izados, o que o levará a investir nos países perif~
ricos, oferecendo empréstimos, abrindo bancos,
participan-do da criação de serviços de infraestrutura como portos,fe~
rovias, etc. Há, portanto, assim, uma série de.fat~res que
convergem para o fortalecimento da "vocação agríco1a" do
Brasi 1. Comparando-se, neste período, importações e expo~
taçoes, vê-se que um pequeno grupo de produtos brasileiros,
café, açucar, algodão, fumo, cacau, incl inam a balança em
nosso favor.
Convém lembrar,entretanto que, se a Inglaterra
continua a ser a principal fornecedora das nossas importa-ções, a ela já se aliam outros países, como a Alemanha, os
Estados Unidos e a França. E sobretudo ela deixa de ser
nossa ~rincipal compradora, cedendo lugar aos Estados
Uni-dos. Essas mudanças na ordem econômica vão se refletir na
turalmente no plano pol ítico.
A expansao da cultura cafeeira vai permitir o en
riquecimento rápido da região Sudeste e dar aos grandes pr~
prietários locais maior poder político. A cultura
cafeeira,que se expandira inicialmente no litoral do Rio de Ja
-neiro·e no Vale do Paraíba~vai se deslocando
gradativamen-~e para o Oeste paul i sta, em vi rtude do esgotamento do so
-lo, consequi~~ia de uma técnica de exploração inapropria da, e até certo ponto em virtude da incapacidade adminis
-trativa dos grandes proprietários fluminenses, mais preoc~
pados em ostentar sua riqueza e o seu luxo.
Vai formar-se no interior paulista uma nova c1as
se de fazendeiros mais preocupada cam a produtividade da
lavoura, introduzindo novas técnicas e procurando organi -zar me1har sua produção.
Desenvolveu-se, desde o início, em torno da
pro-dução do café, um comércio de gêneros para·~ abastecimen
tais que serio mais tarde apl icados na pr6pria c~ltura ca-feeira.
Essa prática, segundo Celso Furtado, vai
distin-guir os cafeicultores dos produtores de açucar que se!11pre
estiveram afastados da etapa de comercial izaçio. Compree~
deram os cafeicultores desde cedo, a necessidade de contar com o apoio do governo na sua empresa, e procuraram utili-zar-se da política para alcançar este objetivo.
Com Slja expansio, restava
ã
agricultura cafeeiraresolver o problema fundamental da mio-de-obra. A
popula-çio escrava, por volta da metade do s~culo XIX, re~uzia-se
a aproximadamefte dois milh~es e o recrutamento da
popula-çio I ivre rural, dada a organizapopula-çio da agricultura de
sub-sistência, era muito difícil. Essa agricultura era "muito
dispersa e os lavradores muito presos aos proprietários,em virtude de sua dependência econômica.
A populaçio disponível nas cidades, por sua vez,
por se adaptar dificilmente ao trabalho do campo e ao esti
lo de vida das grandes fazendas, tamb~m era considerada ina
froveitável. D~ modo que, os fazendeiros se viram
obriga-~os
arecorr~!
a imigraçio estrangeira.A importaçio de novos escravos tornava-se cada
vez mais difíci I em razio da guerra movida pela Inglaterra no sentido de extinguir totalmente o tráfico negreiro.
Por outro ~l ado, a queda das exportaç~es de açucar
e algodio levava a decadência dos grandes proprietários do
N o r de s te que s e v i a m e n d i v i da dos e sem p o s s i b i 1 i d a de s· de" ma~
ter seus escravos. A extinçio do tráfico seria "tamb~m uma
soluç~o para eles que poderiam dispor de algum capital ven
dendo ao Sul seu excedente de mio-de-obra. Opunha-se nat~
ralmente à medida a burguesia traficante, que conseguiu r~
16
o
com~rcio de escravos ~ finalmente extlnto em1850, com a Lei Eus~bio de Queiroz. Com o fim da
importa-çio dos negros, hi uma 1 i~eraçio de capitais que passam a
ser investidos na lavoura cafeeira e nas nascentes ativida
des urbanas. A s r e 1 a ç õ e s e s c r a v i s tas d e p r o d u ç i o e n t r a m em
declínio dando lugar a novas relações que irio marcar outra etapa do desenvolvimento brasileiro.
