NITERÓI PODER
a cidade como centro político
MAR1BTA DE .MORAES FERREIRA'
o retorno mais uma vez da discussão sobre a fusão do Rio de Janeiro, realizada em 1975, expressa os problemas que envolvem a identidade do estado do Rio e recoloca em paua o destino e o estatuto da velha capital luminense: Niterói. J
A aprovação do projeto do deputado federal do PSB, Alexandre Cardoso, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, propondo a realização de um plebiscito para consultar os cariocas e fluminenses acerca da separação/união dos dois antigos estados e a suposição de que os resultados da consulta darão vitó ria à tese da desfusão abre novas opções para rearranjos geopolíticos. É recolocada na ordem do dia a recriação da Guanabara, subdividida em cerca de dez municípios e do estado do Rio, tendo sua capital em Petrópolis. Tem sido também veiculado o retono da capital para Niterói.
Essas propostas ainda estão muito longe de tor narem-se realidade. O projeto do deputado Alexandre Cardoso não foi aprovado no plenário da Câmara e tal vez nunca o seja, mas a si1ples discussão desses temas são elementos importantes para nos permitir desvendar
. Coordenadora do Setor de HIstória Oral do CPDOC!FCV. Professora Doutora do Departamento de História da URJ.
I [ornaI do, Brasl, 4 de setembro de 1995, p. 2.
Marieta de Moraes Fereira
mitos políticos, representações a respeito de nossas ci dades e do nosso estado.
E aí cabe a pergunta: Qual a trajetória e o estatu to de Niterói, cidade que abrigou a capital da província e depois do estado do Rio, de 1835 até 1975, com uma interrupção de 1894 a 1903, na memória política luminense?
A proposta deste artigo é apresentar algumas re flexões acerca das visões e representações existentes sobre a cidade de Niterói, enfatizando especialmente o período da Primeira República (1889-1930), bem como contribuir para um melhor entendimento das relações entre o estado e a cidade do Rio de Janeiro.
A chamada "região do Rio de Janeiro", na defini ção da geógrafa Lísia Benardes, envolve a
idéia de uma cidade-porto, a qual, comandando o escoa mento da produção regional, que exporta para mercados remotos, serve como intermediário único e direto entre sua hinterlândia e o mundo exterior. 2
Mas não foi apenas na drenagem e na exporta ção da produção que se apoiou a inluência da cidade do Rio de Janeiro sobre o espaço regional mais próxi mo (baixada da Guanabara, baixada Campista e ex tensa faixa da encosta do planalto). A cidade coman dou diretamente a ocupação inicial da maior parte do que então era a província do Rio de Janeiro. Foi tam bém o centro que apoiou todas as atividades, posteri ores à ocupação, de construção do espaço regional, constituindo-se num grande mercado consumidor para
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o binterland. As funções que cada área exerceu mar caram de forma definitiva as relações entre a cidade e o estado do Rio de Janeiro.
Ao lado dessas considerações de ordem econô mica, devem ser pensadas igualmente as relações polí tico-admnistrativas que marcaram a evolução da "re gião do Rio de Janeiro". Durante grande parte do Perí odo Colonial, o território do atual estado do Rio correspondeu à capitania do Rio de Janeiro. Seu princi pal centro urbano era a cidade do Rio de Janeiro, que a partir de 1763 passou a sediar a administração portu guesa no Brasil. Com a promulgação do ato adicional em 1834, a cidade do Rio de Janeiro passou a constituir o Município Neutro da Corte, desvinculando-se da pro víncia do Rio de Janeiro. Se, por um lado, a provincia deixava de abrigar a maior cidade, o principal porto e o centro político do Império, por outro lado conquistava sua autonomia política e administrativa, e em breve ga nharia uma nova capital a Vila Real da Praia Grande situada do outro lado da baía de Guanabara e que em
1835 receberia o nome de Niterói.
José Antõnio Soares de Souza3 descreve minucio samente em seu livro as primeiras décadas de Niterói e as transformações que tiveram lugar na cidade, de ma neira a transformá-Ia em efetiva sede do goveno de província do Rio de Janeiro. O acompanhamento desse processo nos permite perceber um crescimento demográfico, econômico e urbano paa Niterói. Mas am bém, mostra as dificuldades para a sua afirmação en quanto cidade capital, decorrentes de características
1 José Antônio Soares de Souza, Da Vla Real da Praia Grande à Imperial Cidade de Niteói.
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específicas, resultantes de sua localização, e também fruto da situação da própria província onde estava ínserida.
A verdade é que a autonomia concedida à pro víncia luminense mostrava-se extremamente limitada e não foi suficiente para libertá-Ia do peso da cidade do Rio de Janeiro na sua vida política e econômica. A cen tralização monárquica acentuava a relação de depen dência da província para com a capital do país, o que resultava no carreamento para a Corte de vultosos re cursos econômicos e tributários, além de permitir cons tante interferência da Corte nos negócios fluminenses.'
