LIBERALISMO REVISITADO
REVISITED LIBERALISM
Dilson Alves Prado Eduardo Pragmácio Filho André Studart Leitão***
Resumo: O presente artigo tem como objetivo
apresentar as nuances da filosofia liberal no que diz respeito a sua definição e aos seus objetivos. Evidentemente, a compreensão de tal doutrina também recomenda a análise de sua evolução histórica no contexto global e no âmbito da realidade pátria. O estudo do liberalismo em terras tupiniquins é interessante e desafiador, pois aqui, tal filosofia encontrou seu auge, ironicamente, durante o império. Depois disso, não voltou a experimentar novos períodos de valorização. Esse desprezo pelos princípios de liberdade manifesta-se, por exemplo, com a manutenção da CLT. Defende-se que a legislação trabalhista é corporativista e arraigada das influências do fascismo.
Palavras-chave: Direito, Liberalismo, CLT,
Carta del lavoro.
Abstract: This article aims to present the
nuances of liberal philosophy in relation to its definition and objectives. Of course, the understanding of such doctrine also recommends the analysis of its historical evolution in the global and Brazilian context. The study of liberalism in brazilian lands is interesting and challenging, because here, this philosophy found its heyday, ironically, during the Empire. After that, he did not again tasted new periods of appreciation. This contempt for the principles of freedom manifests itself, for example, with the maintenance of the CLT. It is argued that brazilian labor legislation is corporative and rooted in the influences of fascism.
Keywords: Law, Liberalism, CLT, Carta del
lavoro.
SUMÁRIO: Introdução 1. A filosofia liberal 1.1 liberalismo econômico 1.2 Liberalismo político 1.3
Liberalismo social (ou moderno) 2. A história do liberalismo no Brasil 3. A influência da Carta del Lavoro e o corporativismo na CLT. Considerações finais. Referências.
Recebido em 19/10/2018. Aprovado em 17/12/2018.
Advogado, graduado pela FBUNI (Centro Universitario Farias Brito) e pós-graduando em Direito Processual Civil
pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza).
Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP, membro pesquisador do Grupo de Estudos em Direito
Contemporâneo do Trabalho e da Seguridade Social da Universidade de São Paulo (Getrab-USP), Professor do Curso de Direito do Centro Universitário Farias Brito (FBUni).
***Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP. Pós-doutorando em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pós-doutorando em Direito pela Universidade de Fortaleza. Professor do programa de pós-graduação
ISSN 1980-8860
INTRODUÇÃO
A legislação trabalhista brasileira sofre geneticamente de uma influência corporativista e fascista há mais de 70 anos. Apesar dos últimos esforços reformistas, não há um verdadeiro sistema trabalhista brasileiro, pois não há unidade e coerência. É preciso uma verdadeira reforma, com a adoção de um novo código do trabalho, conciliando valores liberais e de proteção ao trabalho, tais como fez a Constituição de 1988.
Em verdade, parece que os valores liberais e da livre iniciativa estão sendo retomados na atualidade. Um breve escorço histórico se faz necessário, para que esse retorno não seja um retrocesso, e sim um novo rumo, em respeito à dignidade da pessoa humana e valorização do desenvolvimento econômico e social.
O liberalismo defende, acima de tudo, a primazia da liberdade do indivíduo em contraposição às amarras das filosofias intervencionistas. Com base na ideia de liberdade, diversos estudiosos, tanto clássicos, como Locke, Hobbes, Adam Smith; como modernos, tais como Mises, Hayek, e outros, ao longo do tempo, apresentaram conclusivos estudos que comprovam a maior probabilidade de um estado liberal prosperar. Em sentido diametralmente oposto, os estados que optaram por continuar defendendo um maior intervencionismo, confrontaram inúmeros entraves de ordem socioeconômica que culminaram com a abertura de seus mercados e a expansão capitalista.
O Direito foi um dos campos científicos em que a doutrina liberal se mostrou relevante, tendo em vista a indissociável conexão entre a economia, as relações sociais e os regramentos coletivos de pacificação, previsibilidade e segurança. Sem um eficiente sistema de normas que disponha de autoridade legítima para atribuir responsabilidades para os violadores, não existe confiança, e a sociedade não pode ser vista como um empreendimento cooperativo.
