Capítulo VII
T E O R IA S , T IP O S , C O N C E IT O S
VEYNE, Paul.
Como se escreve história.
Lisboa: Edições 70, 1987.
Ou existe compreensão, ou então a história não é mais a histó ria. Mas pode haver mais do que a compreensão? Podem distin- guir-se, na explicação, um método individualizante e um outro momento que seria generalizante? Otto HintzeC1) consignava ao historiador, como instrumento, senão como fim, a percepção de
\anschauliche Abstraktionen, abstracções intuitivas, como o despo
tismo esclarecido (do qual ele próprio foi historiador); essas abs tracções teriam uma generalidade relativa, sem estarem assim completamente separadas da singularidade dos fenómenos como uma lei física ou um modelo químico, e permitiriam penetrar no sentido profundo dos acontecimentos. As abstracções intuitivas são então o que chamamos noutras ocasiões teorias históricas: des potismo esclarecido, Revolução Francesa, Inglesa ou Americana como revoltas da burguesia. Em que consiste o que têm à primeira vista de atractivo, de poderoso, de inteligente as grandes teorias que visam explicar todo um movimento histórico? Têm algo mais do que a simples compreensão? Rostowzew, por exemplo, propunha que se considerasse que a crise política que atravessa o Império Ro mano no início do século III, com o triunfo da «monarquia mili tar», se explicava por um conflito entre o exército, representando as massas camponesas e devotado ao imperador, e a burguesia mu nicipal e senatorial; resumindo, seria um conflito entre o campo e
(1) O. Hintze, Staat und Verfassung: Gesammelte Abhandlungen zur Allgemeinen Verfassunsgsgeschichte, Gottingen, reimp. 1962, sobretudo pp 110-139: Typologie der Ständischen Verfassung des Abendlandes; ver também Th. Schieder, Staat und Gesellschaft im Wandel unserer Zeit, Munique, Oldenburgo, 1958, p. 172: «Der Typus in der Geschichtswissen schaft»- R. Wittram, Das Interesse an der Geschichte, Gottingen, 1968, p. 46: «Vergleich, Analogie, Typus»; B. Zittel, «Der Typus in der Geschichts wissenschaft»,’ in Studium Generale, 5, 1952, pp. 378-384; C. G. Hempel, «Typologiste Methoden in den Sozialwissenschaften», in Theorie und Rea lität, ausgewahlte Aufsatze zur Wissenschaftslehre (Hans Albert, editor), Tubinga, Mohr, 1964.
a cidade e os imperadores Severos deveriam ser mais comparados a Lénine do que a Richelieu. Qual é a natureza duma teoria deste género e em que é que o «conflito cidade-campo» pode ser conside rado como um tipo? Vamos ver que, sob a sua roupagem sociológi ca ou cientista, teorias e tipos? Vamos ver que sob, a sya roupagem sociológica ou cientista, teorias e tipos se restringem simplesmen te ao eterno problema do conceito; porque o que é uma «uma abstrac- ção intuitiva», senão um conceito sublunar?
Um exemplo de teoria
O conflito cidade-campo não explica a crise do século III como um acontecimento explica outro; ele é essa crise, interpretada du ma certa maneira; os soldados, suporte e favoritos da monarquia, teriam saído do campesinato pobre e a sua acção política seria ins pirada numa solidariedade que teriam guardado para com os seus irmãos de miséria. A teoria de Rostowzew é então a própria intri ga (ou uma forma de a escrever, a respeito de cuja verdade não nos compete ajuizar), designada por uma forma lapidar que sugere que os conflitos cidade-campo são duma espécie bastante banal na história para merecerem receber um nome particular, e que não po deríamos ficar surpreendidos por encontrar um representante des sa espécie no século III da nossa era. Ao mesmo tempo resumo de intriga e classificação, como quando o médico diz: «a doença cujo desenvolvimento me descreveu é uma banal varicela». O diagnós tico de Rostowzew é bom? A priori (quer dizer raciocinando em re-
trodicção a partir da probabilidade comparada das causas, como veremos no capítulo seguinte), não sabemos bem o que pensar: nos nossos dias, nas diferentes nações do Terceiro Mundo, o exército desempenha frequentemente um papel político importante porque é a única força política constituída, como o era em Roma, mas esse papel varia completamente de um país para outro: acontece que o exército represente os interesses dos camponeses, acontece tam bém que ele os oprima, acontece que o seu desejo de assegurar a se gurança nacional o leve a apoiar uma política burguesa de ordem interna, acontece finalmente que intervenha no golpe de Estado no seguimento de rivalidades entre grupos de oficiais ou entre cor pos (assim teria sido, na própria Roma, durante a crise de 69, após a morte de Nero). De qualquer modo, a teoria de Rostowzew, não sendo no fundo mais do que uma intriga como qualquer outra, só pode ser julgada exclusivamente sobre critérios históricos.
Uma teoria não é mais que resumo da intriga
Se a crise do século III se tivesse revelado ser efectivamente aquilo que Rostowzew disse que era, seria então mais um conflito cidade-campo: a teoria remete para uma tipologia. Falou-se mui
to, por volta de 1925, desse tipo de conflito e interpretavam-se por meio dele a revolução russa e o fascismo italiano; pode acreditar - -s e que essa interpretação é ilegítima, ao lado de dezenas de ou tras que têm igualmente a sua parte de verdade: não é a história uma ciência descritiva, e não teórica, e não é toda a descrição fatal mente parcial? Notemos que «conflito cidade-campo» não é verda deiramente um tipo; não é, por seu lado, mais do que um resumo de intriga compreensível: logo que os organizadores e os beneficiá rios da actividade agrícola reinvestem os lucros da terra nas acti- vidades urbanas, resulta daí uma animosidade dos camponeses contra os citadinos e há, por assim dizer, uma projecção geopolíti- ca dum divórcio económico. O leitor adivinha então o que se deve ter passado no espírito de mais de um historiador que se referiu a essa teoria ou a esse tipo: foi apanhado na ratoeira da abstracção. Quando uma intriga é erigida em tipo e recebe um nome, tem -se tendência para esquecer o definido, e para se limitar à definição; vê-se que há aqui um conflito, sabe-se que na Rússia, na Itália e em Roma existem cidades e conjuntamente campos; a teoria pare ce então pôr-se no seu lugar por si própria; quando ela tinha sido formulada pela primeira vez sob o seu aspecto geral, não tinha tido o efeito duma revelação sociológica? Acreditamos então que é ex plicativa, esquecemos que não é senão um resumo de intriga pré- -fabricada e aplicamo-la à crise do século III, o que é o mesmo que alegar, como explicação dum acontecimento, um resumo des se mesmo acontecimento. Da mesma assentada, esquecemo-nos de reconverter esse resumo abstracto numa intriga concreta; es quecemos que a cidade, o campo e o exército não são substâncias, que só existem os citadinos, os camponeses e os soldados. Para que a corrente explicativa passe, seria portanto necessário começar por estabelecer que esses soldados em carne e osso tinham conser vado os seus reflexos de classe de antigos camponeses e não ti nham esquecido os seus irmãos de miséria ao entrarem para o exército; simplesmente, para falar como Sartre, tínhamos saltado sobre estas mediações.
