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Considerações acerca do sofrimento psíquico do agente comunitário de saúde

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO

CURSO DE PSICOLOGIA

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO SOFRIMENTO PSÍQUICO

DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

BIANCA ANDRIELE DE ALMEIDA PEDROSO

Ijuí (RS) 2019

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BIANCA ANDRIELE DE ALMEIDA PEDROSO

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO SOFRIMENTO PSÍQUICO

DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia do Departamento de Humanidades e Educação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para a obtenção do título de Psicóloga.

Orientadora: Profª Ms. Tânia Maria de Souza

Ijuí (RS) 2019

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BIANCA ANDRIELE DE ALMEIDA PEDROSO

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO SOFRIMENTO PSÍQUICO

DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia do Departamento de Humanidades e Educação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para a obtenção do título de Psicóloga.

Banca Examinadora:

____________________________________________ Profª Ms. Tânia Maria de Souza (UNIJUÍ)

____________________________________________ Profª Ms. Carolina Baldissera Gross (UNIJUÍ)

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente, quero agradecer a Deus, por me dar força e saúde para superar as dificuldades e conseguir esta conquista.

A meus pais, por serem tão fortes e guerreiros que possibilitaram realizar esse sonho, esta conquista é de vocês também. Adiaram os seus planos para ajudar conquistar os meus objetivos, sonharam junto comigo, obrigada por cada palavra de incentivo, cada gesto de amor, vocês são meu porto seguro. Sou grata por tudo, agradeço a vocês cada ensinamento, tenho orgulho de vocês e me orgulho da pessoa que me tornei, graças a vocês, isto tudo são méritos de vocês. Obrigada por me mostrar o caminho mais certo a seguir, e que o estudo e a formação são as melhores vias para conquistar os objetivos. Obrigada a Deus por ser filha de vocês, Amo vocês.

Ao meu noivo, por todo incentivo, compreensão, companheirismo, carinho e amor. E por estar comigo nos momentos que mais precisei, você também faz parte dessa conquista. Meu muito obrigado por ser meu ponto de paz e luz nos meus dias cinzas, para você o meu Amor, Te Amo.

Aos meus avós o meu muito obrigado, por passar todos os ensinamentos, obrigada por cada história contada sobre antigamente, através destas histórias escutei muito dos meus antepassados, gratidão a vocês.

Aos meus colegas de faculdade e de trabalho, pelo apoio e pelas considerações.

A professora Tânia Maria de Souza, pelos momentos dedicados a mim, pelas orientações que foram muito importantes para desenvolver esse trabalho. Obrigada por me entender e compreender o meu tempo.

A professora Carolina Baldissera Gross por aceitar o convite para avaliar este trabalho na banca examinadora.

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RESUMO

O presente estudo é uma pesquisa bibliográfica que tem por objetivo a discussão do trabalho do Agente Comunitário de Saúde (ACS) que pode propiciar o sofrimento psíquico e, consequentemente, um adoecimento no que tange essa profissão. Também o objetivo desse estudo foi identificar e descrever a importância desse trabalho do ACS que realiza o seu trabalho evidenciando o vínculo, assim conseguindo desempenhar o seu papel na comunidade. A Estratégia Saúde da Família (ESF) é um elemento de reorientação da Atenção Básica de Saúde (ABS) e nela está inserida o ACS, profissional-chave dessa reestruturação.

Palavras-chave: Agente Comunitário de Saúde. Estratégia de Saúde da Família.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AB - Atenção Básica ACS - Agente Comunitário de Saúde

APS - Atenção Primária à Saúde

CONASEMS - Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde CONASS - Conselho Nacional de Secretários de Saúde

INAMPS - Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social PACS - Programa de Agentes Comunitários de Saúde

SUS – Sistema Único de Saúde

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 7

2 O TRABALHO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE E QUESTÕES RELACIONADAS AO SOFRIMENTO PSÍQUICO ... 9

2.1 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE ... 9

2.2 DOS PRINCÍPIOS E DIRETRIZES GERAIS DA ATENÇÃO BÁSICA ... 10

2.3 ESPECIFICIDADES DA ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA ... 13

2.4 O TRABALHO DO AGENTE DE SAÚDE E SUAS ESPECIFICIDADES ... 15

2.5 ESPECIFICIDADES DA ESTRATÉGIA DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE ... 18

2.6 O SOFRIMENTO PSÍQUICO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE ... 25

3 A DIALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO EM LACAN E CONSIDERAÇÕES ACERCA DA OBESIDADE ... 31

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 41

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1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho busca teorizar questões relacionadas ao trabalho do Agente Comunitário de Saúde (ACS) no que tange ao seu trabalho com os pacientes, que desempenha suas funções nas visitas domiciliares, orientando e encaminhando para a Estratégia de Saúde da Família (ESF) dependendo da necessidade do paciente.

A função do ACS é de extrema importância, mas também encontram inúmeros desafios no desenvolver de suas atividades. O ACS orienta os pacientes a procurar o posto de saúde para realização de consultas e exames, esses pacientes acabam esbarrando nas questões burocráticas pelo viés da organização dos gestores, em virtude do repasse financeiro os pacientes ficam esperando os exames serem liberados e as consultas com especialistas acabam demorando meses para serem autorizadas. O ACS faz suas visitas e orienta os pacientes consultar com os profissionais no posto de saúde e fica descontente porque exerce um bom trabalho na casa dos pacientes e em virtude dos tramites da burocracia os paciente ficam aguardando serem autorizados em função dos repasses não darem conta de toda a demanda.

Muitas queixas do paciente são escutadas pelo ACS que realiza a visita domiciliar, pacientes estes que frequentam a ESF. O ACS precisa ter muita desenvoltura para acolher a queixa e acalmar o paciente.

O ACS nas visitas tem que aguentar a alta temperatura ou a baixa temperatura, seus aliados no verão ou no inverno são chapéus, protetor solar, roupa comprida, botina e muita água para conseguir percorrer o seu trajeto diariamente. Além das temperaturas que fazem o trabalho do ACS se tornar mais cansativo, tem as questões dos pacientes que enfrentam dificuldades como falta de saneamento básico, alimentação e pessoas acamadas em estado terminal, essas realidades também acabam gerando sofrimento psíquico no ACS.

O ACS tem um sofrimento psíquico muito grande, que a partir das leituras também vai ser referido neste estudo a compulsão alimentar e, subsequentemente, a obesidade, que com o estresse encontrado no trabalho leva este profissional a se estressar e, consequentemente, a comer de forma exagerada.

Essas questões levaram-me a direcionar o objetivo deste trabalho para o reconhecimento da importância de seu trabalho como ACS e também acerca de um

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sujeito que está à mercê do sofrimento psíquico e, consequentemente, podendo levar a um adoecimento.

No primeiro capítulo serão referenciados alguns pontos centrais para elucidar o trabalho do ACS, temas como o Sistema Único de Saúde (SUS), Dos Princípios e Diretrizes Gerais da Atenção Básica, Especificidades da Estratégia de Saúde da Família, O Trabalho do Agente de Saúde e suas Especificidades, Especificidades da Estratégia de ACS, O Sofrimento Psíquico do ACS, nestes temas que o trabalho será abordado, descrevendo o trabalho do ACS e as possíveis causas que podem levar a um sofrimento psíquico.

No segundo capítulo norteará a escrita em torno de uma pesquisa realizada em João Pessoa – PB, em 2017, que destacava a associação entre consumo alimentar e estado nutricional em ACS, considerando assim que a maioria dos ACS se encontrava em excesso de peso. A partir desta pesquisa foi possível fazer um enlace com a frustração em Lacan e considerações sobre a obesidade no que tange o enfoque deste trabalho.