A mesma lógica se aplica no mundo do trabalho, escopo principal deste ensaio. Conquanto seja inegável a necessidade de o Estado tutelar, em certa medida, os interesses da classe subordinada, tal intervenção não pode (ou pelo menos não deveria) suplantar em absoluto a liberdade de contratar.
De início o presente artigo traça um histórico da filosofia liberal, de forma universal, explicando sua origem, seu auge e seu conteúdo. Sabendo disso, estudará também a maneira
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como tal filosofia desembarcou em terras tupiniquins e, sobretudo, da forma peculiar que aconteceu o seu desenrolar.
Não obstante, ainda em se tratando do Brasil, finalizar-se-á traçando um explicativo, de forma geral, da maneira em como, em contraposição aos princípios liberais defendidos em diversos países prósperos, o legislador brasileiro resolveu encarar o direito trabalhista nacional, o qual, adiantando, se deu da forma menos livre possível, sendo clara a ingerência da doutrina fascista – através de forte influência da Carta Del Lavoro – em nossa lei do trabalho.
1. A FILOSOFIA LIBERAL
A palavra "liberal" deriva do latim "liber" ("livre"). Os liberais, de todas as correntes, se veem como amigos da liberdade relativa às amarras da tradição. Não obstante existam diversas concepções de liberalismo, em essência, todas elas postulam eleições democráticas, liberdade de expressão, direitos civis, liberdade de imprensa e religiosa, o livre-comércio, a igualdade de gênero e o estado laico. Defendem principalmente a liberdade econômica e a propriedade privada e, por conseguinte, a diminuição da intervenção estatal em todos estes ramos anteriormente citados.
O liberalismo teve seu auge durante o Iluminismo, figurando, à época, como um movimento político coordenado, principalmente, por filósofos e economistas ocidentais, e rejeitava os privilégios hereditários, a religião estatal, a monarquia absoluta e o direito divino dos reis. No âmbito político, o liberalismo encontrou maior aporte com as revoluções francesa e americana.
Conforme salientado por Várnagy (2006, p. 46), Locke pode ser considerado o pai do liberalismo por sustentar que todo governo surge de um pacto ou contrato revogável entre indivíduos, com o propósito de proteger a vida, a liberdade e a propriedade das pessoas, tendo os signatários o direito de retirar sua confiança no governante e se rebelar quando este não cumprir com sua função.
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Em “Dois Tratados sobre o Governo”, Locke defendeu que cada homem tem o direito natural à vida, à liberdade e à propriedade, acrescentando ainda, que os governos não devem violar esses direitos com base no contrato social1:
Se todos os homens são, como se tem dito, livres, iguais e independentes por natureza, ninguém pode ser retirado deste estado e se sujeitar ao poder político de outro sem o seu próprio consentimento. A única maneira pela qual alguém se despoja de sua liberdade natural e se coloca dentro das limitações da sociedade civil é através de acordo com outros homens para se associarem e se unirem em uma comunidade para uma vida confortável, segura e pacífica uns com os outros, desfrutando com segurança de suas propriedades e melhor protegidos contra aqueles que não são daquela comunidade. (LOCKE, 1998, p. 468)
Os liberais se opunham ao conservadorismo tradicional e procuravam substituir o absolutismo pela democracia representativa e pelo Estado de Direito. Basicamente, essa doutrina figurou como a ideologia política da burguesia (liberal), a qual conseguiu conquistar posição predominante durante o século XIX até à I Guerra Mundial, momento em que se tornou a força política dominante em quase todo o mundo ocidental.
Tal filosofia acredita no progresso da humanidade a partir da livre concorrência das forças sociais e é contrário à hegemonia das autoridades religiosas ou estatais sobre a conduta do indivíduo, tanto no campo ideológico, como no campo material. Na sua origem, o liberalismo defendia não só as liberdades individuais, mas também as dos povos, e chegou mesmo a colaborar com os alguns dos movimentos de libertação nacional que surgiram durante o século XIX, tanto na Europa quanto na América Latina.
Ademais, o princípio da liberdade na vida econômica, proclamado pelo liberalismo, se desenvolveu primeiramente em condições de grandes desigualdades sociais causadas, em geral, por governos absolutistas e suas propostas hereditárias e divinas, bem como, posteriormente, houve uma forte reação às doutrinas socialistas e comunistas, cujos movimentos se tornaram opositores ao liberalismo, até de forma mais forte do que as correntes conservadoras e tradicionais.
