m
mi
ipumm
ih
TflESE
APRESENTADA
E
SUSTENTADA
PARA VERIFICAÇÃO DE TITULO
A FACULDADE
DE
MEDICINA
DA
BAHIA
EM
MARÇO
DE
1870
POR
Francisco
IScníi»Aieocamtre
tle JFigueiretloWMagalHães
Medico-CirurgiãopelaEscolaMeilico-Cirurgicado Portoctc. etc.ete.
TYP.
DE
J. G.TOUMNHO
EACULDADE
DE
MEDICINA
DA
BAHIA.
DIRECTOR
O
E<jc.mo&#»#*,Conselheiro
Bi'.*Boão
SSttjiSistatiosAnjos,
O
Ex.mo Snr. Conselheiro Dr. Vicente Ferreira de Magalhães.OSSrtS.DOUTORES l.°ANNO. MATÉRIAS QUE LECCIONAM
Tons Virente FerreiradeMagalhães i P nvslca emgeral,eparticularmenteem suas
i>ons.viccmcieirciraueiudadiiide!>.
^ applicaçõesáMedicina.
FranciscoRodriguesdaSilva ChimicaeMineralogia.
AdrianoAlvebdeLimaGordilho . . . Anatomiadescripliva.
!!••ANNO.
Antonio de Cerqueira Pinto Chimicaorgânica.
JeronymoSodró Pereira.
...
. Physiologia.Antonio MarianodoBonifim BotânicaeZoologia.
AdrianoAlvesdeLimaGordilho. . . . RepetiçãodeAnatomiadescripliva» 5.»ANNO.
Cons.EliasJoséPedroza Anatomiageralepathologica.
José deGóesSequeira Pathologiageral.
JeronymoSodré Pereira , Physiologia.
4.°ANNO:
Cons.ManoelLadisláoAranhaDantas. . Pathologia externa.
Pathologiainterna.
ConselheiroMalhias MoreiraSampaio
j
P
^&masc&
dC mulherespejadasede men,í) cs8.»ANNO.
».»**..:..
Continuação de Pathologiainterna.JoséAntonio deFreitas í
\
^ware^
08™^™'
Medicina°Peratorla,eMatéria medica,etherapeutica.
6.»ANNO,
Pharmacia.
Salustiano Ferreira Souto Medicinalegal.
DomingosRodriguesSeixas llygiene, eHistoriadaMedicina.
Clinicaexternado3.*e4.»anno.
Antonio Januário de Faria Clinicainternado5.°e6.*anno.
Rjzen oAprígio Pereira Guimarães. A
IgnacioJosedaCunha /
r. . Ribeiro de Araujo \Secção Accessorla.
s. 1;nacmde Barros Pimentel. . .1 VirgilioClymacoDaoiazlo /
Jose Affonso Paraizo deMoura. . . a
Augusto Gonçalves Martins f
Doming>sCarlos dasilva > Secção Cirúrgica.
FemctrioCyriacolourinho
Luiz Alvares dos Santos .
Secção Medica,
O
Sir.Br. Cinciimato PintotiaSilva.<DffS!U13M IDA8MU18!rMim
O
Sr. Ur.Thoiuaz tlMquino Gaspar.DA FEBRE
PUERPERAL.
ttesumo
histórico»
Quidquid agimus, scribimus, escogitamus id
non est novum, sedveterum inventis addimus tantumatque ampiificamus.
(Bailon,Opera,T.II,P. 10.)
E
lançarmosum
golpe de vista sobre os annaes dascien-cia,
vemos
que
a febre puerperal, observada desde aori-gem
da Medicina,lem
sidopara os naturalistasassumpto
de grandes debates, tanto
em
respeitoá sua natureza,co-mo
á denominação.Os
escriptos de Monti, G. Rauhin, Akakia, Wolf, Paré, Plater, Sylvius, Rousset, Spach, e muitos outros, antigos emoder-nos,
mostram-nos
diversosnômes
porque
tem
sido consideradaem
va-rias epochas da medicina.Encarada
a febrepuerperalcomo
essencial,ou
symptomatica,tomados
como
primitivos,ou
secundários,alguns dosphenomenos
que
aacompa-nham,
e confundidacom
outros estados mórbidos,tem
recebido assim,desde osprimeiros
tempos
até hoje,muitos epithetos, esem
nenhum
d'el-les exprimir cabalmente a sua natureza pathologica.
O
de febrepuerpe-ral
mesmo,
que
lhedeu
Ed. Strobterem
1718, e não Willis,como
que-rem
alguns escriptores, aindaque
está hoje admittido pelamaior
parte dos pathologistas,não
indica, peloque
vem
da palavraromana
—
pnerpe-ritim,
—
mais
doque
a existênciade febreem uma
mulher
de parto, enem
passa de ser a definição de Hippocrates abreviada.0
venerando
velhochamava
estadoença
—
febre
aguda
dasmulheresem
fartos,
—
attribuindo-aá suppressão dos lochios, cujas ideias Galeno,Are-têo, os primeiros
médicos
gregoseárabes, e finalmente bastantesnatura-listas
do
séculoXVI
eXYII
partilharam; eforam
ellas abraçadas a tal ponto por Bonnacioli,Rocheus,
e Rylf,que poseram
á moléstia onome
de—
febre lochial.
Contra estas opiniões,
porém,
nãofaltarammais
tarde asde muitosdistin ctosphilosophos, que,fasendodepender
estafebredotransvio do leite, lhederam
outros títulos. Trincavilli,Sydenham,
Astruc, eLe-Roy,
adeno-minaram
febre leitosa;Hecquet
doença leitosa; Puzos, Levret,Van
Swieten, e
Bordeu
depósitos leitosos;Bonté
diarrhêa leitosa; Planchon, e Gastelier miliar leitosa; e Solemander, sustentandoque
ella procediado
transporte do leite para o sangue e
humores,
appelidou-a febre de leite.Em
seguidaharmonisaram-se
estas duas hypotheses. Mercuriallis,Ro-drigo de Qastro, Schenck, Willis, Doublet, e Doulcet, affirmaram
que
a febre puerperal dependia doderramamento
dos lochios,ou
da matéria leitosa nas cavidades e vasos impróprios:—
uma
metastasedos lochios,ou
do leite, era para todos estesmédicos
ocommum
ponto
de
par-tida.Porém,
se condiziam as suas ideias sobre a natureza da moléstia,não
acontecia omesmo
a respeito donome.
