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O enfrentamento da violência contra a mulher no Brasil: as políticas públicas no século XXI e a violação dos direitos humanos

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUI

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM DIREITO MESTRADO EM DIREITOS HUMANOS

RAQUEL CRISTIANE FEISTEL PINTO

O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL: AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO SÉCULO XXI E A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS

HUMANOS

Ijuí, RS 2017

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RAQUEL CRISTIANE FEISTEL PINTO

O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL: AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO SÉCULO XXI E A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS

HUMANOS

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Direito, com Área de Concentração em Direitos Humanos, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Direito.

Orientador: Professor Doutor Daniel Rubens Cenci Co-orientadora: Professora Doutora Jóice Graciele Nielsson

Ijuí, RS 2017

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UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul Programa de Pós-Graduação em Direito

Curso de Mestrado em Direitos Humanos

A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação

O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL: AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO SÉCULO XXI E A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS

HUMANOS

elaborada por

RAQUEL CRISTIANE FEISTEL PINTO

como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Direito

Banca Examinadora:

Prof. Dr. Daniel Rubens Cenci (UNIJUÍ):_________________________________

Profª. Dra. Jóice Graciele Nielsson (UNIJUÍ):______________________________

Profª. Dra. Rosângela Angelin (URI): ____________________________________

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AGRADECIMENTOS

Adepta da teoria que não existem milagres, mas que Deus coloca as pessoas certas, nos momentos oportunos, para nos auxiliar durante a trajetória, agradeço a este Deus, tão presente em minha vida. Uma dissertação não se faz da noite para o dia, são horas de estudos, planejamento, escritas, dúvidas, medos, anseios e incertezas. Nesta trajetória, contei com o apoio e incentivo de muitas pessoas e, agradeço especialmente:

À minha família. Meus filhos Gabriel, Priscila e Pietro pela compreensão da minha ausência e por serem o sol dos meus dias. Ao meu esposo e amigo Flavio Rodrigues por acreditar e me incentivar diariamente. À minha mãe Irene, por ter sido mãe e vó dos meus filhos para que eu pudesse correr atrás dos meus sonhos.

Ao meu orientador e amigo Dr. Daniel Rubens Cenci, pelas provocações que me inquietaram e impulsionaram a buscar novos caminhos. Pelas conversas, projetos e orientações que possibilitaram o meu crescimento acadêmico e a construção desta dissertação. À minha co-orientadora e amiga Dra. Jóice Graciele Nielsson, pela parceria nas produções, eventos acadêmicos e, em sala de aula, que me possibilitaram vivenciar na prática o fazer e o ser docente. O seu conhecimento teórico e as suas orientações foram imprescindíveis para a construção desta dissertação, mas principalmente, para o meu crescimento pessoal.

Ao meu querido amigo e professor Dr. Aldemir Berwig que sempre me incentivou e que muito me ensinou sobre a academia. Obrigada pelas horas de conversas, sempre filosóficas e inquietantes. As colegas e amigas, Daiane Portella, Daniela Hermel e Leandra Fitz pelo incentivo e por acreditarem em mim.

A todos os meus Mestres da academia, que me mostraram o caminho maravilhoso e sem volta do conhecimento, mostrando-me que o mundo não é colorido, mas que é melhor enxergar em preto e branco do que ser alienada, possibilitando, desta forma, lutar por aquilo que realmente vale a pena.

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“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo...”

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RESUMO

Esta dissertação busca compreender quais as condicionantes sócio-jurídicas-culturais contribuíram para que as políticas públicas implementadas no Brasil, para a redução da violência contra a mulher, não fossem plenamente satisfatórias e, quais os enfoques podem ser dados às políticas públicas, a partir da perspectiva dos Direitos Humanos. Na primeira parte verifica como a violência se constitui na sociedade, constando-se que a violência é perpetuada pelas relações de poder e que produz três grandes sistemas de dominação – colonialismo, patriarcalismo e capitalismo. Na segunda parte, apresenta a sociedade patriarcal, que a partir das distinções do sexo biológico estabelece o controle dos corpos, normatizando papéis sociais e sexuais. Trata-se de um poder sistêmico, altamente excludente e sexista, que inferioriza e subjuga as mulheres, a tal ponto, que elas próprias não reconhecem a violência sofrida, mas, é a partir do movimento de mulheres e teorizações feministas que vão ocorrer avanços e o reconhecimento dos direitos das mulheres. Na terceira parte apresenta os avanços dos direitos humanos para as mulheres e o posicionamento do Brasil frente aos tratados internacionais, assumindo o compromisso de criar políticas públicas para a redução da discriminação e violência contra as mulheres. Observam-se os avanços jurídicos para este fim, contudo, as grandes ações vão se dar com as políticas públicas a partir da criação da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres em 2003. Verifica-se que os avanços em políticas públicas foram significativos, mas não suficientes para a redução dos índices de violência, resultado este, que pode estar na priorização do atendimento às vítimas e a responsabilização dos agressores, restando pouco desenvolvimento em ações preventivas.

Palavras-Chave: Violência. Patriarcado. Violência contra a Mulher. Políticas Públicas. Direitos Humanos

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ABSTRACT

This dissertation tries to understand the socio-juridical-cultural conditions that contributed to the fact that the public policies implemented in Brazil, for the reduction of violence against women, were not fully satisfactory, and which approaches can be given to public policies, from the human rights perspective. In the first part, it examines how violence is constituted in society, stating that violence is perpetuated by power relations and produces three great systems of domination - colonialism, patriarchalism and capitalism. In the second part, it presents the patriarchal society, that from the distinctions of the biological sex establishes the control of the bodies, normalizing social and sexual roles. It is a systemic power, highly exclusive and sexist, that undermines and subjugates women to such an extent that they themselves do not recognize the violence suffered, but it is from the feminist movement and feminist theories that there will be advances and the recognition of women's rights. The third part presents the advances of human rights for women and the position of Brazil in the face of international treaties, committed to creating public policies for the reduction of discrimination and violence against women. The legal advances for this purpose are observed, however, the great actions will take place with the public policies from the creation of the Secretariat of Public Policies for the Women in 2003. It is verified that the advances in public policies were significant, but not enough to reduce violence rates. This result may be in the prioritization of care for the victims and the accountability of the aggressors, with little development in preventive actions.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 10

1 O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA NA SOCIEDADE 13

1.1 Produção sócio histórica da violência 13

1.2 Constituição da violência: mecanismos e sujeitos 23

1.3 A sociedade e as relações de violência e poder 31

2 A SOCIEDADE PATRIARCAL E TRANSPOSIÇÃO DAS DISPARIDADE DE GÊNERO

39

2.1 A constituição da sociedade patriarcal 39

2.2 A dominação masculina e violência legitimada pela sociedade 50

2.3 Os primeiros passos em busca da libertação a partir dos movimentos feminista 57 3 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO

BRASIL A PARTIR DOS DIREITOS HUMANOS

67 3.1 Novos olhares a partir dos Direitos Humanos e a construção de mecanismos

de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil

67 3.2 Políticas Públicas para as Mulheres e a Política Nacional de Enfrentamento à

Violência contra às Mulheres no Brasil

73 3.3 A violência contra as mulheres no Brasil a partir dos dados de pesquisa 88

CONCLUSÃO 98

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INTRODUÇÃO

Este trabalho versa sobre a violência contra a mulher e as políticas públicas implementadas no Brasil para o seu enfrentamento. Trata-se de uma investigação desenvolvida no âmbito da linha de pesquisa Direitos Humanos, Meio Ambiente e Novos Direitos, do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito, com área de concentração: Direitos Humanos.