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2 O TRABALHO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE E QUESTÕES RELACIONADAS AO SOFRIMENTO PSÍQUICO

Para que possamos adentrar na temática do trabalho do ACS e nos conceitos atrelados a ela, como o trabalho do ACS e o sofrimento psíquico, é necessário que façamos um percurso em alguns pontos necessários para desenvolver o objetivo desta temática.

2.1 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

Segundo o Ministério Público, o SUS foi criado pela Constituição Federal de 1988 para que toda a população brasileira tenha acesso ao atendimento público de saúde e regulamentado pelas Leis nº 8080/90 (Lei Orgânica da Saúde) e nº 8.142/90, com a finalidade de alterar a situação de desigualdade na assistência à Saúde da população, tornando obrigatório o atendimento público a qualquer cidadão, sendo proibidas cobranças de dinheiro sob qualquer pretexto.

Anteriormente, a assistência médica estava a cargo do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), ficando restrita às pessoas que contribuíssem com a previdência social. As demais eram atendidas apenas em serviços filantrópicos.

A Constituição Brasileira de 1988 preocupou-se com a cidadania do povo brasileiro e se refere diretamente aos direitos sociais, como o direito à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer e à aprendizagem. Em relação à saúde, a Constituição apresenta cinco artigos – os de nº 196 a 200.

O artigo 196 diz que:

1. A saúde é direito de todos.

2. O direito à saúde deve ser garantido pelo Estado. Aqui, deve-se entender Estado como Poder Público: governo federal, governos estaduais, o governo do Distrito Federal e os governos municipais.

3. Esse direito deve ser garantido mediante políticas sociais e econômicas com acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para sua promoção, proteção e recuperação e para reduzir o risco de doença e de outros agravos.

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2.2 DOS PRINCÍPIOS E DIRETRIZES GERAIS DA ATENÇÃO BÁSICA

A atenção básica caracteriza-se por um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver uma atenção integral que impacte na situação de saúde e autonomia das pessoas e nos determinantes e condicionantes de saúde das coletividades. É desenvolvida por meio do exercício de práticas de cuidado e gestão, democráticas e participativas, sob forma de trabalho em equipe, dirigidas a populações de territórios definidos, pelas quais assume a responsabilidade sanitária, considerando a dinamicidade existente no território em que vivem essas populações. Utiliza tecnologias de cuidado complexas e variadas que devem auxiliar no manejo das demandas e necessidades de saúde de maior frequência e relevância em seu território, observando critérios de risco, vulnerabilidade, resiliência e o imperativo ético de que toda demanda, necessidade de saúde ou sofrimento devem ser acolhidos (MINISTÉRIO PÚBLICO, 2012).

É desenvolvida com o mais alto grau de descentralização e capilaridade, próxima da vida das pessoas. Deve ser o contato preferencial dos usuários, a principal porta de entrada e centro de comunicação da Rede de Atenção à Saúde. Orienta-se pelos princípios da universalidade, da acessibilidade, do vínculo, da continuidade do cuidado, da integralidade da atenção, da responsabilização, da humanização, da equidade e da participação social. A atenção básica considera o sujeito em sua singularidade e inserção sociocultural, buscando produzir a atenção integral (MINISTÉRIO PÚBLICO, 2012).

Segundo o Ministério Público (2012), a atenção básica tem como fundamentos e diretrizes:

I. ter território adstrito sobre o mesmo, de forma a permitir o planejamento, a programação descentralizada e o desenvolvimento de ações setoriais e intersetoriais com impacto na situação, nos condicionantes e nos determinantes da saúde das coletividades que constituem aquele território, sempre em consonância com o princípio da equidade;

II. possibilitar o acesso universal e contínuo a serviços de saúde de qualidade e resolutivos, caracterizados como a porta de entrada aberta e

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preferencial da rede de atenção, acolhendo os usuários e promovendo a vinculação e corresponsabilização pela atenção às suas necessidades de saúde. O estabelecimento de mecanismos que assegurem acessibilidade e acolhimento pressupõe uma lógica de organização e funcionamento do serviço de saúde que parte do princípio de que a unidade de saúde deva receber e ouvir todas as pessoas que procuram os seus serviços, de modo universal e sem diferenciações excludentes. O serviço de saúde deve se organizar para assumir sua função central de acolher, escutar e oferecer uma resposta positiva, capaz de resolver a grande maioria dos problemas de saúde da população e/ou de minorar danos e sofrimentos desta, ou ainda se responsabilizar pela resposta, ainda que esta seja ofertada em outros pontos de atenção da rede. A proximidade e a capacidade de acolhimento, vinculação, responsabilização e resolutividade são fundamentais para a efetivação da atenção básica como contato e porta de entrada preferencial da rede de atenção;

III. adscrever os usuários e desenvolver relações de vínculo e responsabilização entre as equipes e a população adscrita, garantindo a continuidade das ações de saúde e a longitudinalidade do cuidado. A adscrição dos usuários é um processo de vinculação de pessoas e/ou famílias e grupos a profissionais/equipes, com o objetivo de ser referência para o seu cuidado. O vínculo, por sua vez, consiste na construção de relações de afetividade e confiança entre o usuário e o trabalhador da saúde, permitindo o aprofundamento do processo de corresponsabilização pela saúde, construído ao longo do tempo, além de carregar, em si, um potencial terapêutico. A longitudinalidade do cuidado pressupõe a continuidade da relação clínica, com construção de vínculo e responsabilização entre profissionais e usuários ao longo do tempo e de modo permanente, acompanhando os efeitos das intervenções em saúde e de outros elementos na vida dos usuários, ajustando condutas quando necessário, evitando a perda de referências e diminuindo os riscos de iatrogenia decorrentes do desconhecimento das histórias de vida e da coordenação do cuidado;

IV. coordenar a integralidade em seus vários aspectos, a saber: integrando as ações programáticas e demanda espontânea; articulando as ações de

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promoção à saúde, prevenção de agravos, vigilância à saúde, tratamento e reabilitação e manejo das diversas tecnologias de cuidado e de gestão necessárias a estes fins e à ampliação da autonomia dos usuários e coletividades; trabalhando de forma multiprofissional, interdisciplinar e em equipe; realizando a gestão do cuidado integral do usuário e coordenando-o no conjunto da rede de atenção. A presença de diferentes formações profissionais, assim como um alto grau de articulação entre os profissionais, é essencial, de forma que não só as ações sejam compartilhadas, mas também tenha lugar um processo interdisciplinar no qual progressivamente os núcleos de competência profissionais específicos vão enriquecendo o campo comum de competências, ampliando, assim, a capacidade de cuidado de toda a equipe. Essa organização pressupõe o deslocamento do processo de trabalho centrado em procedimentos, profissionais para um processo centrado no usuário, onde o cuidado do usuário é o imperativo ético-político que organiza a intervenção técnico-científica; e

V. estimular a participação dos usuários como forma de ampliar sua autonomia e capacidade na construção do cuidado à sua saúde e das pessoas e coletividades do território, no enfrentamento dos determinantes e condicionantes de saúde, na organização e orientação dos serviços de saúde a partir de lógicas mais centradas no usuário e no exercício do controle social. A Política Nacional de Atenção Básica considera os termos “atenção básica” e “atenção primária à saúde”, nas atuais concepções, como termos equivalentes. Associa a ambos: os princípios e as diretrizes definidos neste documento. A Política Nacional de Atenção Básica tem na Saúde da Família sua estratégia prioritária para expansão e consolidação da atenção básica. A qualificação da Estratégia Saúde da Família e de outras estratégias de organização da atenção básica deverá seguir as diretrizes da atenção básica e do SUS, configurando um processo progressivo e singular que considera e inclui as especificidades locorregionais (MINISTÉRIO PÚBLICO, 2012).

