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Movimento de educação de base - MEB : discurso e prática : 1961-1967

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(1)

DISCURSO E PRÁTICA - 1961-1967

(2)

rilVI'1:NTO DE EDUCACÃO DE BASE - '1:B

,

DISCURSO E PRÁTICA - 1961-1967

MA RIA DA CONCEI ÇÃO BRENHA RAPÔSO

Ili ... gcr t ' I("~ o <; uhmctida coro requ~

.1" 0 I',, " 1 .. 1 • 1 ohtc.nç:Jo do bLIU

de ~1estre ('m Educação.

ORIENTADOR: Professor 08ma r Fáve r o

i.10 UI.' . 1 " TlCj 1 0

ru nd,,( õo Getúlio Yar ga s

I nst i tuto de Es tudo s Ava nçados em Ed ucação

(3)

INTRODUÇÃO PARTE I

O MOVIMENTO DE EDUCAÇÃO DE BASE: DETERMINANTES , CONCEPÇOES E OBJETIVOS

Página

1. A EMERGENCIA DAS CA/>IADAS POPULARES NO BRASIL. . . 5 1.1. A Crise de Hegemonia das Classes Dominantes .... . 5

1.2. A 'NecessJdade de Legitimação do Poder Político ... 10 1.3. As Pressões Populares . . . ... ... .. . . 15 1.4. As Contribuições da Sociedade Civil e dos Inte

lectuais . . . :- ... 20

NOTAS o • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 24

2. EDUCAÇÃO E CULTURA POPULAR ••• • ••••••••••••••••• ••• ••• 25 2.1. Educação Popular •••••••.• •••••••••••••• .•••••••• 25 2.2. Cultura Popular •••••••••••••••••••••••••••.•••.• 27 NOTAS o... 30

3. AS EXPERlENCIAS DE EDUCAÇÃO POPULAR NA DE CADA DE 1960. 31

3 .1. Origens

o...

31

3.2. Rumos . . . 32

NOTAS •• ..•••....•... ••• • • . • . • . . . • . . . . • . . • . . . ~ • . 36

(4)

4. O ~P\'l MENTO DE EDUCAÇM DE BASE . . . .. .... 37

4.1. Origens . . .. .. . . 38

4.2. Con cepç ão de Educação .. . 0 ' 0 • • • • • • 0 ' 0 • • • • • • • • • • . 43

-4.7 .1 Apreensão da Realidade o • • • • • • • t • • • • • • • 4.2 . 2

-

Concepção de Educação de Base

...

4.2.3

-

Concepção de Cultura Popular

... ...

4 • 3 • NOTAS Objetivos . . . • . . .

... ... .. ... ... .... ...

PARTE I I A pRÃrrcA DO ~VIMENTO DE EDUCAÇJ\O DE BASE NO ESTADO DO MARANHJ\O 43 48 54 59 68 1. CONSIDERAÇOES GERAIS SOBRE A CONJUNTURA MARANHENSE. 73 1.1. Aspectos DcmogTáfico~ 73 1. 2. As Mi graçõc5 .... ... . .. . . ... .. .... -1

1.3. Situação fundi5n.3 ... . .. . . _ ... .. . . ,. 76

1.4. Perspectivas de Colonização do Meio Rural .. 0 . 0 78 1.5. Aspectos Econômicos... . . . ... ... 79

1.6. O Poder PolÍtico . . . ... 84

1.7. Saúde e 'Saneamento . . . 89

1.8. Educação Escolar . . . . . . . . .. .. .. . . 89

1 . 9. Mobilização e Organjzação dos Camponeses . . . 9]

1.10. A Atuação da Igreja no Campo Social... . . . 75

NOTAS . . . • . • . . . • . . . • . • . . • . . • . . •••.• . •.. 99

2. DA 1 ~IPLi\NTi\ÇJ\O DO MEB À SUA FO~1A DE ATUAÇJ\O . . . 102

2.1 . ]mplantação e Compo ~ j ç50 da Equipe ... .. . . 102

2. 2 . tire. de Atuação . . . 105

2.3. Visão de Mundo do Camponês Maranhense . . . ... 109

2.4 . Das Caravanas ã Animaç.ão Popular. .. . . ... ... 111

NOTAS . . . ... . . 120

3. O PROCESSO DE ANIMAÇJ\O POPULAR.... . . 122

(5)

3.2. IdentifJc éH;ão e Treinamento de Lideranças... 123

3.3. Supervisão e As sesso ramento

...

151

3 .4. Pr ogramação Radiof6nica ... .. . . .. 154 3.5. Proce sso de Avaliação. .... . . 1 58 NOTAS... . . . .. .... . ... . . 1 6 1

4. FORMAS DE ENGAJA~~ NTO S USCITADAS PELA ANlMAÇAO POP~

LAR . . . • • • • . . . 1 64

4.I. 4.2.

4.3.

4 .4 •

Escolas . . . . Cooperativismo . . . . Associações de Moradores de Bairros . . . .

Sindicalismo

...

164 16 5 166 16 7

(6)

RESUMo'

Apresentamos neste trabalho uma análise do Movimento de Educação de Base, MEB, no período de 1961 a 1967, inicia~

do pelos fatores que nos par e c e ram ter contriburdo mai s c f e

tivamentc p ~ lI" :1 o !' eu s ur g i l1l1.-' HI O no cu nH x t o $OC 1:11 br JS lll.' l

ro.

Do se u discurso, tentamo s captar a sua concepçao da realidade, de educação de base e de cultura popular, como também evidenciamos e analisam"os os objetivos a que se pr~ pôs e nos quais encontramos os principais subsídios para a preensão do significado da sua experiência.

Pal"a comr]et ~l ' o quadro de uma das pos s fveis inter pretaçõcs de s te ~I o vj l ·.~ nto . r eco ns truímos hi s t o ricamente sua pnítjc .1 no L~ t;'ldo do ;\Iaranhão c a anal isa mos dC"ntro de nossa "consciênc j a possível" .

(7)

Cc travail veut être une analise du Mouviment D'Edu cation de Rase - ~ffiB - correnpondant a ux annêes de 1961 3

1967.

Lcs [aits qui nous gcmblclll élv ojr, maniire, m arq u~s la naissance du ~I[B da ns brêsilien naus servent d'introduction .

ue 1 a meilleure lc contexte social

Du discours du MEB naus essauons de percevoir S3 con

ception de la rêalité. de l'éducation a la Base et de la culture populairc. De la meme maniSre nQUS mettons en relief

et ncus analisons ses objectifs. Obj cctifs ou naus rencon trons lc s principales informations qll i 110115 pcrmettent de

comprcndr c c"c qu'a signifiê 50 n C::..pé licncc.

(8)

INTRODUÇ!\O

Considerando que os homens tomam consciência dos con fIitos gerados nas relações de produção capitalista a nível da superestrutura política e ideológica, a educação popular torna-se uma questão de fundamental importância para os inte

lectuai s compromet idos com as cnusas das cnmad~s pOllu]~r~s .

As expcri~ncjas passad~ls de educ; I ~~o popuJar que tc~

taram veicular uma contra-ideol ogia pre<-'i~:lm portanto ser a

nali~ada s criticamente, pois, embora algumas delas tenham sido realizadas em conjunturas diferentes, podem pelos seus acertos e equívocos fornecer subsídios importantes para aqu~

las que ji cstfio sendo realizadas ou que vierem a realizar-se.

~u r eali dade, se os intelectuais 1100 se dispuserem a

recup erar 3 hist6ria dessas experi~ncias . o tempo se encarre gari de apagi-las e a consci~ncia disso foi que nos induziu a dar a nossa contribuição para que tal nao ocorra .

o

nosso trabalho se restringe entretanto ao Movimen to de Educação de Base. MEB, instituído oficialmente em 1961, sendo que at6 1966. apesar d3S crises que enfrentou, canse guiu manter um certo nível de compromisso com a causa da li bertação das camadas populares da sociedade brasileira.

Atuando quase que exc 1 us i v amen te nas zonas rurais dos Estados do Norte , Nordeste e Centro-Oestc.o MEB deu sua con

(9)

tribuição, através de um processo de educação de base, para a mobilização e organização das camadas populares. com vis tas

ã

participação destas na vida social e política do país. Ressalvando-se evidentemente os limites que lhe eram impo~

tos pelo fato de constituir uma iniciativa da Igreja Católi-ca e de ter advindo da conjugação de esforços entre ela e o Estado.