Apenas
concordavam
em
que
certos materiaes,
demorando-se na economia
do individuoporfalta deeli-minação,
ou
entrada nos líquidos (principalmenteno
sangue),eram
os factoresda doença; e Mercatuscom
as suas duas formas de febreaguda
das mulheres paridas, procedida
uma
da suppressão dos lochios e a ou-tra de suppuraçãodo
útero,formava
ainda partedo grupo, postoque
ap-parecesseno quadro
fitandoum
outro objecto.A
medicina antiga, nãopodendo
fixar asédedas alteraçõesmórbidas
á escassa luzda
anatomia, foi naturalmente conduzida á sua essencialidadecomo
dogma
fundamental de suas doutrinas;mas
em
1718
a febre puer-peralcomeçou
claramente a desprender-se das theorias essencialisticas, e acaminhar
allumiada pelo fachoda anatomia pathologica,que
bem
ne-gras trevastem
já dissipado ámedicinamoderna, como, ha
muito, attestam Yalsalva, T. Bonnet, Morgagni, Lientand, Sandiford,Baillie, Portaletc. etc. Ed. Strohterfoi,como
já vimos, o primeiroque
introduziona
da inflammação
do útero,ou
d'outro qualquer órgão, tendo porsectários Burton, Smellie, Th. Cooper,Denman,
Gasc, Gardien, e muitos outros, d'entre os quaesHulme
eLeake
sepronunciaram
a favor da localisaçãono omento,
Gordon, Makintosh, etc.em
todo o peritoneo, Astruc eDen-men
no
útero, Dance, Duplay, e algunsmais
nas veias uterinasou
vasos lymphaticos.Travou-se então renhido
combate
entre os essencialistas e localisado-res, e sustentou-secaloroso atéque no
theatro de anatomia pathologica o escalpellode Bichat acertou os primeiros golpes sobre o cadáverda
mulher
parida. Jáem
1776
G.Hunter
tinha ditotambém
que
a febre puerperal nãoera essencial,mas
symptomatica
daperitonite; todaviaa sua doutrinanão
impedioque
bastantesmédicos
continuassem a considerar primitiva adoença,chamando
lesões secundarias aos differentes estragos,que viam
pormeio
da autopsianoscasosfataes.A
opiniãodeHunter
e dosmais
localisadoresatéellecabiam
talvez desastradamente, se Bichat lhesnão
dá amão.
Este celebre discípulo e
amigo
de Desault, proseguindona
vereda de Pinel, foi, guiado pelossymptomas
da moléstia, esquadrinhar as lesõesque
elladeixava; e sustentado pela sua observação anatomo-pathologica, disseque
provinha dainflammação
do peritoneo a febre puerperal.E
a sua doutrina foi acolhida de tal sorte nos primeiros annos deste século,que
osnomes
de febre puerperal e peritonite puerperaleram
synonimos.Porem
Bichat não percorreu o labyrintho, e deixou, por tanto, dema-tar o minotauro.
Parou
juncto da inflammação do peritonêo,que
reputou único elemento da moléstia, e assim peccou,como
todos osque
querem
dar á febre puerperal
uma
séde exclusiva.Não
reconheceu a peritonite sympaticaou
concomitante da metrite; não descobrioque
o peritonêo,por
cai^acter exaltadamente susceptível e condicçãoextremamente
irritá-vel, reage ás vezes primeiro
que
o útero contra asinjurias recebidas;não
encontrou ovarites, gastrites, enterites, pericardites, phlebites, arterites,
lymphangites, cystites, meningites, pleuresias, etc,
nem
abcessos puru-lentosdissiminados e maisou
menos
distantesdo
útero,que
podem
ser outras tantas causas da pyrexiaem
questão. Bichat conseguio, todavia,pôr
a descoberto o fdão, e se deixou de explorar ojazigo,foi certamenteporque
amorte prematura
lhe veioémbargar
alavra.Depois d'este illustre localisador,
appareceram
outros,que pequeno
e a variedade deprincípiostheorisados
menos
philosophicamente por taes anatomo-pathologistas, fezcom
que
revivessem muitas e differentes hy-potheses sobre anaturezada
moléstia, emais
uma
vez se declarasse a anarchia entre oshomens
da
sciencia, voltando acampo
osesseneialis-tas,
que
já setinham
por vencidos.A
febre puerperal,sempre
elemento deum
verdadeiro scisma entre os apóstolosde Minerva,sempre
pomo
dediscórdia sobre o altarde
Lu-cina,
sempre
motivo de desavençasentre os irmãosde
Hygea, fez recru-desceradesordem no
dia23
de Fevereiro de 1858.Nestedia
M.
Guerard
subio á tribuna daAcademia
Imperial de Medici-na, e propoz os seguintes problemas:—
Qual
é a natureza da febre puer-peral?Qual
é o seumodo
depropagação? Qual
é otratamentoque deve
oppor-se-lhe?
Dissertaram sobreas tresproposiçõeso
mesmo
Guerard,Depaul,Piorry, Trousseau, Beau,Hervez
de Chegoin, Cruvcilhier, Paul Dubois, Cazeaux,Danyau,
Bouillauu,Velpau, J. Guerin,etc;porem
o ponto culminanteda
questão consistia
em
determinar anatureza da moléstia, que, por assim dizer,era a incógnitacommum
de todososproblemas.Considerada essencial por uns,.symptomatica por outros, contagiosa
por
estes,não
contagiosa por aquelles, originou a febrepuerperaltem-pestuosas discussões, recebendo
uma
medicação
variada de cadahypo-these differente
que
fazia nascer.M. Guerard não metteu
a questãodo
nome
no
enunciado de seus problemas,mas
intrometteu-se ellacom
duasalliadasinseparáveis. Discutio-se, pois,a respeitoda natureza,titulo,
contagio, e tratamento da moléstia, epor tal forma,
que não pôde
distin-guir-se a facção essencialista da organicista,ou
de qualquer delias tirardous camaradas
rigorosamente uniformisados.Auber
numa
memoria,
que
escreveu para critica d'esta questão, dizassim:
—
Sur
douze orateurs entendus,on
peut compter: desessentialis-tes; des demi-essentialistes; desessentialistes sans le ví»uloir; des
essen-tialistes sanslesavoir;des Iocalisateurs avec tendance r' 'essentialisation;
des essentialistes avec
amour
pour
la localisation; d(s spéciíistes; des thyphistes; des traumatistes; des néo-traumatistes!. . ..