Na verdade, compreende-se o que confere às teorias históri cas, à de Rostowzew, à de Jaurès sobre a Revolução Francesa, o prestígio que as envolve: elas implicam uma tipologia que tem qualquer coisa de solene; a história, graças a elas, torna-se inteli gível e misteriosa como um drama onde se agitariam grandes for ças, familiares e contudo invisíveis, que trazem sempre o mesmo nome: Cidade, Burguesia; o leitor mergulha numa atmosfera ale górica, se, como diz Musil, se entende por alegoria o estado de espí rito no qual todas as coisas têm mais significação do que aquela que honestamente lhes cabe. Não podemos fazer mais que simpati zar com esta propensão para dramatizar: a poesia dramática, diz Aristóteles, é mais filosófica e mais séria do que a história, porque ela se prende a generalidades; assim, desde sempre, a história que se quer profunda deseja primeiro desembaraçar-se da sua ba nalidade imprevisível e anedótica para se dar um ar sério e a
ma-jestade que fazem todo o prazer da tragédia. Resta saber agora se uma tipologia pode ter alguma utilidade em história: para que ser ve fazê-lo notar, para quem quer comprender a intriga de As Coé- foras, que é a mesma que a de Electra e que a monarquia <j°s Lági-
des faz lembrar o despotismo esclarecido de Frederico II? Segundo todas as aparências, uma tipologia pode ter um valor heurístico considerável, mas parece-nos difícil que possa acrescentar algu ma coisa à explicação histórica. Pode ela, por outro lado, tornar - -s e uma disciplina autónoma, diferente da história? É duvidoso, mas é necessário não desencorajar ninguém.
O típico em história
E sempre agradável encontrar, numa descrição da China na época dos Song, uma página sobre o paternalismo das relações in dividuais e uma outra sobre os colégios de artesãos, que podería mos transpor tal e qual para um quadro da civilização romana: es sa página de história romana está completamente redigida e sobre tudo o historiador da China ter-n os-á dado ideias que nunca tería mos por nós próprios ou terá permitido aperceber uma diferença significativa; mas há mais: que se descubram os mesmos factos a séculos e a milhares de léguas de distância parece excluir todo o acaso e confirma que a nossa interpretação dos factos romanos de ve ser verdadeira, porque conforme a uma misteriosa lógica das coisas. Encontra-se assim bastante de típico na história? Existem ciências, como a medicina ou a botânica, que descrevem um tipo em várias páginas: tal planta, tal doença; elas têm a vantagem de que duas papoulas ou mesmo duas varicelas se assemelham bas tante mais do que duas guerras ou mesmo dois despotismos escla- írecidos. Mas se a história se prestasse também ela a uma tipolo gia, isso saber-se-ia desde há muito. Existem seguramente esque mas que se repetem, porque a combinatória das soluções possíveis para um problema não é infinita, porque o homem é um animal imitador, porque tem seguramente instintos, porque a acção tem também a sua misteriosa lógica (como se vê na economia); impos to directo, monarquia hereditária, eis tipos familiares; não se pro duziu somente uma greve, mas bastantes greves e o profetismo ju- ideu conta quatro grandes profetas, doze pequenos e uma multidão de desconhecidos//Mas enfim nem tudo é típico, os acontecimentos não se reproduzem por espécies como as plantas e uma tipologia só seria completa se a sua compreensão fosse muito fraca e se ela se reduzisse a um inventário do léxico histórico («a guerra: conflito armado entre potências») — por outras palavras, a conceitos — , ou ainda se se entregasse à inflação conceptual: quando tentamos, encontram—se o barroco, o capitalismo e o homo ludens em todo o la
do e o Plano Marshall não é mais do que uma epifania do eterno po- tlatch/ Tentou-se por mais de uma vez fundar, ao lado da história,
uma tipologia histórica(2): é uma das múltiplas actividades que se reuniram sob a designação vaga de sociologia; assim uma parte da obra de Max Weber e também, de alguma maneira, da obra de Mauss. A experiência parece ter provado que muito frequentemen te o que se consegue ligar ao típico é demasiado restrito para ser interessante; a tipologia cede rapidamente lugar a uma justapo sição de monografias históricas; finalmente essas tipologias estão incompletas até se tomarem inutilizáveis (incluindo, é desa gradável reconhecê-lo, as de Weber); quando um historiador da Antiguidade consulta as listas de agrupamentos ou os tipos de mo ralidade elaborados por Gurvitch, verifica quase regularmente que nada lá encontra que sirva para o «seu período».
A razão destas decepções é muito simples: é apenas no domínio biológico que se encontram claramente as diferenças entre espé cies e indivíduos;ijem história natural, os tipos têm suportes subs
tanciais, que são os organismos vivos; estes reproduzem-se com pouca diferença quase exactamente e podem distinguir—se objecti- vamente o típico e as particularidades individuais;; em história, pe lo contrário, o tipo é aquilo que o obrigamos a ser; é subjectivo, no sentido de Marrou: é o que se escolhe como típico no campo aconte- cimental. Sabemos bem que os tipos históricos não existem em si .próprios, que os acontecimentos não se reproduzem com a constân cia das espécies vivas, que o tipo em história é uma escolha: pode to m ar-se uma monarquia esclarecida na totalidade, ou um aspecto dela, ou ainda os aspectos pouco esclarecidos duma monarquia que o é por outro lado; finalmente, cada qual definirá à sua manei ra o tipo «monarquia esclarecida». Em suma, os tipos são em nú mero infinito, dado que só existem para nós,-Uma vez mais, deve- Imos concluir pelo nominalismo histórico.
Não existem objectas naturais em história, naturais como uma 'planta ou um animal, que poderiam dar lugar a uma tipologia ou a Uma classificação; o objecta histórico é o que fazemos ser e pode ser recortado segundo mil critérios todos eles válidos/fEsta liberdade demasiado grande faz com que os historiadores não façam tipolo gia sem que fiquem indispostos: quando reagrupam vários aconte cimentos sob um mesmo critério parcial, não conseguem impedir- —se de acrescentar a toda a pressa que os outros aspectos destes acontecimentos não correspondem ao critério escolhido, o que pare ce contudo não salientar nada; se um deles declara que o evergetis- mo, considerado como uma espécie de dádiva, se aproxima nesse aspecto do potlatch, apressa—se a acrescentar que noutros aspectos é
mais um imposto; se um outro pelo contrário estuda os modos pelos quais as colectividades obtêm os recursos que lhe são necessários e se aproxima neste aspecto o evergetismo do imposto, tem o cuidado
(2) Ver o movimento de pensamento em A. R. RadcliíTe—Brown, Struc ture et Fonction dans la Société Primitive, trad. Marin, Éditions de Mi nuit, 1968, pp. 65-73.
de acrescentar muito rapidamente que a aproximação «não tem sentido histórico» e que o evergetismo lembra mais o potlatch nou
tros aspectos.