O debate em torno da violência contra a mulher tem-se intensificado na sociedade brasileira, na busca pela igualdade de gênero e reconhecimento dos direitos das mulheres enquanto parte de uma sociedade que busca desenvolver-se dentro de um Estado Democrático de Direito, de modo a garantir na prática os pactos e tratados internacionais de direitos humanos. A partir do debate teórico e da militância social, uma série de políticas públicas vêm sendo construídas para o enfrentamento da violência contra a mulher, principalmente, a partir da ratificação do Brasil nos tratados Internacionais de Direitos Humanos, sendo eles: Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – “Convenção de Belém do Pará” (1994) e Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (1979).

São notórios os avanços realizados no Brasil para o empoderamento, reconhecimento e garantias de direitos humanos às mulheres, principalmente a respeito dos encaminhamentos acerca da violência. Contudo, os índices apresentados por órgãos de pesquisa do país não apontam uma redução significativa deste fenômeno, o que nos motivou a realizar uma análise para verificar: 1. Quais as condicionantes sócio-jurídicas-culturais contribuíram para que as políticas públicas implementadas no Brasil, para a redução da violência contra a mulher, não fossem plenamente satisfatórias? 2. A partir da perspectiva dos Direitos Humanos e dos índices de violência, quais enfoques podem ser dados às políticas públicas?

A discriminação e a violência contra as mulheres constituem-se em um problema cultural, social, econômico e político, ultrapassando barreiras geracionais, e todas as tentativas de superação deste mal, implementadas até agora, inegavelmente não são satisfatórias, pois não atuam diretamente na sociedade e na família, para a conscientização e reconstrução de novos modelos de comportamentos sociais. A hipótese desenvolvida neste trabalho foi a de

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que, quando se trata de questões de gênero, a atuação para enfrentamento da violência e discriminação perpassa por três eixos - prevenção, atendimento e responsabilização. No entanto, as políticas públicas têm atuado apenas em dois - atendimento e responsabilização - deixando de lado aquele que certamente poderia fazer a diferença para a redução significativa da violência, o eixo da prevenção, que ocorre pela educação e pela cultura em gênero.

A metodologia utilizada para a realização da pesquisa, classifica-se de acordo com Gil (2010), quanto a finalidade, a abordagem, aos objetivos e aos procedimentos técnicos. Quanto a sua finalidade, trata-se de uma pesquisa básica, uma vez que identifica os avanços promovidos no combate a violência, no campo jurídico e das políticas públicas vigentes, bem como, elementos que contribuem para a construção de uma sociedade da não violência. Quanto à abordagem, a pesquisa é qualitativa, pois existe vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito, resultados que não podem ser traduzidos em números, sendo então, analisados qualitativamente à luz do referencial teórico construído. Quanto aos objetivos, a pesquisa é exploratória e descritiva, pois através do aporte teórico para a construção sócio histórica da violência, da análise das políticas públicas e dos dados descritos sobre a violência contra a mulher, foi possível uma maior compreensão do problema para a análise da pesquisa. Em relação aos procedimentos técnicos, a pesquisa é bibliográfica e documental, pois desenvolveu-se a partir de material elaborado como artigos científicos, livros, revistas, registros estatísticos.

Deste modo, a presente pesquisa desenvolve-se em três capítulos. No primeiro capítulo busca-se compreender a construção sócio histórica da violência em sentido amplo e como ela predomina as relações humanas. Constata-se que dentre as diversas formas de violência existentes na sociedade, há uma forma de violência quase invisível e imperceptível que mantém o poder estruturante da sociedade, produzindo dominação em massa, através da construção ideológica e da sua atuação sobre as pessoas. Desta forma, surgem os sistemas de dominação - patriarcalismo, colonialismo, capitalismo - estabelecendo normas e institucionalizando-as em todos os espaços de inserção humana.

No segundo capítulo analisa-se o patriarcado, o primeiro grande sistema de dominação da sociedade, que impôs papéis distintos sobre homens e mulheres, a partir das distinções dos sexos biológicos, ou seja, pela dualidade macho/fêmea. Verifica-se que não há uma forma única de patriarcado, mas diversas formas a partir das diversas culturas existentes na sociedade e que o sistema patriarcal é um sistema estruturado de poder que impõe uma realidade social do mundo desejado, como legítima de ser, de modo que, dominadores e dominados naturalizam as diferenças e, consequentemente, os papéis e espaços de cada um.

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No terceiro capítulo evidenciam-se os avanços das políticas públicas realizadas no Brasil para as relações de gênero e para enfrentamento da violência contra as mulheres, a partir do olhar dos Direitos Humanos, especialmente, a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, contudo, as políticas públicas serão pautadas de efetiva a partir de 2003, com a criação da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, desencadeando uma série de medidas em todo o país, de forma ampla e articulada, em todas as esferas do governo – federal, estadual e municipal – e da sociedade, visando o reconhecimento dos direitos e garantias das mulheres, o empoderamento feminino e a redução de qualquer tipo de discriminação ou violência. Por derradeiro, os avanços foram significativos e importantes, mas não suficientes para reduzir a violência contra as mulheres. Pela análise temporal do início das políticas públicas percebe-se que o desenvolvimento está apenas no início, o que merece continuidade e efetividade das políticas públicas, independente da troca de governo e, para além disso, é possível vislumbrar alguns elementos possíveis para o desenvolvimento de uma sociedade não violenta, especialmente, para as mulheres.

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1 O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA NA SOCIEDADE

Compreender a dimensão da violência existente na sociedade é imprescindível, pois a violência faz parte das relações humanas, portanto, existente em todos os tempos. Este primeiro capítulo tem como objetivo empreender uma análise história e filosófica acerca da violência, sem a pretensão de esgotar o tema, mas possibilitar a compreensão das diversas facetas da violência e como ela se constitui na sociedade, ou melhor, porque ela está presente nas relações humanas.

A história nos revela uma sociedade marcada pela violência. Da Idade Antiga à contemporaneidade, a história está marcada por constantes formas de violência. Portanto, refletir sobre a violência implica em conhecer a história da própria humanidade. Obviamente que aqui não será feito uma narração da história, até porque não é o objetivo deste trabalho, mas compete trazer algumas evidências de como a violência está impregnada na história humana e desta forma analisar suas manifestações em diferentes épocas para compreender como ela se reproduz no contexto sócio cultural da humanidade.

1.1 Produção sócio histórica da violência

Embora tenhamos indícios da convivência humana desde os mais remotos tempos, nossa análise inicial acerca da violência remonta à Antiguidade, período no qual se verificam os primeiros impérios e civilizações existentes, no Oriente Médio e na África por volta de 3000 a.C. Neste período o Egito foi governado por faraós e a sociedade era dividida em classes. A autoridade era o faraó, considerado como um deus. Abaixo, vinham os sacerdotes, militares e escribas, mais abaixo, os camponeses, artesões e comerciantes e, por último, os escravos, que trabalhavam muito e recebiam em troca água e comida. A esfinge e as pirâmides foram erguidas por escravos e com a morte de milhares deles. Acreditava-se que as pirâmides “asseguravam ao faraó a vida após a morte” (MARRIOTT, 2016, p. 15). Este período nos revela uma sociedade marcada pela divisão de classes cuja desigualdade predominava as categorias. A violência das relações humanas norteava-se pelo poder e a condição de escravo implicava não apenas na restrição da liberdade e a trabalhos forçados, mas na restrição do mínimo necessário a sobrevivência do corpo físico, a restrição ao alimento, a água e ao descanso.