1:3-A Proclamaçio da RepGbl ica faz-se necessiria
i
ascensiodo caf~
A Abol içio da escravatura i ri disparar o processo p~
líticoqueculminari com a Proclamaçio da República. A,intro
duçio do trabalho assalariado tornari mais premente
6
pro-blema da mão-de-obra nas fazendas de caf~. Os
cafeiculto-res paulistas dispenderio um grande capital para subvenci~
nar a imigraçio e exigirão do governo uma maior
contribui-çio neste sentido. Os setores conservadores escravistas,
por sua vez, insurgem-se contra esta política.
Inicia-se-um período de divergencias no seio da
classe agriria dominante. Não se trata de conflitos
ideo-~ógicos mas de conflitos de interesses.
Os cafeicultores lutam pela descentral ização _da
política imperial, que iria atender suas conveniencias, .e~
quanto os setores tradicionais defendem,. a central izaçio. A política de conciliaçio levada a cabo pelo chamado " pO
-der Mo-derador" do Imperador ~ a garantia do revezamento no
p o d e r dos d i f e r e n t e s g r u p os, na t u r a l;m e n te d e f e n d i d a r P
e
lossetores economicamente mais fracos.
No final dos anos 60, essa política
conciliató-ria começa a desgastar-se face
à
crescente oposiçio dos liberais.
al~m do caf~, desenvolvem-se outros produtos de exportaçio
agrícola como a borracha no Amazonas, o cacau no sul da
Bahia. Nos principais centros urbanos surgem novos empr~
endimentos industriais. sio introduzidas inovações t~cni
cas nos diferentes setores econômicos. Nas fazendas pa~
1 istas, renova-se o cultivo do café com a apl icaçio de t~c
nicas mais modernas visando uma maior produtividade de cul tura cafeei ra.
nas de açucaro
Modernizam-se tamb~m os engenhos e usi
As. transformações sociais decorrentes da
expan-sio econômica tornam a república uma necessidade. A
cen-tral izaçio pol ítica do imp~rio, favorecendo os senhores es
cravocratas, já nio corresponde a real idade econômica bra
si 1 e ira.
Em 1870, cinde-se o Partido Liberal dando lugar
ao aparecimento do Partido Republ icano. Este vai
arregi-mentar maiores adeptos sobretudo em São Paulo, no Rio e no Rio Grande do Sul.
Os republicanos sio provenientes das camadas me
dias urbanas, influenciadas pelas id~ias positivistasl di
(undidas na ~poca, dos grupos de fazendeiros paulistas,d~
sejosos de uma nova ordem política que os beneficiasse mais e dos setores militares, insatisfeitos com a política
im-perial e tamb~m influenciados pelas id~ias ,positivistas
que se propagavam na Escola Mi I itar.
As chamadas quest()f's "religiosa" e, "militar"
vieram apressar a queda do Imp~rio que já nio tinha
ne-IA escola filosófica positiv'ista, de AugustoComte, criada em meados do s~culo XIX, previa no desenvolvimento das sociedades três está-gios: o teológico, o metafÍsico e o positivo, correspondendo, grosso modo, ao escravismo, ao feudalismo e ao capitalismo. No estágio posi tivo, a humanidade alcançaria seu desenvolvimento baseada no progres so das ciências exatas. Era negada a luta de classes e se partia do
princípio de que a ordem era a base para o progresso. Cabia
18
nhum setor em que se apoiar.
t
portanto muito ilustrativa a frase de I.R. Mattosiao coment~r o epis6dio da proclamaçio da RepGblica:
"Quando~
na madrugada do dia
15de novembro
de
1889~.uma
revolta militar depôs
oministério liberal do Visconde
de
Ouro Preto ninguém veio em socorro do velho e doente
impe-rador.
A espada do marechal Deodoro da Fonseca abria
as
portas da República para que
porele passassem os
republi-canos
~volucionistascarregando um novo rei:
ocafé de são
Pau lo".
A heterogeneidade dos elementos responsáveis pe-la queda do Império irá trad.uzir-se nas divergências de at..!.. tudes e de interesses que se revelam no Governo Provis6rio e vio se intensificar ao longo de toda a Primeira RepGbl i-ca.
As diferentes facções representadas pelos ele
-mentos que tomaram o poder começam a disco~dar já na
esco-lha das juntas governativas para os Estados e vio
intensi-ficar os seus pontos de divergência ao ser estabelecida a
~olítica financeira de Rui Barbosa.