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2.3 ESPECIFICIDADES DA ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA

A Estratégia de Saúde da Família visa a reorganização da atenção básica no país, de acordo com os preceitos do Sistema Único de Saúde, e é tida pelo Ministério da Saúde e gestores estaduais e municipais, representados respectivamente pelo Conass e Conasems, como estratégia de expansão, qualificação e consolidação da atenção básica por favorecer uma reorientação do processo de trabalho com maior potencial de aprofundar os princípios, diretrizes e fundamentos da atenção básica, de ampliar a resolutividade e impacto na situação de saúde das pessoas e coletividades, além de propiciar uma importante relação custo-efetividade.

São itens necessários à Estratégia de Saúde da Família:

I. existência de equipe multiprofissional (equipe de saúde da família) composta por, no mínimo, médico generalista ou especialista em Saúde da Família ou médico de Família e Comunidade, enfermeiro generalista ou especialista em Saúde da Família, auxiliar ou técnico de enfermagem e ACS, podendo acrescentar a esta composição, como parte da equipe multiprofissional, os profissionais de saúde bucal: cirurgião-dentista generalista ou especialista em Saúde da Família, auxiliar e/ou técnico em saúde bucal;

II. o número de ACS deve ser suficiente para cobrir 100% da população cadastrada, com um máximo de 750 pessoas por ACS e de 12 ACS por equipe de Saúde da Família, não ultrapassando o limite máximo recomendado de pessoas por equipe;

III. cada equipe de Saúde da Família deve ser responsável por, no máximo, 4.000 pessoas, sendo a média recomendada de 3.000, respeitando critérios de equidade para essa definição. Recomenda-se que o número de pessoas por equipe considere o grau de vulnerabilidade das famílias daquele território, sendo que, quanto maior o grau de vulnerabilidade, menor deverá ser a quantidade de pessoas por equipe.

A Atenção Primária à Saúde (APS), também conhecida no Brasil como Atenção Básica (AB), da qual a Estratégia de Saúde da Família é a expressão que ganha corpo no Brasil, é caracterizada pelo desenvolvimento de um conjunto de ações de promoção e proteção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico,

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tratamento, reabilitação e manutenção da saúde. Essas ações, desenvolvidas por uma equipe de saúde, são dirigidas a cada pessoa, às famílias e à coletividade ou conjunto de pessoas de um determinado território.

Bem estruturada e organizada, a APS resolve os problemas de saúde mais comuns/frequentes da população, reduz os danos ou sofrimentos e contribui para uma melhor qualidade de vida das pessoas acompanhadas.

Além dos princípios e diretrizes do SUS, a APS orienta-se também pelos princípios da acessibilidade, vínculo, continuidade do cuidado (longitudinalidade), responsabilização, humanização, participação social e coordenação do cuidado. Possibilita uma relação de longa duração entre a equipe de saúde e os usuários, independentemente da presença ou ausência de problemas de saúde, o que chamamos de atenção longitudinal. O foco da atenção é a pessoa e não a doença.

Ao longo do tempo, os usuários e a equipe passam a se conhecer melhor, fortalecendo a relação de vínculo, que depende de movimentos tanto dos usuários quanto da equipe.

A base do vínculo é o compromisso do profissional com a saúde daqueles que o procuram. Para o usuário, existirá vínculo quando ele perceber que a equipe contribui para a melhoria da sua saúde e da sua qualidade de vida. Há situações que podem ser facilitadoras ou dificultadoras. Um bom exemplo disso pode ser o horário e dias de atendimento da Unidade Básica de Saúde (UBS), a sua localização, ter ou não acesso facilitado para pessoas com deficiência física, entre outras coisas.

O acolhimento é uma das formas de concretizar esse princípio e se caracteriza como um modo de agir que dá atenção a todos que procuram os serviços, não só ouvindo suas necessidades, mas percebendo aquilo que muitas vezes não é dito.

O acolhimento não está restrito a um espaço ou local. É uma postura ética. Não pressupõe hora ou um profissional específico para fazê-lo, implica compartilhamento de saberes, necessidades possibilidades, angústias ou formas alternativas para o enfrentamento dos problemas. O ACS tem um papel importante no acolhimento, pois é um membro da equipe que faz parte da comunidade, o que ajuda a criar confiança e vínculo, facilitando o contato direto com a equipe.

Segundo o Ministério da Saúde, o acolhimento é uma diretriz da Política Nacional de Humanização (PNH), que não tem local nem hora certa para acontecer,

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nem um profissional específico para fazê-lo: faz parte de todos os encontros do serviço de saúde. O acolhimento é uma postura ética que implica na escuta do usuário em suas queixas, no reconhecimento do seu protagonismo no processo de saúde e adoecimento, e na responsabilização pela resolução, com ativação de redes de compartilhamento de saberes. Acolher é um compromisso de resposta às necessidades dos cidadãos que procuram os serviços de saúde (BRASIL, 2008).

A APS tem a capacidade de resolver grande parte dos problemas de saúde da população, mas em algumas situações haverá a necessidade de referenciar seus usuários a outros serviços de saúde. Mesmo nesses momentos, a APS tem um importante papel ao desempenhar a função de coordenação do cuidado, que é entendido como a capacidade de responsabilizar-se pelo usuário (saber o que está acontecendo com ele) e apoiá-lo, mesmo quando este está sendo acompanhado em outros serviços de saúde. É na APS que acontece o trabalho do ACS.

O Ministério da Saúde definiu a Saúde da Família como estratégia prioritária para a organização e fortalecimento da APS no país. Por meio dessa estratégia, a atenção à saúde é feita por uma equipe composta por profissionais de diferentes categorias (multidisciplinar) trabalhando de forma articulada (interdisciplinar), que considera as pessoas como um todo, levando em conta suas condições de trabalho, de moradia, suas relações com a família e com a comunidade.

Cada equipe é composta, minimamente, por um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem ou técnico de enfermagem e ACS, cujo total não deve ultrapassar a 12. Essa equipe pode ser ampliada com a incorporação de profissionais de Odontologia: cirurgião-dentista, auxiliar de saúde bucal e/ou técnico em saúde bucal. Cabe ao gestor municipal a decisão de incluir ou não outros profissionais às equipes.

2.4 O TRABALHO DO AGENTE DE SAÚDE E SUAS ESPECIFICIDADES

Oficialmente implantado pelo Ministério da Saúde, em 1991, o então Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) teve início no fim da década de 1980 como uma iniciativa de algumas áreas do Nordeste (e outros lugares, como o Distrito Federal e São Paulo). Na época, a iniciativa visava a buscar alternativas para melhorar as condições de saúde de suas comunidades. Era uma nova

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categoria de trabalhadores, formada pela e para a própria comunidade, atuando e fazendo parte da saúde prestada nas localidades.

A lei que rege esta profissão é a Lei Federal nº 13.595/2018: o novo regime jurídico do ACS e agente de combate às endemias.

Hoje, a profissão de ACS é uma das mais estudadas pelas universidades de todo o país. Isso pelo fato de o ACS transitar por ambos os espaços – governo e comunidade – e intermediar essa interlocução. O que não é tarefa fácil.

O ACS tem um papel muito importante no acolhimento, pois é membro da equipe que faz parte da comunidade, o que permite a criação de vínculos mais facilmente, propiciando o contato direto com a equipe.

O ACS é o profissional responsável por atuar na promoção e na prevenção da saúde, mapeando e encaminhando pessoas ao serviço de saúde. Um ACS participa, com as equipes de saúde e a comunidade, da elaboração, da programação, da avaliação e da reprogramação do plano de ação local de saúde.