Em âmbito nacional, o MEB atuava principalmente atr~

ves de escolas radiofônicas, caracterizando-se como exceçao a sua experiência no Estado do Maranhão, que se constitui o nosso objeto de estudo específico.

A escassez de documentos que possam nos fornecer in formações sobre a atuação do MEB no Maranhão, por terem sido esses documentos incinerados ou ext raviados, foi compensada pelo relato desta cxperj~llcia conseg uida em entrevistas r ca lizada s com ex-integrantes d;t equ ip C" do :,ILB do ~ I ara nhiio c com algu ns elementos da~ cOlllunjdndcs onde a expe ri~ncia f oi desenvolvida.

Antes. porem, de alcançarmos o nosso objeto específi co de estudo, percorremos a trajetória que nos pareceu me lhor para nos c~nduzir até ele, procurando identificar em que circunstâncias surgiu o Movimento de Educação de Base

como movimento nacional, quais 8S suas relações com a estru

tura social da qual fa z ia parte e como se ma nif ei t am as suas contradj ç6es com a r eproduçio dessa pr ópri3 estrutura. Tenta mos assim busc ar, além do que o i me djoto deixa transparecer, as principais conexões e contr adi ç6c s internas do todo maior na qua l ele se constituis um dçtcrmj nado e um determinante. Buscamos enfim, dentro de nos Sa c onsci~ncia possível, encon trar a síntese do que e l e s ignificou.

Nessa perspectiva, iniciamos, então, o nosso traba lho a partir do pro cesso de emerg~ncia das massas populare s na parti cipação da vida polí t ica brasileir a . Fizemos uma an~

(10)

esse evento, t ais como: a crise que abalou a hegemonia das classes dominantes; a carência de legitimidade do poder polI tico que se instalou no país e que o levou a tentar consegui-la junto as camadas popuconsegui-lares, objetivando neutralizar as pressões advindas dos setores onde não encontrava receptiv i -dade e que lh e provocavam instabili-dade; as pressões popula-res caracterizadas como manifestações de massas, possibili tando, dessa forma, ao poder, condições para uma grande mar gem de manipulação das mesmas; e o processo de mudanças de comportamento das camadas populares no qual suas lutas e as contribuições da sociedade civil e intelectuais

uma importância decisiva.

tiveram

Considerando que entre os intelectuais o consenso so bre a questão da educação popular ainda não alcançou um n1

-ve1 desejável, decidimos explicitar, em seguida, as cone lu sões a qllC chegamos atravis de nossas rerlexões sobre es s a

quest ão, co mo ta mbém exp]icit~mo s o que a no ss a " consciênci:1 possív el " no s permi tiu apreender da cultura popul.:Jr e de como considerá-la como intelectual.

Na perspectiva de situar melhor o MEB em relação ao contexto em que Ae~envolveu suas atividades, identificamos alguns dos movimentos de educação popular que no mes mo perí2 do tamb il1l obtiveram expressividade. Por consegui nt e, retoma mos a qu e s tão da contribuição do intelectual na história da

libert ac~ 0 das camadas populare s .

(11)

Com uma vi s 50 do ~IEB obtid3 atrav~s do seu discurso sobre as questõe s [und,I!flC'lltu i s na s 4U:liS sc encontrava envol vido, passamos então à sua forma de atuação .

Como já afirmamos, a análise da prática do ~~B se restringirá

ã

sua atuação no Estado do Maranhão, o que nos fez sentir a nece ssidade de,antecipadamente,buscarmos subs] dias que possibiljte m uma visão geral de alguns aspectos con junturais da realid :lde maran ll cnse.

A prática do MEB no Mar an h50 nao pode, porem, ser to mada como forma de exprcssio da sua prática no Brasil, pois aliro da realidade maranhense apresentar características espe cíficas sob alguns aspectos, a sua atuação nesta realidade se deu t amb6 m de for ma excep c iunal, isto porque não utiliza-va as ('sco]as r;ld i )'';'I'C:1''

popula ções prete n d l (~~ , \

'11. 1 TI \.I·ln i' <.11 i1 - t inp, l I ;1:-, :U I ~~O Ht':t\~~ do con tato ,l i

reto com as comuni uadcs 1'UI:115, torn ou a C'.\pc riência do MEB/

Maranhão, expressiva pelo seu caráter de excepciona lidade c, sobretudo) pela sua criatividade, ou seja, pela forma como buscou alcançar 'os seus objetivos atrav6s do processo de"Ani maçao Popular", on de os trcinamentos qLle re a lizava consti tuiam a sua pe ça f unJam~Jlta l. direcion ~( 11 1,a1'a a mobilização dos c am pone sC's em fl 'I1(,".IO d.1 organ i zaç;io dC" :-: ind i c~ tos rurais. Este fato , ao il1\ 'ê~ \..' t{l - llJ, cau,~H!' J.tt.j .í zos .en1'iqueceu -lhe a experiincia, Dai porque, cX3tanlvnt~

r l

lo se u cariter de excepciOllali dade , 3 exrerj~ncia do ~lfR 110 Ma ranhão

torna-se indi spcllsivel pura 11 1':3 \ 'são cOlnp Jct a dls te ~ Iovimento.

Enfim. este t)'ab .. lho pretende se constituir em uma contribuição i comp l·tCn~HL d:1 hi s t5ria do ~~v imento de Educa çao de Base e qui ç5 parn o C"n tendimcnto da hist6ria da educa çao popular compro me Lida com a lib ertação das camadas popul~

(12)

PARTE I

(13)

A emcTgênci~ das camadas populares no Brasil, como todo fato s oc ial, ~ um fato hi s t6rico com todas as suas cone xões e contradições. Como p J-i nc ip ois fatores que contribui ram par a essa emerg('n (" l ~ l. \:" ":- .... nco ntr u r , C'nl r e o utros, a

crise de hegemonia das c}a5!"f f"ljtlll.Jntl , t c\ ~:-ii buc de

legitimaç~ o dos det entores do poder politj co, J5 pr6prias pressões populares e as contribuições da s o c iedade c ivil e dos intelectuai s pal~ a politizaçio das c llmad:ls pO)lulares . F! tores estes interr e]~cio n ados que, apcnus pa ra efei to de me IhoT compreensão. a nalis ar e mo s s C'p;lrad:lIl1 cnlc .

1.1. A C r :i~(' de Ik' gemonia das Clas s es .

.

n om i 11;, n 1 { :

Os aconteci mentos do i ní c io da década de ] 960 so p~

dem ser e ntendid os se in se rj dos num processo histórico que se inici a em temp os a nt e rioT c~ . Tom~ :ll"emos o ano de 1930 como marco para a noss~ . !I1~ ] i :·c. ;,pi:-; é él parti r dess e ano que

entra em colapso ~I !!(. ,

no Bra si l.

A cri se em r!l'~

trutura da socieda ,lL h! : I~j J(. ilil e m 1930, teln co mo

5

dominante

(14)

principais a crise econ ômic a de 1929, qu e l e vou

ã

decadência o capitalismo agririo voltad o p a ra a ex portaçio de produtos primários, base da economia bra s ileira, e o desenvolvimento do capitali s mo in ou$tr jal urb ano que já se iniciara. Nestas condições, os grupos oligárquicos perderam a primazia do p~

der político que até entio vinham mantend o com exclusividade, alijando da participação política todos os demais setores da sociedade brasileira.

Por outro lado, o incipiente setor industrial, com a sua burguesia ainda em formação, nao possuía condições sufi

,

cientes para assumir o poder. Na realldade, a classe econom! camente dominante n50 se encontrava em condições de continuar exercendo o poder he gemônico na sociedade brasileira. lni ciou-se, assim, um período de crise de hegemonia que eclodiu com a Revolução de 1930, quando, liderados por GetGllo V:lr gas, grupos em ~ tI <t J'·;sjoJ i a 01 illlJdos dos s(' t orc'~ J.ji:dios I,H ,'

nos s a soc i etlaJl', lL·a~'iI . ('

,

,

cos sem c xpres s i v i dadc no I.s t ~.H~O ~ nt (' I j(, r . <:l~s u Il IiJ am o pod e r.