Rui Barbosa, apoiado pela pequena-burguesia urba
no, tenta recuperar as finanças públicas por meio de uma
política emissionista e de créditos
ã
indústria que e naturalmente mal vista pela burguesia agrária.
Oiaumento das emissões vai levar a uma febre de
neg6cios que na prática se revelam mais especulativos do
que produtiyos, provocando o aumento da inflaçio.
~ exacerbaçio desse processo vai redundar no
co-n h e c-i do e p is
õ
d i o do e n c i 1 h a me n to que 1 e v a r á ã r e n ú n c i a deRui Barbosa.
acirrar ainda mais as disputas entre os diferentes que se encontram no poder.
grupos
Os grupos civis e militares, liderados por Deod~
ro,pleiteiam uma maior central izaçio e o fortalecimento do
pode r execut i vo, enquanto os repu b 1 i canos "obj et i VOSII ,
re-presentantes dos grandes fazendeiros, querem maior descen
tra1ização e autonomia para os Estados.
A Constituição promulgada em 1891, copiada da Car
ta dos Estados Unidos, baseia-se no federalismo, no pres~
dencia1ismo e no regime representativo, o que significa a
vitória das 01 igarquias estaduais.
As oligarquias representadas na Câmara e no
Se-nado lançam-se numa luta pelo poder que se manifesta .. duran te a primeira fase do governo repub1 icano pelas constantes revoltas e golpes militares, num jogo entre civis e milita res que so conhecerá uma pausa no Governo de Campos Sales.
Este presidente procura através da chamada Ilpolítica dos
g o ver n a d o r e s II a 1 c a n ç a r a e s t a b i 1 i d a de n e c e s s á r i a p a r a a ob
tenção de um cl ima propício às reformas econômico-finance~
ras que considera necessárias para salvar o país da situa-\ão caótica em que se encontrava.
O povo, que esteve ausente no processo de
esco-lha do novo regime, continua ausente no processo de sua co~
solidação.; a célebre frase de Aristides Lobo "0 povo as
-sistiu àquilo bestializado~ sem saber o que significava~jul
gando tratar-se de uma parada" revela claramente esse a1hea mento popular.
Somente flas duas últirP.ás décadas da Primeira ~epúblicá é
que as camadas médias urbanas e os trabalhadores 'começam a organizar-se e lutar por seus direitos.
sado, serão duramente reprimidos.
Mas, co~o no
20
do republ icano do período anterior é o fato de que esta~os
agora diante de novas relações de produção a sociedade bra
si leira deixa de ser escravagista para ser predominanteme~
t e c a p i tal i s ta .
A nova classe agrária dominante deixa de subordi
nar-se aos interesses do Estado português e passa a ser ag~
ra dona do principal meio de produção - a terra -, e medi~
dora da força de trabalho, contendo em si mesma, segundo a expressão de Francisco de Oliveira, lIa virtualidade da acu mulação, mas não ainda as condições plenas de sua
realiza-o ção".
Essas limitações decorreriam da especifiCidade. da. economia brasi leira, produtora de matéria prima para o mer
cado capitalista internacional.
Grande parte do excedente produzido pela cultura cafeeira não reverterá aos produtores mas será retido pela intermediação comercial e financeira feita pelo capital in glês e mais tarde pelo capital americano.
A uti lização do trabalho assalariado vai entre
-\anto
permi~ir
a formação de um campesinatobrasileiro,re~
.. '.~ ...
ponsável pela produção dos gêneros de subsistência para as fazendas e para as cidades que se desenvolvem, dando lugar a uma forma de acumulação primitiva, uma vez que a comer -cial ização e o financiamento desses gêneros são realizados internamente.
Francisco.de·Oliveira esclarece bem esta passa
-gem de um tipo de economia para outro: "A Primeira Rep~bli
ca herda, pois, uma economia cuJas 'condições de acumulação e de crescimento haviam sido grandemente pote~6i~Ziz~das.