Maintenant débronillez-vous, arrengez-vous,
composez-vous une
reli-gionmédicale
aveclesdogmes
detous ces chefs d'école, véritables pontí-fices deFenseignement
ofíiciel; etc.uma
solução proveitosa para a sciencia.Concordou-se
apenasna
incer-teza da therapeutica paracom
adoença, deixando-se averdade cadavezmais
escondidano
manto
da confusão;mas
eupenso, ainda assim, que, aftastadas paixões theoricaseteimosias systematicas, sepoderiacom
im-parcial eclectismo tirar de taes debates o material preciso para levantar
um
reductocontra a essencialidadedafebre puerperal,quando
denenhum
outroponto nos fosse possivel obtel-o.
Vários trabalhos importantes, e atéde maisrecente data,temos,
porém,
ainda a explorar. Se
Le
Fort, Tarnier, Trebuchet, Trelat, Husson,Guyon,
Pajot,Malgaigne, Berne, Delore, Blot, Devergie,
pouco permittem que
se apure de positivo e terminante sobre o caracter da doença; se Simpson, Buhl, e Still, notandocomo
as contusões, escoriações, e lacerações da vagina e útero,podem
caracterisar-seem
feridas gangrenosas, e determi-nar apyohemia
especifica, não estabelecem definitivamente aidentidade da febre puerperal etraumática; seDemarquay,
corroborandoadoutrina de Guerincom
suas novas experiências sobre aforça e rapidez da absor-pção purulenta nasferidas, nãofazcalar Bandot,que
volta a1838
buscar a febre essencial deTeissier para explicar a pyohemia; se Giordanonada
adianta
com
a sua embolia central,nem
Barnescom
asua especiosadi-visão etiológica,
nem
Seyfertcom
asuamedicação
de jalapae calomelanos,nem
Espagne
com
o seu tratamento tónico e evacuante,nem
Casaticom
o preconisado sulfito de magnesia; seRobert
de Latour atraza a doutrina dos loealisadores, inclinando-sesempre
para a ovarite chronica,que na
opinião d'ellepredispõe á febre, e a determina
quando
se exacerba; se Batailhénão
ébem
explicitona
conclusão da analogiaque
nota entre a febre puerperal e a traumática, dedicando os primeiros cuidados ao tratamento da ferida uterina, valha-nos a critica medica, e a lógicaclini-ca, para
podermos
dizercom
Hervieux:—
que
sobo titulo genérico da fe-brepuerperal secofundem
diversas entidades mobidas.O
diamante
não
se encontra lapidado pela natureza, e ainda,paraem
estado nativo obter-senos maisricos mananciaes, precisa expurgar-se por escrupulosas lavagens.Façamos,
pois, escolha dosfundamentos
e con-siderações,que
possuo a litteraturamedica,evejamos
seos dados decom-paração, fornecidos pelapuerperaeoperado,a respeitodascondições anató-micas, particularidades constitucionaes,
symptomas,
elesõesmórbidas,po-dem
habilitar-nos a provara identidade pathologica das febrespuerperal e traumática.Sigamos
as indicações do distincío parteirod'Edimb
urg,eaceitemos o titulo de febre puerperal, por ser o
mais
generalisado, e oque
melhor
caracterisa o sogeitona
essênciado
seu attributo constante.Condições
anatómicas
e
particularidades
constiln-cionaes
ela
puerpera
e
operado*
As
condições anatómicas damulher
puerpera, e as do individuo ope-rado, são a muitos respeitos asmesmas,
diz Simpson, e claramente se percebe a sua analogia.No
operadotemos
uma
feridaou
solução de continuidade, feita pelo ferro do operador, a qual, apresentando sôbreassuassuperfícies livresas bôccas denumerosas
artérias e veias, as extremidades dos ramos,ou
ra-músculos
nervosos cortados, as cellulasdotecidoque
serompeu
n'aquella região, etc,tem
de serreparada pela directa adhesão dasmesmas
super-fícies oppostas,
ou
maisvagarosamente
pela exsudaçâo dalympha
plás-tica,
que forme
sôbre ellasuma
nova
pelle,um
novo
invólucro,ou
tecido conectivo.Na
puerperatemos
também
uma
feridaou
solução de conti-nuidadena
superfície interna do útero, causada pela separação da pla-centaemembrana
caduca, feridaque mostra na
sua superfície,como
a produzida peloferro do operador (principalmenteno
logarem
que
estava adherente a placenta), iguaes órgãos lesados,que hão
de ser reparadospor
cicatrisação, ácusta damesma
exsudaçâo plástica, nos pontos aque
a
immediata
adhesão não chegue,ou
onde
seja misternova
camada
demembrana
mucosa. As
secreções deambas
estas feridaspodem
alterar-semorbidamente,
ou
tornar-se asede deuma
excessiva inílammação, ulce-ração, ou suppuração phlebitica esuasconsequências.Em
qualquer das soluções de continuidade é possívelque
as veias oc-casionahnenterecebam
o ar; e tanto a ferida cirúrgica,como
a obstétrica,pode
desviar-se domodo
regularde reparação.Ambas
ellasestão sugeitas a perigosas hemorrhagias;ambas,
aindaque
raras vezes, sãooccasional-mente
seguidas de delírio, tétano, e outras complicações nervosas; edo
mesmo
modo,
mas
muito mais
frequentemente, ellaspodem
serA
puerperatem
a sua ferida complicadacom
estados constitucionaesda
mesma
espécieque
o operado; eambos
os indivíduospassam
geral-mente
porum
maior ou
menor
grau de subsequente reacção febril,que
o parteiro
chama
febre de leiteou
febre puerperal, e o operadorfebreephemera
das operaçõesou
febre traumática,conforme
a gravidade damesma
reacção;n'uma
palavra, asduas feridasestão sugeitas aosmesmos
desvios pathologicos locaes, e aserem acompanhadas
dosmesmos
effei-tos ecomplicaçõespathologicas geraes,porque,se
ha
differençaentreellas,está apenas nas suas formas,e nas regiões
que
ellasoccupam.
Symptomas
que
acompanham
a
febre
puerperal
e
a
febre
traumática.