Mas uma cri s e de hegemonia em uma sociedade não e

-superada apenas com a troca dos grupos ou classes no poder a nao ser que a .heg emonia tellha sido conquistada antes da conquista do poder 1

, o que não roi o cas o e nem poderia se-lo. Os grupos qu e 3~ce n deram a o pode r n ~o pe rt e n c iam a nenh~

ma das cla s ses fun ~-mpntJ i s cnrn~ t ('r i ~ ti cns da s sociedade s capjt ~ ]i s t 3s, e js" o.~ i 1'!J~~i' ilit:!\':l ,.!C' pu :::s u l rem ho ri zo!,!. tes próprios, em r . _<.10 tlc suas auhj. li .l d<.H.!C'S, C' de te r e m bases

próprias para s e l pci t imarcln no rod~ r po líti c o. A crise de hegemonia pl 0p ici a\':'l, rOr1"illlt o, c ~'lIq:illJc nt o , C' nt rc ou tr a s conseqüências , de i ns11rrcições cont l :1 o novo r eg i me ,

como a de 193 2 e a d. 19 35 .

tais

A inst ab il iuade em que sC' enColltr:IV3111 os de t e ntores do poder político, fez COOI q ue recor l ·e~~PI11. em 1937 .

a

ins tauração de um r eg,lrnc di t ato ri a l em ~ nh s t i tu i ç50 30 processo de "democrati z,3ção" qllc se t j nh:l inic j .lI.1 ú t"om ~ revolução de

(15)

A hist5ria do Brasil t em Je mo n s tl"aJo, nas filtimas d€ cadas que, quando h5 im p o s~ib il ida d e para o exercício do p~

der com um regime político de sup remacia da "di reção", que implica consenso, ou seja,colIs<.'nt imento espontâneo dos diri-gidos. os grupos dominantes deslocam essa supremacia para a dominação via um regime autoritârio~ o que ocorreu no perÍo-do de 1937 a 1945.

Exaurindo - se as condições para a manutenção da supr~ macia da dominação em relação ã direção, reiniciou-se o pr~

cesso de "redemocratizaçãol l

do país em 1945, com a queda do Estado Novo e a deposição de Getfilio Vargas.

O período de transição para o capitalismo urbano in dustrial, como período de transição. foi também um período em que a hegemonia dos grupos dominantes sobre a sociedade esteve permanentemente em crise. Repercutiam, na supere~

trutura política e ideológica, as crises da estrutura econô mica, e isso não impediu que o acentuado processo de indu s -trialização pelo qual vinha p ass 3nclo o pais, preparasse o c~

minho para a consolidação e expansio do capitalismo indus trial, ao mesmo tempo em quc co ndu zi u, em UI" processo lento, i desarticulaçãe do poder econômico e politico dos se tor es a grários.

Nestas circunstâncias, embora de forma indireta re pres c nt a dos no Estado, os grupos economicamente dominant es em asce ns30 pressionavam cada vez mais para que a atuação des se Estado fosse voltada para seus interesses. E na realidade era esse o tipo de atuação do Estado que permiti a o exercicio do poder politico por grupos nã o i media t ame nte vinculados ao p~

der econômico, através de um r azoáve: l e l e nc o de compromissos com a c las se economicame nte donlinante' .

(16)

de implantação de um modelo econômico autônomo e os tradicionais não se constituíram em entraves ã plena

8

grupos expa!!. são do capitalismo industrial monopolista. e até quando esse proce sso de "democrati:ação", mesmo em se tratando de uma de mocracia burguesa executada por uma política de classe média. não implicou ameaça à manutenção do modo de produção

capita-lista ' em vigência, com todas as suas dependências do capit~

lismo internacional.

Como promover a democracia e assegurar um poder poli tico que deva co rr esponder aos interesses do capitalismo im plantado no Brasil, são processos contraditórios pelo tipo

de capitalismo que aqui foi implantado; a democratização 50

avança até o limite onde os interesses desse capitalismo nao se encontrem ameaçados ou até onde essa ameaça não se

sente de modo concreto.

apr~

A história vem demonstrando ultimamente que exe rcer o poder político no Brasil indefinidamente através de um re gime que privilegie a dominação não é uma estratégia eficaz. Por essa razão, os condicionamentos históricos têm provocado a alternância do poder político ora dando ênfase a dominação, aTa dando ênfase a direção. Mas a direção de uma sociedade implica em consenso e a obtenção do consenso de toda a socie dade para o exercício de um poder político quase que exclusi vamente voltado para os interesses de um determinado grupo, especificamente para os donos dos meios de produção, tambêm não é possível, principalmente numa estrutura social onde se quer, por seu vasto exército industrial de reserva, existe preocupação com a reposição da força de trabalho consumida.

(17)

cerem o poder hegemônico sobre a sociedade como um todo. Daí

porque a instabilidade foi característica de todos os gOVC! nos de 1951 até 1964 . Da deposição e suicídio do Presidente Getúlio Vargas até a posse de João Goulart. os golpes de Ls tado estiveram sempre iminentes, terminando por ocorrer ain-da no manain-dato deste último, quando se tinham exaurido toda s as condições que tornaram possíveis a manutenção de relações de compromissos.

à medida que a expansão do capitalismo monopolist;:l vinha ocorrendo, as alianças entre os grupos não diretamente voltados e aqueles unicamente voltados para os seus interes-ses tornaram-se cada vez mais inviáveis,

fração da classe dominante in teressada no

inclusive com a desenvolvimento de um capitalismo autônomo, pois, dadas as condições internacio nalizantes do sistema capitalista, essa tend~ncia era inexc qüível.

Rompendo-se as a lianças, o grupo economicamente domi nante reconstrói o pode r em nome exclusivamente dos seus

teresses, ou seja, o de favorecer o livre curso do modelo conômico associado ao c3pital estl'angciro . Des sa forma. concessoes que &ti então vinh31~ sendo feitas em relaçio

1n

e as

-

a s·ociedade civil e as massa s populares, no que se refere a participação política, foram totalmente eliminadas. Ocorria que esta participação, dada a desarticulação da hegemonia da classe dominante c o ac€'lc1"<lllo processo inf] acionário do ini cio da d6cada de 1960, vinh a possibi litando a articulação de uma contra-hegemonia. Esta contra-hegemon ia, embora ainda iniciando o seu processo de difus~o, j5 se constituía em uma ameaça i manuten çã o da estrutura c]a~s i ss ista da sociedade brasileira e se nao detida em tempo, poderia se tornar lrre

versíve l.

Desmascara-se a pretensa soberania com que se apr~

senta o Estado na s sociedades capitalistas, que até nos p~

ríodos de crise de he gemonia da c l asse dominante demonstrou ,

(18)

10

em última instância, existir em nome dos interesses desta,em bora ela não estivesse , nes te Estado, diretamente represent!

da.

Em síntese , nao con se guida s v i a regim e "democrático:' condições hegemônicas para promoverem, sem conturbações, a expansão do sistema capitalista dependente; não sendo enfim conseguida a dire ç ão da sociedade, recorreu-se novamente à alternativa disponível: a dominação pela força. E esta domi-nação se manterá até quando estrategicamente outra

rearticu-lação lhe seja conveniente , ou então. até quando o permane~

te estado de crise de he ge monia da c lasse dominante seja ir reversivelmente superado por uma contra-hegemonia.

1.2. ~ Necessidade de Leg itimação do Poder Político

Os grupos que a sce nderam ao poder político do Brasil em 1930, embora tendo contribuído p ara a desarticulação do poder hegemônico das oligarquias agrárias, nao pos suíam ba -ses que os leg~tim assem no poder, pois. em sua maioria, eram oriundos das camadas médias da população, recém-surgidas com o desenvolvimento indus trial urbano e compost a s de militares, empregados em serviços e profissionais liberais.

(19)

vam os detentores do podC'r po ] ítico eram de forças que pudc ~ sem propor c ionar-lh e s 11m', I" <' l a tiva autonomia c apa z de imp e dir que o exercício cle ~s c pode r por el es, estivesse permane~

tement e ameaçado. Vcj;uuos L OJoIQ 11-anc i sco \\'c fr o rt esclarece a

questão:

OI • • • nenhum do s participantes do poder direta ou incliT c

tamente pode oferecer ba s es de l egi timidade ao Estad~

as c lasses m6dias porque 1150 po ssuem autonom ia fren

te aos int e re ss es tradicionais em gl"l" jl,os interesses cafeeiros porque [Ol' JJ JI deslocados do poder político sob o peso da c rise econômica, os se t ores menos vincu lados a e .xport oçã o porqu e não se encontravam vincula-=-dos aos centros básicos da economia.