Em primeiro lugar, avançam os processos de ~cumulação pri-mitiva que a nova classe revertia agora "pro duomo suo", e que significavam não ape~as a ampliação da posse e propri~
dade da terra~ mas o controle das nascentes trocas entre unidades de produção distintas~ desfeita a autarcia ante
-riOr~ por intermédio de todas as instituições que depois vao
caracterizar a estrutura po'l{tica e social da Repúb lica Ve
lha~ como o coronelismo~ o complexo latifúndio-minifúndio~
os agregados. Em segundo lugar~ a instauração do trabalho
livre no coração das próprias unidades produtivas do com -plexo agro exportador significa uma inversão da situação da economia e?cravocrata~ predominando agora o capital variá-vel e fazendo crescer a rentabilidade das explorações.Qua~
titativamente~ pois~ o volume do excedente . soh_ . . ao~t~ble
dos "barões do café" (assim como dos ~arões do açucar e dos outros barões) era~ agora~ maior que em epocas anterio
res. "
Estavam assim dadas as condições que iriam perm~
tir a grande expansão da cultura cafeeira entre 1910e 1925 e possibilitar igualmente o desenvolvimento .da:inéipjente
indústria brasileira.
Entretanto o café que permitiu o crescimento e o
enriquecimento da nova classe agrária, e na sua esteira o
desenvolvimento urbano, irá contraditoriamente causar a sua \uTna.
Como a intermediação comercial e financeira do ca fé se faz inteiramente em moeda estrangeira, a 1 ibra ester lina, os fazendeiros paulistas, que se encontram no poder,
vão impor uma política econ6mica que consiste basJcamente
numa política cambial que os favoreça.
Por outro la~o, a expansão da lavoura cafee.ira
exige a melhoria da infraestrutura, estradas, sistema I de
transportes, que serao igualmente financiados pelo capital externo.
A queda dos preços no mercado externo e o endiv~
damente progressivo vão gradativamente levar a política eco
. .
22
1:4-Repercuss~es políticas e Soêiais da Economia Cafeeira
A expansio da cultura cafeeira, no inrcia do
.
s~-culo, fará com que o café se transforme no nosso maior pr~
duto de exportaçio, base de nossa vida econômica e social.
A polftica republ icana que leva a classe agrária
paul ista ao poder já no governo do presidente Prudente de
Moraes, consolidará a hegemonia dos estados produ~ores de
caf~, definitivamente, no governo Campos Sales com a conhe cida "polrtica dos Governadores".
Os fazendeiros de caf~ se organizam tamb~m no pl~
no econômico desde cedo através da criaçao do "Convênio de
-Taubat~", em 19 06, no qual definem uma pol rtica de valori-zaçio, comercializaçio e fixam mecanismos financeiros para sua produçio.
Esboçamse aqui os sinais precursores da passa -g e m do Bras i 1 de Estado 1 i b e r a 1 a Estado i n t e r v e n ti o n i s ta,
transformando-se no maior defensor e estimulador da polrt~
ca caJeeira, atrav~s do que foi chamado de política de "so
,ializaçio das perdas".
Essa política de defesa da cafeicultura, baseada sobretudo na compra dos excedentes da produçio pelo
gover-no, faz com que os produtores possam sempre se benefjc.iar
de altos lucros, dos quais uma parte ~ reinvestida na
eco-nomia cafeei ra, levando-a a uma permanente expansio, que e.!:
t r e t a n to, a 1 o n g o p r a z o, i r á p r o v o c a rum a c r i se: i ITS U P e r á
-vel, como ocorre nos anos 30.
Da política de retençio passa-se pelos mesmos m~
tivos
à
de destruiçio dos excedentes de caf~, obtendo-se artificialmente o equilíbrio entre a oferta e a demanda,o que
mostra o absurdo a que chegara o sistema econômico no seu
Essa polftica de apoio irrestrito ao setor
agra-rio cafeeiro. irá repercutir negativamente no desenvolvimen
to do capitalismo industrial. Este terá seu desenvolvimen
to condicionado de certo modo ~s crises do setor .. agrário,
como nos demonstra claramente F. de Oliveira no. ,seguinte
trecho: "Unicamente em condiç5es de retraç50 dr5stica de
sua capacidade de pagamento externa, e também ante a impo~
sibilidade de contrataç50 de novos créditos externos,é que o Estado lançava m50 de seu último recurso, desvalorizando o mil-réis em primeiro lugar, recorrendo
à
ampliaç50 da di vida interna, seja pela simples emiss50 monetária, seja por titulos representativos da divida pública, seja autorizan-do os bancos privaautorizan-dos emissores, seja autorizanautorizan-do os pró -prios Estados a emitirem titulos. Nessas condiç5es extre-mas, o Estadd criava a "intermediaç50 financeira interna" e abria o passoà
concretizaç50 da diferenciaç50 da divi -s50 social do trabalho interno mediante um reforçoà
redli ç50 do valor das mercadorias."A exacerbação da polftica agroexportadora vai tam
b~m prejudicar o avanço da divisão social do trabalho .. no
campo. A adoção do trabalho assalariado cria um campesin~
to que se dedicará ao cultivo dos gêneros de subsistência
'ara as fazendas e em parte para as cidades, dando origem
a uma economia de trocas e a uma forma de acumulação primi
tiva, que se desenvolverá, entretanto, em virtude da ausen
cia de maior capitalização, de aplicação de novas t~cnicas
de cultivo, do aprimoramento da produtividade, apenas atra
v~s da renda da terra e da baixa remuneração da força de
trabalho.