Está sob as responsabilidades de um ACS atuar na perspectiva de promoção, prevenção e proteção da saúde, orientando e acompanhando famílias e grupos em seus domicílios e os encaminhando aos serviços de saúde, realizar mapeamento e cadastramento de dados sociais, demográficos e de saúde, consolidando e analisando as informações obtidas, fazer programação, avaliação e reprogramação do plano de ação local de saúde, participar e mobilizar a população para as reuniões do conselho de saúde, identificando indivíduos ou grupos que demandam cuidados especiais, sensibilizando a comunidade para a convivência.

O ACS é um personagem fundamental, pois é quem está mais próximo dos problemas que afetam a comunidade, é alguém que se destaca pela capacidade de se comunicar com as pessoas e pela liderança natural que exerce.

Sua ação favorece a transformação de situações-problema que afetam a qualidade de vida das famílias, como aquelas associadas ao saneamento básico, destinação do lixo, condições precárias de moradia, situações de exclusão social, desemprego, violência intrafamiliar, drogas lícitas e ilícitas, acidentes etc.

Seu trabalho tem como principal objetivo contribuir para a qualidade de vida das pessoas e da comunidade. Para que isso aconteça, você tem que estar alerta. Tem que estar sempre “vigilante”.

Todas as famílias e as pessoas do seu território devem ser acompanhadas por meio da visita domiciliar, na qual se desenvolvem ações de educação em saúde.

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Entretanto, sua atuação não está restrita ao domicílio, ocorrendo também nos diversos espaços comunitários.

Todas essas ações que estão voltadas para a qualidade de vida das famílias necessitam de posturas empreendedoras por parte da população e, na maioria das vezes, é o ACS que exerce a função de estimular e organizar as reivindicações da comunidade.

Do ACS:

I. trabalhar com adscrição de famílias em base geográfica definida, a microárea;

II. cadastrar todas as pessoas de sua microárea e manter os cadastros atualizados;

III. orientar as famílias quanto à utilização dos serviços de saúde disponíveis; IV. realizar atividades programadas e de atenção à demanda espontânea; V. acompanhar, por meio de visita domiciliar, todas as famílias e indivíduos sob sua responsabilidade. As visitas deverão ser programadas em conjunto com a equipe, considerando os critérios de risco e vulnerabilidade de modo que famílias com maior necessidade sejam visitadas mais vezes, mantendo como referência a média de uma visita/família/mês;

VI. desenvolver ações que busquem a integração entre a equipe de saúde e a população adscrita à UBS, considerando as características e as finalidades do trabalho de acompanhamento de indivíduos e grupos sociais ou coletividade;

VII. desenvolver atividades de promoção da saúde, de prevenção das doenças e agravos e de vigilância à saúde, por meio de visitas domiciliares e de ações educativas individuais e coletivas nos domicílios e na comunidade, por exemplo, combate à dengue, malária, leishmaniose, entre outras, mantendo a equipe informada, principalmente a respeito das situações de risco; e

VIII. estar em contato permanente com as famílias, desenvolvendo ações educativas, visando à promoção da saúde, à prevenção das doenças e ao acompanhamento das pessoas com problemas de saúde, bem como ao acompanhamento das condicionalidades do Programa Bolsa-Família ou de qualquer outro programa similar de transferência de renda e enfrentamento

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de vulnerabilidades implantado pelo governo federal, estadual e municipal, de acordo com o planejamento da equipe.

2.5 ESPECIFICIDADES DA ESTRATÉGIA DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE

É prevista a implantação da Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde nas Unidades Básicas de Saúde como uma possibilidade para a reorganização inicial da atenção básica, com vistas à implantação gradual da Estratégia de Saúde da Família ou como forma de agregar o ACS a outras maneiras de organização da atenção básica. São itens necessários à implantação desta estratégia:

I. a existência de uma UBS, inscrita no sistema de cadastro nacional vigente, que passa a ser a UBS de referência para a equipe de ACS;

II. a existência de um enfermeiro para até, no máximo, 12 ACS e, no mínimo, quatro, constituindo, assim, uma equipe de ACS; e

III. o cumprimento da carga horária integral de 40 horas semanais por toda a equipe de ACS, composta por ACS e enfermeiro supervisor.

O enfermeiro da Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde, além das atribuições de atenção à saúde e de gestão comuns a qualquer enfermeiro da atenção básica descritas nesta portaria, tem a atribuição de planejar, coordenar e avaliar as ações desenvolvidas pelo ACS, comum aos enfermeiros da Estratégia Saúde da Família, e deve ainda facilitar a relação entre os profissionais da UBS e o ACS, contribuindo para a organização da atenção à saúde, qualificação do acesso, acolhimento, vínculo, longitudinalidade do cuidado e orientação da atuação da equipe da UBS em função das prioridades definidas equanimemente conforme critérios de necessidade de saúde, vulnerabilidade, risco, entre outros.

O ACS é peça fundamental para o fortalecimento do vínculo entre unidade de saúde e paciente. O trabalho do ACS é essencial para a equipe que trabalha na perspectiva do cuidado, pois é a através das visitas domiciliares que o ACS constrói o vínculo, o ACS é um aponte entre o paciente e a UBS, nas atribuições do ACS está proposto uma visita mensal para cada família, mas com a grande necessidade de alguns a visita é realizada mais que uma vez no mês, têm famílias que a necessidade é grande, que o ACS faz a visita toda semana. O trabalho do ACS é porta de entrada do usuário na UBS, é na visita domiciliar que o ACS apresenta a

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unidade, referenciando os serviços que a unidade de saúde oferece. É através do trabalho exercido pelo ACS que propicia a inserção do paciente na unidade, assim utilizando os serviços que a unidade oferece. Com o vínculo bem estabelecido entre ACS e UBS com o paciente possibilitando um trabalho em equipe na identificação de agravos na vida do paciente, possibilitando um melhor manejo para a situação de saúde do paciente, que demanda alguma coisa que o serviço oferece.

O trabalho do ACS é diário e muito importante, nas visitas domiciliares seu olhar sempre está atento às necessidades das famílias, é a partir das conversas/diálogo/escuta que o paciente será orientado a partir da sua necessidade e, posteriormente, encaminhado para a UBS. O trabalho do ACS abrange vários fatores, desde a verificação de receitas, se está dentro da validade, investigando se é medicação de uso contínuo ou controlado, há um número bem expressivo de pacientes que fazem o uso de medicações para pressão, diabetes, doenças respiratórias e/ou medicações controladas como fluoxetina, clonazepam, sertralina, citalopram, amitriptilina que são prescritos para depressão e ansiedade. Também o fazer do ACS é averiguar se o paciente toma a medicação nos horários certos e quantidade certa. Alguns pacientes, na maioria das vezes idosos, não conferem a data de validade das medicações, ou se baseiam pela cor e formato do comprimido, sendo um fator de risco porque os laboratórios podem mudar, assim podendo ocasionar a administração errada, pois muitos dos pacientes moram sozinhos e tem dificuldades de ler e de observar a validade, sendo uma das principais atribuições do ACS, a orientação e o auxílio a estas pessoas com dificuldades. A observação atenta está presente no ACS para desempenhar a função que lhe cabe. É a partir das visitas domiciliares que o vínculo se fortalece e a partir do que os pacientes relatam e se queixam que será orientado e encaminhado para o serviço que é a UBS.