Além disso, constantes guerras eram mantidas com outras civilizações para manutenção do império ou ampliação dos poderes sob outros povos, afinal, eram necessários mais escravos para edificação das pirâmides e manutenção das classes privilegiadas. O sistema

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econômico da época era controlado pelo Estado e a base deste sistema era a agricultura. Os impostos eram pagos com a produção de grãos que eram utilizados para manter o império e o “excedente” distribuído para alimentar os escravos. De acordo com ZEIFERT (2004, p. 32 - 38) “uma sociedade escravista tem conexão com formas de produção e sua dinâmica” e, portanto, constituem-se e mantem-se sob o predomínio de interesses dos detentores de poder e nessa “perspectiva os senhores são cidadãos ou súditos de um Estado, limitados por suas leis e costumes e subordinados ao controle político”, ou seja, o poder repressivo e coercitivo do Estado garante e mantém o sistema escravista ao longo dos tempos, por uma lógica econômica e política de manutenção do poder. Assim, a escravidão, a servidão e o proletariado, sucessivamente, apresentam-se como formas de exploração dos humanos para a manutenção das forças de poder.

Ainda na Antiguidade, as cidade-estado (pólis) surge nos povos gregos, por volta de 800 a.C, conforme elucida Zeifert (2004), com os primeiros sinais de democracia e cidadania. A sociedade é dividida em classes a partir das aptidões de cada um. Em Atenas a divisão hierárquica se dá pelos Eupátridas – cidadãos nascidos em Atenas, homem livre e com direitos de cidadania -; os Metecos – estrangeiros e que, portanto, eram considerados homens livres, mas sem poder exercer os direitos de cidadania, pagavam impostos e não podiam adquirir propriedades – e os Escravos – era a maioria da população Ateniense, filhos de escravos ou prisioneiro de guerra, trabalhavam na agricultura, no artesanato, construções e comércio. E novamente, identifica-se uma sociedade marcada pela divisão de classes, aristocrata e excludente.

Na sociedade Romana, também houve a divisão de classes e de acordo com Cáceres (1988), dividiam-se entre os Patrícios – minoria da população, descendentes das primeiras famílias Romanas, eram proprietários de terras e escravos, considerados cidadãos e ocupavam cargos públicos; os Plebeus – maioria da população, sem descendência dos patrícios, não eram considerados cidadãos, trabalhavam como comerciantes ou artesões e pagavam impostos; os Clientes – vinculados aos patrícios, dependiam da sua proteção que era garantida em troca de trabalho; os Escravos – adquiridos pela compra ou captura militar. Nas assembleias – espaço de decisão da cidade – participavam os patrícios e plebeus, contudo, somente aos patrícios era permitido decidir. Em 450 a.C surge o primeiro código de leis escritos na sociedade romana, a chamada Lei das Doze Tábuas, que precederá os demais códigos Ocidentais. Tratava-se de leis de organização e procedimento judicial, com regulação do pátrio poder, das sucessões, da propriedade, da servidão, dos delitos, dos direitos público e sagrado. Evidencia-se uma sociedade patriarcal, em que o pai detinha direito de vida,

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liberdade e morte de seus filhos e esposa. Além disso, a punição aos delitos de dava de forma muito violenta, com compensações pecuniárias ao prejuízo causado e até pena de morte por crime de injuria.

Mais adiante, foi encontrado outro código, que se acredita ter sido escrito por volta de 1795 a.C. no império da Babilônia, o chamado Código de Hamurabi, com 21 colunas e 282 cláusulas. O código refere-se a três classes sociais: a classe mais alta dos homens livres de maior status “awelum”, a classe dos homens livres, mas de menor status “mushkenum” e a do escravo “wardum”. O código apresenta a relação de comércio, família, trabalho e propriedade prevalecentes da época. Demonstra uma sociedade organizada e preocupada com a proteção dos bens como as propriedades, produção e comércio, bem como com as relações familiares ou sociais – contudo, mostram-se pouco tolerantes. A violência predomina as relações das pessoas e as penas são “brutais e com excesso de penas corporais” (DHNET, 2017), ou seja, na lógica do dente por dente, olho por olho, as penalidades se baseavam muito daquilo que se aceitava como natural no cotidiano das pessoas.

Por volta 800 a.C. a 400 d.C. verifica-se o período dos grandes reinados, como o de Ciro II (o Grande) que chegou a “dominar um quinto da população mundial” (MARRIOTT, 2016, p. 29). Foram épocas de constantes guerras em busca de mais poder e as pessoas tendiam a se habituar rapidamente com as mudanças de governos. A lógica escravista se mantinha e a população da região conquistada era escravizada.

É por volta do século V a IV a.C. que ocorre o florescimento da arte e da intelectualidade, com os sofistas Sócrates, Platão e Aristóteles. Através dos discursos dos filósofos, constatamos a forma de organização e discursos justificadores da época, que formavam a estrutura social, jurídica e política. Assim, na obra A Republica de Platão, identificamos a preocupação com uma sociedade ideal que deve respeitar as Leis. De acordo com Dias (2010) as reflexões dos sofistas dizem respeito à ética na sociedade a partir da individualidade e da pólis que resulta de um processo natural. A ética está ligada a fazer aquilo que objetiva, no final o bem, portanto, a ética está muito mais ligada a virtude do comportamento que deve se dar através da “educação ética”. Para Aristóteles a justiça consiste “na virtude de cumprir a lei”, que tem como finalidade o “bem comum”. Portanto, há justiça em organizar os espaços e atividades dos cidadãos e é necessária a solidariedade entre os indivíduos de modo a garantir os espaços e direitos de cada um, contudo, mesmo na solidariedade há divisão de papéis e de classes e a justiça não é a mesma para todos. A participação nas assembleias que estrutura a democracia ateniense e, onde ocorre o exercício da cidadania, com a participação popular nas decisões da pólis, é permitida somente aos

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cidadãos, excluindo os escravos – maioria da população, estrangeiros, filhos menores e mulheres – considerada um ser livre, que assumia os afazeres domésticos e devia respeito ao marido.

Mais adiante temos o surgimento do Cristianismo, com o nascimento do judeu chamado Jesus. As autoridades julgavam-no como “subversivo político e social” (MARRIOTT, 2016, p. 34). Seus ensinamentos ocasionavam conflitos entre as autoridades, o que levou a sua condenação à morte, em Jerusalém, sendo entregue a Pôncio Pilatos que determinou a sua crucificação e morte. Nos séculos seguintes os seus ensinamentos foram se propagando e os imperadores romanos tentaram erradicar o perigo daqueles novos pensamentos. Assim, iniciaram-se a caça aos cristãos, que eram perseguidos e torturados até a morte. A crueldade com que se matavam os cristãos demonstra uma violência extrema do ser humano contra o ser humano. Assim, os cristãos eram encarcerados, jogados aos leões ou aos cães, crucificados, colocados em fogueiras e queimados vivos, dentre tantas outras formas de tortura. Somente em 313 d.C. é que o “imperador Constantino promulga um decreto de tolerância ao cristianismo” (MARRIOTT, 2016, p. 35).

A própria bíblia, sagrada para os cristãos, nos revela cenas explícitas da violência, desde a criação do mundo até a morte de Jesus Cristo. No primeiro testamento temos a figura de um Deus inquestionável e extremamente punitivo. No segundo testamento a presença de um Deus mais justo e amável. Contudo, percebe-se em ambos os testamentos uma sociedade marcada pela violência, pela discriminação e pela exploração. Não há dúvidas que em grande medida, as desigualdades de gênero existentes na sociedade foram arquitetadas pela religião. No primeiro momento, na criação do mundo, em Gêneses, Deus cria a mulher a partir de uma costela de Adão – demonstrando que a mulher existe a partir do homem e que além de companheira deveria auxiliar lhe. Na sequência, retrata a mulher como uma criatura ignorante e ingênua que deixou-se levar pela serpente, mas perigosa pois, seduziu Adão a pecar também. Assim, o próprio Deus pune a mulher e o homem os expulsando do paraíso, declarando “Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará"(GÊNESIS 3:15,16), traçando o destino da mulher de procriadora, de sofrimento e de submissão ao homem. Também, em outras passagens se referirá a mulher, demonstrando-a como a pecadora Maria Madalena ou como o seu oposto, existente somente em uma mulher que traria o filho de Deus, a “virgem” Maria. No decorrer da história, como será abordado em outras partes deste trabalho, fica evidente a preocupação da Igreja em manter a constante vigilância sobre as

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mulheres, pois representam o perigo para as relações de poderes existentes, principalmente, contra os domínios da Igreja na Idade Média.