1 O contratualismo trata-se de um conjunto de teorias que tentam explicar os caminhos que levam as pessoas a
formarem Estados. Tal definição de contrato prega que as pessoas abrem mão de certos direitos para um governo afim de obter as vantagens da ordem social. Isto posto, o contrato social seria uma espécie acordo entre os membros da sociedade, na qual, estes, sacrificando parte de sua liberdade, comumente reconhecem uma autoridade sobre todos, bem como um conjunto de regras e um regime político e/ou de um governante em prol de uma harmonia social.
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Além de construir uma imagem positiva do indivíduo, o liberalismo defende a ideia de igualdade entre todos. O direito que o homem tem de agir pelo uso da própria razão, segundo o liberalismo, só pode ser garantido pela defesa das liberdades. No aspecto político, o liberalismo visa demonstrar que um regime monárquico, comandado pelas vontades individuais de um rei, não pode colaborar na garantia à liberdade, pois a vontade do rei subjuga o interesse social, impedindo os princípios de liberdade e igualdade.
Não obstante, pode-se classificar o liberalismo em, resumidamente, três grandes ramos, os quais não devem ser encarados como correntes antagônicas, mas sim, como complementares um do outro, quais sejam:
a. Liberalismo Econômico: Tendo por Adam Smith como seu maior nome, pregavam a teoria do livre comércio; intimamente relacionado com o capitalismo, foi a base do desenvolvimento econômico industrial do século XIX, especialmente da expansão econômica da Inglaterra em todo o mundo, visando também combater o mercantilismo, cujas práticas já não atendiam às novas necessidades do capitalismo. Trata-se de uma ideologia baseada na organização da economia em linhas individualistas, o que significa que o maior número possível de decisões econômicas são tomadas por indivíduos e não por instituições ou organizações coletivas.2 Para Smith o elemento de geração de riqueza está no potencial de trabalho sem ter o estado como regulador e interventor. Outro ponto fundamental é o fato de que todos os agentes econômicos são movidos por um impulso de crescimento e desenvolvimento econômico, que poderia ser entendido como uma ambição ou ganância individual, que no contexto macro traria benefícios para toda a sociedade, uma vez que a soma desses interesses particulares promoveria uma espécie de evolução generalizada.
Assim, podemos resumir os ideais econômicos do liberalismo em basicamente três: 1. Supremacia da propriedade privada: o bem encontrará sua finalidade em prol excluso de quem o adquiriu. Não há espaço para o instituto da função social da propriedade, ou seja, não há utilização, ou obrigação, de coletivismo na propriedade privada;
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2. Livre Mercado: a economia se sustenta na lei da oferta e da demanda. O Estado não pode intervir na esfera da economia, como preços, salários ou nas trocas comerciais, tampouco visando corrigir as falhas ou disparidades naturalmente causadas pelo andar da economia. Tais disparidades naturalmente se corrigem e regulam através do instituto batizado de “mão invisível”, já anteriormente mencionado, profundamente explicado por Adam Smith em seu livro “ A Riqueza das Nações”;
3. Tributação mínima: O estado não deve incutir à sociedade uma tributação exacerbada, principalmente no que concerne à carga tributária aplicada ao comercio, de modo que o estado deve somente recolher o que lhe for estritamente necessário, não expandindo seu tamanho, para que assim não precise arrecadar ainda mais e atrapalhar o pleno desenvolvimento social.
b. Liberalismo Político: Trata-se de uma doutrina cuja meta é a proteção da liberdade do indivíduo. Os liberais defendem que o Estado é um mal necessário como meio de proteção básica do indivíduo, mas não deve, entretanto, prejudicá-lo e nem representar, ele mesmo, um atentado à liberdade. Assim, implicava na restrição do poder estatal, não permitindo que o Estado interferisse em alguns direitos fundamentais como: o direito à vida, à felicidade e à liberdade e à propriedade.