Referindo-se ao passado monárquico, Miguel de Carvalho assim retratava a situação fluminense:
A grande máquina administrativa movia-se pesadamente, nem sempre impulsionada por fluminenses, como fora de desejar, com a capital Niterói a meia hora de viagem da Corte, a província sofria dessa proximidade em vez de auferir vantagens, mais imediatamente centralizada sua direção por esse fato que a de qualquer outra, torna vam-se seus presidentes os mais dependentes do governo central e assim atrofiavam-se seus meios de desenvolvi mento. Não lhe restavam nem aparências de autonomia. Enteada, e não filha, sem nunca ter gozado os delicados extremos dispensados pelos pais carinhosos, nem mesmo se aproveitado dos mais vulgares deveres destes para com a prole, temia a possibilidade de filína trazida pela desor ganização do trabalho agrícola, pelo definhamento do co mércio e de suas nascentes indústrias.
A situação econômica tinha feição igual à política, estavam todos fatigados de haver tanto tempo percorrido incessante e infrutiferamente o mesmo caminho áspero, tortuoso e interminável.
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Moral e materialmente sentia-se o desfalecimento e a agonia, o cambaleio e uma natureza forte debatendo se em meio asfxiante.
Eis o que era, a traços largos, o Rio de Janeiro em
15 de novembro de 1889.'
E continua Miguel de Carvalho, agora referindo se aos novos problemas trazidos pela República:
[ ... ] continuou o Rio a ser tratado pelo governo central da mesma forma ou pior que a antiga província, e assim anun ciava o presente que no futuro se burlaria uma das mais ardentes aspirações fluminenses, aliãs da essência do re gime republicano federativo, a de livremente governarem a si mesmos, de acordo com os próprios interesses e ne cessidades.6
Este discurso de Miguel de Carvalho, proferido em 1894, mostra com clareza não só o ressentimento dos conservadores luminenses diante da política dos últimos tempos da monarquia, certamente provocada pela questão da mão-de-obra, mas principalmente a rede complexa de relações que envolviam a cidade e a pro víncia. Na visão do político fluminense, a província do Rio de Janeiro, mesmo durante seus momentos de apo geu econômico e político, viveu uma situação particu lar de maior controle por parte do poder central que as demais, o que lhe trazia inúmeros problemas. No en tanto, seu potencial econômico e político contrabalan çava essas limitações. Mas com a crise da escravidão e da cafeicultura essa situação se agravou na medida em que as políticas implementadas pelo poder central
cho-5 Ibidem. , Ibidem.
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cavam-se com as demandas dos conservadores fluminenses. Restavam então apenas as desvantagens do intervencionismo centralizador. Com a República, o novo estado do Rio de Janeiro, enfraquecido política e economicamente, continuou a ser objeto de interven ções da política nacional, sem condições de exercer a autonomia que o novo regime preconizava.
De fato a implantação da República Federati va, ao promover a descentralização político-adminis trativa do país, gerou expectativas de uma efetiva au tonomia no agora estado do Rio de Janeiro, mas, por si só, não foi capaz de assegurá-Ia. O governo fede ral, sediado na cidade do Rio de Janeiro, intervinha constantemente nos negócios internos fluminenses. A cidade, como centro de convergência das princi
pais questões do país, atuava como um pólo de atra ção sobre o estado e sua capital. Essa dupla inluên cia fez com que os políticos luminenses fossem em boa parte absorvidos pela política nacional e pela vida na capital federal. Por esse motivo as lideranças regio nais tiveram dificuldades de se reunir em torno de projetos comuns que faclitassem a construção de um acordo interno e beneficiassem o estado do ponto de vista econômico.
É partindo desse quadro que pretendemos ana lisar as relações entre o estado e a cidade do Rio de Janeiro tendo como eixo central o papel desempe nhado por Niterói. Melhor dizendo, como nestas cir cunstâncias Niterói poderia constituir sua identidade como capital da provincia e depois do estado do Rio de Janeiro?
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Uma cidade capital é o loeus privilegiado de cons trução da identidade de uma nação, de um estado, de uma região e tem como função socializar as elites esta duais e ou municipais de modo a produzir um padrão de comportamento que deverá ser imitado.' Como os fluminenses no começo da República construíam as re presentações sobre sua identidade política e da sua ca pital - Niterói - e também como eram vistos pelos seus vizinhos, os cariocas?
Se é mais fácil detectar e captar as formas de in tervenção do governo federal nos negócios internos fluminenses, há um outro tipo de inluência, fruto da proximidade da capital e do fascinio que a metrópole exercia sobre a provincia, que, por ser informal e fora dos limites da ação do poder público, é mais problemá tico e difícil de ser apreendido.
