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A violência seja ela de que forma for – pois existem diversas formas – é empregada enquanto instrumento necessário para manter o poder. No livro a História da Sexualidade, Michel Foucault (1988) coloca que “saber é poder”, assim aquele que tem conhecimento é

detentor de poder, pois consegue “fazer-se” respeitado pelos demais da sua espécie. Já em Arendt (1985, p. 19-22), a violência “nada mais é do que uma flagrante manifestação do poder” e que a forma extrema de poder se resume “Todos contra Um”, e a extrema forma de violência é “Um contra Todos”. E esta última jamais é possível sem instrumentos.

Michaud (1986, p. 22-26) afirma que na política há duas formas de violência. A primeira é a violência antipoder - de baixo - que “visa uma reorganização do poder” e ocorre por meio das revoluções e golpes de estado, como ocorreu nas Revoluções Inglesa, Francesa e Russa. Para sua existência é necessário um poder central e de grupos com “ideias, projetos e interesses antagônicos” que visem a reorganização “da sociedade, do poder político e da sociedade”. As formas de violência podem variar a partir do cenário de “organização dos poderes e de severidade e repressão” para manutenção do poder. Segundo o autor “os regimes democráticos são mais vulneráveis que os regimes autoritários ou totalitários cujas forças de manutenção da ordem são hipertrofiadas e, a violência repressiva, dissuasiva”. (MICHAUD, 1986, p. 26). A segunda é a violência do poder - de cima - que ocorre para estabelecer e manter o poder político vigente, utilizando-se da repressão, tirania e terror, desencadeando em alguns lugares o terrorismo e guerras civis.

Refletindo sobre as terminologias das palavras, Arendt (1985, p. 23-24) explica que as palavras poder, força, autoridade e violência são “fenômenos distintos e diferentes entre si e dificilmente não existiriam não fosse a existência destes” e que “usá-las como sinônimos não apenas indica uma certa cegueira para as diferenças linguísticas [...] tem por vezes resultado em uma certa ignorância daquilo que a correspondem.” Assim, na melhor hipótese, para Arendt “poder, força, autoridade, violência” são palavras que indicam “os meios pelos quais o homem governa o homem” e, portanto, são sinônimos por terem a mesma função para questões públicas quanto a dominação. Contudo, quando se trata de problemas humanos, faz a significativa distinção: a) Poder: “jamais é propriedade de um indivíduo”, pois este pertence a um grupo e o poder existe enquanto o grupo estiver unido, portanto, uma pessoa pode estar “investida de poder” por representar o interesse do grupo a que pertence; b) Vigor: refere-se a “alguma coisa no singular” é uma qualidade do objeto ou pessoa, “pertence ao seu caráter”; c) Força: quando utilizado como sinônimo de violência, principalmente como “meio de coerção” serve para indicar a “energia liberada através dos movimentos físicos ou sociais”; d) Autoridade: geralmente é “objeto de abuso” e aplicado às pessoas, em que não é necessário o uso de “coerção” ou “persuasão” para que obedeçam pelo simples fato de respeitar “a pessoa ou o cargo” e, por fim, e) a violência: é instrumental e está “próxima do vigor” pois se utiliza dela para “multiplicar o vigor natural”.

Na concepção de Arendt (1985, p. 24) é comum a combinação de violência e poder, mas não se pode dizer que autoridade, poder e violência “sejam a mesma coisa”. Se o poder não existir, ou seja, se as ordens não forem obedecidas “os instrumentos da violência” não servirão para manter o poder, uma vez que não existe mais autoridade, ou seja, o respeito, o apoio e consentimento do grupo. Portanto, o poder está por detrás de qualquer violência e Arendt (1985, p. 27) afirma “[...] o domínio do senhor sobre os escravos, que sempre excederam em número, não repousa em instrumento de coerção superior como tais, mas em uma organização do poder mais aperfeiçoada – isto é, na solidariedade organizada dos senhores”. Para o poder existir é necessário que ele esteja solidificado em uma base que o sustente e lhe de legitimidade, portanto, de um grupo de pessoas. Evidencia-se que a violência como instrumento pode destruir o poder, mas jamais poderá “criar” o poder, pois só existe poder onde ele é legitimado pelos demais, caso contrário, não existe poder. Contudo, a violência pode ser utilizada e manipulada das diversas formas para manter o poder.

Portanto, podemos concluir que o poder está presente nas relações humanas e que se utiliza de instrumentos legitimados - como a violência autorizada - para manter-se. Além disso, que sua ação se porta a uma coletividade e que não é estático, pois muda com o tempo e com a sociedade.

