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Academic year: 2021

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JOSÉ HERCULANO PIRES 

INTRODUÇÃO 

À 

FILOSOFIA 

ESPÍRITA

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INTRODUÇÃO À FILOSOFIA ESPÍRITA  José Herculano Pires (1914­1979)  Primeira edição em 1983  Editora PAIDEIA  Versão digitalizada  © 2011 Brasil 

www.luzespirita.org.br

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3 –INTRODUÇÃO À FILOSOFI A ESPÍRITA 

INTRODUÇÃO 

À 

FILOSOFIA 

ESPÍRITA 

J osé Her culano Pir es

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CONVITE:  Convidamos você, que teve a oportunidade de ler  livremente esta obra, a participar da nossa campanha  de SEMEADURA DE LETRAS, que consiste em cada  qual comprar um livro espírita, ler e depois  presenteá‐lo a outrem, colaborando assim na  divulgação do Espiritismo e incentivando as pessoas à  boa leitura.  Essa ação, certamente, renderá ótimos frutos.  Abraço fraterno e muita LUZ para todos! 

www.luzespirita.org.br

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5 –INTRODUÇÃO À FILOSOFI A ESPÍRITA 

Índice 

FICHA DE IDENTIFICAÇÃO LITERÁRIA – pag. 6  I – PERFIL DA FILOSOFIA ESPÍRITA  1 ‐ Introdução – pag. 7  II – FILOSOFIA E ESPIRITISMO – pag. 11  1 ‐ 0 que é Filosofia?  2 ‐ O que é Espiritismo?  3 ‐ A Tradição Filosófica 

III – TEORIA ESPÍRITA DO CONHECIMENTO – pag. 16 

1 ‐ Como conhecemos?  2 ‐ O que conhecemos?  3 ‐ O processo gnoseológico  IV – FIDEÍSMO CRÍTICO – pag. 22 

V – ONTOLOGIA ESPÍRITA – pag. 27 

VI – EXISTENCIALISMO ESPÍRITA – pag. 34 

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Ficha de 

Identificação literária 

JOSÉ  HERCULANO  PIRES nasceu  em  25  de  setembro  de  1914  na  antiga  província  de  Avaré,  no  Estado  de  São  Paulo  e  desencarnou  em  9  de  março  de  1979,  filho  de  José  Pires  Corrêa  e  de  Da.  Bonina  Amaral  Simonetti  Pires. Fez seus estudos em Avaré, Itai e Cerqueira César. Revelou sua vocação  literária  desde  que  começou  a  escrever.  Aos  16  anos  publicou  seu  primeiro  livro: “Sonhos Azuis” (contos), e aos 18, o segundo livro: “Coração” (poemas  livres e sonetos). Já colaborava nos jornais e revistas das cidades de São Paulo e  do  Rio  de  Janeiro.  Foi  um  dos  fundadores  da  União  Artística  do  Interior.  Mudou‐se  para  Marília  em  1940  onde  adquiriu  o  jornal  Diário  Paulista  e  o  dirigiu  durante  6  anos.  Com  José  Geraldo  Vieira,  Zoroastro  Gouveia,  Osório  Alves de Castro, Nichemja Sigal, Anathol Rosenfeld e outros promoveu, através  do  jornal,  um  movimento  literário  na  cidade  e  publicou  “Estradas  e  Ruas”  (poemas) que Érico Veríssimo e Sérgio Millet comentaram favoravelmente. Em  1946 mudou‐se para São Paulo e lançou seu primeiro romance, “O Caminho do 

Meio”,  que  mereceu  criticas  elogiosas  de  Afonso  Schimidt,  Geraldo  Vieira  e 

Wilson  Martins.  Repórter,  redator,  secretário,  cronista  parlamentar  e  critico  literário  dos  Diários  Associados  onde  manteve,  também,  por  quase  20 anos,  a  coluna  espírita  com  o  pseudônimo  de  Irmão  Saulo.  Exerceu  essas  funções  na  Rua Sete de Abril por cerca de trinta anos. Em 1958 bacharelou‐se em Filosofia  pela  Universidade  de  São  Paulo,  e  pela  mesma  Universidade  licenciou‐se  em  Filosofia tendo publicado uma tese existencial: O Ser e a Serenidade. Autor de  oitenta  e  um  livros  de  Filosofia,  Ensaios,  Histórias,  Psicologia,  Espiritismo  e  Parapsicologia  sendo  a  sua  maioria  inteiramente  dedicada  ao  estudo  e  à  divulgação da Doutrina Espírita, e vários de parceria com Chico Xavier. Lançou,  recentemente,  a  série  de  ensaios “Pensamento  da  Era  Cósmica”  e a  série  de  romances de Ficção Científica e Paranormal. Foi diretor‐fundador da Revista de 

“Educação  Espírita”  publicada  pela  EDICEL.  Em  1954  publicou  “Barrabás” 

que  mereceu  Prêmio  do Departamento  Municipal  de  Cultura  de  São  Paulo  em  1958, constituindo o primeiro volume da trilogia “Caminhos do Espírito”. Em  1975  publicou  “Lázaro”  e,  com  o  romance  “Madalena”,  editado  pela  EDICEL  em maio de 1979, a concluiu. 

Ao  desencarnar,  deixou  prontos  vários  originais  os  quais  vêm  sendo  publicados pelas Editoras PAIDÉIA e EDICEL.

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7 –INTRODUÇÃO À FILOSOFI A ESPÍRITA 

PERFIL DA 

FILOSOFIA ESPÍRITA 

1. Introdução 

Uma introdução à Filosofia Espírita exige longa pesquisa de suas raízes  nas coordenadas da evolução humana: o tempo e o pensamento. A História da  Filosofia é um continuum, que nasce da primeira indagação do homem sobre a  Natureza e depois sobre a vida e sobre ele mesmo. Da Magia à Religião e desta  à  Filosofia o  pensamento  se  desenrola  numa  sequência  ininterrupta  de 

formulações  pessoais  que  se  encadeiam  em  processo  dialético.  Não  existe  a  sequência tantas vezes apresentada de Magia‐Religião‐Ciência‐Filosofia. O que  realmente  existe  é  um  paralelismo  de  ação  mental  que  parte  da  primeira  tomada  de  consciência  do  Mundo  pelo  homem.  Na  primeira  paralela  temos  a  sequência  Magia‐Religião,  que  se  desenvolve  no  plano  da  afetividade.  Na  segunda  paralela  temos  a  sequência  Experiência‐Ciência‐‐Filosofia,  que  se  desenvolve  no  plano  da  razão.  Entre  as  duas,  interligando  o  fluido  do  sentimento e  da razão, temos a faixa de terra da práxis, onde o homem opera  desenvolvendo  a  sua  capacidade  de  manusear  as  coisas  e  os  seres.  Desse  manuseio  nasce  o  complexo  do  Conhecimento,  delta  em  que  vão  desaguar  as  correntes  paralelas  para  a  fusão  que  dará  forma  ao  dualismo  Cultura‐  Civilização. 

Kercheinsteiner  caracterizou  com  clareza  os  dois  elementos  desse  complexo com sua teoria da Cultura Subjetiva e Cultura Objetiva. A primeira  é o acúmulo de conhecimentos abstratos de um aglomerado social isolado por  contingências geográficas. A segunda é o acervo de obras materiais produzido  por esse aglomerado. O desenvolvimento da Técnica vai superando no tempo as  distâncias  dos  aglomerados  humanos  e  promovendo  as  aproximações  que  determinam  a  fusão  das  culturas  isoladas  num  sistema  cultural  único,  já  em  vias de conclusão em nosso tempo. 

Ernst Cassirer mostrou como as culturas desaparecidas concentram‐se  nas  obras  materiais  que  produziram,  das  quais  renascem  ao  toque  de  novas  culturas, como  aconteceu  no  Renascimento.  Os  resíduos  válidos  de  antigas  e  superadas  culturas  são  então  incorporados  a  novos  sistemas  culturais.  A  sequência aparentemente interrompida se restabelece e a acumulação cultural 

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se agiganta, gerando a “tragédia da Cultura”, pois o enorme acervo transcende a  capacidade  de assimilação  da  mente  humana  e  determina  a  fragmentação  das  especializações.  Arnold  Toynbee  assinalou  a  relação  entre  Religião  e  Civilização, que se caracteriza no desenvolvimento dos ciclos culturais. A teoria  dos  ciclos  vem  de  longe  e  teve  grande  voga  entre  os  gregos. Cada ciclo  é  uma  fase  do  desenvolvimento  cultural,  que  se  encerra  para  dar  início  a  outro.  Do  ciclo  das  Civilizações  Agrárias  surgiu  o  ciclo  gigantesco  das  Civilizações  Orientais,  massivas  e  teocráticas,  que  se  fechou  na  Pérsia,  projetando  as  suas  conquistas  na  Grécia,  onde  surgiram  as  civilizações  antípodas  de  Esparta  e  Atenas.  Roma  herdou  e  desenvolveu  ao  máximo  o  espólio  espartano,  em  mistura  com  o  florescimento  da  democracia  ateniense,  tipicamente  filosófica.  Plotino deu sequência ao platonismo e tentou realizar a campanha italiana do  sonho da República de Platão. Mas o ciclo da civilização greco‐romana chegava  ao  fim.  Duas  novas  civilizações  lutavam  para  definir‐se  asfixiadas  pelo  poder  romano: a Judaica, na Ásia, e a Celta, na Europa. 