Nestas condiç~cs aparece na hist6ria bra s ileira um novo personagem: as massas popula res urbanas. E a únl ca fonte de legiti midade possível 00 novo Estado brã sileiro" s .

A busca de ades50 das massas popul;lres ao projeto p~ litico co mo fonte d~ J egitil~jd:ldr" que r 'ni~ i J J p:trt ir de

1930. não se retr ai nem plantado o Estado Novo

no pel I ou() ditoto J" joJ em qu e [o i dc 19 37 .3 1945 , se ndo que esta

l i '

bus ca intensifica-se no período de "redemo cratização "pelo qunl passou o país de 1945 a 1964.

O model~ polítiCO dcmocritico qllC se ilnp lantou no

país ness e período , pretendia cnt5 0 I a r orrLc r a incorporaç ão das camadas populare s, condicionando-as aos interes ses do grupo dirigente, o que , em Glti ma i nst incia, co r resp on d i an~'

interesses dos gru pos economici,nlcnte dominantes, j ~ que, r'. bora não estando dir etame nt e repres enta dos no Est ad o , ~ qUE se sempre em nom e desses i nteresses qu e em Ulno socie dade C~

pitalista o Estad o atUJ "

(20)

1 2

ocuparem os escalões sociais ('c{Jn õ mi\':o ~ m:11S haixos", sendo incapazes de se organizar úl]l, J c se aUL o -rc pl'esentarem: inca pazes, portanto, de fazer valer seus interesses, enfim, nao possuindo consciência de classe .

Implanta-se. nessas condições , uma "democracia l i ba

seada na "política de massas" que, ainda assim,não gozou de boa receptividade por parte dos grupos dominantes como bloco.

A grande vantagem do Estado populista, para as alas mais esclarecidas, tanto do poder político como do poder eco nômico, era a condição que este possuía de apresentar - se a sociedade sob uma aparência soberana, soberania que na reali dade € inexeqüível em uma sociedade de classes. Mas,com esta aparência, o Estado apresenta-se i sociedade como defensor dos interesses de tttodo o povo", tentando assim evi tar que seja revelado o seu caráter de Es tado de c l asse .

Não é discutível, ent r eta nto, que realmente alguns dos problemas das mas sas popul ares tenham sido até certo po!!. to considerados, ou melhor, tenham tido ressonância junto a sociedade política ou Estado que vigorou no país a partir de 1930, principalmente no pe rí odo de "regime democrático" , com Getúlio Vargas, J ânio Qua dros e João Goulart. Ass im, va mos encontrar important es cvcn10~

Consolidação das Leis do Tr ab3 l l10 dor Rural.

como o Salirio Mínimo, a e o Estatuto do Trabalha

E preciso atentar, pOl"Cm, para o fato de que fazer determinadas concessõe s , estrategicamen te, significava con tribuir para qu e a legitimação do poder OTa instituído se consubstanciasse mais, condição da qual dependia o seu exer CICI 0, que, em última instin cja, perm itiri a o li vre curso da

exp~n são do capital i smo .

(21)

políti-ta não se limitou 5s z o n~I S urb~nas. Com a expansao do C~P!

talismo rurol, a "polÍt.i c a de- massas " <'1\"ançou também no L<1ffi

po. Como diz Oct5vio lanni:

" ... 3 política de mas s as elaborada nos ambientes urba no-industriai s difunde-se e ganha alento nos meios r~

rais . Fundaram-se o~ s i lldicatos, com o mesmo esprrit~

dos sindicatos opcr5rios industriais. Isto

é,

o cari ter assistencial c recreativo sobrepuja o car5tcr p~

lítico das organizações do proletariado agrícola"s.

-Como sabemos, a condição para a preservação do cap!. talismo é a expansão deste, e, como já nos referimos,era ne~

te sentido que todos os governos tinham sua política orient~

da . Era a tão importante "oruem " que em primeiro lu gar nece ~ sitava ser mantida, ou s(o j n, as relações sociais

tas .

capitali~

Pode - se fala l , entretanto, de divergência nestes g~

vernos sobre os modelo s econô mi cos mais convenientes, sem que~

tionamento, contudo, do sistema capitalis t a de produção como tal . GetGlio, Jinio e Ja ngo , por exemplo, eram tendentes a um modelo econômico ~ut o n orno , OlJ s eja, nacionalista, e, por isso mesmo, inconvenie n t ~ aos i n t el"OSSeS do capitalismo in ternacional. O Presid en t e J~n io era inclusive intransigente na defesa do empresariado n<l c ional, o que significava uma postura contrária i política econômica do Governo de Jusceli no Kubitschek vo lta do p aro a internacionalização da economia, onde o capita l estr ~ngciJ"~ '"' con~ id cra do como f und ame ntal para a promoção do C1C~CJ ~·J.0 (.l..o nômico.

(22)

I~

didos como possiveis desvios da ordem vi gen te. Era o"progrr ! so dentro da. ordem" que inter essa va.

Aceitar selfl qu cs t jolla r o modo dr prod llç5 0 capitalis ta vigente era poi s u m ~ d3S co nt!j çõc s i nlpos ta s

a

particip~

ção das camadas populares no jogo político, o que 50 se via

bilizaria, se nesta qualidade de massa, crâticos" houve uma

participação elas se manifestassem na tanto que em nenhum dos governos "demo real preocupação com o que se refere

-

a

"politização " das massas, ou seja, uma preocupação em consei. entizã-las de que faziam part e de uma força que poderia oh ter um poder hegemônico6

• '

Não era de uma at iv a e conscie nte partjcipação da s camadas populares na vida política do país que os detentores do poder necessi tav affi, poi s não es tava m s eguros de que, nes tas condições, oh t er i am a l t.:':i ti mid áde 11('cc!'s ária

à

s ua pe!. manência 11 0 pOdl.'l . Tanto qll' I') nlovlll1cnto ~indiC"<l J i:-- t 'l s e de

senvolveu sob a egjdc Jo Lst:.;do C! com t1111a prá ti ca voltada

para o lazer e o as s i s ten c ialismo, em vez de voltado para uma prática política. Até onde foi possível serviu mais como um mecanismo de controle dos tr abalhadores do que como um ins trumento de poli t izaçio.

Pal"a um Es t a do que i dc lltifi cil\'O a so cieda de como um todo harmônico, ni o pode ri a have r lu gaJ" para lut as por di s tinto s intere sses e o Governo de um Es t ~Hlo "~ o b eran o" nã o

119:

deria pe r mitir que detcrmina,los glupos fossem pl " j v i] eg i 3Jo~

em detrimento de toda a soci~dadc . N50 h ave ri a , portanto dentro des ta per spec t iva , Jlpcess i dade de a ut ê nti ca s organi z ~

ções de clas s es.

(23)

TentnV :I-SL c~itnr COln mAnir'll~ r6cs que as reivindi caçoes das c ::J matl :l s Ilf"Jlu lal"c s pu ses~~t.:1Il l ' l '(q ue a soberania do Estado e qucstj o n::J s~(" conseqüent e mellt e- . as hases sobre as

quais este Estado CS U,l \' í! a ssc nt :Hlo . JJ:l í po r que estas reivi,!!

dicações tiveram ressonância junto ao poder político e foram suportadas pelos grupos economicamente dominantes até quando perceberam que a condução do processo de desenvolvimento ec~

nômico capitalista, via regime político "democrático" ainda que burgu~s, começava a constituir-se em uma ameaça a este processo.

As pressoes pelas quais vinha passando d poder poli tico denunciavam que as condi ç ões para manipulações das mas sas populares estava m al ca nçnlldo se us limites e pondo em rlS co a manutenção da o rdem vi ge nte, contrariando . aSSIm, o p~

pel que foram chama dus a desempcl1har: o de legitimar o poder político, dando-lhe condição para, como representante Jo "povo", ser exercid o em f avo r dos grup os e c onomicame n te Jp"li nantes.