Não há uma distribuição equilibrada dos recursos
obtidos com a expansão agroexportadora pelos di'ferentes s~
tores econômicos embora haja,como vimos,um mecanismo de
sus-tentação dessa pol rtica qU~,ele, se faz em detrimento dos
outros setores econômicos.
'.
24
agrária e urbana, o aumento do consumo das camadas médias, em decorrência' do desenvolvimento urbano, o baixo custo de r e p r o d u ç ã o d a f o r ç a d e t r a ,b a 1 h o, a f a c i 1 i d a de d e i m p o r t a ção de materiais e a elevação dos preços dos produtos im -portados, vão permitir, apesar das restrições de que
fala-mos, um avanço em direção
ã
industrialização do país.Devemos lembrar que o protecionismo não alcançou
apenas a economia cafeeira, mas também em determinados
mo-me n tos vo 1 ta - se p a r a a i n d ú s t r i a nas c e n te, a t r a v és, po r, e xe~
plo, de isenções tarLfárias para a importação de ,máquinas e materiais.
Esse protecionismo
ã
indústria se faz através deuma política de favores que fomentará uma série de àbusos
os quais comprometerão os próprios interesses industriais.
Levantam-se logo protestos e críticas não só por
parte dos setores ligados
ã
oligarquia agrária, como tam-bém das indústrias não beneficiadas e igualmente daquelas
que já estão instaladas e querem afastar os novos concor -rentes.
As campanhas de oposição
ã
industrjalização sao-, .. :--
....
naturalmente ampliadas nos momentos de crise do setor,para desaparecerem nos momentos em que sua expansão traz benefí
cios para os cofres públicos, através do aumento das taxas
de consumo sobre os artigos de fabricação nacional.
Essa passagem de um tipo de economia para outro
se faz naturalmente em meio a muitos; obstáculos e reações
que vão se refleti~ ao longo de todo o período republicano~
p e 1 a s c o n s ta n t e s c r i se s p o 1 í t i c as, go 1 p e s mil i t a r e s, p r o
-testos e levantamentos populares, n~ma agitação permamente
que é canalizada através dos diferentes movimentos e cor -rentes ideológicas.
I
a transformaçio social estio difundindo nova~ idii~s e va-lores, novas formas de pensamento e conduta que vão provo-car naturalmente~na p~rte conservadora da sociedade,meca -nismos de defesa.
Assim, por exemplo, em reação aos pregadores da
civilização urbano-industrial, aparece o "ruralismo" que
procura demonstra'r a superioridade dos valores ,naturais~ pr§.
prios da economia de base rural, valore~ como a pureza dos
costumes, a vida saudável do campo, etc.
Mas, ao lado das pregações ideológicas, fatores
concretos como a imigração e a urbanização terão certamente mais força como elementos capazes de transformar a so -ciedade.
Ao imigrante europeu caberá a difusio das novas
idéias no campo social e uma participação efetiva nas gre-ves e movimentos operários nas primeiras dicadas do século.
Estes imigrantes acostumados às lutas projetá
=
rias em seus países de origem, ao perceber que
as"condi-ções 'de vida aqui eram iguais ou piores que as anteriores,
~ue a exploraçio do trabalho era idêntica e que não havia
, - '
nenhuma legi~)açio de proteção ao trabalhador, começam a
organizar sindicatos e movimentos de denúncia e reivindica ção, procurando conscientizar a classe operária.
Esses movimentos foram violentamente reprimidos e
o s a n a r qui s tas mui t o p e r s e g u i dos, sob r e t u do" a . p a
r
t i r d e1917.