Foi então que surgiu a Síntese Cristã, infiltrando‐se na Europa com seus  princípios  renovadores,  minando  o  Império  Romano  em  suas  bases  e  encontrando  ressonância  na  Cultura  Celta,  dominante  nas  Gálias.  O 

Cristianismo  iniciava  um  novo  ciclo,  que  iria  desenvolver‐se  penosa  mas 

rapidamente,  graças  à  dinâmica  social  dos  seus  princípios.  O  esplendor  da  Filosofia Grega deixaria na sombra os princípios do Celtismo. Mas Aristóteles já  havia advertido que os celtas era o único povo filósofo do mundo. Dois milênios  passariam na estruturação dos primórdios da Civilização Cristã, impregnada de  resíduos greco‐romanos e judeus. Mas as sementes do Druidismo, religião dos  celtas, aguardavam no chão da Europa o momento propício à sua germinação.  Coube  a  Allan  Kardec  —  um  nome  druida  —  revelar  a  sintonia  celta‐cristã  e  anunciar  o  nascimento  de  um  novo  ciclo.  Rejeitado  pela  cultura  dominante,  como  fora  Cristo  em  se  tempo,  Kardec  enfrentou  os  poderes  da  época  e  proclamou o advento da “Era Espírita”. Elaborou os seus fundamentos, apoiado  nas  bases  tríplices  da  Ciência,  da  Filosofia  e  da  Religião.  A  Filosofia  Espírita  definiu‐se como o fulcro de um novo ciclo da evolução humana. Não se trata de  um fato ocasional ou isolado, mas do resultado de todo o processo histórico do  pensamento,  ou  da  razão,  como  queria  Hegel,  em  seu  desenrolar  na  temporalidade. 

DO INDIVÍDUO COMO REPRESENTAÇÃO COLETIVA 

Na  tribo  ou  na  horda,  nas  civilizações  agrárias  ou  nas  civilizações  teocráticas,  o  indivíduo  é  apenas  uma  peça  da  engrenagem  social.  Funciona  segundo  as  exigências  do  meio,  guiado  pelas  forças  operantes  da  estrutura  sociocultural. Denis de Rougemont demonstrou como essas forças determinam  a  sujeição absoluta  do  indivíduo  à  estrutura.  Quando  ele  se  reconhece  dotado  de  características  próprias,  realizando‐se  na  transcendência  horizontal.  Da  relação social, destaca‐se da massa. Corre então o risco da excomunhão. Mas se

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9 –INTRODUÇÃO À FILOSOFI A ESPÍRITA 

dispuser  de  estrutura  individual  suficientemente  unificada  (personalidade)  poderá  elevar‐se  sobre  o  meio,  iniciando  a  fase  da  transcendência  vertical.  Nesse  caso  ele  se  projeta  como  uma  forma  de  representação  coletiva.  Será  então o chefe, o líder, o guia, integrando o grupo dirigente da comunidade, a sua  inteligência.  Mas  assim  mesmo  estará  freado  pelos  condicionamentos  sociais,  terá de fazer concessões à moral social, aos sistemas estabelecidos, às crenças  vigentes,  ao  contexto  geral  da  tradição.  Se  quiser  sobrepor‐se  a  esses  fatores  poderá  ser  esmagado  pela  pressão  da  massa,  traduzida  nas  sanções  institucionais. Foi o caso de Sócrates, como foi o caso de Jesus. 

Nas  civilizações  sociocêntricas  do  passado,  que  se  desenvolviam  isoladas, esse processo de representação coletiva, que na tribo se dividia entre  o cacique e o pagé — o primeiro representando o poder humano, o segundo o  poder  espiritual,  fundiu‐se  na  síntese  do  Rei‐Deus,  sagrado  e  ungido  para  dirigir  e  defender  o  povo.  A  reação  natural à  rigidez  dessa  institucionalização  perigosa  se  fez  sentir  no  campo  das  manifestações  paranormais,  através  de  profetas,  oráculos  e  pitonisas.  João  Batista  degolado  por  ordem  de  Herodes  é  talvez  o  símbolo  mais  vigoroso  da  profecia  social  como  revolta  contra  a  sagração  artificial  dos  reis‐deuses.  Mas  a  representação  coletiva  atingiu  o  seu  ponto  máximo  na  figura  do  Messias  —  o  sol  fecundador  das  messes  após  as  agruras do inverno, segundo a tese mitológica. Os messias eram os salvadores e  ao mesmo tempo os vingadores, os que vinham salvar os humildes e castigar os  poderosos. Investidos da sagração divina pelo próprio Deus, centralizavam, na  sua individualidade privilegiada, os poderes da Terra e do Céu. Os seus ensinos  constituíam  uma  revelação  divina,  pela  boca  desses  arautos  falava  o  próprio  Deus. 

Kardec  analisou  esse  processo  e  definiu  as  revelações  messiânicas  como  pessoais  e  locais,  típica  das  civilizações  isoladas,  dirigidas  a  uma  comunidade  determinada  em  sua  localização  geográfica.  Nos  fins  do  ciclo  de  isolamento,  quando  a  síntese  sociocultural  greco‐romana  tentava  abranger  o  mundo e criava condições novas de vida, o messias judeu, Jesus de Nazaré – que  mais  tarde  seria  designado,  significativamente,  pelo  nome  do  messias  grego:  Cristo  –  apresentou‐se  ainda  como  revelador  pessoal  e  local,  mas  já  abrindo  perspectivas,  em  seus  ensinos,  para  a  universalidade  que  caracterizaria  o  desenvolvimento  do  Cristianismo,  rompendo  ao  mesmo  tempo  o  sociocentrismo  judeu  e  as  pretensões  romanas  de  hegemonia.  A  reação,  tanto  judaica  quanto  romana,  foi  esmagadora,  mas  não  conseguiu  deter  o  fluxo  natural  da  evolução  humana.  A  Igreja  Cristã,  formada  segundo  os  modelos  judaico  e  pagão,  por  força  das  determinantes  históricas,  apresenta‐se  então  como curiosa síntese do Templo de Jerusalém e do Capitólio. A Cadeira de São  Pedro  substitui, ao  mesmo  tempo,  a Cadeira  de  Moisés e  o  Trono  de  César.  O  Deus‐Pai  de  Jesus  se  reveste  das  características  de  Júpiter  Capitolino  e  Roma  volta  a  dominar  o  mundo.  O  Bispo  de  Roma  transforma‐se  na  representação  coletiva  das  massas  bárbaras  convertidas  ao  Cristianismo.  Na  figura  do  Papa  concentram‐se os poderes da Terra e do Céu. 

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seguro. Um mundo novo está fermentando nas querelas absurdas e uma nova  revelação está sendo elaborada nas suas entranhas psíquicas. 

A Filosofia Grega inflama o pensamento cristão, despertando‐o para a  compreensão  dos  poderes  do  homem,  do  valor  intrínseco  do  ser  humano.  O  dogma da encarnação humana de Deus, reflexo das teorias egípcias e indianas  do  avatar  búdico,  produz  efeitos  contraditórios.  De  um  lado,  reforça  temporariamente  o  conceito  do  homem‐deus  do  passado;  de  outro  lado,  desperta  a  atenção  dos  pensadores  para  os  poderes  divinos  do  homem.  A  subversão vai se confirmar nessa linha com o desenvolvimento do Humanismo.  A  Ciência  renascerá  das  cinzas  de  Aristóteles  e  o  homem  se  fará  o  revelador  racional dos mistérios encobertos pela mística religiosa. 

As  revelações  pessoais  e  locais  estão  definitivamente  superadas.  Os  messias do passado tornam‐se místicos ignorantes, incapazes de revestir‐se dos  poderes  da  representação  coletiva.  A  Revolução  Francesa  proclamará  a  supremacia  da  razão  sobre  todo  o  passado  fideísta.  Kardec  poderá  então  distinguir dois tipos de revelação, ambos divorciados da mística e do mistério: a  revelação  científica,  feita  pelos  pesquisadores  dos  mistérios  da  Natureza,  e  a  revelação espiritual, feita através da mediunidade e da pesquisa dos fenômenos  paranormais, das condições do mundo suprassensível. A partir desse momento  as revelações pessoais, locais ou não, não terão nenhum sentido. A verdade não  pertence a ninguém em particular, a nenhum profeta, messias ou vidente. É um  patrimônio comum, ao alcance de todos os que se esforçam para descobri‐la. A  revelação é coletiva. 