Os tipos são conceitos
Mas visto que se constitui um tipo, em vez de o encontrar elabo rado, dado que o tipo é o que escolhermos, resulta daqui que a inova rã o do tipo não acrescenta nada à explicação e também que, assim formulada, a ideia de «utilizar uma tipologia» não passa de um mito cientista. Longe de acrescentar alguma coisa à explicação, o recurso ao típico permite diminuí-la, í como vamos ver. Apelar para o típico a propósito da crise romana do século III é dizer: «Nós conhecemos bem este tipo de conflito, é aquele que já descrevemos sob a designação de conflito cidade-campo.» Ora, diante do típico, o historiador não pode ter a mesma atitude que o naturalista; este último não tem grande coisa a acrescentar quando, à vista duma papoula, disse «Não é mais do que uma papoula típica». O historia dor, esse, deve em primeiro lugar verificar largamente se a mo narquia dos Lágides responde claramente ao tipo do despotismo esclarecido ou se os documentos não impõem uma outra interpreta ção. E que ganhará ele em concluir que é realmente despotismo es clarecido? Nada que não tenha sabido e já verificado: mas poderá abreviar a sua descrição do regime dos Lágides, dizendo que «ti nha todas as características dos despotismos esclarecidos»; não lhe restará mais, como bom historiador, que acabar de preencher os espaços vazios e dizer em que circunstâncias apareceu o carác ter esclarecido desse despotismo e que modo particular tinha de o 'ser.1, 0 tipo ou a teoria só podem, portanto, servir para abreviar uma descrição;j]fala-se de despotismo esclarecido ou de conflito cidade- -campo para ser breve, como se diz «guerra» em vez de «conflito armado entre potências».'I Teorias, tipos e conceitos são uma única e mesma coisa: resumos de intrigas já prontos.^É portanto inútil ^prescrever aos historiadores a construção ou a utilização de teorias ou de tipos: eles fazem-no desde sempre, não poderia ser doutra maneira, excepto se não pronunciassepi uma única palavra, e eles mão são os melhores colocados para isso.
Deveria a história tornar-se generalizante, elaborar tipos e re correr a eles para interpretar os factos individuais?í/Mede—se a va cuidade desta linguagem cientista quando vemos ao que se liga na prática. Que quer dizer «empregar um tipo», recorrer à monar quia esclarecida para compreender Ptolomeu Evergeta? Seria isso recorrer a uma fórmula da monarquia esclarecida, a uma defini ção em quatro linhas, para verificar, palavra por palavra, se ela se adapta ao reinado desse príncipe e permite resolver o problema que seria o seu governo? Não é antes ter lido uma monografia so bre Frederico II ou José II, ter compreendido a intriga que aí é con tada e dela tirar ideias para compreender Ptolomeu e colocar sobre
ele questões que de outro modo jamais teríamos sonhado? E que quer dizer «construir um tipo»? Se esta expressão não designa a operação académica que consiste em resumir um livro numa fórmula bem achada (e um pouco forçada, pois nenhum dos des potismos esclarecidos do século XVIII se assemelha a outro e cada historiador pode «clivar» essa diversidade segundo o plano que preferir), a construção de um tipo não é mais do que a compreensão política de Frederico II ou de José II. E verdade que a querer levar às últimas consequências uma certa ideia dessa política podemos ser levados a descobrir aspectos desconhecidos da acção destes príncipes: a pretensa elaboração de tipos reduz-se a um processo heurístico; melhor compreendida, a política de Frederico II dará ideias a um historiador dos Ptolomeus; a utilização de tipos não é mais do que aquilo a que chamaremos também história compara da e que não é, nem uma história de uma espécie diferente, nem (mesmo um método, mas uma heurística./Ao fim e ao cabo, a his tória dita generalizante não faz nada para além do que faz a história propriamente dita: compreender e fazer compreender; é verdade que sentimos também nela o firme propósito de levar a compreensão dos factos mais longe do que se contentaria uma his toriografia mais tradicional: «história generalizante» deve ser a designação alemã daquilo que os franceses chamam história es trutural ou não-acontecimental. Finalmente, onde começa o típi co? Se a monarquia esclarecida é um tipo, não se passará o mesmo com a monarquia propriamente dita? Não será na história tudo tí pico e a topologia não se confundirá com um dicionário? Está bem assim: os tipos não são mais do que conceitos.
A história comparada
Se é assim, qual pode ainda ser o lugar de uma disciplina, a história comparada, que é bastante cultivada neste momento e que parece justamente muito prometedora, ainda que a ideia que faze mos dela esteja longe de ser clara? Será fazer história comparada reflectir sobre-as monarquias helenísticas tendo presente no es pírito o tipo do monarca esclarecido tal como ele ressalta de uma história de Frederico II.'Que é então a história comparada? Uma veracidade particular da história? Um método? Não, é uma heurís tica/3).
(3) Sobre a história comparada que é uma das orientações mais vivas e mais prometedoras da historiografia contemporânea (menos em Fança, é certo, que nos países anglo—saxões), mas sobre a qual as ideias são ainda pouco claras, ver a bibliografia de Th. Schieder, Geschichte als Wissens chaft, Munique, Oldenburgo, 1968, pp. 195-219; E. Rothacker, Die verglei chende Methode in den Geisswissenschaften, Zietschrift für vergleichende Rechtswissenschaft, 60,1957, pp. 13-33.
O difícil é dizer onde termina a história propriamente dita, on de começa a história comparada. Se, para estudar o regime senho rial no Forez, mencionamos lado a lado factos relativos a senho rios diferentes — e como não o fazer? — , escreve-se uma história comparada? E se se estuda o regime senhorial em toda a Europa medieval? Marc Bloch, em A Sociedade Feudal(*\ compara a feu-
dalidade francesa à da Inglaterra, mas só fala de história compa rada quando compara a feudalidade ocidental à do Japão; pelo con trário, Heinrich Mitteis publica uma história do Estado medieval no Império, em França, Itália, Inglaterra e Espanha sob o título se guinte: UÉtat du Haut Moyen Age, Esquisse d ’Histoire Comparée.
Quando Raymond Aron analisa a vida política das sociadades in dustriais de um e de outro lado da cortina de ferro, fala-se de socio logia, sem dúvida porque se trata de sociedades contemporâneas; em contrapartida, o livro de R. Palmer que analisa a história da «era da revolução demográfica na Europa e na América, 1760- -1 8 0 0 », é considerado como um clássico da história comparada. Seria porque, entre estes historiadores, uns insistiram sobre as diferenças nacionais, enquanto outros procuraram os aspectos comuns? Mas, se as democracias industriais têm taiítos aspectos comuns, em que é que a sua história é mais comparativa do que a dos diferentes senhorios do Forez? Ou a história de dois senhorios, de duas nações, de duas revoluções têm tantos aspectos comuns que não podemos mais falar de história comparada, ou então têm histó rias que são muito diferentes entre si, e o facto de os reunir num mesmo volume e de multiplicar as aproximações ou as oposições entre uma e outra tem sobretudo um valor didáctico para o leitor, após ter tido um valor heurístico para o autor; veja-se Mitteis: ele consagra um capítulo a cada um dos Estados europeus, sucessiva mente, depois, num capítulo de conjunto que poderíamos chamar de história europeia, resume a evolução de todos estes Estados toma dos conjuntamente, trazendo à luz as analogias e os contrastes. A julgar pelos resultados, não vemos então muita diferença entre um livro de história comparada e um livro de história que não o é: somente o quadro geográfico considerado é mais ou menos amplo.