Bedin (2013) elucida que a Idade Média foi o período histórico entre o fim do Império Romano e o surgimento do Renascimento, marcado pelo arcaísmo e obscurecimento, pelo enfraquecimento comercial, pela predominância rural com a categorização de senhor feudal e de servidão ou vassalagem – esta configuração social se deu ao período histórico marcado por uma forte insegurança da sociedade que vinha sofrendo com a violência de saques constantes, com a fome e a peste – possibilitando uma troca entre feudal e servo. Assim, o feudal disponibilizava um pedaço de terra ao vassalo para viver “seguramente” e em troca o vassalo tornava-se um servo fiel. A sociedade nesta época possui uma “estrutura social extremamente rígida [...] dividida em três grandes ordens: os que rezam, os que combatem e os que trabalham. ” (BEDIN, 2013, p. 43).

Também foi o período em que a base cristã e romana predominou na Europa e ocorreu o domínio do poder pela Igreja, a partir da queda do Império Romano. Assim, a Igreja passa a dominar o extremo entre a vida e a morte, tornando-se “referência central” que “deu ao homem medieval um horizonte de sentido comum: participar do grande drama da salvação da humanidade. ” (BEDIN, 2013, p. 25). Portanto, a Igreja era a única entidade representante de Deus na terra, que recebia os seus desígnios e, aos homens que almejassem a vida eterna, deveriam curvar-se diante das suas ordens. De acordo com Bedin (2013) o poder papal chegou a sobrepor-se ao poder dos reis adentrando-se na política e em todos os segmentos da sociedade.

É importante ressaltar que a idade média foi marcada por guerras constantes, pois era a principal forma de obter e manter o poder, tanto dos impérios como da Igreja. Foi no século XI que ocorreu a primeira Cruzada com o objetivo de expulsar os infiéis da Terra Santa. Batalhas foram travadas pelos católicos e muçulmanos e milhares de pessoas foram mortas. Na Europa, cidades inteiras eram saqueadas e se travou guerras sangrentas na disputa por território, manutenção econômica, política e poder, como a Guerra dos Cem Anos que envolveu os reinos da França e da Inglaterra. É importante ressaltar, que neste tipo de sociedade, as crianças do sexo masculino desde cedo eram preparadas para se tornarem “grandes” guerreiros, “leais e corajosos”, reforçando desde cedo a sua masculinidade.

Não se pode esquecer a instituição da Inquisição em 1231, pelo papa Gregório IX. A inquisição era composta por tribunais para julgamento de todos aqueles que eram considerados uma “ameaça aos preceitos” da Igreja Católica Romana, mas não só isso, no final século XIII era necessário centralizar e hierarquizar o poder. Os camponeses,

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especialmente as mulheres, eram um perigo para o sistema feudal da época, conforme Rose Marie Muraro introduz no livro o Martelo das Feiticeiras, de Kramer; Sprenger (2015). Para ela, as camponesas por conhecerem as ervam e seus efeitos curadores se tornaram uma ameaça a classe médica e, também, para a Igreja, pois, tendo os segredos das curas do corpo e da alma, fugiam aos preceitos católicos e protestantes, pois estes eram exclusivos de Deus. Além disso, as mulheres começavam a participar das revoltas camponesas contra as classes dominantes. Portanto, a inquisição que durou quatro séculos, foi “uma perseguição muito bem calculada e planejada pelas classes dominantes, com o objetivo de conquistar maior centralização e poder.” (KRAMER; SPRENGER, 2015, p. 19).

Sob esse aspecto, Michel Foucault (1988) afirma que até metade do século XVII existia um “arejamento e expressão livre” do sexo. No final do século XVII o discurso em torno do sexo foi percebido como uma forma de exercício de poder, uma vez que sexo se associa a prazer e, por consequência, em saber. Como, para o filósofo, saber é poder, é necessário reprimir tudo que envolva o sexo, afinal “Prazer e poder não se anulam; não se voltam um contra o outro; seguem-se, entrelaçam-se e se relançam” (FOUCAULT, 1988, p. 48). Assim, o século XVIII foi marcado pelo domínio da sociedade burguesa/capitalista e caracterizou-se pela repressão do sexo, sendo difícil de denominá-lo até pelo uso da linguagem. Tudo em torno do sexo era proibido, oculto, feio, pecaminoso e a censura ocorria por parte do direito canônico, pastoral cristão e da lei civil. Com a evolução da pastoral católica e do sacramento da confissão criou-se o discurso do sexo como busca da verdade, pois era essencial “controlar o corpo e a sexualidade” através da sua normatização. De acordo com Rose Marie Muraro em Kramer e Sprenger (2015), no século XVIII, ou seja, depois de quatro séculos de caça às bruxas, as mulheres se tornaram frígidas, reduzidas ao espaço doméstico e sem acesso ao estudo, transmitindo “naturalmente” aos filhos os valores patriarcais.

O período da inquisição, por sua vez, certamente foi um período violento da história, não somente pela forma como se dava toda a inquisição - como as torturas e a morte de milhares de pessoas - mas pela credibilidade que a sociedade “às cegas” dava à Igreja de forma incontestável. As pessoas com medo “das bruxas” ou dos inquisidores, denunciavam-se umas às outras, na grande maioria das vezes, por rinchas ou meras suspeitas de acontecimentos fantasiosos.

Se na sociedade primitiva as penas referiam-se a vingança privada, regulada pela Lei de Talião, com a imposição de penas em codificações, como o Código Hamurabi ou pela Lei das XII Tábuas, na Idade Média as penas passam a ser uma vingança divina, pois a repressão e castigos são extremamente cruéis, e exercidos pelos detentores do poder, em nome de Deus.

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De acordo com a análise empreendida por Foucault (2009), ao refletir sobre o sistema punitivo do século XVIII até a contemporaneidade, constata-se a realização do suplício, uma forma de condenação, com dor extrema e cheia de requinte de crueldade, em plena praça pública, para que o povo presenciasse. De acordo com Foucault (2009, p. 13) a “execução pública é vista então como uma fornalha em que se ascende a violência”, ou seja, a violência aos olhos causava duas reações, a excitação em praticar a violência e/ou a indignação contra os executores.

Diante desta percepção, a punição começou a ser ocultada e se inserir na consciência de cada um, de forma abstrata, mantendo o controle de poder sem demonstrar a violência estatal como uma arbitrariedade, mas como uma consequência do agir delituoso. Somente no fim do séc. XVIII e início do séc. XIX é que começa a ocorrer uma substituição do suplício, por penas com caráter de “humanização”, encerrando com os espetáculos punitivos e anulando-se a dor, pela aplicação das penas de prisão, trabalhos forçados, interdição de domicílio, deportação e multa. Também se aplica a pena de morte, com o uso da guilhotina, prevendo uma morte sem dor e igual para todos. A aplicação das penas, seguem um procedimento processual e as penas têm pretensões curativas, de reeducar e corrigir o criminoso, contudo, tais medidas não são menos violentas para manutenção do poder sobre os corpos, pois o que se substitui é a controle do corpo para o controle do “espírito”, ou antes, um jogo de representações e de sinais que circulem discretamente, mas com necessidade e evidencia no espírito de todos” (FOUCAULT, 2009, p. 84). O que se pretendia não era reduzir as penas, mas qualificá-las de modo a não serem contestadas pela população. Com o desenvolvimento da sociedade capitalista e da preocupação com os bens e a propriedade, passa-se a punir os crimes patrimoniais e ocorre a reforma penal no século XVIII, em que a punição do infrator se dava em defesa da sociedade, assim, o infrator passou a ser inimigo de todos.