Alain Corbin, em seu artigo "Paris-province ",' oferece indicações interessantes para pensar esta ques tão. Para este autor, a noção de província se funda na percepção de uma carência, de um distanciamento, de uma privação, de uma exclusão, é o lugar do exí lio interior, do esquecimento, da zombaria dos ele mentos da capital. A província se identifica com a letargia, a hibernação longe da sociedade, do lugar real, dos salões, do mundo da academia. Ela se cons titui, enfim, num espaço depreciado que se caracte riza pelo ridículo. O provinciano que se instala na metrópole deve se dessolidarizar do meio de onde vem. Depreciar a província constitui uma obrigação para aquele que quer obter a adesão da cidade. Esta
, Giulio Carlo Argan, História da arte como história da cidade. 8 Alain Corbin, Paris-province, pp. 777-779.
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relação sócio-cultural forte e complexa descrita por Corbin enquadra-se perfeitamente nas representações produzidas por cariocas e fluminenses acerca dos la ços que envolvem o Distrito Federal, Niterói e o esta do do Rio de Janeiro.
À visão depreciativa dos cariocas sobre os fluminenses somava-se, a visão dos fluminenses sobre si mesmos, especialmente os de Niterói, marcada por um enorme complexo de inferioridade frente ao gran de centro cultural, político e econômico que era o Rio de Janeiro. O deputado Maurício Medeiros captou, com precisão, a complexidade dessa relação:
Por maior que seja, pois, o espaço fluminense, o estado do Rio é sempre aquele estado que se acha fronteiro à grande metrópole r..,] O mineiro pode ter seus hábitos e o carioca os respeita, assim como os outros estados. Mas o flumnense não pode ter. Se é certo que ele não evolui com a precipitação do carioca, porque não será submetido às mesmas influências, a verdade é que a proximidade da capital sempre exerce sobre o estado essa influência demolidora, que não lhe permite criar uma personalidade própria, um caráter étnico, moral ou social que o tipifique. O carioca toma-o então a sua conta e tudo quanto se refere ao estado do Rio, ao vizi nho estado, é envolto nesta gaze de ironia que não per mite apreciação verdadeira9
A elite fluminense partilhava dessa avaliação ne gativa e estava longe de querer fazer política em Niterói, uma cidade vista como sem atrativos e provinciana. Ao contrário, a cidade do Rio de Janeiro encanava o ideal de modernidade e progresso, especialmente após a re forma urbana de 1905, quando tudo foi feito para
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gar sua face de cidade colonial e transformá-Ia no Sm
bolo da nação modena. 10
Com a Primeira Repúblca, o desino nacional do Rio se conolidou, tonando-se a capil fedeal a cidade
mdelo, pelo poder de suas idéias renovadoras. No dizer da épca, o Rio, "na constelação dos estados era a cidade sol."" Com esses atbutos a cidade o Rio de ]aneiiu fun cionava como um ã que atraa toda a elite luminense nos mais diferentes aspectos, político, econômico, cultural, sugando sua energia vial que, ao invés de ser canalizada para o interior, deslocava-se para o plano nacional.
Pode-se argumentar que, por sua condição de capital e centro político, econômico e cultural, o Rio exercia um papel especial em relação a todos os esta dos. No entanto, no caso específico do estado do Rio, essa relação se manifestava de forma muito mais inten sa e profunda, atingindo todos os setores da vida dos luminenses, desde a vida privada das pessoas até ques tões maiores que envolviam decisões políticas. Assim, um grande número de deputados estaduais fluminenses e funcionários da administração estadual residiam e exerciam suas profissões liberais no Distrito Federal."
O resultado político desse tipo de relacionamento é facilmente verificável quando se examina a própria du são das idéias republicanas na antiga provÚlcia do Rio de Janeiro. A despeito de ter produzido as as epressivas lideranças republicanas no plano nacional, como Silva]ar dim, Quintino Bocaiúva, Lopes Tovão, Alberto Tores e
10
Nicolau Sveceko, Literatura como missão.
11
Macly Motta, A nação faz cem anos, p. 40.
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Nilo Peçanha, os luinenses só conseguiam articular um partido republicano às vésperas da poclamação. Ainda que outras variáveis importantes possam ser computadas para explicar tal situação, como a identicação da elite luminense com o Partido Conservador e a monarquia, sem dúvida a militãncia políica dos jovens republicanos fora das fronteias da província e de a capital é um
dado relevante para explicar o fraco enraiamento das idéi as republicanas no território fluinense.
o Rio era inevitavelmente o centro da vida da pro víncia e o que acontecia na cidade tinha repercussões ime diatas ali. Às vezes, as atividades na capital tornavam des necessrias ou desencorajavam atividades similares na pro víncia. Por exemplo, a fundação do Clube Republicano, em 1870, atraiu alguns provincianos e por volta de 1871, a maioria dos membros que não residiam no Rio era da pro víncia, o que veio a impedir também a formação de um verdadeiro movimento provinciano.13
Vivenciando essa relação conlituosa de amor e ódio com a cidade do Rio, como a elite política fluminense encarava a questão e pensava solucioná-Ia? Os problemas colocados pelas interferências do goveno federal e pela inluência da cidade do Rio de Janeiro sobre a vida política fluminense e naturalmente sobre a cidade de Niterói foram objeto de preocupação e discussão das elites luminenses, especialmente na pri meira década republicana.