É
impossível agruparn'um
sóquadro
todosossymptomas
que
a febre puerperal, considerada genericamente,pode
revelar; circumstanciaque
muito
prova contra a sua essencialidade e independência nosologica.*
São
differentesascondiçõesem
que
ellaésusceptiveldedesenvolver-se, e varias as formasque pode
assumir,como mostram
as muitas varieda-desque
os auctoresteem
descripto:—a inflammatoria, a biliosa,a gastro-enterica, a nervosaou
ataxia, a typhoide ou adynamica, etc.etc.;—po-rem,
amesma
notaemquanto
á variabilidade do seu typo e formas, pro-cede a respeito da febre traumática, equando
qualquer das doenças é ca-racteristicamente desenhada, ossymptomas
são assás notáveis e simi-Ihantesem
cadauma.
Não
ha
doença, diz Simpson, aque
seja tão difficil assegurar-seuma
serie de
phenomenos
pathognomonicos,como
as febrespuerperale cirúr-gica; mas,quem
tiver visto muitos dossymptomas
dadoença
n'uma
classe de pacientes, não acha difficuldades
em
identificar adoença
por estesmesmos
symptomas
na
outra classe.Um
pulso variandoem
força,mas
sempre
constanteem
quanto aofacto da sua rapidez; a corda
superfície alterada, e frequentementemais
es-curaou
quasi ictérica; a pellealgumas
vezes quente e sêcca, outrasmate-rial
na
acção febril; dores locaes, e desarranjos funccionaes nas partesque
são a sede das effusões inflammatorias internas, (devendo notar-seque
ossymptomas
locaes d'estas inílammações são muitas vezesenco-bertos e latentes); anciedade; prostração geral; adynamia;
muito
frequen-temente
náusea e vomito; occasionalmente diarrhea; respiração laboriosa ouapressada;algumas
vezesinchações repentinas,e effusões nas articula-ções e tecido subcutâneo, etc; e muitas vezes, por ultimo, rápida pros-traçãocom
delirioou
sem
elle:—
são ossymptomas
da febrepuerperal etraumática.
M. Depaul
dizque
a febre puerperal nãotem
symptoma
pathognomo-nico,e
que
éno
caracter de muitos delles,ena
sua apparição simultâneaou
successiva,que
um
olho exercitado descobre o sineteparticulard'ella.Para
esteparteiroossymptomas
maisfrequentessão:—
arripios violentos; pulsopequeno
efraco,com
140
a 160ou
mais pulsações por minuto; per-turbações dainervação,e respiração,que
se faz curta,precipitada, anciosa, e interrompida de profundas inspirações; doresrheumatismaes
peri-ar-jiculares,alem
daque
se fixa na região epigastrica; vómitos amarellosou
esverdeados; alteração profunda da face; suores frios e viscosos.
M.
Cruveilhier forma apenas de quatrosymptomas
todo oquadro
sym-ptomatico da moléstia; a saber:
—
arripio; dor abdominal peritonitica;de-composição
piofunda da face; frequênciaextrema do
pulso,com
molesa
e pequenez.
Em
summa,
as descripções da symptomatologiada
febre puerperal são quasi tantas,como
os naturalistasque
ateem
estudado, e tão differentes,como
são varias as formas deque
adoença pode
reves-tir-se; e o
mesmo
aconteceem
relação á febretraumática.Por
tanto, tor-na-se impossível mencional-as aqui todas, e passaralem
decitaralgums
casos,
em
que
se verifique a analogia entreambas
as moléstias pela igual extravagância dos signaesque
as revelam.Tanto
a febre puerperal,como
a traumática, se apresenta debaixo de muitos aspectos differentes,porque
osseus caracteres,além
dafeição va-riadaque pode
imprimir-lhe qualquerforma ou
complicação pathologica, estão dependentes da constituição dos próprios individuos, idade,tempe-ramento, estado geral, diathese, idyosyncrasia, influencias meteorológi-cas, constituições medicas, etc;
porém,
ceteris paribus,phenomenos
occorridos na puerpera são,
pode
dizer-se, idênticos aosdo
operado.Os
symptomas
da febre puerperal,quando
por exemplo,a perturbaçãoperito-—
9
—
nite sobrevinda ao operado da cystotomia hypogastrica, se este possúe as
mesmas
condições organo-physiologicas da puerpera; damesma
forma
são elles os daphlebite do operado,
quando
na febre puerperalpredomi-na
a pblogose das veias.E
como
poderíamos
nós destinguir a febreque
resulta daangioleucite na
mulher
parida, daque
amesma
doençaproduz
n'outro individuo, independente do parto, e até da prenhez, se apenas nos guiássemos pelos
symptomas?
Por
oque
elles nos dizem,em
igual-dade
de circumstancias, a febre dasmulheres
paridas é a dos individuos operados, afora onome,
que,em
quanto amim,
só serve paranotar a oc-casiãoem
que
ella figura. Esta é a verdade,que
nos dá a confrontação dos vários quadros symptomaticos deambas
asmoléstias feitospelosmes-tres, e estaé a realidade
que
nosafíirmaa própria observação.Os phenomenos
pathologicos da febre puerperal,como
os da febretraumática,
podem
serinflammatorios, ataxicos,ou
adynamicos,segundo
o caracter
que
cadamoléstia assumir; enenhuma
d'ellas,em
qualquerfor-ma,
conserva aindauma
ordem
certa e constante nos signaes patho-gnomonicos,porque
até a natureza do órgãoou
órgãos inflammados, e a extensão da inílammação, exerce influencia sobre a sua pathopoése.Quando
doisou mais órgãos sãoa séde da inílammaçãoque
desenvol-ve areacção febril na puerpera, os
symptomas
são mixtos ecomplicados,como
acontece, por exemplo,no
individuo, que, soífrendo aamputação
coxo-femural, é
acommettido
deuma
phlebite, eimmediatamente
dain-ílammação
dalguma
viscera abdominal.Uma
indeterminadaserie dephenomenos
nervosos étambém
commum
a
ambas
as doenças.Em
qualquer d'ellaspodem
dar-sesymptomas
de
violência
ou
collapso;pode
a puerpera,como
o operado,succumbir
ao tétano, se n'esta o parto laborioso causouum
abalo nervoso forte,como
n'aquelle o produzio a operação penosa; e
pode
sobrevir aum
e outro in-dividuo igual variedade de accidentes,como
mostra Cruveilhierno
paral-lelo;
que
entre ellasestabeleceu:—
« as puerperasmorrem como
os ope-rados, de hemorrhagiasprimitivasou
consecutivas; de stupor; de convul-sões eclampticas; de inílammação, de grangrena;de podridão dohospital; de erysipelas (chamadaserráticas); de phlebitesuppurada; deinfecção pu-rulenta; etc. etc. »—
10
—
Mjesões
patholoyieas
achadas
na
puerpera
e
operado*
É
este o capituloque
menos
abona
a essencialidadedafebre puerperaí.Desde
que
a anatomia pathologica entroucomo
prova realna
contada medicina, desde
que
osnaturalistas vieram contrastar por ellao valor das moléstias, subio de preço anatureza da febre puerperaína
doutrinada
verdadeira localisação.A
anatomia pathologica,tomada
pelos localisadores e essencialistascomo
arbitrona
questão da natureza d'estadoença, decidioem
favor dos primeiros,baseando
o forque da sua sentençaem
factosterminantes,que
apresentou.