jJA verdade é que a história comparada (e diríamos o mesmo da
literatura comparada) é original menos pelos seus resultados, que ■ são de história propriamente dita, do que pela sua elaboração; mais precisamente, a expressão equívoca e falsamente científica rifle história comparada (Cuvier e a gramática comparada estão por tanto bastante longe) designa duas e mesmo três diligências dife rentes: o recurso à analogia para suprir as lacunas de uma docu mentação, a aproximação para fins heurísticos de factos recolhi dos em nações ou períodos diversos, finalmente o estudo de uma ca tegoria histórica ou de um tipo de acontecimento através da histó ria, sem ter em conta unidade de tempo e de lugar ^Recorremos à
analogia para explicar o sentido ou as causas de um acontecimen to (o que chamaremos mais longe fazer a retrodicção) quando o acontecimento em questão reaparece num outro tempo e num outro lugar onde a documentação aferente permite compreender-lhe as causas: /assim procede a história das -religiões desde Prazer, quan do explica os factos romanos cuja significação é apagada, pela antologia de factos indianos ou papuas cuja explicação é conhe ci da(4). Recorre-se igualmente à analogia quando as lacunas da documentação deixam ignorar os próprios acontecimentos; não temos quase informação sobre a demografia romana, mas o es tudo demográfico das sociedades pré-industriais modernas fez tais progressos de há alguns decénios a esta parte, que baseando- -s e na sua analogia é doravante possível èscrever muitas páginas correctas sobre a demografia romana, desempenhando os magros factos romanos que chegaram até nós o papel de fundamentos da prova.
A segunda iniciativa da história comparada, a aproximação heurística, é o que faz todo o historiador que não tem antolhos e não se fecha no «seu período», mas que «pensa em reflectir» no despo tismo esclarecido quando estuda uma monarquia helenística^nos milenarismos revolucionários da Idade Média ou do Terceiro Mundo quando estuda a revolta de escravos no mundo helenístico; a fim de «encontrar ideias» por semelhança ou por contraste. E- -lhe em seguida lícito, quer guardar para ele o seu dossier compa
rativo após ter feito beneficiar o seu estudo de todas as interro gações que terá tirado da ideia que se lhe pôs(5); quer escrever para lelamente as revoltas de escravos e de servos e intitular o livro En saio de História Comparada./"Diligência que está próxima de uma
terceira iniciativa, a de uma história dos items; acontece frequen
temente, de facto, que possamos levar as coisas ainda mais longe: em vez de justapor monografias na sua cabeça sob a mesma enca dernação, pode frequentemente escrever-se um estudo global so bre a feudalidade ou o milenarismo através da história; basta que
(4) Cf. Marc Bloch, Mélanges Historiques, vol. I, pp. 16-40: «Para uma história comparada das sociedades europeias», partie, p. 18. Distinguire mos cuidadosamente esta história comparada das religiões à maneira de Frazer, que é comparativa no sentido da história comparada (a compara ção serve para completar um facto), da história comparada das religiões à maneira de Dumézil, que é comparativa no sentido da gramática compara da (a comparação permite reconstruir um estádio anterior da religião ou da língua, que está na origem das diversas línguas e religiões conside radas). Em geral, sobre o raciocínio histórico per analogiam, ver J. G. Droysen, Historik, edição Hübner, pp. 156-163; Th. Schieder, Geschichte als Wissenschaft, pp. 201-204; R. Wittram, Das Interesse an der Geschich te, Göttingen, Vandenhoeck und Ruprecht, 1968, pp. 50-54. Mas o estudo de via ser retomado no interior de uma teoria da retrodicção e da indução.
(5) Cf. Barrington Moore, Les Origines Sociales de La Dictature et de la Démocratie, trad. franc., Maspéro, 1969, p. 9.
os aspectos comuns sejam bastante pronunciados ou que as diferen ças apareçam como outras tantas soluções diferentes para um pro blema comum: é uma questão de oportunidade/'Assim fez Max We- ber no seu famoso estudo sobre a cidade na história universal; a uma história recortada segundo o espaço («história da Inglater ra») ou o tempo («O século XVII») sucede uma história recortada por items: a cidade, o milenarismo, «paz e guerra entre as na
ções», a monarquia do Antigo Regime, a democracia industrial; veremos no final deste livro que o futuro do género histórico está sem dúvida nesta via. Mas, mesmo assim, a história «por items»
ou «comparada» continua a ser história: ela consiste em com preender acontecimentos concretos que se explicam por causas ma teriais, fins e acasos; só há uma história.
É uma heurística
Veremos em que aspectos a história comparada parece distin guir-se da história comum: no que respeita à documentação, por um lado (recorre à analogia para suprir as lacunas das fbntes), no que respeita às convenções do género, por outro (quebra as unida des do tempo e de lugar); teremos muitas ocasiões, no seguimento deste livro, de pronunciar lado a lado as palavras «documenta ção» e «convenções do género» e veremos que muitos dos proble mas falsamente epistemológicos são simples falsas aparências suscitadas pela natureza das fontes e das convenções. A história comparada é ela própria uma dessas falsas aparências; ela consis te em fazer todo o dever do historiador: não se deixar aprisionar nos quadros convencionais, mas recortá-los segundo o padrão dos acontecimentos, e empregar todos os recursos para compreender; que o papua seja chamado, se o romano não é suficiente.' Mas o re sultado não é uma história que seria diferente, mais explicativa, mais geral ou mais científica do que a outra; a história compa rada não faz descobrir nada que não se pudesse, na verdade, des cobrir através de um estudo não-comparativo; não fez mais que facilitar a descoberta, é uma heurística, mas não faz encontrar ou tra coisa.fl Evitemos acreditar, com efeito, que haja a menor rela ção entre a história comparada e a gramática comparada; quando esta última compara duas línguas, por exemplo o sânscrito e o gre go, não é para facilitar, por analogia, semelhança ou contraste, a penetração de uma ou outra dessas línguas, mas sim para recons truir uma terceira língua, o indo-europeu, de onde derivam as duas outras. Pelo contrário, quando a história comparada fala do Milenarismo ou da Cidade, não diz mais do que verdades que são verdadeiras dos diversos milenarismos e das diversas cidades que tomou em consideração; a luz nasce mais facilmente da com paração, mas, de facto, um espírito suficientemente penetrante te ria podido recolher, num estudo monográfico, tudo o que a compa ração permite recolher mais facilmente.