Assim, podemos resumir os ideais políticos do liberalismo em basicamente cinco pontos:
1. Defesa das liberdades e direitos individuais: Chamado de individualismo metodológico. O liberalismo não reconhece a supremacia de direitos coletivos ante os individuais. O indivíduo é o agente das relações jurídico-sociais e detém direitos individuais invioláveis, não restando espaço para coletivismos desnecessários, afinal de contas, se você protege o indivíduo como se deve não será necessário intervir nestes mesmos direitos visando corrigir problemas sociais que o próprio estado inchado cria;
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3. Igualdade perante a lei através da instituição do Estado de Direito. Todos seriam iguais perante a lei, e tratados como iguais pelo Estado. Não existem privilégios a nenhuma categoria em especifico, sobretudo para as castas políticas;
4. Governos representativos e constitucionais, assegurando a plena liberdade de voto, expressão e deposição, se necessário for. O estado deve servir ao povo, e não o contrário.
5. Estado Mínimo, pois para que todos os direitos anteriormente mencionados funcionem, de fato, o estado não pode ter tamanho maior do que o estritamente necessário, pois quanto maior o estado, maior também será o espaço para (des)governos e autoritarismos, ao passo em que menor será a liberdade individual, colapsando toda a sociedade;
c. Liberalismo social (ou moderno): Tem o propósito de defender os direitos humanos e as liberdades civis dos cidadãos contra possíveis atos de opressão do Estado. Entretanto, vai além, indicando que o Estado deve proporcionar aos cidadãos oportunidades no contexto econômico, da saúde, da educação, etc. No contexto da política moderna, consideramos o liberalismo social como de espectro centrista. Assim, os liberais sociais encontram-se como defensores dos direitos humanos e das liberdades civis, embora também apoiem uma economia em que o estado desempenha essencialmente um papel coadjuvante, que vise apenas permitir o acesso aos serviços públicos fundamentais. Todavia, o estado não tem obrigatoriamente de ser o fornecedor destes serviços, tendo apenas de garantir que todos os cidadãos tenham acesso a tal, através de sistemas como o dos vouchers, etc.3
Não obstante, o principal ideal social defendido, não somente pela corrente do liberalismo moderno, mas pela própria filosofia liberal, em si, é o do reconhecimento do mérito como mola social, ou seja, o lugar de cada um na sociedade dependeria diretamente do mérito individual aplicado ao objetivo
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almejado. Não se trata, entretanto, da mera quantidade de trabalho empregado em alguma atividade, mas sim da importância, inteligência e necessidade (ou percepção) de tal trabalho para os demais membros da sociedade que, ao se depararem com suas necessidades, buscam no outro a sua completude e, por conseguinte, o recompensam por isso. Faz-se mister frisar também que, justamente por fornecer o básico e não atrapalhar o desenvolvimento social com intervenções excessivas, que se há a pressuposição de igualdade de oportunidades na persecução de tais objetivos meritocráticos, assim, derrubando por terra quaisquer críticas superficiais a esse sistema que é inerente não só ao liberalismo, mas ao ser humano em si, desde que resolveu ampliar sua convivência em comunidade.
Assim, ao Estado somente deve caber o básico, de forma clara, concisa e precisa, de modo que não se dificulte ainda mais o entendimento da legislação e do próprio papel do governo na sociedade, por meio da criação diária de inúmeras leis, portarias, resoluções, medidas provisórias, decretos, etc., afinal de contas, conforme salientado por Winston Churchill, “se você tem dez mil regras, destrói todo o respeito pela lei.”
Ciente deste panorama geral sobre o liberalismo, o próximo tópico deixará claro as influências e a evolução histórica da filosofia liberal aqui, em território brasileiro. Porém, antes disso, necessário se faz finalizar tais disposições sobre a ideologia do liberalismo afirmando que, somente abaixo do direito à vida, a liberdade, em todos os seus aspectos, figura como elemento fundamental à uma democracia plena, forte e que respeita e cuida de seu povo, na medida em que possui um governo que, ainda que mínimo, é forte, e assim o deve ser, contrariando brutalmente o que costumeiramente assola nossas terras tupiniquins: um estado colossal, um verdadeiro Leviatã (como já dizia Hobbes), que tenta de todas as formas expandir seus tentáculos à todas as áreas, porém, de forma completamente desengonçada, não conseguindo realizar com mínima qualidade qualquer coisa que se propõe, de forma que já não possui qualquer credibilidade e confiança ante seu povo.
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2. A HISTÓRIA DO LIBERALISMO NO BRASIL
Paim (1998, p. 30-31) salienta que, muito provavelmente, o pioneiro na divulgação do liberalismo em terras Brasileiras foi o jornalista Hipólito da Costa4, através do jornal “Correio Braziliense”.
