Universidade Autónoma de Lisboa
Luís de Camões
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
COMUNICAÇÃO E CULTURA
MULTICULTURALISMO
E
Índice
1. INTRODUÇÃO... 3
-2. MULTICULTURALISMO... 3
-3. A ALIANÇA DAS CIVILIZAÇÕES... 5
-4. A UNESCO... 6
-5. CONCLUSÃO... 8
-1. INTRODUÇÃO
Com a globalização da economia mundial, as relações sociais têm-se vindo a tornar no plano económico e político cada vez mais transnacionais. No plano cultural, as pessoas e os diferentes grupos têm entrado em contacto directo, confrontado as respectivas ideias. Desta forma vem surgindo a necessidade de se consolidar a defesa das identidades e da pertença étnica. Ao mesmo tempo, surge a necessidade dos grupos se abrirem e de se construírem relações de reciprocidade. As relações interculturais criam-se com as possibilidades dos movimentos dos cidadãos, dos diferentes grupos e indivíduos, articulando-se sob a forma de redes e parcerias, construindo-se a complementaridade pelo respeito das diferenças.
Neste trabalho iremos analisar como o multiculturalismo se insere na nossa sociedade global, caracterizando-o. Em acto posterior, analisar-se-á como a Aliança das Civilizações, iniciativa da Nações Unidas, e a UNESCO, colaboram neste campo, interagindo e introduzindo variáveis cuja relevância importa considerar, dado que a multiculturalidade assume um cada vez maior papel de destaque na análise social, constituindo-se como um fenómeno que abarca toda a Humanidade, como um todo, e não apenas uma parte dela, em especial.
2. MULTICULTURALISMO
A sociedade moderna é inexoravelmente multicultural.
O multiculturalismo tem sido empregue com o significado de caracterizar a pluralidade das sociedades contemporâneas, condição intimamente ligada ao mundo actual, de que se pode obter variadas respostas, mas que não se pode ignorar. Segundo alguns autores, como Kincheloe e Steinberg, o multiculturalismo representa a natureza duma resposta que inclui a formulação de definições conflituantes do mundo social, decorrentes dos distintos interesses económicos, políticos e sociais, onde as relações de poder assumem um papel de sobremaneira tal importância que auxiliam a conformar o modo como os indivíduos, os grupos e as instituições reagem à realidade cultural.
A cultura tem ao longo do tempo adquirido uma nova centralidade no discurso e na análise dos fenómenos sociais contemporâneos, abandonando-se a sua visão estruturalmente económica, e passando a ser vista como um processo social constitutivo, ou seja, assistindo-se a uma revolução cultural, a uma expansão de tudo o que a ela é associado.
Através da centralidade das questões culturais ressalta a problemática da diversidade de culturas, quer as encontradas no interior dum determinado país, quer entre os diferentes países. Hoje em dia essa diversidade é sujeita a uma forte luta de homogeneização cultural.
Neste contexto, Boaventura de Sousa Santos1 tenta responder através do multiculturalismo
crítico, ou seja, tentando a busca do diálogo multicultural através do convívio duma política da diferença com a política da igualdade. Acentua a necessidade de se impedir uma focalização nas diferenças, o que contribuiria para isolar grupos, para criar guetos, e consequentemente, aumentar a fragmentação societária que se pretende eliminar.
O multiculturalismo reconhece que cada povo e cada grupo social desenvolvem, historicamente, uma identidade e uma cultura própria. Cada cultura tem muita validade, como expressão de caracterização dum determinado sector social e cultural, pois consagra-se como a resposta às necessidades e opções de uma colectividade. Permite consagrar alternativas, ao enfatizar a historicidade e o relativismo inerentes à construção das identidades culturais, bem como, justifica a fragmentação ou guetização cultural, as quais vão reproduzir desigualdades e discriminações sociais.
Um dos factores essenciais, e que teve repercussões inevitáveis, na multiculturalidade, e consequente enraizamento social de diferentes pessoas, de diferentes povos e culturas, noutras sociedades, foi o fenómeno dos fluxos emigratórios. Este, produzido a nível internacional a partir do séc. XVIII, mormente a partir da Revolução Industrial, teve origem na modificação da relação dos factores e meios de produção, os quais vieram tornar obsoletos e antieconómicas as formas de exploração esclavagista do trabalho. Nestes fluxos, estes novos sujeitos passaram a conviver entre si mas estabeleceram relações com os diferentes grupos étnicos que ocupavam os espaços dos territórios que estes passaram também a usufruir. Nasceram assim algumas relações de conflito, de assimilação e de integração interétnica, a qual vai marcar profundamente a nova realidade sociocultural.