Na análise de Foucault (1988, p. 88-89) o poder não deve ser compreendido levando-se em conta a “soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma dominação”, pois são apenas formas em que o poder se apresenta. Segundo o autor para conhecer o poder é necessário conhecer as correlações de força existentes por trás das formas de poder dominantes, que se apresentam como um “jogo” de “lutas e afrontamentos” que transformam e reforçam as “correlações de forças”, formando “cadeias, sistemas e estratégias” solidificando-se em corpos que se apresentam “nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais.”. Assim “o poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada. ” (FOUCAULT, 1988, p. 89).

Neste aspecto é interessante atrelar as ideias de Pierre Bourdieu e Michel Foucault, um estruturalista e o outro pós-estruturalista que se dedicaram, em períodos diferentes, ao estudo do poder, suas formas e implicações na sociedade.

Foucault compreende que o sujeito é moldado, ou melhor, disciplinado a partir dos discursos que atuam sobre ele, ou seja, através das relações de saber e poder que hierarquizam e normatizam a sociedade. Assim, Foucault (2014, p. 122) propõe a análise das lutas de oposição ao poder para compreender o que cada uma das lutas tem em comum, seja ela de

oposição ao poder dos “homens sobre as mulheres, pais sobre os filhos, psiquiatras sobre os loucos”, dentre tantos outros. Desta análise, o autor conclui que são lutas transversais – não se limitam a um território especifico – com objetivos decorrentes dos efeitos do poder, resultando em lutas imediatas – a luta ocorre contra as instâncias de poder mais próxima – colocando em questão o direito e o respeito a individualidade e a diferença e opondo os efeitos de poder ligados ao saber. Essas lutas são formas de exercício de poder, que para Foucault, apresentam-se de três modos: a) oposição a dominação – étnicas, sociais e religiosas, b) denuncia a exploração – separa o indivíduo do que ele produz – e c) combate a submissão. Essas lutas transformam os indivíduos em sujeitos, tanto em um sujeito submisso, quanto um sujeito consciente e conhecedor de si mesmo. Evidentemente que em todo a história da sociedade, conforme abordamos suscintamente no início deste capítulo, existiram as três formas de exercício do poder, ou seja, que domina, explora e submete uma classe ou categoria de pessoas.

O agente ativo do exercício do poder altera-se com o tempo, conforme Foucault (2014, p. 125) afirma “o cristianismo propôs e estendeu a todo o mundo antigo novas relações de poder”, um poder salvador dos indivíduos, que não se preocupava somente com os desígnios da comunidade, mas com cada um, e que, como representantes de Deus na terra, tinha a permissão de conhecer a intimidade e os segredos de cada cristão para a sua salvação, sendo permitido ordenar e sacrificar em nome de Deus. Essa forma de exercício do poder que tinha como agente a Igreja, no século XVIII foi substituída pela figura do Estado Moderno, mantendo a lógica do controle dos indivíduos, mas não para a salvação na eternidade, mas para a proteção na terra. Evidentemente que o poder muda de mãos, mas os indivíduos disciplinados pelo discurso são sempre os mesmos, aqueles que se enquadram ao padrão normal das coisas e que, portanto, de algum modo, não alteram o processo “natural” da sociedade. Assim, segundo Foucault (2014, p. 129-132) o poder se apresenta como um jogo presente nas relações humanas e que apenas alguns indivíduos possuem e exercem sobre outros, ou seja, não é a relação em si, mas a ação na relação. Portanto, a ação não é exercida diretamente sobre os outros, mas sobre a própria ação, em modo e tempo diverso, ou seja,

É um conjunto de ações sobre ações possíveis: ele opera no campo da possibilidade em que vem inscrever-se o comportamento de sujeitos agentes: ele incita, ele induz, ele desvia, ele facilita ou torna mais difícil, ele amplia ou ele limita, ele torna mais ou menos provável; no limite, ele obriga ou impede absolutamente; mas é sempre uma maneira de agir sobre um ou sobre sujeitos agentes, e isso enquanto eles agem ou são suscetíveis de agir. Uma ação sobre ações. (FOUCAULT, 2014, p.133).

Efetivamente o poder se manifesta a partir das diversas probabilidades existentes na relação humana, por isso, Foucault (2014, p. 134) esclarece que o poder somente pode ser exercido sobre “sujeitos livres”, com um campo de possibilidades para suas condutas e ações, trazendo como exemplo a escravidão em que, o escravo acorrentado apresenta-se como uma relação física de obrigação, mas escapando, a liberdade é uma condição da existência de poder. Portanto, o campo das probabilidades e do exercício do poder, são amplos, a partir das relações sociais existentes.