“O Correio Braziliense”, diz Paim, tomou para si a responsabilidade de comentar todas as obras que pudessem ser do interesse da elite então radicada no Brasil, com a mudança da Corte, mesmo quando editadas em inglês ou em francês, dando-se o trabalho de traduzir e transcrever o que lhe parecia essencial. Dessa forma, Hipólito da Costa preparou o terreno para a ascensão dos ideais liberais no Brasil que, no Primeiro e Segundo Reinados, encontraram o seu clímax em terras brasileiras.
O liberalismo foi introduzido em solo pátrio de maneira diferente. Ao invés de ter sido solidificado em um governo republicano, ironicamente, ele encontrou seu auge no período imperial. Durante os governos de Pedro I e de Pedro II, entre outras coisas, foram criadas e consolidadas as estruturas que mantiveram o Brasil estável por mais de meio século. Pode parecer paradoxal, porém, para entender o liberalismo em terras brasileiras, é indispensável salientar a distinção entre monarquia e absolutismo. Sobretudo no governo de Pedro I, foi bastante relevante a influência das obras do liberal francês Henri-Benjamin Constant de Rebecque. Justamente com base na doutrina do autor francês, Pedro I encontrou a ideia de Poder Moderador, talvez a inovação mais importante da história do Império, revestindo-se de uma característica única dentre as monarquias constitucionais.
Contrariando a máxima inglesa de que, num regime monárquico constitucional, “o rei reina, mas não governa”, ou seja, onde todo o poder do executivo é delegado aos ministros de Estado, a instituição do Poder Moderador não retirou as prerrogativas do Imperador brasileiro. O chefe do executivo ainda era o monarca, que exercia o poder através dos ministros de Estado por ele escolhidos. Ademais, assessorado por um Conselho de Estado, competia ao imperador, como portador do Poder Moderador, zelar pela manutenção da independência e pela harmonia entre os demais poderes políticos.
Dentre esses conselheiros, Paim (1998, p. 67 a 70) salienta que o mais relevante foi Paulino Soares de Sousa, o visconde de Uruguai, brasileiro nascido na França que defendia a
4 Brasileiro, além de jornalista, também era diplomata e ligado à maçonaria. Nascido em 1774, filho de militar,
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ideia de que o Poder Moderador garantia o equilíbrio do Estado, não permitindo excessos, nem pelo lado da representação, nem pelo lado do monarca, o que seria uma espécie embrionária de desdobramento, ainda que diferente, de um dos princípios básicos do liberalismo: o do governo limitado.
De outro lado, Souza (2007) esclarece que o período republicano se caracterizou como um retumbante fracasso da doutrina liberal. Não obstante a participação de Rui Barbosa e a promulgação da primeira constituição da República, o liberalismo acabou sendo subjugado em face do autoritarismo.
Após o primeiro golpe militar em 1889, que contou com o apoio da “elite intelectual” da época, aliada ao ideal positivista de Ditadura Republicana, a república brasileira tornou-se aquilo que suas irmãs de continente já eram: um poder centralizado e forte, constantemente contestado, instável e antidemocrático. Anteriormente já citado, Rui Barbosa levantou-se, mais de uma vez, contra a situação antidemocrática que constantemente vivia o Estado brasileiro: ora em poder de militares positivistas, ora em poder das oligarquias cafeeiras.
Mais um salto se faz necessário até república velha, afinal, Souza (2007) pontua que a chegada de Getúlio Vargas ao poder marcou a conquista do castilhismo no campo político brasileiro. Figura de grande popularidade até os dias de hoje no Brasil, Vargas se caracterizava como um líder forte, bem ao estilo de Castilhos. A sua chegada ao poder na década 30 provocou, entre os liberais paulistas, uma reação que viria a desembocar na Revolução Constitucionalista de 1932, evento que, por um breve período, interrompeu os planos autoritários do governante.
Entretanto, foi somente com a instauração do Estado Novo, em 1937, que tal experiência se concretizou de fato. O liberalismo da época de Vargas mostrou-se tímido e ineficaz, sendo incapaz de fazer oposição frente sua figura autoritária.
Seu segundo e último governo termina com o seu suicídio em agosto de 1954. Do fim do primeiro governo até 1964, o Brasil experimentou um breve período democrático, o que, cabe salientar, não se traduziu numa economia de corte liberal, afinal, permaneceu um forte dirigismo estatal que, com a chegada dos militares ao poder, experimentou um novo ápice.