Eu
mencionareiosque bastem
paracomprovar
a analogia,que
ha
entre as lesões produzidasna
puerpera e operado.Numerosas
autopsias,feitas nos cadáveres das puerperassuccumbidas
á febre puerperaí,
teem mostrado
provas innegaveis de recenteinflam-mação
aguda
num
ou
mais
órgãos do corpo, taescomo
as observadasnos mortos por febre traumática; e alguns dados estatísticos,
que
passo a enumerar, servirãode
base ácomparação
das lesões inílammatorias descobertasna
puerpera e operado.A
tabeliãimmediata
é feita por Dugés,segundo
o resultadoque
colheudo
exame
postmortem
em
341
casos fataes de febre puerperaí; e as lesões
que
elleachou
nos 341 ca-dáveres demulheres
paridas, foram, nas seguintes proporções, estas:Peritonite
em
266
casosMetrite,
pus
nas veias, etc200
»Ovarite
48
»Gastrite e enterite
4
»Pleurite
40
»Pericardite
6
»Arachnite... . • 1 »
Pus
nos músculos,ou
articulações8
»As
observações deDugés
nãoforam
ainda asmais
minuciosas, aome-nos pelo
que
respeita aos órgãos uterinos e abdominaes. Foimais alem
Tounellé n'este ponto,
como
mostra
a seguinte tabeliã dos resultados observados por elleem
222
casosde febre puerperaí fataestambém.
—
11—
Peritonite
em
193
casosMetrite e ovarite
197
»Pus
nasveias uterinas,ou
lymphaticos112
)>Gastrite e enterite
6
»Pleurite
43
»Pneumonia
21 »Pericardite e hydro-pericardite 1 »
Pus no
fígado, pâncreas, músculos,etc19
»Pus
nas articulações *10
»Emquanto
aos órgãos internos,que mais
frequentemente seacham
af-fectados delesões inflammatorias nos pacientes cirúrgicos,não
possuímos
realmente muitosdetalhes,
porque
onumero
das autopsiasfeitasaos seus cadáverestem
sidotambém
menor;porem
Dr. Chevers dáuma
interes-sante notade153
casos fataesdefebre traumática, observadosno
Hospital deGuy,
em
134
dos quaes sedescobriram as seguintes lesões internas:52
casos9
»47
5)35
))4
14
»4
3
))27
))9
))8
))3
)) 1 »Á
excepção de19
casos, todos os153
mostram
vestigios de recentes lesões internas inflammatorias; ecomparadas
estas notascom
asda ana-tomia pathologica da febre puerperal,vemos
uma
variedade de impor-tante evidencia relativa ás acçõesmórbidas
internas,que
precedem
amorte nesta
febre ena
traumática.As
tabeliãs de Dugés, Tounellé,e Chevers,provam
bastante a analogia das lesões deixadas porambas
as moléstias, querna
sua sede, quer na sua intensidade e variedade; efornecem argumentos
sufficientes parapuer-peral.
A
mesma
falta de lesões apparentes,achada
19 vezesem
153
mortos
de febre traumática, responde aosque
fundam
a essencialidade da febre puerperal n'essa razão, equando
também
as autopsiasnãodes-cobrem
nos cadáveres das puerperas vestígioalgum
pblegmasico; e se os essencialistasnão
querem
que
a primeira febreseja tão essencialcomo
a segunda,teem
por dever acreditarque
a negativa das autopsiasdepende
n'alguns casosda imperfeição
com
que
ellasse fazem. Castelnau, Sappey, e Beau,que digam
como
experimentaram
esta verdade.Sem
duvida ficam bastantes vezes por descobir lesões anatómicas,em
consequência depouco
minuciosas observações,mas
pode
também
a par-turientesucumbir
auma
aífecçãofebril,que não
deixe lesãoalguma
apre-ciável,sem
que
porisso sedevaolhar essa aífecçãocomo
uma
febre puer-peral essencialou
essencialmente puerperal.Homens
emulheres
morrem
depois de oito
ou
dez dias deuma
moléstia revelada porsymptomas
fe-bris, e terminadacom
delicioou
coma,
sem
seacharem na
autopsia ra-sõessufíicienles para explicar amorte, e a pesar de terem sido diagnosti-cadas meningitesem
todos elles; e diz M. Beau: « estasfebres indetermi-nadasnão
podem
sobrevir nos partos,como
outras affecçòesnão
essen-cialmente puerperaes, eserem
occasionadas porcornmoções
phisicas emoraes
da parturição? »É
portanto admissívelque
a puerperasuccumba
auma
aífecçãopyre-tica,
sem
deixar lesões pathologicas sensíveis;mas
essa aífecçãonão pode
chamar-se
febre puerperal essencial,porque
osmesmos
phenomenos
e resultadosmostram-se
indistinctamenteem
qualquer individuo;nem
tãopouco pode
Depaul
dar estadenominação
á doençaque
se manifestacom
osmesmos
caracteres n'algumas pessoas, fora das condiçõesdo
estado puerperal,
porque
onome
deve ser então essencial e especificocomo
a ideiaque
exprime.Melhor
seria n'este caso dizer,como
M.Trous-seau:
—
não
existe febre puerperal: a febre designada por estenome
écommum
detodas as pessoas.De
toda a forma,porem,
são aproveitáveis estas opiniões dosessencialistas. Ellesmesmos
vem,
sem
o querer,affir-mar
a analogiadas febres puerperal e traumática nos casosem
que
po-deríamos teralguma
duvida,—
quando
ellas se afastamdo
seu typomais
geral.