Washington Luiz, o último presidente da
repúbli-ca representativa dos interesses da burguesiacafeeira,~J~
plifica o pensamento da classe dominante ao tratar o pro
-blema através da celebre expressão lia questão operária e
26
Somente
à
medida que se desenvolve a industrial ização e a urbanização, que se criam novas instituições, e
que se modificam as mentalidades. Assim, as cidades que fo
ram inicialmente aliadas das oligarquias agrárias irão mais
tarde concorrer para a sua destruição.
A industrialização é sem dúvida um dos elementos
que mais pesaram para essa transformação social. A uma maior
divisão social do trabalho e a urna maior diversificação de
funções serão necessárias novas instituições e
ma s de p o d e r .
novas
for-Pouco a pouco, toda uma parte da população que vi
via nas cidades e não depen~ia diretamente do trabalho da
terra vai se 1 iberando da tutela e autoridade dos coronéis.
Mas cabe observar o que diz muito apropriadame~
te Maria Isaura Pereira de Queiroz. a propósito dessa evo
lução: "No entanto~ se a dominaç50 clara e visivel das
pa-rentelas foi sendo comprometida devido
à
evoluçãosócio-ecE..nômica~ o fenômeno não se processou sem acomodações para a
sua permanência. Estas acomodações se tornaram poss{veis forque as parentelas não se haviam restringido a exercer apenas atividades agrárias; na verdade~ suas posses esta vam apoiadas em vários tipos de investimentos~ de que a
J9;.
zenda de cafi ou de cridr~ de cacau ou de cana~ não cons~it~{a senão um aspecto.
Já
vimos a importãncia que teve ocomircio para assegurar a posição~ ou promover social dos coroniis e de suas parentelas ( ... )
-a -ascens-ao Dominando em parte a!grande ind~stria~ o grande comircio~ as grandes
I
organizações de serviços p~blicos
bros seus ~xercendo as profissões
I
ou privadOs~
liberais~ os
com
1~5-A Consolidação 'do Sistema Coronelista
Vimos que o fato político da.República
r e sul t a d o do, i d e a I i s mo deu m g r u p o d'e i n t e I e c tua i s
-naoou foi
da
insatisfação de alguns setores militare~ mas que teve sua
gênese na transformação por que passou a economia brasi lei ra ao adotar novas relações de produção.
Ao consol idar-se,vai revelar as novas forças que
o suscitaram, representadas pela burguesia agrária dos pr~
dutores de café de são Paulo.
A nossa realidade de país cuja economia se basea va na exportação de produtos primários não mudara fundamen
talmente. O Brasil conservava em seu todo uma estrutura so
cial pouco diversificada, De um lado, tínhamos um grupo de
grandes proprietários detentores dos recursos econômicos e do outro, uma grande massa de trabalhadores rurais totalmen
te dependente destes proprietários. Entre os dois grupos,
uma minoria urbana constituída de comerciantes, funcioná
-rios e artesaos, e um pequeno numero de operá-rios, com um
mínimo de participação no poder.
Uma nova ordem política sem partidos organizados,
...
sem tradição e sem conscientização da população não altera
ria a estrutura social; e é natural que o resultado imediato tenha
sido em vez de uma mudança, a consol idação do antigo sist~
ma social, apenas mudados os grupos dominantes, aos velhos senhores do açucar, substituindo-se os novos produtores de café.
O
novo regime, dando aos Estados amplos poderespara definir o que seria do interesse do municípi~ e para
eleger ou nomear prefeitos, ,irá contribuir indiretamente p~
ra o fortalecimento do sistema coronelista.
I
A falta de administradores, de recursos, e o
I i so
28
autonomia total. Esses chefes são os grandes proprietá
rios rurais que dominam econômica e politicamente. Portan
to à ausência de autonomia legal dos municípios
correspon-de o que Vict?r Nunes Leal chama de'~utonomia extra-legal
dos E s t a dos", que, a t r a v é s d o 1 i v r e a r b í t r i o, f o r tal e c e a p o 1 ítica de compromissos, de troca de favores, com a perpe -tuação da influência social dos chefes locais.
Não tendo acesso direto ao eleitorado dos peque-nos lugarejos, os partidos políticos e o Governo do Estado
vão depender das lideranças locais, dos coronéis, que por
~ua vez necessitarão dos cofres públicos, dos empregos, da
força pol icial, etc. estabelecendo-se assim uma relação de r e. c i p r o c i d a de.
Os·próprios legisladores sujeitos às normas esta
duais deixam de utilizar a lei quando esta pode ir de en -
,
contro aos interesses locais e, por extensão,estaduais, garantindo desta forma suas carreiras políticas ou seu pro -gresso profissional.