1.3. As Pres sões Populares

Condicionar <I effie r gê nci:1 da s mnssa 5 populares unlca mente a necessidad e de l eg it imaç ã o de um novo grupo que se instala no poder polí t ico em con scqu ênc i a da s crises de hege mania dos grupos economi C31ocnte Jomlnon t es no Bra s il, si gn! fica apreender a realid a de de forma un i lateral,significa urou visão parcial dess e fa to qu e, em última instância , ideologi camente favorec e r i a i classe domi nante.

Portanto , se a "pnlítica de JI!D.S5aS" op ort unjz.ou a emergência das camad;1~ popul I·Ç~. fO T 31:l tnm b~ m as pressoes

destas que fi z. er am surgi r :J flcccss j d<1clc da "pol:ítica de mas

sas" se estabel ecer como meeull i 51:\0 de manipula ç ão. Os condi

(24)

I "

Como a história de lInt'-l socied~dc Lapita lista naa ::.c faz sem contradiçÕl ~ S j medida que se prcp ,lr;Jvo o caminho

para a consolidação c C>"P:lll<:;[iO do carit ',J i 511 10 industrial do

Brasi) , rJS camndas IJOpl lJ.II L tamhém ;)\',]11\,,\. ,1111 O nlvel d e suas r eivindicaçõe s . Se as concessões feitas 55 camodas populare s pelos detentore s do poder fazialn parte de Ulna cstrat~gia 4UC foi eficaz para um dctcrmillado período, a hist6ria n50 COln provou que o seria indefjnidoJnente.

Manter uma estrutura social, na qual a grande maio ria do povo participe apenas com sua força de trabalho, naa participando do consumo dos bens produzidos e da gestão da

sociedade, a base da hegemonia, pode ser bem mais tranqUilo, mas seguramente muito menos fáci l de con seg uir.

Pretender promover a mobil iZH Çi10 da~ c.amndas po pu1::.

Tes, ou seja. JHO li".."cr \:m;1 r;jll,"çao dE' dis ponibilidade pUJ~1

a purtjcip'H: ?io p(,J

r ; . \ .

l ' 'i1to lHL'P'ndc' J q'IL' l<;l, participação s C" ~j( t ~ il Hh 1 Jll,d;lI"lnte so b co ntrole sao pr~

postas contraditóri:Js . Realmente significaria desconhecer que as lutas das camadas populares, apesar de descaracterizadas, são lutas de classe, e que estas, embora originadas e ineren tes ao sistema Capitalista de produção, não encontram nele a sua superaçao. O qu~ signiric~ que o lim j lc das

classes implica :1 in cxistêncja de classes, logo a

do próprio sistem~ (iJpit' 1 i:-v de: prodtll..<io .

lutas dC" supcrnç:\O

Constata - se que 3l~ 1930 as cal~ ~da s populares nao s e constituíam em forças capazes de exercer pressão sobre os 1'e gimes politicos vi gen te s, o que possibilitou a estes mante rem - nas quase que 1 0 10J lnC 11\ 0 ~nl·~i n a ]iz : l da s no que se refere

ã participação pa I íl i l " . \í~· ~ 110 ,lcL'lc rndo processo de de

senvo] virncnto i ndtl~ t 1 j 1 -I , pa~sou o p~llS

-

de 1930 a 1945, as ma~S:I~ 10; d. rcs COIiIC~ .. t:'lil a adquirjr O p~

(25)

Por outro lado. como analisamos no item anterior, da da a instabilidade em que se encontravam os detentores do p~ der político. em decorrência da crise interna dos grupos eC2 nomicamente dominantes. a pre sc nt 3ram-sc as massas populares em ascensão, como forças que vinham se con s tituindo como a única fonte disponível para a l e gitimação de que necessitava o poder político instituído.

Sendo as massas populares forças capazes de pressi~

na r e legitimar um poder político, necessário tornou-se mon tar uma estratégia de manipulação das mesmas. Por ou t ro lad~

considerando-se as pressões que cada vez mais se vinham pr2 duzindo, o interesse de legitima ção torn o u necessário aos de tent a res do poder efetuarem concessões, sem as quais ser13 inviável a obtenção da legitimidade de que necessitavam . Isso veio contribuir para o alcance de a lgumas vitórias das mas sas populares no que se refere às s uas r eiv indicações , princi palmente as rela c ion adas com a le gis l ação trabalhista,como o Salário Mínimo em 1940 e a Consolidação das Leis do Trabalho em 1943. O fato de ser a le g isl ação trabalhista um mecanismo regulador das r e la ç6es e n tre c l asses', Il io lh e retira o cará ter de vit6ria qll C sua conq ui stn signiricou. e ai nda não p~

demos deixar de atentar para o fa to de que a orientação pr~

dominante em todos os setores da sociedade brasileira era re formista .

E principalmente a p arti r de 19 45 que as camadas p~ pulares passaram a ter ulna par ticipa ção política mais efeti-va, tanto em decorr~ncia da queda do regime ditatorial do

(26)

conseqliên c ia a expul são (In hOJu"m do ,'· 11 ')11 . :-'; :io podemos Ul' I

xar de considerar quc :J tot~l l lh ,' ~~ I ~ i' t . Il e i .. ao homem do Cill1l

po por parte dos sCr\' j cos púhlicq~ t c nh] tido também sua r~l!

cela de influência no t: r .:lld~ :ltIl"( nt o dt '~S:l~ 1,l jgracõcs.Rc ~~ 11 te-se ainda que, se por UIIl lado as migrações possibiliUl vam

quantit ativamente maior capocjdadc de pressão dos massa s p~ pulares urbanas, por aumentar a suo concentração, qualitatj-vamente as migrações oportunizavam uma maior margem para :1 manipul ação das mesmas. Os contingentes migrat6rios trazi:I !~

consigo, no que se refere

a

formação cultural, todas as COII

dições favoráveis ao desenvolvimento da prática da "poIÍti e,", de massas", A visão de mundo do meio rural lhes induzia o uma postura de submissão c

para a

jl rr pot~ncj:l frtntc i realidade major heterogeneidade no que se contribuía, também,

refere

ã

composição das massas populares urbanas, Dificulta-vam, assim, o processo de tomada de consci~ncia dos interes-ses que lhes eram comuns, e por cons eeuinte, a for mação dr uma consci~ncia de classe.

Fundamentalmente, foram a aus~ ncja de consci~ncia de seus interesses comuns c a ifl c:1p:'rid:1d<.', IJ:L c!llCle período,das camadas popular.es í:lul o- rcpr {·s(' !l i·'ll'n-~(. quc' possibilitaram a manipulação de suas press0cs ~ l nte J"l '~5 {' ~ por pilrte dos g~

vernos populistas ,no sentido de cClIduzj I e~t nS c:lID:.Idas a aI

mejarem uma participação na vida política do país sem que~

tionar a sua estrulur il socia l. Na realidade, Ilio poderia ser diferente, já que a fOH !<.I' '1(, po lítica das camadas populares

nunca [oi a preocupa ç:iio dos Jctcntorcs do poder, e até mes mo os esforços disp ~ ns Hdo~ ~ sua organizaçãn s empre [oram realizados no sentido de possi bilitar um m ~ i~ efetivo contro le das mesmas, O sindicalismo no Br3sjl 6 :1,.1 dos casos que teve a sua organização e a t u3cio scmpl'0 contlol;,das at~ onde os limites se impu seram. Por OUll'O l ado ê O P ,Il t uno r essaltar

(27)

Mas, se nao houve int e n ç~o dc lihcrada por parte da sociedade política em politi zar a~ In;ISS3S populares, as lu tas por estas conduz.idas, com as co nquistas alcançadas e bar reiras encontradas, e a contribuição de intelectuais encarre garam-se de fazê - lo o máximo possível. Emergia assim o que há de mais válido no sistema capitalista do Brasil: o germe de sua contradição .

O n í yel crescente das reivindicações das camadas populares e a impossibilidade de os detentores do poder aten derem-nas, começavam a demonstrar às referidas camadas que o atendimento de suas exigencias tinha, na estrutura social brasileira, limites bem aqu~m de suas necessidades, tanto no que diz respeito ao poder de consumo, quanto no que se

re às suas aspirações de participação na vida política país.

refe do

Ocorre que a partir do momento em que a capacidade de manipulação das massas popularcs atingia seus limites e os entraves impunham-se quase que de forma clara a sua part! cipação em quase todos os setores da sociedade, as pressoes populares que at~ cntio tendialll a engajar-se no processo re formista em andamento começam a orient ar- se no sentido do questionamento da pr5pria estrutura da soc iedade e do real papel do Estado. Este vinha conseguindo colocar-se fora de questionamento pela aparência de neutralidade com que se a pl"CSentou sob re todo o conjunto da sociedade "democrática " brasilcira. Enfim , era a democracia burguesa sendo tragada pelas contradições do modo de produção de subsistência da 50

ciedade que o gerou.