Poucos
são os pathologistasque não
fallem dascornmoções
moraes
das parturientes, attribuindo-lhes terríveis complicações, etodo omundo
me-dico reconheceque
os presentimentos funestos, as resoluçõesdesespè-—
13—
radas, a tristeza, o
mêdo,
o desanimo, etc.reagem d'uma
maneira peri-gosa sobre o estado das constituições e das feridas do operado.Como
hade
pois responder-se seriamente aos essencialistas,que
querem
fazer actuar ascommoçoes
moraes
deum
modo
especifico sobre a puerpera, para sustentarem ainda a essencialidade da febre puerperal contra esta objecção?Á
sophismas de tanta modéstia sóserespondecom
prctenciosos paralogismos.Provada,pois,
como
creio, a igualdade decircumstancias,e aigualdadede
razões,que
podem
dar a falta de lesões orgânicas nos cadáveres das puerperas e operados,e decididoque
nãopode
chamar-se febre puerperal essência] á moléstia,que
não deixa signaes plilegmasicos apreciáveisnos órgãos damulher
parida, voltaremos ás considerações dasinjuriasmate-riaes,
que
seobservam
noscasosfataes das febrespuerperal e traumática, paraterminarmos
acomparação que
toca a este capitulo.As
tabeliãs de Chevers, Tounellé, eDugés,repito, dãoampla
evidencia da analogia,que
ha entre as oífensas pathologicas deixadasporambas
as doenças nos indivíduosque
succumbem
a ellas, eprovam
cabalmente aaguda
e muitas vezes extensa acção inílammatoria occorrida antesda
morte. Ellas
mostram
que
em
qualquer dos casos as lesões inflammato-rias internas raras vezes se limitam aum
só órgão;que dous ou mais
te-cidossão ordinariamentesédes simultâneas ou-successivasda acção phle-grnasica;que
as differentes partes assim atacadas sãoalgumas
vezesmui
distinctas edistantes
umas
dasoutras; e que,sena parturiente o peritonêo é quasisempre
o factorda acção inílammatoria interna, não é permittido considerar as causasd'esta localisaçãoespecial essenciaesdo puerperio,ou
dafebre puerperal,
porque
affirmam aomesmo
tempo que
asferidas dos órgãos pélvicos e geredores raras vezesproduzem
afebretraumática,sem
que
a peritonite seenvolvana
desordem.Chevers encontrou a peritonite noscasos de febre traumática
em
mais
de 30
porcento das suas dissecções; e seno
actodaparturição o útero é a sede dalesão original,que
ha de produzir a inflammação, e esta acçãomórbida promptamente
seestendepela leida continuidade do tecido aos seus apêndices eperitonêo, deve ellacom
muito maior
rasão locaíisar-se n'esses órgãos,maximé
nãohavendo na economia
da paciente outra partemais
combalidaou
predisposta,para a qualuma
metastasea faça trans-portar.Desde
Yalsalva eMorgagni
para cá tem-se observado meningites, por—
14
—
exemplo, seguidas muitas vezes de
inflammação
e effusãodepus
no
fíga-do, pulmões, pleura, peritonêo, etc; Dupuytrin, Charles Bell, Guthrie, e outros,notaram que
a.inflammação
dospulmões ou
pleuraerauma
con-sequência da
amputação
das extremidadesmuito
frequente emuito
fatalíVelpau
achou
tantas vezesa pleuresia depois d'estas operações,que
pro-poz darádoença
onome
depleuresiapurulentadosoperados; eRokytansky,
Routh, Kiwisch, e Simpson, fallando a par disto nas lesões inflammato-rias do peito,
como
muito
communs
na febre puerperal,levam-nos mais
uma
vez a concluirque
varias inflammaçõespodem
sobrevir á puerper:; e ao operado sobreregiões distantesda
sua lesão,embora
sejampouco
marcados
essesphenomenos
durante a vida de qualquer dos indivíduos.Acham-se
effectivamente muitas vezes distantes da ferida original asvísceras
ou
tecidos internos,que
são asprincipaessedes da inflammação; todavia, estes casosparecem
excepcionaes, e dependentesduma
susce-ptibilidadeoccasional, porque,em
regra geral, o órgão lesado,ou
seuvi-zinho immediato, éo primeiro
na
manifestaçãomórbida. Rematarei, pois, este capitulo, concluindo: que, se não é admittidauma
febre traumática essencial, para explicar a falta das lesões pathologicasno
operado,tam-bém
não
élicito concederá febrepuerperaluma
essencialidadefeudal,que
campeie
despoticamenteno
território anatómico da puerpera cujo cadávernenhuns
vestígios organo-pathicos apresente.JValure&a pathoMoffica
das
febres
puerperal
e
traumática*
Depois dos argumentos,
que
deixo expostos, sóme
resta fazerasomma
total d'elles, e por ella determinar anaturezapathologica da febre puer-peral,,para concluir o
quadro
comparativo,que
tenho esboçado.Mas
oque
é a natureza pathologicaduma
doença?
Deve
entender-se por tal,não
a essênciada doença,porque não conhecemos
a essênciade nada,mas
as relações
que
existem entreuma
doença
que
se quer determinar, euma
outra conhecida; assim, anaturezad'uma
moléstia é: inílammatoria,—
15
—
quando
apresenta os caracteres essenciaes do câncer etc; e debaixo dos princípios d'estetheorema eu
proseguireino
meu
destino tocando depas-sagem
na
definição"defebre, eno
modo
como
a pathologiaseoccupa
d'ella.Febre
é—
um
phenomeno
pathologico,que
revela areacção daecono-mia
viva contra o elementomórbido
perturbador da sua normalidade funccional, caracterisado poracceleração dopulso, eaugmento
do calor animal.Pelas leisestabelecidas
em
pathologia fazem-se duas distincçõescapi-tães de
febre—
a essencialou
idiopathica,—asymptomatica ou
inílamma-toria—
,segundo
ella se consideraphenomeno
primitivo, ou consecutivo da doença.