Após a Segunda Guerra Mundial e mercê do início do fim de muitas das colónias que diferentes países da Europa tinham, verificou-se uma substancial entrada de imigrantes desses países anteriormente colonizados. Nessa altura, e dado que se laborava arduamente na reconstrução europeia, eles foram facilmente assimilados. Contudo, com a globalização económica, flexibilizaram-se as fronteiras de diversos países, o que veio acarretar mais problemas derivados dos fluxos migratórios, dado que mais emigrantes se passaram ou tentaram deslocar para os países ricos, em busca de melhores condições de vida, do que aquela que lhes era fornecida pelos países de origem. Mas estes fluxos, e a natural alteração que se vem verificando em toda a sociedade e economia contemporânea e pós-contemporânea, passaram a constituir-se como mais um factor de
agravamento do desemprego e da disponibilidade de recursos financeiros por parte dos países. As oportunidades passaram assim a ser mais restritas, aumentando-se os conflitos ou lutas pela defesa de certos privilégios ou pelo reconhecimento de direitos aos excluídos. Tudo isto vem agravar a integração destas novas culturas. Desta forma se consubstanciam algumas das políticas que certos países do hemisfério Norte têm vindo a adoptar, numa tentativa de debater e formular novas políticas relativas às relações multiculturais.
O reconhecimento da diversidade cultural admite certos enfoques, diferentes. Necessitamos agora de esclarecer alguns pormenores. Assim, o termo multi ou pluricultural indica-nos uma situação em que os diferentes grupos culturais conseguem coexistir um ao lado do outro, sem que contudo interajam necessariamente entre si. Já o termo transcultural nos refere os elementos culturais comuns, os chamados «traços universais» e os «valores permanentes» das diferentes culturas. Já na relação intercultural nos confrontamos com a interacção das pessoas de diferentes culturas, ou uma actividade que requer tal acção.
Analisemos agora qual o contributo que a recentemente formada Aliança das Civilizações no seio das Nações Unidas veio trazer para o multiculturalismo.
3. A ALIANÇA DAS CIVILIZAÇÕES
A Aliança das Civilizações foi criada em 2005, mercê duma iniciativa realizada pelos governos de Espanha e da Turquia, sob os auspícios das Nações Unidas. Foram efectuados trabalhos exploratórios sobre as raízes da polarização entre as sociedades e as culturas actuais. O Secretariado está estabelecido em Nova Iorque, onde se firmam partenariados com Estados e organizações internacionais e regionais, grupos da sociedade civil, fundações e o sector privado, numa mobilização de esforços para a promoção das relações interculturais entre as diversas nações e comunidades.
O Secretário-Geral da ONU Ban Ki-Moon nomeou, em Abril de 2007, o Dr. Jorge Sampaio como Alto Representante para a Aliança das Civilizações, após ter obtido a anuência dos países promotores e pioneiros na definição dos objectivos da Aliança, que são a Espanha e a Turquia. Este trabalho teve o seu primórdio com Kofi Annan.
É importante ressaltar o discurso de Kofi Annan proferido em Istambul, em Fevereiro de 2007, quando e a propósito da Aliança das Civilizações, disse que a fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, tinham sido sempre o motor do progresso humano, e que ao ser escolhido o antigo presidente de Portugal, a escolha recaía numa personalidade que sempre defendeu a adesão da Turquia à União Europeia, reconhecendo-se desta
A Aliança das Civilizações constitui uma iniciativa que tenta responder à conjugação dos esforços pela comunidade internacional, quer ao nível das instituições, quer ao nível da sociedade civil, cujas ligações apresentam divisões fracturantes, as quais acarretam prejuízo, mercê das más concepções e polarizações. Estas constituem uma potencial ameaça à paz mundial. A Aliança tentará minimizar, se não mesmo, obstaculizar, a que emirjam e se fomentem diferentes formas de violência, derivadas das diferentes concepções, encetando um laborioso e constante trabalho de cooperação entre os diversos actores, na tentativa de lidar com este tipo de divisões.