De acordo com Bastos, Cabral; Rezende (2010, p. 27-28) com o encerramento dos suplícios, abre-se caminho a uma nova forma de violência, a “marionetização dos corpos e almas”, criando corpos dóceis que, para Foucault ficou evidente que a racionalidade moderna é capaz de ser mais cruel quando cria corpos dóceis do que a racionalidade política dos suplícios, ou seja, com o suplício verifica-se que alguém não se formatou ao passo que no presídio, alguém está a caminho da formatação.

Evidencia-se pela forma de julgar e punir, nas diversas épocas da humanidade, as formas de exercício do poder e, consequentemente, da violência enraizada na sociedade. Mesmo com a substituição do suplício, o corpo não deixou de ser punido, pois além dos trabalhos forçados e do aprisionamento, a restrição de alimento, de água, da privação sexual,

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dentre outros, como afirma Foucault (2009) não deixam de castigar o corpo. Assim, no fim da Idade Média a sociedade foi marcada por séries de guerras políticas e religiosas em nome do poder e a violência passou a ser legitimada quando exercida por ordem do governo.

Na sequência, temos a Idade Moderna que inicia a partir da tomada de Constantinopla pelos Turcos e encerra com Revolução Francesa em 1978. De acordo com Cáceres (1988) foi um período marcado pela expansão comercial com o aumento das cidades e a abertura do sistema capitalista, ou seja, a produção foi voltada para o mercado, com objetivos lucrativos e de ganho de capital. Também, foi o período das grandes navegações, com a descoberta de novas terras e, como consequência, novas experiências, principalmente, culturais. Este período é conhecido como o Renascimento, em que retoma muitos valores da antiguidade, da cultura greco-romana e, utiliza-se mais da razão do que dos sentimentos, consequentemente, os valores da Igreja começam a ser criticados e abandonados, ocorrendo o declínio da Igreja e a Reforma Protestante. Podemos dizer que é um período de intensificação das Guerras Religiosas e das grandes Revoluções (Inglesa, Americana e Francesa).

A Revolução Francesa, que delimitou o fim da idade moderna e início da idade contemporânea, teve como lema a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ocorrendo no século XVIII e foi uma revolta dos trabalhadores, camponeses e burgueses contra a nobreza, devido aos altos impostos cobrados para manter a luxuosidade e regalias da corte, bem como, os mandos e desmandes de um rei absolutista. De acordo com Cáceres (1988) a divisão de classes na França era formada pelo clero – apenas alguns que tinham privilégio e não precisavam pagar impostos -, o baixo clero – uma parte pequena da população, a nobreza, que era formada pela família do rei, condes, duques e marqueses, que viviam as regalias e luxuosidades da corte – e o restante do povo – trabalhadores, camponeses e burgueses. Assim, na ânsia pela melhoria de qualidade de vida, de trabalho e direito de participar da política, a sociedade burguesa articula-se com o restante do povo e iniciam a revolta, tomando a Bastilha - local onde eram presos e/ou mortos os adversários do rei – em 1789. Em 1793 os revolucionários guilhotinam o rei Luís XVI e sua esposa Maria Antônia, tomando o poder e, em 1789 é promulgada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento de extrema importância no que se refere a garantia de direitos sociais, igualitários e políticos, que viria a influenciar outros documentos de direitos pelo mundo. Por outro lado, a burguesia atuou de modo a garantir o poder e, consequentemente, o domínio social através do sistema capitalista.

No cenário de nascimento da modernidade, papel significativo foi aquele exercido por Olympe de Gouges, uma ativista feminista, política e abolicionista que atuou

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significativamente na Revolução Francesa. Uma mulher que questionava os padrões da época e não se submetia as regras e ditames da sociedade. De acordo com Silva e Nunes (2017) Olympe juntou-se aos revolucionários, manifestando suas preocupações com os direitos das mulheres e a abolição dos escravos. Por convocação, participou da Assembleia dos Três Estados, que culminaria na Revolução Francesa. Atuou diretamente na Revolução Francesa, defendendo a igualdade para todos, homens e mulheres, reivindicando a participação das mulheres na esfera pública da sociedade. Certamente nem mesmo os revolucionários concordavam com tais ideais, o que ficou evidente com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que em seu art. 1º declara que “Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.”, pois a terminologia utilizada, homens, na época trazia interpretações dúbias, uma vez que traria em seu bojo apenas como reflexo de direitos dos homens do sexo masculino ou estaria ligado a ambos os sexos feminino e masculino.

Na interpretação de Olympe, tal declaração era contra os direitos das mulheres e, assim, elabora a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, em 1791, em que no art. 1º declara “ A mulher nasce livre e tem os mesmos direitos do homem. As distinções sociais só podem ser baseadas no interesse comum.” e, no art. 2º que “O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis da mulher e do homem: esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e, sobretudo, a resistência à opressão.”. Pode-se afirmar que ambas as declarações - mesmo não sendo validada na sociedade a elaborada por Olympe de Gouges - foram o marco para o início dos movimentos de mulheres que seguiriam pelo mundo a fora, o chamado feminismo. Por fim, por ser considerada uma ameaça aos ideais revolucionários, Olympe de Gouges é presa, julgada e condenada pelo tribunal revolucionário, sendo guilhotinada em 1973.

Mais revoluções seguem no curso da história, dentre elas a Revolução Industrial adentrando o século XIX, que se alastrou rapidamente pela Europa. Foi um período marcado pela invenção das máquinas, da criação das fábricas e do alargamento da técnica, com o desenvolvimento econômico capitalista que visava mais lucros e com menores custos, consequentemente, com a exploração de mão-de-obra barata e mais produção. De acordo com Martins (2002, p. 36) as máquinas a vapor, revolucionaram a forma de produção, que antes se dava de modo artesanal, consequentemente, homens foram substituídos por máquinas, surgindo filas de desempregados, contudo, os baixos custos das mercadorias aumentaram o consumo, sendo necessária uma maior produção. Foi uma época de extrema exploração, pois sem direitos trabalhistas, os operários (homens, mulheres e crianças) eram obrigados a

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trabalhar até 16 horas por dia nas fábricas, sob condições insalubre e, para piorar a situação, as guerras constantes pela Europa traziam consigo a fome.

O descontentamento dos operários pelas condições submetidas, aliados ao conjunto de desempregados, faz surgir os primeiros movimentos das classes operárias que visavam melhores condições e redução da jornada de trabalho, tendo o Estado que intervir para estabelecer condições mínimas que deveriam ser respeitadas pelos empregadores. Somente após a primeira Guerra Mundial é que vai surgir o “chamado constitucionalismo social” (MARTINS, 2002, p. 37), sendo primeiramente na Constituição do México de 1917 e depois na Constituição de Weimar em 1919, na Alemanha. Posteriormente, com o Tratado de Versalhes (1919) é que se cria a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com objetivos de regular e proteger as relações entre empregador e empregado, no âmbito internacional.