O trabalho deste profissional vai além de orientações e encaminhamentos, o ACS é uma figura que as famílias acreditam e confiam e quando se deparam com dúvida procuram o ACS, sabem que esse profissional desenvolve o trabalho em favor da comunidade e é um ponto de referência, as pessoas confiam no trabalho do ACS e através dele que as dúvidas são sanadas. O ACS cria um vínculo muito forte com as famílias que atende. É a partir do trabalho diário de visitas e retornos que vai se construindo um vínculo e na medida em que o vínculo é construído os pacientes tem o ACS como ponto de referência para vários fatores, inclusive estar na maioria

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das vezes, a par de toda situação familiar. As pessoas se sentem confortáveis para relatar situações particulares e acabam relatando as histórias que aconteceram, incluindo discussões, brigas na família, problemas de convivência com o vizinho, entre outros que aconteceram no final de semana. O trabalho do ACS é de segunda a sexta, então na segunda os pacientes procuram esse profissional para contar histórias, tirar dúvidas e até mesmo contar sobre o final de semana, muitos relatam que passam mal e vão para o hospital para consultar.

O ACS tem papel fundamental nas famílias que abrange a sua área, mas também não pode ficar alimentando situações que os pacientes relatam, tentando apaziguar a situação para não “colocar lenha no fogo”. Muitos pacientes precisam que o ACS visite mais que uma vez no mês, encontram-se com uma grande angústia em falar de sua vida e dos problemas que aparecem no dia a dia, assim sentem grande conforto quando o ACS escuta suas inseguranças e suas dificuldades da vida cotidiana e muitos referem o ACS como psicólogo, porque estão numa posição de ouvinte. Assim, muitas vezes, os agentes chegam ao fim do dia sobrecarregados de tanto escutar problemas, muitas vezes problemas que não são da competência do trabalho do agente, assim gerando estresse e angústia.

Na pesquisa de Camelo e Angerami (2008, p. 921) o ACS refere:

Eu chego em casa às vezes e choro muito! Tem dia que eu nem como, porque tem coisa que você encontra... tem coisa que dá pra você tirar de letra, mas tem coisa que te emociona muito. Você encontra a pessoa numa situação muito difícil, aí é difícil pra você. Aí eu acho que é só chorando mesmo para aliviar. A gente se apega muito nas pessoas.

O trabalho do ACS consiste num trabalho contínuo e repetitivo. Este profissional tem contato com seus pacientes diariamente e passa muito tempo na casa deles tentando de uma forma ou outra ajudar nas dificuldades, ou seja, através do vínculo, o ACS tem como conduta encaminhar para o serviço de referência. Mesmo só encaminhando, o ACS de certa forma acaba escutando muito problema sem poder resolver, pois resolver não faz parte de seu trabalho e sim encaminhar.

O ACS é um profissional que tem uma enorme bagagem, no nível de informação, competência, experiência em sua função. No que tange essa profissão, o ACS tem acesso a muitas histórias contadas pelos pacientes e na maioria das vezes histórias “pesadas”, perdas (mortes), depressão, suicídio, feminícidio, violência sexual, física e/ou psicológica, questões conjugais, drogas, prostituição,

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doenças como câncer, dentre outros fatores que o ACS vivencia em sua rotina de trabalho.

Segundo Carreiro et al. (2013, p. 150):

O trabalhador cria métodos para atender ao máximo o que é prescrito, e nem sempre consegue, o que gera sério desgaste emocional, pois eles se sentem responsáveis pelo sistema de saúde e esquecem que, muitas vezes, os problemas e os desafios são de ordem mais complexa, passando pelas questões da gestão do trabalho.

Ao longo da sua jornada de trabalho o ACS se depara com inúmeras situações, muitas delas provocam e ficam em seu pensamento, como já citadas, são questões que marcam o ACS, que mexem com o psicológico deste profissional que trabalha na mercê de vários fatores, mesmo que as atribuições se definem em apenas encaminhar os pacientes para UBS e fazer orientações, sanar dúvidas, é inevitável que estas questões passem despercebidas pelo ACS, mesmo ele sabendo que isso não compete ao trabalho dele, são marcas que ficam registradas, permanecem em seu pensamento questões sobre essas situações que ficam marcadas na memória, ou melhor, marcadas em seu psíquico.

Assim, o cotidiano laboral do ACS é permeado por situações complexas, como dinâmicas familiares de difícil intervenção, violência e tráfico de drogas; com a inexistência de uma rede social e de equipes multidisciplinares, as quais respondam, adequadamente, à demanda emocional, o que pode contribuir para o esgotamento do profissional, porque não pode passar por cima das leis que dizem de suas atribuições e questões de hierarquia da instituição que trabalha.

Sintomas de estresse em equipes de saúde da família foram identificados em estudo selecionado, sendo o agente comunitário de saúde uma das categorias profissionais em maior situação de risco para desenvolver estresse. Os sintomas físicos do estresse mais relatados foram a tensão muscular, sensação de desgaste físico e insônia; e para os sintomas psicológicos destacou-se vontade súbita de iniciar novos projetos e pensar e falar constantemente em um só assunto. Para alguns pesquisadores, o estresse crônico associado ao trabalho denota Síndrome de Burnout que se caracteriza pelo esgotamento físico e emocional do trabalhador, quando não possui mais estratégias para enfrentar as situações e conflitos no trabalho. A presença desta Síndrome foi observada em estudo realizado com equipes de saúde da família, onde, dos 29 agentes comunitários de saúde participantes, três apresentaram Síndrome de Burnout. Sentimentos de medo também são fatores vivenciados pelo agente comunitário de saúde. Este profissional testemunha situações perigosas nas quais presenciam desrespeito a outros, infração de normas e até violência doméstica. (CAMELO; GALON; MARZIALE, 2012, p. 664-665).

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O ACS se frustra com os pacientes, aqueles pacientes que estão bem orientados, mas negligenciam os cuidados para si, pacientes que são diabéticos, hipertensos e não tomam a medicação ou não fazem o uso da insulina corretamente (aplicam uma dose muito alta ou baixa), comem coisas que deveriam evitar, não fazem exercício, como consequência das atitudes vão parar na UBS com a glicose e a pressão alteradíssima e muitas vezes precisam ser internados para serem tratados com medicações mais potentes e em virtude deste descaso consigo mesmo são encaminhados para internação no hospital para estabilizar o quadro.

No hospital há um acompanhamento com o paciente em torno do cuidado que é medicação, higiene, refeições, melhorando a situação de saúde do paciente, mas quando o paciente retorna pra casa novamente o paciente não se cuida, não por não saber, é por não achar importante e não querer cuidar da saúde. Também os responsáveis pelas crianças são orientados a levar as crianças fazer a vacina, os pais das crianças ou responsáveis acabam não levando a criança para o serviço de saúde e quando são questionados pelo ACS acabam dando alguma desculpa por não ter levado a criança.

Para Wai e Carvalho (2009, p. 565):

A carga emocional se refere aos elementos emocionais. Foram encontrados nesta categoria: observar a negligência dos pais com os filhos; violência doméstica, acarretando situações de denúncia para órgãos responsáveis; uso e abuso de drogas ilícitas; desemprego e falta de recursos financeiros para se alimentar ou manter-se; envolvimento excessivo com a microárea em que atua; sentimentos de angústia, inutilidade e frustração diante da resistência e incompreensão dos usuários; problemas graves de saúde ou de relacionamento familiar e situações de morte dos usuários.

O ACS se frustra com os pacientes porque estão bem orientados e mesmo assim continuam não se cuidando. É como se todo o trabalho do ACS fosse em vão, com todas as atribuições que o ACS tem, de certa forma, há um sofrimento psicológico muito grande. O ACS se frustra com os pacientes, pois realiza o trabalho de orientação mensal, tira dúvidas, explicando, e quando retorna os pacientes estão fazendo tudo errado.