Se atê aproximadamente o final dos anos SO foi poss!

.

-vel manter o controle das massas popu lares, a partir do 1n1

C10 dos anos 60 isso j5 não se verif icou de forma tio

passi-va. As camadas popularcs deix:l\illn Jc agir espontaneamente,c~

(28)

sair das maos da burguesia c a prática do peleguismo, tão Ll

ract cr í st ica no s sindicato~ começava a enf r enta r barreiras .

Com a exp an são J o c:'p i t:l li sJno 110 campo, avançou lum

bém no meio rurul :l "po l l ti l.: <J de lIIa $sa~ " e, com idên ti ca s j I nalid ades de controle e manipulação. in i c iou-se o proce sso de organização sindicnl do s trabal ll adores rurais . Mas a exemplo do que ocorria com os lrabalhadorcs das zonas urbanas, no meio rural o controle e a manip ul ação também encontram se U'; limites. As tensões sociais intensiIicavamse, principalmen -te no Nordes-te, onde pro li feravam as or gan iz ações dos traba-lhadores e també m o s g rup o ~ de esquerda . Podem ser dest aca das como as reivin d i c:lçõ t: s I,. lis a tIlJ 'l c i osi'ls do meio rural a li berdade de organi zação s i nJi cal e a Re f orma Agriria8

As pressõe s pop ul a re s entio ji não se deti nh am nas

zo nas urban as e os temo r es da burgue s ia industrial urbana eram agora compartilh a dos c , de f orma ma i s intensa, pela burgu! sia ag r iria . A so l ução cn con tr:l da p e lo s grupos economicamen -te dominan-tes par a o pr ob l em a . nã o f o l outro senão a mudança do r egime políti c o vj ::c ntc ntl r ,t i s l rn 1964 .

1.4. As Cout r i bujçôes tin So cie dad e Ci vil e ci os Intel ec t uais

Obvi alne n te se a~ cnllt ~ das POpll1'I rp s c onseg uiram mobi liz ar - s e e o r g3n i z a r- ~e n30 fu i ~ p pnas por s ua s iniciativas .

V~rjos fatore s con tr ibui rilm par o t a n to, i nclu s ive, o pr5prio . grupo politi camentf' dOI,j ; :," '. '111 C n ccc s~i t;, l.v a de ssa mobi l iz~

çao . A questão es tá em qu e , se , em últ ima instância. o que este grupo visav a e ram condições qu e lh e pe rmitissem perman~

cer no poder e. c o n seq U e nt ~m~ nt e . gar antiss e a ma nu t enção do modo de produç ão c a pi u lli sta. s e ja nnciona li s ta aLi dependen t e -associado, o ru mo par o o qu ~ l a s pr essões popu l ares estavam

(29)

o aperfeiçoamento, era a finica pr e tensão da sociedade polí-tica não está seguro ter sido <,st;! t~mbém a pretensão de toda a " sociedade civil"!! e mesmo de grande parte de inteles. tuai s diretamente ligado s aos apsr'clhos hegem&nicos do Esta

do.

o

que estamos querendo dizer

é

que o fato de nao ter havido, por parte do Estado, uma real preocupação com a for maçao política das massas populares, não deve levar-nos a in ,

ferir que, por parte das instituições da sociedade civil esta preocupa ção não se tenh a verifi cado .

Evidentemente , era a própria prática de lutas que run damentalmentc vinha oportunizando o desenvoJvimento do p r ~

cesso de politização, pelo qual as massas popuJares Vll1hi lm passando; "ninguim tem dGvida de que a força desse proc esso esteja no despertar das massas" , contudo não pode deixar de ser considerada a efetiva contribuição que muitos intelec-tuais, embora em alguns casos engajados no projeto político reformista do populismo, dernm

a

e fetivação desse processo .

Como saEemos, a tomada de consciincia de sua sit ua çao e de sua missão pe l as canladas populares n50 e mana natu ralmente da ltlta de classes; por si próprias,estas conseguem alcançar apenhs a convi cç ão de que

6

preciso unirem-se, org! ni zaTem -se, conduz irem suas lutas, fazerem exig~ncias ao go verno no que se refere aos salirios,~s leis, etc., medidas que, na realidade, n ão conseguem nada mais alêm do que ate nuar os antagonismos sociais, pois a consciência necessiria para o encaminhamento de soluções reais p<Jril o::. seus probl~

(30)

ciência da solução do s prohlcm:l s das Cdl' I I.,~ populares 11:10

surge espontaneamente.

As conlribuiç õc~ de \ ntonio r;r;lIil"' l"j 10 p:1 ra o entcn

dimento do papel J os jl,t ~ l t~tua i s LOI ll!n ~o(ie ddde capita]j~

ta. deixam claro qu e o ~ int e lectuais tanto podem desempenllar sua função no sentido tk <.I}h": lIa 5 reproduzir e reforçar 0$ va

lares morais c intelc c t u~is que favorecem 3 manutenção de ele

terminada estrutura social, como também podem estabelecer 1I111 vinculo com as camadas populares e contribuir para a efetiva

ção de uma reforma moral e intelectual que leve i

desarticu-,

lação da ideologia 11 domj nante,

ã

medida que se expande um n9. vo poder hegem5nico. O que pode se r negad o é a autonomia dos intelectuais frente às jdeo l og ias . A própria neutralidad e com que muitas veze s o i nt e l e ctual tenta apresentar-se, nada mais i do que o refl exo de uma ideolo gia subjacente , no caso a dominante, e muita s vezes dess e fato ele não tem consciên -cia pela própria nat \I}·C2a da idco lo g ia que o envo lveu ·efici-entemente, não lhe permiti llcln I"om ~ssa i dro l ogi a romper.

InIcIO

da década de 1960, .) q. ,'(. \(;r1 fiL,ll l ~ q'l 05 intelec

tuais orginicos . da s cl~s sc~ JUtll i l l a l l t ~s rrj~ll]a~ o rcs de sua ideologia ou como os intitula Gramsc i, seus comi s sirios1 2

já não }X>ssuiam um r eino tão abso luto, uma contr a -ideologiadi.

fundia-se, os intelectuais v i ncu l a dos às causas po pulares já disputavam esp aço~. t.tJ 1 ) 11(\ ci<ladc ("orno no camJ'o . Uma con tra-ideologi a aTt ict;];:t\.l-~( ,iU1I10 o se u processo de difusão, neutrali za ndo a i deolo gia J('lo1Íl :1n t o e avançando cada vez mais,

contribuindo assim pC.ra q ' l ::'l ll d c ia ss e o pro cess o da toma

da de "direção" de nossa soclc,Jnde por parte dns forças pop~

lares, o que poder ia i mpliL.::tT um.:! po s tcrjor cO ll !' trução de um novo bloco histór ico.

Para qu e as c<::!: ·,da!' popul ares tcnh;J!;! :'l "di reção" de

uma sociedade, sab emos qllC a condjçio il ldi~p~ns~vc l e funda

(31)

proce sso de lutas que clas desenvolviam pelos seus intere s ses e com u colaboração daquele s que em nossa sociedade de sempcnhaln a função de intelcctunis e sio adeptos das causas populares. Portanto, os intelectu~is comprometidos não pode In assumir uma postura determini st a e colocar - se na posição co moda de nao se engajar no processo de politização das cama das populares, deixando os seus espaços totalmente vagos para a açao dos intelectuais orgânicos das classes dominantes . Pr e tender que espontaneamente as camadas populares co nduzam o seu processo de po l itização corresponde exatamente aos inte resses da burguesia. Os intel ec tuais têm um papel a desemp~

nhar e podem constituir-se em uma força capaz de contribuir de forma eficaz se , conjuntamente com as camadas populares, se di s pu se r a contribuir para a efetivação da reforma mora l e intelectual, a que já

dessas camadas. Reforma

nos referimos anteriOrmeJlte, no seio esta que substitua as co ncC'pçoE'S a-históricas de sociedade e os valores que lhes indu zem <1

uma postura acritica, passiv~ ou de impotência diante da r ea l idade por uma concepção histórica c que ao mesmo tempo po~

s ibilite uma maio r h om0gcnejzn~~o da c ultur a pop ular.