O período da Revolução Industrial foi determinante para o desenvolvimento tecnológico da sociedade, mas principalmente para o desenvolvimento capitalista, modelo econômico ao qual Marx lutou contra, pois “a expropriação da massa do povo de sua base fundiária constitui

a base do modo de produção capitalista.”(MARX, 1996, p. 386). O que Marx coloca é que o

sistema capitalista é uma exploração da massa operária - grande maioria da população e parte mais vulnerável da sociedade - pois esta disponibiliza o seu maior bem, a sua mão de obra, a serviço e enriquecimento do empregador - já que não recebe pela sua real valia - prevalecendo o domínio de classes e as desigualdades sociais predominando nas relações econômicas, políticas e sociais, conforme afirma Odalia (2012, p. 31) numa violência de “cima para baixo”.

Na sequência da história tivemos duas Guerras Mundiais. A primeira Guerra Mundial envolveu as grandes potencias do mundo, causada por conflitos imperialistas pelo domínio do mercado e do mundo colonial (Cáceres, 1988, p. 217), com a organização da Tríplice Aliança – Alemanha, Itália e Austro-Hungria – e da Tríplice Entente – França, Rússia e Inglaterra – resultando na implantação do socialismo na Rússia, fascismo na Itália e nazismo na Alemanha. Ocorreu o declínio da Europa e a ascensão dos Estados Unidos e se criou a Sociedade das Nações com objetivos de manter a paz mundial. Blainey (2008, p. 299) retrata bem esse período quando afirma que “o poder de fogo das metralhadoras modernas e das armas pesadas, puxadas por cavalos, era tão devastador que os soldados que avançavam contra o inimigo eram dizimados aos milhares” evidenciando o avanço bélico produzido após a revolução industrial e deixando perceptível aos impérios que somente a guerra poderia trazer a paz.

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A segunda Guerra Mundial foi decorrência da primeira guerra inacabada. A crise mundial no início da década de 1930 e a Alemanha sob o comando de Hitler e a Rússia sob o comando de Stalin, desencadearam a II Guerra Mundial. De acordo com Blainey (2008, p. 307) logo na sequência aconteceu a II Guerra Mundial porque os vencedores Estados Unidos e Japão, logo se retiraram após o término da I Guerra e, a Itália, também vencedora, estava inconformada por não terem lhe concedido as colônias alemãs na África. Apenas a Inglaterra e a França – também vitoriosas – defendiam o tratado de paz, contudo, a Alemanha invade a Polônia em 1939, dando início a maior de todas as guerras. A experiência da Segunda Guerra Mundial, resultou em mais de 70 milhões de mortos, destes, 11 milhões de pessoas mortas em campos de concentração, dentre elas, judeus, comunistas, homossexuais e deficientes, apresentando à humanidade o horror da violência e da criatividade humana em causar a dor e sofrimento.

Enfim, os livros estão repletos de histórias de guerras políticas e religiosas em nome do poder. Retratam as barbáries cometidas contra os heréticos, judeus, leprosos, escravos, índios e imigrantes. Mais adiante, dos tempos modernos à contemporaneidade a civilidade e comportamentos padrões regem a sociedade e a violência torna-se legitima ou ilegítima a partir da organização dos estados e das suas diretrizes acerca do que é justo ou injusto, falso ou verdadeiro, certo ou errado.

1.2 Constituição da violência: mecanismos e sujeitos

Estudando um pouco a história da humanidade, fica difícil compreender onde se inicia a guerra ou onde ela termina. A violência predomina todas as relações, sejam elas políticas, sociais, culturais ou econômicas, em todas as épocas da humanidade, como foi possível vislumbrar rapidamente nos parágrafos antecedentes. A fim de compreendê-la, biólogos, filósofos, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, enfim, muitos são os teóricos, das mais diversas áreas, que empreendem estudos e análises, tentando explicar o fenômeno da violência. Neste sentido, considerando tamanha diversidade de estudos, é necessário empreender um olhar transdisciplinar, para compreender todas as dimensões envolvidas com o fenômeno. Tal olhar mais abrangente torna-se necessário, e é desenvolvido neste capítulo, ao abordar a perspectiva de vários autores, alguns inclusive de correntes teóricas distintas, mas que foram, ao longo do tempo, indispensáveis para a formulação de um conhecimento que tornasse possível desvendar a violência e sua implicação para nossa vida em sociedade.

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Mas afinal, o que se entende por violência? A violência existe a partir da agressividade ou violência e agressividade são a mesma coisa? Para Pereira (1975, p. 26) a definição dada pelos léxicos para violência é que é um “o ato contrário à razão, à justiça, ato veemente, resultante do emprego da força para a solução de qualquer conflito humano, seja individual, seja coletivo.”. De acordo com MICHAUD (2001, p. 7) ““violência” vem do latim violentia, que significa violência, caráter violento ou bravio, força. O verbo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. ”. Assim, a referência que se tem de violência é a virilidade e confunde-se com o emprego da força física, ou seja, de uma ação com quantidade/potência. Ainda, Michaud (2001) tentando definir a violência afirma que ela existe a partir de uma dada situação em que os sujeitos interagem, mas que um ou vários “agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais” (MICHAUD, 2001, p.11). A partir da sua definição, o autor tenta dar conta de várias especificidades que estão contidas na violência: os diversos sujeitos envolvidos; as diferentes modalidades de produção, a distribuição temporal e os diferentes danos impostos pela violência.

É possível afirmar que a violência implica numa ação ou omissão de um ou mais agentes, mas que objetivam um resultado, para além da própria lesão, ou seja, há um desejo implícito na conduta violenta. Assim, de acordo com Pereira (1975, p. 27 e 28) a violência não é igual a agressão pois a violência é a expressão viva da agressão. Para o autor a agressividade não é exclusividade do ser humano, pois é um impulso natural, enquanto ser vivo, contudo, devido a racionalidade humana, a violência torna-se exclusiva do ser humano, pois trata-se de uma “agressão calculada, programada, consciente, voluntariosa, objetivamente cruel” que se manifesta de diversas formas, portanto, a dimensão da violência é muito mais “sutil e profunda”. Como em qualquer espécie animal encontramos o instinto agressivo, como uma característica biológica de cada espécie para a sobrevivência, contudo, a violência para Pereira (1975, p. 62) “não é uma consequência do instinto agressivo, mas uma forma de mutação deformante da agressividade natural”, por isso, consciente e livre.

De acordo com o psicanalista Goldberg (2004, p. 34) existem duas espécies de agressão: a agressão comum que pertence a todos as classes de animais, impulsiva e instintiva, para preservação da vida e da espécie e, a chamada agressão cruel, existente somente no ser humano que é “o único primata capaz de torturar membros da mesma espécie sem motivo biológico, econômico e com obtenção de prazer (sadismo, paixão pelo poder sobre outro ser de sensibilidade)”. Esta forma de agressão cruel, existente e visível na história da

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humanidade, não necessariamente tenha se dado por mecanismos de lutas ou contato físico, como afirma Goldberg (2004, p 38), pois na maioria das vezes utilizam-se sinais sociais que somente a sua ameaça já é suficiente para dominar pessoas e grupos inteiros.