Souza (2007) relembra ainda que os liberais viriam a sofrer uma nova derrota, tanto no campo da economia, com a ingerência do Estado nos rumos econômicos, quanto no campo da política, onde mais uma vez ocorreu a supressão das liberdades individuais por parte dos
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militares. Entretanto, o sistema de representatividade, já frágil desde a proclamação da república, foi virtualmente extinto. Líderes políticos das mais variadas correntes ideológicas foram “convidados a se retirarem” do país.
Somente a partir da abertura política em 1985, o liberalismo, timidamente, esboçou uma reação no Brasil. Apesar da incontestável vitória das doutrinas esquerdistas e centristas na Assembleia Constituinte de 1987, prevaleceu na Constituição a defesa da economia aberta. Vale dizer, ainda que de maneira pouco convencional (afinal de contas ainda temos postulado na carta magna algumas bizarrices como Imposto sobre Grandes Fortunas, e outras), o liberalismo conquistou um espaço importante no cenário político brasileiro contemporâneo, pelo menos na teoria.
Nesse contexto, é importante fazer uma breve crítica ao sistema representativo do Brasil, haja vista praticamente não existirem partidos ou nomes que consigam chamar para si interesses comuns da opinião pública. Dessa forma, não existem, no Brasil, as famosas (e saudáveis) disputas ideológicas entre direita e esquerda, ou entre governo e oposição, mas sim entre os burocratas que estão no poder e os que não estão, mas querem entrar.
Concluindo, ao moderno liberalismo brasileiro, restou somente a atividade dos intelectuais, estudiosos e dos empresários que se dedicam árdua e diariamente ao tema. No que se refere aos autores, infelizmente ainda temos um número reduzido de intelectuais de grande expressão, e que, ainda assim, realizam com dedicação o estudo e debate do liberalismo e as contribuições que este modelo tem a oferecer.
Geralmente, a discussão gira em torno do patrimonialismo e autoritarismo característicos do Estado brasileiro, em que se sugerem caminhos para que o país consiga alcançar um saudável desenvolvimento econômico em harmonia com as liberdades individuais. Entretanto, infelizmente não recebem a devida atenção, conforme será exposto a seguir.
3. A INFLUÊNCIA DA CARTA DEL LAVORO E O CORPORATIVISMO NA CLT
A atual legislação brasileira, CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), é um documento criado em pleno Estado Novo, regime imposto por Getúlio Vargas em 1937 e que vigorou até 1945.
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Alcançado por meio de um golpe de estado, o Estado Novo tinha como características centrais a fortíssima centralização do poder, o nacionalismo e o autoritarismo. No mesmo ano de sua instauração, Vargas impôs uma reforma constitucional, que consolidou o seu poder e implementou, dentre outras coisas, a censura à imprensa (as propagandas eram controladas por meio do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda) e a repressão a movimentos opositores.
Um pouco antes do golpe de Vargas, na Itália, havia sido editada A Carta Del Lavoro, de 1927, que expunha, por meio de trinta declarações creditadas ao ditador Benito Mussolini, os princípios fundamentais sobre os quais deveriam ser regidos o trabalho e suas relações em solo italiano.
Chaves (2016) pontua que a base da carta veio a ser copiada, a posteriori, por diversos países, tais como Portugal, Turquia e, claro, o Brasil. Tal documento serviu de inspiração não somente a constituição federal de 1937, como também foi a pedra de toque para o que viria a ser nossa legislação trabalhista: a CLT. Ambas por meio de Getúlio Vargas e de cunho altamente restritivo, inspiradas no regime fascista.
Desta forma, o regime fascista possuía como característica principal subjugar o indivíduo ante o coletivo. Tal forma de pensar opõe-se frontalmente à liberdade individual defendida por qualquer estado de direito que se defina como democrático e/ou liberal. Utilizando a própria redação do código fascista, quando define o que é o trabalho e o que é a nação italiana, tem-se noção da sua forma de agir:
I - É um organismo, que tem fins, vida e meios de ação superiores em poder
e duração aos dos indivíduos divididos ou agrupados que o compõem. É uma unidade moral, política e econômica, que se realiza integralmente no Estado fascista.