A implantação do federalismo trazido pela Repú blica colocou a necessidade de se construir novos pa drões de relacionamento entre poder central e
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nos estaduais. É neste contexto que se dá a emergência da discussão sobre transferência da capital do estado de Niterói para o interior, sob o argumento de que era fundamental afastar a política luminense das más influ ências da capital do país.
Dos argumentos apresentados até aqui ficava evi denciada que a constante interferência do goveno fedeal e da cidade do Rio de Janeiro nos negócios luminenses em geral, e em Niterói em particular, eram motivos para questi onar o estatuto da capital fluminense. Além desse argumen to levanava-se ainda razões específicas que desqicavam Niterói como potadora de condições paa forjar a identida de luminense e articular seus interesses regionais dentro do jogo fedealisa implanado com a República.
À semelhança de um discurso construído para desqualificar a cidade do Rio de Janeiro como capital do país na primeira década republicana, Niterói tam bém seria alvo de avaliações desabonadoras.
O Rio de Janeiro, em virtude da agitação de suas massas urbanas e da instabilidade que esses fatos trazi am para a consolidação do novo regime, não reunia as condições para ser sede de nacionalidade. Daí a necessi dade da interiorização da capital introduzida na Consti tuição de 1891 que dava ao Distrito Federal um estatuto povisório e com sua autonomia totalmente cerceada. 14
As elites fluminenses transportavam este tipo de raciocínio para a realidade de Niterói. A capital fluminense era um foco de agitação e deveria ser neu tralizada. A altenativa era promover a interiorização da capital.
14 a Marta Bastos, O Conselho de Intendência Municipal: autonomia e Instabilidade (1889-1892).
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o início desta discussão, que teve continuidade ao longo das duas primeiras décadas republicanas, pode ser localizado logo após a proclamação da República, quando o município de Campos passou a reivindicar abrigar a sede do governo estadual. Sem ter tido maio res desdobramentos, a questão permaneceu em aberto até agosto de 1890, quando o governador Francisco Portela também adotou a bandeira da transferência de capital, mas agora para Teresópolis15 A escolha deste município, que na época estava longe de reunir condi ções mínimas para abrigar a capital, refletia as inten ções do governador de livrar -se não só das pressões e influências da política do Distrito Federal, mas também de grupos regionais fluminenses localizados em Niterói que o hostilizavam. O governador fluminense acabou sendo deposto sem que nada de concreto ocorresse neste sentido, permanecendo em aberto os debates acerca do destino da capital fluminense.
Sob novo governo, Niterói continuou sendo foco de preocupações. Nas eleições municipais de 8 de junho de 1892, na qual foram eleitos vereadores e juízes de paz, o Partido Republicano Fluminense ePRF)
obteve vitória tranqüila em todo o estado, com a sig nificativa exceção de três municípios, Niterói, Cam pos e Resende. Na capital do estado, a eleição provo cou a cisão do diretório local do PRF, constituído na época pelo ex-conservador Carlos Castrioto, o ex-li berai Luís Carlos Fróes da Cruz e o republicano histó rico Alberto Torres. Valendo-se da antiga influência liberal em Niterói, Fróes da Cruz, que também não
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rompera totalmente com o ex-governador PorteI a, apresentou chapa independente e venceu. Este fato, ao confirmar a força remanescente do portelismo em Niterói, veio indicar as dificuldades que o novo situacion ismo encontraria para se firmar na capital.
Outro indício grave dessas dificuldades se apre sentou na manhã de 14 de dezembro de 1892, quando o regimento policial do esado, sediado em Niterói, re belou-se em virtude dos castigos sofridos por praças desligados. Os revoltosos chegaram a tomar de assalto o palácio do goveno e a anunciar a volta de Portela, mas Porciúncula recebeu pronta ajuda militar de Floriano. Após terível tiroteio, restabeleceu-se a ordem, mas evidenciou-se o isolamento do presidente do esta do em Niterói.
Esses acontecimentos sem dúvida influíram para que, em janeiro de 1893, se reiniciasse a discussão sobre a transferência da capital. Imediatamente, após a revolta do regimento policial, a imprensa campista, em face dos rumores que davam como decidida a mudança da capital para Nova Friburgo, iniciou uma campanha pela escolha de Campos para suceder a Niterói. A Associação Comercial e os principais jor
nais do município - Monitor Campista, A República e Gazeta do Povo - enviaram representação à Alerj, e a campanha ganhou as ruas, sob a liderança do barão de Miracema. Este, secundado por Nilo Peçanha, estabeleceu contatos com os grupos situacionistas de São João da Barra, Macaé, São Fidélis e Haperuna, fazendo da bandeira campista o embrião de um mo vimento regional.