Daqui resulta que a história comparada não precisa do «méto do das diferenças». Seria o melhor meio para descobrir a causa do evergetismo comparar as particularidades da civilização helenís- tica, onde essa simulação existe, com as da civilização florentina, que a ignora a fim de encontrar, por abstracção, a particularidade que foi a causa? E impossível ou inútil. Impossível, porque teria de ser capaz de explicar todas essas particularidades; ora existem bastantes oportunidades de que elas sejam em grande parte, para nós, do não-acontecimental; por outras palavras, que o nosso in quérito comparativo chegue a esta conclusão: «a causa da existên cia do evergetismo na Grécia e a sua ausência em Florença está nas mentalidades ou nas tradições diferentes destas duas socieda des». Quererá o acaso pelo contrário que ponhamos a mão sobre a causa certa? Nesse caso o inquérito comparativo, heuristicamente oportuno, não terá de facto sido menos inútil. Suponhamos que re vela que a grande causa do evergetismo é a ausência do imposto di recto: Florença tinha esse imposto e não tinha evergetismo, e pas sava-se o contrário em Atenas, mas quem não compreende aqui a
relação de causa e efeito? Uma cidade tem normalmente necessi dade de dinheiro e procura-o onde ele existe, na bolsa dos contri buintes ou, na falta destes, na de um evergeta. Bastaria então um pouco de reflexão sobre Atenas para encontrar a explicação correc ta; para quê por em acção, salvo para facilitar a tarefa, um preten so método comparativo que não leva a descobrir outra coisa para além da que se encontra nos termos da comparação(6)?
A história comparada não conduz, portanto, a mais do que a his tória propriamente dita; vimos mais atrás que se passa o mesmo com a história generalizante. Vimos também que teorias e tipos são uma mesma coisa: resumos de intrigas completamente prepa rados, de espécies de conceitos. Por outras palavras, só existe uma história, que só consiste em compreender e que se escreve com pala vras; não existem várias espécies de história ou várias operações intelectuais diferentes, das quais algumas seriam mais gerais ou científicas do que outras. Que fazemos nós mais do que compreen der intrigas? E não há duas maneiras de compreender.
Os conceitos
O único verdadeiro problema é o dos conceitos em história e va mos demorar-nos nele bastante tempo. Como qualquer discurso, a história não fala por exemplos, exprime-se por meio de conceitos e
(6) Pelo contrário, quando a gramática comparada confronta o grego e o sânscrito, é para aí encontrar outra coisa, o indo-europeu, que não pode ria ser descoberto, mesmo pelo espírito mais penetrante, perscrutando um único destes dois termos: por muito perspicazes que sejamos, nunca aperce beremos o indo-europeu unicamente no grego.
a mais árida das cronologias dirá pelo menos que em tal época hou ve guerra e em tal outra revolução. Estes universais são umas ve zes ideias sem idade, guerra ou rei, outras, palavras recentes que parecem mais sábias, potlatch ou despotismo esclarecido. Esta dife
rença é superficial e dizer que a Guerra de 1914 foi uma guerra não é colocarmo-nos num terreno mais positivo do que falar de pot latch. Para compreender como uma ideia tão simples como a da
guerra pôde surgir pela primeira vez nos cérebros num certo está dio da evolução das sociedades e das suas relações, basta verificar como nasceram recentemente os conceitos de jornada revolucioná ria ou de guerra fria; a guerra é um tipo ideal e apercebemo-nos disso quando é preciso distingui-la da guerra privada, da anar quia, da guerrilha, da «Guerra dos Cem Anos» ou guerra de eclip ses, sem falar da «guerra florida» dos Maias e das zaragatas entre tribos endogâmicas dos primitivos; dizer que a guerra do Pe- loponeso foi uma guerra é já adiantar bastante.
A história é descrição do individual através dos universais, o que, de facto, não levanta nenhuma dificuldade: dizer que a guer ra do Peloponeso se desenrolou em terra e no mar não é lutar con tra o inefável. Não se constata menos que os historiadores são incessantemente importunados ou enganados pelos conceitos ou os tipos de que se servem; eles reprovam—lhes, umas vezes, serem chaves que, válidas para um período, não funcionam para um ou tro, outras vezes, não serem de margens claras e acarretarem con sigo associações de ideias que, mergulhadas num novo meio, as tomam anacrónicas. Como por exemplo deste último dissabor, cite mos «capitalismo» e «burguesia», que soam a falso desde que se apliquem estas noções à Antiguidade (um notável helenístico ou romano não tem de modo nenhum a cabeça de um burguês capita lista, mesmo que este fosse um florentino do tempo dos Médicis); como exemplo do primeiro inconveniente, quase todas as palavras da história das regiões: folclore, devoção, festa, superstição, deus, sacrifício e mesmo religião mudam de valor de uma religião para outra (religio, em Lucrécio, quer dizer «medo dos deuses» e traduz
o greco deisi-daimonia, que nós próprios, à falta de melhor, tradu
zimos por «superstição», e estas diferenças no corte semântico cor respondem a diferenças na concepção das coisas). Em geral, estas dificuldades de origem conceptual exasperam os profissionais, bons operários que não gostam de se lastimar dos seus maus ins trumentos; o seu ofício não é analisar a ideia de revolução, mas di zer quem fez a de 1789, quando, como e porquê; esmerar-se nos conceitos é, a seus olhos, um capricho de principiantes. Acontece que os instrumentos conceptuais são o lugar dos progressos da his toriografia (ter conceitos é conceber as coisas); os conceitos inade quados dão ao historiador um mal-estar característico que é um dos episódios consagrados do dramatismo do seu ofício; qualquer profissional conhece mais tarde ou mais cedo essa impressão de que uma palavra não adere, que soa a falso, que é confusa, que os factos não têm o estilo que esperávamos deles segundo o conceito
sob o qual os agrupamos; este mal-estar é um sinal de alarme que anuncia que o anacronismo ou o pouco-mais—ou—menos amea çam, mas por vezes passam os anos antes que seja encontrado um aparato sob a forma de um novo conceito. Não é a história da histo riografia, por um lado, a história dos anacronismos causados pe las ideias feitas? Os concursos olímpicos não eram jogos, as seitas filosóficas antigas não eram escolas, o henoteísmo não é o mono teísmo, o grupo flutuante dos libertos romanos não era uma classe burguesa nascente, os cavaleiros romanos não eram uma classe, as assembleias provinciais não passavam de colégios culturais de cidades autorizadas pelo imperador e não corpos intermédios en tre as províncias e o governo... Para remediar estes mal-entendi dos, o historiador forja tipos ad hoc que se tornam outras tantas ar
madilhas à sua volta. Sendo conhecida esta quase-fatalidade do contra-senso, elaborar novos conceitos passará no historiador ao estado de reflexo: quando vemos, por um lado, L. R. Taylor expli car que os partidos políticos em Roma não passavam de cliques po líticas e clientelas, enquanto, por outro lado, alguns defendem que correspondiam a conflitos sociais ou ideológicos, podemos estar antecipadamente seguros de que não será um estudo minucioso das fontes que fará avançar o debate, nem sequer um milímetro: podemos afirmar à primeira vista que o dilema está por ultrapas sar, que será necessário interessar-se pela «sociologia» dos parti dos políticos através da história e tentar inventar, por comparação heurística, uma «sociologia» à medida dos partidos políticos du rante a República romana.