A Aliança irá, como coligação de forças, trabalhar contra todo o tipo de extremismos, como o que tem caracterizado as sociedades islâmicas e as ocidentais, no respeito mútuo pelas respectivas religiões, credos e tradições, reafirmando a necessidade da humanidade ter de possuir uma interdependência em todas as áreas, sempre no intuito de se melhorar o ambiente, a saúde, o desenvolvimento social e económico, bem como a paz e a segurança.
Ao Dr. Jorge Sampaio caberá a tarefa de liderar e promover esta Aliança das Civilizações como algo credível e viável, na tentativa de se diminuírem as tensões entre as diversas sociedades, as ameaças, os problemas e os desequilíbrios mundiais de forma concertada.
Um outro grande objectivo constitui a tentativa de dirimir uma parte do conflito do Médio Oriente, e conseguir que nos países muçulmanos venha a prevalecer uma maior aceitação da pluralidade social.
Este trabalho de enorme pendor de integração intercultural afigura-se-nos como uma tarefa cuja objectividade conceptual é animadora, e cuja concretização, a ser conseguida, representará um salto qualitativo essencial para a humanidade, e uma demonstração da capacidade de realização humana, no esbatimento das diferenças, e na tentativa de se hegemonizar uma sociedade totalmente multicultural.
4. A UNESCO
A UNESCO é uma organização criada em 1945, visando a criação de condições para um genuíno diálogo, fundamentado no respeito pelos valores que são partilhados entre as civilizações, as culturas e as pessoas, ou seja, a promoção da cooperação no domínio cultural.
Esta Organização tem como objectivo contribuir para a manutenção da paz e da segurança, estreitando a colaboração entre as nações através da educação, da ciência e da cultura, desempenhando à escala mundial um importante papel em todos os domínios concernentes ao fomento da educação e da cultura.
De entre os campos de actuação, e no que à coordenação internacional respeita, destaca-se a recuperação do templo budista Borobudur na Indonésia e a salvaguarda do Pártenon em Atenas,
entre muitos outros; quanto à cooperação, aponta-se como exemplo a criação, em conjunto com a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, de grupos de peritos encarregues de estudar problemas como a reprodução privada, os direitos de autor, as emissões por satélite, etc; por fim, dentro da impulsão, encoraja medidas ou acções de âmbito nacional ou internacional que se afigurem enquadrar dentro da realização da sua finalidade.2
No intuito de dar cumprimento aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) das Nações Unidas (ONU), e para a questão da cultura, a UNESCO contribui activamente para, e até 2015 se conseguir atingir o ensino básico universal, dado que segundo dados do Instituto de Estatística desta Organização, 771 milhões de habitantes em todo o mundo são analfabetos, com as repercussões que tal acarreta em termos culturais. Por outro lado, nos países em vias de desenvolvimento, cerca de 1/5 das crianças não vai à escola, ou seja, cerca de 100 milhões, e destas, 53% são do sexo feminino. Daqui resulta o ter de se atingir um outro objectivo do ODM, que é o de eliminar a disparidade de género no ensino primário e secundário. Na década de 2003-2012, a UNESCO lidera a coordenação dos esforços de diversos parceiros, avaliando as campanhas e os programas de alfabetização. No âmbito das Ciências Naturais, esta organização através do projecto de Sistemas de Conhecimento de Populações Tradicionais, coloca as comunidades rurais no centro do desenvolvimento sustentável, vinculando a administração de recursos ao conhecimento e à capacidade indígenas, relacionada com a diversidade cultural e biológica.
No que à cultura propriamente dita concerne, em 1972 foi aprovada a Convenção para a Protecção Mundial Cultural e Natural, tendo sido adoptada a premissa de que certos lugares têm um extraordinário valor universal, constituindo-se como tal, património comum da humanidade. É propiciada assistência técnica na salvaguarda de locais excepcionais, bem como, daqueles factores que constituem herança comum, o designado património intangível, como sejam os festivais, as canções e as línguas.
Ao ser adoptada a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, bem como o seu plano de acção, em 2001, foi desta forma categoricamente reafirmado pelos Estados-Membros da UNESCO que a diversidade cultural é uma das raízes do desenvolvimento e do diálogo. Este factor foi em 2005 mais salientado através da Convenção sobre a Protecção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. Esta tem sido uma forma de se promover a diversidade cultural e o diálogo entre culturas e civilizações. Através da Aliança Global pela Diversidade Cultural, a UNESCO tem interligado toda uma acção entre actores públicos e privados, apoiando as indústrias culturais, ampliando-se e disponibilizando-se os diferentes produtos culturais em todo o mundo.