Em meio aos protestos da imprensa niteroiense, entre 13 e 26 de janeiro de 1893, a Alerj reuniu-se em sessão extraordinária, com fm exclusivo de debater a
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questão. A comissão formada para dar parecer sobre o assunto, incluindo representantes de Niterói e Campos, acabou por opinar favoravelmente - embora não por unanimidade - à transferência para Teresópolis, já indicada no governo Portela, e agora justificada por "sua posição central, por seu clima, pela abundância d'água para abastecê-Ia e pela facUidade da sua ligação com a rede de viação férrea."
As discussões que se seguiram dividiram a re presentação niteroiense na Alerj. Enquanto o deputa do Belisário Augusto tomou a defesa de Niterói, em bora reconhecendo a força da oposição na cidade. Alberto Torres, na condição de líder do governo na Assembléia, defendeu o parecer da comissão. Para Belisário Augusto, o resultado da mudança para Teresópolis seria
atrairmos contra nós esta honrada e laboriosa cidade de Niterói, seria atraírmos contra nós Campos, núcleo comer cial do estado, seria atrairmos contra nós Vassouras.
Para Alberto Torres, três poderosas razões indica vam a necessidade da mudança: o alheamento da hetero gênea população de Niterói, "de pronunciada tendência industial", em relação aos interesse do esado, sua sub missão aos interesses da vizinha capital federal e a ameaça a sua autonomia que essa proximidade representava. Era razoável, portanto, que o PF projetasse transferir o cento político-adminisrativo do estado para uma localidade onde pudesse exercer a plenitude de sua hegemonia política.
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pista tornou-se, além de regional, autonomista. O Monitor Campsta chegou a veicular proposta no senti do da formação de um "estado campista", incluindo os municípios vizinhos, sob a presidência do barão de Miracema. Ainda que tal proposta não passasse de uma forma suplementar de pressão sobre o PRF e o governo do estado, sem dúvida revelava um foco de tensão im portante. Também em Vassouras, embora com expres são mais reduzida, delineou-se um movimento pelo di reito de sediar a capital.
A Alerj não recuou de sua decisão, mas a trans ferência da capital para Teresópolis não chegou a se realizar. De um lado, eram trabalhosas as providên cias de ordem material e administrativa necessárias, e, de outro, certamente o conflito de interesses em jogo retardou-a. No entanto, a eclosão da Revolta da Armada em 6 de setembro de 1893 precipitou os acon tecimentos. Niterói foi palco de violentos combates e o que é mais importante, a maioria da população lo caI, assim como a Câmara Municipal presidida por Luís José de Meneses Fróes, apoiou os rebeldes lide
rados pelo almirante Custódio de Melo. Diante disso, e da ameaça de bombardeio à cidade, a Alerj decidiu transferir provisoriamente a capital não mais para Teresópolis, mas para Petrópolis, base política - é bom lembrar - do presidente do estado, Porciúncula. A mudança seria consumada em fevereiro de 1894 e a volta da capital para Niterói só se efetuaria anos depois.
Toda essa discussão que moblizou diferentes li deranças regionais fluminenses, visando não ó fortale cer a posição de seus municípios, mas também promo ver uma interioização da política, terinou por não ter nenhuma eficácia. Mesmo durante a permanência da
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pital em Petrópolis as relações entre a cidade e o estado do Rio não mudaam de forma substantiva, mas sem dú vida avançou-se no controle das oposições.
Retirar a capital de Niterói no final do século re presentou efetivamente, um passo importante no pro cesso de neutralização de focos oposicionistas e da con solidação da tão almejada conciliação política preconi zada pela elite do estado do Rio. Mas essa situação não seria duradoura, e novamente a localização da capital voltaria a constituir-se instrumento de disputa para afir mação de outros grupos políticos.
Nilo Peçanha iria provocar uma reviravolta nesta situação. Interessado em esvaziar o poder político do chamado grupo de Petrópolis, liderado por Hermogêneo Silva, o político campista ra jogar todos os seus trun fos para trazer a capital de volta para Niterói. 16
O tema da transferência da capital fora colocado em discussão na Alerj pela última vez em novembro de 1899, quando o oposicionista Félix Moreira apresentou o projeto 1.017, que declarava Niterói capital do estado do Rio. Em virtude da resistência dos situacionistas, o projeto não foi votado naquela ocasião e tampouco foi examinado na sessão legislativa de 1900, só voltando a ser discutido em 1901, por iniciativa do deputado Laurindo Pitta. Entre seus defensores, além dos já cita dos colaboradores de Nilo Peçanha, incluíram-se Geral do Martins, Baltasar Benardno, Oliveira Belo, Oliveira Botelho e Bulhões Carvalho.