O  indivíduo  como  representação  coletiva  existiu  e  funcionou  nas  dimensões  do  passado,  como  exigência  natural  de  um  mundo  fechado  em  si  mesmo,  incapaz  de  superar  os  condicionamentos  sociomesológicos  de  cada  civilização isolada, entregue às suas próprias forças. No mundo novo que surgiu  da abertura cristã, tendo por paradigma a especulação ateniense e por bússola  a  mensagem  racional  do  Evangelho,  não  há  mais  lugar  para  a  autoridade  individual no tocante à problemática da verdade, que brota do real em si e não  das  interpretações  individuais,  sujeitas  a  condicionamentos  desconhecidos.  Nenhum indivíduo transformado em representação coletiva e nenhum colégio  de  iluminados  por  sabedoria  infusa  pode  decretar  a  verdade.  A  Filosofia  dedutiva  e  sistemática  do  passado  cedia  lugar  à  lógica  indutiva,  liberta  das  predeterminações arbitrárias dos sistemas.

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11 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

II 

FILOSOFIA E ESPIRITISMO 

1. 0 que é Filosofia? 

É  comum  ouvir‐se  de  pessoas  que  não  aceitam  o  Espiritismo  a  afirmação de que a Filosofia Espírita não existe. Conhecido professor brasileiro  de  Filosofia  chegou  a  declarar  numa  entrevista  à  imprensa  brasileira  que  “

LIVRO  DOS  ESPÍRITOS”  nada  tem  de  filosófico.  A mesma  coisa  acontece  com  o 

Marxismo. Papini esforçou‐se, em toda a sua vida, para provar que Marx era um  economista, e, portanto, não devia ser confundido com um filósofo. Como se um  economista  não  pudesse  e  até  mesmo  não  precisasse  filosofar.  Sartre,  pelo  contrário,  considera  o  Marxismo  como  a  única  Filosofia  do  nosso  tempo.  As  opiniões são contraditórias, mas isso não nos deve impressionar, pois opiniões  não  passam  de  palpites,  de  pontos  de  vista  individuais,  sujeitos  às  idiossincrasias  de  cada  um.  E  Pitágoras,  o  criador  do  termo  Filosofia,  já  afirmava que a Terra é a morada da opinião. Mais tarde, Descartes advertiu que  o  preconceito  e  a  precipitação,  dois  vícios  comuns  da  espécie  humana,  prejudicam o juízo e impedem a descoberta da verdade. 

Um  filósofo,  um  professor  de  filosofia,  um  pensador  honesto  e  até  mesmo  uma  simples  criatura  de  bom‐senso  não  podem  negar  a  existência  da  Filosofia Espírita, a menos que não saibam o que essa palavra significa. Muito  menos  negar  a  natureza  filosófica  de  “O  LIVRO  DOS  ESPÍRITOS”,  que  é  um  verdadeiro  tratado  de  Filosofia.  Veja‐se,  por  exemplo,  como  Yvonne  Castellan,  que  não  é  espírita,  encara  esse  livro  em  seu  estudo  sobre  o  Espiritismo.  Consulte‐se o “DICIONÁRIO TÉCNICO E CIENTÍFICO DE FILOSOFIA”, de Lalande. E  leia‐se  o  admirável  ensaio  de  Gonzales  Soriano,  desafiadoramente  intitulado 

“EL ESPIRITISMO ES LA FILOSOFIA”. 

São  muitas  as  definições  de  Filosofia,  mas  a  que  subsiste  como  essencial é ainda a de Pitágoras: “Amor da Sabedoria”. Dai a exatidão daquele  axioma:  “A  Filosofia  é  o  pensamento  debruçado  sobre  si  mesmo”.  Eis  a  descrição perfeita de um ato de amor: a mãe se debruça sobre o filho porque o  ama e deseja conhecê‐lo. A sabedoria é filha do pensamento, que a embala em  seus  braços, alimentando‐a  e  fazendo‐a  crescer.  Assim, o  objeto  da  Filosofia  é  ela mesma, não está fora, no exterior, mas dentro dela. Podemos defini‐lo como  a relação entre o pensamento e a realidade. Essa a razão de Gonzales Soriano  afirmar  que  o  Espiritismo  é  a  Filosofia.  Razão,  aliás,  que  ele  demonstra  filosoficamente em seu livro. O Espiritismo é, segundo sua definição, “a síntese  essencial dos conhecimentos humanos aplicada à investigação da verdade”. É o  pensamento debruçado sobre si mesmo para reajustar‐se à realidade.

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2. — O que é Espiritismo? 

Respondida a pergunta sobre Filosofia devemos tratar ligeiramente da  natureza do Espiritismo. E nada mais necessário do que isso, porque nada mais  desconhecido em nosso mundo do que ele. Fala‐se muito em Espiritismo, mas  quase  nada  se  sabe  a  seu  respeito.  Kardec  afirma,  na  introdução  de “O  LIVRO 

DOS  ESPÍRITOS”,  que  a  força  do  Espiritismo  não  está  nos  fenômenos,  como 

geralmente  se  pensa,  mas  na  sua  filosofia,  o  que  vale  dizer  na  sua  mundividência,  na  sua  concepção  da  realidade.  Mas  de  onde  vem  essa  concepção? Como foi elaborada? 

Os  adversários  do  Espiritismo  desconhecem  tudo  a  respeito  e  fazem  tremenda  confusão.  Os  próprios  espíritas,  por  sua  vez,  na  sua  esmagadora  maioria  estão  na  mesma  situação.  Por  quê?  É  fácil  explicar.  Os  adversários  partem do preconceito e agem por precipitação. Os espíritas em geral fazem o  mesmo:  formularam  uma  ideia  pessoal  da  Doutrina,  um  estereótipo  mental  a  que se apegaram. A maioria, dos dois lados, se esquece desta coisa importante:  o  Espiritismo  é  uma  doutrina  que  existe  nos  livros  e  precisa  ser  estudada.  Trata‐se,  pois,  não  de  fazer  sessões,  provocar  fenômenos,  procurar  médiuns,  mas de debruçar o pensamento sobre si mesmo, examinar a concepção espírita  do mundo e reajustar a ela a conduta através da moral espírita. 

Assim,  temos  alguns  dados:  o  Espiritismo  é  uma  doutrina  sobre  o  mundo,  dá‐nos a sua  interpretação  e  nos mostra como nos  devemos  conduzir  nele.  Mas  como  nasceu  essa  doutrina,  em  que  cabeça  apareceu  pela  primeira  vez?  Dizem  que  foi  na  de  Allan  Kardec,  mas  não  é  verdade.  O  próprio  Kardec  nos diz o contrário. Os dados históricos nos revelam o seguinte: o Espiritismo  se  formou  lentamente  através  da  observação  e  da  pesquisa  científica  dos  fenômenos  espíritas,  hoje  parapsicologicamente  chamados  de  fenômenos  paranormais. Os estudos científicos começaram seis anos antes de Kardec, nos  Estados  Unidos,  com  o  famoso  caso  das  irmãs  Fox  em  Hydesville.  Quando  Kardec  iniciou  as  suas  pesquisas  na  França,  em  1845,  já  havia  uma  grande  bibliografia  espírita,  com  a  denominação  de  neoespiritualista,  nos  Estados  Unidos  e  na  Europa.  Mas  foi  Kardec  quem  aprofundou  e  ordenou  essas  pesquisas,  levando‐as  às  necessárias  consequências  filosóficas,  morais  e  religiosas. 

“O LIVRO DOS ESPÍRITOS" nos oferece a súmula do trabalho gigantesco 

de  Kardec.  Mas  se  quisermos  conhecer  esse  trabalho  em  profundidade  temos  de  ler  toda  a  bibliografia  kardeciana:  os  cinco  volumes  da  codificação  doutrinária,  os  volumes  subsidiários  e  mais  os  doze  volumes  da  Revista  Espírita,  que  nos  oferecem  o  registro  minucioso  das  pesquisas  realizadas  na  Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. E precisamos nos interessar também  pelos  trabalhos  posteriores  de  Camille  Flammarion,  de  Gabriel  Dellane,  de  Ernesto  Bozzano,  de  Léon  Denis  (que  foi  o  continuador  e  o  consolidador  do  trabalho de Kardec). 

Veremos,  assim,  que  Kardec  partiu  da  pesquisa científica,  originando‐  se desta a Ciência Espírita; desenvolveu a seguir a interpretação dos resultados

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13 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

da  pesquisa,  que  resultou  na  Filosofia  Espírita;  tirou,  depois,  as  conclusões  morais da concepção filosófica, que levaram naturalmente à Religião Espírita. É  por  isso  que  o  Espiritismo  se  apresenta  como  doutrina  de  tríplice  aspecto.  A  Ciência  Espírita  é  o  fundamento  da  Doutrina.  Sobre  ela  se  ergue  a  Filosofia  Espírita.  E  desta  resulta  naturalmente  a  Religião  Espírita.  Muitas  pessoas  se  atrapalham  com  isso  e  perguntam:  “Como  uma  doutrina  pode  ser,  ao  mesmo  tempo, Ciência, Filosofia e Religião?” Mas essa pergunta revela a ignorância do  processo  gnoseológico.  Porque,  na  verdade,  o  conhecimento  se  desenvolveu  nessa mesma sequência e em todas as formas atuais de conhecimento repete‐se  o processo filogenético. 