O trabalho do ACS é de certa forma bem desgastante, além de fazer o trabalho de orientações e de encaminhamentos, o dia a dia deste profissional é cheio de adversidades que abalam estes profissionais. Assim como, tem pacientes que ficam contentes com a visita do ACS, tem aqueles também que fazem cara feia

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quando recebe esse profissional, mencionando frases como “tu aqui de novo”, “não precisava vim, aqui não tem ninguém doente”, “nós não precisamos da visita, porque temos plano de saúde”, é frequente acontecer essas situações que afetam o agente, pois nestas casas as visitas são rápidas, as famílias não perguntam nada para não prolongar a visita.

Com todo o trabalho diário o agente se sobrecarrega, fazendo as visitas e as orientações e observa que os pacientes “não seguem as orientações” e, como consequência, a saúde fica mais agravada e que muitos acabam perdendo a vida por não mudar os hábitos.

A sobrecarga de trabalho pode ser dividida em dois níveis: quantitativo e qualitativo. A sobrecarga quantitativa diz respeito ao número excessivo de tarefas a serem realizadas; isto é, a quantidade de tarefas encontra-se além da disponibilidade do trabalhador. A sobrecarga qualitativa refere-se à dificuldade de trabalho, ou seja, o indivíduo depara-se com demandas que estão além de suas habilidades ou aptidões. Por meio dos depoimentos dos agentes comunitários de saúde, podemos inferir que a sobrecarga de trabalho no cotidiano da atenção à saúde da comunidade está relacionada tanto aos aspectos qualitativos como aos quantitativos. (OLIVEIRA et al., 2010, p. 35).

Também o trabalho não é apenas ir às casas fazer visita e digitar a produção no sistema, mas também fazer visitas com médico, enfermeira, membros do conselho tutelar, assistente social, CRAS, para acompanhar nas visitas, pois não sabem o endereço dos pacientes que precisam visitar, e como o ACS desenvolve o trabalho na área consegue chegar nos endereços, e muitas vezes o ACS é chamado para passar informações e ajudar fazer relatório de determinada família que visita, frequentemente são pedidos da promotoria, do conselho tutelar e da assistente social. Tem também situações que quem faz o relatório é a enfermeira responsável com o ACS que realiza a visita para averiguar a situação do paciente em sua residência e em seguida é realizado o relatório para a instituição que solicitou.

O trabalho do ACS é delimitado entre o trabalho na rua e a digitalização da produção no sistema. Em dias de chuva o ACS não pode desenvolver seu trabalho com os pacientes, então ocupa esse tempo para colocar em ordem as questões burocráticas como, digitalização e preenchimento de papeis que lhes cabe (além do trabalho ser passado para o sistema, o ACS tem como papel organizar as pastas e os cadastros físicos dos pacientes).

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Nos dias de chuva o agente fica na unidade e muitos referem que acabam ficando ansiosos, pois após o término das atividades acabam ficando sem fazer nada e apenas cumprindo horário, assim gerando um desconforto acabam recorrendo para a alimentação de forma exagerada. Referem que estão frustrados com o trabalho e nessas ocasiões que tem instabilidade climática se sentem de mãos atadas, pois não tem o que fazer na unidade de saúde. Além de tudo, a gestão não valoriza o trabalho, na hora que precisam do ACS fazem convocação ou requerimento, quando o ACS reivindica algo a gestão fica de resolver e acaba não dando o retorno para estes profissionais.

Entretanto pode também ser a causa de sofrimento pelas vias da produção. Segundo Heloani e Lancman (2004, p. 78):

(...) mundo do trabalho provoca um impacto na vida de indivíduos que são obrigados a conviver com lógicas de mercado extremamente mutantes, criando uma situação de constante instabilidade e de ameaça que é vivenciada como um mal inevitável dos tempos modernos (...).

Com todo o esforço do agente e pouco reconhecimento, este profissional sente-se frustrado com a rotina, porque realiza as visitas e não enxerga uma melhora dos pacientes, o salário é baixo, é exigido que faça o número de visitas X, onde são contabilizadas pelo sistema o número de visitas e caso for abaixo do esperado o ACS é chamado para esclarecer o motivo da baixa produção, assim ficando visível que o número de visitas é levado em consideração e não a qualidade.

Segundo Santos e David (2011, p. 54):

Quando não há reconhecimento, e o trabalho não mais proporciona realização pessoal, nem confere sentido à vida social dos sujeitos e há outras possibilidades laborais, eles buscam outras atividades. O reconhecimento, a realização pessoal e o valor social representam mediadores entre subjetividade, identidade e sentido que conduzem à realização humana no trabalho.

Esta situação não é generalizada, mas é vivenciada por vários ACS. A problemática que está em questão remete à realidade de alguns profissionais, muito tem haver com a história de vida, ou melhor, com a constituição psíquica.

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2.6 O SOFRIMENTO PSÍQUICO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

Com o passar do tempo o sujeito vai se deparar com situações rotineiras que podem gerar desconforto, ou melhor, gerar certa angústia, a convivência com o outro sempre gera angústia, é impossível viver sem se angustiar, as angústias aparecem a partir de situações na família, na escola/faculdade, com vizinhos, pessoas conhecidas, mas o que interessa e importa nesse contexto é o que tange a escrita. O trabalho propicia prazer, medos, felicidade, tristezas, angústias, frustrações e no decorrer do trabalho efetuado pelo sujeito se depara com experiências/vivências no realizar o trabalho que ele está inserido.

Nesse contexto, é nessa dinâmica que o sujeito acaba tendo que lidar com situações encontradas no decorrer do trabalho, uma delas é o trabalho que é importantíssimo para um sujeito, e é também no trabalho que as questões psíquicas ficam em cheque. É no decorrer das vivências/rotinas diárias que o sujeito coloca em questão toda sua psique, pois o trabalho exercido pelo sujeito coloca em questão toda sua bagagem psíquica, ou seja, fica vulnerável a várias situações psíquicas e físicas/ambiente. Há uma série de questões que podem se colocar em evidência, propiciando um atravessamento das questões que emergem nesse sujeito em falta. O sujeito, quando ele trabalha, conta com o seu esforço mental e físico, colocando então toda a capacidade cognitiva, física e psíquica, assim evidenciando uma série de amaragens que formam a condição mental e a condição física para dar conta das atribuições de seu trabalho. Assim, no desenvolvimento das atividades, o sujeito está à mercê de se frustrar com o trabalho, ele está sujeito a se comprometer psiquicamente, aparecendo assim o sofrimento e, consequentemente, acompanhado por um adoecimento.

A rotina do ACS é desgastante, favorecendo as doenças físicas ou psíquicas, e subsequente afeta a qualidade de vida no trabalho. Com todos os problemas encontrados nesse trabalho, necessitam criar estratégias de gerenciamento, a fim de evitar danos a sua vida. (CAMELO; GALON; MARZIALE, 2012, p. 665).

O ACS que se frustra com o trabalho e subsequentemente sofre com o trabalho tem problemas a nível psíquico e físico como, tensões, angústia e frustrações. Nesse contexto, que incluiu a frustração no trabalho, o ACS come em grande quantidade e acaba aumentando de peso. Em função do sofrimento do

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trabalho associa a frustração com a comida, por que acaba entristecendo e comendo.

Os autores ponderam, juntamente com Ribeiro e Heloani (2011, p. 179), que não é possível conceber o trabalho como:

(...) um espaço neutro, para o bem ou para o mal. Será gerador de sofrimento ou prazer, desgaste ou crescimento, dependendo das relações entre o trabalhador e os desafios externos do meio social, com toda a subjetividade tanto do trabalhador quanto do social.