Um exemplo: o nacionalismo helénico
Para ilustrar o papel dos conceitos, eis um exemplo que desen volveremos um pouco extensamente, porque podemos ver nele como um conceito ou um tipo ideal, o de nacionalismo, permite compreender melhor um movimento histórico, uma vez que pense mos substituir aquele pelo conceito; mas também como o mesmo conceito tinha, por um lado, começado por impedir essa mesma compreensão. Por volta dos anos 100 da nossa era, em pleno século de ouro do Império Romano, vivia um publicista grego célebre no seu tempo, Dion de Prusa; a sua reputação era imensa nos países helénicos, tornados «províncias» do império (nós diríamos mais ou menos colónias) e fiéis para com os seus vencedores. Ora este publicista não cessa de desenvolver ideias que, após séculos de do minação romana, parecem estranhamente inactuais: nostalgia da antiga independência da Grécia, culto pelos velhos hábitos helé nicos, hostilidade face aos costumes romanos, apelos à grecidade para que ela retome consciência de si própria e orgulho; mostrare mos noutro lado que ele passou uma parte da sua vida a procurar uma cidade que pudesse desempenhar o papel de leader da grecida
esperan-ças para Rodes). Convencionou-se durante muito tempo — mais em França do que nos países germânicos — falar destas aspira ções como de fantasias que só podiam germinar num cérebro de li terato. De facto, estas aspirações são naturalmente as de um nacio nalismo grego e Dion é o representante de um patriotismo helénico no Império Romano. Será isso só mudar a palavra pejorativa de fantasias pelo vocábulo nobre de patriotismo? Não, é mudar os pró prios factos, porque é mudar a ideia de patriotismo helénico de todo o conteúdo implícito que o conceito de nacionalismo tira- do seu lu gar de nascimento, o século XIX europeu: o nacionalismo de Dion será explicado pelo mesmo ardor profundo que transtornou a Euro pa central e oriental no decurso do último século; ele estava prenhe das mesmas consequências políticas, e o renascimento da cultura helénica por volta do fim do primeiro século, o que chamamos a se gunda sofística, e mesmo o purismo liguístico que começa então a ser severo (chega-se até a grecisar os nomes próprios latinos), são comparáveis ao renascimento das línguas e das literaturas nacio nais no século XIX; a situação dos gregos no Império é comparável à dos checos e dos húngaros sob dominação dos Habsburgo. Rene gando o antigo patriotismo da cidade-estado, que não tem mais razão de ser desde que a conquista romana uniu a grecidade na escravatura, Dion faz-nos assistir ao nascimento de um naciona lismo pan—helénico que anuncia o patriotismo bizantino e a ruptu ra entre o Império do Ocidente e o Império Grego.
Mas a dialéctica da compreensão e dos conceitos não pára aqui, porque a ideia nacionalista parece em contradição com outras ati tudes de Dion. Como pode este publicista anti-romano ser, por ou tro lado, partidário convicto do poder imperial, que o soberano que ele reconhece seja um soberano estrangeiro e que, não desdenhan do sempre as baixas tarefas, tenha empregue uma outra parte da sua actividade a pregar aos gregos de Alexandria, com a ameaça na boca, a obediência ao imperador romano? Damo-nos conta en tão de quanto a ideia de nacionalismo é confusa: durante longos séculos, a pátria e o Estado não coincidiram; um nobre magiar era inimigo jurado dos costumes austríacos, mas devotado até à morte ao seu imperador, por muito austríaco que fosse; Hobbes discute as vantagens e os inconvenientes de ter por príncipe um estrangeiro, no mesmo tom em que nós examinamos que parte devemos deixar aos capitais estrangeiros na vida económica de uma nação. Me lhor do que os filósofos franceses, os sábios germânicos compreen deram como Dion, fiel à sua pátria grega, podia sê-lo também ao seu imperador romano(7).
(7) Sobre o carácter recente da coincidência entre a pátria e o Estado, A. Passerin d’Entrèves, La Notion de l'État, trad, franc., Sirey, p. 211. A obra de Dion divide-se assim entre a propaganda nacionalista grega e a propa ganda pelo imperador romano. Distinguiremos portanto o nacionalismo lealista de Dion de um movimento diferente, popular e talvez social (os
São portanto estranhos utensílios os conceitos históricos; eles permitem compreender porque são ricos de um sentido que ultra passa toda a definição possível; pela mesma razão, são um incita mento perpétuo ao contra-senso. Tudo se passa como se carregas sem em si toda a riqueza concreta dos acontecimentos que lhes são submetidos, como se a ideia de nacionalismo englobasse tudo o que se sabe de todos os nacionalismos. E mesmo assim. Os concei tos do vivido sublunar, em particular aqueles de que nos servimos em história, são muito diferentes dos das ciências, quer estas sejam ciências dedutivas como a física ou a economia pura, ou ciências em vias de elaboração como a biologia. Existem, portan to, conceitos e conceitos e é preciso não confundir tudo (como o faz a sociologia geral, que trata alguns conceitos saídos do senso comum, como os de papel e controlo social, com tanta gravidade como se se tratasse de termos científicos). Para retomar uma clas sificação que está em situação de se tornar consagrada, há em pri meiro lugar os conceitos das ciências dedutivas: força, campo magnético, elasticidade da procura, energia cinética; são outras tantas abstracções perfeitamente definidas por uma teoria que per mite construí-las e só aparecem ao fim de longas explicações teóri cas. Outros conceitos, nas ciências naturais, dão lugar a uma aná lise empírica: sabemos todos intuitivamente o que é um animal ou um peixe, mas o biólogo procurará critérios que permitem distin guir animais e vegetais e dirá se a baleia é um peixe; no final, os peixes do biólogo já não serão os do senso comum.
As três espécies de con ceitos
Crítica dos conceitos históricos
IIOs conceitos históricos, esses, pertencem exclusivamente ao
senso comum (uma cidade, uma revolução), ou, se são de origem erudita (despotismo esclarecido), não valem mais por isso//Estes
cínicos reprovam a riqueza sob cores de moral ascética), que era o desses oradores populares de rua que eram os Cínicos, que pregavam o levanta mento contra o Império: em pleno século dos Antoninos, o cínico Peregri nos Proteus «tentava persuadir os gregos a tomarem armas contra os roma nos» (Luciano, La Mort de Pérégrinos, 19); imolou-se pelo fogo, diante da multidão, à maneira dos sábios da índia. Comparar W. Münhlmann, Mes- sianismes Révolutionnaires du Tiers Monde, Gallimard, 1968, p. 157: «Nos nossos dias, em países islâmicos, opõem-se o milenarismo revolu cionário mahdista, muito difundido nas classes baixas que acompanham os pregadores populares, e uma doutrina oficial e racionalizante do nacio nalismo, que é uma doutrina de luxo e pertença das classes superiores.» Ao nacionalismo de luxo de Dion, ao nacionalismo popular ou esquerdista dos Cínicos, acrescentemos uma terceira atitude, o «colaboracionismo» de um outro publicista, Aelius Aristide, que agradece a Roma ter sabido tor nar sólida a sua dominação associando ao poder as élites locais.