Muitas abordagens e estudos têm-se mostrado no campo da psicologia acerca da agressividade, e segundo Michaud (2001) a psicologia geral busca correlacionar certos fatores a conduta agressiva, a partir de estudos experimentais e estatísticos que consideram algumas experiências que podem desencadear a agressividade e a raiva, como privação de alimento, por exemplo. Outras correntes teóricas partem de que os modelos de comportamentos agressivos durante a vida formam um agressor, a partir da sua carga emocional que se manifesta quando presente o sentimento de frustração. Para as abordagens clínicas os fatores traumáticos formam a personalidade agressiva e, para a psicologia social, a violência surge a partir das situações de interação dos sujeitos. Obviamente que todas as abordagens realizadas comprovam o desencadeamento da agressividade a partir da sua perspectiva de análise, pois todos estes fatores implicam na agressividade, seja a privação do mínimo necessário a sobrevivência, seja os sentimentos de frustração no decorrer da vida, a vivencia de traumas e a própria interação entre sujeitos em determinados ambientes que formam a pessoa. Todos estes fatores trazem consequências agressivas por parte de quem os vive, uma vez que a frustração – existentes em todas elas – implica na impulsividade agressiva, contudo, a diferença permeia uma agressividade natural ou cruel conforme citada por Goldberg (2004).

Portanto, a agressividade e violência não são sinônimas e a existência da agressividade não necessariamente implica na violência, mas a violência implica na agressividade, pois para Pereira (1975, p. 28) a agressividade é anterior ao ser humano, pois, na fauna para solucionar os problemas de sobrevivência sempre existiu o emprego da força, contudo, trata-se de animais irracionais e que agem espontaneamente, o que não é o caso do ser humano.

Mas então, seria o ser humano violento por ser um animal? Obviamente que não, “homens são violentos por serem tão-somente humanos” (BASTOS; CABRAL; REZENDE, 2010, p. 13). O ser humano é uma espécie pertencente à classe animal e como todos os animais sente fome, sede, frio, calor, medo, dor, prazer, nasce, reproduz e morre. Também é instintivo como os demais animais, contudo, diferencia-se de qualquer outro animal pela sua racionalidade que o possibilita a fazer escolhas, para além das necessidades instintivas. Os animais matam outros animais por uma questão de sobrevivência e não sentem prazer na sua agressividade, são apenas instintivos. Os humanos, por sua vez, sentem prazer ao torturar, causar dor e sofrimento aos corpos da mesma espécie. Apenas o ser humano é capaz de fazer uma guerra e matar milhões de seres da sua própria espécie, por uma questão que não se

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refere a sobrevivência, que não segue os padrões instintivos, muito pelo contrário, ele age racionalmente. Como bem explicita Hannah Arendt (1985, p. 34) “a violência não é nem animalesca e nem irracional”, portanto, não se origina do ódio como irracional ou animalismo, mas da ofensa ao senso de justiça, portanto, a violência é racional. Desta forma, a violência é exclusiva da espécie humana, não sendo encontrada em nenhuma outra espécie, pois “... é a racionalidade que patrocina a violência”. (BASTOS; CABRAL; REZENDE, 2010, p. 35).

Ainda, tenta-se justificar a violência como irracional quando motivada pela emoção, o que, para Pereira (1975, p. 28) o agir violentamente e emocionalmente não exclui a racionalidade, principalmente nos casos de violência premeditada, podendo excluir-se somente os casos patológicos. Mais que isso, a violência racional ou irracional somente pode ser exercida pelo ser humano, pois não se trata de uma agressividade natural/animal, uma vez que está relacionada em ambos os casos a uma intenção para além da própria ação violenta, afinal, “Aquele que perde a razão não se tornou violento porque deixou de lado a razão. Só perde a razão aquele que excessivamente tem razão [...] Quem agride tem razão “demais”, nunca de menos. (BASTOS; CABRAL; REZENDE, 2010, p. 31). Nossas relações estão pautadas pela razão ou pelo excesso de razão, tanto na esfera privada quanto na esfera pública e isso se evidencia diariamente, pois faz parte daquilo que somos, seres racionais. Portanto, por uma lógica, nossa relação demonstra uma disputa - sadia ou não - daqueles que se relacionam, falam e agem de modo a fazer prevalecer a sua razão. Trata-se de uma troca comunicativa da racionalidade e que usa argumentos diferenciados, contudo, quando não são correspondidos com a afirmação daquele que recebe a comunicação, surge o conflito, o impasse e a forma comunicativa utiliza-se de meios mais agressivos para prevalecer a razão daquilo que se quer.

Na análise sobre a agressividade do ser humano, Bastos; Cabral; Rezende (2010, p. 55 -57) referem-se sobre a Teoria Mitológica das Pulsões, do psicólogo Sigmund Freud, que explica a existência de duas pulsões que estruturam o processo vital humano: o Eros e o Tânatos, ou seja, o Amor e a Morte. O Eros “relaciona-se como um princípio psicocósmico” almejando construir e conservar a vida. Ao contrário está o Tânatos que é a pulsão de morte e que corresponde a repulsa e destrutividade das experiências humanas, sendo o que caracteriza a agressividade humana. O Eros e o Tânatos formam uma unidade em que um está a serviço do outro, se relacionando entre si, um é essencial ao outro, portanto, uma pulsão acompanha a outra, a partir do objetivo, ou seja, “o instinto de autopreservação [...] deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito [...] a pulsão de amor [...] necessita de

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alguma contribuição do pulso de domínio, para que obtenha a posse do objeto.” (FREUD apud BASTOS; CABRAL; REZENDE, 2010, p. 56). Na proposta de Freud é necessário o aumento do estimulo de Eros para a recondução do Tânatos. Assim, aponta duas estratégias: a primeira é estimular as relações amorosas e a segunda compartilhar interesses comuns em grande escala, ou seja, ideais comunitários e de pertença dos grupos, colocando o Tânatos a serviço do Eros. Mas a sociedade não sendo justa e igualitária, os interesses de uns prevalecem a de outros, o que se apresenta como desafio segundo Freud.

Costa (2003, p. 30-35) também faz uma análise de Freud, a partir do livro “Por que a Guerra?”, em que, questões como “agressividade e destrutividade do homem” são estudadas. Para Freud a violência nasce da agressividade instintiva do ser humano e que, portanto, estão propícios ao “desejo da agressão e destruição” que são motivados por razões “vis” ou “nobres”, mas que justificam a violência, dentre estes, o conflito de interesses que somente evitaria a guerra, quando a humanidade estabelecer um poder central, que para Freud seria o “direito e a lei”, mas que também serão mantidos pela violência.

Em ambas as análises de Freud, evidencia-se a ação instintiva e impulsiva do ser humano na realização dos seus desejos, quase sempre destrutivos, mas que podem ser estagnados por uma força maior que vem do conjunto da sociedade, como uma vontade coletiva, e que se impõe sobre os demais, contudo, mesmo esse poder coercitivo que retém a violência, há violência, o que hoje se conhece por violência legitimada.

O ser humano diferente dos demais animais, pela sua racionalidade, constrói caminhos e se desenvolve de forma diferente. Nesta formatação da racionalidade, o ser humano se organiza dentro de uma coletividade ao qual se relaciona a partir da definição de comportamentos e condutas a serem seguidos/respeitados, que se diferenciam conforme o grupo e a época. De acordo com Odalia (2012, p. 35) a possibilidade de viver em sociedade “significa criar normas de comportamento” que vão determinar as condutas e modos de agir dos seus membros e “também criar discriminações”. Estas normas de condutas representam aquilo que é aceito ou não pela sociedade em cada época. Assim, as normas e leis apresentam-se diferentes em cada contexto histórico-social, limitando os indivíduos e, conapresentam-sequentemente, institucionalizando a violência a tal ponto, de afirmar quais violências são legitimas ou ilegítimas.

Na análise de Bastos; Cabral; Rezende (2010, p. 26) sobre Foucault acerca da loucura, “é perceptível a intolerância do Ocidente com qualquer “anormalidade”” que fugia aos padrões da racionalidade e o “Ocidente criou inúmeras técnicas de “domesticação” do próprio homem”, ou seja, estabeleceu comportamentos padrões de condutas reduzindo a

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“pluridimensionalidade humana à ditatura da razão.” Portanto, a loucura tão vivenciada na idade média, manifestam-se como forma de poder e controle dos corpos e consciências que eram consideradas desviantes para os padrões normatizados dos ocidentais, através de uma negação da identidade destes sujeitos (mulheres, gays, pobres...).