II - O trabalho, sob todas as formas organizativas e executivas, intelectuais, técnicas, manuais é um dever social. A este título, é tutelado pelo Estado. O complexo da produção é unitário do ponto de vista nacional; os seus objetivos são unitários e se reassumem no benefício dos particulares e no desenvolvimento da potência nacional.
Evidencia-se, portanto, o caráter repressivo do regime fascista. Seu objetivo era controlar o trabalhador e os sindicatos. O trabalho era um dever social independentemente do ofício. O bem maior era o desenvolvimento do Estado totalitário.
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Sem embargo, tal pensamento encontra defesa na própria maneira de pensar e governar de seu ditador e idealizador. Para Benito Mussolini, “tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado.”
Entretanto, nos demais países em que a Carta serviu como fonte, os legisladores locais foram cautelosos e mitigaram seu caráter ditatorial. Utilizou-se o paradigma italiano tão somente como base para as leis trabalhistas, até então inexistentes. Por outro lado, no caso do Brasil, conservou-se a maioria dos caracteres fascistas quando da adaptação da Carta à CLT.
Dentre os principais traços que carregam esse caráter interventor, dois merecem destaque: a exigência de imposto sindical e a inexistência de liberdade sindical. O primeiro, por bem, sofreu uma significativa alteração com o advento da reforma trabalhista (lei 13.467/17) e tornou-se facultativo.
No que diz respeito à liberdade sindical, existe um conflito entre ela e outro princípio: o da unicidade sindical. É inexequível o exercício de uma liberdade de afiliação quando se está obrigado a somente ter um representante sindical por categoria em determinado território. Tal mecanismo ainda está vigendo até hoje, apesar dos poucos avanços legislativos.
Chaves (2016) lembra também que, ao fim de 1937, Vargas, em seu tradicional discurso de ano novo, anunciou a nova constituição que vigoraria no país (elaborada por Francisco Campos). De viés fascista, o texto suspendia todos os direitos políticos dos cidadãos, abolindo também os partidos e as organizações civis. Além disso, tanto o Congresso Nacional, como as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais foram dissolvidas e fechadas.
Na Alemanha, a repercussão desse golpe político, foi ovacionada pela imprensa nazista, que saudou Vargas e até dedicou páginas em seus jornais para celebrar o feito. Na Itália, o ministro Galeazzo Ciano (que também era genro de Mussolini) demonstrou todo seu entusiasmo e apoio ao regime brasileiro, tanto que chegou a vir ao Rio de Janeiro para tratar com Getúlio sobre diretivas sobre a majoração do autoritarismo para os demais países da américa latina através do Pacto Anti-Komintern.
Dessa forma, seguiu Vargas no poder, cada vez mais aumentando o culto à sua imagem, tal como fazia Mussolini. Cunhou sua efígie no verso das moedas em circulação. Utilizando-se do populismo, ficou conhecido como ‘pai dos pobres’. Tudo isso para que o
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estado-novista se legitimasse por meio de um discurso com ênfase na justiça social e no incentivo à “modernização” da sociedade brasileira.
Chaves (2016) salienta ainda que escolas e bibliotecas foram infestadas de folhetos nas cores da bandeira nacional, repletos de mensagens patriotas e ufanistas. Biografias de Getúlio eram produzidas e distribuídas, em sua maioria, ao público infantil. Em apenas dois anos do Estado Novo, o serviço de divulgação do governo imprimia e distribuía cerca de 90 mil retratos, cartões-postais e pôsteres do ditador.
Observa ainda Chaves (2016) que, em meio a este contexto populista e autoritário, a nova Constituição buscou fazer um recorte entre o sistema jurídico brasileiro e o corporativismo italiano, principalmente no que tange aos sindicatos e à relação patrão-empregado. A quantidade de leis trabalhistas outorgadas na década de trinta gerou um emaranhado desordenado de normas e preceitos que mais atrapalhavam do que ajudavam.
Sendo idealizada nesta mesma época, a CLT instituiu, implicitamente, entre outras medidas: a subjugação do indivíduo ante o Estado, a eliminação da consciência individual das classes em prol do coletivismo, a subordinação à uma autoridade central, a incorporação e o aumento da intervenção estatal à ordem econômica, além da presença arbitral do Estado no campo das lides coletivas relacionadas ao trabalho.