Vimos que a UNESCO tem dado, desde a sua criação, um importante apoio a toda a realização multicultural, das diferentes e diversas sociedades, numa tentativa de aumentar a qualidade e
quantidade do conhecimento, bem como, da protecção das culturas, e das suas realizações, evitando que estas se percam. Por outro lado, ao apoiar acções de integração dos diferentes povos e culturas, constitui-se como mais um importante factor para que a multiculturalidade se afirme na sua plenitude, e o direito ao reconhecimento seja por todos almejado.
5. CONCLUSÃO
Conforme nos diz Huntington3, as afinidades e as diferenças culturais são factores decisivos no
estabelecimento de alianças num mundo onde as identidades culturais, quer sejam elas étnicas, nacionais, religiosas ou civilizacionais, assumem um cariz central. Por outro lado, as antagónicas diferenças e a orientação política caracterizadora dos Estados vai servir como o mote da produção de graves consequências para o Ocidente, em três níveis, que se passam a descriminar:
A primeira, é a das novas políticas de cultura, com o poder das civilizações ocidentais a assumir um ascendente sobre as civilizações não ocidentais, mas, com o crescimento destas últimas a serem amplamente reconhecidas no mundo ocidental;
Em segundo lugar, temos a santificação das alianças e dos acordos de controlo de armamentos do período da guerra fria, o que acarreta problemas de ordem diversa a todos os níveis sociais e da ligação e relacionamento entre os países e as respectivas culturas;
Por último, e em terceiro lugar, a diversidade cultural e civilizacional coloca em questão o Ocidente. Esta problemática é exprimida em dois tipos de planos, o descritivo e o normativo. No plano normativo, todos os povos de todas as sociedades pretendem adoptar os valores, as instituições e as práticas ocidentais. No plano normativo, o Ocidente crê que todos os povos do mundo deveriam adoptar os valores, as instituições e a cultura ocidentais, que contêm em si o modo de pensar mais elaborado, esclarecido, racional, moderno e civilizado da humanidade. Mas esta idiossincrasia está a ser cada vez mais colocada em causa, porque a decadência de certos valores societários de algumas sociedades ocidentais é cada vez mais contestado e são afastados, como se tem verificado em relação à supremacia norte-americana, estando o mundo a deixar de ser unipolar e a tender para um multipolarização, com novos actores, como uma crescente afirmação da realidade duma União Europeia, e uma China emergente em todo o seu esplendor, onde a sabedoria milenar e constituída através duma afirmação a todos os níveis, incluindo os culturais, a guindam para o primeiro nível das relações internacionais e para que seja um actor a ser levado em linha de conta na questão da multiculturalidade e da integração intercultural.
3 Samuel P. Huntington, O Choque das Civilizações e a mudança na ordem mundial. 2.ª ed. Lisboa: Gradiva, 2001, p. 353 e seg.
Por outro lado, com esta crescente influência e poder internacional com que as civilizações asiática e muçulmana se vêm cada vez mais a afirmar, fazem com que as respectivas culturas ganhem uma nova preponderância, implicando uma reavaliação cada vez maior da cultura Ocidental face ao universalismo e ao imperialismo que a caracterizaram. O universalismo ocidental foi muito perigoso, porque tendia a hegemonizar tudo o resto, o que poderia conduzir a uma guerra inter-civilizacional, com inexoráveis consequências para a cultura Ocidental, e respectivos povos, os quais seriam muito menos capazes de ter de suportar as necessárias clivagens e faltas a todos os níveis, e que poderia, conforme preconiza Huntington4, terminar na derrota do Ocidente.
Finalizamos, dizendo que um mundo multicultural é inevitável e que a segurança de todos os povos e culturas exige que se aceite que o mundo seja cada vez mais multicultural. Para este desiderato, o futuro da paz e da civilização dependem da compreensão e da cooperação entre todos os principais actores da cena internacional, quer eles sejam dirigentes políticos, líderes espirituais ou intelectuais, obstando-se à possibilidade de que com esta diversidade cultural e o direito à diferença que as caracteriza, haver que encontrar o ponto de equilíbrio que o multiculturalismo e a sua aplicação biunívoca traduzem para a paz mundial.
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