são conceitos paradoxais: nós sabemos intuitivamente que isto é uma revolução e que aquilo não passa de um motim, mas não sabe mos dizer o que são motim e revolução; falaremos deles sem os conhecer verdadeiramente. Dar uma definição? Isso seria arbitrá rio ou impossível. Revolução, mudança brusca e violenta na polí tica e no governo do Estado, diz Littré, mas essa definição não ana lisa o conceito nem o esgota; de facto, o nosso conhecimento do con ceito de revolução consiste em saber que se dá correntemente esse nome a um conjunto rico e confuso de factos que se encontram nos livros que respeitam aos anos de 1642 e 1789: «revolução» tem para nós a fisionomia de tudo o que lemos, vimos ou percebemos sobre as diversas revoluções cujo conhecimento chegou até nós e é esse te souro de conhecimento que dirige o nosso emprego da palavra(8). O conceito não tem limites precisos; sabemos bastante mais sobre a revolução do que qualquer definição possível, mas não sabemos o que sabemos e isso prega-nos por vezes desagradáveis surpresas quando a palavra se revela soar falso ou anacronicamente em al gumas circunstâncias.' Sabemos todavia o bastante para dizer, se não o que é uma revolução, pelo menos se tal acontecimento é uma ou não: «não, Sire, isto não é um motim...» Como diz Hume, «não associamos ideias distintas e completas a todos os termos de que nos servimos e, quando falamos de governo, de Igreja, de negocia ções, de conquista, raramente desenvolvemos no nosso espírito to das as ideias simples que compõem estas ideias complexas. È pre ciso pelo menos notar que, não obstante, evitaremos dizer absurdos sobre todos estes assuntos e que sentimos as contradições que estas ideias podem apresentar, tão bem como se as compreendêssemos perfeitamente: por exemplo se, em vez de nos dizerem que na guer ra o vencido não tem mais a fazer que recorrer ao armistício, nos dissessem que só há que recorrer às conquistas, o absurdo destas palavras agredir-nos-ia o espírito»(9).
Um conceito histórico permite, por exemplo, designar um acon tecimento como sendo uma revolução; não se segue daí que empre gando este conceito se saiba «o que é» uma revolução.. Estes concei tos não são conceitos dignos desse nome, complexos de elementos necessariamente articulados; são antes representações compósi tas que dão a ilusão de interacção, mas que, na realidade, não
(8) R. Wittram, Das Interesse an der Geschichte, p. 38: «Na palavra na cionalidade ressoa todo o século XIX, o leitor ouve os canhões de Solferino, as trompetas de Vionville, a voz de Treitschke, vê uniformes e fardas de ga la, pensa nas lutas nacionais de toda a Europa...»; o mesmo autor assinala que a frase que lemos tão frequentemente nos nossos dias, «esta palavra não tem o mesmo sentido para as pessoas dessa época e para nós», é mais recente do que acreditaríamos. Droysen, na tradição humanista e sob a influência de Hegel, vivia ainda num universo intelectual de conceitos fixos.
(9) Treatise o f Human Nature, p. 31 (Everyman’s Library).
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são mais do que espécies de imagens genéricas? A «revolução», a «cidade», é feita de todas as cidades e de todas as revoluções já conhecidas e espera das nossas experiências futuras um enrique cimento para a qual ela permanece definitivamente aberta. Tam bém podemos ver tal historiador, especialista do século XVII in glês, lamentar—se de que os seus confrades «tenham falado de classes sociais sem porem reservas para esse século; falando de classes ascendentes ou em declínio, eles tiveram no espírito, com
toda a evidência, conflitos de natureza muito diferente»(10 11); do mesmo modo, a expressão classe média apresenta «demasiadas as sociações enganadoras quando se aplica ao estado social do tempo
dos Stuart»; «por vezes (mas mais raramente, devido precisamen te ao carácter vago desta linguagem) chegou até a confundir-se um agrupamento hierárquico com uma classe social e prossegui mos o raciocínio como se tais agrupamentos pudessem crescer, de
clinar, bater-se entre si, tomarem consciência de si próprios, pos suir uma política sua». Abreviando, como diz a Crítica da Razão Pura, «um conceito empírico não pode de modo nenhum ser defini
tivo, mas simplesmente explicado; não sabemos nunca de manei ra segura se, sob a palavra que designa o mesmo objecto, não pen samos umas vezes mais e outras menos em caracteres. Assim, no conceito de ouro, para além do peso, da cor, da tenacidade, este pode pensar ainda nessa propriedade que tem o ouro de não enferrujar; enquanto aqui ignora talvez essa propriedade. Não nos servimos de alguns caracteres senão quando eles bastam à distinção, mas novas observações farão desaparecer alguns e acrescentam ou tros, de tal modo que o conceito não está nunca encerrado em limi tes seguros. E além disso, para que serviria definir um conceito desse género? Quando se trata da água, por exemplo, não nos limi tamos, de facto, ao que se concebe pela palavra água, mas recorre mos a experiências, e, nesse caso, a palavra, com as poucas carac terísticas que se lhe ligam, constitui apenas uma designação e não
um conceito da coisa; por conseguinte a pretensa definição não é mais do que a explicação da palavra»(u ). Quando se conviesse re servar a palavra revolução às únicas revoluções que deslocam a propriedade, acrescentar-se-ia seguramente um pouco de ordem no majestoso jardim da língua francesa, mas não se faria avan çar uma unha a teoria e tipologia dos fenómenos revolucionários
(10) P. Laslett, Un Monde que Nous Avons Perdu: Famille, Communau té et Structure Sociale dans l’Angleterre Pré-Industrielle, trad. franc., Flammarion, 1969, p. 31; ver também p. 26; 27 («o capitalismo, uma dessas numerosas palavras imprecisas que constituem o vocabulário dos historia dores»)- 30 («é uma infelicidade que um estudo preliminar como o nosso te nha de se preocupar com um conceito tão difícil, controverso e técnico como o de classe social»); 61 («associações de ideias»),
(11) Kant, Critique de la Raison Pure, trad. Tremesaygues e Pacaud, P. U. F., 1967,p. 501.
ou a história de 1 7 8 9 / O desejo, frequentemente expresso, de ver a história definir precisamente os conceitos que usa, e a afirmação de que essa precisão é a condição primeira dos seus progressos futu ros, são um belo exemplo de falsa metodologia e de rigor inútil.
Mas o perigo mais dissimulado é o das palavras que suscitam no nosso espírito falsas essências e que povoam a história de uni versais que não existem. O evergetismo antigo, a caridade cristã, a assistência dos modernos e a segurança social não têm pratica mente nada em comum, não vão beneficiar as mesmas categorias de pessoas, não socorrem as mesmas necessidades, não têm as mesmas instituições, não se explicam pelo mesmos motivos e não se encobrem com as mesmas justificações, não se deixará de estu dar a assistência e a caridade através dos tempos, do Egipto faraó nico às democracias escandinavas; não restará mais que con cluir que a assistência é uma categoria permanente, que preenche uma função necessária a toda a sociedade humana e que nessa per manência deve estar escondida qualquer misteriosa finalidade de integração de todo o corpo social; te r-se -á assim contribuído para o edifício de uma sociologia funcionalista. Por aqui se esta belecem na história continuidades enganadoras, genealogias abu sivas; quando pronunciamos as palavras assistência, dádiva, sacrifício, crime, loucura e religião, somos levados a crer que as diferentes religiões têm suficientes aspectos comuns para que seja legítimo estudar a religião através da história; que exista um ser chamado dádiva ou potlatch, que gozaria de propriedades constan
tes e definidas, por exemplo a de suscitar contradádivas ou de valer prestígio e superioridade ao dador sobre os beneficiários. A sociologia de outros tempos caía frequentemente na ratoeira do na cional; ela começava na história comparada para suscitar ao fim os seres da razão; por amor à generalidade (não há ciência senão do geral), imaginava uma categoria sociológica chamada crimi nalidade e metia no mesmo saco os hold-up das sociedades indus
triais, as zaragatas e violações do Far-West, a vendetta na Córse
ga e na Itália do Renascimento e o banditismo da miséria na Sar denha.