O pensamento de que se deve primar o interesse público sobre o dos indivíduos, consubstanciado na parte final do artigo oitavo da consolidação, evidencia sua inclinação para doutrinas antiliberais. Nesse contexto, é plausível a cita do art. 8º:
Art. 8º - As autoridades administrativas e a Justiça do Trabalho, na falta de
disposições legais ou contratuais, decidirão, conforme o caso, pela jurisprudência, por analogia, por equidade e outros princípios e normas gerais de direito, principalmente do direito do trabalho, e, ainda, de acordo com os usos e costumes, o direito comparado, mas sempre de maneira que
nenhum interesse de classe ou particular prevaleça sobre o interesse público.
Essas medidas evidenciam que o modelo intervencionista próprio da CLT praticamente esgotou a liberdade dos direitos assegurados aos trabalhadores, subjugando a manifestação da vontade dos sujeitos da relação trabalhista à benção estatal. Essa maneira de encarar o direito trabalhista, hoje, provou ser um equívoco, afinal, o que deveria ser concebido para ser um sistema elementar e básico dos direitos do trabalho, transformou-se no seu único direito, tomando para si tudo que engloba a relação e as lides trabalhistas.
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Destarte, apesar de acadêmicos e influentes tentarem negar a influência fascista na atual legislação trabalhista, tal como o próprio Arnaldo Süssekind, que participou de sua confecção, o fato é que há sim forte influência de tal regime na essência do texto celetista5, sobretudo no que diz respeito à constante submissão das relações dos sujeitos (empregado e empregador) ao controle desmedido do estado, algo totalmente impensável na maioria dos países liberais.
Concluindo, cabe frisar que, justamente por nossa legislação trabalhista ter como base o fascismo, que sofremos diariamente com tamanha ingerência estatal, o que, por obvio, nos reduz a liberdade, esta, inerente ao estado natural do ser humano, bem como elemento essencial aos negócios jurídicos, sobretudo na seara trabalhista. Assim, não há como finalizar tal exposição senão com a brilhante lição do economista francês Frédéric Bastiat, em sua obra “A Lei”, que deixa claro como deve ser a relação ideal entre os sujeitos e o estado: “Não esperar senão duas coisas do Estado: Liberdade e Segurança, e ter bem claro que não se poderia pedir mais uma terceira coisa, sob o risco de perder as outras duas.” (BASTIAT, 2010, p. 9).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização do presente ensaio demonstrou a importância do entendimento de como os princípios do liberalismo, ou a sua ausência, afetam diretamente a maneira de como os estados encaram suas legislações, a forma de se fazer sua política e tratar sobre sua própria ingerência e administração. Não obstante, também salientou em como tais preceitos têm importância quando analisamos o modus operandi do judiciário, sobretudo na esfera trabalhista, pois em nenhuma outra área se torna tão importante defender a liberdade quando a do labor.
Assim, o legislador encontra-se diante de uma escolha: defender a liberdade, a redução da burocracia e a não ingerência estatal nas relações privadas ou persistir no erro de alimentar o Leviatã, amplificando o seu custo de manutenção e enferrujando a macrodinâmica, sem concluir com qualidade a missão para a qual foi criado.
5 Não obstante à sua essência, por vezes o texto celetista até copia e cola o disposto na Carta, como por exemplo
o artigo 17 de tal documento confrontado com o 499, §2 da CLT, que dispõe sobre a demissão sem justa causa, entre outros.
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O fato é que o maior problema da política brasileira, refletida no direito, se expõe na forma como o país resolveu encarar suas prioridades. Em países liberais, prestigiam-se a individualidade, a liberdade e a autonomia. No Brasil, graças a uma legislação rica em estadismo e paternalismo, tem-se a perigosa noção de que concepções coletivistas movem as relações interpessoais.
A problemática de ser prisioneiro não está restrita somente ao sujeito que vive privado de sua liberdade tangível, mas também ao homem livre que deseja perseguir seu sonho, mas é obrigado a manter um sócio com quem não quis fazer negócio: o estado. Além da vida, talvez seja este o maior crime que um governo pode cometer contra seu povo: atentar contra a sua liberdade.
Daí o novo mote: uma política mais liberal e menos estatal, mas com responsabilidade social. É preciso reconstruir o Direito do Trabalho brasileiro, enterrando de vez as influências autoritárias, resgatando o que há de melhor na valorização da autonomia privada, sobretudo na autonomia privada coletiva, por meio de uma profunda reforma sindical e valorização da negociação coletiva.
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