Se para Foucault os discursos e os saberes transformam as relações humanas em relações de poder, como um jogo, em que uma classe dominante disciplina os indivíduos, para Bourdieu o domínio ocorre pelo hábitus, ou seja, pela prática reiterada dos símbolos pelo dominador e dominado para a reprodução das desigualdades sociais. Conforme citado anteriormente, o poder simbólico é invisível e se se utiliza de um sistema de símbolos - língua, da arte e da religião - para exercer a dominação, que são reproduzidas sistematicamente nas instituições familiares, religiosas, escolares, jurídicas, políticas e econômicas, de modo que por ser hábitus não é percebido e exerce o seu poder silenciosamente, o que não significa ser menos violento, pelo contrário, domina de tal forma as relações humanas, que tanto dominador quanto dominado, exercem seus papéis como se fosse natural em que um exerce o poder e outro se submete a ele.

O exercício do poder e consequentemente da violência enquanto instrumento, é legitimado pela sociedade e de acordo com Odalia (2012, p. 31) “O exercício do poder sempre implicou numa violência política de cima para baixo e, ao mesmo tempo, a necessidade de fundamentá-la através de textos legais que a revestem de arremedos de legalidade e legitimidade.” o que explica o posicionamento de Arendt (1985) quando afirma que o poder só existe onde ele é legitimado pelos demais.

Evidentemente que na atualidade a violência deve ser utilizada com cautela e os instrumentos do passado não servem ao presente, não com a mesma eficácia. A sociedade contemporânea é complexa, diversificada e marcada pela evolução dos meios de comunicação, exigindo novas estratégias ideológicas para exercícios e manutenção do poder. As notícias são veiculadas em questão de segundos para todas as partes do mundo. Assim, o poder da informação estabelece um elo com a “verdade” que permeia as principais relações de poder de uma sociedade, sejam elas políticas, econômicas, sociais e culturais. A seleção das cenas, da escrita ou da fala, e a forma como são veiculadas apresentam-se como “verdades” absolutas. É como afirma Michaud (1986, p. 49) que “as imagens são enganosas: ainda que uma seja autêntica, podemos selecioná-las, montá-las, legenda-las, podemos enquadrá-las e

reenquadrá-las, podemos sobretudo mostrá-las ou não as mostrar de jeito nenhum”. A manipulação de informações é um dos instrumentos de violência que se institui sobre as pessoas que, iludidas compram ideias como verdadeiras e percebem uma realidade que de fato não existe, agindo em causa dos interesses de quem manipula e está no poder.

Neste sentido, é possível afirmar que o desenvolvimento do processo educativo na sociedade segue um padrão ideológico de manutenção do poder visando assegurar a “hegemonia de uma classe social” conforme afirma Odalia (2012) e ocorre através de uma “intensificação dos métodos de persuasão, pois visam resultados em curto prazo e nesse sentido podem até ser considerados menos nefastos: a destruição de um acarreta necessariamente a destruição do outro.” (ODALIA, 2012, p. 53).

A partir deste padrão ideológico imposto pelos processos educativos, países colonizados pela cultura ocidental trazem características aristocratas e se mantém com sistemas escravocrata e latifundiário, conforme vem denunciar a teoria decolonial. Marcados pelas discriminações e desigualdades sociais, impostas pelo sistema feudal que mantém a concentração de riqueza e poder, ditando suas leis nas instituições públicas e privadas. Trata- se de um período extremamente discriminador e violento para negros e índios, principalmente, para as mulheres que eram constantemente abusadas. Na América o patriarcalismo decorre do colonialismo que determina o poder aos senhores feudais tanto no espaço público quanto privado. Assim, também, ocorre com o desenvolvimento do capitalismo a partir do colonialismo, baseado num sistema econômico cuja concentração de riqueza e livre concorrência dita as suas normas.