Os agregados
Não é sem inquietação que vemos livros intitularem-se Trata do de História das Religiões ou Fenomenologia Religiosa: então
existiria qualquer coisa como «a» religião? Tranquilizamo-nos verificando imediatamente que, apesar da generalidade do seu tí tulo, estes tratados, se possuem quadros que lhes permitem tratar das religiões antigas, passam praticamente em silêncio o cristia nismo, e reciprocamente. O que se compreende. As diferentes re ligiões são outros tantos agregados de fenómenos pertencentes a ca tegorias heterogéneas e nenhum destes agregados tem a mesma composição que outro; tal religião comporta ritos, magia,
mito-logia; outra agregou a si a filosofia teológica, está ligada a insti tuições políticas, culturais, desportivas, a fenómenos psicopatoló- gicos, segregou instituições que têm uma dimensão económica (panegírias antigas, monaquismo cristão ou búdico); outra ainda «captou» tal ou tal movimento que, numa outra civilização, ter-se- -i a tomado um movimento político ou uma curiosidade da his tória dos costumes; é uma vulgaridade dizer que os hippies lem
bram um pouquinho o primeiro franciscanismo: pelo menos vê- s e como uma possibilidade psicossocial pode ser captada por um
agregado religioso. Serão insensíveis os cambiantes que sepa rarão uma religião de um folclore, de um movimento de fervor colectivo, de uma seita política, filosófica ou carismática; onde en quadrar o saint-simonismo ou o cenáculo de Stefan George? Com o budismo do Pequeno Veículo, temos uma religião ateia. Os histo riadores da antiguidade sabem quanto pode ser incerto o limite en tre o religioso e o colectivo (os Jogos Olímpicos) e os reformadores viam, nas peregrinações papistas, um turismo pagão; a famosa frase, «na Antiguidade, tudo o que é colectivo é religioso», não é um incitamento para aumentar o elemento religioso da Antiguida de emprestando-lhe a intensidade que lhe conhecemos nos cristia nismo: ela significa que o agregado chamado religião grega era feito de bastante folclore.
O «plano» duma religião não se assemelha ao de qualquer ou tra, do mesmo modo que o plano de cada aglomeração difere das ou tras; uma comporta um palácio e um teatro, outra fábricas, a tercei ra é um simples lugarejo. E uma questão de graus: duma religião para a outra, as diferenças são bastante consideráveis para que, praticamente, um manual de história das religiões seja irrealizá vel se não começa por uma tipologia, do mesmo modo que um livro de geografia geral intitulado A Cidade começa sempre por distin
guir tipos de cidades e por confessar que a distinção entre cidade e vila continua fluida. Não acontece menos que deva haver aí qual quer coisa de comum às diferentes religiões, que faz com que te nham sido reunidas sob um mesmo conceito; não é menos certo que o historiador deva considerar esse qualquer coisa como essen cial, sob pena de nada mais compreender do facto religioso. Mas o difícil seria definir esse núcleo essencial: o sagrado? o sentimen to religioso? o transcendente? Deixemos os filósofos às voltas com esse problema duma essência regional; como historiadores, bas tar-n os-á estarmos prevenidos de que o núcleo essencial do agre gado não é mais do que o núcleo, que nós não podemos conjecturar o que será esse núcleo numa religião dada, que esse núcleo não é um invariante e que muda duma cultura para outra (nem «sagra do» nem «deus» são palavras unívocas; quanto aos sentimentos re ligiosos, não têm nada de específico em si próprios; o êxtase é um fenómeno religioso quando se reporta ao sagrado, em vez de se re portar à poesia, como num grande poeta contemporâneo, ou à em briaguez do saber astronómico, como é o caso para o astrónomo Pto- lomeu). O todo continua bastante fluido e verbal para que o próprio
conceito de religião seja ílutuante e simplesmente fisionómico; o historiador deve então proceder muito empiricamente e evitar in vestir, na sua ideia que forma duma religião determinada, tudo o que o conceito de religião retém das outras religiões(12).
Os conceitos classificadores
Vemos onde reside o perigo: nos conceitos classificadores. É in teiramente possível encontrar palavras para descrever os assaltos na Sardenha, o banditismo em Chicago, a religião budista ou a França em 1453, mas não é necessário falar de «a criminalida de», de «a religião», nem de «a França» de Clóvis a Pompidou; podemos falar do que os Gregos chamavam loucura ou de quais eram os sintomas objectivos, nessa época, do que nós qualificaría mos de loucura, mas não é preciso falar de «a» loucura nem dos «seus» sintomas. Não tiremos conclusões nietzschianas ou trági cas; digamos simplesmente que todo o conceito classificador é fal so porque nenhum acontecimento se assemelha a um outro e por que a história não é a constante repetição dos mesmos factos: só nos faz crer nisso o jogo de ilusões que os conceitos classificadores suscitam.
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ser e a identidade não existem senão por abstracção, ora a história não quer conhecer senão o concreto. Não é possível dar inteira satisfação a esta pretensão, mas teremos feito bastante se decidirmos nunca mais falar de religião ou de revolução mas somente de religião budista ou de Revolução de 1789, a fim de que o mundo da história seja povoado exclusivamente por acontecimen tos únicos (que podem de resto assemelhar-se mais ou menos) e nunca por objectos uniformes. Acresce que todos os conceitos histó ricos serão sempre contra-senso por qualquer lado, dado que todas as coisas estão em devir; mas basta que eles não sejam contra- -senso do lado da intriga escolhida: não é grave falar da «burgue sia do século XIV ao século XX», se se entende por burguesia um conjunto de plebeus que não são, no entanto, o povo; isso seria mais grave se entendêssemos por essa palavra uma classe de capitalis tas. Infelizmente, sem nos darmos demasiado conta, entende-se geralmente a palavra em todos os sentidos ao mesmo tempo, por que tal é a fatalidade dos conceitos sublunares.O nosso propósito não é recusar toda a objectividade à burgue sia, por servilismo face ao capital, ou negar, por anticlericalismo, que a religião seja uma ordem no sentido pascaliano ou uma es sência irredutível; queremos mais modestamente trazer à luz a dificuldade que existe em encontrar, para a burguesia ou para a re ligião, um símbolo de reconhecimento que seja válido para todas
(12) Cf. R. Stark e C. Y. d ock , «Dimensions of Religious Commit ment», in R. Robertson (editor), Sociology o f Religion, Selected Readings, Penguin Books, 1969, pp. 253-261.