A garantia dos votos desse eleitorado municipal
é obtida, neste sistema, graças à ascendência do ,coronel
~obre a população,ou pelo uso da força bruta, se necessa
-r i o.
A "pol ít i ca dos Governadores" acentuará ainda mais esse caráter arbitrário do sistema eleitoral através da me
cânica de "verificação dos podere~". Como é sabido, o uso
de fraude e violência nas eleições era uma prática corren-te, e, pa ra atenua r essa situação, mandavam-se os I i vros ele i torais à Câmara para serem verificados por uma comissão com posta de cinco deputados.
Até 1900, essa comissão era presidida pelo mais
velho dos seus membros, mas para evitar essa possível
mar-g e m d e i n c e r tez a,. a n o vaI e mar-g i s 1 a ç
ã
o a d o t a ou t r a f ó r muI a quepresidir a comissão.
Arma definitiva para afastar a oposição do poder, ela
funcionar'á até 1915, com o aparecimento da Lei Rosa e Si lva.
Se no regime imperial, os grupos 01 igárquicos c~
nheciam certos limites e eram controlados pelo "Poder Mod~
rador" do Imperador, que garantia u(l1a certa rotatividade
dos grupos no poder, com a Repúb1 ica eles serão definidos
apenas pelas lutas políticas cujo resultado e, em última
instância, a vitória dos grupos econômica e
m a i s f o r t e~s .
po 1 i t i camente
1:6-A Pol ítica Econômica Agroexportadora na Bahia e sua Re-percussão no Plano Po1 ítico e Social
o
final do século XIX e início do século XX, ép~ca retratada na obra que vamos estudar, caracteriza-se, c~
mo vimos, por uma mudança importante no sistema econômico
'brasileiro que irá repercutir profundamente no plano social e pol ítico.
E }nteressante observar que na sociedade baiana,
tema do romance"Terras do Sem Fim''.', todos os problemas e co~
tradições decorrentes das mudanças fundamentais nas rela -ções de produção, que se processam neste período, vão se re
p r o d u z i r p r a t i c a m e n te d e f o r m a i dê n t i c a, em b o r a em p 1 a no me
no r.
Temos na Bahi~, na epoca estudada, uma estrutura
sócio-econômica simi lar'
à
observada no Brasi 1 como um todo.De um lado, um largo setor agrário dominante,con~
tituído dos antigos sen~ores, produtores de açucar, e dos
grandes grandes Droprietários rurais, plantadores de fumo
ou pecuaristas, que vão abr,ir lugar
à
ascensão de um .. novo-30
do,um setor urbano constituído d~ uma burguesia comercial,
ligada ao setor de exportação-importação e de ,uma. classe
média em formação, composta de funcionários civis e mi lita res, pequenos comerciantes, artesãos e empregados .de comér
,
cio, abrindo lugar a uma indGstria incipiente, voltada pa-ra os bens de consumo.
No plano' oposto, temos uma massa trabalhadora ru ral,constituída dos antigos escravos 1 iberados e dos traba lhadores 1 ivres, originários do Nordeste, provenientes dos
engenhos decadentes e das pequenas propriedades arrasadas
pela seca. E, no mesmo nível,mas nas cidades temos: peque
,
-nos funcionários, vendeiros, um pequeno nGmero de operá
rios e artesãos e um grupo de marginal izados, ma~jnheiros,
prostitutas, etc.
Nesse período de transição que estamos anal
isan-do,é necessário insistir nas transformações do modo de pr~
dução que irão permitir o surgimento dos coronéis, produt~
res de cacau,e que irão expl icar o processo de exacerbação da exploração do trabalhador rural, e a necessidade da no-va classe agrária de associar-se a certos setores das clas ses médias.
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Por"outro lado, convém salientar que, comose .. tra-ta de uma economia regional, que se encontra fora dos cen-tros hegemônicos do poder econômico e pol ítico será em gran-de parte influenciada pelo que ocorre nesses centros.
A a s c e n são da b u r g u e s i a c a f e e i r a, de t e r m i na n d o uma nova ordem política e econômica, fornecerá as condições
ne-cessárias para a formação das 01 igarquias regionais e para
a co n sol i d a
ç
ã o dos i s tem a c o r o n e 1 i s ta.A expansão da cultura cafeeira, subordinando os