O trabalho do ACS é nas casas e muitas vezes além de estar sobrecarregado e estressado fica exposto às condições climáticas, sofrendo com o calor, que mesmo com protetor solar e chapéu acaba se queimando, prejudicando os olhos e a pele. Nos dias frios o ACS realiza as visitas mais tarde, pois os pacientes acabam dormindo até mais tarde e tem dias que necessita retornar das visitas pelas condições do tempo, chuva e frio acabam atrapalhando o trabalho, assim necessitando o retorno para a unidade de saúde, mas com essas condições climáticas a saúde fica em cheque, podendo se resfriar e ficar gripado.

O ACS não é capacitado/preparado para escutar o paciente, esse escutar que vai além de ouvir os problemas dos pacientes. O agente não está preparado porque as coisas que os pacientes relatam afetam diretamente o ACS, ou seja, as histórias que os pacientes mencionam afetam diretamente o agente, assim muitas vezes, o agente adoece, pois muitos acabam tomando medicação para suportar o trabalho e as visitas que precisam fazer. Alguns relatos dos pacientes ficam pesados para este profissional que não pode fazer muita coisa com aquilo que ouve, assim gerando uma angústia muito intensa e, consequentemente, buscam alternativas como o uso de medicações para ansiedade ou para dormir.

O trabalho do ACS não é ter a responsabilidade pela saúde do outro, o agente cai em tentação muitas vezes imaginando que a saúde de seus pacientes depende de seu trabalho. Engana-se o ACS que os pacientes vão obedecer sempre as orientações que são passadas para cuidar-se. O trabalho do ACS é muito importante e é muitas vezes realizado com muito cuidado e dedicação, a decisão de cuidar-se é apenas do paciente que recebe as orientações, cabe a ele essa decisão, enquanto vontade, ou melhor, desejo de cuidar-se. As pessoas em torno do paciente

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podem ajudar e orientar, mas quem tem esse poder de seguir as orientações e cuidar do corpo é apenas o paciente.

O ACS não tem a função de fazer o paciente desejar se cuidar, isso compete apenas para o sujeito que precisa tomar a decisão.

O trabalho do ACS é baseado no cuidado com o outro, esse trabalho é pautado nos pacientes, melhor dizendo, um fazer para o outro, pois é indo nas casas rotineiramente que o ACS desenvolve o seu trabalho a favor do paciente. Sendo escutando a reclamação do paciente em sua casa e fazendo uma devolutiva no ambulatório, recebendo o pedido para agendar uma consulta no posto, podendo ser com nutricionista, médico, enfermeira ou dentista.

O trabalho do ACS é de extremo comprometimento, é embasado pela condição de cuidado, as políticas públicas que envolvem esse profissional deixa bem claro que é o ACS que liga o eixo e cria o vínculo, que é do ambulatório até o paciente, e é do fazer do ACS o auxílio e o cuidado das famílias que são cadastradas em sua área de competência.

Apesar de todas as dificuldades que o ACS apresenta para desenvolver suas atribuições podemos também elencar uma série de funções que ele realiza na sua rotina que tem efeitos como, por exemplo, quando a equipe de saúde tem uma dificuldade para lidar com algum paciente, o ACS contribui com informações sobre o paciente e a melhor forma de se relacionar com ele. Quando algum profissional, médico, nutricionista ou enfermeira, tem a desconfiança que o paciente não está seguindo as prescrições das medicações e não aderindo ao tratamento convoca o ACS para um diálogo a favor do paciente para que o ACS descreva algo sobre o paciente. O ACS tem um vasto conhecimento e uma bagagem de informações sobre os pacientes que faz a visita, assim esclarecendo algumas dúvidas que o profissional tem da realidade do paciente em sua casa. Em inúmeros casos, o ACS é chamado para dialogar sobre o caso de pacientes porque ele conhece o paciente e sabe como lidar com ele, então a equipe reconhece o quanto é importante o trabalho do ACS, que esse vínculo que ele constrói favorece um melhor manejo do paciente na unidade de saúde.

É entendendo o real papel do ACS que ele vai conseguir realizar o seu trabalho, de forma mais leve, não se equivocando de pensar que é de responsabilidade dele mudar o paciente (ele vai sofrer), assim perceberá que sua função é fazer as visitas de acordo com as atribuições, fazendo a conexão do

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paciente com a equipe de saúde, possibilitando uma relação de confiança. Portanto, ao reconhecer seu papel como ACS (fazer sua função), encontrará reconhecimento e, consequentemente, o sentido de satisfação no seu trabalho.

Para Dejours (1994, p. 36):

O termo Desejo, que foi retomado pela Psicanálise, é indissociável de sua ligação com o Inconsciente. Ele é uma intenção de reencontrar os signos das primeiras experiências de satisfação da infância, ele reenvia a um passado e a uma história individual. O objeto de desejo, enfim, não é um objeto real. Não se trata de discutir aqui os fundamentos destas considerações teóricas, mas de fazer sobressair o que distingue a noção de Desejo da noção de motivação. O Desejo se inscreve em primeiro lugar no passado e naquilo que é atual; em segundo lugar no fictício, no ilusório e no fantasmático; em terceiro lugar no individual e no subjetivo. Isto deveria ser suficiente para desagradar a todos aqueles que gostariam de fazer a síntese conceitual entre Desejo e Motivação. O Desejo articula-se com as noções de realização do Desejo e de satisfação alucinatória do Desejo. Se está muito longe da Realidade e se esta última está implícita nos comportamentos, ele não adquire sentido não ser através de um conjunto de signos. Em outros termos, a Realidade é como uma máscara que esconde – ou como uma trama que sustenta – um processo que lhe escapa [...] O comportamento em si é pouca coisa para o psicanalista. Ele é, na maior parte dos casos, o instrumento acessório do jogo Desejo-Prazer.

Portanto, a responsabilidade vai de encontro com cada paciente, cada um é responsável por si mesmo, vai de cada paciente viver de acordo com suas questões e seus desejos. De fato, cada sujeito se relaciona de forma singular com o outro, então em hipótese alguma o ACS é responsável pelas escolhas dos pacientes.

Foi possível localizar uma pesquisa realizada a cerca da alimentação do ACS que foi desenvolvida para analisar a associação entre consumo alimentar e estado nutricional em ACS.

Estudo transversal e quantitativo realizado nas 40 Unidades de Saúde da Família pertencentes ao Distrito Sanitário II, em João Pessoa – PB, com 163 ACS selecionados por conveniência. Evidenciou-se a prevalência de sobrepeso (37,4%) e obesidade (33,7%) entre os participantes (BARBOSA; LACERDA, 2017).

Com todas as vivências que o ACS se depara no seu fazer diário acaba se frustrando com as situações e como meio de alívio da frustração/tristeza acaba comendo muito, sem controle, repetindo esse comportamento muitas vezes. Como resultado dessa atitude, em comer impulsivamente, acaba obeso e com problemas de saúde por causa do peso e das doenças que a obesidade desencadeia.

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A partir de todo esse enlace do trabalho, as frustrações que ele encara no seu cotidiano enquanto profissional, o ACS pode desencadear algum agravo para a saúde psíquica e, consequentemente, para o corpo, entre vários fatores em que está propício a desenvolver encontra-se a compulsão alimentar e, subsequentemente, a obesidade.

A partir da frustração já citada anteriormente, foram elencadas questões que tangem essa problemática entre a frustração e o exagero na alimentação. Nesse contexto, foi desenvolvido a partir de Lacan que contextualiza e faz referências no que diz respeito à frustração, possibilitando uma escrita no que permeia a forma de comer e se frustrar do sujeito que é ACS. É possível perceber/entender o que está nesse contexto que engloba a frustração para esse sujeito que sofre.