No  Espiritismo,  porém,  esse  processo  aparece  bem  preciso,  bem  marcado  por  suas fases sucessivas,  entrosadas  numa  sequência lógica. Podem  alguns críticos alegar que Kardec não partiu da pesquisa, mas da crença. Alguns  chegam  a  afirmar  que  foi  assim,  que  ele  já  acreditava  nas  comunicações  espíritas antes de iniciar o seu trabalho de investigação. Mas essa afirmação é  falsa,  a  suposição  é  gratuita.  Basta  uma  consulta  às  anotações  íntimas  de 

OBRAS PÓSTUMAS” e às biografias do mestre para se ver o contrário. Quando 

lhe falaram pela primeira vez em mesinhas falantes, Kardec respondeu como o  fazem os céticos de hoje: “Isso é conversa para fazer dormir em pé”. Só deixou  essa  atitude  cética  depois  de  constatar  a  realidade  dos  fenômenos.  Então  pesquisou, aprofundou a questão e levou‐a às últimas consequências, como era,  aliás, de seu hábito, do seu feitio de investigador. Charles Richet lhe faz justiça  (embora discordando dele) em seu “Tratado de Metapsíquica”. 

Encarando  a  obra  de  Kardec  pelo  seu  aspecto  científico,  sem  os  preconceitos que têm impedido a sua justa avaliação, ela nos parece inatacável.  Alega‐se que o seu método de pesquisa não era científico, mas foi ele o primeiro  a explicar que não se podiam usar na pesquisa psíquica os métodos das ciências  físicas. O desenvolvimento da Psicologia provaria mais tarde que Kardec estava  com  a Razão. Hoje,  as  pesquisas  parapsicológicas  o  confirmam. No  tocante  ao  aspecto  filosófico,  o  desenvolvimento  atual  das  investigações  mostram  a  posição  acertada  do  Espiritismo  como  doutrina  assistemática,  “livre  dos  prejuízos  de  espírito  de  sistema”,  como  declara  “O  LIVRO  DOS  ESPÍRITOS",  utilizando a conjugação dos métodos indutivo e dedutivo para o esclarecimento  da realidade em seu duplo sentido: o objetivo e o subjetivo. A Filosofia Espírita  se  apresenta  como  antecipação  das  conquistas  atuais  do  campo  filosófico  e  abertura de perspectivas para o futuro. 

3. A Tradição Filosófica 

A  Filosofia  Espírita  se  apresenta  naturalmente  integrada  na  tradição  filosófica.  Foi  por  isso  que  Kardec  colocou,  sobre  o  título  de  “O  LIVRO  DOS 

ESPÍRITOS", a indicação: “Filosofia Espiritualista”. Em “O EVANGELHO SEGUNDO 

O ESPIRITISMO”ele indica Sócrates e Platão como precursores do Cristianismo e 

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ir mais longe, demonstrando as múltiplas relações da Filosofia Espírita com as  mais  significativas  escolas  filosóficas  do  passado.  Na  verdade,  a  Filosofia  Espírita  se  apresenta,  para  o  investigador  imparcial, como  o  delta  natural  em  que desemboca no presente toda a tradição filosófica. 

Essa convergência, porém, não se faz de súbito, não é um arranjo, como  pretendem os adversários gratuitos do Espiritismo. Podemos ver com os olhos o  processo  de  convergência  delinear‐se  na  própria  História  da  Filosofia.  Dos  pitagóricos  (com  sua  simbiose  espiritual  traduzida  na  doutrina  da  metempsicose)  aos  jônicos  (com  sua  busca  da  origem  única,  da  substância  originária),  aos  eleatas  (com  a  procura  do  Ser  em  seu  sentido  absoluto),  até  Plotino  (o  neoplatonismo  investigando  a  alma  viajora),  passando  pela  contribuição  da  doutrina  de  forma  e  matéria,  de  Aristóteles  (antecipação  da  teoria espírita do perispírito), chegamos ao Renascimento. E é nesta fase que a  confluência  se  define:  primeiro  com  a  rebelião  de  Abelardo,  preparando  o  advento  de  Descartes;  depois,  com  este,  o  pai  do  pensamento  moderno,  que  escreveu  o  “DISCURSO  DO  MÉTODO”  sob  inspiração  do  Espírito  da  Verdade;  a  seguir  com  Espinosa,  que  fez  da  “ÉTICA”  um  livro  precursor  (em  estrutura,  substância e ligações históricas) de“O LIVRO DOS ESPÍRITOS”

A  tradição  filosófica  é  o  terreno  vasto  e  profundo  em  que  podemos  descobrir  as  raízes  da  Filosofia  Espírita.  Mas,  como  vimos,  essa  tradição  se  prolonga até o mundo moderno que começou no Renascimento e veio findar na  guerra  de  1914‐18.  E  depois,  no  mundo  contemporâneo,  reencontramos  as  conotações  filosóficas  do  passado.  No  mundo  moderno  podemos  lembrar  as  figuras centrais de Hegel e Kant, o primeiro com sua dialética da ideia (evolução  do  princípio  espiritual  através  da  matéria)  e  o  segundo  com  sua  teoria  do  númeno e do fenômeno e sua crítica da razão (correspondentes à teoria espírita  da  alma  e  matéria  e  a  crítica  da  fé  em  Kardec).  Na  atualidade  as  principais  escolas  filosóficas  apresentam  relações  evidentes  com  a  Filosofia  Espírita.  Estudaremos  essas  relações  no  prosseguimento  deste  trabalho.  Mas  convém  destacar  desde  logo  o  paralelismo  da  corrente  filosófica  característica  do  pensamento  atual  com  o  Espiritismo.  Paralelismo  tanto  mais  evidente  quanto  se  apresenta  no  tempo  e  no  espaço  (contemporaneidade),  no  método  de  abordagem  dos  problemas  filosóficos  (o  enfoque  ontológico  existencial),  e  na  procura da compreensão racional (humana e não teológica) da problemática da  existência. E a corrente das Filosofias da Existência, que surgiu na mesma época  do Espiritismo; na Europa, na mesma posição assistemática (Kierkegaard e sua  aversão aos sistemas), com o mesmo processo de abordagem do problema do  Ser (através do ser humano na existência) e a mesma busca de transcendência  na interpretação da natureza humana ou essência do ser.  Mas acontece com o Existencialismo o que Kardec assinalou no tocante  às  ciências  materiais:  o  paralelismo  com  o  Espiritismo  vai  até  o  limite  da  conceituação  da  existência.  Depois  desse  limite  o  Espiritismo  prossegue  sozinho,  investigando  e  aprofundando  o  problema  das  relações  interexistenciais,  que  abre  as  possibilidades  de  comprovação  das  antigas  intuições sobre as existências múltiplas do ser. No Espiritismo essas intuições,

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15 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

que  desde  a  antiga  metempsicose  egípcia,  adotada  pelos  pitagóricos,  até  a  ressurreição judaica e a teoria católica de ressurreição da carne se mantiveram  no  plano  sobrenatural,  transformam‐se  em  conceitos  racionais  comprovados  pela experiência e a investigação científica. 

Chegamos  assim  a  um  ponto  de  contato  da  Filosofia  Espírita  com  o  panteísmo de Espinosa, que é o da negação do sobrenatural. A Filosofia Espírita  não é panteísta – o que está explícito em “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”. Mas isso não  impede  que  haja  entre  Espinosa  e  Kardec  a  concordância  no  tocante  ao  sobrenatural.  Para  a  Filosofia  Espírita  o  sobrenatural,  segundo  a  concepção  vigente  até  nossos  dias,  é  apenas  “o  natural  ainda  não  conhecido”,  pois  tudo  quanto existe pertence à Natureza e tudo quanto estiver além da Natureza não  é acessível ao nosso conhecimento (posição paralela à do criticismo kantiano).  Esse conceito de Natureza no Espiritismo é um dos pontos mais significativos  da  Filosofia  Espírita  e  a  coloca  numa  posição  de  vanguarda  perante  o  pensamento  contemporâneo.  Quando  as  ciências  atuais  se  viram  obrigadas  a  adotar  a  expressão  “paranormal”,  como  substitutiva  da  expressão  “sobrenatural”, nas investigações sobre a natureza humana, nada mais fizeram  do  que  seguir  a  orientação  firmada  pelo  pensamento  espírita  há  mais  de  um  século. 

Como  se  vê,  desta  simples  exposição  inicial,  é  inegável  a  natureza  de  síntese  da  Filosofia  Espírita.  Ela  representa  um  daqueles  momentos  de  confluência de todas as conquistas culturais do homem para um delta comum, a  que  se  refere  Arnold  Toynbee  nos  seus  estudos  sobre  o  desenvolvimento  das  civilizações.  Ernst  Cassirer,  filósofo  alemão  contemporâneo,  em  seu  ensaio  “

TRAGÉDIA  DA  CULTURA”;  analisa  o  processo  de  evolução  cultural  do  homem 

através das civilizações sucessivas, demonstrando que as conquistas essenciais  de cada época são transmitidas à outra por meio de concretizações, de formas  sintéticas de expressão. O Espiritismo, como afirmaram Kardec, Léon Denis, Sir  Oliver  Lodge,  Gustave  Geley  e  Gonzales  Soriano,  entre  outros,  é  a  síntese  cultural do nosso tempo. A Filosofia Espírita sintetiza em sua ampla e dinâmica  conceituação todas as conquistas reais da tradição filosófica, ao mesmo tempo  em que inicia o novo ciclo dialético da nova civilização em perspectiva.

