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gETuLIOjulho 2010
F I M
O
escritor José Saramago, nummomento feliz de um docu-mentário sobre a visão, diz ser preciso dar a volta às coisas, olhar todos os lados para ob-ter uma correta visão. No hall do sim-pático hotel de Munique onde assistir ao jogo em que o Brasil foi eliminado pela Holanda da Copa da África do Sul, tive oportunidade de voltar a refletir sobre essa proposta do Prêmio Nobel português recentemente falecido. Nos jornais alemães do dia seguinte, prati-camente não houve menção ao Brasil – como entre os espectadores do hotel, a torcida aqui era pela Holanda. Essa falta de menção se explica também por-que o assunto do dia, napor-quele sábado 3 de julho, era a partida que marcaria a saída, desta vez, da Argentina, após amargar um 4 x 0 e confirmar a man-chete do jornal popular alemão Bild: “Adios, Diego!” A Argentina, como o Brasil, também entrara no torneio dan-do o título como favas contadas.
Mas o futebol e a copa estão aqui apenas como pretexto para reflexões. Como a de assistir à transmissão de um jogo sem a locução festiva e fantasiosa dos nossos comentaristas. Não sendo grande conhecedor de futebol, o que eu via em campo era a contradição de tudo o que ouvira nas partidas anteriores. O campeonato parecia ganho de entrada, pois afinal, a altura média dos atletas brasileiros pela primeira vez na história superava a marca do 1,80 metro! Em seu pensamento mágico, o famoso narrador trazia comparações com outras copas,
outros jogos – como se os jogadores e adversários fossem os mesmos de então. Justiça seja feita: não tive a oportu-nidade de acompanhar as boas explica-ções que Galvão Bueno deve ter dado para o fato de o “Hexa”, que já estava ganho, ter escapado em um jogo em que perdemos de virada. Li depois, ao abrir a internet, a chamada para o blog do amigo Juca Kfouri, que falava em “tragédia e injustiça” (cito de memó-ria, pode não ter sido exatamente essa a chamada). Mas novamente isso remete ao pensamento mágico ou mítico.
O pensamento mágico parece ine-rente ao homem. O antropólogo Clau-de Lévy-Strauss abordou em muitos Clau-de seus textos esse modo de enfrentar os desafios concretos da vida. Ele anali-sou, por exemplo, o trabalho dos curan-deiros de tribos indígenas da América do Norte. Mas essa matriz também permeou a cultura egípcia: basta repe-tir alguns sortilégios, dizer as palavras mágicas e, abracadabra, o que se queria se faz concreto. A mágica não pede es-forço nem sacrifício. O jovem que não estuda dá apenas uma olhada nos livros porque tem certeza de que na hora da prova dará um jeito, está cultivando o pensamento mágico. O estudante que acaba de ser aprovado no concurso para o Itamaraty ou para a Promotoria de Justiça sabe bem que não houve pala-vra mágica ou fórmula que não fossem as horas diárias de concentração, anota-ções e estudo. Boa parte dos reprovados talvez alimentasse aquela esperança do “dar um jeito”.
Este número da Getulio está reche-ado de histórias de empresas que reali-zam excelentes negócios e conseguem boa penetração para seus produtos e serviços lá fora, como resultado de pla-nejamento, persistência, trabalho duro. Não houve magia nem valeu o jeitinho. Competência exige aplicação.
Como explicação para os excelen-tes resultados da economia coreana, os especialistas insistem no investimento realizado por aquele país em educa-ção. Um dos medidores apresentados é que o nível de matrículas universitá-rias na Coreia evoluiu de 15% em 1978 para 80% em 2008, enquanto no Brasil subiu de 10% para 20%. Nesse mesmo período, os investimentos em ciência e tecnologia, que eram de 0,5% do PIB coreano e 0,4% do brasileiro, chegaram respectivamente a 3% e 1%.
Agora, voltando ao futebol. Na en-trevista com Antonio Aidar, diretor de Controle da FGV Projetos, ele fala sobre a incapacidade de nossos times se organizarem como empresas lucrati-vas. Há até um projeto, elaborado para o Ministério dos Esportes, de tirar os grandes times das dívidas, modernizar os estádios, apresentar resultados. A contrapartida seria o time mudar o es-tatuto, contratar diretoria profissional bem remunerada e trabalhando em tempo integral, e apresentar todo ano para a auditoria um orçamento sério, em que não pode gastar mais do que arrecada. Ou seja, abandonar o pensa-mento mágico. Mas aí... Bem, parece até querer demais.