Com estas perspe ct i vas, muitos daqueles que em nossa sociedade, principalmente no início dos anos de 1960 , de sem -penhavam a função de i ntelectuais, es tab e l eceram vínculos com as camadas po pul ares .

Entre as al tl?rJlatj \':I~ que se 3pre scn taram a estes in tclcctuai s, mui tos opt araln )i clo Lngajame nto em experi~ncias

(32)

24

NOTAS

1. MACCIOCCHI, Maria Antonieta. A favop de Gpamsci. Rio de Jan e iro, Paz e Terra, 1977. p . 17.

2. ed.

2. WEFFORT, Francisco. O populismo na politica brasileira.

Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978. p.Sl.

3. Id. ibid'J p.SO.

4. Id. ibid., p.72.

5. IANNI, Octávio. O colapso do populismo no Brasil. 4. ed.

Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978.

p.sa.

6. "A consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica (isto ê, a consciência política)

e. a

primei ra fase de uma ulterior e progressiva auto-consciência ~ na qual teoria e prática finalmente se unificam", GRAMS CI, Antonio. Conaepção dialétiea da história . 3. ed. Rio

de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. p.21.

7. CARDOSO, Miriam Limoeiro. Ideologia do desenvolvimento

no Brasil; JK-JQ. Rio de Janeiro, Paz e Terra,1977. p.

72-74.

8. IANNI, Octávio. Op. cit., p . 88.

9. "Segundo Gramsci podemos "distinguir dois grandes 'ni

10.

veis' na superestrutura, o que pode ser designado como 'sociedade civil', isto é, o conjunto de organismos,habi tualmente chamados 'int ernos e privados', e o da 'socie~

dade politica ou Estado'. correspondendo respectivamente à função de 'hegemonia' que o grupo dirigente exerce so bre o conju~to do campo social e a da 'dominação diretaT ou comando, que se expressa através do Estado e do poder

'juri: dico'. "MACCIOCCHI, Maria Antonieta. Op. cit., p.

151.

Para uma apreensão da função do int elec tual veja as tribuições de Antonio Gramsci em Concepção dialética história e Os intelectuais e a organ i zação da cultura Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1978.

con

11. Ideologia: " significado mais alto de uma c oncepção do mundo. que se manifesta implicitamente na arte. no direi to, na atividade econômica, em todas as manifestações de vida individuais e coletivas" GRAMSCI. Antonio.ConceE

ção dialética da históri'a. Op. ci t . , p.66.

12. GRAMSCI. Antonio. Os int ele ctuais e a organi zação da cul

(33)

Tendo o presente trabalho como objetivo a análise de uma experiência de educação popular, torna-se conveniente.e~

plicar de antemão, quais as concepçoes de educação e cultura popular que orientarão esta ~1]1 5] isc .

2 .1. l:du cação Pup ul ar

Considerando a educação de um modo geral,como um pr~ cesso convencionalmente denominado de socialização e entendi da como a adapt~çio do homem i sociedade na qual ele esti inserido, não podemos admitir o pressupo sto de camadas pop~ lare s não educadas, a não seT quando o processo de reprodução da cultura conveniente a determinada sociedade não se esteja efetivando , isto &, le gitimando a Dl"dem soeja l vigente .

Mas, admitir a educação apenas COIUO reprodutora ~ co

locar-se djante de um pr oblema sem soluçiio para as camadas populares e olvidar-se de qll ~ a relação entre a estrutura e a s uper estrut ura de uma sociedade não ~ mecânica ou determi nista e, principalmente, de que "adquirimos a consciência dos conflitos inerente s ao nosso modo de produção no terreno' das ideologias"'.

funde e

(34)

e a função da cduc açi'io 3pC'n, , ~ ('(no f,:,prodl!to T.1,vcjamos, mois especificamente, ;1 que Cnl(IIJ • . lPlo J(. i..lhlCaç~o popular as

nossa s reflex5cs sobre e Ja 110~ ~ ond u z jr ;lrn:

- educaçio popular

6

to do e qualquer processo educa cional efetivado pelas camadas populares;

- a educação popular em 5C U processo tanto pode so frer influ~n cja dn id eo logia dominante como de uma contra-ideol ogi :l. O que nio ~ viivel ~

ver - se a margem das ide ologias;

desenvol

- o fato de ser a educação popular ~ermeada por ide~

logias, não lhe retira o cariter de popular, desde que o seu proces so seja efetivado pelas

camadas popularcs.

próprias

Agora, admitir quc t odo flTo c esso educacional desen volvido pelas camadé'lS popll l :1r('~' ~t.iél educ a çã o popular, nao significa a dmitir que 'll •. ]~ L • I l ._c logia veiculada por ela

conduza deliberadamcnt (· c::.tas ~al!la das a liberarem- se da con diçio de exploradas e dominadas . Es ta aqui ~ uma outra que! tão, e a nossa opçao e por um pro c esso educacional que veicu le uma verdade !evolu c ionéir io qu e <;e ja aprc·endida através de uma consciência critica da r ca l iJn de. tendo como objetivo mo bili zar e organi za r as call1 ,J ll; is f' oj, ular es , em fun ç ão dos seus

problemas imediatos e concretos , o que significa um primeiro p as50 par:~ as l u t a.s qu e C O IH.l u- j r.. 110 sent ido de mtldanças es

truturais , das qu ais elas dCVCI~0 se r os pl"6prios ag e ntes e, assim sendo, tamb~ m seria os 3,ent~s de uma nova ordem soei aI a ser construfd a, ou se ja. ~r Inl novo bloco hi s t5rico.

E as camadas populares? I:s tariam instrume ntalizadas o suficie nte para espol lt an earncn t e ~es envolveren l um processo educ aciona l r€'voluci oniirj o'? 01"a. o cu lto

õ

espontaneidade nao

~ nad a mais qu e um reflexo da ideo lo gia b urguesa . A contribui. ção dos intelectuai s vinculados is C3usa~ dessas camadas ll~ s

(35)

res lhes podem dar.

A necessidade da contribuição do agente externo, no caso, justifica-se pelas lilnitações da cultura popular em forneLcr os subs ídio s n CI.:c: ss ;Í(j o s a uma npr cl.: n ~ ilo crítica da realidade que vã além do"sen s o COlIllU,,2 . A necessidade da con tribuiçio das camadas populares para os intelectuais adv6m das limita ções destes pal'a ~preendercnl Uln3 cultura que c es tranha i sua pritica de vida e junto i qual t~m uma funç50 ~

desempenhar .

Percebe - se então que a questão da educação popul~.r

nao pode ser considerada desvinculada da questão da cultura popular.

2.2 . Cultura Popular

Considerada então a importância de reflexões sobre .J cultura popular para os intelectuais vinculados

pulares, vejamos sobre quais pressupostos c~tão as no ssas reflexões sobre a c ultura popul a r .

às causas P2. orientadas

- considera-se cultura o "conjunto Je modos de ser viver . pensar e falar de uma dada forma ç ão social"3;

- considera-se a distinção de culturas cm uma meSfl13 sociedade c on sp qfi ~ n c iu de uma or ga ni z a ç~ o social constituíd a J c C l :1550S d i s til l t;l S Il O q uc se refcre

i particip ação na es trutura c superestrutura dessa sociedad e, on de uma c la ss e 5 dominante e a outra i

dominada;

- considera- s e cultura popular a cultura elaborada pelas ca ma das popul a rcs em s ua p l'5 tic a de vida;

- considera - se o cultu r a como hj~t5Ti c3 , logo a cul tura popular c omo a h is tório da s camadas populares .

(36)

28

tornam-se necessários mais alguns esclarecimentos: quando consideramos a cultura popular como um saber elaborado na prática de vida das camadas populares, através do senso co mum • onde predomina o produto imediato da sensação~do qual o bom senso

é

o seu núcleo sadio, portanto merecendo ser tra balhado no sentido de tornar-se unitário e coerenteS,não dei xamos de admitir que existem outros elementos constitutivos da cultura popular advindos de influências sofridas de ou tros grupos sociais, com os quais as camadas populares se Te lacionam direta ou indiretamente. Atente-se. porém. para o fato de que as influências exercidas por outros grupos soei ais sobre as camadas populares são sempre assimiladas ao

mxID

destas.