Estas duas classes dão origem a muitas divisões,
que
tomam
diíferentesnomes
e alcunhasconforme
anatureza do elementoque
produz a febre,eas formas, graus, caracteres, circumstancias, condições, estados, etc.
em
que
ella se manifesta. D'estemodo
chama-se
symptomatica a febre,que
se julga dependente de lesões orgânicas: essencial, aque
semostra
sem
ellasserem
percebidas,ou que
procede,como querem
alguns,deuma
alteração dos líquidos desconhecida: traumática, a
que
provém
dasferi-das: puerperal,a
que sobrevem
ámulher
puerpera,etc. etc.No
caso presentetratamos da febrenapuerpera, para decidirmos aqual das divisões capitães pertence; e para issoprocuraremos
verseha
entreella e a febre
que accommette
o ferido, conhecidacomo
symptomatica, relaçõesque
lhedeterminem
amesma
natureza. Peloque
diz respeito ás propriedades extrínsecas das duas doenças,temos
nós ja todos osdados
a favor da sua analogia; falta-nos,
porem,
coptrastal-as, paraaquilatar-mos
os seus valores intrínsecos, e concluirmos que, sobre análogas nos predicados externos são idênticasna
suanatureza intima.Diz
Boerhave
(depoisdeHyppocrates):—
Febrisinftammationiindividimscomes—;
mas
não
poderá dizer-setambém:
—
Individims comes febri
in-flammatio?—Inflammação
e febre,phlegmasia epyrexia, sãodous
grandes factos pathologicos,que
marcham
quasisempre
simultaneamente, e en-tre os quaes a questão de prioridade e de preeminência é muitas vezesdifficil de decidir.
Nós
estamosno
caso:ha
febrena
puerpera, e o factomórbido
deque
sãosymptomas
patognomonicos
tumor,mbor,
calor, edor,—
ainflammação—;
mas
quald'estesphenomenos
écausa,ou
eífeito?em
que
relação pathologica se acha a febre e a phlegmasia?gran-—
16
—
desclasses
muito
circnmscriptas:em uma
aphlegmasia
é consecutiva á febre, e, se o sangue se analysa então, vê-seque
a proporção da fibrina estáno
estado normal,ou
tem
diminuído;na
outra, pelo contrario, a phlegmasia é primittiva,dando
logar á febreque
se torna seusymptoma,
eo sangue
contém
um
maior
ou
menor
excesso de fibrina:—
as primeiraschamam-se
parexiasou
febres essenciaes: assegundas
phlegmasias febrisou
febres symptomaticas.Partamos
agora d'estes principios, evejamos
qual e' a crase sanguíneana
febre puerperal.Ha
ou não
excesso de fibrina?Segundo
Herseut, Beau, Caseaux, Andral, e outros, as analysesteem mostrado que ha
ex-cesso,como
noscasos das phlegmasiasfebris—
; l. a conclusão:não
épy-rexia essencial a febre puerperal.
Ha
alguma
alteração especialdo
san-gue, preparada deantemão na
mulher
pelo estado de prenhez,ou
desen-volvida subitamente depoisdo
parto,que
seja causa essencialmente de-terminante da febre puerperal? Não: as alteraçõesdo
sangue,que
seno-tam
na
parturiente, são tãodiííerentes e variadas,como
as deque
é sus-ceptível qualquer individuo,mulher ou
homem;
e se asha
sempre,nem
sempre
tomam
um
caracter pathologico:algumas
vezes são até salutares, ecom
tudo a febre puerperal dá-se;nem
pode
conceder-se ao estado da prenhezuma
condiçãomórbida
especial,que
determine poruma
altera-ção certa a essencialidade da moléstia,porque
osphenomenos
da chloro-anemia, por exemplo, sãona
puerperacomo
os do ferido nasmesmas
condições de crase sanguínea; e se o estado puerperal, considerado
sem
complicação, é
um
estado semi-pathologico,como
diz Bouillaud,não
dif-fere
do
que
se nota nos feridosou
operados;—
2.a conclusão: a febre puerperal éuma
phlegmasia febril.Contagio
e infecção»
Ligada á questão da natureza da moléstia está a de ser
ou não
serellacontagiosa, e forçoso é pois
que digamos alguma
coisa a tal respeito.Todos
os pathologistas de hoje (emuitosja antes de Blot, e das conclu-sões da Sociedade Imperial de Cirurgia assimpensavam)
concordam
em
infecto-—
17—
contagiosa; a divergência consiste apenas
em
considerar essencialou
ac-cidental esta qualidade reproductiva.Eu,
que
não posso concederá febrepuerperalosforosdaessencialidade,nem
admittirque
ella figureno
quadro nosologicocomo
entidademórbida
independente, direi
também
que
ella é infecto-contagiosa,quando
por circumstancias occasionaestoma
esse caracter,mas
nunca
por condição essencial.E em
vezdeprejudicar-se a suâ naturezainílammatoriacom
es-ta consideração,ganha
maisum
ponto d'analogiacom
afebre traumática,que
muitas vezes de francamente inílammatoria passa auma
affecção pú-tridaou
pestilencial, e se declara infecto-contagiosa pelasemmanações
deletérias
que
fornece,como
succede á febre puerperal,quando assume
um
caracter maligno, explicandofacilmenteestephenomeno
uma
simples constituição medica, pelo lado da circumfusa,quando
mais alto não falleo
mephitismo
nosocomial.Ninguém
ignora,sem
precisar saber a muito citada historiado
typhod'Oxford,
como
a agglomeração de pessoas sadias bastapara viciar oam-biente, e fornecer-lhe propriedades
morbi
ficas; e todosconhecem
como
a
accumulação
nas enfermarias de cirurgia produz epidemias de grippes, ophtalmias, pleuresias,erysipelas, suppurações demá
natureza, absorpção purulenta, podridão do hospital, gangrena, febres demau
caracter, etc.Acreditemos pois
em
facedos factos,que
provam
aconveniênciada
distri-buição das puerperas pelas enfermariasgeraes dos hospitaes, a fim de sequestraJ-as ao
mephitismo
nosocomial,que
a febrepuerperalnão
é es-sencialmente contagiosaou
infecciosa,como
também
não épyrexiaessen-cial,predisposta pela gravidez, e determinada pelo parto,
em
vista dosat-testados estatísticos,
que
mostram
as imrnunidades das aldeias entre os perigos das cidades, e os casos raros manifestados nos domicílios parti-culares ao lado das grandes epidemias desenvolvidas nas maternidades hospitalares.Prognostico»
O
prognostico da febre puerperalremata
o quadro comparativo entreella e a febre traumática.
Uma
e outra, procedendo até damais
benigna phlogose, e não passando a principio de febreephemera,
pode,como
deixodemonstrado, caracterisar-se da mais horrível feição.
—
18
—
Ao
bom
ou
mau
andamento
das suas respectivas feridas está sugeíto oorganismo
da puerpera e operado nos aecidentes,que
se lhepodem
seguir.