Controlando os postos-chaves da mesa da Assem bléia, o grupo de Petrópolis conseguiu impedir que o projeto 1.017 fosse posto em votação. Além disso,
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joritários na Comissão da Guarda da Constituição, das Leis e Poderes, os antimudancistas emitiram um parecer declarando o projeto inconstitucional. O parecer desta cava as deficiências sanitárias de Niterói e a perda de autonomia que o estado sofreria caso a capital voltasse à vizinhança do Distrito Federal, já que "Niterói é um . prolongamento da rua do Ouvidor". Petrópolis, ao con
trário, não apenas se localizava a maior distância do Distrito Federal, o que a deixava "menos exposta a [ . .. ] seus abalos e vicissitudes", como também contava com uma infra-estrutura urbana satisfatória e era menos atin gida pelas epidemias.
Embora a sessão legislativa de 1901 tenha chega do ao fim sem que o projeto 1.017 tivesse sido posto em votação, nesse momento a Alerj já estava dividida em dois grupos equivalentes de deputados pró e contra a mudança. No primeiro semestre de 1902, com a As sembléia em recesso, mudancistas e antimudancistas procuraram fortalecer suas posições. Os primeiros, be neficiados pela participação decisiva de Nilo peçanha, levaram a melhor, garantindo o apoio de 35 das 48 municipalidades e obtendo a convocação de uma ses são extraordinária, em julho, para discutir a questão. Seu fortalecmento ficou patente desde o início dos tra balhos: contando com a maioria dos deputados, ganha ram o controle da mesa, que passou a ser presidida por Geraldo Martins. Na mesma ocasião, Henrique Borges tornou-se líder do governo, substituindo o antimudancista Sá Earp.
Em sua mensagem à Assembléia, lida na abertura da sessão extraordinária, o próprio Quintino Bocaiúva declarou-se favorável à mudança. Aprovado em primei ra e segunda discussões, o projeto foi objeto, durante a terceira discussão, de emendas apresentadas por
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antimudancistas visando dificultar na prática a transfe rência. Tais emendas foram rejeitadas, e finalmente, nos últimos dias de julho, o líder Henrique Borges apresen tou um substitutivo ao projeto. Segundo a nova versão, Niterói seria declarada capital do estado e o presidente transferiria as repartições na medida em que julgasse conveniente. O substitutivo foi aprovado por 33 votos contra 14, com a ausência de 13 deputados, dentre os quais Hermogêneo Silva.
Novamente sede do governo estadual, Niterói durante o governo Nilo peçanha 0903-1906) seria objeto de atenção. Visando acompanhar os ventos que sopravam na capital da República, Nilo Peçanha reali zou uma reforma urbana na capital luminense nos moldes da obra de Pereira Passos, no Distrito Federal. Ao lado do alargamento e calçamento de ruas foi reconstruída a Câmara Municipal, a organização do Horto Municipal, a instalação da sede do goveno no Palácio do Ingá, inauguração do teatro João Caetano, a criação do centro de serviços municipais, substitui ção do sistema de gás pelo de luz elétrica e estimulou uma reformulação dos serviços da Cantareira da Via ção Fluminense, inaugurou novas linhas de bondes elétricos modernizando as comunicações marítimas com a capital. 17
Ao lado dessas iniciativas modenizadoras, Nilo Peçanha, de maneira semelhante ao prefeito do Distrito Federal, Pereira Passos, exercia sua ação no sentido de neutralizar a vida política de Niterói. Implementando seu projeto de centralização política no conjunto do estado, Nilo através da Reforma Constitucional de 1903
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poderia intervir na administração municipal nomeando prefeitos naqueles municípios em que o estado arcasse com os serviços de infra-estrutura. Niterói enquadrava se nesse caso e a nomeação do prefeito pelo Executivo estadual era uma forma de controlar o maior núcleo urbano do estado e onde as forças oposicionistas ainda possuíam um peso expressivo. I'
Niterói, seguia de perto os passos de sua irmã mais velha a capital da República. Contaminada pela agitação política das massas urbanas cariocas, que se rebelavam fazendo eclodir a Revolta da Vacina, a terra de Araribóia também deveria ser alvo de uma política de controle estrito, tanto no sentido de neutralizar even tuais revoltas populares, mas também domesticar as dis sidências da elite política que ousassem questionar a hegemonia do grupo nilista.
A refOrma constitucional de 1920 viria recolocar em pauta novamente a questão da autonomia munici pal. Mais uma vez as forças políticas de Niterói, princi pal núcleo de oposição ao nilismo, levantaria a bandei ra contra a intervenção do Executivo estadual na vida política da capital.
Novamente tal demanda seria derrotada. As pa lavras do deputado Maurício Medeiros expressavam o espírito da situação: Niterói possuía "um eleitorado constituído sem uma segura eficiência da disciplina par tidária I .. . 1 e onde as correntes de opinião predomina vam", o que significava dizer que a capital fluminense sede de um eleitorado urbano menos sujeito às pres sões dos caciques políticos poderia eleger um prefeito de oposição.