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III 

TEORIA ESPÍRITA DO 

CONHECIMENTO 

1. Como conhecemos? 

Já vimos que o problema do conhecimento é básico em Filosofia. Pois se  esta  tem  por  objeto  a  Sabedoria,  o  que  vale  dizer  o  nosso  saber,  aquilo  que  sabemos, é claro que o conhecimento e a maneira pela qual o adquirimos é de  importância fundamental  em  toda  a indagação  filosófica.  Por  isso  a  Teoria  do  Conhecimento é uma das partes mais complexas e mais debatidas da Filosofia,  em  todos  os  tempos.  Na  Filosofia  Espírita  ela  assume  uma  importância  ainda  mais profunda, pois a pergunta “Como conhecemos?” implica a relação espírito‐  corpo.  E  essa  relação  exige  a  definição  dos  seus  componentes,  envolvendo  as  perguntas “o que é espírito?” e “o que é corpo?”. 

Mas  antes  dessas  questões  há  outra,  relacionada  com  os  próprios  elementos  do  ato  de  conhecer.  A  tradição filosófica  nos  mostra  duas  posições  clássicas  diante  desse  problema:  a  platônica  ou  socrático­platônica,  que  envolve a questão da reminiscência, das ideias inatas, e a sofística ou empírica  que  se  refere  apenas  aos  nossos  sentidos.  Há  entre  esses  dois  campos  numerosas escolas e subescolas, mas para o nosso propósito bastam essas duas  linhas fundamentais, que permanecem válidas em nossos dias e representam as  pontas do dilema de conhecer. Nessas duas linhas a resposta à pergunta “Como  conhecemos?” é dada pela seguinte contradição:  a) “Conhecemos pelo espírito”;  b) “Conhecemos pelos sentidos”. 

O  primeiro  a  dar  uma  resposta  conciliatória,  ao  que  nos  parece,  foi  Aristóteles  com  a  sua  teoria  dos  dois  espíritos  do  homem:  o  formativo  e  o  receptivo.  Esta  dualidade  é  resolvida  pela  Filosofia  Espírita  de  maneira  dialética, como veremos. 

Os  elementos  do  conhecer  podem  ser  definidos  como  a  razão  e  o 

sensório.  Nesses  dois  elementos  encontramos  os  seus  respectivos 

instrumentos,  que  podemos  chamar  os  instrumentos  do  conhecer.  Na  razão  encontramos  os  conceitos  ou  ideias,  que  Sócrates  foi  o  primeiro  a  descobrir  (escondidos atrás das palavras) e que Kant chamaria mais tarde de categorias.  No  sensório  encontramos  as  sensações,  que  na  Psicologia  atual  podemos  chamar de percepções. Assim, o conhecer é um ato de relação. O conhecedor –  que  é  o  homem  –  se  põe  em  relação  com  alguma  coisa,  percebe  essa  coisa  e

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17 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

procura identificá‐la. Mas identificá‐la com o que? Com os conceitos ou ideias,  com  as  chamadas  categorias  da  razão,  que  não  estão  nos  sentidos,  mas  no  espírito.  Essa  identificação  é  o  próprio  ato  de  conhecer.  Captamos  pela  vista  uma  forma  à  distância.  Ela  nos  parece  um  cavaleiro.  Identificamos  a  forma  visual  com  a  ideia  ou  conceito  de  um  cavaleiro.  Mas,  ao  nos  aproximarmos,  verificamos  que  se  trata  de  uma  pedra  com  forma  de  cavaleiro:  refazemos  a  identificação  automaticamente.  E  assim  que  um  objeto  captado  pelos  nossos  sentidos pode enganar‐nos, mas a verificação da razão corrige o erro. 

Estão  aí  os  dois  espíritos  da  teoria  de  Aristóteles.  O  primeiro  é  o  espírito‐formativo, que para Aristóteles era a própria alma humana procedente  do mundo espiritual, não sujeita às influências do mundo exterior. O segundo é  o espírito receptivo, uma espécie de matéria em que se imprimem as sensações  do  mundo  exterior,  segundo  Aristóteles.  Isto  implica  a  teoria  aristotélica  da  forma  e  matéria.  As  formas  do  mundo  exterior  se  imprimem  na  matéria  dos  sentidos e dão forma a essa matéria. Mas na Filosofia Espírita não é assim. Os  sentidos são apenas instrumentos de captação. E esses instrumentos pertencem  à condição existencial do homem encarnado, do homem no mundo. O homem é  um composto de espírito e corpo. O corpo é o escafandro de que o Espírito se  serve  para  mergulhar  nas  profundidades  da  matéria.  Quando  deixamos  o  escafandro os seus instrumentos não funcionam. Quando deixamos o corpo os  seus instrumentos morrem. 

Para  a  Filosofia  Espírita,  portanto,  a  dualidade  de  espíritos  da  teoria  aristotélica  não  existe.  O  homem  é  essencialmente  um  Espírito.  Assim,  o  Espírito é a substância do homem e o corpo o seu acidente. A percepção é uma  faculdade  do  Espírito  e  não  do  corpo.  É  o  escafandrista  que  vê  através  dos  vidros  do  escafandro  e  não  este  que  vê  pelos  seus  vidros.  A  contradição  das  teorias platônica e sofistica do conhecimento se resolve numa síntese funcional.  Essa  contradição  ainda  existe  na  Filosofia  atual.  Podemos  representá‐la  pela  teoria racional de Kant e a empírica ou sensorial de Locke: a escola racional e  empírica do conhecimento. A síntese funcional é a que nos oferece a reunião do  racionalismo  e  do  empirismo  num  sistema  de  funções.  Esse  sistema  é  o  processo  vital  do  homem,  ou  seja,  um  Espírito  encarnado,  uma  razão  prisioneira da rede sensorial, funcionando em relação ao mundo através dessa  rede. 

A  percepção,  segundo  a  Filosofia  Espírita,  é  uma  faculdade  geral  do  Espírito,  que  abrange  todo  o  seu  ser.  Veja‐se  o  ensaio  teórico  sobre  as  sensações  dos  Espíritos,  em “O  LIVRO DOS  ESPÍRITOS”. O  Espírito  não  percebe  através dos órgãos, não vê pelos olhos nem ouve pelos ouvidos. Vê e ouve por  todo o seu ser. Somente quando sujeito ao corpo tem a sua percepção reduzida  ao organismo sensorial. Mas, apesar disso, a sujeição corpórea não é absoluta. O  Espírito, mesmo encarnado, extravasa dos limites sensoriais e tem percepções  extrassensoriais. Essa a grande “descoberta” da Parapsicologia, que, segundo o  próprio  prof.  Rhine:  “só  é  nova  para  a  Ciência”.  Sim,  pois  os  homens  sabem,  desde todos os tempos, que podem ver sem os olhos e perceber sem os sentidos  em todos os campos da percepção.

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Mas se os homens podem ver sem os olhos, hão de ver também coisas  não visíveis para os olhos. Eis a questão, diria Shakespeare. E essa questão nos  leva de volta à teoria das reminiscências de Sócrates e Platão. Que teoria é essa?  A de que os nossos espíritos, ou seja, nós mesmos, antes de encarnarmos neste  mundo já conhecíamos muitas coisas. Esse conhecimento está dentro de nós na  forma de reminiscência, de lembrança amortecida pela carne. Por isso Sócrates  inventou a maiêutica, o processo de tirar o conhecimento das profundezes do  ignorante como se tira água do poço. E Platão ensinou, com o famoso “mito da  caverna”,  que  na  terra  somos  apenas  sombras,  as  projeções  passageiras  e  irreais de nós mesmos, dos nossos espíritos, que na realidade vivem acima da  matéria,  transcendem  a  ela.  E  hoje  os  parapsicólogos  mais  esclarecidos,  mais  consequentes consigo mesmos — como o casal Rhine, os profs. Soal, Carington,  Price,  Tischner  e  outros  —,  afirmam  que  a  mente  e  o  pensamento  não  são  materiais,  pertencem  a  outro  plano  da  natureza,  a  outro  plano  da  complexa  estrutura  do  Universo.  A  teoria  espírita  do  conhecimento  tem  a  sanção  das  últimas conquistas científicas. 