Lacan (1995) conceitua a relação de objeto, elenca as três formas de falta de objeto. Nesse contexto, ele refere-se à temas para se pensar a falta de objeto, dentre elas estão os três registros sendo, a frustração, a privação e a castração. Neste contexto, será mencionado acerca da frustração que faz maior referência ao tema: “Jamais, em nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de uma noção da falta do objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola da relação do sujeito com o mundo” (LACAN, 1995, p. 35).

Lacan (1995) referencia a questão do sujeito em falta. O sujeito busca fechar o furo, deixado pelo grande Outro, a sua mãe. À medida que esse outro falta, o sujeito procura algo que preenche esse furo, permanecendo na busca pelo objeto perdido. O sujeito que numa busca incessante, quando se identifica com um objeto, supostamente esse sujeito “acredita” ter encontrado o objeto de satisfação primeiro, que tinha enquanto bebê. Esse corpo teve efeitos da relação com o Outro, que deixou marcas, marcas que aparecem na psique do sujeito, é desta relação inicial que o sujeito irá se relacionar com o mundo, buscando essa vivência que teve, na relação primordial. Consequentemente, a partir destas relações, o sujeito que busca algo para desparecer a falta, é um sujeito em falta.

O sujeito fica com certa nostalgia, pois tenta encontrar o que perdeu, numa busca incessante ele tenta reencontrar o objeto perdido através da repetição. Com essa busca se pode pensar o ato da alimentação, que o sujeito come demais como se estivesse procurando algo para tenta cessar sua falta.

Segundo Lacan (1953-1954), a repetição está vinculada a uma rede de significantes, traz marcas daquilo que foi recalcado, ou seja, perdido no Complexo

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de Édipo, assim o sujeito repete, em busca do objeto perdido, procura a sensação de satisfação que foi a primeira satisfação. Acerca do recalque, “[...] toda integração simbólica bem-sucedida comporta uma espécie de esquecimento normal [...]” (LACAN, 1953-1954, p. 222). A lei foi instaurada.

Lacan (1995, p. 28) referencia a questão relação de objeto:

A relação imaginária, seja qual for está modelada numa certa relação que é, efetivamente, fundamental – a relação mãe-criança, com tudo o que esta tem de problemático. Essa relação, com certeza, é feita realmente para dar a ideia de que se trata de uma relação real, e este é, de fato, o ponto a que se dirige atualmente toda a teoria da situação analítica. Tenta-se reduzi-la em última instância, a não ser mais que o desenvolvimento das relações mãe-criança, e reencontram-se, em toda a continuação da gênese, os traços e os reflexos dessa posição inicial.

Essa relação que se encontra mãe-bebê, é uma relação imaginária que o bebê precisa para se constituir, de fato é uma relação inicial e também real que o bebê fica vinculado com a mãe, mas a relação dual não é pra sempre, necessita de um terceiro para separar mãe-bebê. A relação que o bebê teve neste tempo ficará registrada em sua psique, tempo esse necessário para sua constituição, marcas/traços que ficam registrados no sujeito e a partir desse tempo importante o sujeito se relaciona com os outros.

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3 A DIALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO EM LACAN E CONSIDERAÇÕES ACERCA DA OBESIDADE

A frustração é, pois, considerada como um conjunto de impressões reais, vividas pelo sujeito num período do desenvolvimento em que sua relação com o objeto real está centrada habitualmente na imago dita primordial do seio materno, com referência ao qual vão se formar nele o que chamarei há pouco de suas primeiras vertentes, e inscrever-se suas primeiras fixações, aquelas que permitiram descrever os tipos de diferentes estádios instintuais [...]. (LACAN, 1995, p. 62).

Segundo o autor, a frustração se dá com o objeto real, a partir da imago, essa imago é constituída a partir das relações reais que o sujeito tem, ou seja, é através do estádio do espelho que isso se concretiza com a formação do eu, como falado anteriormente.

A noção que temos da frustração, referindo-nos simplesmente ao uso que é efeito dela quando delas falamos, é de um dano. É uma lesão, um prejuízo que, tal como temos o hábito de vê-lo se exercer, para seguir a maneira com o que fazemos entrar em jogo na nossa dialética, é sempre um dano imaginário. (LACAN, 1995, p. 36).

A frustração é referenciada como um dano, ou seja, quando se fala em dado é situar que algo foi perdido, perde algo real, podemos referenciar que esta falta ocorre como um dano imaginário. A criança numa relação com a mãe reivindica o objeto de dom. Os objetos que a mãe oferece para a criança são tomados numa proporção de presença e satisfação, objeto dom (o seio), objeto esse que a criança busca para satisfazer.

Lacan (1985) esclarece em seus escritos sobre os sujeitos perante o desvínculo, ou seja, cita o desmame, que sempre existirá uma perda, podendo aparecer problemas durante a vida.

De fato o desmame, por qualquer das contingências operatórias que comporta, é frequentemente um traumatismo psíquico cujos efeitos individuais, anorexias ditas mentais, toxicomanias pela boca, neuroses gástricas, revelam suas causas a psicanálise. Traumatizante ou não, o desmame deixa no psiquismo humano o traço permanente da relação biológica que ele interrompe. Essa crise vital se duplica, com efeito numa crise do psiquismo. (LACAN, 1985, p. 23).

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Segundo o autor, o desmame é um momento traumático para o sujeito, o desmame causa frustração para o sujeito e afirma que com essa interrupção o sujeito se frustra, ocasionando marcas em sua psique. O sujeito “grande” no ato de comer busca algo para frear a angústia, uma angústia que nem mesmo ele consegue entender daonde vem tanta vontade de se alimentar. O sujeito sempre faz planos e tem o pensamento de parar de comer exageradamente, mas a vontade/angústia é mais forte que ele, assim cai na tentação de comer novamente.

Segundo Lacan (1995, p. 61), “[...] a castração é uma intitulação como uma dívida simbólica, que tem a ver com o falo. E nesse contexto está inserida a frustração”.

Sendo assim, a criança acredita entender o que falta na mãe, para ter a mãe por perto, ela fica numa posição de objeto “[...] ela pode se identificar com a mãe, se identificar com o falo, ou apresentar-se como portadora de falo [...]” (LACAN, 1995, p. 230). Com essa alienação a criança fica numa posição de falo, o falo não é um objeto, mas o significante da falta. Fica nessa posição para conseguir ganhar o objeto de satisfação (seio), o sujeito imagina o que é o desejo da mãe e subsequente o que falta na mãe, logo pensa que se ele fica nessa posição de falo a mãe está ali vinculada com ele, essa sincronia dura até que a relação fica fragilizada, pois a criança percebe que ela não está sendo suficiente para essa mãe, porque a criança subentende que é muito pouco e não tem o que a mãe quer. Com o passar do tempo a criança percebe que não consegue e não está nessa posição de falo, o olhar da mãe está voltado para o outro, o pai e subentende que o que a mãe deseja está além dela, assim não consegue ficar numa posição de falo, para a criança o pai é tomado como metido, além de separar eles, “rouba” a mãe, esse pai portador do desejo da mãe e perante a essa cena a criança se frustra.

Segundo Lacan (1995), qualquer agente que venha atormentar essa relação mãe-bebê é tomada pela instância de terceiro, pois separa ambas, é no nível do pai imaginário que essa interdição aparece, tudo que afasta a mãe do bebê, ou o bebê da mãe é tomado como um terceiro, que atrapalha essa relação, pode ser o trabalho da mãe, as amigas da mãe, isso operando como um desencontro na relação, para a criança nessa separação há um distanciamento de sua mãe que oferece o objeto real (seio, leite), a criança fica privada, num sentido que a criança quer o objeto, objeto de seu desejo, assim fazendo um corte nessa relação, pois a mãe apresenta, dá espaço para esse pai imaginário. A privação é o segundo momento que

Referências

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