Ambos
os indivíduospodem
ser theatro d'alterações pathologicas, cu-jos productos vão alterar o estado geral da sua economia, e complicar conseguintemente damaneira
a mais grave o trabalho mórbido, simples ebenigno
no
começo
em
qualquer dos pacientes.O
bom
ou
mau
anda-mento
das feridas estádependente
das influencias externas, e dascondi-ções orgânicas,
em
que
cadaum
se acha.As
disposições especiaes,que
fazem
com
que
n'um
individuo as feridas securem
depressa, e n'outro vagarosamente,ou
atémesmo
se não curem,que
independentesde
qual-quer diathese e só provenientesd'uma
idio*syncrasia todoomundo
reco-nhece, echama
vulgarmente boas oumás
carnaduras, sãotambém
com-muns
da puerpera e operado, ecomplicam
igualmente o prognostico das suas phlegmasias febris.Por
tudo isto vô-seque
a febre puerperalpode
passar damenor
ámaior
gravidade, eque
o seu prognostico é indeterminavel,como
succe-de a respeito da febre traumática.Porém
oargumento
que,dalgum
modo
ligado ao prognostico, atacapelabasea doutrinados essencialistas, acha-se
no
facto, por todosobser-vado
e confessado, de sermuito
rara a febre puerperal,quando
até aoduodécimo
dia depois do parto ella deixe de desenvolver-se.Esta circumstancia
não
provaque
as alterações essenciaes, preparadas durante a gravidez (ná qualidade de causas predisponentes), e as condi-ções especiaes daparturição(como
causas determinantes),produzam
con-dicionalou
absolutamente a febre puerperal,mas
mostra
que
tal pyre-xia essencialdepende
essencialmente dotraumatismo
do útero, por issoque
atravessadoimpunemente
depois do puerperioum
períodoigualáquel-le,
em
que
depois da operação o operado corre maior perigo, aimmuni-dade
da puerpera é quasiseguramente
garantida.Os
casosdefebre puer-peral extemporânea (permitta-se-me a expressão) reforçam ainda acom-paração estabelecida, fazendo sentir a igualdade de subordinação e de-pendência,
em
que
está a puerpera e operado paracom
asmais
extraor-dinárias intercorrencias, estravagantes complicações, e caprichosas irre-gularidades pathologicas.—
19
—
Tratamento»
Tenho,
creio eu, confrontado todos os pontos da analogiaque
tentei verificar, echegado
conseguintemente á possibilidade de arrancar omar-co lemitrophe das duas febres,para estabelecer
uma
identidade mórbida, Concluirei pois dizendoque
a febre puerperal, confundidacom
muitos
estados pathologicos diíferentes,
não
é febreessencial,nem
tãopouco
en-tidade nosologica especial,mas
uma
febresymptomatica
subordinada ás diíferentes complicações phisicas e moraes,que
podem
sobrevir-lheou
precedel-a:e
que
assim considerada,sem
natureza, typo,ou forma
deter-minada
econstante,deve ser combatida pela medicação maisadequada
á feiçãoe caractercom
que
se apresente:que
medicamento
especifico,ou
therapeutica especial, não
houve
nunca,nem
haverá jamais parauma
doença,que
é susceptível das mais oppostas variedades e diversas com-plicações.PROPOSIÇÕES.
1.a
Phisica»
—
A
phisicasem
asuperintendência da physiologianãocon-vém
á medicina.2.a
Chiniica
Inorgânica»
—
O
arsénico puronao
tem
acção toxica.3.a
CMmica
Orgânica»
—
A
glycerina é inalterável ao ar livre, postoque
seja deliquescente.SSotanica*
—
O
phenomeno
da respiração vegetal influepoderosa-mente na
circulaçãoda
seiva.5.a
Anatomia
Discriptiva»
—
As
costellasnão
são infalivelmente vin-te e quatro.Physiologia»
—
No
organismodynamico
todos osphenomenos
de-pendem
da
força vital.7.a
Anatomia
Patliologica»
—
Entre os órgãos lesados pela cache-xia paludosa figura quasisempre
o coração.Pathologia
Geral.
—
Não
ha
moléstia absolutamente contagiosa. 9.aPathologia Externa»
—
A
ulcera ésymptoma
enão
doença, e—
22
—
10.*
Pathologia
Interna*
—
A
febre intermittente, seja qualfor o es-tadodo
accesso e aforma
da pyrexia,deve
serimmediatamente
comba-tida pelo sulfato dequinina, ainda
que
os evacuantespareçam
previamen-te indicados.
11.a
Partos.
—
Nos
casos de contracção espasmódicado
collodo
úteroque
impossibilite a dilatação manual,e porestemodo
aextracção das pá-reas,devepreferir-seá dilatação sangrenta ©emprego
daBomba
deSimp-son,
sempre que
o estado geral da puerpera por qualquer circumstancia estiver enfraquecido.Matéria
Meai
ica*
—
A
quininacom
os seus várioscompostos
ex^erce
na
economia
acções therapeuticas tão diíferentes,que
chegam
a ser physiologicamente oppostas e racionalmente contradictorias.13.a
Medicina
Operatória*
—
A
expressão—
compl
ascenda
—
deveser banida da sciencia.14.a
Medicina
liegal*
—
A
virgindade damulher
émoral
enão
physica. 15.aHygiene*
—
A
hygiene é o primeiromeio
therapeutico. 16.aPharmacia*
—
A
preparaçãopharmaceutica
—
bolos
—
não
tem
rasão de ser.HIPPOCRATIS
APHORISMI.
I
Lassitudines sponté obortse,
morbos
denuntiant.(Sect. 2.& aph. 5.°J
II
Febres, soporem, lassitudinem, caliginem,vigíliasinducentes,
exsudan-tes, malignse.
(Sect. 2.a aph. 11.)
III
Mutationes
temporum
potissimum
pariunt morbos.(Sect. 5.» aph. 1.)
IV
Yulneri convulsio superveniens, lethale.
(Sect. 5.a aph. 2.)
V
Ubi
somnus
deliriumsedat,bormm.
(Sect. 5.» aph. 4.)
YI
In morbis acutis
extremarum
partium frigus, malurn.(Sect. 7.»aph. 9.J
@>emeéétc/a a Wommj/êão M>euàola.
£8aAu
e &acu/a/ac/e c/e ^ee/ictnaem
22 c/e isMaipo e/e séjc.
Sdfá conflime04 &<)ta{uto<t. cfizcu/c/ac/e c/e *Jé>ec/icma o/a
&a£a
22 c/e ^Wetpcêfiemeãto.
c/e tèyc.