Mas voltemos ainda aos instrumentos do conhecimento para tratarmos  de um deles, que é para a Filosofia Espírita de muita importância. Trata‐se da  ideia ou conceito de espírito. Todas as especulações foram feitas para explicar a  existência  desse  conceito.  Conhece‐se  a  teoria  da  projeção  anímica,  de  Feuerbach, adotada pelo Marxismo: “Não foi Deus quem criou o homem, mas o  homem quem criou Deus”; a teoria animista de Taylor; a teoria da imaginação  primitiva de Spencer, que o seu discípulo Ernesto Bozzano ampliou para torná‐  la espírita. E é em Bozzano (“POPOLI PRIMITIVI E MANIFESTAZIONE SUPERNORMALE”)  que vamos encontrar a resposta espírita a todas essas hipóteses imaginosas. O  conceito  de espírito  é  uma categoria  lógica,  semelhante  às  de  espaço  e  tempo,  que o homem desenvolveu com a experiência sensível. As pesquisas científicas  da Metapsíquica, da chamada Ciência Psíquica Inglesa, da antiga Parapsicologia  alemã e da atual Parapsicologia, ao lado das investigações clássicas e modernas  da  Ciência  Espírita  confirmam  essa  teoria.  Não  foi  da  imaginação  primata  (incapaz de tal abstração) que surgiu o conceito de espírito, mas dos fenômenos  de  aparições,  de  materializações  e  de  todos  os  tipos  de  manifestações  paranormais. 

2 — O que conhecemos? 

O Espírito é, pois, o conhecedor, é o princípio inteligente da Natureza,  cuja faculdade perceptiva se desenvolve através de fases sucessivas. Primeiro,  temos  a  sensibilidade  vegetal;  depois,  a  perceptibilidade  animal;  por  fim,  a  inteligência  humana.  Uma  frase  célebre  de  León  Denis  resume  todo  esse  processo  milenar:  “A  alma  dorme  na  pedra,  sonha  no  vegetal,  agita­se  no 

animal e acorda no homem”. O conceito de alma foi estudado por Kardec na 

introdução de “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”. A Filosofia Espírita define a alma como  o  Espírito  encarnado.  O  princípio inteligente,  quando  manifestado  na  matéria,  produz  a  vida,  segundo  o  nosso  restrito  conceito  de  vida.  Assim,  ele  anima  a

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19 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

matéria, é a ânimo dos latinos, a alma das coisas e dos seres. No homem, a alma  é  o  Espírito  que  anima  o  corpo.  Quando  o  homem  morre  sua  alma  volta  ao  estado de Espírito, liberta‐se da função de alma. Não existem “almas do outro  mundo”,  pois  estas,  na  verdade,  são  Espíritos.  Mas  o  que  é  que  o  conhecedor  conhece,  o  que  é  que conhecemos  através  da  nossa faculdade  perceptiva  e  da  nossa capacidade intelectiva? Há o conhecimento das coisas exteriores e o das  coisas  interiores.  Há  a  percepção  objetiva,  que  estabelece  a  relação  sujeito‐  objeto,  e  a  percepção  subjetiva,  que  faz  do  sujeito  o  seu  próprio  objeto.  Isso  quer dizer, em termos epistemológicos (na teoria das ciências) que há Ciência e  há Filosofia. Como já vimos, a Ciência investiga os objetos exteriores, a Filosofia  investiga  a  si  mesma,  é  o  pensamento  debruçado  sobre  si  mesmo.  Podemos  retornar  às  explicações  de  Platão:  há  o  mundo  sensível  e  o  mundo  inteligível.  Temos  acesso  ao  sensível  por  meio  da  percepção,  captamos,  sentimos,  percebemos as coisas exteriores. Temos acesso ao inteligível por meio da razão  e  da  intuição.  São  essas  as  duas  faces  da  realidade.  O  verso  e  o  reverso  da  moeda com que pagamos o direito de saber. Desde o tempo dos gregos a nossa  Civilização  Ocidental  vem  se  debatendo  entre  esses  dois  campos  do  conhecimento.  Hoje,  temos  o  mundo  dividido  em  duas  partes:  numa  se  desenvolve  o  pensamento  materialista  como  ideologia  oficial  dos  Estados;  noutra,  o  pensamento  espiritualista  na  mesma  posição.  Nem  uma  nem  outra  dessas  formas  de  pensamento,  dessas  sistematizações  do  conhecimento,  conseguiu trazer nem poderá trazer ao homem a solução dos seus problemas. A  Filosofia  Espírita  se  coloca  entre  ambas  e  nos  oferece  a  solução  dialética,  nos  termos  da  velha  e  boa  dialética  de  Hegel,  mostrando  o  equívoco  desse  divisionismo  artificial  e  anunciando  o  advento  da  compreensão  global  da  realidade. 

Espírito e matéria – ensina a Filosofia Espírita – são os dois elementos  constitutivos  do  universo.  Sobre  ambos  paira  o  poder  unificador  que  é  Deus.  Essa, diz “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, é a trindade universal. Mas a realidade não  se fecha apenas nesse tríptico, nesse esquema geral. Ela é una em essência, mas  é múltipla nas suas manifestações. A lei cósmica é a da diversidade da unidade.  Querer reduzir o real a um dos seus aspectos, o materialista ou o espiritualista,  é simples utopia. A própria História da Filosofia nos mostra a impossibilidade  de  uma  interpretação  esquemática  da  realidade.  Os  esquemas  das  diversas  escolas filosóficas serviram apenas de muletas do pensamento, em sua busca da  verdade.  Hoje,  os  filósofos  compreendem  que  as  escolas  servem  como  pontos  de  observação,  como  posições  estratégicas  e  não  como  trincheiras  definitivas  no  campo  de  batalha  do  conhecimento.  Não  mais  se  formulam  grandes  sistemas.  A  época  dos  sistemas  passou.  A  sistemática  foi  substituída  pela  problemática: importam os problemas, não as explicações conclusivas. 

A  Filosofia  Espírita  foi  uma  antecipação  dessa  nova  atitude  filosófica.  Na mesma época em que surgiam os dois últimos grandes sistemas filosóficos:  o Positivismo de Augusto Comte e o Marxismo, os Espíritos diziam a Kardec que  era necessário apresentar ao mundo uma Filosofia racional, “livre dos prejuízos  do  espírito  de  sistema”.  E  lhe  davam  as  linhas  mestras  do  novo  pensamento

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através do processo dinâmico do diálogo, que hoje está consagrado em todo o  mundo. A forma de perguntas e respostas de “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, às vezes  considerada  como  antiquada  por  alguns  espíritas  sequiosos  de  novidades,  é  hoje  a  forma  preferida  para  a  busca  de  soluções  em  todos  os  setores  das  atividades humanas. O diálogo é a maiêutica de Sócrates e a dialética de Platão  e  de  Hegel  ressuscitadas  em  nosso  tempo.  É  o  instrumento  mais  prático  de  conhecimento no plano social. E foi através dele que surgiu a Filosofia Espírita,  no diálogo mediúnico de Kardec com os Espíritos. 

A  mediunidade  se  apresenta  como  a  oportunidade  do  diálogo  paranormal.  A  palavra  paranormal  é  simplesmente  uma  substituta  da  palavra 

sobrenatural. Classifica o fenômeno natural inabitual a que se referia Richet. Na 

proporção  em  que  os  homens  avançam  na  evolução  espiritual  o  diálogo  mediúnico  se  integra  na  normalidade.  Quando  Sócrates  dialogava  com  o  seu  daimon (demônio ou Espírito protetor) ou quando Joana D'Arc dialogava com as  suas  vozes,  ou  quando  Abrahão  Lincoln  (à  maneira  do  patriarca  bíblico)  dialogava com os Espíritos na Casa Branca, em Washington, não estavam fora  da Natureza nem de normalidades. Só a ignorância das leis naturais que regem  a  comunicação  interexistencial  (a  comunicação  mediúnica  entre  os  diferentes  planos de  existência) levou os homens a tratarem o assunto com prevenção e  excesso  de  superstição.  O  diálogo  mediúnico  que  fez  a  Donzela  de  Orléans  a  empunhar  a  espada  e  salvar  a  França,  que  levou  Sócrates  a  impulsionar  o  conhecimento,  que  fez  Lincoln  assinar  a  lei  de  libertação  dos  escravos  nos  Estados  Unidos,  que  orientou  Mackenzie  King  no  governo  do  Canadá,  e  assim  por diante, levou Kardec a formular a Doutrina Espírita e oferecer ao mundo a  maior síntese filosófica de todos os tempos, que é a Filosofia Espírita. 

3 — O processo gnoseológico 

Aplicada  ao  Espiritismo,  na  avaliação  da  totalidade  da  Doutrina,  a  Teoria Espírita do Conhecimento nos mostra essa doutrina como a última fase  de  um  processo  gnoseológico  que  abrange  toda  a  evolução  humana.  Kardec  explica, no cap. I de “A GÊNESE”, os motivos do aparecimento do Espiritismo em  meados  do  século  passado.  Era  necessário  o  desenvolvimento  das  Ciências,  a  superação  racional  dos  estágios anteriores  da  evolução para  que  o  homem  se  tornasse  capaz de  compreender  o  problema  espírita.  O processo  gnoseológico  iniciado  na  era  tribal  se  desenvolve  através  das  fases anímica,  mágica, mítica,  mística  ou  religiosa,  atingindo  a  científica  ou  racional  e  passando  então  à  psicológica ou espírita. 