Na obra Vigiar e Punir (2009) de Michel Foucault verifica-se a violência legitimada, tanto nos casos de crimes quanto nos casos de insanidade, como aspectos determinantes de cada época acerca do que é compreendido como normal e que, portanto, concebível dentro de uma sociedade. As classes de pessoas indesejáveis que não compreendem a este padrão normatizado são passiveis de receberem a violência legitimada, ou seja, estatal, face a sua conduta e forma despadronizadas. Assim, a sociedade vivenciou o horror da violência contra mulheres, negros, pobres, indigentes, homossexuais, deficientes físicos, dentre tantos outros. É neste sentido que Goldberg (2004, p. 23) afirma que

o conceito de sanidade mental está intimamente ligado à posição cultural que a sociedade estabelece a respeito de seus valores morais e de comportamento. É louco quem não corresponde a um mínimo da expectativa exigida pela sociedade no seu procedimento comum.

A violência, seja ela legitimada ou não, decorre da concepção daquilo que também se considera como certo ou errado, do fazer ou não fazer. De acordo com PEREIRA (1975, p. 63) “[...] A violência, seja no plano político-social, seja no domínio pessoal, nasce e floresce em obediência às mutações da sociedade ou em consequência da intolerância humana”, contudo cabem algumas indagações a este respeito. O que faz com que uma sociedade reproduza condutas violentas como um processo natural? Como a violência se manifesta na sociedade? Quais suas formas?

Para Odalia (2012, p. 37) a “violência é social”, pois existem diversos “fatores estruturais” que a desencadeiam. Exemplificando o autor refere-se à poluição ambiental como uma violência social, que atinge a todos e que toda a sociedade tem consciência dos prejuízos, contudo, age de modo a suportar a poluição pois “na lógica capitalista” seria muito pior do ponto de vista econômico de um país. Assim, se aceita “medidas paliativas” que reduzem em alguma medida a poluição e não deixam de produzir e continuar lucrando economicamente. É interessantíssima a contribuição de Odalia para a compreensão do fenômeno da violência, principalmente quando o autor faz uma análise social da violência a partir do retrato social do Brasil, abordando diversas situações de violência no país, dentre elas a violência ambiental – já citada -, a violência no trânsito, à delinquência infantil, as epidemias, a educação precária, o desemprego e, ainda, podemos acrescentar muito mais, a corrupção, o sistema carcerário, o

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déficit na saúde, a manipulação midiática, enfim, todos os dias, em todos os países, convivemos com a violência social escancarada e somos inertes em todos os processos.

Pensar a violência como forma, requer uma análise mais profunda do que aquela que nos remete a violência física, ou seja, requer ir para além do que habitualmente identificamos como violência. De acordo ZIZEK (2014, p.17) “Os sinais mais evidentes de violência que nos vêm à mente são atos de crime e terror, confrontos civis, conflitos internacionais. Mas devemos [...] identificar uma violência que subjaz aos nossos próprios esforços que visam combater a violência e promover a tolerância.” Para Zizek a violência ocorre de diversas formas e nos diferentes espaços, sejam eles públicos ou privados, apresentando-se como: a) violência subjetiva – parte visível do fenômeno e é percebida como uma perturbação do estado das coisas, normal e pacífico; b) violência objetiva – é invisível, imperceptível e se apresenta sob dois aspectos: b.1) violência simbólica – pelas formas e linguagem, que não está apenas nos casos evidentes de provocações e de relações de dominação social, mas na imposição de certo universo de sentido – b.2) violência sistêmica – que é invisível, silenciosa, hegemônica e extremamente catastrófica, pois suas formas sutis de coerção sustentam as relações de dominação e exploração. Deste modo, violência não é somente aquilo que os olhos enxergam e os sentidos captam. Há violência, na maioria das vezes, naquilo que nos foge aos sentidos e que nos mantem inerte a ela.

Pierre Bourdieu, por sua vez, ao estudar a violência sob o ponto de vista da sociologia, enfatiza, em A Dominação Masculina (2016) e O Poder Simbólico (2003), a existência de um poder e uma violência simbólica que domina as relações sociais de modo que dominador e dominado naturalizam o processo violento. A diferença que se apresenta da análise de Zizek para Bourdieu é que o primeiro, no campo filosófico, caracteriza a violência objetiva sob duas formas (a sistêmica e a simbólica) em que uma é imperceptível e extremamente catastrófica e a outra é perceptível e se dá pela forma e pela linguagem das relações. De qualquer modo, ambos compreendem a violência para além das provocações e da própria dominação social existente.

A partir das percepções de Zizek sobre a violência subjetiva e objetiva, compreende-se a existência de diversas formas de violência na sociedade, contudo, a que salta aos olhos e é objeto de estudo para sua redução é a violência subjetiva, uma vez que altera o estado normal das coisas. Do mesmo modo, pode-se aferir que, por trás da violência subjetiva existe a violência objetiva - não perceptível - e que sustenta/alimenta o desencadeamento da violência subjetiva. Portanto, qualquer estudo ou políticas públicas que se façam acerca da violência subjetiva - física, psicologia, patrimonial, sexual, moral - em todos os contextos humanos,

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sociais, políticos, econômicos e culturais, sem ao menos compreender qual a violência objetiva que a mantém, será frustrada.

É neste sentido, que Zizek (2014) chama a atenção quando se enfatiza a violência subjetiva, principalmente, com uma preocupação predominante em abordá-la e/ou resolvê-la, quando na verdade é a forma mais branda da violência. Como exemplo, Zizek (2014, p. 26) historicizando a violência objetiva a partir da construção de Marx, afirma que a violência sistêmica do capitalismo “não pode ser atribuída a indivíduos concretos e as suas “más” intenções, mas é puramente “objetiva”, sistêmica e anônima”, pois há uma realidade social com seus sujeitos que interagem entre si e uma “abstração real” que irá determinar o que, como e quando deve acontecer a realidade social, ou seja, é a ideologia em “seu grau mais puro” e que, portanto, quando nos referimos à violência subestimamos esse espectro real.

Esta análise empreendida por Zizek, embora em campo teórico distinto, se aproxima do que Bourdieu (2003, p. 9) chama de poder simbólico, qual seja, “um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social)”. Este poder é invisível e silencioso, portanto, atua sem ser visto. Desta forma, esse poder se manifesta através dos chamados “sistemas simbólicos”, ou seja, através da língua, da arte e da religião, que constroem os sentidos do e para o mundo, que serão aceitos pelo consenso dos demais para integração e ordem social. Trata-se de uma violência objetiva como forma, culturalmente dominante, de uma classe ou conjunto de pessoas, através da utilização de instrumentos “estruturados e estruturantes de comunicação e

de conhecimento”1. Deste modo, segundo Bourdieu (2003, p. 11) a cultura dominante

contribui para a integração real da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes); para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, a desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierárquicas) e para a legitimação dessas distinções. Esse efeito ideológico, produ-lo a cultura dominante dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário de comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante.

Desta forma, a classe dominante detém o monopólio da violência simbólica, impondo de forma inquestionável a realidade social do mundo desejado, como legítima de ser, pois “A

1 “É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os “sistemas simbólicos” cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço da sua própria força às relações de força que as fundamentam e contribuindo assim, segundo a expressão de Weber, para a “domesticação dos dominados”. (BOURDIEU, 2003, p. 11)

Referências

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