Ocorre comumente que as influências sofridas pela cultura popular lhes possibilitam apenas rearticulações no sentido de permanecerem sempre como cultura dominada, o que provavelmente ocorrera até que no seio desta haja a articul! ção de uma nova cultura que se difunda e proporcione a conso lidação de uma nova hegemonia.

Percebe-se então que não podemos pensar na cultura popular, com seus valores e suas crenças, enfim com sua vi são de mundo,como cultura marginalizada no sentido de desvi~

culada dos interesses das classes dominantes ,pois, se nos seus discursos, estas consideram a cultura popular como

da e desvalorizada. na pratica, em a l guns aspectos um grande valor para a manutenção da ordem social Daí porque deve haver bastante cuidado com a tão

empobreci ela tem vigente . propalada "não violentação" da cultura popular. O fato de ser popular não a impede de encontrar-se em um permanente processo de ma nipula ções interessado em utili za-la favoravelmente na ma nutenção das relações sociais vigentes e, oportunamente. le~ , bremos que os elementos principais do senso com um são forne cidos pelas religiões6

(37)

manipulações quando percebe que transformações na cultura p~

pular estão se processando através de novas formas de educa ção popular antagônicas aos seus interesses, muito pelo con trário, quando isto ocorre, através de seus intelectuais ar gânicos reforçam as suas formas de manipulação, seja através de técnicas. seja através de conteúdos, no sentido de di fi cultar a penetração de Qutras formas de conhecimento da rea lidade. embora não o conseguindo eficazmente, dado o profun-do inconformismo das camadas populares que muitas vezes

é

1m perceptível.

A cultura popular, a nosso ver, deve ser portanto ponto de partida para a s uperação do senso comum que lhe

o

-e inerente e aqui deve ser considerado um ponto de

tégico para no seu seio articular e veicular uma

apoio estr~

ideologia historicamente necessária que, como afirma Gramsci,"organiza as massas humanas, forma o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição,lutam etc"7.

A pretensão de querer desenvolver programas de educ~

ção popular e concomitantemente querer manter intocável a cultura popular em sua totalidade é colocar-se diante de pr~

cessos contraditórios, pois ela está basicamente sedimentada num conhecimento a nível do senso comum tradicional.

o

intelectual comprometido com as causas das camadas populares necessita desvencilhar-se da crença de que o r e s peito ã cultura popular está intrinsecamente relacionado com a sua postura neutra que implica, de forma passiva, aguardar que espontaneamente uma nova cultura popular seja gerada no seio das camadas populares e que sua contribuição se dá no sentido de assessorá-las. g necessário desvencilhar-se da ideologia burguesa que tão sutilmente muitas vezes pretende envolvê-los . A pretensa neutralidade do intelectual

é

inexe qüível. Não existe "instrumentalização " sem conteúdo,

sem ideologia.

(38)

30

E ainda e necessário considerar que embora pr.etende!!. do veicular uma verdade revolucionária, única fonte da vitó Tia final, os intelectuais não podem subestimar a ideologia burguesa que tem meios de difusão infinitamente maiores. Por isso mesmo torna-se fundamental serem mais incisivos, o que não implica pretender que as camadas populares de forma meca nicista radiquem na sua consciência uma nova cultura popular, mas sim que a elaboração dessa nova cultura seja efetivada através de um processo educacional que. como já afirma mos, se realiza através de uma apreensão crítica da realida de .

NOTAS

1. GRAMSCI, Antonio. MaquiaveZ; a politica e o Estado moder

no . 3. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980. p.34.

-2. GRAMSCI, Antoni o . Concepção dialética da história. op.

cit., p.143.

3. BOSI, Alfredo. Cultura brasileira. In: MENDES, Dumerval

Trigueiro, coord. Filosofia da educação brasileira. Rio

de Janeiro, IESAE, 1979. capo 3. p.127.

4. GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história . Op .

cit., p.144 . .

6. Id. ibid., p . 144 .

(39)

Explicitada a nossa concepção de educação popular, tentaremos agora identificar onde foram originadas as prát~

cas de educação popular desenvolvidas no início dos anos de 1960; e também tentaremos fazer algumas reflexões sobre os rumos aos quais estas estavam se dirigindo.

3.1. Origens

o

fato

ae

as camadas populares se expressarem como massas, o que implicava uma fácil manipulação das mesmas.fez surgir a necessidade do desenvolvimento de programas educ~

cionais que visassem a contribuir para a formação política dessas massas, o que não implica desconsideração ao processo de mobilização espontâneo pela qual vinham passando em suas práticas de lutas que se sabe serem fundamentais, mas têm suas limitações.

Nos anos da década de 1960,podemos identificar, qua~

to as origens , três frentes voltadas para a prática da educ~

çao popular, especificamente no que se refere aos adultos, com projetos educacionais fundamentalmente distintos dos que tradicionalmente vinham sendo desenvolvidos.

(40)

32

Com suas origens ligadas prioritariamente a institu~

çoes da sociedade civil, vamos encontrar as experiências dos Centros Populares de Cultura, CPCs, da União Nacional dos Es tudantes; com suas origens na sociedade política, vamos en contra r as experiências do Movimento de Cultura Popular,MCP, em Pernambuco, a "Campanha de pé no Chão também se aprende a ler" no Rio Grande do Norte e o Plano Nacional de Alfabetiza ção do Ministério de Educação e Cultura que surgiu em 1963 com a participação do Professor Paulo Freire1.Originados da conjugação de esforços de instituições da sociedade civil com instituições da sociedade política, encontramos a Camp~

nha de Educação Popular, CEPLAR na Paraíba e o Movimento de Educação de Base, MEB, que teve uma atuação a nível nacional.

Ressalte-se que estamos fazendo referências a apenas algumas das experiências mais expressivas de educação pop~

lar, pois nada menos de setenta e sete movimentos se fizeram presentes no I Encontro Nacional de Alfabetização e Cultura Popular, realizado em Recife, em 19632•

3.2. Rumos

Preferencialmente as experiências em educação pOP!!. lar estavam, em princípio, voltadas para a alfabetização de adultos, elaboração de manifestações artísticas e, em alguns casos, para a pesquisa. Todas el a s inevitavelmente

as frentes mencionadas anteriormente.

ligadas

Com a distinção feita quanto às instituições de ori gem dos movimentos de educação popular, surge uma questão haveria realmente, já que as origens sao distintas, um con senso de todas essas experiências no que tange aos objetivos a serem alcançados? Mais concretamente: visariam todas elas à elaboração e difusão de uma contra-ideologia que implica~

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çao de um novo bloco hi~tórico e ainda, que nesses processos, as camadas populares tivessem 3 liderança?

Uma das grandes limitaçõe s encontradas para a anili se desta questão está no fato de terem sido quase todas as experiências de educação popular, surgidas no final da déca da de 1950 e inicio dos anos de 1960, interrompidas ab r upta e premat uramente. Entretanto, parece claro que em nenh um ~o

elas visaram simplesmente a reproduzir valores que per m iti~

sem a manu t en ção dos nossos problemas sociais tais como esta vamo Apresentavam-se duas alternativas: uma que visava condu

ZiT as camadas populares a exigências apenas de reformas 50

ciais, O que fazia parte do projeto populista desenvolvimen -tista e outra que visava contribuir para que estas camadas tomassem consciência de que a solução de seus problemas esta va na dependência da efetivação de mudanças estruturais radi cais.

Pelas condições conjunturais da mir que. mais cedo ou mais tarde, toclas

-epoca, pode - se presu as experiências ten deriam para a última alternativa, com o apoio ou à reve l ia dos interesses que originalmente as fizeram surgir, pois in dependentemente·da ideologia pop ulista dcsenvolvimentista e de seus intelectuais, as lutos populares deixavam de ter mar cadamente como característica a espontaneidade e as camadas populares começavam a exigir conscientemente a sua efetiva participação sem limit es na vida social e política do pais. O que significava para os grupos dominantes que o processo de politização das ma ssas estava ultrapassando os marcos to leráveis. E

é

exatamente essa constatação a causa do inicio da interrupção, em 1964, de todo esse processo.

As experiência s de educação popular que, na sua idea

li~ação, estavam comprometidas com o projeto politico pop~ '

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