Lembremo‐nos  rapidamente  da  lei  dos  três  estados  da  evolução  gnoseológica  segundo  Augusto  Comte.  Temos  primeiro  o  estado  teológico  em  que tudo se  explica pela intervenção dos deuses; a seguir, o estado metafísico  das explicações abstratas (o ópio faz dormir porque tem a virtude dormitiva) e  depois o estado positivo em que predominam as Ciências. Kardec acrescentou a  essa teoria, por sugestão de um leitor da “REVISTA ESPÍRITA” (Veja‐se o n.° de  abril  de  1858)  o  estado  psicológico  iniciado  pelo  Espiritismo.  Vemos  hoje  o

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21 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

acerto desse acréscimo. As ciências psicológicas dominam o mundo atual e já se  abriram para o futuro através da investigação parapsicológica. A Humanidade  avança, segundo a observação de Simone de Beauvoir, que não é espírita, “num  constante  devir”.  O  homem  se  liberta  da  matéria,  emancipando‐se  como  Espírito. 

Mas  o  Espiritismo  não  é  apenas  a  fase  derradeira  do  processo  gnoseológico  em  que  nos  encontramos  como  componentes  da  Humanidade  terrena. Ele apresenta também, em si mesmo, as características de um processo  gnoseológico  especial.  A  Teoria  do  Conhecimento  nos  mostra  que  as  fases  sucessivas do conhecer se repetem no desenvolvimento do Espiritismo. Através  do  seu  aspecto  científico  ele  nos  oferece  a  captação  sensorial  do  mundo  fenomênico, dessa faixa da Natureza em que o Espírito se manifesta no sensível,  e  a  captação  extrassensorial  do  inteligível,  da  realidade  espiritual.  Através  da  Filosofia  Espírita  nos  dá  a  interpretação  racional  do  Universo  e  do  Homem  numa visão integral. Através da Religião Espírita — moral, normativa e jamais  ritual, sacramental, destituída de resíduos mágicos —, determina a orientação  adequada, no plano existencial, à nossa conduta em face da realidade ampla que  conseguimos descortinar.  Assim, a Teoria Espírita do Conhecimento explica, ao mesmo tempo, o  problema do conhecer em sua expressão mais simples e em sua expressão mais  complexa.  Aprendemos,  graças  a  ela,  que  o  processo  gnoseológico  é  uma  conquista  e  uma  integração.  Conquistando  pelo  conhecimento  progressivo  o  saber  espírita  integramo‐nos  na  realidade  multidimensional  da  era  cósmica.  Não  pensamos  mais  em  termos  geocêntricos,  organocêntricos  ou  antropocêntricos  e  por  isso  mesmo  não  vivemos  mais  apegados  a  temores  e  superstições.  O  Espiritismo  nos  confere  a  emancipação espiritual  de cidadãos  do Cosmos. Pertencemos à Humanidade Cósmica.

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IV 

FIDEÍSMO CRÍTICO 

A  Teoria  Espírita  do  Conhecimento  nos  levou  da  simples  sensação  até  a  captação  da  realidade  espiritual.  O  Espiritismo,  como  síntese  de  todo  o  progresso  espiritual  da  Humanidade,  repete  em  seu  desenvolvimento  o  processo filogenético do conhecer. O Espiritismo aparece, assim, como um novo  ser  da  família  do  conhecimento.  A  maneira  das  crianças  que  repetem  em  sua  vida  intrauterina  o  processo  da  evolução  animal,  o  Espiritismo  reinicia  a  descoberta  do  mundo  no  campo  fenomênico  através  da  sensação  e  da  percepção,  passando  pelo  desenvolvimento  racional  para  atingir  o  plano  metafísico  da  fé.  Mas  a  fé  espírita  apresenta‐se  como  raciocinada  e,  portanto,  proveniente do raciocínio. É uma filha da razão, e não obstante tem como pai o  sentimento. 

Se  nós  lembrarmos  de  que  a  razão,  no  plano  existencial  procede  da  sensação,  veremos  que  a  imagem  do  processo  filogenético  se  justifica.  Para  Kant  a  razão  era  um  sistema  de  princípios  universais  e  necessários  que  organizava os dados da experiência sensível. Era o espírito humano, dotado do  poder de discernir e disciplinar as sensações, que organizava o conhecimento a  partir  das  categorias  racionais.  Para  os  neokantianos  atuais,  na  corrente  do  Relativismo Crítico de Octave Hammelin e René Hubert, as categorias da razão  se  formam  na  experiência,  são  as  próprias  experiências  sensoriais  transformadas  em  elementos  dinâmicos  do  psiquismo.  Na  Filosofia  Espírita  esses  elementos  são  apriorísticos,  segundo  entendia  Kant,  mas  como  potencialidades.  A  experiência  sensível  os  desenvolve  e  atualiza,  transforma  a  potência em ato. 

Vemos  assim  que  a  sensação  excita  e  desenvolve  a  razão,  mas  esta  é  que  dá  sentido  à  sensação.  O  princípio  inteligente  universal  possui  os  germes  da razão, que a experiência sensorial faz desabrochar. No cap. “Progressão dos  Espíritos”, de “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, itens 114 a 127, vemos que a evolução  espiritual  (semelhante  ao  desenvolvimento  psíquico  das  crianças)  parte  do  geral  indiferenciado  (indiferenciação  psíquica)  para  a  diferenciação  progressiva  dos  reinos  vegetal,  animal  e  hominal,  atingindo  neste  a  plena  individualização  e  buscando  conscientemente  a  perfeição.  Os  Espíritos  humanos aparecem no plano existencial dotados de inteligência (capacidade de  captar o nexo das coisas e das ideias), de livre‐arbítrio (liberdade de escolha) e  da  missão  (obrigação  a  cumprir)  a  desenvolver  na  ordem  universal  ou  na  harmonia do Universo, aperfeiçoando‐se moralmente para se aproximarem de

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23 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

Deus. Isso nos mostra o conhecimento como um processo que vai do finito (o  plano  fenomênico  ou  sensorial)  ao  infinito  (Deus)  de  maneira  que  sensação,  razão e intuição aparecem como simples fases (de desenvolvimento sucessivo,  mas coexistentes no dinamismo espiritual) da evolução dos seres. 

Razão  e  Fé  constituem,  portanto,  elementos  essenciais  do  Espírito,  conjugados  em  torno  de  um  eixo  que  é  a  Vontade.  Esta,  a  Vontade,  se  representa pelo livre‐arbítrio, o princípio da liberdade, sem o qual a Razão de  nada serviria e a Fé não teria sentido. Vê‐se claramente a natureza sintética do  Espiritismo.  Todas  as  antinomias,  todas  as  contradições  se  resolvem  numa  visão  mais  ampla  do  problema  universal.  O  racionalismo  e  o  empirismo,  o 

positivismo  e  o  idealismo,  o  materialismo  e  o  espiritualismo,  o  ontologismo  e  o  existencialismo,  e  assim  por  diante,  encontram  o  seu  delta comum numa visão gestáltica ou global do Universo. Não há motivo  para  as  intermináveis  disputas  a  respeito  de  Razão  e  Fé,  pois  ambas  pertencem  à  própria  substância  do  ser,  que  desprovido  de  uma  delas  já  não poderia ser. 

Fé e Razão estão implícitas na própria destinação dos seres e a Razão  se desenvolve, ao mesmo tempo, apoiada na Fé e buscando a Fé. Vice‐versa, a  Fé  serve  de  apoio  à  Razão  e  nela  encontra  o  meio  de  se  desenvolver.  Para  a  demonstração  desse  sincronismo a  Filosofia  Espírita  teve  de  cumprir  a  tarefa  de explicar a Fé. Isso levou Kardec a realizar a crítica da Fé, como Kant se vira  obrigado,  para  superar  as  divergências  do  empirismo  e  do  racionalismo,  a  realizar  a  crítica  da  Razão.  Kardec  não  faz  um  trabalho  sistematicamente  filosófico porque o seu objetivo não é fundar um sistema novo de Filosofia mas  oferecer  ao  mundo  “uma  Filosofia  Racional,  livre  dos  prejuízos  do  espírito  de  sistema”, como já tivemos oportunidade de ver. Mas a sua crítica da Fé penetra  na raiz do problema. Depois de mostrar que ela pertence à própria essência do  ser, estuda o processo da sua manifestação. Psicologicamente (itens 960 a 962 

de “O  LIVRO  DOS  ESPÍRITOS”)  a  fé  se  apresenta  como  o  sentimento  inato  de 

justiça  que  todas  as  criaturas  humanas  possuem.  Sentimento  que  se  apoia  na  ideia  inata  de  Deus,  nessa  certeza  intuitiva  que  faz  do  homem  uma  criatura 

naturalmente religiosa, a ponto de nunca haver existido uma tribo ou um povo  ateu. Assim, sociologicamente a Fé se manifesta como um elemento de ligação  social,  o  cimento  que  embasa  as  estruturas  da  sociedade  e  se  concretiza  nas  instituições religiosas. Gnoseologicamente a Fé se traduz na Lei de Adoração, lei  natural que dirige todo o processo da evolução humana, individual e coletiva, e  que só aparece definida e estudada em“O LIVRO DOS ESPÍRITOS”

No cap. XX de “O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” Kardec estuda  os aspectos imanente e transcendente da Fé. O imanente é o que ele chama a Fé  humana, que consiste na “confiança na realização de alguma coisa, a certeza de  se  atingir  um  fim”.  O  transcendente  é  a  fé  religiosa.  O  homem  tem  fé  em  si 

mesmo,  na  sua  força,  na  sua  inteligência,  na  sua capacidade.  Mas  tem  fé,  também, no seu destino, nas forças sobrenaturais e em Deus. Em todos os 

estágios da sua manifestação, desde as eras primitivas até os nossos dias, a Fé  se  justifica  pela  Razão.  Mas  somente  na  era  espírita,  no  momento  em  que  o

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Espiritismo  desvenda  novas  perspectivas  à  compreensão  humana,  a  fé  se  confirma  pela  explicação  racional  e  se  demonstra  de  maneira  científica.  A  Fé  cega  do  passado  se  transforma  então  na  Fé  racional  e  raciocinada  do  Espiritismo. 