" Idem, p. 134.
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Essa era a estratégia de Nilo Peçanha para neu tralizar politicamente Niterói e domesticar suas oposi çôes.19 Mas a sucessão presidencial de 1922 opondo a chapa da Reação Republicana liderada por Nilo Peçanha, a candidatura de Arthur Bernardes, apoiada por Minas, São Paulo e pequenos estados traria uma reviravolta para a política luminense. A derrota de Nilo Peçanha à
presidência da República, provocaria a derrocada de seu grupo político no controle do estado do Rio, abin do espaço para emergência de novas lideranças políti cas cujas principais bases situavam-se em Niterói.
A inauguração do goveno de Feliciano Sodré em 1924, à frente do Executivo estadual luminense, inau gurava uma nova fase para Niterói. Interessado em fir mar suas bases na capital luminense, Sodré, antigo pre feito da cidade, elegeu como focos centrais de sua ação a construção do porto de Niterói e a implantação do plano de urbanização para a área portuária contígua. 20
A questão central para o goveno de Feliciano Sodré não estava diretamente ligada à defesa da interiorização da política fluminense, mas à necessida de de neutralizar os malefícios trazidos pela preponde rância econômica da cidade do Rio de Janeiro sobre o estado. Sua estratégia para enfrentar tal problema era a construção do porto de Niterói e a instalação de uma alfândega na cidade. A base principal de seu argumen to era que como o esado do Rio não possuía nenhuma instância fiscal, toda a arrecadação das taxas cobradas sobre os produtos importados que ingressavam no
ter-9 Mariea de Moraes Ferreira, Conflito regional e crise olítica: a reação
rulicana, p. 24.
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ritório luminense era feita pela coletoria e pela recebedoria do Distrito Federal. A construção de um porto estava assim ligada não só à entrada e saída de produtos no estado do Rio sem a intermediação do porto do Distrito Federal, mas também à criação de uma nova fonte de recursos fiscais. Tudo isso visava naturalmente maior autonomia estadual. 21
Embora tenham sido extremamente limitados, uma vez que o porto de Niterói não chegou a entrar em funcionamento efetivo na Primeira República, os resul tados dessa proposta abriram espaço para a execução de um amplo programa de reformas urbanas, que in cluía a desapropriação de vastas áreas, a abertura de ruas e avenidas, a construção de novos prédios e de áreas destinadas a uma ocupação popular .
Com essas iniciativas Sodré contava obter maior enraizamento e ampliar suas bases políticas em Niterói, o que efetivamente ocorreu. É importante esclarecer que o estatuto político de Niterói não foi alterado, perma necendo os limites a qualquer tentativa de ampliação de sua autonomia política. Nos anos seguintes, Sodré garantiu sua hegemonia política no estado conseguin do fazer seu sucessor e até cooptar setores da antiga oposição nilista. Este quadro foi interrompido pela eclosão da Revolução de 1930 que desalojou as oligar quias dominantes do poder, promovendo um revezamento de grupos no controle do estado.
Após 1930 não houve modificações substanciais para a situação política de Niterói. É verdade que desa pareceram os argumentos que desqualificavam sua
po-21 Mary Cristina Pessanha,
O porto de Niterói, uma promessa de autonomia.
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slçao como capital, mas permaneciam as afirmações sobre os malefícios trazidos pela proximidade do Dis trito Federal. Especialmente a sucessão estadual de 1935, traria de volta um clima de grave instabilidade. A dispu ta acirrada pelo controle do Executivo estadual, agrava da pela interferência de forças políticas oriundas de outros estados da Federação, que jogavam no sentido de controlar politicamente o estado do Rio, com vistas a fortalecer suas pretensões na política nacional para a sucessão presidencial de 1938, demonstrava a vulnerabilidade de Niterói. 22
Esse quadro foi alterado com a decretação do Estado Novo e a consolidação da interventoria Amaral Peixoto, que, com a conseqüente neutralização dos conlitos políticos intenos, abriram finalmente a pos sibilidade de Niterói consolidar seu papel de centro político do estado. É bem verdade que, na primeira fase do goveno Amaral Peixoto, o norte fluminense - e, em especial, o município de Campos - desem penhou funções importantes como eixo político do estado. No final do Estado Novo, especialmente na fase de organização partidária, o norte luminense ocu
pava posição privilegiada no jogo político estadual, constituindo-se os políticos campistas a base de apoio principal do Partido Social Democrático (PSD), agremiação desenvolvida pelo interventor, o que cria va limites para a afirmação de Niterói e acirrava a com petição intra-regional.