Para os teóricos da decolonialidade, como o sociólogo peruano Aníbal Quijano (2015) o descobrimento da América foi um divisor de águas na modernidade, que constituiu um “novo padrão de poder mundial”. Segundo o autor, a distinção de raças contribuiu para uma estrutura hierarquizada para uma nova constituição da sociedade com a dicotomia entre conquistador/conquistado, superior/inferior, dominador/dominado, europeu/não europeu, configurando em relações de dominação com base em “hierarquias, lugares e papéis sociais correspondentes, constitutivas delas, e, consequentemente, ao padrão de dominação que se impunha” (QUIJANO, 2015, p. 117). Foram considerados pertencentes às classes inferiores todos aqueles que não se enquadravam a classe europeia branca, portanto, os negros, os índios e os mestiços. Assim, todo aquele que pertencia a raça “inferior”, era extirpado das suas descobertas, dos seus conhecimentos e da própria cultura, que foram substituídos pelos conhecimentos e pela cultura europeia, que se naturalizava como raça superior. Assim, apresentam-se dois grandes eixos para esta nova relação de poder, o sentido de raça e a

expansão do colonialismo europeu, que foram determinantes para a constituição da América enquanto espaço de dominação e apropriação tanto das terras, riquezas e produção, quanto das pessoas e suas culturas.

Em primeiro lugar, expropriaram as populações colonizadas - entre seus descobrimentos culturais – aqueles que resultavam mais aptos para o desenvolvimento do capitalismo e em benefício do centro europeu. Em segundo lugar, reprimiram tanto como puderam, ou seja, em variáveis medidas de acordo com os casos, as formas de produção de conhecimento dos colonizados, seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de expressão e de objetivação da subjetividade. A repressão neste campo foi reconhecidamente mais violenta, profunda e duradoura entre os índios da América ibérica, a que condenaram a ser uma subcultura camponesa, iletrada, despojando-os de sua herança intelectual objetivada. Em terceiro lugar, forçaram – também em medidas variáveis em cada caso – os colonizados a aprender parcialmente a cultura dos dominadores em tudo que fosse útil para a reprodução da dominação, seja no campo da atividade material, tecnológica, como da subjetiva, especialmente religiosa. É este o caso da religiosidade judaico-cristã. Todo esse acidentado processo implicou no longo prazo uma colonização das perspectivas cognitivas, dos modos de produzir ou outorgar sentido aos resultados da experiência material ou intersubjetiva, do imaginário, do universo de relações intersubjetivas do mundo; em suma, da cultura. (QUIJANO, 2015, p. 121).

Consequentemente, o modelo econômico europeu estabeleceu sua força, primeiramente, pela exploração da mão de obra das raças colonizadas - índios, negros e mestiços - sem qualquer tipo de remuneração. Posteriormente, surge o assalariado - homens brancos, pertencentes a raça colonizadora, mas sem riquezas – o imigrante. De acordo com Quijano (2015, p. 121) foi o controle do trabalho, da produção e das riquezas nas mãos dos europeus que possibilitou o capitalismo mundial. Para o autor, a colonialidade do poder, o capitalismo e o eurocentrismo, foram os três elementos comuns que implicaram globalmente para a constituição de um poder central burguês europeu, que estabeleceu um padrão mundial de poder, através dos elementos acima mencionados.

É importante ressaltar que o sistema capitalista se estabelece na América diferente de outras partes do mundo. Em uma ordem cronológica, no restante do mundo, segundo Quijano (2015, p. 126), a escravidão, servidão e produção mercantil ocorrem como formas pré-capital, ou seja, não são consideradas capitais, contudo, na América foram consideradas como capital, uma vez que a mercadoria - escravos e servos - produzia mercadoria, que atendiam o mercado mundial e consequentemente ao capitalismo.

Enquanto poder, o sistema capitalista imposto na América pelos colonizadores europeus foi mais violento do que para o restante do mundo, pois foi um sistema de produção extremante explorador da mão-de-obra. Primeiramente, com a utilização de escravos - mercadorias produzindo mercadorias - e, na sequência, com os servos - leais absolutos de seus

senhores - e mais adiante, com a exploração da mão-de-obra barata, dos assalariados - imigrantes e mestiços.

Em consonância com Saffioti (1987, p. 60) verifica-se que o capitalismo mesmo como um dos maiores sistemas de dominação não foi o que criou o patriarcado e o racismo, pois historicamente, estes sempre estiveram presentes nas sociedades, conforme analisados anteriormente. Para Saffioti há um único sistema de dominação que ela vai denominar de patriarcado-racismo-capitalismo, ou seja, três sistemas de dominação-exploração que são inseparáveis e, portanto, transformam-se em um único sistema que se retroalimenta.

Contudo, é importante destacar que o patriarcado enquanto sistema de dominação somente se evidenciará como tal a partir da década de 60, através dos movimentos feministas que colocam em debate a sua estrutura discriminatória e violenta sobre as mulheres. Até então, manteve-se como um poder estruturante inquestionável e predominante na sociedade.

2 A SOCIEDADE PATRIARCAL E A TRANSPOSIÇÃO DAS DISPARIDADES DE