A posição crítica de Kardec em relação à Fé assemelha‐se à de Kant em  relação  ao  problema  da  Razão.  Ambos  procuram  tirar  a  Filosofia  de  um  impasse. No século dezoito esse impasse se referia à natureza e aos limites do  conhecimento.  Ao  dogma  metafísico  da  Razão  como  elemento  único  do  conhecimento,  e ao  dogma  empirista que  colocava  as  sensações  nessa mesma  posição,  sucedera  o  agnosticismo  de  Hume,  para  quem  todo  conhecimento  se  tornava  impossível  e  toda  verdade  ilusória.  Kant  se  propõe  a  realizar  uma  crítica profunda da Razão e consegue chegar a uma síntese parcial do processo  gnoseológico, superando a contradição racional‐empírica. Recorre à Ética e nela  se  apoia  para  superar  as  contradições  e  oferecer  uma  nova  base  à  Metafísica  destruída pela época das luzes. Kant restabelece o valor da Razão e reconstrói  os  fundamentos  da  Fé.  A  natureza  moral  do  homem  lhe  oferece  os  elementos  necessários à vitória sobre Hume. De Kant para frente a existência de Deus se  torna  uma  verdade  moral  que  não  depende  dos  sofismas  racionais.  Mas  a  fé,  reduzida  ao  campo  ético,  fica  exposta  às  controvérsias  que  logo  mais  se  travarão sobre o próprio valor da Moral e que ainda hoje conturbam o mundo  filosófico. 

O grande problema do século dezenove era o da validade da fé. Kardec  enfrenta  esse  problema  com  a  simplicidade  do  bom‐senso  cartesiano.  Não  necessita de entrar na arena das grandes especulações. Dispõe de duas armas  excelentes:  o  bom‐senso  e  a  pesquisa  científica.  O  bom‐senso  lhe  oferece  o  melhor  da  conquista  kantiana:  a  liberdade  de  julgar,  que  prova  a  natureza  transcendente do Homem. A pesquisa científica lhe assegura a prova positiva e  até  mesmo  material  dessa  transcendência.  Fica,  pois  dispensado  dos  circunlóquios  infindáveis  da  argumentação filosófica.  E com  essas  duas armas  que  ele  responde  ao  desafio  do  século.  E com  elas  realiza a crítica  necessária,  que completa a especulação kantiana, provando a validade universal da fé. 

A  crítica  de  Kardec  reveste‐se  das  exigências  fundamentais  do  chamado  espírito‐crítico:  é  genética  ou  externa,  examinando  a  origem  e  a.  manifestação  objetiva  da  Fé  no  plano  social;  e  é  ontológica  ou  interna,  investigando  a  substância  e  o  significado  da  Fé  em  si  mesma,  como  um  fato  subjetivo. Nada falta, pois, à sua crítica da Fé para ser filosoficamente válida. No  item 4 de “O LIVRO DOS ESPÍRITOS” encontramos a afirmação da existência de  Deus  como  necessidade  lógica.  A  filosofia  Espírita  reafirma  o  postulado  cartesiano:  “A  ideia  de  Deus  está  no  homem  como a  marca  do  obreiro  na  sua  obra”. E completa o pensamento de Descartes de que: “Tirar Deus do Universo  seria  como  tirar  o  Sol  do  nosso  sistema  solar”,  com  o  célebre  postulado  kardeciano: “Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente, e a grandeza da  causa corresponde à grandeza do efeito”. 

A  posição  espírita  no  tocante  ao  problema  da  Fé  está  hoje  suficientemente  confirmada  pela  investigação  filosófica.  O  Relativismo Crítico,

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25 –INTRODUÇÃO À FILO SOFI A ESPÍRITA 

essa corrente neokantiana a que já nos referimos, estabelece o primado moral  das  exigências  da  razão  no  campo  do  conhecimento.  A  primeira  dessas  exigências,  para  o  conhecimento  do  Universo  e  o  desenvolvimento  moral  do  homem é a existência de Deus. A segunda é a Fé em Deus, a confiança interna,  intuitiva, no seu poder  e na sua providência, não como uma entidade pessoal,  antropomórfica, mas como “a intuição de uma Presença e a identificação a essa  Presença”,  segundo  a  expressão  final  de  Hubert  em “Esboço  de  Uma Doutrina  da  Moralidade”.  Por  outro  lado,  a  Fé  espírita  não  se  enquadra  num  sistema  dogmático e ritual: o seu ambiente natural e necessário é o da liberdade moral.  Para Kardec, como para seu mestre Enrico Pestalozzi, a religião verdadeira é a  Moralidade,  a  que  leva  o  homem,  não  à  santidade  convencional,  mas  à  sua  realização como ser moral. Kant e os neokantianos dizem o mesmo. 

O pecado de Kant foi o da dicotomia no plano do conhecimento, negar à  Razão  a  possibilidade  da  metafísica.  Essa  posição  estimulou  em  nossos  dias  alguns  pensadores  que  procuram  manter‐se  no  campo  do  empirismo,  entendendo  que  as  ciências  não  podem  ir  além  do  sensível.  Mas  é  tão  insustentável  esse  argumento  que  os  próprios  filósofos  materialistas  o  têm  recusado. John Lewis, filósofo marxista inglês, afirma em seu livro “CIÊNCIA, FÉ 

E  CETICISMO",  que  tal  argumento  implica  a  rejeição  da  realidade  objetiva  das 

próprias leis e teorias científicas. Wilhelm Dilthey, o famoso filósofo historicista  alemão,  estuda a  formação  da consciência  metafísica do  Ocidente  a  partir  dos  gregos,  passando  pela  Idade  Média  e  eclodindo  na  Renascença,  para  concluir  que o método experimental das ciências se fundamenta na Fé. 

Um  trabalho  de  Alfred  North  Whitehead,  “A  Ciência  e  o  Mundo  Moderno”,  põe  água  na  fervura  demonstrando  que  toda  a  nossa  estrutura  científica se alicerça numa fé ingênua e jamais demonstrada. Se a religião parte  do pressuposto da existência de Deus, de que tanto zombam alguns cientistas, a  verdade  é  que  a  Ciência  faz  o  mesmo,  partindo  do  pressuposto  da  ordem  universal. Essa ordem, por sua vez, exige um poder mantenedor, uma força ou  um conjunto de forças que garanta o controle e a regularidade permanente das  funções  criadoras  e  renovadoras  da  Natureza.  O  que  Kardec  chamou  de  “sentimento  intuitivo  da  existência  de  Deus”,  o  filósofo  Whitehead  chama  de  “convicção  instintiva”.  Os  termos  se  equivalem,  mas  a  expressão  de  Kardec  é  mais  adequada.  Ouçamos  Whitehead:  “Em  primeiro  lugar  não  pode  haver  Ciência viva se não estiver difundida a convicção instintiva de uma ordem das  coisas  e,  em  particular,  de  uma  ordem  da  Natureza”.  E  acrescenta:  “Usei  intencionalmente  a  palavra  instintiva”.  Referindo‐se  ao  agnosticismo  da  filosofia de David Hume, lembra Whitehead que a Ciência o repeliu e continuou  apegada à fé na ordem universal, sem o que voltaríamos à Idade Média. 

Uma passagem curiosa de Whitehead nos lembra o Evangelho. Escreve  ele:  “A  fé  científica  se  manteve  à  altura  das  circunstâncias  e  aplainou  tacitamente a montanha filosófica”. É uma confirmação histórica e científica de  que  a  fé  remove  montanhas.  Ai  das  Ciências  se  assim  não  fosse!  E Whitehead  confirma  a  seguir  a  teoria  de  Dilthey:  “Minha  explicação  é  que  a  fé  na  possibilidade  da  Ciência,  originada  antes  da  teoria  científica  moderna,  é  um

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