Isso pode ser percebido claramente, por ocasião da constituinte estadual de 1946 quando foi relançado o
22 Protõgenes Guimarães, Verbete, em FGV, Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro, 1930·1983, voi. 2.
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debate acerca da necessidade de interiorização da capi l fluminense.'3 A velha tese da contaminação política de Niteói pelos conlitos permanentes existentes na ci dade do Rio de Janeiro, bem como a influência da políti ca federal nos negócios fluminenses, ruto da proximida de das duas capitais, foi mais uma vez retirada dos anais da 1erj, para justiicar a transferência da capital para Campos. Como era de se esperar Petrópolis também candidatou-se à sede do goveno do estado, engrossan do o coro daqueles que desqualificavam Niterói como local apropriado para abrigar o do poder público.
A aprovação da constituição estadual de 1947 garantiu, no entanto, o estatuto da velha capital fluminense. A plena consolidação de Niterói como cen tro político luminense só se concretizou nos anos 50, a partir do segundo goveno Amaral Peixoto. As transfor mações demográficas e econômicas em curso no esta do levaram a um deslocamento populacional do norte para a região da Baixada Fluminense, transformando as áreas contíguas a Niterói em pólos de crescimento e expansão que exigiam, cada vez mais, a atenção do goveno do estado.
al Peixoto, logo após sua posse, defmiu sua linha de goveno volada para a modenização de Niterói e São Gonçalo. As principais iniciativas estavam direcionadas paa a criação de indústias e reformas urba nas. Na esfera política, o líder fluminense tratou de centra lizar a política em Niterói, fazendo com que esta cidade exercesse de fato o papel de cenro político do estado.24
l3 Silvia Pantoja, Amaralísmo e pessedismo lumlnense:o PSD de Amaral
Peioto.
I Amaral Peixoto Verbete, em FGV, Dicionário Histórico Biográfico
Brasileiro, yol. 3, p. 2.655.
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Amaral inaugurou o serviço de trolybus, con cluiu a construção do ginásio esportivo Caio Martins, dos prédios das secretarias de estado, da Imprensa Oi
cial; promoveu obras de saneamento em diversos mu nicípios e instalou a adutora Niterói-São Gonçalo. No setor educacional, criou a Escola de Engenharia e ofici alizou a Escola de Veterinária, ambas da Universidade Federal Fluminense.
O processo de transferência da capital para Braslia, desencadeado no final dos anos 50, abriu o debate da fusão como uma alternativa para equacionar o futuro da cidade do Rio de Janeiro. Patrocinada por políticos da UD" carioca, a proposta da fusão en tre o Distrito Federal e o estado do Rio retiraria de Niterói a sede do novo estado. A resposta a essa iniciativa por parte de ampla parcela dos políticos fluminenses foi negativa. A união entre as duas unidades da federação acarretaria na visão das principais entidades de classes e políticos de então, um esvaziamento para o estado do Rio."
A efetivação da transferência da capital para Braslia, a criação do estado da Guanabara em 1960 e a ascensão do B no estado do Rio com a eleição de Roberto Silveira para o governo do estado em 1958, que detinha suas bases políticas em Niterói e na Baixa da Fluminense, pareciam garantir, de forma duradoura, o estatuto de Niterói como centro político do estado.
Depois de muitas décadas, a tera de Araribóia parecia aproxmar-se do conjunto de quesitos deinidores
5 Marieta de Moraes Ferr eira e Mário Grynspan, O retorno do lho pródigo ao lar paterno? A usão do estado do Rio de Janeiro, Revista
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do modelo de capital proposto por Argan. Se continua va difícil funcionar como m modelo, um exemplo a ser seguido pelo interior luminense, ou mesmo repre sentar um locs de construção de identidade regional, Niterói, nos anos 60, consolidava seu papel de centro político e demonstrava melhores condições para servir de socializadora das elites municipais em tono de pro jetos estaduais mais abrangentes.
A partir de 1974 esse processo foi atropelado. A proposta de fusão retonaria à cena sob o patrocínio dos governos militares e apoiada por expressivos seto res do empresariado e políticos da arena carioca. Os luminenses em geral e Niterói em particular, não viam com bons olhos a nova iniciativa. Amaral Peixoto, prin cipal liderança política do estado do Rio, percebia que a fusão traria uma subordinação das forças fluminenses aos interesses cariocas, como efetivamente aconteceu com o controle político do novo DB do estado recém
criado pelas forças políticas da cidade do Rio de Janei ro. Niterói perdeu o estatuto de capital do estado para a cidade do Rio de Janeiro.
Passados vários anos, volta e meia é relançada a idéia de desfusão e a proposta de Niterói como capital
reaparece. É compreensível o interesse de jovens políti
cos fluminenses e de Niterói, nesse tema, frente a suas estratégias eleitorais de curto prazo. Eleger-se governa
dor da velha província luminense constituiu-se tarefa'
mais fácil para essas novas elites, do que penetrar no eleitorado da antiga capital federal.
Por tudo isso, a idéia da desfusão - que pode parecer à primeira vista interessante e dar a impres são de que Niterói teria novas vantagens, recuperan do sua antiga posição de capital do estado - é, em grande medida, ilusória e ·problemática.
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